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Full text of "Leal conselheiro, e Livro da ensinança de bem cavalgar toda sella"

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•^t^€^ 


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http://www.archive.org/details/lealconselheiroeOOduar 


]FAíD-Sla^íIIL[L^lB 


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LEAL  CONSELHEIRO 

E 

LIVRO  DA  ENSINANÇA 

DK 

BEM  CAVALGAR  TODA  SELLA, 

ESCRITOS  FI-LO  SENHOR 

DOM   DUARTE, 

REI  DE  PORTUGAL  E  DO  ALGARVE  E  SENHOR 
DE  CEUTA. 

FIELMENTE  COPIADOS  DO  MANUSCRITO 
DA 

BIBLIOTHECA  REAL  DE  PARIS. 


LISBOA, 

NA  TYPOGRAPHIA  R0LLANDIANA< 

1843. 


I 


lia  Dibljottieca  de 
António  b,  da  K.  Ivladaliyi 

Estante  n."    <^ 
Volume  n.''  í6^d 


t.V»íVV%«,X\%'\VVVt>lX^V«/«'t'V%«%\k'V»'\>'VVVtVV«VV%'«/VVVVV»rVV\'V'VVV\VVl«'VtVV%VV%. 


NOTICIA  DO  MANUSCRITO 

EXTRAHIDA  DOS  ANNAE5  DAS  SCIENCIAS,  DAS  ARTES  E  DAS  LETTRAS, 

TOMO  «."   E  9.» 


D. 


'e  todos  os  Auctores  Portiiguezes  de  que  temos  no- 
ticia e  que  pudemos  consultar,  os  primeiros  que  es- 
creverão com  mais  individuação  sobre  as  obras  do  Sr. 
D.  Duarte,  foraõ  os  dois  Chronistas  contemporâneos 
Fr.  Bernardo  de  Brito  e  Duarte  Nunes  de  Leaô.  O 
primeiro  nos  seg"uintes  termos  :  Escreveo  (  o  Sr.  D. 
Duarte)  alguns  tratados  por  muito  bom  estilo,  em 
particular  do  fiel  Conselheiro  ,  do  bom  governo  da 
Justiça,  de  que  eu  vi  uns  grandes  fragmentos  em  um 
livro  pequeno,  e  mui  antigo,  e  da  Misericórdia,  que 
naquelle  tempo  foraõ  tidos  em  grande  estima  ...  dei- 
chou  um  livro  de  cavalgar  e  domar  bem  um  cavalo. 
Duarte  Nunes  de  Leaõ  Cap.  xix  da  Chronica  da- 
quelleMonarcha  diz:  ...  Na  lingua  latina  escreveo  al- 
guns livros  de  coizas  moraes,  e  eníre  elles  um  tratado 
do  regimento  da  Justiça  e  dos  Officiaes  delia ,  de  que 
uma  parte  se  vê  ainda  na  Casa  da  Supplicaçaõ.  Escre- 
veo outro  tratado  dirigido  á  Rainha  sua  mulher,  cujo 
titulo  era  do  Leal  Conselheiro.  Fez  outro  livro  para 
os  homês  que  andaõ  a  cavallo,  em  que  parece  daria 
alguns  preceitos  de  bem  cavalgar  e  governar  os  ca» 
valios. 

Fr.  Bernardo  de  Brito  contentando-se  com  dizer 
que  vira  grandes  fragmentos  em  um  livro  pequeno  e 
mui  antigo,  sem  nos  declarar  se  este  livro  era  impres- 
so ou  manuscrito ,  e  em  poder  de  quem  existia ,  pare- 
ce ter  visto  estes  fragmentos  nos  mesmos  códices  em 
que  achara  as  Peregrinações  da  Senhora  da  Nazareth 
e  a  Doação  de  D.  Fuás  Roupinho,  e  por  isso  naõ  qui- 
zera  deixar-nos  delles  mais  circunstanciada  noticia. 


"^J-..^! H-f     -JWil. 


,IV  NOTICIA    DO    MANUSCRITO. 

Duarte  Nunes  de  Leaô ,  ao  qual  devemos  o  saber 
que  o  Regimento  da  Justiça  era  escrito  em  latim,  o 
que  Fr.  Bernardo  de  Brito  nos  tinha  deixado  ignorar, 
iiaõ  é  muito  mais  explicito  do  que  eJle;  pois  sendo  naõ 
menos  hábil  chronista  que  filólogo ,  fala  comtudo  bem 
ligeiramente  de  um  liuro,  que  ja  no  seu  tempo  devia 
ser  precioso,  ao  menos  pela  antiguidade  e  pelo  auctor. 
JVIas  seja  qual  for  a  causa  da  obscuridade  com  que  es- 
tes dois  auctores  se  explicaõ,  os  outros  que  se  lhes  se- 
g-uiraõ ,  souberaõ  a  este  respeito  somente  o  que  elles 
lhes  ensinarão.  Faria  e  Souza  copiou  exactamente 
Duarte  Nunes ,  posto  que  o  naõ  citasse ,  e  sobre  o 
testemunho  do  mesmo  Duarte  Nunes  se  fundou  o  la- 
borioso D.  António  Caetano  de  Souza  em  tudo  o  que 
sobre  isto  escreveo  na  Historia  Genealógica, 

Tal  era  a  noticia  que  havia  dos  escritos  do  Sr. 
D.  Duarte,  quando  Joaõ  Franco  Barreto  deparou  na 
livraria  da  Cartuxa  d'Evora  com  uma  grande  quanti- 
dade de  obras  de  pequena  extensão,  compostas  pelo 
dito  Monarcha,  cujos  titules  consignou  na  sua  Biblio- 
Iheca,  e  da  qual  D.  António  Caetano  de  Souza  os  co- 
piou nas  Provas  da  Historia  Genealógica,  e  imprimio 
mesmo  algumas  das  referidas  obras ,  sobre  uma  copia 
do  Conde  da  Ericeira,  pata  que,  diz  elle  ,  de  iodo  se 
2iaó  perca  a  inemoria  de  seus  piedosos  trabalhos ,  taô 
dignos  de  estimação. 

Desta  succinta  exposição  parece  colligir-se  que 
Fr.  Bernardo  de  Brito  e  Duarte  Nunes  naõ  víraõ  mais 
do  que  os  fragmentos  do  bom  governo  da  justiça ;  e 
Joaõ  Franco  Barreto  ,  pretendendo  dar-nos  o  catalogo 
completo  das  obras  do  Sr.  D.  Duarte,  naõ  teve  pa- 
ciência para  o  acabar;  pois  diz  no  fim  do  que  nos 
transmittio  e  outras  muitas  obras  (ainda  que  breves) 
de  muito  engenho  e  erudição.  Diogo  Barbosa  deo-nos 
menos  que  Joaõ  Franco  Barreto;  e  D.  António  Caeta* 
T\o  de  Souza,  que  imprimio  algumas  de  que  os  dois 
primeiros  naõ  deraõ  noticia ,  nos  titulos  de  outras,  nao 


NOTTCTA    DO    MANUSCRITO.  V 

se  conforma  com  Barreto  nem  com  Barbosa;  ao  mesmo 
passo  que  em  outros  títulos,  estes  dois  últimos  algu- 
mas vezes  também  se  naõ  conformaõ  entre  si. 

A  razaõ  desta  diverg-encia  se  explica,  se  conside- 
rarmos  que  no  Leal  Conselheiro,  um  certo  numero  de 
capitulos  novamente  escritos  faz  o  fundo  da  obra,  e 
que  com  elles  misturou  o  auctor,  1."  outros  capitulos 
que  para  outras  obras  tinha  feito.  2.°  Memorias  e  arti- 
gos avulsos  que  a  outros  respeitos  e  em  outros  tempos 
tinha  composto;  e  de  tudo  ordenou  aquelle  tratado, 
com  o  qual  naõ  só  satisfez  ás  instancias  da  Rainha 
D.  Leonor,  mas  ainda  oíiereceo  nelle  á  sua  leitura 
matérias  que  entendeo  poderem  ser-lhe  agradáveis  e 
proveitosas. 

Daqui  se  vê  que  este  precioso  tratado  tem  a  van- 
tajem  de  comprehender  em  si  um  grande  numero  de 
composições  avulsas  do  seu  auctor,  e  fica  ao  mesmo 
tempo  explicado  como  naõ  poucas  daquellas  Memorias 
que  Joaõ  Franco  Barreto  e  D.  António  Caetano  de 
Souza  acháraô  na  Cartuxa  d'Evora,  fazem  effectiva- 
mente  parte  do  Leal  Conselheiro. 

Seja  como  for,  o  certo  é  que  os  vários  escritores 
que,  seguindo  a  auctoridade  de  Brito,  fizeraõ  menção 
daquelles  tratados,  convieraõ  que  de  todos  elles  nada 
se  sabia  que  existisse  já  naquelles  tempos,  isto  é,  an- 
teriores á  descoberta  de  Joaõ  Franco  Barreto  :  e  ten- 
do nós  encontrado  na  riquissima  Bibliotheca  Real  dos 
manuscritos  de  Paris  o  Códice  n.°  7:007,  contendo  as 
duas  obras  mais  consideráveis  do  Sr.  D.  Duarte,  jul- 
gamos que  fazemos  bom  serviço  dando  á  luz  este  pre- 
cioso monumento  da  nossa  antiga  litteratura  Portu- 
gueza. 

E  pois  este  Códice  um  volume  em  folio  grande, 
escrito  em  pergaminho  e  em  gothico ,  com  128  folhas, 
ou  255  paginas,  por  ser  o  seu  verso  da  ultima  folha 
em  branco,  e  cada  pagina  em  duas  columnas.  Este  Có- 
dice   acha-se    encadernado  em   marroquim  encarnado 


TI  NOTICIA    DO    MANUSCRÍTO. 

com  as  armas  de  França,  como  muitos  outros  daquel- 
la  Bibliotheca.  O  manuscrito  que  elle  contem  é  evi- 
dentemente uma  copia,  porem  feita  com  a  maior  per- 
feição e  luxo ,  que  pôde  desejar-se  e  conferida  com  o 
maior  escrúpulo ,  o  que  se  vê  de  algumas  palavras  es- 
senciaes  ao  sentido,  e  até  iettras  que  por  engano  o 
copista  raras  vezes  tinha  omittido;  as  quaes  se  achaõ 
escritas  com  a  mesma  tinta,  e  com  o  mesmo  caracter 
entre  as  linhas  do  texto.  NeIJe  naõ  ha  raspadella,  nem 
emenda,  a  nao  serem  as  poucas  que  acima  dissemos, 
e  está  perfeitamente  conservado.  A  lettra  capital ,  ou 
a  inicial  de  cada  capitulo ,  é  cuidadosamente  desenha- 
da com  tintas  de  diversas  cores ,  e  estes  desenhos  en- 
riquecidos muitas  vezes  com  oiro;  os  accessorios  del- 
les  occupaõ  toda  a  extensão  da  columna  em  que  o  ca- 
pitulo começa;  tudo  na  forma  usada  nos  manuscritos 
mais  perfeitos  daquelles  tempos. 

O  que  o  Sr.  D.  Duarte  comprehendeo  debaixo  do 
titulo  de  Leal  Conselheiro,  compoê-se  de  uma  Tavoa^ 
que  occupa  as  primeiras  três  paginas  e  principio  da 
quarta,  cujo  resto  fica  em  branco;  de  um  Prollego^ 
que  principia  na  terceira  folha  e  acaba  no  recto  da 
quarta  e  de  103  capitules  que  occupaõ  desde  o  verso 
da  folha  4  até  ao  recto  da  folha  96.  em  que  acaba  a 
obra.  Na  segunda  columna  da  mesma  pagina,  ficaõ  31 
linhas  em  branco ,  seguem-se  duas  folhas ,  igualmente 
em  branco,  e  no  recto  da  folha  99  começa  com  o  mes* 
mo  luxo  e  perfeição  o  livro  da  Ensinança  de  bem  ca- 
valgar, o  qual  occupa  até  o  meio  da  primeira  colum- 
na da  folha  128.  É  o  que  julgamos  sufficiente  para  se 
poder  fazer  ideia  deste  bello  manuscrito  ,  para  o  que 
muito  ajudará  o  fac  símile,  que  se  ajunta  a  esta  pri- 
meira edição. 

Perguntado  o  Bibliothecario ,  por  quem  isto  es- 
creve, se  por  ventura  este  e  outros  preciosos  manus- 
critos ,  que  se  achaõ  na  Bibliotheca ,  seriaõ  do  espolio 
do  Sr.  D.  António ,  Prior  do  Crato ;  ou  se  exi&tia  ai- 


NOTICIA    DO    MANUSCRITO,  vil 

guma  memoria  do  modo  por  que  deiJes  se  fizera  acqui- 
siçaô;  -espondeo  ,  que  nenhuma  noticia  havia;  mas 
que  tendo  Colbert,  quando  quiz  formar  esta  Biblio- 
theca ,  escri(o  a  todos  os  agentes  diplomáticos  e  con- 
sulares da  França,  para  que  comprassem  todos  os  li* 
•vros  e  manuscritos  raros  das  nações  em  que  residiaô, 
era  natural  que  elles  fossem  adquiridos  por  essa  occa- 
siaô,  e  remettidos  para  Paris  pelos  agentes  da  França 
em  Portugal. 


o  LEAL  CONSSELHEIRO. 


Jtjm  nome  de  nosso  senhor  jhu  xpô  com  sua  graça. 
E  de  Siia  muy  sancta  madre  nossa  senhora  sancta  ma- 
ria,  Começasse  o  trautado  q  se  chama  leal  consselhei- 
ro  o  qual  tez  D.  Eduarte  pella  graça  de  deos  Rey  de 
Portugal  e  do  Algarve  e  Senhor  de  Cepta.  Arrequeri- 
mento  da  Muy  excellente  Reynha  dona  Leonor  sua 
inolher. 


l/Wt/VWV^WWWtfV^/VW 


ifxuyto  prezada  e  amada  Raynha.  Senhora,  vos  me 
reqrestes  que  juntamente  vos  mandasse  screuer  al- 
guãs  cousas  que  auia  scriptas,  per  boo  regimento  de 
nossas  conciencias  e  voontades.  E  posto  q  saibha  gra- 
ças anosso  senhor,  que  de  todo  auees  muy  comprido 
conhecimêto  com  uirtuosa  husança ,  satisfazendo  auos- 
so  desejo.  Conssyrey  que  seria  melhor  feicto  em  «forma 
de  huu  soo  tracíado  com  alguns  adimentos.  Easôi  o  fiz 
por  uos  cõplazer  e  filhar  êno  fazendo  alguu  spaço  de 
cuidados  com  razoado  passamento  de  têpo.  E  desi  por 
sentir  que  pêssando  como  sobresto  ey  de  screuer  sa- 
beria mais  desta  moral  e  uirtuosa  sciencia.  E  que  me 
fará  guardar  de  fazer  cousas  mal  feitas,  por  seerem 
contrairás  do  que  screvo ,  ainda  que  seia  obra  pêra  eu 
fazer  pouco  perteecente  posto  que  atodos  estados  seia 
necessário  saber  como  deuem  seguir  uirtudes  guardan- 
dosse  de  pecados,  e  outros  falicimentos.  E  desi  por 
alguus  desta  pequena  Leitura  se  poderê  prestar  acre- 

A 


2  o    LIÍAL    CONSSELHEIUO. 

cenltldo  em  suas  bondades  coin  leixamento  de  inuytos 
erros;  por  que  das  obras  broues,  e  simprezes,  os  de 
nom  grande  entender,  e  pouco  saber,  melhor  apren- 
dem que  das  solil  e  aUamente  scriptas.  E  a  nosso  se- 
nhor deos,  em  grande  mercee  terria  se  de  mjnha  uida 
feitos  e  dictos  muytos  filhassem  proueitosa  enssinança 
e  nunca  o  contrairo.  Ca  scripto  he ,  Aquel  que  faz  o 
pecador  em  seu  uiuer  de  maao  camjnho  tornar  guaaça 
sua  alma  e  seerlheam  cubertos  e  releuados  gram  mul- 
tidoõs  de  pecados.  E  diz  nosso  senhor  daquel  q  guar- 
dar seus  mandamêtos  e  os  êssinar  que  será  chamado 
grande  no  seu  Reyno.  Porem  ajuda  q  o  meu  carrego, 
mais  seia  mostrar  per  obra,  e  paJaura  algua  parte^ 
deseio  cobrar  de  mereciraêto  dos  q  fazê  leituras  do 
boas  e  uirtuosas  enssynãçaSj  nor  tal  q  bem  ujuendo 
per  sua  mercee  na  quella^cónta\uerdadeiramêle  seer 
contado.  E  porque  o  entêdimêto  he  nossa  uirtude  muy 
principal,  screui  dei  huã  breue  repartiçõ,  e  o  mais 
fuy  ajuntando  seg."  melhor  pude  fazer.  E  por  seerem 
alguâs  cousas  sobre  si  têpo  ha  scriptas,  nõ  ieuam  tal 
forma,  como  se  todas  jíitamête  sobreste  propósito  fo- 
rem ordenadas.  Ajnda  que  alguãs  rezooês  uaã  dobra- 
das, seiame  releuado,  porque  o  faço,  querendo  todo 
melhor  declarar,  auendo  em  tal  leitura,  por  menos 
faliamento  dobrallas,  q  onde  côuem  seer  mjnguado  no 
«creuer  desy  :  porque  de  minha  raaaõ  foy  todo  prira."* 
scripto  tirando  as  cousas  de  fora  em  el  traladadas, 
dello  tanto  me  nom  guardey,  teendo  mais  teêçom  do 
bê  mostrar  assustãcia  do  que  screuia  q  a  fremosa  o 
guardada  maneira  descreuer.  Podelloees  seuos  praz 
chamar  leal  cõsselheiro  porq  ajnda  q  me  nô  atreua 
certificar  q  da  êtodos  boos  cõsselhos ,  sey  q  lealmêta 
he  todo  scripto  quanto  meu  peqno  saber,  embargado 
em  todo  geeral  regimêto  de  justiça  cosselhos,  e  todas 
outras  proueeças  de  meus  Reynos  e  Senhorio  podo 
percalçar  pêra  poer  tal  obra  assi  breuemête  em  scrip- 
to porque  alguãs  cousas  se  podg  be  razoar  q  nõ  s5 


o    LT''AL    CONSSKLIIEIRO.  3 

taaes  pêra  screuer.  E  filhayo  ])or  huii  A.  B.  C.  cie  leal- 
dade. Ca  he  feiclo  jirincij)aliiiete  pra  senhores  e  gête 
de  suas  casas  q  na  theorica  de  taaes  feictos  ê  respeito 
dos  sabedores,  por  moços  deuemos  seer  cotados  jira  os 
quaaes.  A  ,  B,  C,  he  sua  própria  essinitça.  E  mais  por 
ho  A.  se  pode  êlendcr  os  poderes  e  paixões  q  cadahufi 
de  nos  ha.  E  por  ho  B.  o  grande  be  que  percalconios 
seguidores  das  uirtudes  e  bõdades.  E  por  ho  C.  dos 
iiialles  e  pecados  nosso  corregimeto.  Por  q  destas  três 
partes  mesturadamête  e  nõ  assi  per  ordê  he,  meu  pro- 
])osito  de  mais  trautar  cõ  dcuida  protestaçõ,  leixsído 
todo  ao  corregimeto  daquelles  aq  perteecer.  Ca  sobrello 
mais  screuo  por  que  sinto  e  ueio  ,  na  maneira  de  nos- 
so uiuer  q  per  studo  de  liuros,  uê  enssino  de  letera- 
dos,  podesse  dizer  de  lealdade,  ca  per  dereito  conhe- 
cimêto  de  nosso  poder,  saber,  querer,  memoria,  êtê- 
der,  uoôtade ,  segujndo,  e  possujndo  uirtudes,  e  dos 
pecados,  e  outros  falicimetos  com  emenda  nos  auisàn- 
do  se  matem  a  nosso  senhor  deos  e  aas  pessoas  que  se 
deue  guardar.  E  por  q  ao  presente  de  sua  mercee  tê 
esta  uiriude  outorgada  em  estes  Reynos  ãtre  senhores 
e  seruidores,  maridos,  e  molheres  ta  perfeitamête  q  ou- 
tros nõ  sey  nê  ouço  q  mais  melhor  delia  husem  dos 
quaaes  pois  elle  desía  boa  graça  me  outorgou  pricipal 
regimento,  me  sinto  muyto  obrigado  dea  sêpre  mã- 
teer  e  guardar  a  todos  e  avos  mais  per  obrigaçõ  de 
grandes  razooês  e  requerjmêto  de  mjnha  boa  voõtade. 
Porem  me  praz  assi  delia  seer  nomeada  por  tal  que  o 
nome  deste  meu  scripto  cõcorde  com  amaneira  em  ^ 
per  mercee  do  senhor  deos  me  trabalho  sempre  ujuer. 
Cõpre  pra  sse  melhor  êtender  de  se  leer  todo  de  co- 
meço,  passo,  e  pouco,  de  cadahuã  uez  bê  apontado, 
estando  ê  razoado  têpo  bem  despostos  os  q  leerem  e 
ouujrem.  Ca  leendosse  doutra  guiza,  entendo  q  aos 
leterados  parecera  mais  symprezmente  feito. 'E  aos  ou- 
tros, nõ  tam  boo  dentêder,  por  q  taaes  leituras  aos  ÍJ 
de  semelhãte  nom  teê  boo  conhecimêto,  mais  som  pêra 

A  2 


4  O    LEAL    CONSSELHEIRO. 

seerem  enssinados,  q  pêra  despender  <êpo,  ou  se  des- 
enfadar como  liuro  dcslorias  em  q  oentendimento  pou- 
co trabalha  por  oentender  ou  se  nêbiar.  E  posto  q  a 
aprimeira  pareça,  nõ  sentirê  proueito  deo  ueer,  nem 
ouujr,  saibha  queo  leer  dos  boos  liuros  e  boa  cõuers- 
saçum  ,  faz  acrecentar  ossaber  e  uirtudes  como  crece 
ocorpo ,  q  nuca  se  conhece ,  seno  passando  per  têpo  ; 
de  peqno  q  era,  se  acha  grande  e  o  delgado  fornjdo. 
Eassj  com  agraça  do  senhor  oboo  studo  filhado  com 
boa  teèçom  ,  de  simprez,  faz  sabedor,  do.  q  bem  nom 
ujue  teperado,  e  uirtuoso.  E  de  tal  leer  auemos  três 
proueitos.  Primeiro  despender  aquel  têpo  em  bem  fa- 
zer. Segundo  acrecêtar  em  boa -sabedoria.  Terceiro  por 
ocuidado,  quando  esteuer  occioso ,  auedo  Jèbrãça  do 
q  leeo ,  nom  se  occupar  ê  alguíls  nom  boos  pessamêtos, 
ate  retornando  ao  q  aprender  acrecêtar  em  boo  saber 
e  uirtude.  Prazermja  q  os  leedores  deste  trautado  ter 
uessem  amaneira  daabelha,  q  passando  per  ramos  e 
folhas,  nas  íTores  mais  custuma  depousar.  E  dally  filham 
parte  de  seu  màtymêto.  E  nõ  seia  taaès  como  aquel- 
les  bichos  q  leixando.  todas  cousas  lípas  nas  mais  cujas 
filha  sua  gouernança.  E  esto  se  diz  por  quanto  alguus, 
ueendo  quaaes  quer  pessoas,  ou  leendo  per  liuros, 
aquellas  cousas  cõssyram  em  q  possam  auer  boo  exê- 
plo,  enssyno,  e  auisamêto.  E  q  ache  e  ueiam  falicimê- 
tos ,  passem  per  elles,  sempre  reguardando  ao  mais 
proueitoso,  e  digno  de  louuor.  Eaquestes  aabelha  de- 
uem  seer  apropiados,  os  quaaes  por  acharê  em  esto  q 
screuo  alguã  cousa  q  lhes  peza;  mais  cõssyrem  aasub- 
stiícia  e  boa  teêçõ  q  ao  muyto  saber  nõ  forma  derra- 
zoar,  por  que  resguardando  ao  desuairo  das  pessoas 
em  estado,  entender  e  sotilleza,  com  deseio  q  razoa- 
damente  prouuesse  aos  mais  q  o  uissem  e  recebessem 
alguu  boo  cõsselho  lêbrâça  Ou  auisamêto.  Acordei  de 
leuar  esta  ordem  descreuer  na  geeral  maneira  de  nosso 
fallar.  Porê  bem  sey  que  alguã  leitura  nom  pode  ato- 
dos  igualmente  prazer  ca  tee  gobrello  tãta  deferêça  co- 


Ô    LEAL    CONSSELHEIRO.  5 

ir  O  no  gosto  das  uiandas  e  ouujr  dos  sous  :  E  a  4  des' 
praz  a  algiifrs  por  lhe  parecer  scura ,  outros  ajulgam 
por  symprezmcte  feita.  E  aos  q  falia  contra  seu  pro- 
pósito e  maneira  de  ujuer,  pouco  dello  se  côtòtom.  E 
posto  q  amuytos  esto  nõ  peza ,  abastame  q  nosso  Se- 
nhor sabe  njyuha  teèçom,  e  q  seia  feito  anosso  prazer.: 
E  tal  trautado  me  parece  que  priticipalmêle  deue  per- 
teecer  pêra  homees  da  Corte  q  algua  cousa  saibham 
de  semelhâte  sciencia ,  e  djeseiê  ujuer  uirtuosamete, 
por  q  aos  outros  bem  pensso  q  nom  muyto  lhes  peza 
deo  leer,  nê  ouujr.  E  assi  como  se  fazem  freos  de 
feiçoôes  desuairadas,  e  os  q  hfias  bestas  nõ  enfrea  ,  as 
outras  sõ  ê  elles  bera  adereçadas,  semelhãle  se  faz 
nas  nioraaes  êssynanças,  ãtre  as  quaaes  esta  deue  seer 
optada  e  q  a  muytos  por  chaã,  ou  alguã  cousa  scura, 
nõ  preza,  poderá  seer  q  alguns  por  os  êssynos  e  aui- 
sametos  q  dcos  qrendo  em  este  trautado  seram  scri- 
ptos  de  mal  fazer  se  refrearê,  e  pra  uiuer  uirtuosamê- 
te  seram  enduzidos  aqual  sperãça  nõ  pouco  me  acre- 
centa  boo  dcseio  deo  trazer  aproueitosa  perfeiçom. 
Da  outra  parte  muytos  som  taaes  como  aquelles  bi- 
chos q  leixando  toda  cousa  boa,  e  bem  feita,  jal  no 
conssyrã  senom  onde  acharem  q  prasmê,  ou  de  qscar- 
neçam  ,  ca  esto  filham  por  seu  mâtimêto.  E  aquestes 
bem  me  pezeria  q  o  nom  leessê,  conhecendo  q  neelle 
assaz  poderõ  achar  pêra  husarê  de  seus  maaos  custu- 
ires.  E  por  quanto  esto  screuo,  como  dito  he ,  por 
comprir  uossa  voõtade  com  meu  prazer  e  desenfada- 
mête,  qrendo  aalguus  aproueitar  e  anêguem  êpeecer, 
deo  leer  e  ouujr  bem  seria  q  fossem  scusaps ,  porque 
som  certo  q  ueem  poucas  cousas ,  nem  obras  de  q  lhe 
praza ,  nê  recebam  proueitosa  enssynança ,  Essemelhã- 
te  fazem  os  mais  de  todos  nos  falicimêtos  em  q  muy- 
tos som  derribados,  e  nas  uirtudes  de  q  bem  nõ  hu- 
sam.  Porê  seus  juizos  sobre  taaes  leituras  nõ  deuem 
seer  creudos.  Fiz  tralladar  ê  el  alguns  certos  capitólios 
doutros  liuros  por  me  parecer  que  faziam  declaraçom 


ê  o    LEAL    CONSSELHEIRO. 

e  ajuda  no  Q  screuia.  E  no  cupeço  delles  ssedemosira 
donde  cadahu  he  lirado ,  filhando  em  esto  exêplo  daql 
autor  do  liuro  do  amante  q  certas  estorias  em  el  scre- 
ueo  de  q  se  filham  grandes,  boos  cõsselhos  e  auisame- 
los.  E  conhecendo  meu  saber  pêra  esto  nõ  suficiête, 
nôm  ej  por  èpacho  seer  ajuda  de  taaes  ditos  e  seerem 
assy  côpridaniête  aquy  tralladados  posto  q  o  seu  niuy 
boo  e  flamoso  razoar  no  por  mym  scripto  faça  grande 
abatimêto ,  por  q  mais  qro  aproueitar  aos  q  o  uirê  ca 
encobrir  esta  nijnguada  maneira  de  meu  screuer. 

Capitólio  Primeiro 
das  parles  do  nosso  eiUendirnenlo. 

iJo  etendimêto  nosso  segundo  minha  declaraçS  ha 
Tii  partes.  Primeira  daprender  per  aqual  etêdemos  e 
apredemos  bem  e  cedo  o  q  nos  dizem  e  per  scripto 
ou  doutra  guiza  nos  he  demostrado.  A  esta  perteece 
conteer  ocuydado  e  estar  bem  entento,  no  que  de- 
seiamos  daprender,  ou  dar  reposta,  costumandonos 
anouamente  aprender  aquellas  cousas  q  perao  estado 
€m  q  formos  perteecerem.  Segundo  de  rrenembrar, 
per  q  bem  e  lôgamête  nos  lembra  o  q  sabemos ,  uee- 
mos,  e  ouujmos ,  pêssamos,  e  ordenamos  fazer,  esta 
recebe  ajuda  custumandosse  afilhar  alguãs  cousas  na 
memoria  ,  com  ryia  uootade.  Eper  ossaber  da  arte 
inemoratjua  bem  ordenada,  mais  tenho  q  se  acrecête, 
^  o  contrairo ,  como  alguíis  dizê  :  Terceira,  judicatiua 
per  aqual  damos  boo  e  dereito  juizo,  no  q  pêssamos, 
ueemos ,  e  ouuimos,  nõ  desuiando  por  amor,  ódio,  e 
temor,  segurãça,  proueito,  perda,  prazer,  ou  sanha, 
guardado  tpõ  e  ordem  com  deuida  êformaçô  dos  fei- 
tos ;  bem  nos  côsselhando  segundo  tal  cousa  reqre. 
Ea^sta  por  amor  denosso  senhor  deos  e  afeiçom  das 
úirtudes  cô  boo  saber,  custume  dos  feitos,  de  bem  ê 
mjlhor  se  acrecêta.  Quarta  êuêtiua  per  q  somos  acha- 
dorea  de  iiouas  êuêçooês  em  qual  quer  cousa.  E  nos 


o    LEAL    CONSSELHEIRO.  7 

feilos  e  obras  cõssyrarmos  nonos  camjnlios  pêra  per- 
calçar  o  q  nos  praz ,  ou  nos  guardarmos  do  q  recea- 
mos. A  esta  se  pode  apropriar  todo  auisaínêto  e  per- 
cebimeto  ante  do  feito,  e  des  qne  somos  em  elle.  K 
pêra  boo  aiiisameto  se  reqre  natural  sotil'eza  do  êten- 
der,  com  boa  nêbrança  continuada,  do  que  demanda 
cadahuíi  feito.  E  deseio  grande  pêra  os  acabar  perfei- 
tamente com  tal  recco  de  mjngua  e  fallecimêto  noin 
se  ocupando  em  outras  cousas  que  tornem  ocuidado, 
ou  deligcte  obra  dando  sem  tardança  deuida  execuçõ 
no  q  ouuer  bem  penssado.  A  quinta,  declarador  per 
a  qual  declaramos,  e  enes^ynamos  toda  cousa  per  pal- 
íaura,  scripto,  e  outras  declaraçooês  de  qualquer  scien- 
cia  ou  enssynança ,  guardando  em  todos  nossos  feitos, 
boas,  honestas  contenenças,  e  cerimonias,  segundo 
cadahuií  he,  eo  feito  demanda,  pêra  esta  uai  muyto 
continuadamente  querer  saber,  toda  cousa  q  razoada 
eeia.  guardando  aqueila  pailaura ;  que  teendo  na  coua 
o  pee  ajnda  deseiamos  daprender  per  que  se  demostra, 
como  deuemos  sempre  teer  esta  teêçom  ;  por  que  do 
boo  aprender  nace  boo  saber  e  geito  denssynar.  E  pê- 
ra saber  côuem  preguntar  assi  primeiro,  pensado  das 
cousas ,  como  som  ,  e  amaneira  que  sobrellas  deue  teer 
cora  as  outras  circunstancias  aesto  perteecentes,  e  aos 
outros  que  deuem  seer  pregíítados ,  e  q  per  si  e  dou- 
tros aprender  nom  aja  empacho  deo  enssynar  e  prati- 
car nos  casos  que  bom  for.  Sexta  executiua  per  que 
bem  e  prestemête  damos  aenxecuçom  oque  nos  cõpre, 
e  acordamos  de  fazer  ,  nõ  otardãdo ,  pospoendo  per 
leixamêto,  priguiça,  e  mjngua  do  coraçom  ,  êpacho, 
liujdade,  auareza,  nê  nos  toruando  per  outro  cuidado 
ou  fantesia.  Eesta  perteeçem  dar  boa  ordem  em  toda 
cousa  que  per  nos  aiamos  dobrar  ou  mandar  q  se  faça 
fazendo  trazer  adeuida  fym.  Eaquesto  specialmente 
aprudêcia  perteece.  Seytima,  da  firmeza  e  persseuerã- 
ça  polia  qual  somos  firmes  ê  nossos  boos  propósitos,  e 
obras ,  no  as  pospoendo ,  ou  leixando  no  q  ueerao^  ^ 


8  O    LEAL    COXSSELHEIRO. 

he  bem  e  cõpre  de  se  fazer.  Eaquesta  parte  se  reqre, 
no  se  tigrar  nas  determjnaçooês  das  cousas  e  ouujndo 
bem  as  partes  com  deliurado  cõsselho ,  se  dôue  acor- 
dar o  que  cõuem  de  fazer.  Eo  bem  acordado  iiom  o- 
Biudar  por  medo,  empacho,  auareza  ou  uoontade  nom 
razoada  de  comprazer  aoutre.  Estas  duas  partes  ajnda 
que  simprezmête  nom  seiam  pêra  se  apropriar  ao  en- 
tendimento, por  que  se  reqre  pêra  ellas  uirtude  do  co- 
raçom ,  porem  conssyrando  como  por  el  estas  uirtudes 
de  seer  boo  executor  e  firme  se  acrecentã  e  manteê 
com  agraça  do  Senhor,  as  pus  no  conto  das  outras, 
suso  scriptas  e  per  guardar  e  acrecentarmos  cô  amer- 
cee  de  nosso  senhor  deos  em  todas  estas  partes  do  en- 
tendimento, quatro  cousas,  sento  seerom  muyto  ne- 
cessárias. Primeira  e  mais  principal  q  conheçamos  a- 
uermos  per  sua  special  graça  todo  nosso  bem  ,  e  sem- 
pre dandolhe  louuores  demandemos  que  nos  ajude  e 
acrecente  em  todo  como  seiamos  despostos  pêra  o  me- 
lhor seruir.  Segada,  que  guardemos  têperãça  ê  comer 
e  beuer  e  todos  nossos  feitos.  Terceira,  que  nom  seia- 
mos uencidos  desordenadamête  em  algua  paixõ  damor 
temor,  e  assi  das  outras  que  adiãte  se  diram.  Quarta 
^  desejemos  muyto  percalçar  e  auer  todas  estas  par- 
tes do  entendimêto  prezandoas  muyto  auendo  por  gran- 
de nijngua,  fallicimento  pêra  a  uida  presente  e  que 
spramos  seer  desfallecido  em  cada  huã  delias.  E  por  ^ 
muyto  se  percalça  do  q  ryio  e  cõtinuadamente  he  de- 
seiado,  de  quanto  recebemos  naturalmête,  se  tal  afei- 
çõ  teuermos  pouco  se  perdera  e  pêra  ajuda  da  quel 
ísem  oqual  todo  he  nada  de  bem  em  melhor  sempre 
auançaremos.  E  muyto  he  necessário  na  ydade  noua 
auer  sobresto  boa  êssynãça  corao  se  diz  no  liuro  que 
fez  hii  filho  de  .^irach  que  chama  eclesiástico  onde 
gabando  assabeduiia  e  oêtenderaento  encomenda  quo 
logo  de  nossa  mocidade  a  ello  per  afeiçom  nos  encli- 
nemos,  e  na  uelhice  acharemos  adulçura  delle.  Ca  so- 
bresto me  parece  que  uerdadeiramête  sentimos  oque 


o    LEAL    CONSSELTIEIRO;  9 

se  tliz  do  ajo  boo  q  uè  spantoso  e  se  parte  doce  e  com 
grande  côssollaçom.  K  do  TiDÍjgo  q  corri  folgara  uõ  e 
parte  com  spanto  e  assi  ossaber  e  as  uirtiides  com  tra- 
balho se  aprendem  ,  guardam  e  seguem.  Edesque  per 
mefcee  do  senhor  deos  algua  parte  aellas  se  percalça , 
prazer,  cõtentamento  e  boa  folgança  he  sentida  se- 
pre  na  uida  presente  com  grande  sprãça  pêra  q  atêde- 
mos.  E  os  pecados  todos  no  presète  mostram  deleita- 
çom  e  afim  será  cõ  door  e  fristeza.  Porem  ajnda  que 
pareça  trabalhoso  aprender  e  custumarsse  aas  ditaa 
partes  do  entendimento  todauia  custumalas  deuemos, 
pois  todos  sabedores  esto  consselham  ,  e  manda,  posto 
queo  nom  façom  ,  guardando  aquella  pallaura  de  nosso 
senhor  que  façamos  oque  nos  enssynarem  ,  ajnda  queo 
assy  nom  ponham  per  obra.  Arrepartimento  das  hida* 
des  poderemos  apropriar  estas  partes  do  entender,  e 
as  hidades  sõ  per  muytas  maneiras  repartidas ,  mas 
huã  que  põem  os  leterados  que  bem  me  parece,  cha- 
ma jfancia  ataa  vij.  anos,  pueria ,  ataa  xiiij ,  ataa  xxj. 
adollacencia ,  mancebia,  ataa  cTquoenta  ^  uelhice  ataa 
Ixx  senyum  ataa  Ixxx- E  dalli  ataa  fim  dauida  decrepi- 
dus.  E  aquesto  concorda  com  o  dito  de  rey  dauitz  no 
salmo  que  diz  auida  do  homem  sobre  aterra  he  Ixx  anos 
e  se  mais  peraos  desapossados  oiteêta.  Edalli  auante 
trabalho  e  door.  Eaqueste  nos  deue  tirar  daquella  sym- 
prez  entençom  que  alguiis  penssom ,  que  agora  ujuê 
os  homeês  menos  que  ueuiã  em  tepo  de  nossos  auoos, 
oque  per  este  se  mostra  bem  o  contrairo  por  q  muytos 
uiuem  esta  ydade  em  razoada  desposiçom.  E  os  docto- 
res  das  lex  per  sua  repartiçom  das  hidades  com  esto 
concordam  ,  por  que  ante  da  uynda  de  nosso  senhor 
ia  mandauam  os  homeês  apousentar  de  Ixx  anos,  en- 
tendendo que  ata  ally  se  deuia  contar  per  uida,  como 
ao  presente  se  faz.  Eu  faço  delias  outra  repartiçom  de 
sete  em  sete  anos,  que  comesta  emparte  se  concerta, 
per  amudãça  que  geeralmente ,  em  os  mais  ueio.  Na 
primeira  aos  sete,  se  mudam  os  dentes.  Segunda  de  xiiij. 

B 


10  o   LEAL   CONSSÊLHEIRO. 

som  em  hidade  pêra  poderem  casar.  Tercera  de  xxi 
que  acabam  de  crecer.  Quarta  de  xxviij  que  percal- 
çom  atoda  força  e  uerdadeiro  foriijmeuto  do  corpo. 
Quinta  de  xxxv  em  que  se  percalça  perfeito  esforço, 
consselho  e  natural  entender.  Edally  auante  persseme- 
Ihante  de  vii  en  sete  anos,  entendo  que  uaâo  decendo 
per  outros  degraaos  naturalmente  ajnda  que  nom  se 
ueia  tam  claro,  alaa  comprir  oconto  de  Ixx  anos  em 
que  deuemos  fazer  fim  denossos  dias  peraos  feitos  da 
presente  uida.  Enaquelles  degraos  primeiros  que  som 
de  crecer,  as  partes  do  entendimento  se  deuem  husar 
Começando  na  primeira  logo  da  prender,  e  na  segun- 
da uezar  amemoria  em  reteer  alguãs  boas  enssynanças 
naturalmente  e  per  alguns  boos  auisamentos.  E  assy 
hir  crecendo  per  todas  outras  partes  que  com  agraça 
de  nosso  senhor  em  quanto  aydade  pode  mjlhor  ajudar 
com  boa  uoontade,  custume,  enssyno,  e  cõuerssaçom , 
se  ajude,  o  que  naturalmente  decadahuã  parte  rece- 
bemos.  nem  queiramos  que  os  homeês  da  quel  tempo 
eram  mayores.  Ca  se  uirom  os  ossos  antigos,  outros 
semelhantes  se  acharem.  E  tal  he  da  força  e  de  todas 
outras  cousas,  por  q  aordenança  de  nosso  senhor  anda 
per  omundo  fazendo  mudança,  dando  alguàs  cousas 
dauantagem  em  huu  tempo  ahiia  terra,  e  depois  aou- 
tra.  mas  todo  he  oque  for,  canom  ha  hy  cousa  noua 
soo  ceeo ,  como  sallamom  bem  declara  per  euidentes 
razooês  no  liuro  eclesiastes.  E  porem  com  boo  esfor- 
ço sempre  nos  trabalhemos  com  amercee  de  deos  pêra 
auer  aquellas  partes  do  entendimento,  como  as  ouue- 
rôm  aquelles  que  uirtuosos  forõm  ,  pois  assua  maaõ 
nom  he  mais  fraca  nem  abriuiada  pêra  nollos  outrogar 
que  antes  era,  e  nos  somos  de  tanta  hidade,  e  toda 
outra  boa  desposiçom  pêra  saber  praticar  qual  quer  sa- 
ber e  uirtude  como  elles  erõm.  se  de  nossa  malícia 
deleixamêto,  ou  desconserladas  uoontades  nom  formos 
tornados. 


o    LEAL    CONSSELHEIRO,  Jl 

Capitólio  Sepmdo 
do  entender  e  memorta, 

XÍiu  faço  deferença  do  entendimento,  segundo  nosso 
custume  de  fallar  ao  entender  por  que  oentender  par- 
tem os  leterados  em  quatro  ramos  .s.  entender  agente 
possiuel,  speculaliuo,  e  pratico,  E  desto  uij  huíi  trau- 
lado  que  largamente  failaua,  mas  por  me  parecer,  que 
nom  muyto  perteence  á  meu  propósito,  leixo  defazer 
sobrello  mayor  declaracom.  Mas  quanto  ao  boo  enten- 
dimento segundo  nosso  custume  de  fallar  se  requere 
mais  grííde  memoria  e  boa  uoontade.  E  na  memoria 
faço  duas  deferenças ,  hua  que  perteece  aalma  racio- 
níd  e  outra  aasenssualidade ,  Esto  filho  per  oque  aes- 
periencia  me  demostra  ,  que  dalgijas  cousas  tristes 
auemos  lembramento .  que  nom  recebemos  algiiu  sen- 
tido, aqual  lembrança  me  parece  principalmente  aaca- 
beça  perteencer,  E  aqnella  medes  per  uista  depessoas 
ouuijr  de  pallauras  trespassa  ao  coraçom  como  se  o- 
feito  prezente  fosse,  quãdo  el  se  nembra  e  ossentia. 
Em  o  filhar  dalguas  meezinhas  que  acorpo  ia  toruarom 
(se  delias  auemos  hua  symprez  lembrança  nom  faz  for-» 
ca,  Esseas  ueemos,  por  que  tal  uista  representa  oque- 
ia  sentimos,  faz  manifesta  mudança,  por  trespassarem 
estas  lembranças,  e  semelhantes  em  bem  e  no  contrai- 
ro  ao  coraçom  ,  e  tornar  assentir  o  que  ia  sentimos 
JVIas  no  que  perteece  ao  jntendimento  da  geeral  memo- 
ria, he  de  fazer  conta  aqual  se  departe  em  muytas  de- 
ferenças ca  hufis  filham  logo  qual  quer  cousa  que  ou- 
iiem  em  sentença  e  nom  detodo  aletera.  Eoutros  per 
ocontrairo. ,  alguils  bem  se  lembram  das  estorias,  e 
feitos  que  se  passom  e  dos  nomes  propios  nom  podem 
seer  lêbrados,  poucos  acharam  em  todo  perfeitos,  mas 
abasta  queo  seiam  êrasoada  maneira.  E  quanto  mais 
for  perao  entendimento  dará  grade  auantagem ,  Dou 
porem  consselbo  que  por  grande  que  alguém  assynta, 

B  2 


12  o    LEAL    CONSSELHEiriO. 

que  nuca  em  ella  muylo  se  confy,  por  que  fallece  li- 
geiramente, ode  compre  per  muytas  guisas  e  porem 
sempre  se  proueja  em  toda  cousa,  que  bem  poder, 
depoer  as  cousas  em  scripto  ou  mandar  queo  lembrem 
como  se  penssasse  quea  fraca  teuesse.  Ca  segundo  te- 
nho praticado  esta  he  amais  certa  maneira  daarte  me- 
moratiua,  ajnda  que  bem  sey  como  aoutra  muytas  ve- 
zes presta  em  têpo  de  necessidade  aos  que  abem  sabe, 
se  teem  razoadamente  a  natural. 

Capiíullo  Terceiro 
da  declaraçoni  das  uouníades. 

JlS  ossas  uoontades  se  departem  de  muytas  maneiras, 
segundo  sentimos  delias  desuairados  desejos,  mas  no 
liuro  das  collaçoões  dos  sanctos  padres  se  demostra  que 
geeralmente  som  quatro.  Primeira  que  chama  carnal. 
Segunda  spiritual.  Terceira  tiba  prazenteira.  Quarta 
perfeita  e  uirtuosa.  Efilhando  grande  parte  do  dito  li- 
uro com  alguus  adimentos,  as  declaro  na  maneira  se- 
guinte. A  uoontade  carnal  deseja  uiço ,  folgança  do 
corpo,  e  cuidado  arredandosse  de  todo  perigo,  despe- 
sa e  trabalho.  A  espiritual  quer  seguir  aquelias  partes 
em  que  se  mais  jnclinam  as  uirtudes,  Efaz  aos  que  se 
despooe  auida  derreligiom  requerer  que  jejue  ujgiem, 
leam ,  e  rezem ,  quanto  mais  poderem ,  sem  nehuã 
descliçom.  Eos  que  andam  em  feitos  de  cauallaria  que 
se  ponham  atodos  perigoos  e  trabalhos  que  sclhes  ofe- 
recerem. JNom  auendo  reguardo  aos  que  segundo  seu 
estado  e  poder,  lhe  som  razoados.  E  esto  medes  faz 
nos  cuydados  dalguãs  obras  que  lhe  parecerem  boas, 
e  uirtuosas,  que  se  despooe  aelles  assy  destêperada- 
mente  que  nom  teê  cuydado  de  comer,  dormir.  Nem 
da  folgança  ordenada  que  ocorpo  naturalmente  reque- 
ro. Eas  despesas  onde  lhe  parece  que  he  bem.  Cons- 
selha  quesse  façom  logo  sem  nhuú  resguardo  doque 
sua  fazenda  pode  abranger  e  gouernar.  Eaquestas  duas 


o  LEAL  CONSSELHEIRO.  13 

noontades  continuadamente  se  contiariom  dentro  enos, 
segundo  cadahuu  per  sy  achara  speriencia  de  huã  uoon- 
tade   de  queo  consselha  fazer  aíguas  cousas,  e  outras 
em  contrairo.  Dãtre  estas  duas  nace  aterceira  prazen- 
teira e  tiba  aqual  por  querer  ambas  satisfazer  sem  nem 
luiu  agrauamenio,  poõe  oque  assegue  em  tal  stado  que 
nunca   oleixa   ujuer  bem,    nê  uirtuosamente,  porque 
ella   assy   conssellia  jejuar  que  nam   senta  nhua  fome 
nem   sede.    Eassy   uigiar  que  nom  aia  pena  em  sofrei* 
ossono,  Equeria  percalçar  honrra  decauallaria ,  nem  se 
despoendo  aperigoos",  nem  atrabalhos  e  acabar  pesados 
feitos  sem  filhar  grande  cuidado  e  auer  nome  de  graa- 
do  ,  sem   fazer   tal   despesa  que  lhe  alguât  mjngua,  ou 
empacho  fezesse.  Efynalmente  assi  queria  seguir  oque 
hu^   uoontade   requere  que  aaoutra  nom  contrariasse, 
e  na  questa  se  afirma  que  ha  muyto  mal  em  que  muy- 
tos    fallecem.    A    quarta   uoontade    muyto   perfeita,   e 
uirtuosa  nom  segue  sempre  oque  estas  requereíii    Es- 
segue  muytas  uezes  oque  nom  lhes  praz,  todo  per  de~ 
lerminaçom  ,  e   mandado   darrazom   e  do  entender.  E 
daquy   se   dis   segujmento  deuoontade  ,    comprimento 
de  maldade.  Eoquebrantamento  delia  feez  muyto  gran- 
de uirtude.   Eaquesto  se  faz  per  esta  guisa.  Se  homem 
ujue    segundo    cadàhuã   das   três  uoontadcs  primeiras, 
nom  se  gouernando  ,  nem  regendo  per  razoro  ,  ou  en- 
tender senom  sollamente  per  oque  cilas  desciam,  con- 
uem  necessariamente  quesse  perca  da  alma  ou  do  cor- 
po, por  que  huã  demanda  cou&ás  tam  nijs  ,  e  tam  bai- 
xas que  logo  manifestamente  se  demostram  derribarem 
homem  atodo  mal.    Eaoutra  tam  altas  per  que  lhe  cõ- 
uê  uijr  amorte ,  sandice,  ou  enfermjdacle ,  perdimento 
de   toda  su'a  fazenda ,  pois   nom  guarda  descliçom  no 
que   ha   defazer.  E  a  jij.  por  querer  complazer  a  estas 
ambas,    e   as   detodo   concordar   oque  fazer  nom  pode 
por   seer  batalha  q  nosso  senhor  deos  nos  ordenou  por 
nosso   proueito ,    faz   seguir   as  uirtudes  tam  friamente 
^ue  ia  maig  nunca  trazera  aquel  que  per  tíil  uooiítadç 


24  o   LEAL  CONSSELHEIRO. 

se  e^ouernar  anein  huu  boo  eslado  Eassi  ocomprimen- 
ÍQ  destas  Ires  faz  seguir  e  cair  em  grandes  erros  ,  e 
maldades.  Eaquarta  todo  per  ocontrayro  ,  por  que  to- 
dallas  cousas  quesse  apresentam  ao  coraçom  de  cada 
liuã  destas  três  as  oferece  ao  entender  que  julgue  se 
sora  defazer,  ou  leixar.  Segundo  elle  determina,  niuy- 
las  uezes  nom  segue  o  que  demandam,  e  faz  o  que 
nom  querem  ,  eas  quebra  detodo.  Eassj  como  os  ouri- 
uezes  querendo  conhecer  alguíi  ouro  se  he  dereceber 
ou  dengeitar  ometem  no  cimento  e  aprata  na  cenrrada, 
Esse^undo  seus  ysames  a  engeílam  ou  recebem.  Assy 
esta  quarta  uoontade  todallas  cousas  faz,  ou  leixa  de- 
fazer per  exsame  deentender  e  razom.  Quando  auonta- 
de  carnal  se  quer  deitar  aaquellas  cousas  ia  dietas,  e 
esta  nom  lho  conssente,  mais  faz  lhe  sofrer  fame,  se- 
de ,  sono ,  e  despoersse  agrandes  perigoos  e  trabalhos, 
despesas,  e  cuydados  quando  oentender,  e  razom  de- 
termjnom  q  he  bem  desse  fazer.  Eesso  medes  faz  aou- 
tra  spiritual  que  lhe  nom  da  lugar  a  mais  seguir  seus 
altos  e  grandes  deseios ,  do  que  oentender  e  arrazom 
mandam.  Conssyrando  adesposiçom  de  sua  pessoa ,  es- 
tado, fazêda.  Enaquesto  se  desuaira  esta  quarta  uoon- 
tade, muyto  daterceira,  por  que  aquella  nom  conssen- 
te em  lai  guisa  contradizer  as  duas  primeiras  que  al- 
guú  agrauamêto  sêtam.  Eaquesta  detodo  lho  contradiz 
quando  determjna  oentendiraento  e  razom  que  he  bem 
deofazer  assy.  O  contrariamento  daquellas  duas  uoon- 
tades,  faz  muyto  ao  entender  julgar  dereitamête,  oque 
he  melhor  que  se  faça,  per  esta  guisa,  quando  auoon- 
tade  spiritual  requere,  que  jejííe  ou  por  cousa  que  me- 
ritória pareça,  obrem  destemperadamente.  E  acarnal 
deseiando  uiço,  e  proueito  do  corpo  relembra  otraba- 
Iho  e  perigoo  que  dello  se  lhe  pode  seguir,  fazem  an- 
tressi  hua  contenda,  per  que  se  retém  cadahuã  decom- 
prir  oque  deseia  e  dâ  lugar  aaquarta  uoontade  que  aja 
tempo  derrepresentar  esto  ante  ojuyzo  darrazom  e  do 
entender,  E  segíido  sua  determinaçom  assy  faz  execu- 


o    LF.AL   CONSSELHEIRO.  15 

(ar  oqne  sonom  faria  solai  conlrariadatlo  rom  ODues- 
scni ,  nem  so  faz  naquelles  que  assy  bestialmente  uj- 
uom  ,  que  Itclallas  cousas  que  odeseio  carnal  requero 
seguem  asseu  poder,  rem  esso  medes  nos  que  uiueni 
presuntuosamtíe  e  se  gloriam  em  esta  uoontade  car- 
nal nom  nos  contrariar,  nem  lhe  nembrar  alguã  cousa 
do  que  deseiam  ou  receam  ,  mas  querendo  sem  dr  scli* 
com  ccrnprir  quanto  esta  uoontade  spiritual  demanda 
caaê  grandes  queedas  das  quaaes  hi  ha  muytos  exem- 
plos. K  per  aquesto  q  screuj ,  alguíjs  que  tanto  nom 
sabe  poderem  conhecer  como  destas  uoontades  conti- 
nuadamente somos  tetados  e  requeridos.  E  como  as 
primeiras  três  nom  deuemos  seguir  mas  lodos  nossos 
feitos  e  cuidados  gouernar  per  aquarta  fazendoos  cos* 
sentindo  em  elles  per  determjnaçom  da  rezom  e  do 
entender  e  nõ  donosso  sollamente,  mas  naquelles  fetos 
queo  requerem  deque  nom  auemos  grande  certa  spe- 
riencia  j)er  boo  saber  auendo  consselho  peraalma,  cor- 
po,  stado ,  e  fazenda,  das  pessoas  que  razoado  for, 
nom  nos  tendo  pertiosamente  na  teençom  que  reque- 
rem nossas  uoontades,  obedeeçamos  asseus  boos  cons- 
selhos.  Eaqueste  he  ocamjnho  da  descliçom  que  em 
nossa  linguagem  chamamos  uerdadeiro  siso  ,  q  per  os 
sabedores  he  muyto  louuada  por  trazer  os  q  se  per  el- 
la  regem  com  agraça  de  deos  atodo  bem  ,  e  arredar 
de  grandes  malles.  Essobresta  quarta  uoontade  faz  fun- 
damento arreai  prudência  per  que  scolhemos  obem  do 
mal,  dos  beens  omayor,  e  do  mal  omenos ,  em  lodos 
nossos  propios  factos. 

Capitulo  Quarto 

como  muytos  erram  na  maneira  de  seu  uiuer  per 

aquella  terceira  tiba  uoontade  suso  scripta. 

Jl  or  tentaçom  desta  terceira  liba  uoontade,  ueio  muy- 
tos errar  em  ssa  maneira  de  uiuer  per  esta  guisa.  Os 
estados  geeralmente  som  cinquo.  Primeiro  dos  Orado- 


16  O   LEAL   CONSSFLIIEíRO. 

res   em    que   se  êtendem  clelugos  ,  frades  de  todas  or- 
deens,  e   os  ermitaães,  por  que  seu  próprio  e  princi- 
pal  oficio  destes  he  per  suas  oraçoòes  rogar  nosso  se- 
nhor por   todos   outros  stados,  e  per  seus  ofícios  lou- 
ualo   e   honrrar   per  suas  boas  uidas  e  deuotas  cirimo- 
nias  e  aos  outros  jnssinar  per  pallaura  e  boo  exemplo, 
e   nijnistrar   os   sagramentos.  Segundo  dos  defenssores 
os   quaaes   sêpre   deuem  seer  prestes  pêra  defender  a- 
terra  detodos  contraíres  assi  dos  auerssairos  que  de  fo- 
ra lhe  querem  empeecer,  como  dos  soberuos  e  malecio- 
sos   que   moram   em   ella ,  deque   no    menos  empeeci- 
mento  muytas  uezes  recebem.  Eaestes  cõuem  no  tem- 
po da  paz  ujuer  como  nos  consselhou  sam  joham,  auen- 
do    conssiraçom    de    três  maneiras  dhomeens  com  que 
ha  de  côuerssar  .s.  os  debaixo  stado  que  lhes  mandou 
que   algufis  delles   nom   trilhassem  aos  seus  semelhan- 
tes,  nem  jnjuriassem.    E  de  seus  senhores  trouxessem 
boo  contentamento  doque  lhes  desse,  sabendo  que  na- 
questas   três   partes   os  mais  falleciam.  Aguardandosse 
defallecer   em   ellas   aprouou   oestado   dos  defenssores 
nom   omandando   desprezar,   nem   leixar,  sabêdo   que 
he   tam   necessário  perao   bem  publico  que  sem  el  se- 
nom   podem  as  terras  e  senhorios  longamente  soportar 
e  defender,  que  dos  seus  ou  dos  stranhos  nom  man- 
dem  buscar  peraos  defenderem.    Eaestes   defenssores 
som  dados  grandes  liberdades  e  priuillegios  por  agran- 
de   necessidade  a   que   per  elles  toda  comunydade  sõ 
alguãs  uezes  no  tempo  do  grande  mestre  acorridos.  E- 
porem   lhes   perteece  na  paz   aprender  e   saber  taaes 
manhas  como  no  tempo  que  comprir  possam  e  saibham 
bem   husar  daquello  por  que  som  antre  os  outros  tam 
auantejados  e  tenham  armas  e  cauallos  pêra  estar  pres- 
tes  como  cOiuem  pêra  logo  socorrer  onde  for  necessá- 
rio por  seruiço  e  mandado  de  seu  senhor  poendosse  a 
perigoos  demorte  e  aoutros  grandes  trabalhos  e  despe- 
sas,   manteendo  gente  etaaes  corregimentos  segundo 
acadahííu  perteece  :   que  honrrem  orreal  stado,  sua 


o    LKAL    CONSSELHEIRO.  17 

corte  e  senhorio.  Terceiro  dos  lauradores  e  pescado- 
res que  assi  como  pees  em  que  Ioda  a  cousa  publica 
se  mantém  e  soporta  som  cljamados  aos  quaaes  per- 
leece  em  esto  sèpre  continuadamente  se  occupar  seen- 
do  muyto  releuados  quanto  se  mais  poder  fazer  deto- 
do  outro  seruiço  e  maao  trilhamento ,  mas  darlhes  lu- 
gar fauor  pêra  tirarem  per  seu  trabalho  aquelles  frui- 
tos  da  terra  e  domar  em  que  todos  nos  gouernamos. 
Quarto  dos  oficiaaes  em  que  se  entendem  os  mais  prin- 
cipaaes  cõsselheiros,  juizes,  regedores,  ueedores,  scri- 
uaães  e  semelhantes  os  quaaes  boos  leaaes  entendidos, 
soUicitos  t.emenles  a  deos  deuem  seer  scolhidos.  Quin- 
to dos  que  husam  dalguas  artes  aprouadas  e  mesteres 
como  físicos,  cellorgiaães ,  mareãtes,  tangedores,  ar- 
meiros  ,  ouriuezes  e  assy  dos  outros  que  som  per  tan- 
tas maneiras  que  nom  se  poderiam  breuemente  recon- 
tar aosquaaes  côuem  bem  e  lealmente,  e  com  deuida 
deligêcia  husar  de  sua  boa  maneira  deuiuer  De  todos 
estes  por  seguir  uoontade  tiba ,  de  que  faz  em  ocapi- 
tullo  passado  meençom  ,  muytos  fallecem  ,  por  que  ai 
nom  he  ueencersse  aaquella  uoontade  senon  querer  da 
quel  stado  que  cadahuú  tem  possuir  e  lograr  ofolgado, 
e  seguro ,  e  nom  soportar  os  trabalhos  e  perigoos  q 
acadahuú  muyto  cõuem.  Exêplo  desto  seos  oradores 
querem  as  riquezas  ,  honrras ,  reuerenças,  liberdades, 
segurança  dessagral  justiça  e  dos  feitos  da  guerra,  hu- 
sando  de  pouca  e  fraca  oraçom  nom  querendo  per  ofí- 
cios e  corregimentos  honrrar  deos  nê  suas  igreias,  nom 
enssynando  ,  regendo  ,  nijnjstrando  sagramentos  aos 
que  som  obrigados ,  e  atodos  dam  exemplo  descandal- 
lo  ,  e  de  pouca  deuaçom  e  mal  uiuer,  taaes  como  es- 
tes que  ai  segtiem  senom  esta  tiba  uoontade,  queren- 
do auer  as  honrras,  riquesas ,  poderios,  soltura  de  to- 
das folganças,  aos  defenssores  e  casados  outorgados, 
nom  soportando  seus  perigoos,  trabalhos  e  despesa?. 
Contra  os  quaaes  diz  sancto  agostinho  que  se  querem 
alegrar  cora  os  sanctos  e  as  tribulacoões  nom  querem 

C   ' 


J3  O    LEAL   (JONSSELHEIRO. 

soportar  com  elles.  Essenoni  quiserem  seguir  os  bem 
auenturados  mártires  per  trabalhos  e  afliçoões  aassua 
bem  auenturança  nom  poclerom  uijr  como  diz  oapos- 
lollo  paulio  ^  se  formos  companheiros  das  paixoões  as- 
sy  osseremos  na  gloria  eterna  das  conssollaçoões.  Os 
defenssores  que  todalias  auantageens  ja  declaradas  cora 
todos  priuilegios  querem  possuir  querendo  trazer  ca- 
pas de  beguinoe  ou  alguíis  auitos  e  maneira  de  orado- 
res, tirandosse  das  despesas ,  perigoos  e  trabalhos  que 
ai  lhe  faz  teer  tal  geito ,  senom  esta  tiba  iioontade. 
Eassi  quando  desêparam  aohonrrada  maneira  desseu 
uiuei*  e  selançom  alaurar,  ou  Irautar  de  mercadaria 
todo  dalli  uem  o  que  ahuíís  e  aos  outros  nunca  deue 
secr  conssentido,  saluo  se  alguu  defenssor  passasse  de 
Ix  anos  e  ja  bê  se  ouuesse  gouernado  em  sa  mancebia 
e  fosse  trazido  afraca  desposi<^om  ,  atai  bem  lhe  deuer 
seer  outorgado  que  cesse  dalguns  carregos  de  caualla- 
ria  se  anecessidade  muyto  nom  odemandar,  e  que  no 
tempo  dapaz  por  uiuer  fora  de  trabalhos  e  cuidados 
fac^a  alguã  honesta  mudança  em  seu  stado  ,  nom  lho 
deue  seer  contradito,  ca  em  esto  seguem  aopeniom 
dos  íillosofos  que  os  primeiros  xx  anos  apropriauâ  pe- 
raaprender  em  arrepublica  podiam  seruir.  Eos  xxxx 
pêra  seruirê  e  dalli  auante  ataaíim  dessa  uida  pêra  se 
repousarem ,  e  ordenarem  pêra  bem  acabar  em  uirtu- 
des  5  fora  de  malles,  e  pecados,  Eposto  que  de  Ixx 
anos  sempresse  mandarõ  apousentar  que  alguns  por 
seu  boo  seruiço  e  merecimento  se  adiantem  alguíi 
pouco  tenpo  nom  som  deprasmar,  mas  agente  mance- 
ba ou  que  atai  hidade  no  som  uijndos  e  assi  omere- 
çam  j  nuca  deue  seer  conssentido  husar  de  tal  tibeza, 
mas  costrangellos  que  tomem  estado  aprouado  ,  no 
qual  ujuam  segundo  aqiiel  requero.  Se  querem  seer 
oradores  aesso  seiam  dados  uiuendo  em  aprouada  re- 
gra ,  nom  hugando  derriqueza,  renda,  nê  liberdade 
decauallaria  ,  e  se  como  lauradores  semelhante  façora 
ou  texiham  taaes  corregiiuentos  pêra  defender  ehoiirrar 


o    LEAL  CONSSr:LTIT:?RO.  19 

seu  senhor,  e  aterra  como  persta  fazenda  potler  sopor- 
tar ,  ca  onde  per  necessidade  abrang;er  nom  podem 
nem  som  de  culpar.  Eu  nom  contradigo  nem  prasmo 
os  que  rezam  ,  jejuam  ,  ou  bem  fazêdo  todas  boas  obras 
perteecetes  assua  maneira  de  uiuer,  ofícios  de  igreia 
antes  os  louuo  e  aprouo  como  cadahufi  melhor  poder, 
mas  tenliam  os  deíenssores  q  esto  cõuem  fazer  e  as 
outras  cousas  suso  scriptas  aelles  períeecentes  segun- 
do seus  estados  nom  deseparar.  Eassi  digo  que  he  bem 
delaurar  e  criarem  bestas  e  gaados,  mas  nõ  de  tal 
guisa  que  se  desemparê  desseerem  prestes  pêra  bem 
eeruirem  na  quel  stado  por  que  som  priuiligiados  e 
mais  honrrados.  Desta  guisa  em  cadahuíí  dos  outros 
estados  se  poderia  screuer,  mas  por  oexemplo  destes 
se  entendera  delles,  como  deuem  husar,  Eo  mal  qua 
liem  desta  tiba  uoontade  he  q'.ie  seguir  as  partes  doces 
do  m.ester  ou  oficio  em  que  ujuem  e  leixar  oamargoso 
sem  oqual  dcl  bem  nõ  podem  husar.  Do  que  perteece 
aos  senhores,  mais  nom  screuo  por  me  nom  Jouuar, 
ou  doestar  por  que  ogatom  o  defende,  senom  que  lhes 
declaro  tanto  que  nosso  stado  he  derregedores  e  de- 
fenssores.  Eueêdo  oque  perteece  aos  que  destes  anbos 
deuem  husar,  ueram  oque  nos  cõuem  defazer,  se  bem 
husarmos  do  carrego  que  per  ossenhor  deos  nos  he  da- 
do,  ou  se  por  esta  tiba  uoontade  cjueremos  lograr  as 
principaaes  perrogatiuas  que  nos  som  outorgadas,  nom 
Lusando  dos  muy  grandes  carregos  aque  somos  obri- 
gados. Econssyrando  esto,  conheceremos  quanto  so- 
mos dinos  derreprehêssom  ou  per  graça  e  mercee  do 
nosso  senhor  deos  deuerdadeiro  louuor.  Epera  demos- 
trar per  quaaes  uirtudes  desemparamos  as  três  uoonta- 
des  no  capitólio  ante  deste  declaradas,  e  nos  regemos 
per  aquarta  screui  o  capitólio  seguinte  filhando  grande 
parte  do  liuro  suso  scripto. 


C  2 


20  O    LEAL   CONSSELHEIRO. 

Capitólio   Quinto 
em  que  se  demostra  per  que  uirtudes  nos  enderençamos 
a  desemparar  as  três  uoontades  suso  scriplas  e  seguir 
a  quarta. 

Jl  or  estas  uirtudes  nos  releemos  de  seg"uir  as  três 
uoontades  desordenadas,  e  nos  regemos  per  aquarta 
uirtuosa.  Primeiro  temor  das  penas  do  jnferno  e  das 
lex  presentes  postas  per  os  senhores,  ou  per  aquelles 
que  sobre  nos  tem  poder  e  regimento.  Segunda,  de- 
seio  degalardom  que  speramos  decobrar  em  esta  uida 
e  despois  na  outra  por  fazer  sempre  bem  e  nos  arredar 
detodo  mal.  Terceira  por  amor  de  nosso  senhor  deos 
e  afeiçom  das  uirtudes  Eo  primeiro  que  perteece  ao 
temor,  no  liuro  das  coUaçõoes  se  apropria  aafe ,  creê- 
do  que  se  mal  fezermos  sem  -duiiida  aueremos  por  ello 
scarmento  e  pena.  Eo  segundo  a  esperança  pella  que 
speramos  com  graça  de  deos  grandes  bees  e  galardoai 
se  bê  e  uirtuosamente  uiuermos.  Eo  terceiro  acarida- 
de  per  aqual  se  amaua  deos  sobre  todallas  cousas  e 
uirtudes  per  plazer  ael.  Esse  auorrece  toda  cousa  con- 
trairá dauirtude  por  nom  desj)lazer  aaquel  que  sobre 
todos  he  damar.  E  nom  embargando  qu-e  cadahuã  des- 
tas uirtudes  por  sy  he  suficiente  pêra  enderençar  na- 
quella  real  carreira  per  poucos  seguida.  Porem  antrel- 
las  he  grande  deferença  por  que  as  primeiras  duas  per- 
teecem  aos  que  começam  e  prosiguem  de  uijrao  mais 
perfeito  stado.  Ea  terceira  do  que  leixãndo  desseer 
seruos  que  seruem  com  medo  das  feritlas  que  passam 
acondiçom  desseruidores  que  ja  sperani  por  seu  boo 
seruiço  gajlardom ,  e  dally  ueem  ao  stado  de  boo  e 
leal  filho  que  todas  cousas  de  seu  padre  ha  por  suas, 
e  porem  nõ  tanto  por  temor  das  penas,  ou  sperança 
de  gallardom  osseruem  honrram  e  receam  como  por 
dereito  amor,  no  qual  ha  temor  mais  continuado  da- 


o    LEAL    CONSSELHEIRO.  21 

nojar  quem  inuyío  ama,  por  nem  lhe  fazer  cVsplazer , 
ou  mjng liando  so  peide  oamor  do  que  pode  sccr  ro 
seruo  oqual  aolho  soomeiííess  guarda.  Éaqueste  he 
sempre  guardado  por  qre» dentro  em  ssy  tem  aquel 
grande  aninr  que  per  mjugua  de  presença  nom  falece, 
luas  em  iodo  legar  assente  deque  perfeitamente  an:a 
perasse  guardar  de  toda  cousa  asseu  plazer  contraira-e 
na  £peran(;a  se  ha  mais  auondosameníe  por  que  mais 
amando  ha  niayor  deseio ,  Emais  deseiando  pois  oque 
deseia  spera  receber  sa  sperança  côuem  seer  demayor 
gentido  ,  E  quem  serue  por  temor,  ajuda  odeseio  ,  e 
o  amor  ílcam  iiures  pêra  se  juntar  aoutra  cousa  e  cre- 
cendo  niUylo  farom  passar  aforça  do  temor.  Equem 
soomente  por  alguii  gallardom  serue,  ainda  oam.or  Jlie 
fica  liure,  pêra  poder  auer  mayor  sentido  e  deleita- 
çom  ,  empreseriça  doutro  bem  ,  que  mais  ame  do  que 
deseia,  aquello  que  spera,  mes  quem  detodo  coraçon), 
toda  uoontade,  e  de  todas  forças  amar,  todo  enssy 
tem,  Eporem  nom  se  pode  desatar,  mjnguar,  nem 
fazer  cousa  contrairá,  de  quem  assy  ama,  por  que  te- 
me como  disse,  muyto  e  continuado,  por  aquel  temor 
que  nace  do  grande  amor  e  assy  spera  e  se  alegra  e 
deleita,  õ  amar  e  seguir,  de  boa  uoontade  sem  con- 
tradiçom ,  aquel  que  per  tal  amor  he  atado  Eaalem 
desto,  olegamento  naafeiçom  das  uirtudes  e  continua- 
da husança,  delias  faz  mujto  perfeitamente  refrear  de- 
todo mal  e  pecados,  nos  quaaes  caae  os  sse^-uidores 
das  três  uoontades  ja  declaradas,  Eaderençar  guiar,  e 
regersse  per  aquarta ,  pella  qual  nos  praz  sempre  fa- 
zer aquello  que  nossa  razom  demostrar  que  he  melhor 
por  seruiço  denosso  senhor  e  guarda  das  p.irtudes.  Ea- 
questo  screuj  por  fazer  alguã  declaraçom  destes  três 
freos,  os  quaaes  cadahuíi  deue  trazer  em  seu  coraçom 
por  sentir  e  conhecer  e  guardar  bondades  e  uirtudes. 


22  O    LEAL  CONSSELHEIRO, 


Capilullo  Sexto 
doutra  declaraçom  que  fato  sobre  as   noontades. 


om  embargando  que  adeclarnçom  suso  scripta  das 
uoonLades  bem  me  pareça,  Eu  faço  segundo  em  mym 
e  nos  outros  sento  outra  repartiçom  geeral ,  em  estas 
quatro  partes,  segundo  declarem  as  almas  uegetatiua, 
sensetiua  e  racionai  E  quarta  doliure  aluidro  que  man- 
da comprir  toda  cousa,  que  por  nosso  prazer  fazemos. 
A  uoontade  que  perteece  aaparte  uegetatiua  que  he 
semelhante  aaque  tem  as  aruores  demanda  saúde  e 
mantijmento,  decomer,  beuer,  dormyr,  e  uestir  cora 
as  outras  obras  da  necessidade  dauida.  Assenssetiua 
que  com  adas  bestas  concorda,  todas  outras  cousas 
que  perteeçam  aas  doze  paixoões  daraor,  deseio  e  de- 
leitaçom  ,  Ódio,  auorrecimento  e  tristeza  JVlansedòos, 
sperança,  e  atreuimento,  Sanha,  desesperaçom  e  me- 
do. Das  quaaes  entendo  screuer  assy  declaradamente 
onde  se  acertar,  por  que  som  necessárias  de  saber 
aquém  semelhantes  cousas  quiser  auer  boo  conheci- 
mento Eaquesta  senssetiua  tem  dons  poderes  .s.  de- 
seiador  e  outro  que  chamem  hiraciuel.  Ao  primeiro 
perteecem  as  primeiras  seis  paixoões  per  esta  guisa, 
quando  alguft  cousa  nos  praz  auemoslhe  amor  Esse 
aqueriamos  possuir  deseio.  Edesquea  logramos  delei- 
taçom  e  todo  esto  perteece  aobem  Enna  parte  do  mal 
quando  alguã  cousa  cêntimos  contrairá  anossa  concien- 
cia  honrra  saúde  proueito  ou  prazer  auemoslhe  ódio  e 
se  delia  nos  queríamos  guardar  e  ueemos  que  nos  se- 
gue filhamos  auorrecimêto  e  senos  bem  sentimos  tris- 
teza. E  dizem  que  todo  esto  procede,  da  parle  deseia- 
dor,  por  que  amando  estes  bees,  auemos  ódio  asseus 
contrayros  e  deseiando  os  auorrecimento  aquê  delles 
nos  arreda.  E  quando  sentirmos  aperda  delles  prestes 
pêra  uijr  ou  que  ia  recebemos,  padecemos  tristeza, 


o    LTÍAL   CONSSELHEir.O.  23 

como  a  rsperiencia  bem  denioslra.  que  nom  tomam 
dos  pecados  grande  sentido  quem  nos  ama  guardar  a- 
concicncia  e  assy  da  honrra  e  das  outras  partes.  Epo- 
rcm  todo  aaparte  deseiador,  deue  seer  apropriado  por 
que  dalli  tem  seu  naci mento.  Equando  nos  ueemos 
cousas  temerosas  contrairás  e  que  assanha,  ou  tristeza 
nos  queira  derribar,  Conssijradas  segundo  sy,  apro- 
priansse  aaparte  liiraciucl  nas  c^uaaes  podemos  teer 
boas  três  maneiras  per  esta  guisa,  Seo  feito  he  tal  em 
que  nom  lia  remédio,  com  manssidoõe  ,  filhar  paciên- 
cia. Esse  pode  auer  cobro,  boa  sperar.ça,  e  contra  as 
cousas  grandes,  e  fortes,  grande  e  boo  alreuimento. 
Outras  três  hahi  em  contra,  filhando  desordenada  sa- 
nha ou  tresteza,  onde  nom  ha  cobro,  nem  corregi- 
mento.  Desperar  do  que  pode  per  boo  esforço  e  cons- 
selho  auer  emenda  uencersse  amedo  quando  compre 
esforço.  Eassy  estas  seis  perteecem  aaparte  hiraciuel, 
três  ao  bem  e  boo  geyto  delia,  e  outras  três  ao  con- 
trairo.  Eper  quanto  em  esto  se  reuolue  amayor  parte 
de  todos  nossos  feitos  me  parece  bem  conssijrarmos 
sempre  como  nos  gouernamos  em  estas  paixooes.  E- 
quando  fallecermos,  ou  nos  tentarê,  sabermos  donde 
uem  ,  pêra  nos  correger,  e  auisar,  com  agraça  de  nos- 
so senhor.  Sobresto  he  dauer  este  auisamêlo  ,  pois 
aqui  se  se  oferece  que  nom  creamos  os  topos  de  nos- 
so parecer ,  por  que  fazem  grande  mudança  na  uoon- 
tade,  pêra  desposiçom  corporal  ou  do  setido  que  oco- 
raçõm  filha.  Esse  cadahuu  bem  conssijrar  e  teuer  ra- 
zoado êtender  e  lembrança  ,  uera  que  alguiís  feitos  lhe 
parecem  grandes  fortes  ou  perijgosos  dacabar,  por  teer 
em  ello  nom  boa  efraca  uoontade,  ou  tal  setornar,  por 
razoões  que  lhe  digam  ou  cuidados  que  dessy  filha  e 
assy  por  ocorpo  estar  mal  desposto.  Eaquel  medes  fei- 
to, ou  seu  semelhante  tem  em  tam  pequena  conta, 
que  nom  filha  dei  duuida,  medo,  nem  empacho,  ante 
ligeiramente  oentende  acabar.  Porem  nom  he  derreger 
per  taaes  mostranças  de  nosso  coraçom  que  muytas 


24  O    LEAL    CONSSELHEIRO. 

iiezes  iieem  desta  j)arle  sessoLiua,  mas  conssíjrando  as 
razooes  por  toda  parte  ,  lenibrâdosse  das  que  passou  , 
e  sabe  quesse  j)assarom  ,  ouujndo  boos  conssejJios, 
scolher  com  agraça  de  nosso  senhor  oqiie  lie  mellior. 
Essobre  aquello  nom  semoua ,  sem  certo  fundamento, 
nem  cure  dessinaaes,  sonhos,  nem  topos  dauoontade, 
mas  continoe  sempre  ê  seu  boo  obrar,  sperando  boa 
conclusom  do  mysericordioso  senhor  deos ,  em  que  he 
fim  e  perfeiçom  detodo  siso  ,  discrecom  e  nentura.  A- 
terceira  uoõntade  racional  em  que  os  homeês,  com  os 
anjos  partecipam  ,  cõssellia  e  manda  principalmente 
oque  perteece  atoda  guarda  de  uirtudes  e  ahonrra  e 
proueito  e  com  discrecom  assaude  e  prazer,  Conssij- 
rando  oque  he  melhor,  por  as  coussas  passadas,  pre- 
sentes, e  que  som  por  uijr.  A  quarta  do  liure  aluidro, 
como  senhor  ãtre  todas  manda  com  nosco  oque  se  fa- 
ça em  todallas  cousas,  que  per  nosso  scolhimento  fa- 
zemos. Os  exemplos  destas  uoontades,  cadahuú  êssy 
bem  os  pode  ueer,  mas  por  mayor  declaraçom ,  ponho 
exemplo  do  que  per  uezes  passey,  sem  nem  huã  uoõn- 
tade de  yr  amonte  ou  caça,  pêra  folgar,  que  perteece 
aossenlido  do  coraçom.  Ea  outra  ueendo  tempo  con- 
trairo ,  quer^ dormir,  comer,  ou  repousar,  satisfazêdo 
ao  proueito  do  corpo,  que  uem  da  uegetatiua,  Earra- 
zom  do  consselho  que  ahuã  e  aoutra ,  nom  satisfaça, 
mas  que  me  leuante  logo,  e  leixando  omonte  e  caça, 
vaa  desembargar  alguíis  feitos  necessários.  Estas  uoon- 
tades todas  três  apresentadas  antre  nos  per  aquella  do 
liure  aluydro ,  como  senhor,  damos  aexecuçom ,  oque 
per  nosso  scolhimento  fazemos  ,  E  per  esto  se  pode 
conhecer,  como  somos  requeridos  geeralmente  destas 
três  uoontades,  obrando  todo  per  determynaçom  da 
qnella  quarta  do  liure  aluydro  Eno  conssentimento 
delia  esta  opecado  e  uirtude.  Eporem  se  requere  que 
auirtude  da  geeral  justiça ,  seia  em  ella  sempre  como 
aprudencia  no  entender  E  atemperança  na  parte  de- 
seiador  e  afortelleza  na  parte  hiraciuel.  Quando  dizem 


o   LEAL   CONSSELHEIRO.  25 

qne  seirnimeto  cleuoonlade  he  comprimento  demalda- 
de  ,  entendesse  dos  deshordenados  deseios  que  perlce- 
cem  aauegetatiua  e  seiíssetiua  por  que  comprir  oque 
auoontade  regida  e  concordada  com  arrazom  ,  bem  re- 
quero comprimêto,  lie  deuirtude  e  nom  fallecimento. 
Éassy  aquello  que  ocoraçom  uirtuoso  deseia,  auendo 
fundamento  na  fle  ou  per  jnclinaçom  dalgua  uirtude  q 
ha  naturalmente,  nom  se  deue  contradizer.  Pode  com 
boa  temperãça  seguir  oquelhe  praz,  fazendo  toda  cou- 
sa com  deliberaçom  do  entender,  e  nom  por  comprir 
seus  deseios.  Ca  seendo  lhe  custumado  liuremente  de- 
comprazer  sem  regra  por  as  cousas  que  bem  lhe  pra- 
zem nas  oulras  se  as  desordenadamente  deseiar,  assy 
querra  que  lhe  satisííaçom  ao  que  el  quer.  E  por  esto 
aquella  uoontade  doliure  aluidro  per  aqiial  dizemos , 
injnba  rezom  me  demostra  que  era  bem  fazer  tal  cou- 
sa Errequeria  quea  fezesse ,  mas  eu  a  nom  quiz  fazer 
Essegui  adeleitaçoni  ou  nijnha  uoontade  me  demanda- 
ua  esto  por  meu  prazer.  Eea  nom  quiz  ueendo  que  he 
mal  por  fazer  oque  he  bem.  deue  seer  pêra  uiuermos 
uirtuosamente ,  jnclinada  e  concordada  sepre  aparte  do 
entender  e  razom  ;  ca  todo  que  per  scolhimento  se  faz, 
per  uoontade  ofazemos.  Eajnda  que  se  contradigam 
alguàs  voontades,  sempre  outra  conprinios.  Porei. do 
diz  seneca  tiraae  as  scusaçoões  alguê  nom  erra  per  for- 
ça,  toda  obra  que  fazemos  torpe  ou  honesta,  sempre 
se  faz  per  uoontade,  Entendesse  do  liure  aluidro,  que 
assy  como  ossenhor  todallas  cousas  determina  e  man- 
da. Eporem  esta  cõuera  auer  muyto  bem  justamente 
ordenada  aos  de  boo  e  uirtuoso  entendimento  como 
di(o  he.  Epara  se  ueer  que  sam  gregorio  declara  que 
partecipamos  destas  três  almas  uegetatiiia ,  que  per- 
leece  aas  prantas ,  senssetiua  aas  bestas,  e  racional 
aos  anjos ,  mandei  aqui  tralladar  parte  dhuâ  omjllia 
sua  da  festa  daassunçom  que  aeste  propósito  me  pa- 
rece concordar. 

D 


2S  o    LEAL   C0NS5ELHEIU0. 

Capitólio   Septimo 

da  humjUia  de  sam  Gregório  sobre  oaiiangelho 

derrecumbentibus  undeciín  diapullis. 

_L  osto  que  os  dicipullos  tarde  creeram  arressurreiçom 
do  senhor,  nom  foy  tanto  sua  fraqueza,  como  foy  ao 
depois  nossa  firmeza,  ca  elles  duuidando  arressurrei- 
çom per  muytos  argumentos  lhe  foy  demostrada  os 
quaaes  quãdo  os  nos  leendo  conhecemos  que  outra 
cousa  seer  nom  pode,  senom  que  per  sua  duuyda  so- 
mos confirmados,  menos  me  aproueitou  maria  magdal- 
lena  aquai  ouuyndo  cedo  creeo.  que  tomas  que  iongo 
têpo  douydou.  Ca  por  certo  elle  duuydando  os  signaaes 
das  chagas  do  senhor  palpou.  Edonosso  peito  achaga 
danossa  duuyda  cortou  ,  mais  pêra  declarar  auerdade 
darressurreijçom  do  senhor  deuemos  denotar  aquello 
que  sam  lucas  conta,  dizendo  encomendolhes  mandou 
que  de  ihrlm  senom  partissem ,  Emais  adiante  diz ,  que 
presente  elles  se  leuantou  e  huã  nuuem  orrecebeo 
dante  os  seus  olhos,  notade  as  palauras;  Conssijrade 
os  mesterios,  comendosse,  comeo ,  e  ascendeo  .s.  que 
pollo  efecto  do  comer  auerdade  da  carne  se  demostras- 
se, e  mas  sam  marco  cota  que  ante  que  ossenhor  so- 
bisse  aos  ceeos ,  Reprehendo  os  dicipollos  de  dureza 
decoraçom  e  de  jnfedellidade.  Em  aqual  cousa  que 
auemos  ai  deconssijrar  senon  que  por  tanto  ossenhor 
estonce  os  dicipollos  reprehendeo  quandosse  corporal- 
mente delles  partio,  por  tal  queas  pallauras  que  par- 
tindosse  lhes  dezía  em  os  coraçoões  dos  ouuyntes  mais 
ardentemente  ficasse,  aqual  dureza  de  coraçom  assy 
reprehêdida  ouçamos  aquello  que  araoestandoos  lhes 
disse.  Ilideuos  per  todo  omundo  e  preegade  oauange- 
Iho  atoda  criatura.  Peruentujra  jrmaãos  muyto  amados 
ossancto  auangelho  auia  desseer  preegado  aas  cousas 
sem  siso,  ou  aas  anjmalias  brutas  por  aquello  que  sse 
diz.  preegade  atoda  criatura,  mas  se  bè  coussijrarmos 


o    LEAL   CONSSELHEIRO.  27 

adiaremos   qneo   homem   per  nome  he  chamado  toda 
criatura,    ca   as   pedras   ham   soer,  mas   nom   uyuem , 
jietn   sentem.    Eas   heruas  e  as  amores  ham  seer  e  ui- 
uem ,    mas   nom   sentem ,    viuem   digo   nom    per   alma 
dessentido,  mas  per  uerdura.  Ca  sam  pauUo  diz.  E  tu 
homem  sem  saber,  aquello  que  sêmeas,  nom  será  ny- 
ujficado  se  prynieiro  nom   morrer.  Viue  digo  aquello 
que   morre   pêra  que  seia  uyuificado,  e  assy  as  pedras 
som,  mas   nom    uijuem   E  as  aruores  som   e  uiuem  , 
mas   nom  sentem,  as  brutas  anymallias  som,  uiuem  e 
sentem  ,  mas  nom  ham  ,  descliçom.  Porem  detoda  cria- 
tura,  alg-uã  cousa  tem  ohomem  ca  el  tem  comuu;  seer 
com  as  pedras,  viuer  com  as  aruores,  sentir,   com  as 
anymallias,  etender,  com   os  angios.  Epois  tem  alguã 
cousa  comuu  com  toda  criatura,  acerca  de  alguã  par- 
te  do   homem   he   chamado  toda  criatura,    ergo  atoda 
creatura    he   preegado   por  que   aquele   he   enssynado 
pollo  qual  todallas  cousas  em  aterra  som  criadas  Eda- 
qual  todas  per  huã  semelhança  alheas  nom  som. 

Capiíullo  oytauo 
de  quatro  maneiras  que  os  homees  som  geeralmenle. 

-A-  repartiçom  suso  scripta  do  entendimento,  me  pa- 
rece bem  de  sabermos  pêra  conhecer  Nos  e  os  outros 
em  quaaes  partes  somos  per  graça  de  nosso  senhor 
deos  razoadamente  auõdados  e  em  quaaes  fallidos ,  ca 
per  myngua  de  tal  conhecimento  muytos  se  julgam 
por  bem  entendidos  queo  nom  som  por  que  fallecem 
no  que  lhes  mais  compre,  ajnda  que  doutras  partes 
seiam  ê  boo  stado.  E  per  ocontrairo  outros  teem  que 
som  mynguados  do  entendimento  por  bem  nom  apren- 
derê  ou  declararem  oque  dizer  querê  Eno  que  aas  ou- 
tras partes  perteecem  segundo  seu  stado  ofícios  e  hi- 
dade,  per  costume  e  saber  das  esperiencias,  sabem  e 
entendem  mais  proueitosamente ,  que  outros  de  palia- 

D  2 


28  O    LEAL  CONSSELIIEIRO. 

uras  muyto  abastados.  E  porem  com  razom  deuem  seer 
chamados  de  melhor  entendimento  e  mais  sesuados. 
Ca  o  siso  segundo  nossa  dereita  líguagem  ,  nom  esta 
no  entender  e  falar  soomente,  mas  em  bem  e  uirtuo- 
sãmente  obrar,  pêra  que  se  requere  comprimento  das 
sete  partes  do  entendimento  suso  scriptas ,  ou  que  se 
ajam  em  boa  soílciencia  per  esta  guisa  possuyndo  as 
principaes  uirtudes  com  razoada  pratica  dos  feitos  e 
sciencias  que  acadahuíí  stado  serrequere,  auedo  boa  o 
chaâ  uoontade  com  dereita  tençom  em  todallas  cousas 
Eo  entender  grande  e  sotil  com  boo  emgenho  atodo 
que  lhe  compre  e  praz  de  fazer.  Essobresto  conssiro 
em  geeral  quatro  maneiras  de  todos  homeens.  Primei- 
ramente alguOs  de  pequeno  entender  e  saber  de  maas 
e  reuessadas  uoontades.  Etai  he  todo  maao  e  sem  ou- 
tro bem  ,  fora  desseer  criatura  de  nosso  senhor  deos. 
Segunda  outros  que  teem  grande  entender  e  saber 
com  malleciosas  uoontades  fora  de  justiça  dereita.  E- 
laaes  ajnda  que  tenham  alguã  parte  de  bem,  som  mais 
deculpar  e  mais  empeeciuees  que  os  outros  semelhan- 
tes aos  demonyos  dessotii  entender  e  reuesadas  õte- 
çooês  jnclinados  sempre  atodo  mal  como  eíles  ,  os 
quaaes  ajnda  que  per  alguii  tempo  acabem  grandes 
feitos  e  o  mundo  pareça  que  lhes  ue  atodo  seu  prazer, 
nom  scaparom  de  suas  emendas  E  certamente  as  mais 
das  uezes  os  ueio  receber  na  uyda  presente  seus  ga- 
lardoões ,  ajnda  que  tardem  per  os  segredos  de  nosso 
senhor  deos  Ea  outros  uem  tam  cedo  e  claro,  que  ato- 
dos  deuya  seer  grande  e  boo  enxemplo.  Terceira  al- 
guíis  que  som  decurto  entender  e  saber,  mas  teem  as 
uoontades  todas  justas  e  dereitas.  Estes  som  chamados 
boos  homêes  symprezes  e  de  boa  sympreza,  aos  quaaes 
nosso  Senhor  deos  muytas  uezes  prouee  com  assua 
mercee  mais  largamente  e  melhor  que  elles  sabem  de- 
mandar, nem  pêssar.  Quarta,  outros  que  som  de  muy 
grande  e  sotil  entender  entodallas  partes  suso  scriptas 
e  suas  uontades  som  bem  chaãs,  justas  e  dereitas  en- 


o    LEAL    CONSSELHBIRO.  29 

todos  feitos  com  firme  fle  ,  amor,  temor,  boa  speran- 
ça  de  nosso  senhor  deos,  e  guarda  das  uirtudes.  Taaes 
como  estes  sam  mais  perfeitos  que  todos  deque  pou- 
cos se  acham.  Epropriamente  som  chamados  sesudos, 
prudentes,  discretos,  e  de  boo  entendimento  segundo 
uerdadeiro  costume  denosso  falar  daquelles  queo  bem 
entendem. 

Capitólio  noueno 
das  fijns  que  rcsíjuardom  as  partes  do  siso. 


Jrera  bem  e  uirtuosamente  obrar,  dossiso,  prudên- 
cia, discreçom  e  boo  entendimêto  se  requere  suficiên- 
cia de  querer,  poder,  saber  O  bem  querer  uem  da 
uoontade  grande,  boa  firme,  delligente  Pêra  soficien- 
te  poder  serrequere  boa  desposiçõ  corporal ,  da  fazen- 
da,  do  tempo  com  possuymento  deuirtudes  naturaaes 
graciosamente  per  nosso  senhor  outorgadas,  Dossaber 
perteecê  comprimento  das  sete  partes  suso  scriptas, 
praticadas  per  boa  conuerssaçom  e  uista  deliuros  uir- 
tuosos  de  que  se  aia  pertencente  saber,  segundo  apes- 
soa  for  com  eixercicio  assy  bem  continuado  que  das 
cousas  asseu  oficio  pertencentes  nom  soomente  per 
entender  mais  detodollos  casos  que  se  oferecerem  co- 
nheçam mais  certamente  e  per  esperiencia  saiba  oque 
deue  fazer.  Eo  corpo  e  nembros  per  boo  custume  sai- 
bham  seruir  oo  que  comprir.  Essobre  todo  he  necessá- 
rio ,  que  nosso  senhor  outorgue  boos  termos  e  acaba- 
mêtos  em  todos  nossos  feitos,  sem  oqual  todo  saber, 
querer,  e  poder  he  depouca  ualiia  ca  per  pequenas 
ocasioôes  ham  doujda  e  deseiada  fim  Eper  outros  li- 
geiros acontecimentos  fora  denosso  querer,  poder,  sa- 
ber, som  estoruados.  Epor  moor  declaraçom  conssijro 
que  geeralmente  que  per  este  siso,  discreçom,  e  pru- 
dêcia,  e  boo  entendimento,  que  todo  filho  por  hu^ 
cousa  segundo  boa  maneira  defallar,  ajnda  queos  no- 


;^0  O    LEAL    CONSSELHEIRO. 

mes  se  mudem  reguardamos  aciquo  fijs.  Primeira  so- 
bre todas  principal,  por  auermos  j^naça  e  amor  denos- 
so  senhor  aqual  seda  e  outorga  aos  delympo  e  boo  co- 
raçom.  Segunda  por  cobrar  honrra^  aqual  se  percalça 
por  fazer  grandes  feitos  de  guerra,  e  na  paz  uyuendo 
uirtuosamente  com  boas  manhas  e  saber.  Epor  teer- 
mos  grande  stado ,  gouernando  nossa  casa,  e  fazenda 
bem  e  grandemente.  Terceira  por  uyuermos  em  saú- 
de e  boa  desposiçom  denossas  pessoas,  oque  as  mais 
uezes  nos  he  outorgado  por  uyuermos  bem  regidos  em 
comer  e  beuer.  E  todos  outros  feitos  com  razoado  tra- 
balho e  folgança  do  corpo,  entender,  e  uoontade, 
temperando  os  cuydados,  sanhas,  e  tristezas  consse- 
Jhandonos  em  nossos  padecimentos  com  físicos,  e  so- 
lorgiaães  ,  sabedores  ,  obedecendo  ,  guardando  seus 
consseihos ,  e  mandados.  Quarta  por  acrecêtar  nos  sta- 
dos,  terras  e  fazendas  oque  se  faz  poendosse  boo  pro- 
uijmento  no  que  ouuermos  E  com  boa  deligencia  e 
auisamento  nos  despoermos  atoda  cousa  denossos  a- 
uançamentos  que  aos  stados  decadahuii  cõuenham 
teendo  despezas  razoadas  pêra  nossa  renda  Quinta  por 
continuadamente  starmos  em  boa  ledice,  oque  muyto 
por  graça  denosso  senhor  seha,  por  bem  guardarmos 
as  quatro  fijs  ou  teençooês  suso  scriptas,  sabendo  filhar 
honestos  spaços  e  folganças,  nom  nos  derribando  nas 
cousas  contrairás,  per  sanhas,  nojos,  ou  cuydados. 
Ecom  nossos  amygos  ou  pessoas  anos  chegadas,  bera 
e  ledamente  sabendo  cõuerssar.  Eporem  os  que  uyuem 
bem  e  dereitamente  guardarem  e  seguyrem  bem  e  le- 
damente estas  cynquo  fijs  ou  teeçooês ,  deuem  seer 
julgados  per  sesudos ,  discretos,  prudentes,  e  bem  en- 
tendidos. Eos  que  huas  seguem  e  outras  leixam  ,  se- 
gundo aquellas  os  louuem ,  saluo  se  for  por  aprimeira 
parte,  que  he  amor  denosso  senhor  deos.  Ca  esta  per 
sy  satisfaz  per  todas.  Essem  ella  todo  que  se  penssa 
seer  siso  discreçom ,  ou  prudência,  he  de  pouco  ual- 
lor,   Ecertamente  eu  uejo  alguiís,  julgados  que  som 


o    LKAL    CONSSELHEIRO.  31 

nuiy  sesudos,  por  saberem  bem  fallar  nas  cousas,  com 
alguã  sessegada  o  onesta  conteiiencia.  que  iion  esguar- 
dam  as  principaaes  destas  fijs,  os  quaaes  eu  assy  nom 
julgaria.  Eporem  pus  esto  em  scripto  com  as  declara- 
çoôes  do  entendimento,  memoria,  e  uoontade ,  suso 
dietas,  peraos  que  esto  nom  teem  grande  pratica,  aue- 
rem  dessy  e  doutrem  mjlhor  conhecimento.  Eporquan-* 
lo  aprincipal  parte  do  siso ,  prudência,  e  descriçom  , 
he  auermos  lipeza  de  coraçom ,  per  quesse  gaança  e 
outorga  orreyno  dos  ceeos ,  e  detal  guarda  seu  funda- 
mento, esta  principalmente  em  nos  tirar  e  afastar  dos 
pecados,  pêra  que  nos  he  necessário  delles  boo  conhe- 
cimento. Porem  screuo  esta  breue  e  somaria  declara- 
com,  peraos  que  sobrellas  pouco  estudam,  o  poderem 
auer  em  geeral  com  alguns  consselhos  e  auysamentos. 
Esse  preguntarem  os  que  he  rezom  ou  uyrem  os  liuroâ 
que  largamente  os  declarom  ,  poderem  com  agraça  do 
senhor  deos  ligeiramente  seer  auysados.  Aqual  guarda 
dos  pecados  pêra  todas  estas  partes  suso  scriptas  nos 
he  tam  necessária  que  sem  ella  cousa  debê  nom  pode- 
mos fazer,  nem  possuyr. 

Capitólio  decimo 

da  declaraçom  breue  dós  pecados,   e  primeiro 

da  soherua. 

Jr  alando  primeiro  da  soberua  que  procede  da  pre- 
sunçõ  e  deseio  depropria  uantagem ,  per  que  penssa- 
mos  que  as  cousas  trouxemos,  ou  podemos  trazer  aal- 
guâ  boa  fim  sem  especial  ajuda  e  graça  de  nosso  se- 
nhor, pêra  bem  de  nossa  alma,  saúde,  e  boo  proueito, 
ou  uirtuoso  prazer,  querendo  semelhar  alucifel  que  dis- 
se subirei,  e  serei  semelhante  ao  muy  alto  e  aqueste 
soo  penssamento  se  afirma  seer  aazo  de  sua  queeda 
Enosso  senhor  em  contra  deste  disse  que  sem  opadre 
cousa  nom  poderia  fazer,  Eo  apostoUo  nom  somos  so- 
.feciente  cuydar  algua  cousa  denos,  assy  como  deuos. 


.S2  o    LEAL   CONSSELHEIRO. 

ir.as  nossa  soficiencia  cie  deos  he.  Segunda  queos  bees 
nos   ueera    per  nossos  nierecinientos  ou  que  nosso  sse- 
nhor   nos   he  em  alguã  cousa  obrigado  pêra  nos  galar- 
doar seruiços ,  ou   alguús   beens  que  por  seu  amor  fa- 
çamos.   Epera   tirar   tal  tençom   dezia   oapostollo.  No 
por   as   obras  da  justiça   que   fezemos,  mes   por  atua 
grande    mysericordia   nos  fezeste   saluos   ossenhor  nos 
mandou  ,  quando  todas  cousas  bem  fezerdes ,  dizee  ser- 
uos  sem  jiroueito  somos.  Terceira  quando  presumymos 
que  somos  e  alguãs  cousas  muyto  auantejados  Eporem 
contra   razom   as   fezemos   ou   os  outros  desprezamos, 
dos   quaaes  se  diz  ,  As  cousas  mais  fortes  que  ty  nom 
buscaras.    Eas   mais   altas   nom   scoldrinharas  ,    Enom 
tentaras   ossenhor  teu  deos,  êno  euangelho  do  farizeu 
quesse  chegou  ao  altar,  dizendo  senhor  graças  te  dou, 
porque   nom  sou  tal  como  quaaes  quer  homeens  mata- 
dores,    roubadores,  ou   como  í'ste   publicano.    Ca  eu 
jejuu   dous  dias   na  somana  e  de  quanto  ey  dou  adizi- 
ma ,  eo   publicano  delonge  estando,  os  olhos  ao  ceeo 
Nom  se  atreuia  daleuantar  dizendo  amerccate  demym 
pecador.  Enosso  senhor  determyna  que  este  publicano 
sse   partio   muyto  mais  justo  queo  fariseu  que  despre- 
zaua ,  ajnda  que  lhe  desse  graças  dos  beens  que  sentia 
enssy.    E  daquesta  soberua,  som  outras  duas  deferen- 
ças.    Huã  que   sse   chama   spiritual ,  e  outra  temporal 
Aespiritual  se  leuanta  per  cadahuã  das  guisas  suso  scri- 
ptas ,  por  aazo  das  uirtudes  e  bondades.  Ea  temporal, 
em  poderes,  riquezas,  sotilleza,  manhas  boo  parecer, 
fortelleza   de   coraçom   e  do  corpo  cõ  boa  desposiçom 
dei   Eassy  detoda  cousa  que  aesta  uyda  perteence  Etê 
este  pecado  outras  três  deferenças  Primeira  que  caya- 
mos   em   el   per  penssamento  leixandonos  em  el  jazer 
perlongadamente,  ou  per  conssentymento  da  uoontade 
determynada.  Segunda  per  pallauras  sçriptas ,  ou  mos- 
tranças   e   contenenças.  Terceira   per  obras  que  faze- 
mos,    mandamos,  ou   conssentymos   por  nossa   uanta- 
gem  e  mal  ou  abatymento  doutrem.   Edas  primeiras 


p 


o    LEAL    CONSSELHEIRO.  33 

defereças  A  Terceira  geeralmenle  falando  he  maa.  E- 
assegnnda  peor  E  a  terceira  discret^õ  spiritual  tempo- 
ral. Etambem  desta  terceira  do  penssaniento  diclo 
mostrança,  e  obras,  tanto  esta  na  deferença  dos  feitos 
que  se  nom  podem  bem  declarar,  qual  seia  peor,  mes 
por  todas  partes,  conheçamos  que  podemos  em  esie 
pecado  cayr,  oqual  muyto  deuemos  derrefrear,  se  bem 
penssarmos,  no  que  se  diz  que  nosso  senhor  aos  fo- 
beruosos  contradiz,  e  os  despõoe  da  seeda,  e  aleuanta 
os  omyldosos.  Epor  que  eu  uy  muylos  tocados  deste 
pecado  com  suas  presunçoões  mal  contentes  desagra- 
decidos  passarem  tristes  e  trabalhosas  uidas ,  fiz  este 
consselho  ajuso  scripto  ,  oqual  me  parece  que  uem 
arrazom  seer  aquy  tralladado. 

CapitulJo  XI, 
do  dicto  côsselho. 

í  odo  boo  homem  pella  g;raça  dedeos  deue  teer  en- 
tençom  detrazer  sempre  ante  seus  olhos,  os  beês  e 
iiiercees  que  recebe  delle.  Eesso  meesmo  dos  senho- 
res. Enas  boas  obras,  e  seruiços  que  lhe  fazem  seus 
amygos  e  seruidores.  Esseer  sempre  contente  do  que 
ha  pois  lhe  uem  per  ordenança  do  seishor  deos  que 
nom  pode  fallecer.  Conssijrando  como  he  falecido  de- 
firme  fe  e  boa  sperança ,  e  grande  caridade,  amor  do 
senhor  sobre  todailas  cousas.  Epello  seu  aellas  como 
he  rezom  Eesso  medes  deue  conssijrar  nos  pecados  e 
erros  que  contra  el  fez,  e  na  myngua  daboa  pratica 
contra  senhores  e  amygos  e  seruidores  ou  aldemenos 
que  nom  tem  feito  acerca  delies  tanto  quanto  deuya 
per  que  lhe  ajam  grande  obrigaçõ  perao  muyto  ama- 
rem,  ou  seruirem  ,  Eguardasse  muyto  depenssar,  auer 
em  este  mundo,  iiyda  nem  cousa  perfeita  ca  esto  nom 
pode  seer,  porque  nosso  senhor  otem  ordenado  perna 
6ua  sancta  gloria,  mes  do  que  ouuer  seia  contente  E- 
Hom  resguarde  ao  que  lhe  myngua  pêra  comprimento 

E 


34  O    LEAL    CONSSELHEIRO. 

de  seu  deseio ,  creendo  sempre  que  he  muyto  mais  do 
que   merece   Edaqui    lhe   nacera  contijnuado  e  grande 
adeos  e  aos  senhores  temporaaes  amigos  e  seruydores. 
Conssijrando   que   lhe  fazem   principalmente  bem.  por 
suas   bondades  e   nom    tanto   per  seus  merecimentos, 
Auera  humyldade  e   paciência  nas  cousas  contrairás. 
Ca  sempre  lhe  parecera  que  mais  mal  merecia,  ou  mjn- 
guamento    de   bem   por  seus  pecados  e  culpas  do  que 
recebe.  Será  sempre  muy  contente,   pois  entende  que 
aalera   dos  merecimentos  he  galardoado  bem  trautado 
e  seruyndo  -  Eda  quy  lhe  uíjra  boo  prazer  continuado 
com  muy  boa  teençom  e  grande  caridade  acerca  deto- 
dos-  Desto  sentem  ocontrairo  os  que  continuadamente 
trazem  ante  os  olhos  da  sua  memoria,  como  som  boos 
em  uirtudes  de  grande  merecimento  ,  ante  deos  derei- 
tos  seruidores  asseus  senhores,  de  alio  e  grande  linha- 
gem ,  engenho  ,  e  sabedoria ,  auendo  boa  côuerssaçom 
acerca  dos  amigos  e   seruidores.    Eporem    concludem 
que   todallias  cousas   lhe  deuem    uijr  ao  comprimento 
desseus  deseios  sentindo  muyto  qual  quer  cousa  que 
assy   acabar,  ou    possuyr  nom  podem  ou  de  contrairo 
que   lhes   seia   feito,  ca   entende   que  deos  eo  mundo 
erram  muyto  quando  todo  nom  uem  como  lhes  parece 
que   he    rezom.    Ca   este   cuydado   esconde   todas   sas 
mynguas   e   fallecimentos.    Eante  amemoria  continua- 
damente  apresenta  cousas  de  seus  principaaes  mereci- 
mentos,    ahuu  deuirtudes  daalma ,  do   corpo,    dessua 
honesta   e   boa   pratica,  aoutros   seruiços  feitos  e  boa 
desposiçom  peraos  fazer.  Eassi  em  semelhante  penssom 
sempre  nas  cousas  dessua  uantagem  nom  lhe  nembran- 
do  seus  pecados  malles  e  fallecimentos.  Edaquy  uem  , 
nunca   muyto   gradecerem  os  beens  e  mercees,   honr- 
ras ,  e   seruiços   que   lhes  seiam  feitos,  que  entendem 
e  teem  que  muyto  mais  merecem.  Eassy  som  nembra- 
dos  das  cousas  contrairás,  ou  da  myngua  que  ham  do 
comprin;enío  desseo  deseio,  que  ajnda  que  outras  muy- 
tas  ajam  degraiide  mellioria,   nom  as  podem  sentir. 


o    LEAL   eONSSELHEJRO.  35 

mes   naquellas  contrairás,  trazendo  sempre  suas  nem- 
branças   e  deseios  occupados  tiralhcs  o  boo  e  iiirlnoso 
prazer  e   fazeos  desconhecidos  com  pouca  paciência  e 
contentamento,    e   muy  fracos   em   caridade,  porque 
entendem    que    cousa    nom   recebem   graciosamente , 
mes  que  da  quello,  que  som  merecedores  alguã  parte 
terom.    Eesto  os   faz  continuar,  assy  ásperos  sempre, 
tristes   e   engratos   com  alleuantamento  de  tal  presun- 
çom  e  deseio  dauerem  todo  oque  deste  mundo  queriom 
que   sempre  peioram  demal  em  peyor,  alaa  que  acaa- 
bom   suas    penosas  uydas ,  ou  que  ossenbor  deos  nosso 
grande   físico    e   roeestre  os  castigue  com  tal  sofreada 
que   os   faça  contentar  de  muyto  menos,  onde  domais 
nom  podia  seer  contentes,  Equando  assy  rijamente  som 
castigados,  querendo   el   que  recebam  emenda,  falloe 
tornar   ao   primeiro   cuydado  suso  scripto,  e  conhecer 
obem    e  uirtude  que  jaz  em  el  em  naqueste  tanto  nial 
e  falleci mento.    Outra  conssyraçom  deuemos  sobresto 
auer.  Conssijre  cadahuu  a  curteza  dauyda  presente,  e 
como  em  ella  traz  por  cabedal ,  segundo  odicto  de  sal- 
lamam   allegrarsse   e  fazer  bem  Eque  delle  nom  deue 
leixar  nê   despender  saiuo   com   sperança   dauer  moor 
gaança,  assi  que  nom  cesse  de  obrar  sempre  bem  em 
toda  cousa  que  poder,  senom  por  ai  que  melhor  seia. 
Edo  prazer  que  onom  perca  decoraçom,  nem  filhe  tris- 
teza  ou  nojo,  saluo  por  tal  cousa  per  que  aja  speran- 
ça de   nosso   senhor  deos  que  cobrara  cento  por  hufi , 
no  presente,  e   na   fim  uyda  perdurauel ,  segundo  que 
no   euangelho   per  elle  foy  prometydo ,  mas  por  ocon- 
tynuado  cuydado  da  nembrança  das  próprias  uirtudes, 
bondades    e    outras   auantagees   em   que   parece  seer 
acrecentado   dignas   de   grande   gallardom ,    amor,    ou 
seruiço  com  sobeio  sentido  dos  agrauos,  enjurias,  fal- 
licimento,  derreuerenças  ,  ou   seruyços  auendo  grande 
e  rija  teêcom  dauer  algiiãs  cousas  temporaaes  por  com- 
prir  cobiça  da  carne  dcs  olhos  e  soberua  da  uyda,  faz 
muyto  toruar  no  bem  fazer.  Eo  prazer  muyto  apouquen- 

E  2 


36  O   LEAL   CONSSELHEIRO. 

ta,  OU  detodo  tira  por  comprir  uoontade  sem  outro 
uirLuoso  fundamento.  Bem  he  uysto  que  com  nossa 
força,  e  poder,  com  agraça  do  senhor  deos ,  deue  seer 
leixado.  Epor  que  uy  muytos  homeês  errarem  por  mjn* 
gua  de  querer,  ou  saberem  assy  reger  seus  coraçoões 
per  este  sancto  e  uirtuoso  cuydado ,  muylo  proueiloso 
en)  esta  uyda  pêra  qualquer  estado,  encamynhados 
niuy  special  do  saluamenlo  das  nossas  almas  ,  com 
agraça  do  senhor  deos,  e  de  nossa  senhora  sancta  ma- 
ria,  por  seu  seruyço  e  nosso  bem,  screuy  estas  poucas 
pailauras  por  auisamento,  lembrança  mynba ,  e  dal- 
guãs  pessoas,  que  delaaes  feitos  teem  pequeno  conhe- 
cimento. 

Capitullo  XII. 
Da  uaâ  gloria. 

U  aam  gloria  no  liuro  dos  statulos  e  nos  das  colla- 
çooês  dos  sanctos  padres,  se  declara  apartadamente 
da  soberua.  por  principal  pecado,  ajnda  que  per  muy- 
tos se  ponha  por  seu  ramo  E  tem  nacimento  doprazer 
desordenadamente  filhado  dessua  melhoria,  ou  queo 
deseia  muyto  dauer  Edossobeio  contentamento  de  pró- 
pria uoontade.  onde  e  como  nom  deue.  Eper  ti'ts  par- 
tes se  pode  filhar.  Primeira  das  uirtudes,  ou  sobre 
fundamento  delias  Segunda  das  cousas  meaãs,  assy  co- 
nio  da  fremosura  ,  força,  riqueza,  montes,  caças,  jo- 
goc ,  e  outras  cousas  semelhantes  Terceira  dos  malles 
e  pecados  que  ja  fez  husa  ou  he  desposto  pêra  obrar, 
comendo,  beuendo ,  muyto  sobeio,  e  dormyndo  com 
melheres,  mal  matado,  ferindo  e  mentindo,  enga- 
nando ,  e  outras  obras  reuessadas  fazendo  ,  de  que 
muytos  filham  assaz  folgança  deshordenada.  Esse  ga- 
bam delias  largamente  como  se  fossem  dignos  de  lou- 
vor, ou  que  por  ello  ,  antre  pessoas  uirtuosas,  mere- 
çam seer  prezados.  Etodas  estas  três  maneiras  nos  som 
defesas  Aprimeira,  per  ossenhor  quando  seus  dicipullos 
Be  gabauoni ,  por  que  os  demonyos  lhe  obedeciam  em 


o    LEAL    CONSSELHEIRO.  37 

seu  nome.  Eel  lhes  disse  que  daquello  nom  filliassem 
prazer,  mas  que  se  allegrassem.  porque  seus  nomes 
erom  scriptos  nos  ceeos.  Eo  apostollo  recontando  as 
uirUides  e  mercees  que  do  senhor  recebera,  disse  que 
em  sy  por  ellas  todas  nom  filharia  gloria  senom  em 
suas  enfermidades  por  tal  que  morasse  em  el  auirtude 
de  xpd.  Epor  assegunda  maneira  se  diz  PiOm  se  glorij 
oforte  em  ^ua  fortelleza ,  nem  rico  em  sa  riqueza,  quê 
sogloriar  no  senhor  aja  gloria,  enno  ecclesiastico ,  nom 
louDes  ohoinem  por  sa  fremosura.  Eoapostolio ,  nom 
aquel  que  se  louua  he  prouado ,  mes  quem  deos  louua 
Epor  aterceira  se  diz,  que  os  semelhantes  gãaçom 
gloria  demaao  nome,  por  sa  confusom.  Euo  salmo, 
por  que  te  glorias  em  mallicia,  por  seéres  poderoso 
pêra  mal  obrar.  Eda  questas  três  guisas  erramos  per 
CU}  dado,  como  suso  he  dicto  da  soberuia,  e  per  pal- 
laura,  g.ibandonos  E  fallando  de  tal  maneira  que  da- 
mos aazo  pêra  nos  gabarem  ,  Eper  obras  fazendo  al- 
guiis  coii-^as  per  razom  deuaã  gloria  principalmente  fi- 
lhada por  cadahuã  das  três  partes  suso  scriptas,  e  de- 
taaes  maneiras  depecar.  Aprimeira  quesse  faz  por  fun- 
damento de  uirtude  he  maa.  Ea  segunda  das  meãas 
he  ppor.  Ea  terceira  dos  malles  he  muyto  peor.  Ede- 
uesse  abater  esta  uaã  gloria  penssando  no  dicto  de 
sallamã  que  todallas  cousas  dauyda  presente  sam  uay- 
dade,  dizendo  que  cando  uirmos  cousas  per  nos  fei- 
ctas,  (leque  nos  queremos,  mais  que  he  razom,  ou 
como  nom  deuemos,  allegrar.  Nom  anos  senhor,  nom 
anos,  mes  ao  teu  nome  dou  gloria,  nebrandonos  odi- 
cto  do  euangelho.  que  nossas  obras  uirtuosas  nom  fa- 
çamos, por  seermos  louuaílos  dos  homeês,  ca  perde- 
remos ogallardam  denosso  padre  que  he  nos  ceeos. 
Porem  quando  obem  doutra  guisa  se  nom  pode  fazer, 
nem  se  deue  deleixar,  mes  fazello  por  prazer  aosse- 
nhor  deos  principalmente  sabendo  queo  deuemos  ser- 
uir,  segundo  odicto  do  apostollo  per  defamaçooês  e 
boa  fama.  Outra  maneira  he  de  uaã  gloria  muyto  sem 


38  o   LEAL   CONSSELHEIRO. 

proucito  de  pouco  recado  cm  que  niuytos  dos  q^e  som 
chamados  entendidos  caãe  per  fantesiarem  no  que  nom 
pessue,  nõ  estam  despostos  peraa  uer,  huus  em  sta- 
dos,  outros  em  riquezas,  guerras,  uencimento,  e  uy- 
da  com  uiço  repousada.  E  destas  fantesias  recebem  fol- 
ganças e  sandeu  prazer  que  os  tira  depenssarem  e  o- 
brarem  no  que  lhes  compre.  Essobre  taaes  fundamen- 
tos ,  cousa  nom  tem  dobrar  pêra  dar  aexucuçom  ,  nem 
meter  em  proueitosa  ordenança.  Eatal  cuydado  chama 
oapostollo  ,  escorilitas  ou  soltamente  de  fantesia,  que 
pêra  cousa  nom  uai,  de  que  nos  encomenda  que  nos 
guardemos  como  dobra  empeeciuel  e  sem  proueito. 
Casse  da  pallaura  occiosa  deuemos  dar  conta,  detal 
cuydado  e  despesa  de  tempo ,  nom  pensso  que  fique 
porsse  demandar.  Epera  esto  me  parece  cousa  bem 
proueitosa,  estudo  deboõs  liuros,  em  que  auontade  se 
torne  apenssar,  cessando  dos  outros  proueitosos  pens- 
samêtos,  em  que  lie  douydoso  aturar  continuadamen- 
te. Equem  ouuer  deseio  per  sy  nouamente  screuer  al- 
guâ  cousa  que  mal  nom  seia,  nem  se  dando  mais  atai 
estudo  ou  screuer  por  fogirem  aos  necessários  cuyda- 
dos  e  trabalhos  que  asseu  estado  côuem ,  uai  pêra  es- 
te descornymento  da  uoontade  e  pêra  tirar  noios,  sa- 
nhas, fantesias.  Eacrçcêtar  sempre,  com  agraça  de- 
nosso  senhor  deos  em  boo  saber  e  uirtude.  Epera  es- 
quyuar  este  pecado  dauãa  gloria,  tâbem  he  boo  remé- 
dio, nom  fallar ,  screuer,  ou  dar  aazo  que  se  falle  sem 
boo  fundamento  perante  nos,  em  nossos  próprios  fei- 
tos. Enas  cousas  feitas  com  entençom  de  uirtude  , 
conssijrar  aquella  pallaura  de  dauyd  ,  onde  diz  queo 
senhor  quebrantara  os  ossos  daquelles  que  fazem  seus 
feitos  principalmente  por  prazerem  aos  homeês,  mos- 
trandonos  cjue  nom  leixenios  anos  meesmos  fazer  cou- 
sa que  seia  cõ  propósito  dauaà  gloria.  Edepois  que 
assy  começarmos  nos  trabalhemos  doas  acabar  com 
semelhate  regymento  dauoontade,  de  tal  guisa  que 
nom   torne  em   uaão  todollos  fruilos  denossas   obras. 


o  LEAL  CONSSELHEIllO.  3  9 

Eaesta  mortal  peçonha  diz  saiu  joliam  casyano  ,  pode- 
remos ligeiramête  fugir,  seconsijrarmos  de  todo  per- 
der, nom  soo  ofruito  dos  nossos  trabalhos,  que  fezer- 
nios  com  propósito  deuaam  gloria,  mas  seremos  cul- 
pados degrande  pecado  obrigados  apagar,  assy  como 
sacrilégios  per  tormentos  etí^rnaaes,  segundo  aquelles 
que  com  injuria  de  deos ,  aobra  que  ouuerom  defazer 
por  seu  respeito  ,  mais  aquyserom  obrar  pellos  ho- 
meens  ,  auançando  agloriado  mundo  sobre  a  quel  que 
he  conhecedor,  e  escoldrinhador  das  cousas  scôdidas. 
Por  quanto  este  pecado  dauaã  gloria  muytos  engana 
per  concordàça  que  ham  conssigo ,  e  aquello  que  oco- 
raçom  por  ella  deseia  fazer,  ou  dizer,  per  razom  se 
quer  encobrir,  mostrando  que  he  obra  meritória  fa- 
zello  assY,  por  dar  boo  exemplo  aos  outros,  oque  nom 
he  uerdade,  por  que  oprincipal  nacimento  dauaam  glo- 
ria procede.  Huà  proua  certa  sobresto  me  parece  pro- 
poer  de  nom  fazer,  ou  dizer  aquella  cousa  per  alguíí 
lempo  e  seo  faz  per  requerimento  do  coraçom  com  a- 
quella  uaã  folgança ,  achara  tal  pena  que  nom  se  po- 
derá dello  bem  guardar,  e  quando  for  sentida  deuesse 
conhecer,  queo  nacimento  dauaã  gloria  procede,  mais 
que  darrezoin  ,  pois  nom  obedece  ao  que  ella  manda. 
Edallv  auante  fiuardesse  muTto  dessemelhante  fazer,  e 
faça  conciencia  do  que  assy  fezer ,  ou  disser.  Esse  uyr 
q  compre  desse  contynuar,  diga  em  seu  coraçom,  a- 
quel  dicto  de  sam  bernardo,  que  por  ella  onom  come- 
çou, nê  oleixara  defazer.  E  que  daquello  anos  nom  da- 
mos gloria,  mas  ao  nome  de  nosso  senhor,  e  todauya 
husar  dello  pouco ,  se  anecessidade  nossa ,  ou  dos  ou- 
tros, onom  demandar  he  amais  segura  parte. 


40  O  LEAL  CONSSELHEUIO. 

Copitullo  XIIJ, 
Do  caso  em  q  presta  auaã  gloria. 

xle  conthendo  no  liuro  das  collaçoões  que  opecado 
dauaã  gloria  per  uezes  aproueila  em  refrear  os  pecados 
carnaaes.  Esto  he  quando  alguu  selem  ê  conta  dehoo 
e  grande  nome.  O  qual  seendo  tentado  da  luxuria ,  be- 
uedice  ou  semelhante.  Con^sijrando  como  se  obrasse 
aquello  que  dissera  uencendosse  alai  pecado,  perderia 
sua  fama  de  que  muyto  se  preza,  leixa  deo  fazer,  e 
posto  queo  nom  fa(;a  por  aquella  fjm  que  deueria  .s. 
principalmente  por  sernico  de  nosso  senhor.  Porem 
côíado  he  por  bem  ,  e  por  bem  feito  seendo  assy  ten- 
tado leixar  demal  fazer.  Epresta  esso  medes  segundo 
amvm  parece  pêra  soportar  des/ionrras,  perdr.s,  ou 
mailes,  quando  alguú  penssa ,  jou  lhe  dizem  como  em 
ello  obrou  ,  uirtuosamenle  bem  ,  pellejando  posto  que 
uencido  ou  mais  ferido  fosse.  Ealguãs  cousas  que  bem 
soportou  ,  ou  a  que  respondeo  per  feito,  ou  dicto  cO' 
mo  denya.  Eassy  em  casos  semelhantes,  ella  faz  me- 
nos sentir  omal  recebido  por  ocontentamento  que  filha 
cada  huíi  do  que  faz.  Eacerca  desto ,  eu  conssijro  huã 
pratica  que  ueio  teer  amuytos  que  se  lêem  em  conta 
de  boõs  e  uirtuosos,  a  qual  me  parece  muyto  errada. 
Ca  elles  estando  em  assessego ,  ou  bem  auenturaiiça 
penssã  que  nom  som  laaes  como  quaaes  quer  outros 
homeês  ,  mas  som  compridos  deuirtudes.  Eporem  que 
sobre  os  outros  deuem  seer  honrrados  e  prezados.  E- 
quando  ryjo  per  tentaçõ  de  alguu  pecado  aque  muyto 
se  jnclinam  som  requeridos,  leixansse  uencer  tam  fra- 
camente como  aquelles  que  ante  desprezauam  ,  e  por 
pecadores  auiã.  Esse  alguém  os  quer  castigar,  ou  cons- 
selliar  aquel  que  nom  queria  cõssentir  seer  theudo  em 
conta  dos  outros  ,  filha  por  sua  desaculpaçom  ,  dizer 
que  he  homem  ,  e  que  lhe  conuem  sentir  oq  os  outros 
Bentem ,  fazendo  como  elles.    Oo  que  enteiiçom  tam 


o   LEAL    CONSSELIIEIRô.  41= 

errada  em  abollos  estados,  na  boa  uentiira,  onde  per 
grande  refreaniento  com  memoria  dos  fallecimentos  se 
deuya   trazer  ocoraçom   em  grande  assessego  de  con- 
tentamento e  repouso  de  hurojldade  leixallo  jnchar  com 
própria    presunçom   de  suas   uirtudes   e   laílecimentos 
alheos.    Enas   lentaçooês  esquecydos  da  boa  teençom 
e   propósito   quesse  auya  na  segurança  leixarsse  ueen- 
cer   coíissentyndo   e  fazendo  aquel  mal  q  ante  auorre- 
ciam    Eos   que   tat  obrauom   geeralmente   erom   delle 
prasmados.    Este  he   huii  grande  fundamento  depecar 
esquecyniento  daquel  boo  deseio  ,  e  propósito  que  das 
uirtudes  auyamos.  ca  bem  he  uysto  os  mais  dos  peca- 
dores assy  cairem.  por  que  acastydade  que  per  alguíís 
he   louuada   e   deseiada ,  uijndo   asseer   riio   tentados, 
atornam  teer  em  pequena  conta.    Eo  acordo  que  com 
algua   pessoa  muyto  se  deseiaua   guardar,   per  sanha 
enframados,  nom   se   tem   por  mal   uijr  com   ella  em 
desacordo  ,   se  do  propósito   e  boa  teençom  passada 
nom  ueem  perfeito  lembramento  Eassy  nos  semelhan- 
tes  casos   per   myngua   de  tal  uirtuosa  lèbrança  se  fa- 
zem os  mais  dos  pecados.  Eas  pessoas  uerdadeiramen- 
te   amadores   e   seguydores  das   uirtudes   teê  apratica 
contrairá    .s.   no   assossego   boa  uenturança  sempre  se 
teem    em    conta  de  quaaes  quer  outros  homeens  falle- 
cidos,  e  pecadores  dizendo  oque  disse,  obem  auentu- 
rado   padre  sam  francisco ,  seendo  preguntado  de  seus 
frades  que  julgaua  dessy  e  de  huú  publico  pecador  que 
lhe  foy  mostrado.  Eel  respondeo  quesse  auya  por  peor 
que   el.  disserem  elles  que  tal  pallaura  era  contrafeita 
por  que   bem  era  uista  quanta  deferença  dei  ao  outro 
era   conhecida.  Eel  afirmou   dizendo   que   se  nosso  se- 
nhor  tanta  graça  quysera  dar  aoutro  como  ael  por  sa 
mercee ,   outorgara,    que   mais  perfeitamenjLe  com   sa 
força   e   uirtudes   naturaaes   lhe  respondera  "per  obras 
uirtuosas   que   el.  Eassy   os  que  syntem  e  seguem  em 
seus   coraçoôes  uerdadeira  humyldade,  nunca  lhes  fal- 
lece  dereita  razom  per  que  ante  deos  se  acusem  e  a- 

F 


42  O    LEAt    CONSSELHEIRO. 

fastem  apresunçom  dessy  e  menos  preço  dos  outros 

Capilullo  XIIIJ. 
Que  falia  da  dieta  uãa  gloria. 

V!^nanto  despraz  anosso  senhor  ateençom  desse  leer 
cadaliiui   assy   medes  em  muyto,  os  outros  desprezan- 
do, mostrao  aquel  enxemplo  do  fariseu,  e  publicano , 
que  no  templo  faziam  oraçõ,  que  por  semelhante  pre- 
sunçom   e   desprezo  o  publicano  per  humyldade  foi  do 
senhor  por  mais  justo  julgado.  Eafesta  que  fez  opadre 
ao   filho   degastador   que  confessando  seu  fallecimento 
dizia,  nom  soo  digno  seer  chamado  teu  filho,  da  jnssy- 
nanca ,  quanto  praz  ao  senhor  confessarmos  nossos  fal- 
Jicimentos  com  deuyda  humyldade.  Econio  na  boa  an- 
dança he  proueitosa  tal  tençom  Assy  os  uirtuosos  seê- 
do    tentados   nõ   teem   amaneira  dos  outros  homeens, 
ca   se   per   deseio  dalguS  molher  som  requeridos  mos- 
trandolhe  sua  maa  uoontade  que  deue  seguyr  oq  fazem 
os  outros,  em  tal  tempo  muy  uirtuosamente.  Respon- 
de  assy   medes   que  nom   setem   por   tal   como  elles; 
conssijrando   os  beens   e  mercees  que  do  senhor  deos 
tem  recebido  dandolhe  alguii  conhecimento  dei  sentin- 
do do  bem  e  folgança  das  uirtudes ,  conhecêdo  que  se 
fosse  uencido  tal  tençom  perderia.  Equando  põem  dhuu 
parte  afolgança  daquel  pecado,  ou  semelhante.  Edou- 
tra  que  fará  desprazer  ao  senhor  deos,  perdera  os  gran- 
des  beens  do  possuir  dauirtude  ael  contrairá,  e  ocon- 
tentamento  que  dessy  por  ella  contynuadamente  sente, 
cessado  juizo  detodos  uyuentes ,  contradiz  com  grande 
desprezo   ao  pecado ,  dizendo  que  nom  se  tem  por  tal 
como  quaatís  quer  outros  homeens,  ca,  mais  quer  se- 
guir auirtude  ca  se  uencer  aelle  como  faz  amayor  par- 
te  delles.    Edesto   se   conta   do   dicto  sancto  francisco 
qi«e  se^ndo   tentado  per  deseio  dauer  molher  e  filhos, 
nom   Fe  teue  em  conta  dos  outros  pêra  se  uêcer,  mes 
de  neue  fez  huâ  grande  peella  e  outras  pequenas,  antr^ 


o   LEAL   CONSSELIIEIRO.  '43 

as  qnaaes  desuestido   se   lançou,  dizendo  assy  medes 
que  com  elJas  em  logar  demolher  e  filhos  folgasse.  As- 
sanha,  jnjurias,  agrauos,  como   se   deuem   desprezar. 
JNosso  senhor  odemostra,  mandando  que  amemos  quem 
nos   mal   fezer.  Eoremos  por   aquelles  que  nos  persse- 
guirrm  ,  e   paremos   hua   queixada   quando   nos  derem 
na  outra,  jndo  dobrez  camynho  com  quê  nos  per  força 
per  alguii   spaco   leua .  dando  assa} a  degrado ,  aquém 
nos  fiiiiaomanto.  KiTo  dicto  liuro  das  collaçooês  se  lee 
dehiJii   mdje   que   era   doestado   per  certos  jnfiees,  os 
quaaes  lhe  deziam  que  mostrasse  synal  debondade  que 
anya   em   sa   ley.    Oqual  respondeo ,  este  uos  dou  que 
soo  firme  em  boo  assessego  demeu  coraçom  ,  por  todo 
mal  que  me  íazees  e  dizees,  nem  omouerei  com  agra- 
ça  do  senhor  deos,  ajnda  que  niuyto  mais  seia.   Ea  se- 
melhante  tempo  presta  muyto  teersse  cadahuii  em  tal 
conta   que  nom   he   pêra  se  uencer  com   amercee  de 
deos,  nas  têtaçoões  queos  outros  uen.cem.  Eque  alem- 
brança   em   tal  tempo  suso  scripta.  uenha  como  ajuda- 
dor  per  uaà  gloria.    Conssijrando   cadahuu  oestado  e 
fama  que  tem  e  teerdeseia,  nom  empeece ,  mas  apro- 
ueita.  Essemelhante  presta  muyto  nas  pelleias  e  gran- 
des  feitos,  cadahuíí   se   teer  em  tal  conta,  que  nõ  ha 
per  el  depassar  myngua  como  por  qual  quer  outros  ho- 
meens.    Eas  molheres  pêra  se  guardarem  ,   quando  re- 
querem,  contra  suas  honrrag,  ou  per  sanha  som  tenta- 
das  pêra  fazer  ou  dizer  cousa  que  nom  deuem.    Etãto 
me  parece  que  anosso  senhor  despraz  nos  outros  casos 
auaã   gloria   que   muyto   claramente  nos  mostra  taaes 
abatymentos   nas  cousas  deque  nos  queremos  gloriar  e 
gabar  que   bem    poderemos   conhecer   como  elle  quer 
detodos  nossos  beens  ael  seerem  dados  louuores.  Equem 
se   quyser  gloriar,  ê  el  se  glorij.  Edo  presumyir  nom 
pensso   que   alguu  se  queira   e  saibha  bem  reguardar 
quesse  nom  ache  fallecer  onde  mais  compria  seer  per- 
feito, se  toda  sua  sperança  nom  poser  ê  nosso  senhor, 
assy  oteendo  no  coraçom  e  per  pallaura  claramente 

F  2 


44  O    LEAL  dONSSELHElRO. 

ccõfessando.  E  como  tal  teeçojn  auendo  principal  es- 
forço  em   sa   graça,  todos   grandes  e  boos  feitos  anos 
possyuees,   podemos   cometer   e   contynuar,  speraudo 
auer  dyuyda  concliEsom.  Epoderemos   assy   dizer   por 
dar  boo  exemplo  ,  oproposito  que  aiiemos  de  nos  guar- 
dar do   pecado   e   cousas   mal  feitas,  como  sam  paulo 
dizia,  que   nunca   seria   que   el   ia  mais  em  ai  filhasse 
gloria  senom   em   na   cruz   de   nosso  senhor  jhu  xpô. 
Eque  amorte,  nyda ,  anjos,  poderios,  nem  outra  cou- 
sa  oparteria   dassua  caridade.   Eo  muy  vyturioso  e  de- 
grandes  uirtudes  Elrrey  meu  senhor  e  padre  cuja  alma 
deos   aja  estando   antre   gibaltar   e  aljazira  em  mynha 
presença   demeus  jrmaaos  os  jfantes  dom  pedro ,  dom 
hêrrique,  e  oconde  debarcellos,  e  dos  dosseu  consse- 
Iho ,  seendolhe    por   muytas   rezoões   dietas  per  alguiis 
delles  contraíres  de  nossa  teençom,  afirmando  que  nom 
deuya  tornar  sobre  cepta,  deque  seleuantaria  com  gran- 
de fortuna  por  os  muytos  synaaes,  uentuiras  contrairás 
que  ouuera  per  morte  da  muy  uirtuosa  Raynha  mjnha 
senhora,    e   madre,    e   tempo   contrairo,  que   muytos 
dias   nõ   conssentio   que   filhássemos   oporto.    Egrande 
pestenença   que   na  frota  era.  el   disse   que  ocoraçora 
nom   lhe  cossêtiria  de  partir  ataa  prouar  toda  sua  for- 
^a.  Eque  mais  querya  morrer  em  oprouar  fazendo  seu 
deuer   que  detal  guisa  se  partir,  ca  dos  synaaes  e  uê- 
íuiras  os  boos  hoomeês  nom  ham  fazer  conta  onde  fos- 
sem certos  que  obram  dereitamente  mais  deuyam  con- 
tinuar ataa  mais  nom  poderem.  E  que  nom  embargan- 
do  todas  suas  rezoões  com  agraca  do  senhor  deos  en- 
tendia  filhar  acidado.    Epor  sua  mercee  foy  feito  me- 
lhor que  se  podia  peenssar.  Eassy  omuy  excelête  rrey 
henrrique   de   hingraterr.a   meu  primo  que  deos  aia  na 
batalha  dajein  curt  disse  aballando  contra  seus  jnmijgos 
que  acasa  dingraterra  nunca  por  el  pagaria  huu  nobre, 
que  uenceria  ,  ou  morreria  na  quella  batalha.  Eprouue 
anosso  senhor  que  por  seu  boo  esforço  foi  uencedor  do 
priíicipal  poder  defrança  com  oyto  myl  combatentes 


o    LEAL   CONSSELHEIRO.  45 

per  toda  sua  gente.  Edesta  guisa  aquelles  que  uerda- 
deiramente  em  sy  conhecerem  tal  teeçoni  quando  uy- 
rem  que  compre  podem  com  iieuerença  deuida  anosso 
senhor  deos  bem  declarar  seu  deseio ,  e  uoontade ,  mas 
nos  outros  tempos  sobeia  presunçom ,  gabamento ,  e 
uaã  gloria  pêra  apresente  uyda,  e  futura,  traz  muyta 
perda  com  pouco  prazer,  e  proueito  temporal.  Ea- 
questa  enssynança  me  parece  proueitosa  desseer  scri- 
pta  pêra  se  conhecer  em  que  tempo  presta,  ou  empee- 
ce  auaa  gloria,  teermonos  em  grande  e  pequena  conta 
e  de  nos  algua  cousa  de  boo  propósito  dizermos,  ou 
nos  callar. 

CapiLuUo  XF. 
Da  éueja. 

JL^a  êueja  nem  desprazer,  das  auantageens,  ou  jgua- 
Jãças  por  nosso  respeito  que  ueeraos  em  outrem.  Epr^a- 
zimento  desseus  malies ,  perdas,  e  abatymenljDS.  Ea- 
questo  esso  medes  se  Jilha  per  outras  três  partes  como 
assoberua,~e  uaíi  gloriais,  das  uirtudes,  cousas»meaãs, 
edos  malies.  Etem  special  fundamêto  ameu  juizo  em 
soberua ,  uaã  gloria,  e  deshordenada  cobijça.  Cao  so- 
beruoso  querendo  em  cadahuã  das  cousas  suso  ditas 
das  outras  leuar  auantagem  pollos  desprezar  ueendo 
que  os  jgualom  ,  ou  lhes  leuom  melhoria  por  abaty- 
mento  dauoontade  e  propósito  recebem  gram  despra- 
zer Edesta  guisa  os  uaãgloriosos  por  oprazer  que  filha 
das  auantageens  que  penssam  auerem  sobre  os  outros 
de  que  suas  uoontades  som  muyto  allegres,  contentes, 
ueêdosse  igualdades,  ou  que  os  uencem  no  que  elles 
penssauom  que  todos  ou  os  mais  uenciam  ,  e  lhes  uem 
este  desprazer  rijamente  sentyndo  no  coraçom  ,  ou  fol- 
gâça  do  mal  e  abatymento  dos  semelhantes.  Eo  cobij- 
çoso  de.  qual  quer  cousa  deshordenadamente  ,  por  que 
todo  q  muyto  deseia  pêra  sy  principalmente  queria, 
ueendo  que  outrem  otem  .  ou  percalça  mais  que  el, 
ou  se  algua  cousa  special  alguém  possue  deque  auoon- 


46  O    LEAL  CONSSELIIEIRO. 

lade  se  mujto  contente  logo  lhe  uern  ossentimento  da 
êueja  per  duas  maneiras.  Hua  por  ueer  as  cousas  da 
tiantagem  aoutrem  auer,  de  que  lhe  nom  praz.  Aou- 
tra  por  elle  nom  as  teer  bem  assy  como  queria.  Esseo 
sentyniento  ou  desprazer,  he  fundado  sobre  uertudes , 
boas^  manhas,  ou  acrecentamento  detaaes  beês  que  ho- 
nestamente se  podem  auer  ,  nom  deseiando  que  os 
perdesse  quem  os  tem,  mes  sentem  por  ello  seus  falli- 
cimentos  e  deseiom  deos  seguir,  por  os  au^er  como  el- 
Jes  tal  êueja  he  uirtuosa  pêra  quenos  cõuyda  oapostol-^ 
lo  dizendo  que  uem  de  nosso  senhor  pêra  crecentar- 
nios  em  bê  fazer.  Enos  estados  deste  mundo  amuytos 
faz  acrecentar  em  beês  e  uirtudes.  Aas  se  desto  que 
ueemos  em  outrem,  recebemos  tal  sentydo  qu'e  nos 
prazeria  que  elle  as  perdesse ,  ou  mais  nom  percaíças- 
se.  Esto  em  geeral  he  pecado  da  êueja,  tirando  certos 
casos  speciaaes  que  aos  leterados  pertencem  declarar, 
de  que  auemos  algim  desprazer ,  por  agrando  perda 
que  detaaes  beês  per  outrem  possuydos  receber  pode- 
mos Nom  pensso  que  seia  pecado,  assy  como  demees- 
trias  naturaaes ,  uirtudes ,  e  beês  ê  guerra  que  ajam 
enfiees  e  outras  cousas  semelhantes  ,  mas  daquelles 
que  per  afeiçom  deuemos  amar,  grande  mal,  e  de 
malleciosa  uoontade  se  leuanta  de  seus  beês  nos  des- 
prazer ou  dessas  perdas  e  abatimentos  seermos  ledos. 
Esse  aêueja  he  dos  malles  que  outrem  faz  ou  he  des- 
pcsto  costumado  de  fazer,  quem  tal  sente  erra  muyto, 
contra  os  quaaes  se  diz  ênosalmo,  nom  queiras  auer 
êueja  dos  malliciosos ,  nem  desejo  desseguyr  os  faze- 
dores deraaldades ,  por  que  assy  como  feno  trigosa- 
mente  secarem.  Eassy  como  herua  noua  logo  asynha 
passarem.  Etodo  aqueste  salmo  mostra  bem  como  dos 
semelhantes  nom  deuemos  auer  êueja,  nem  os  querer 
arremedar.  Eque  os  seguydores  do  camynho  das  uirtu- 
des deuem  uiu^r  sempre  em  boa  sperança.  Eauer  des- 
prazer por  os  outros  seerem  auançados  por  mal  obrar. 
E  por  ello  seerem  louuados  e  prezados,  nom  por  de- 


ô    LEAL    CONSSELHEIRO.  47 

seiarmos  semelhãte,  nem  qiierian.os  que  elles  fossem 
dello  abatidos,  por  medrarmos  per  tal  maneira,  mes 
por  nos  desprazer  das  cousas  mal  feitas,  esto  nom  he 
inal,  nem  pecado,  leixando  todo  ao  juizo  de  nosso 
senhor  deos ,  Eaos  que  perteecem  carrego  dejulgar, 
prasmar,  castigar  nos  feitos  alheos.  Pecamos  em  esta 
êueja  por  sêtido  de  coraçom  ,  ryjo ,  e  contynuado.  E 
por  faliarraos  mal  em  abatymento  doutrem,  ou  obran- 
do contra  el  peresta  uoontade,  Essegundo  for  ocaso, 
fura  no  erro  mayor  acrecentamento.  Este  pecado  se 
gasta,  e  tira,  per  caridade  per  aqual  amamos  nosso 
senhor  sobre  todallas  cousas  e /lossos  prouxemos  como 
iios,  deque  uynra  deseiarmoslhes  todo  bê  que  pêra  nos 
quysernjos.  Edo  que  ouuerem  nos  allegrar,  Eas  cousas 
cofitrayras  que  pêra  nos,  nom  deuemos  querer  pêra 
elles  as  nom  deseiarmos,  mes  desprazernos  deueer, 
ou  saber  que  as  tê,  ou  padecera.  Huã  pratica  me  pa- 
rece proueitosa  deguardar  sobresto  que  quando  sentyr- 
mos  ennos  desprazer  das  uirtudes  e  beês  que  uejamos 
em  outrem,  sempre  em  nossas  uoontades  orreferiamos 
aa  culpa  nossa,  Conssijrando  nossos  fallecymentos,  por 
que  semelhante  nom  percalçamos  e  penssar  contynua- 
damente  como  per  nos  seerem  êmêdados ,  E  quando 
nos  feitos  do  mundo  nõ  podermos  achar  razom  dereita 
em  que  tanto  nos  culpemos.  A  cerca  de  nosso  senhor 
deos  seia  buscada ,  sabendo  que  quando  em  seu  ser- 
uiço  formos,  qnaaes  deuemos,  el  nos  dará  aquellas 
cousas  que  bem  deseiamos,  e  sabe  pêra  nos  seerem 
mais  necessárias.  Eposto  quedo  coraçom  tal  sentido 
ou  desprazer,  nom  possamos  logo  tirar,  aturemos  sem- 
pre em  esta  teençom ,  guardandonos  muyto  defallar 
netn  obrar  em  contra  daquel  deque  nos  sentymos  do 
sentydo  da  êueja.  Esse  longamente  ryjo  nos  teuermos 
em  este  propósito ,  com  sua  mercee  seremos  fora  de- 
todo  empacho  deste  malleciozo  pecado.  Esse  nos  têtar 
por  Os  estados,  beês  mal  gafícados  que  aoutrem  ueja- 
mos possuyr,  recorramcnos  aatençom   da  fie,  que  de 


4S  O    LEAL    CONSSELHEÍRO. 

todo  mal  aiieremos  pena,  se  misericordiosáinenle  nom 
for   relJeuada   e   dos   beês   aueremos   gallardom  se  per 
outros  pecados  nom  perdermos.  E  quem  desto  se  lem- 
brar fora   será  dêueja  que  se  filha  deueermos  aoutrem 
per  mêtir .  enganar,  e  outros  malles  fazer,  percalçar , 
honrras,  e  beès  temporaaes.  Nem  da  desposiçom  pêra 
mal   obrar,  que   ueiaraos   em    outrem  dauantage,  nos 
deue  uijr  tal  sentido,  conssijrando  como  cada  huu  assy 
nom  pode  quanto  deue  castigar,  que  faria  se  pêra  ello 
mais  desposto  fosse.  Etaaes  pensamentos  em  boa  teen- 
çom  ,  firmados  gastom  muyto  tal  pecado.  Sobresto  da 
êueja,  me  parece  per  as  pallauras  de  nosso  senhor  ihú 
xpõ    que  dissemos   obreiros  que  adesuairadas  oras  do 
dia  forom  alugados,  se  mostra  ofundamento  deste  mal- 
lecioso  pecado,  e  seu  consselho  da  cura,  e  guarda  dei, 
por  que  auendo  aquelles  primeiros  assoldada,  por  que 
se   aueherõm   ueendo   que  os  derradeiros  ouuerom  ou- 
tro  tanto ,  que  graciosamente  lhe  quiserem  dar ,  por 
desprazer  do  bem  alheo  que  aelles  nom  trazia  empee- 
cimento,    se   queixauam   contra  oque   aelles   còprida- 
mente   fezera   oque  era  obrigado.  Aos  quaaes  respon- 
dendo cõ  reprehenssom ,  por  que  se  ueenciam  per  esta 
reuessada  uoontade ,  dizendolhes  que  pois  aelles  satis- 
fazia  como   era   theudo   que  auya  defazer,  nem  dyzer 
sobre  oque  aos  outros  graciosamete  de  seu  boo  plazer 
queria  dar.    Vedes   ofundamento  dauerdadeyra  êueja , 
pesar  do   bem   alheo ,  posto  que  alguu  empeecimento 
lhe  nom  possa  trazer,  e  arreprehenssom  do  senhor,  ato- 
dos   que   delia  husam   he  dieta,  por  q  nos  recebemos 
dei  graciosamente  sem  omerecer  nem  alguíl  constran- 
gimento,  uyda,  saúde,  e  nosso   stado   qual  quer  que 
el  seia ,  em  que  nos  fes  muyto  grandes  mercees.  Enos 
sem   conhecymento  contra  el  per  boas  pallauras,  nom 
lhe   damos   deuido   agradecymento ,    mas  por  oque  lhe 
praz  de  fazer  aos  outros,  nos  atormêtamos.  Etal  se  faz 
mu}  tas   uezes   contra  os   senhores ,  que  de  algufís  de 
pequena  conta,   e  lynhagem  poõs  em  muyto  mayor 


Ô    LEAL    CONSSELHEÍRO.  49 

siado  que  merecem.  E  nom  cõfsijrando  quem  forom 
lie'n  os  outros  melhores  quessy  em  grande  conto  por 
alguu  soomenle  aque  ueia  fazer  mais  aiiantagem  por 
prazer  desseu  senhor,  el  recebe  tanta  pena  que  os  fa- 
zem leuar  trabalhosa  uyda,  fallando  mal  contra  deos  e 
-aquel  com  que  uyue.  Eoutros  que  deuiaseruir,  ou 
specialmente  amar  aos  quaaes  aquella  reprehenssom 
suso  scrii)ta  muyto  concorda  .s.  recebe  oquete  he  de- 
reytamente  feito,  Edo  que  deos  e  aquel  com  que  uy- 
iics  graciosamête  aos  outros  quer  dar  nom  te  cures. 
Ca  se  tirarmos  nosso  penssamento  de  cuydar  no  bem 
que  aoutrem  se  faz,  será  afastado  de  sentir,  por  ello 
enueja  ,  oq  muyto  deuemos  fazer,  pois  deos  ocontra* 
diz.  Eos  exempros  nos  demostram  amanj festa  perda 
qup  jaz  em  tal  pecado. 

Capihãlo  XFJ. 
Da  sanha,, 

ÍJa  yra  seu  próprio  nome  em  nossa  lynguagem  he 
sanha,  que  uem  de  huíi  arreuatado  feruor  de  coraçoni 
por  desprazer  que  sente  com  deseio  deuyngança.  Del- 
ia nacem  e  ueherom  muytos  malles,  como  diz  sam 
joham  casiano  no  liuro  dos  slatutos,  que  esta  morando 
em  nos  cega  os  olhos  daalma  com  treeuas  muy  Cpee- 
ciuees.  nom  leixa  auer  juyzo  dereito  de  discreçom^ 
nem  nesta  dehonesía  conternplaçom,  nem  leixa  possuir 
madureza  do  consselho ,  nem  conssente  seer  os  lio- 
meens  quynhoeiros  da  sancta  uyda ,  nem  reteedores 
da  justiça,  ne  recebf^dores  despiritual  e  uerdadeiro  lu- 
me, por  que  diz  opropheta,  toruados  meus  ollios  pella 
sanha,  Eaqueste  contradiz  ioda  hira  ,  fora  da  quella 
que  se  filha  conlra  os  pecados,  e  de  nos  por  conssen- 
tir  em  elles.  Edessa  medes  sanha  quando  nos  requere 
e  afica  e  costriige.  Edeclarando  aquella  pallaura  de 
sam  paulo  que  diz  assanhaaeuos  e  nõ  queiraaes  pecar, 
e  ossol  nom  se  ponha  sobre  nossa  sanha ,  diz  que  dour 

G 


50  O    LEAL  CONSSELHEIRO. 

tra  se   nom   rleue   entender,  senom   da  suso  dita.  Ca 
nom   entendamos   que  nos  he  dado  lugar  por  cousas 
que   razoadas  pareçom  auer  sanha  como  assy  seia  que 
qual   quer  cega  os  olhos  da  razõ ,  pois  que  deferença 
será   pêra   tirar  auista,   poer  ante   os   olhos   pasta  de 
chíjbo ,  ou   douro,  Certo  he  que  assi  ahuã  como  aou^ 
tra   auista  embarga  aquella  tirada,  logo  pêra  cayr  es- 
tamos muyto  aparelhados.  Essemelhante  faz  ella  quan- 
do de  nos  se  assenhora  por  qual  quer  cousa.    Edeclara 
jnais  que  deste  sol,  aquel  dicto  nom  deuemos  êtender 
quesse  nom  ponha  sobre  nossa  sanha.  Ca  sea  leixas&e- 
rnos   durar  em   nos   ataa   el   posto,   poderia  seer  que 
procederíamos   ante   que   se   posesse   auyng-an^^a  Epor 
que  odicto  apostollo  nosraanda  orar  contynuadamente 
e  sem  entrepoy mento  Eossenhor  diz  que  estando  ante 
oaltar,  senos  lêbrar  que  nosso  jrraaâo  tem  alguu  es- 
candallo   contra   nos   que  leixemos   nossa  oferta  e  nos 
uaamos  reconciliar  com   el.  Essenos  assy  manda  com 
nossos  jrmaâos ,  ante  que  ofereçamos  nossas  ofertas,  e 
acordar  como   conssêtiria   quem  ataa  ossol  posto  com 
pecados  podessemos  estar  enframados  em  ella ,  orando 
ao   senhor   que   de  nossas  ofertas  nos  mandou  cessar, 
ataa  que  com   elle  seiamos  reconciliados.  Porem   diz 
quesse   deue  aquel  dicto  entender  do  sol  dajustiça,  x* 
deos  nosso  oqual  senos  uir  êuoltos  em  sanha  nos  tirara 
olume  da  sua  graça.  Esseremos  do  conto  daquelles  de 
que   he  scripto   queo   sol   selhes   pos   no  meo  dia  por 
seerem   dei  desemparados.  Outro  entendimêto  declara 
que  razoadamente  podemos  filhar  por  olume  da  descli- 
çom  que  se  põem  e  cega  aos  que  rauyto  estom  acesos 
em  este  pecado,  Eporem  conclude  que  nom  pode  sem 
falicimento   auer  logar  em  outros  casos,  fora  do  suso 
ficriptos   .s.   que   nos  assanhemos  contra  as  tentaçooês 
do  pecado,  Ede  nos  seas  nom  contradizemos,  e  delia 
ínedes  senos   segue,  afica,  e  costrange.  Outros  teem 
que   alguâs   uezes   assanha   he   proueitosa   por  que  faz 
obrar  as  cousas  melhor  e  mais  prestemente.  Epor  acoa^ 


o    LEAL    CONSSELHEIRO.  SI 

Cordança   destes   diclos,  eii   faço   tal   declaraçom  que 
pêra  jieisoas  iiiuy  iiirluosas,  assanha  lie  bem  scnsada, 
por  que   husaiido   das   uirtudes  como  deue,  as  cousas 
Iara   perfeitamente.  Enõ  lhe  côuem   dessanha  seerem 
ajudados,  por  que  auirtnde  da  desclicam,  mostra  oque 
he  bem  de  fazer.  Eafortelleza  sem  outro  ag;uylhom  de 
sanha   espertada   com  deseio  de  justiça,  lhe  fará  todo 
comprir  como  rezom  for.  Ca  certo  he  as  uirtudes  pers- 
sy  seerem  abastantes,  pêra  ouirtuoso  todo  bem  obrar, 
sem    ajuda   que  necessária  lhe  seia  da  sanha,   mas  aa- 
quelles   que   naturalmente   som   mãssos ,  e  muy  beny- 
gnos   que   alguu  nom  queiram  desprazer,   Eaos  fracos 
decoraçom  ,  molies,  deleixados,  pospõe  dores  do  que 
nom  côuem  ,  e  preguiçosos  muy  tas  uezes  lhes  aprouei- 
ta  em  os  esforçar  e  aguçar,  com  tanto  que  no  cegue, 
sobre  poie  ou  force  ojuizo  darrezom.  Epor  que  per  el- 
la   erramos   em    nosso    cuydado ,   falia,  contenença ,  e 
obra  pêra  conhecermos  senos  cega,  ou  força,  Conssij- 
re  cadahuu  oque  nos  faz  pêssar,  fallar,  e  obrar  quando 
ateuermos,  e   desque  denos   se  partir,  e  seo  bem  re- 
guardarmos    sem    afeiçom   sentindo   ojuizo   que  sobre 
nossos  feitos  per  dignas  pessoas  doutoridade  he  dado. 
Poderemos  com  agraça  de  nosso  senhor  bem  conhecer 
se   somos   delia  storuados   ou  ajudados.  Eper  os  erros 
passados   nos  auisar  perao  diante.  Esse  delia  mal  nos 
acharmos,  nom   dando   lugar  nem   autoridade  anossos 
cuidados  deuemos  conteer  ofaljar ,  eobrar  quando  ênoá 
for.  Esse  conhecermos  que  com  ella  nom  tressaymos, 
e   nos   aproueita  com   grande   teto,  nom  leixemos  de 
penssar,  fallar,  ajnda  que  assyntamos.  Porem  com  boo 
resguardo   segundo   for  apessoa ,  feicto,  e  logar.  Esse 
TIOS  ueher  das  mudanças  dos  tempos  contra  nosso  pra- 
zer,  Edas   cousas  da  fortuna   conssijremos  contra  que 
nos   assanhamos,  e   deseiamos   auer  uingança ,  por  as 
perdas,  e  desprazer  que  por  ello  recebemos.  Essegun- 
do  rezom  contra  os  tempos,  que  nom  fazem  mais  que 
per   nosso  senhor  lhes  he  ordenado  ,  nõ  auerenios  fnii" 

G  2 


52  o    LEAL    CONSSELHEIRO. 

damento  denos  assanhar,  e  niuyto  menos  contra  el 
que  todallas  faz  e  ordena,  melhor  que  per  nos  pode 
seer  penssadas.  Ecom  tal  penssamento ,  ou  detodo  se 
leixara,  ou  anos  atomaremos  entendendo  que  nos  uem 
por  seermos  em  aquel  caso  mal  squeençados ,  Edesto 
nom  teemos  rezom  denos  assanhar,  pois  nom  he  em 
nosso  poder ,  ca  uem  per  ordenança  denosso  criador 
oqual  nom  deuemos  cuípar.  Esse  for  por  nossos  peca- 
dos,  penssando  como  per  nos  seram  emendados,  com 
sua  graça  perderemos  assanha  ou  assentiremos  denos 
proueitosamenle,  auendo  delies  coníriçom  cõ  propósi- 
to dequanto  bem  podermos,  mais  nom  os  fazer.  Ea- 
questa  maneira  me  parece  proueitosa  pêra  praticar  ê 
todos  casos  que  se  recrecerem  per  que  da  sanha  seia- 
mos  requeridos.  Ehuu  de  três  modos  seendo  deJIa  ten- 
tados,  deuemos  teer  primeiro  e  meliior  he  uenceJa, 
tirandoa  detodo  per  mercee  dossenhor  de  nossos  cora-^ 
çooes ,  e  obrar  nossos  feitos  com  boo  repousamento. 
Segundo  se  do  coraçom  anom  podermos  tirar,  deue- 
mosla  sofrear,  e  escondendoa  faltemos,  e  mostremo» 
razoada  contenença  como  se  anom  teuessemos  Tercei- 
ro se  tam  poderosos  nom  formos  espacemola ,  callan- 
donos,  ou  nos  apartando,  assy  que  tirandonos  do  aazo, 
mais  ligeiramete  nos  possamos  poer  em  boo  assesse- 
go,  por  nom  fazer,  ou  dizer  cousa  errada.  Eaquesto 
deuem  assy  obrar  os  que  se  temem  detressayr  com  el- 
la  como  dito  he,  ca  os  outros  que  per  speriencias  ia 
passadas  conhecemos  queos  ajuda  ê  certos  casos,  e 
nom  torua  fallem  e  obre  com  eUa  oque  julgarem  poí 
bem. 

CapifuUo  XFIJ, 
Do  hodyo. 

Uesie  pecado  -yra  se  podem  a-propriar  outras  vj.  pai- 
xoões.  Ódio,  Tristeza,  Noio,  Pezar,  Desprazer,  Suy- 
dade.  Posto  que  segundo  maneira  geeral  da  nossa  falia 
Jiuii  destes  nomes  se  diz  por  outro  e  muytos  lugares, 


o    LEAL  CONSSELIIEIRO.  53 

amym  parece  que  noni  propriamente  som  apropriados 
ao  pecado  da  yra,  por  que  alguàs  uezes  ueein  sem  el- 
la.   Eporem  nom  dereitamente  se  poee  por  seus  ramos 
ante    sobressy    decahuu   me   parece   razom   detrautar. 
Primeiro  do  ódio,  ou  segundo  nossa  linguagem,  mal 
querença  que  lie  huu  contynuado  deseio  de  mal  perda 
abatymento   de   bem    doutrem   per  qual  quer  guisa  q 
uijr  lhe   possa.  Epareceme  que  geeralniente  se  ha  per 
estas   seis  partes.  Primeiro  por  erros,  malles  e  perdas 
que  nos  sô  feitos  ditos  ou  ordenados  contra  nossas  lionr- 
ras ,  pessoas,  cousas,  e   uoontades  ou  penssamos  que 
assy  loy ,  ou  speram  elles,  ou  nos  q  seia.  Segundo  por 
êueja  que  auemos.  Terceiro  por  sperança  dalgufi  gaan- 
ço   de   lionrra,  proueito ,  ou  prazer  q  do  mal  doutrem 
speramos.  Quarto  por  cehumes  que  dalguem  se  ha  com 
rezom  ou  sem  ella.  Quinto  por  geeral  desacordo,  e  de 
lex,  guerras,  bandos,  e  openyooes,  assy  como  xpaaos, 
e  mouros,  jngrezes,   e  francezes,   gelífes ,   e  gebelijs. 
Sexto  por  huú  natural  aiiorrecimento  da  pessoa ,  prati- 
ca,   ou    geito   que  alguús   teem   deque   aoutros  tanto 
auerrece  que  do  seu  bem  lhe  pesa,  e  do  mal  lhe  praz. 
A    estas   seis   partes   me  parece  que  se  podem  reduzir 
todas    maneiras   demal   querenças  Em  as  quaaes  como 
dicto    he  ,  erramos  per  penssamento  ,  falia  ,  contenen- 
ça,  e  obra,  das  quaaes  nos  podemos  guardar  cò  agra- 
ça  de   nosso  senhor  deos,  sem  em  tal  cuydado  longa- 
mente nom  quysermos  tardar,  ou  se  denos  tirar  onom 
podermos,  remetello   asseu  juizo,  pedindolhe   que  tal 
uoontade   nos  tire,  sobre  tal  caso,  obre  oque  el  sabe 
que  he   bê   ajnda  que   nosso   deseio   ai  queira ,  ca  do 
que   ael  praz,  somos,  ou  deseiamos  sempre  seer  con- 
tentes.   Ecada   uez   que  nos  ueher  tal  renembranca  de 
mal  querença  doutrem,  façamos  que  nossa  fym  do  cui- 
dado seia   em    pedir   adeos   que  noila  tire,  e  que  nos 
encamyniie   obrar  sempre  em  esto  e  todas  outras  cou- 
sas  oque   ael  mais  prazer.  De  todas  pallauras,  conte- 
nêças,  e  obras  nos  deuemos  conteer  fora  daquellas  que 


54  O    LEAL   C0NS5ELHEIR0. 

per  dereito  e  razom  fazer  podemos,  Essobreslo  r.om 
deuemos  reger  per  nosso  juyzo  sollamenle,  mes  cô 
acordo  e  consselho  dos  que  em  taaes  casos  fazello  de- 
uemos. EssegLindo  for  ofeito  auer  sobrei  certa  e  deter- 
mjnada  teençom  per  dereito,  ou  razom  aprouada.  A- 
guerra  dos  mouros  tenhamos  que  he  bem  dea  fazer, 
pois  que  assàta  igreia  assy  odetermjna ,  Enom  da  lu- 
gar afraqueza  docoraçom  que  faça  conciencia ,  onde 
auer  senom  deue.  Essobrella  eu  uy  fazer  hua  qiiestom 
q  per  elles  se  dizia,  seer  feita  em  esta  guisa  Diziam 
por  que  razom  fariamos  contra  elles  pelleia,  ou  moue- 
riamos  guerra,  pois  soportauamos  antre  nos  uyuereni 
judeus,  e  outros  mouros  taaes  como  elles,  ca  se  todos 
aquelle?  primeiro  matássemos ,  ou  tornássemos  anossa 
ley.  razoado  lhes  pareceria  que  os  guerreássemos,  mas 
soportar  estes,  e  matar  elles,  por  lhes  ocupar,  e  filhar 
as  terras,  nom  pareceria  justamente  feito.  Aqual  res- 
pondo que  assi  como  elles  per  poderio  temporal  e  de- 
liberaçom  de  suas  uoontades  contradizem  nossa  ffe  da- 
quella  guisa  perteece  aos  senhores  contrariar  ao  tem- 
poral poderio  ,  epoellos  desso  aobediencia  da  santa 
igreia  em  aqual  ella  nom  os  mada  forçar  pêra  filharem 
nossa  ley,  mas  quer  que  seiam  detal  guisa  sogeitos 
que  se  alguíls  aella  se  quisessem  tornar  liuremente 
opoderem  fazer.  Eperos  outros  aos  xpãaos ,  noio  ou 
mal  senom  faça.  Eporem  muy  justamente  nos  e  todos 
senhores  catholicos  lhe  deuemos  fazer  guerra  pêra  tor- 
nar suas  terras  aobediencia  da  santa  madre  igreia,  e 
poer  em  liberdade  todos  aquelles  que  anossa  flfe  qui- 
serem uíjr  que  liuremente  opossam  fazer.  Eos  outros 
aos  xpâaos  nom  façom  empeecimento ,  Edes  que  som 
em  nosso  poder,  nom  he  razom  fazerlhes  mais  prema 
da  q  per  ossanto  padre  for  mandado.  Por  que  assy  co- 
rno cadahuu  dia  contra  os  desobedientes  aos  mandados 
da  santa  igreia  somos  chamados  em  ajuda  de  braço 
sagrai ,  Edes  queos  fazemos  obedeecer  aella  pertt  êce 
determjnar  oque  delles  se  faça,  dessa  guisa  com  muy^ 


o    LEAL    CONSSELHEIRO.  53 

to  mayor  rezom    pera  restituir  as  terras  em  ^  onome 
de  nosso  senhor  jhu  xpò  foy  louuado  que  per  os  jnfiees 
per    temporal   poderio   som   forçosamente   occupados  , 
ossanto   padre  muy  dereitamente  nos  requere ,    e  com 
prometymento  detàtas   perdoanças  nos  enduz  pera  fa- 
zermos tal  guerra,  da  qual  seer  justa,  perssoa  fiel  con- 
tra seu   mandado;  nom  deue  auer  duujda  ,  com  tanto 
queo  proccdymento  delia  seia  com  boa  teêçom ,  e  jus- 
tamente feito  per  taaes  pessoas  aque  cõuenha.  E  esso 
medes  he   das  outras  justas  guerras,  que  os  senhores 
com  os  do  seu  consselho  acordam  defazer.  Ca  em  este 
caso  aos  outros  do  seu   reyno  aque  perteece  deo  era 
ella  seruir  nom  côuera  mais  scoldrinhar,  mas  sem  êbar- 
go   podem  matar  ferir  e  roubar,  segudo  per  seu  rey  e 
senhor  for  ordenado.  Ca  todo  esto  lie  per  todos  derei- 
lo  determynado ,  que  os  que  teem  oficio  de  deíessores 
odeuem  fazer,  husando  porem  de  piedade  quanto  mais 
poderem   cô  reguardo  de  seu  seruiço,  naquelles  casos 
que   per  boos  confessores  e  leterados  nos  for  determj- 
nado,  assy  nos  outros  nom  adeuemos  mais  alargar  por 
seguirmos   nossas  uoontades   do   que  elles  aprouarem. 
Podemos  demandar  justiça  que  nos  façom  entrega  das 
cousas  nossas,  ou  emenda  do  mal  recebido,  ajnda  que 
seia  com  morte,  mal,  e  perda  doutrem,  se  tal  deman- 
da  dereita  for.    Posto  que  as  mais  das  uezes  seia  obra 
meritória   remeter   as  jnjurias  ,  e   perdas  que  nos  som 
feitas,  mas   per  qual   quer  das  partes  suso  ditas,  que 
nial   querença   em   nos   contra   outrem    sentirmos,    da 
uoontade   per  amaneira  suso  scripta  ou  per  outra  que 
lazoada  seia,  nos  trabalhemos  dea  tirar. 

Capúullo  XP^IIJ. 
Da  tristeza. 

A^h  tristeza  diz  sam  joham  casiano  ,  no  liuro  dos  es- 
tabellicimetos ,  e  nos  das  coUaçoões  dos  sãtos  padres 
que  nos  deuemos  cô  agraça  do  senhor  deos  guardar 


56  O    LEAL    CONSSELIIEIRO. 

como  dos  mais  principaaes  j^ecados  Eo  poôe,  e  decla- 
ra ê  cadahufi  dos  dilos  liuros  por  cabeça  de  pecado 
principal ,  chamando  começo  demorte.  Ediz  que  som 
duas  maneiras  de  tristezas,  Huã  que  uem ,  e  procede 
de  uirtude.  Outra  de  pecado.  Eaquesta  que  uem  do 
pecado,  departe  em  outras  duas  deferenças.  Huíi  que 
fica  depois  que  se  parte  assanha  por  aperda  que  rece- 
be,  ou  por  odeseio  que  nom  comprio  Aoutra  nace 
dalguu  queixume  sem  razom  que  esta  na  uoontade , 
ou  descende  da  desperaçom  E  declara  que  lia  hi  hua 
geeraçom  detristeza  aqual  nom  traz  alma  do  pecante 
correiçom  de  uida ,  nem  emenda  dos  pecados,  mas 
mortal  desperaçom  aqual  nom  leixou  caym  fazer  peen- 
dença  depois  do  omecidio,  nem  ajudas  depois  da  trei- 
çom  buscar  camjnho  de  satisfaçom,  mes  trouxeo  asseer 
pendurado  em  laço.  Eporem  em  esto  atristeza  he  de 
julgar  proueitosa ,  quando  nos  pesa  dos  pecados,  ou 
somos  acendidos  em  deseio  da  perfeiçom  ,  ou  quando 
concebemos  acontemplaçom  da  bem  auenturança  que 
he  por  uijr,  daqual  diz  oapostollo  paulo  Aquella  tris- 
teza que  he  segundo  deos,  obra  peendença  stauel  peraa 
saúde.  Atristeza  do  segie,  obra  morte,  mas  aquella 
tristeza  que  obra  peendença  stauel  pêra  saúde  ,  obe- 
diente he,  graciosa,  huinjldosa,  manssa,  suaue,  pa- 
ciête ,  assy  como  aquella  que  descende  de  deos ,  e  se 
estende  e  oferece  atoda  door  do  corpo  e  do  spritu  sera 
canssaço  por  deseio  de  perfeiçom.  Eassy  como  leda 
poUo  seu  proueito ,  e  recriada  retém  toda  graciosida- 
de ,  e  afabilidade  E  tem  em  sy  meesma  todollos  frui- 
to9  do  sprito,  os  quaaes  conta  oapostollo,  dizendo, 
caridade,  plazer,  paz,  Jongamjnydade ,  bondade,  be- 
nignidade, fie,  mãssidõos ,  continência.  Mas  esta  ou- 
tra he  muy  áspera,  sem  paciência,  dura,  chea  der- 
rancor,  e  choro  sem  proueito,  e  da  desperaçom  pe- 
nal. Eaquel  que  abraçar  renogoo  da  jndustria  saúda- 
uel ,  e  quebranto  per  door,  assy  como  cojsa  sem  ra- 
zom j  e  fazeo  antrepoer  nora  soo  aeficacia  da  oraçom , 


o   LEAL   COXSSELHEIRO.  57 

inas  ajnda  faz  euacuar  todollos  fruitos  spirituaaes  que 
dissemos  5  os  quaes  aoutra  soube  dar,  por  aqual  cousa 
fora  daquella  que  he  tomada,  ou  por  pendença  sauda- 
uel,  ou  per  studo  deperfeiçom,  ou  por  deseio  das  cou- 
sas  que   som   por   uljr,  toda   outra  tristeza  assy  como 
de   morte   he  de  guardar.  Eassy  como  ao  spritu  dofor- 
ryzo ,  ou   de  fiiarg;uia   que   lie   auareza,  ou   da  ira  de 
nossos  coraçõoes  detodo  he  de  arrincar  assy  sprito  da- 
tristeza   que   nom   he   segundo  deos,  deuemos  afliigir. 
Epera  se   poderem    tirar   ou   ueiicer  todas  geeraçoões 
detristeza  diz   estas  pallauras  Aquesta  muy  enganosa 
paixô  assy  denos  fora  lançar  poderemos,  se  auoontade 
nossa  per  spiritual  cuidado  continuadamente  occupada 
aesperãça  do  que  ha  desseer  e  acontemplaçom  da  pro- 
metida bem  auenturança,  leuTilarmos  per  aqueste  mo- 
do  todallas   geeraçoões  das  tristezas,  assy  as  que  dal- 
guã  sanlia  passada  descendem  ,  como  as  cjue  per  leixa- 
niento  dalguu  gaanco,    ou   perda  anos  feita  uenhom , 
ou  as  que  da  desarrazoada  uoontade ,  e  desconcertada 
procedem ,    ou    as   que   peçonhentam   desperaçoin  nos 
enduzem  ,    nos   poderemos    bem   sobrepoiar   com   res- 
g-uardamento   das   perdurauees   cousas  que  ham  deuijr 
sempre   ledos,  e   nom    mouediçbs  duraremos,  nem  de 
ca^os  que  aconíeçom  presentes,  despresados  nem  dos 
beês  seremos  leuantados  huíi  e  o  outro  assy  como  cou- 
sa  scorrcgauel  ,    e   que   asynha   passa   contemplando  , 
Eamjm  parece  acerca  desta  sentença  que  atristeza  tem 
geeralniente  estes  nacimentos.  Primeiro  e  mais  princi- 
palmente demedo  demorte,  desonrra  ,  door,  ou  pade- 
cimento spiritual  e  corporal.    Seg-undo,  de  sanha  nom 
ujngada.    Terceiro,  derryjo   deseio  nom  comprido  ou 
perlongado.  Quarto,  de  nojo  que  recebemos  por  desonr- 
ras ,    mortes,    perdas,    prisoões ,   doenças,  e  retijmen- 
tos,  e  suydade.  Quinto  da  desconcertada  compreissom 
que  uerdadeiramente  doença  de  humor  menencorio  se 
chama    Sexto,  per   falias,  cõuerssaço   de   tristes  pérs- 
icas ,  ou  desconcertado  cujdado  que  adesperaçom  de- 
li 


58      '  O    LEAL   CONSSELIIF.IRO. 

cobrar  boa,  nê  leda  uida,  nos  derrubam.  Per  cada- 
jiua  destas  guisas  mais  e  menos  recebemos  tristeza  se- 
gundo as  afeiçooes  e  paixooès  que  mais  em  cada  huíi 
reynam.  Epera  todos  estes  modos,  muy  principal  re- 
médio he  ossuso  scripto  de  auer  speranca  em  nosso 
senhor,  ajudandonos  das  outras  naturaaes  ajudas  que 
perteecem  ao  poder  uegetatyuo  ,  senssetiuo,  e  racio- 
nai ,  como  per  speriencia  e  boo  consselho  cadaliuu  í?e- 
conliecer  que  he  mais  proueitoso  com  boo  esforço  e 
gram  descriçom. 

CapituUa  XIX. 

Da  maneira  quefitj  doe  te  dohumor  menecorio 

e  dei  cjuareci. 

JL  or  quanto  sey  que  muytos  forom,  som  ,  e  ao  diante 
seram  tocados  deste  pecado  de  tristeza  que  procede 
da  uoontade  disconcertada  que  ao  presente  chamam 
em  os  mais  dos  casos  doença  de  humor  menencorico, 
do  qual  dizem  os  físicos  que  uem  de  muylas  maneiras 
perfundamêtos ,  e  sentidos  desuairados,  mais  detres 
anos  continuados,  luy  dei  muyto  sentjdo,  e  per  spe- 
cial  mercee  de  nosso  senhor  deos  ouue  perfeita  saúde, 
com  ateençom  que  primeiro  screui ,  de  alguns  desta 
breue  e  symprez  leitura,  filharem  proueitosa  ensynan- 
ça  ,  e  auisamento  ,  prepus  deuos  screuer  ocomeço, 
persseguimento ,  e  cura  q^ue  dei  ouue,  por  tal  que 
mynha  speriencia  aoutros  seia  exempro.  Ca  nom  he 
pequeno  conforto,  e  remédio  aos  que  som  desto  toca- 
dos, saberem  como  os  outros  sentirem  oque  elles  pa- 
decem, e  ouuerom  comprida  saúde,  por  que  huu  dos 
seus  principaaes  sentymentos  he  penssarem  que  ou- 
trem iamais  nunca  tal  sentio  que  fosse  tornado  asseu 
boo  stado  em  que  antes  era.  Eporem  esta  desesperãça 
he  huâ  grande  parte  do  seu  sentimento;  daqual  por 
oque  sereno  razoadamente  se  deuem  tirar,  e  tam  bem 
filham  grande  conforto  penssando  que  outros  de  grau- 


o   L.^Ar.   COXSSELHEIRO.  59 

de  stado,  e  que  som  theudos  em  razoada  estima  forom 
desto  sentidos,  por  que  nom  se  desprezam  tar.to  p.ssy 
medes   por   receberem  tal  penssamento  com  tanto  pa- 
deci m^eiito   de  tristeza  quando  penssam  que  taaes  pes- 
soas  ia   tal   passarem  ,  por  que  este  desprezo  que  ca- 
dahufi  dessy   ha,  he  hum  grande  aazo  dessua  tristeza 
oqual  tirado,  e  aujda  qual  quer  parte  de  boa  sperança 
logo  começa  dauer  saúde  e  se  faz  muyto  desposto  pê- 
ra  receber   per   agraça  do   senhor  deos  j^erfeita  cura. 
Quando   eu   era  de  xxij  anos  EIrrey  meu  senhor  e  pa- 
dre  còprido   de   muytas   uirtudes,  cuja  alma  deos  aia 
despoendosse  pêra  filhar  acidade  de  cepta  ,  niandoume 
que    teuesse   carrego,  do   consselho,  justiça,  e  da  fa- 
zenda, que   em   sa   corte  se   trautaua,  por  que  tanto 
auejia  de  trabalhar  nos  feitos  que  perteeciam  pêra  sua 
hida   que   doutros   sem    grande  necessidade  senom  en- 
tendia curar.  Eu  nom  consijrando  mjnha  noua  hidade, 
e   pouco   saber,    com   dereita   obediência,    como   per 
mercee   de  deos  sempre  em  todo  lhe  guardey,  E  desi 
por  grande  uooiitade  que  auia  desse  proceder  per  odi- 
cto  feicto.  Recebi  sem  outro  reguardo  todollos  dictos 
carregos   aos   quaes   me   puz    assy ,  fora   deboa  descii- 
çom  ,  que   na  primeira  quareesma  que  logo  ueeo  fazia 
tal  uyda.  Os  n)ais  dos  dias,  bem  cedo  era  leuantado , 
e   missas   ouuydas  era  na  rollaçom  ,  ataa  meo  dia,  ou 
acerca,  e  uijnha  comer.  Essobre  mesa  daua  odiencias, 
per  boo  spaço  Erretrayame  aacamera,  e  logo  aas  duas 
oras    pos    meo   dia,  os  do  constelho  e  ueedores  da  fa- 
zenda  erom  com  mygo.  Eaturaua  com  elles  ataa  .ix, 
oras   danoite.    Edesque  parliõ  com  os  oficiaaes  de  mj- 
nha casa  esiaua  .xj.  oras    Monte,  caça  nuij  pouco  hu- 
saua  ,   p]o  paaço  do  dícto  senhor,  uesitaua  poucas  ue- 
7es.   Eaquellas  por  ueer  oque  el  fazia  e  demjm  lhe  dar 
conta.    Esta   uyda   contynuey  ataa  páscoa ,  quebrando 
tanlo  mynha  uoontade  que  ia  nom  sentya  alguu  prazer 
me   chejjar   ao   coracom    daquelle  sentido  que  ante  fi^- 
aia.  Epeijssaua  que  aquello  da  mudança  da  hydade  n^* 

H  2 


gO  o    LEAL    CONSSELHEIRO. 

uijnha,  E  que  assy  era  comuíí  todos,  porem  dello  me 
nom  curaua ,  mes  tanto  me  carregou  que  fylhey  por 
grande  pena  nom  poder  no  coraçom  sentir  alguii  de- 
reito  sentymento  de  boa  folgança.  Ecom  esto  atriste- 
za  me  começou  decrecer,  nom  com  certo  fundameío, 
mes  dequal  quer  cousa,  que  aazo  se  desse,  ou  dal- 
guãs  fantezias  sem  razom.  E  quanto  mais  aos  cuidados 
ine  daua,  tanto  com  mayores  sentidos  me  seguia.  Nd 
podendo  entender  que  dalJi  me  uijnha,  por  que  eu  tra- 
balhaua  em  aquelles  carregos  por  as  razoões  suso  di- 
etas, tam  deboa  mente  que  nom  podia  penssar  que 
mal  me  uehesse  por  obrar  no  que  me  prazia,  e  tâ  con- 
tente era  deo  fazer.  Em  aquesta  pena  uyuy  acerca  de 
dez  meses,  atempes,  e  mais,  e  menos  Epor  que  odi- 
cto  Rey,  meu  senhcr  se  ueo  acerca  da  cidade  delixboa, 
onde  tal  pestellença  era  que  poucos  dias  passauom  que 
rne  nom  fallassera  ê  pessoas  conhecidas  que  detramas 
adoeciam,  e  morriam-  Epor  esto  atristeza  que  de  tan- 
to tempo  em  mjm  se  criaua ,  mais  se  dobrou.  E  huii 
dia  me  deu  grande  sêtymento  em  huã  perna,  e  me  fez 
tal  door  com  queentura,  que  me  pos  em  grande  aUe- 
raçom.  Efuy  logo  remediado,  que  per  graça  de  nosso 
senhor,  embreue  spaço  recobrei  saúde  mas  filhei  huu 
tanrryjo  passamento  com  receo  demorte ,  que  nõ  soo- 
mente  teray  aquella,  mes  aque  todos  scusar  nom  po- 
demos, penssando  na  breueza  da  uida  presente.  Eaquel 
penssameto  entrou  em  meu  coraçom,  que  per  seis  me- 
ses huu  pequeno  spaço,  nunca  odoi  pude  afastar,  ti- 
randome  todo  prazer,  e  acrecentandome  amayor  tris- 
teza, segundo  meu  juyzo  que  auer  podia.  Este  me 
trazia  tantas  nouas  penas  que  seria  largo  descreuer,  e 
comparar  nom  as  poderia  por  que  todallas  doores  pêra 
esta  me  pareceria  saúde,  daqual  nom  auya  sperança 
de  guarecer.  Esse  com  fie  e  conciencia  me  queria  con- 
fortar per  odemudamento  datristeza ;  muyto  era  torna- 
do assy  que  atodo  mal  daalma,  e  do  corpo  me  derrí- 
baua  Epor  tal  temor  se  pode  bem  dizer,  odicto  do  gato» 


o    LEAL    CONSSELHEIRO.  61 

Quem  teme  amorte  perde  quanto  uyue  Eem  outro  lo. 
gar.  Quem  teme  amorte  perde  o  prazer  da  uyda.  Ede 
feito  nom  ouuera  consselho ,  remédio,  nem  esforço  ^ 
me  uailera  segundo  entendo,  por  que  com  físicos,  con- 
fessores ,  eamygos  fallaua ,  e  nom  prestaua  cousa  Ca 
dos  remédios,  das  curas  nom  sentia  uantajern.  E  cô- 
fortos  recebia  tam  poucos  como  aqueJ  que  per  enfer- 
midade mortal ,  dos  fisacos  desperado ,  recebe  das  pal- 
lauras,  que  lhe  dizem,  ou  que  per  justiça  he  julgado 
que  log-o  moira,  ca  nom  menos  aquel  temor,  segundo 
entendia,  era  pêra  mym  sempre  lembrado,  e  sentido, 
mes  agraça  de  nosso  senhor  deos ,  e  de  nossa  senhora 
sanla  maria  ,  me  outorgou  conhecimento  que  era  jnfir- 
mjdade,  e  tentaçom  do  jnmijgo  ,  todo  cuydado  errado, 
que  me  uijuha.  Edetermyney  nom  sayr  em  cousa  fora 
da  ])ratica  de  meu  uyuer,  que  eu  auya  por  boa.  E  as- 
sy  sabia  mercees  ao  senhor,  que  per  dignos  doutori- 
dade  era  aprouada.  Esse  morte,  uida,  saúde,  ou  en- 
fermidade me  uehesse,  na  quella  quis  que  me  achasse 
Em  esta  teençom  fuy  assy  forte ,  que  os  consselhos 
dalguns  físicos  que  me  diziam  que  benesse  uynho  pou- 
co auguado  ,  dormisse  com  molher,  e  leixasse  grandes 
cuidados  ,  todos  desprezei ,  auendo  toda  mjnha  sperãça 
em  no  senhor,  e  sua  muy  santa  madre  Eesto  per  par- 
te da  razom  ,  e  da  fie  soílamente,  ca  ossentido,  e  de- 
seio  docoraçom  todo  era  derribado  amai  fazer.  Em  es- 
ta grande  doença  durey  otempo  suso  scripto  callando- 
me  com  ella,  por  que  apoucos  e  pessoas  certas  douto- 
ridade  failaua  E  de  fora  em  toda  mjnha  maneira  de 
ujuer  fazia  pequena  mudança,  nem  mostramento  do- 
que  sentia.  Eestando  em  tal  estado,  amuy  uirtuosa 
Raynha,  mynha  senhora  e  madre  que  deos  aja  de  pes- 
tellencia  se  finou  ,  do  que  eu  filhey  assy  grande  senti- 
mento que  perdi  todo  receo ,  aella  em  sa  jnfirmydade 
sempre  me  cheguey,  E  asseruy  sem  alguú  empacho, 
como  se  tal  door  nõ  sentisse  Eaquesto  foy  começo  de 
mjnha  cura.  por  que  sentindo  ella,  leixei  dessêtir  amym 


62  o    LEAL    CONSSLLKEIRO. 

E  ueer  que  alguu  sj)aço  fora  leixado ,  do  dlclo  cuida- 
do, e  recreceome  por  ajgua  speraiiça  que  uijria  aper- 
feito  curamento.  Étilliey  mais  huâ  niaginaçom  iiuiy 
proueitosa,  ca  penssey  que  nosso  senhor  me  daua  tan- 
ta pena  em  meu  coraí^-om  por  fazer  emenda  de  meus 
pecados,  e  fallicymentos ,  que  nnUhor  pêra  mym  era 
sofrer  aqueJla  corn  paciência,  e  uirtuosa  maneira,  car- 
recebelia  na  outra  uyda,  ou  na  questa  per  deshonrra 
aleyjamento  ou  taaes  perdas  que  bem  emendar  nunca 
ee  podem,  e  perdas  que  daquelle  mal  como  fosse,  saao 
per  mercee  do  senhor  deos ,  cousa  nom  me  ficaria. 
Eaquesle  penssamento  me  deu  esforço  apeileiar  cora 
tal  cuydado,  como  faria  contra  qual  quer  cousa  con- 
trayra  5  ou  tentaçom  que  me  uehesse  Edesto  fylhey 
grande  esforço  com  paciência  e  boa  sperança  que  som 
três  cousas  pêra  lai  caso  muvto  necessárias.  Porem 
depois  aturei  com  adicta  doença  acerca  de  três  anos 
nom  tam  aficado,  mas  cadauez  melhorando,  nunca  po- 
rem sentindo  huu  soo  plazer  chegar  ao  coraçom  liure- 
niente  como  ante  fazia.  Eacabado  odicto  tempo  per 
special  mercee  de  nosso  senhor  deos.  Eu  ouue  accrta- 
mento  destar  por  spaço  de  dos  meses  fora  daficanien- 
tos ,  e  em  boa  desposiçom  de  saúde ,  e  com  boas  fol- 
ganças sem  filhar  cadahuu  daquelles  consselhos  dos  fí- 
sicos ,  nem  outras  meezynhas  Subyíamente  senly  che- 
gar ao  coraçom  como  deuya.  Epareciarae  que  daquel- 
la  guisa  que  per  cadarrom  homem  perde  o  dereito  gos- 
to das  uiandas,  e  despois  cobra,  que  assy  perdera,  e 
recobrara  odicto  sentido  das  folgãças,  e  prazer.  Edaily 
auante  eu  fuy  assy  perfeitamente  saão ,  como  se  dètal 
sentimento  nunca  fora  atacado,  Eao  presente  graças 
adeos.  eu  me  tenho  em  geeral  por  mais  ledo,  que  era 
ante,  que  da  dieta  jnfirmydade  fosse  sentido,  E&to 
por  nom  filhar  aquel  prazer  assy  ryjo  em  alguãs  cou- 
sas,  como  fazem  os  da  noua  hydade,  ca  bem  pensso 
que  desq  passa  tal  nom  se  filha,  mes  por  grande  cus- 
tume  as  cousas  contrairás  que  muytas  uezes  me  dauom 


o    LEAL   COiVSSELIIEIRO.  63 

gram  toruacom  ,  com  seguro  e  repousado  coracom  as 
passo.  Eassy  conssijrantlo  obeni  dauantagem  que  syn* 
lo  desta  temperança,  e  fortelleza  me  tenho  na  conta 
suso  scripta.  oque  uos  sereno  por  acrecentar  aos  da 
tristeza  geeral  tentados,  boa  sperança  que  muyto  lhes 
faliece,  aqual  he  fundamento  de  sua  cura,  e  saúde. 
Eper  esta  guisa  muytos  adoecem  de  tristeza  que  sem- 
pre rejna  em  seus  coraçoues  ,  e  por  ano  poderem  so* 
frer ,  e  desperarem  de  saúde,  sematom  ,  ou  se  uafío 
aperder  onde  nunca  parecem  Huus  por  perdas  que  ou- 
uerom  ,  cousas  de  uergonça  que  lhes  aconteceo ,  noio, 
ou  medo,  que  sobeio,  e  continuadamente  sente-  Poren- 
de  eu  entendo  que  muytos  no  que  sobresto  tenho  scri- 
pto ,  e  adiante  screuo,  ajnda  que  per  fundamento  des- 
uayrados  syntom  atristeza,  deuem  com  agraça  de  deoã 
auer  esforço  consselho,  e  auisameto  cõ  grande  parte 
deboa  sperãça. 

CapituIIo  XX. 

Dos  aazos  per  que  se  acreceta  ossèntido  do  humor 

mcnencorico  e  dos  remédios  contra  elles. 

KJs  principaaes  aazos  da  mjnha  saúde  foy  trabalharme 
dessentir  per  quantas  partes  me  uijnha,  e  acrecentaria 
odicto  sentimento  ,  Eachey  que  prjncipalmente  das 
duas  que  foram  ocomeço  .s.  Estar  em  lugar  de  pestel- 
Jença ,  ou  acerca.  E  me  dar  sobejamente  aos  aficados, 
e  grandes  cujdados,  per  tempo  perlongado,  detodo  ou- 
tro noio,  desprazer,  e  sanha  de  que  ouuesse  ryjo  sen- 
tido, me  tornaua  aquella  lembraça  damorte  com  seu 
receo,  tristeza,  e  tiramento  detoda  folgança,  Doutra 
qualquer  doença,  destemperamento  da  compreissom  , 
mígua  de  dormir,  sobeios  trabalhos  do  corpo,  e  de  ge- 
juus  specialmente  depâ  e  augua,  de  fruita,  ou  seme- 
lhantes Eesso  medes  derretocr  as  obras  da  necissidade 
per  qual  quer  guisa,  dos  tempos  bruscos  e  contrairòs 
ao  que  deseiaua  sentia  empeecimento   deme  apartar 


64  O  LEAL   CONSSELHEIRO. 

SOO,  por  estar  penssando  achaua  muy  contraíro,  posto 
que  auoontade ,  per  uezes  me  demàdaua.  Das  uiandas, 
ou  per  meu  custume,  fuy  assy  regido,  que  nunca  del- 
ias achey  grande  mudamento.  E  per  uezes  comya  da- 
quellas  que  os  físicos  chamam  manencoricas ,  e  nom 
me  faziam  força,  porem  muyto  nom  as  husaua.  Eobe- 
uer  dauga  senti  que  faz  pêra  ta]  door,  empcecimento, 
mas  ouynho  bê  auguado  entendo  que  he  melhor  que 
ossem  augua ,  posto  que  os  físicos  sobresto  mais  lou- 
uem,  nom  conhecêdo  que  per  el  nunca  uyram  aperfei- 
ta  cura,  mas  por  embargar  oentendèr  faz  ocoraçom 
nom  sentir  tam  f}'jo  aquel  cuydado  queo  mais  ator- 
menta Eaoutros  que  com  abeuedice  som  do  conto  da- 
quelles  que  per  ledice  se  tornam  bugios ,  ou  caães , 
por  que  acidentalmente  recebem  tal  prazer,  ou  abe- 
tamento  dos  sentydos  pêra  nom  padecer  tanta  tristeza, 
como  porá  pequeno  spaço  logo  tornam  assentir  tanta 
myngua  daquel  ujnho ,  q  como  costrangidos ,  tornara 
ael  detal  guisa,  que  onde  se  cuydam  curar  dehuâ  jnfir- 
midade,  cae  na  seruydoõe  da  beuedice ,  per  que  se 
perdem  muytos  das  almas,  e  corpos,  e  fazendas.  Po- 
rem defazer  tal  cousa  que  seia  digna  derreprehenssom, 
aquém  tem  deseio  debem  uyuer,  nom  menos  que  ca- 
dahuã  das  cousas  principaaes  em  este  caso  traz  em- 
peecimento,  Eporem  segundo  meu  juyzo  detoda  cousa 
mal  feita,  que  ouue  tal  sentimento  se  deue  guardar,  . 
e  nunca  per  consselhos  defísicos,  ou  doutra  pessoa, 
nem  deseio  que  aja,  queyra  fazer  pecado,  nem  se  ue- 
zar  amaao  custume,  por  penssar  que  pêra  esto  lhe  será 
remédio ,  por  que  do  uyuer  bem  ,  e  uirtuosamente  em 
geeral,  boa  maneira  serrecebe  grandes  dous  beês  Pri- 
meiro que  nosso  senhor  aos  semelhantes  próuee  mais 
de  sua  graça.  Segundo  que  sempre  uiuem  em  melhor 
sperança  que  pêra  todos  casos  de  tristezas  e  nojos 
muyto  presta  Eo  dicto  Rey  meu  senhor  e  padre,  cuja 
alma  deos  aja,  per  cinquo  anos  desto  foy  mujto  senti- 
do^, auendo  principal  fundamento  por  huã  cadella  da- 


o    LEAL    CONSSELIIEÍRO.  65 

nada  queo  niordeo.  Ela)  pena  sentia  em  deseinbargrr , 
que  huu  dia  recebendo  hiiã  enformaçom  ,  nom  saben- 
do sobre  que  era,  ocoraçoin  nom  lhe  queria  conssentir 
que   na   maào   ateuesse.    Epor  el  oquerer  forçar,  com 
suores   lhe  ueo  tal  afrontamento,  que  perforca  lha  fez 
leixar.    Ecomo   alançou   sobre  huTi  cama  ficou  por  en- 
tom  fora  detal  sentido,  como  se  cousa  dello  nom  sen- 
tisse.  Eaquel  santo  Condestabre  per  semelhante  ,  ouue 
aqucste   sentimento,  por  sobejamente  se  dar  aos  cuy- 
dados   e   desembargos  ê  tanlo,  que  por  semelhante  ^:e 
querer  forçar  pcra  ouiijr  ajguà  pessoa  destado,  lhe  uij- 
nha   tal   gastamento   que   ei   confessou  que  ja  por  ello 
esteuera  em  ponto  de  cayr  em  terra.  E  huu  e  o  outro « 
nom    se   partindo  de  sua  maneira  uirtuosa  deuyuer  re- 
ceberom  boa  saúde.  Contra  todos  estes  acontecymen- 
tos ,  eu  me  trabalhaua  de  saber  seus  contrairos,  e  re- 
rnedios  com  os  quaaes  per  graça  de  nosso  senhor,  ma 
ajudaua  omylhor  que  podia  desta  guisa.  Da  pestellen- 
ça  me  afastaua  e  aprendi  remédios  pêra  curar,  e  pers- 
seruatyuos  os   mylhores  que   pude   saber.   Quãdo  dos 
cuydados  sentia,  que  me  tornaua  como  bem  podia  por 
filhar  boas  folganças  orremediaua  Esse  era  de  muytos 
aficamêtos   de  desembargos,  per  monte,  e  caça,  que 
fora   per  dias  andasse ,  onde  me  nom  requerissê  acha- 
ua   grande  melhoramento  Peraos  nojos  meezynha  muy 
proueitosa  sentia,  falia  deboos ,  e  sages  amygos ,  jeer 
per  boos  liuros   de  uirtuosas  enssynanças ,   que  fallem 
aproposito   do   que   bem    for   tocado.    Destar   soo   me 
guardaua,  saluo   pouco   têpo   per   alguã   necessydade. 
Essempre   achei   muy   proueitosa   boa  occupaçom  de- 
honestos ,  e   razoados  trabalhos  do  corpo  e  do  entêder 
pêra  taaes  sentidos  e  aociosidade  muyto  contrairá.    Se 
ocorpo   sentia  destêperado ,  trabalhaua  por  me  reduzir 
aboa  temperança  Essobre  todas  estas  cousas  auya  esta 
pratica,  que  quando  tornaua  aaquella  muy  malleciosa 
renembrança    com    gastamento  de  coraçom   logo  lhe 
cõssijraua  ofundamento,  Esse  podia  sêtir  donde  era  com 

I 


QG  o   LEAL   CONSSELHEIRO. 

remédios  contrairos  lhe  prouija  Esseo  nom  entendia 
penssaua  que  era  desteniperança  natural  do  corpo  , 
aqual  ênjeidada  aquel  penssamêto  e  tristeza  me  leixa- 
ria.  Efilhaua  por  ello  em  nivm  spaço  com  menos  a- 
frontamento.  A  niyngua  do  dormyr  curaua  per  sono 
razoado  que  depois  íilhaua.  No  beuer  pus  regra  gee- 
ral ,  de  grande  temperança  em  quantidade,  e  bem  au- 
guado  Otrabalho  sobeio  com  folirança  razoada  êmen- 
daua,  Ea  temperança  dos  trabalhos,  e  do  entender, 
uof)ntade,  e  do  corpo,  pêra  boo  regimento  do  prazer, 
e  boa  desposiçom  dam  grande  auantagem  ,  por  que 
toda  gouernança  sem  esto,  nom  UiUyío  presta  Porem 
cadahuii  guardandosse  da  fraqueza  ,  preguyça  ,  seguy- 
mento  de  uoontade ,  ou  uaã  r^loria ,  que  som  fiidamen» 
tos  de  fallecerem  em  amballas  partes  ,  em  todas  cou- 
sas asseu  poder  com  agraça  do  senhor  seguarde  dos 
erros  per  sobeio,  ou  fallecimento.  Ca  posto  que  delles 
alguã  cousa  senty ,  nom  sey  quaaes  som  peores ,  nem 
mais  perijgosos.  Porem  em  esto  muj  specialmente  de- 
ue  reguardar,  quem  bem  regido,  saâo ,  e  ledo,  per 
mercee  do  senhor  deseia  uyuer.  Ejejuar  nunca  leixey, 
segundo  meu  custume  por  que  opadecimento  de  huu 
dia  per  outros  recebia  corregymento.  Ahusança  das 
pirollas  comíius  pêra  esto  acíiey  muyto  proueitosa  , 
Eera  todo  caso  que  me  atristeza  recrecia ,  aellas  me 
tornaua,  tomandoas  em  razoada  manejra ,  segundo  eu 
sentia,  que  cõuijnha  adesposiçom  em  que  eu  estaua; 
Essêpre  delia  me  achey  pêra  esto  degrande  uantagem, 
porem  oque  bem  esteuer  de  saúde,  purgar,  sangrias, 
e  uom\tos,  deue  muyto  scusar,  quandosse  bem  pode 
fazer.  Cõtra  o  tempo  contrairo  penssaua  que  uijnha 
per  ordenança  de  deos ,  e  que  porem  cõ  paciência  o 
deuia  sofrer  atendendo  por  seu  corregimento ,  conssij- 
rando  amaneira  suso  scripta,  no  pecado  da  yra  sobre 
amudança  dos  tempos,  e  pareceome  muyto  grande  re- 
médio, tanto  que  liuã  vez  bê  me  senty  ,  e  auerme  por 
iBaão.    Eposto  que  me  despois  aquel  cuydado  toriiassís 


o  LEAL,  consseliíl;;ro.  67 

auvao  por  ncideníe  que  da  doen(;a  ficaua  aqual  sempre 
me  Irabalhey  por  adesprei^ar.   Kper  taaes  auysamenlos 
eu    iiiC   goiíeruei  detal  guysa  que  per  mysericordia  de 
nosso   seniior  deos,    E  de   sua  muy  saneia  madre,  eu 
fuy  e  soo  delío  coino  diclo  lie  em  toda  boa  saúde.  Ea- 
quella  tristeza  que  uem  de  muytas  partes  juntamente, 
ou   per   alguii  tempo  contynuado  me  parece  muj  forte 
de   soportar,  e   auer  sobrella  boo  remédio.  Casse  ue- 
her  morte  de  taacs  pessoas  de  que  ajamos  ryjo  sentin- 
do per  que  conuem  trazer  doo,  e  leixar  festas,  tanger, 
e   uestir   boas   roupas,  de  que  se  recebe  parte  de  fol- 
gança, e  uem  nossa  doença,  e  de  outras  pessoas  che- 
gadas  com    jierdas,  despezas ,  a   que   bem  se  proueer 
senom   possa  ,  e   se  fazem  alguãs  íaaes  cousas  que  to- 
cam na  honrra,  e  boo  stado  todo  juntamente,  ou  acer- 
ca, como   esto   fere   em  todas  partes,  poucos  sse  po- 
dem  em    tal    tempo  bem  gouernar.   Porê  segundo  meu 
juyzo  .  este  he  seu  principal  remédio,  auermos  firmeza 
da   íTe ,  por  aqual  creamos  que  todo  uem  per  ordenan- 
ça de  nosso  senhor,  que  he  fonte  de  justiça,  e  pieda- 
de,  e   mjsericordia ,   por  que   deuemos  dauer  em  elle 
boa  sperança  que  muyto  tyra  todas  tristezas  possujndo 
caridade  que  por  todallas  cousas  da  uida  presente  nom 
conssentira   receber  tal  tristeí':a  que  nos  empeecimen- 
to,    nem   grande   toruaçom    possam   trazer.  E  quando 
laacs  se  acontecerem,  ou  qual  quer  outra  tristeza  pens- 
gar  deuemos  que  he  peJleja  contra  q  nos  cõuem  armar. 
Primeiro  das  três  uirtudes  suso  scriptas,  encomendan- 
do inuy  specialmente  anosso  senhor,  todos  nossos  fei* 
ctos,   dictos  ,  e   penssamento,  per  esmollas ,  e   obras 
uirtuosas  dando  carrego  aoutras  boas  pessoas  qucsse- 
melhfite   por  nos   ofacom.    Ca   esto  he  certo  ,  que  uai 
muyto   em   todos   estes  casos.  Segundo  husar  das  car- 
deaaes  uirtudes  .s.  prudência  pêra  nos  guardar,  e  pro- 
ueer onde   còuem  ,  justiça  per  que  nom  façamos,  di- 
gamos ,  ou   penssemos  por  cousa  quenos  uenha  contra 
razam  e  dereito  Temperança  com  q  obremos  Iodas 

I  2 


68  O   LEAL   CONSSELHEIRO. 

cousas  tam  temperadamête  como  se  detaaes  contrairos 
nom   fossemos   guerreados.    Fortelleza  principalniente 
pêra  soportar  os  contrairos  e  nos  proueer  em  todo  com 
agraça   de  nosso   senhor,  dos   mais  proueitosos  remé- 
dios   Terceiro   compre   proueer   assaude   do  corpo  por 
que   eu    tenho   sentido   do   que  ajnda  que  taacs  feitos 
per   mostrança  bem  seiom  soportados  acõpreissom  se- 
gasta,    e  desconcerta,  por  que  cõuem  deo  remediar, 
assy   que  com   amercee  de  deos   seia  sempre  em  boo 
stado,  por  que  assaude,  e  fortelleza  do  corpo,  da  gee- 
ral mente  grande  ajuda  pêra  oesforço  do  cora(;om,  seen- 
do  acompanhado  detodallas  uirtudes  suso  scriptas  Ede- 
uenos  sempre  lembrar,  quantos  semelhantes  sentymen- 
tos ,  e   tristezas  janos  passamos,  e  outros  cadahuíí  dia 
soportam  ,  e  todo  em  fym  ,  per  mercee  do  senhor  deos 
se  corregê  peraos  que  uirtuosamente  se  gouernam  E(al 
deuemos  sperar  que  anos  se  fará  sebe  e  uallentemento 
pelleiarmos  contra  este  mallecioso  pecado,  auendospe- 
rança  em  nosso  senhor  deos  per  determynaçom  darra- 
zora ,  posto  que  afraqueza  e  derribamento  do  coraçom 
nom  oqueira   conssentyr  ,   nem   creamos   que   sempre 
em  quanto  durar  alembrança  durara  ossentido  por  del- 
ia nacer ,  ca  nom  he  assy,  por  que  segundo  no  come- 
ço he  dicto ,  duas   som  as  lembranças.    Híja  do  cora- 
çom ,    Eoutra   da   cabeça  e   por   que   daquella  que  do 
coraçom  procede  uem  graam  parte  de  taaes  sentidos, 
aqual  muy  ligeiramente  as  mais  das  uezes  passa,  nom 
he  pêra  creer  que  assy  dure,  como  aque  da  parte  da- 
cabeça    principalmente    sentymos   Eporem    tenhamos 
que  allembrança   principal  daquei  feito  que  he  funda- 
mento da  tristeza  fique  ossentido  passara  por  tal  lem- 
brança nom  passar  assy  ryjo  ao  coraçom  como  per  al- 
guii   tempo   he  sentyda ,  mas  per  agraça  do  senhor,  e 
boos   auysamentos  todo  se  deue  screuer  que  uenha  a- 
perfeito  curaraento. 


o    LEx\L    CONSSELIIEIRO.  69 

Capilullo  XXI. 

Da  tristeza  que  sobre  pecados  ,  ou  uirludes 

tem   nacymento. 

U  ejo  outras  duas  maneiras  da  tristeza  que  ham  con- 
trairos  nacinientos ,  huíi  de  nialles  e  pecados,  aoutra 
de  uirtudes,  desposiçom  delias  e  boas  manhas  Dapri- 
meira  querendo  alguíis  auer  têpo  abastante  pêra  com- 
prlr  seus  maaos  deseios  em  gaanhos  nom  dereitos,  uvn- 
gà«'as  contra  justiça,  folgança  com  pecado  seo  auer 
no!n  podem  sentem  alguus  ryja  tristeza,  cayndo  em 
Iam  grande  erro  como  seo  defeito  fezerom.  Edesta  gy- 
sa  outros  que  por  algua  boa  teençom  leixarom  passar 
semelhantes  cousas,  tilham  conlynuado  arrepeendimen- 
to  com  tristeza,  por  os  malles  que  nom  acabarom , 
conssiijrando  como  passou  tal  tempo  em  que  poderom 
satisfazer  asseus  maaos  deseios.  Este  me  parece  muy 
grai  de  e  magnyfesto  erro,  que  nace  de  mynguada  ffe. 
Casse  teuermos  por  determjnado  ,  que  detodo  mal 
aueremos  pena  ,  se  dei  compridamente  nom  formos 
confessados,  e  arrependidos,  com  propósito  deo  mais 
nom  fazer  como  nos  poderá  pesar  do  que  leixamos  de 
comprir.  Esse  conssijrarmos  cam  pouca  folgança  de- 
taaes  cousas  íica,  e  aobrigaçom  de  tanta  perda  spiri- 
tual ,  e  temporal,  ia  mais  nom  pensso ,  que  onde  boa 
teençom  rejnar ,  possa  caber  tal  tristeza,  ante  auera 
continuado  prazer  ,  teedo  anosso  senhor  em  grande 
mercee  querello  assy  liurar  de  laços  tam  aparelhados. 
Assegunda  parte  he  dalgúus  que  deseiando  sê  descrip- 
çom  auer  todas  uirtudes  desposiçom  delias,  e  boas  ma- 
nhas,  como  as  melhor  uee  acadahuú,  E  quando  alguâ 
nom  podem  tam  perfeitamente  cobrar,  filham  sanha 
dessy ,  com  menos  preço ,  do  que  recebem  desordena- 
da tristeza.  Eos  que  per  semelhante  gujza  caàe,  ho 
com  êueja,  ou  myngua  dessaber.  Ca  deuyam  penssar 
-que  todos  somos  obrigados  denos  guardar  depecado,  e 


70  O    LliAL   CONSSELHEIRO. 

de  fazer  cousa  torpe,  ou  digna  de  tal  prasmo ,  que 
traga  enipeecymento  em  nosso  boo  nome  ,  segundo 
aquel  estado  em  que  formos,  ]embrandonos  aquelles 
ditos,  quem  fallecer  em  huu  pecado,  em  todos  he  di- 
gno deculpa,  e  mais  quem  sua  fama  despresa ,  m}z- 
quynho  he.  Porem  ajnda  que  deuemos  auer  esta  guar- 
da nas  uirtudes  desposiçom  delias,  e  manhas  do  cor- 
po, nom  podem  seer  detodos  per  igual  possuydas ,  se- 
gundo diz  oapostollo  ,  que  departimeto  degraças  som 
que  da  ospiritu  como  lhe  praz  Ahuu  dehuã  uirtude,  e 
a  outro  da  outra  por  tal  que  todalJas  que  perfeitamen- 
te foro  juntas  em  nosso  senhor,  seiam  per  partes  ê  nos 
outros  achadas.  Porem  cadahuu  se  trabalhe  sempre 
com  sa  graça  dauer  e  cobrar  as  mais  e  melhor  que 
poder,  guardãdosse  defazer  cousa  contra  sua  uoonta- 
de ,  ou  que  anos ,  e  alguém  traga  magnyfesto  dâpno. 
E  que  dalguas  tanto  nom  aja,  se  uir  q  he  fora  razoa- 
damente  depecado ,  myngua,  e  dereito,  prasmo  por 
nom  seer  assy  perfeito ,  nunca  receba  tal  tristeza  que 
lhe  possa  fazer  empeecimento ,  conhecendo  que  ael 
he  dado  trabalhar  sempre  por  as  cobrar,  e  q  nõ  pode 
uijr  amayor  comprimento  de  cadahuã  do  que  deos  or- 
denar. Ca  posto  que  os  apostollos  fossem  compridos 
do  spiritu  santo ,  nom  forom  todos  iguaaes  e m  pree- 
gar,  screuer,  nê  myllagres,  e  semelhante  se  faz  em 
todos  estados,  caper  desposiçom  dos  corpos,  hidades , 
e  uirtudes  a  que  naturalmente  cada  huú  nace  despos- 
to,  ou  segundo  o  dicto  dos  estrollogos  que  as  pranetas 
per  ordenança  de  nosso  senhor  o  dotarom,  cõuem  que 
em  sua  uirtude,  boa  manha,  e  uentura  faça  uantagera 
Enom  he  porem  deteer,  que  todas  estas  cousas  nos 
podem  obrigar ,  nem  costranger  apecarmos  Ca  seendo 
assy  nom  aueriamos  liure  aluydro ,  e  per  consseguyn- 
te ,  nem  desmericime»nto ,  oque  assanta  igreia  per  con- 
trairo  determyna,  e  manda  creer.  Porem  como  suso 
dicto  he  cadahuu  se  trabalhe  por  sempre  auançar  nas 
uirtudes,  mynguaíido  nos  fallicimentos ,  e  com  torua- 


o    LEAL   CONSSELHEIRO.  7| 

çom  nom  filhe  desordenada  tristeza  por  todo  noni  auer 
tam  conipridamente  como  bem  deseia. 

CapiluUo  XXIJ. 
Da  mais  forte  maneira  da  tristeza, 

jL\a1em  das  maneiras  da  tristeza  em  cyma  scriptas, 
he  liua  miiY'f>  niais  íbrte,  que  tira  odormir,  e  gram 
parte  ilocoiin  r  lUraz  ddor  ao  coraçom  com  graiides 
tremores,  e  ai^aF-rameiilos  Eaqnesto  se  faz  por  alg-uu 
muj  spicial  lundcimento  degrandes  desauêtujras ,  mal- 
les ,  e  perdas,  o  outras  por  arreiíatamenlo  dalg-nàs  des- 
concertadas íantí^siaSj  uee  aeste  meesmo  sentimento 
oqual  he  tam  perijgoso  que  muytos  per  este  aazo  ue- 
herom  asse  matarem  perssy ,  ou  naturalmente  morre- 
rem per  myngua  de  comer,  e  dormir,  e  doores  que 
per  este  aazo  lhe  recrecerom.  E  muytos  caae  em  san- 
dice Porende  sobre  tam  forte  padecimento,  outra  cu- 
ra, ou  remédio,  nom  saberia  dar  senom  que  adeos  se 
encomende  muy  denotamentc  ,  e  anossa  senhora  uir- 
gem  santa  maria,  filhando  grande  contriçom  detodos 
seus  erros,  e  fallicymentos ,  se  confesse  compridamen- 
te  delles ,  Essatisfaça  em  todo  caso  quanto  mais  bem 
poder  confirme  propósito  de  nom  tornar  aos  pecados 
em  que  foy  culpado,  nem  em  outros.  E  propoer  em 
seu  coraçom  deuyuer  mais  limpam.ente  que  poder  com 
agraça  denosso  senhor  deos  ,  conformando  sua  uoonta- 
de  ao  que  aelle  mais  prouuer.  Echeguesse  ao  sagra- 
mento  da  comunhom  com  amayor  limpeza,  e  humyl- 
dade  que  se  poder  aparelhar,  propoendo ,  e  despoen- 
dosse  logo  afazer  alguas  grandes  obras  meritórias  spe- 
ciaaes  segundo  apessoa  for  por  complazer  ao  dicto  se- 
nhor, pedindolhe  por  mercee  que  lhe  por.ha  boo  asses- 
sego  em  seu  coraçom.  Edi  auante  guardesse  muyto 
destar  soo,  mais  sempre  acompanhado,  de  boas,  dis- 
cretas, e  deuotas  pessoas,  perao  ajudarem  com  agra- 
ça do  senhor,  ao   soportar  em  boo  stado ,  arredando 


72  O    LEAL    CONSSELHEIRO. 

quanto  mais  poder  todo  ciiydado  da  quellas  cousas 
passadas,  presentes,  e  por  uijr,  donde  tal  tristeza 
tem  seu  principal  fundamento,  E  na  questes  casos  cõ- 
nem  estar  mujto  ao  regymento  da  física  em  comer, 
beuer,  e  todallas  outras  cousas,  que  sem  pecado  se 
poderem  fazer,  leixando  jejuns,  e  outras  cerimonyas 
dedeuaçom  queo  corpo  eauoontade  nom  querer  sopor- 
tar,  nom  desemparando  porem  afirmeza  da  ífe.  grande 
sperãça  boo  propósito  e  uoontade  do  coraçom ,  mas 
tenha  em  esto  tal  maneira ,  como  fazõ  os  que  som 
doentes  doutras  enfermydades  ,  aos  quaaes  nom  lie 
contado  por  erro,  nen»  fallicimento  fazerem  mudança, 
nem  enna  maneira  de  seu  uyuer  por  guardarem  orre- 
gymento  que  por  os  físicos  lhe  for  dado,  atee  que 
pella  graça  de  deos  ,  uenha  aboo  estado  de  saúde, 
aqual  da  sua  raercee  principalmente  deue  seer  spera- 
do,  mais  que  doutro  consselho  nem  regymento  seu, 
nê  doutros  homeês,  ajnda  que  cada  huíi  porem  se  de- 
ua  desforçar  quanto  mais  poder  abuscar  todos  boos  re- 
médios que  perssi  poder  cuydar  >  Eoutras  pessoas  de- 
bem  lhe  for  consselhado. 

Capitullo  XXITJ.  \ 

Das  partes  do  éfadaineto. 

JL  or  quanto  ©enfadamento  he  huú  grande  aazo  de  fa- 
zer uijr  atristeza ,  Eu  côssijrey  ,  e  per  speriencia  co- 
nheci q  se  auia  per  cynquo  guysas,  Primeyra  por  muy- 
to  obrar  oque  lhe  nom  praz.  Segunda ,  por  tanto  so- 
beio  fazer  alguã  cousa  q  ao  entender  perteeça  que 
ajnda  que  folgue  em  acontinuar  per  afeiçom  do  cora- 
çom  ,  el  dessj  per  canssaço  filha  eníTadamento.  Tercei- 
ra, por  nom  teer  que  despenda,  otempo  que  lhe  de 
alguã  folgança.  Quarta,  per  doenças  que  uenham  ao 
corpo  naturalmente,  ou  per  alguu  acontecimento.  Quyn- 
ta,  por  nojo,  pesar,  desprazer,  auorrecymento ,  sui- 
dade  que^  se  recreçom,  ou  per  natural  tristeza  dauoon- 


o    LEAL  CONSSELHEIRO.  73 

tade  mal  ordenada.  Epareceine  seer  necessário ,  ajnda 
que  onome  seia  geeral  cada  hnfi  conhecer,  quando  tal 
sentyr  dondelhe  uem  ,  e  saberlhe  buscar  com  agraça 
do  senhor  dereytos  remédios,  Epera  mym  em  geeral 
achey  estes.  Aprimeira  parte  buscar  tal  cousa  que  me 
de  aazo  pêra  liJhar  prazer ,  ca  tal  enfadamento  uem 
com  desprazer.  Eporêde  cõuem  curallo  per  seu  con- 
trairo.  Assegunda  por  que  se  geera  de  canssaço ,  folga 
sollamente  abasta,  assy  que  estando  em  logar  aparta- 
do alguu  spaço  em  que  possa  descanssar,  he  pêra  ello 
abastante  remédio,  e  quanto  mais  se  filhar  em  cousas 
defolgança  se  cuydado  fará  mayor  uantagem.  Eper  a- 
terceira  poucas  uezes  tal  enfadamento  recebem  os  que 
bem  uyuem  ,  por  que  sabem  assy  repartir  seu  tempo 
que  nunca  lhe  fallece  em  queo  bem  despendam.  Ca 
nom  teendo  cousa  certa  que  fazer;  em  leer,  screuer, 
fallar ,  bem  opassarom.  Eque  esto  falleça  per  seu  uir- 
tuoso  cuydado  ham  delle  boo  passamento  como  scre- 
uem  de  cipiom  ,  que  dessy  dizia,  Nom  se  sentir  me- 
nos soo  que  quãdo  soo  estaua,  ca  per  boos  cuydados 
sempre  lhe  parecia  estar  bem  acompanhado,  mes  pêra 
outro  scusar  tal  enfadamento  he  boo  consselho ,  nom 
auer  sobeia  folgança  cõ  alguã  synguUar  cousa,  por 
que  ligeiramente  os  que  atai  custumam  recebem  en- 
fadamento em  toda  outra  como  aquelJa  nom  podem 
auer,  Eporem  ocoraçom  deue  seer  liure  e  custumando 
pêra  quando  comprir  saber  bem  passar  o  tempo  com 
cousas  desuairadas  côcordantes  ael ,  e  assua  uyda ,  as- 
sy que  nom  podendo  auer  alguãs  folganças,  saibha 
]ogo  achar  outras,  Epor  geeral  aja  boo  departir,  e  fal- 
lar com  pessoas  perteencentes  que  pêra  todo  estado, 
e  ydade  he  sempre  boo  passar  de  tepo  aquém  ofilha 
por  folgança.  Peraa  quarta  deuesse  conssijrar  que  pois 
uem  per  aazo  da  enfermydade  cessando  ella  oenfada- 
mento  passara,  Ecorao  soporto  frio ,  queêtura  ,  suor, 
trabalhos,  e  semelhantes,  que  adoença  faz  padecer; 
assy  oenfadamento  que  uem  com  ella  he  dessoportar^ 

K 


74  O    LEAL    CONSSELHEIRO. 

sperando  sempre  cõ  amercee  do  senhor  boa  sande, 
per  que  todo  auera  corregy mento.  Sobre  aquinla  de- 
iiesse  reguardar  oque  tenho  scripto  destes  sentimen- 
tos ,  e  de  seus  remédios,  dessy  auer  lembrança  de- 
quantas  uezes  semelhante  passou  da  quello  que  maia 
sente  enfadamento  Eque  depois  tornou  asseu  boo  sta- 
do  Etal  deue  creer  que  se  fará  do  que  ao  presente  sê- 
tir  oolhando  mais  nos  acontecimentos  que  aoutros  se 
recrecerom,  e  como  de  cousas  que  parecem  contrairás 
se  tornarem  em  grande  melhoria ,  porende  auendo  fie 
em  deos,  com  seu  amor,  e  boa  sperança  sempre  a- 
tendamos  por  corregymento  nos  padecymentos  do  co- 
raçom ,  corpo,  e  uoontade,  per  que  soportaremos  mais 
leuemente  taaes  enfadamêtos  ataa  que  per  sa  graça 
todosse  corregá  Econhecy  que  os  tocados  detal  pade- 
cimento seus  cuydados  costrangidamente  sempre  som 
embargados  em  alguãs  cousas  que  lhes  dam  grande 
pena  Eos  outros  mudamos  segundo  os  feictos  se  re- 
crecem  ,  Ejwsto  que  per  necessidade  tenham  principal 
teêçom  ahuã  cousa  ,  passando  aquella  ,  penssom  liure- 
miente  em  outra  que  se  recrece ,  Enom  embargando 
que  os  mujto  dados  a  algum  fallicymento  assy  tragam 
ocuydado  em  el  embargado  como  aesperiencia  bê  de- 
mostra dos  namorados,  cobijçosos  e  semelhantes.  Po- 
rende hi  ha  tal  deferença ,  ca  estes  aespaços  sêtem 
prazer  Eos  outros  contynuada  tristeza  em  quanto  pens- 
som Essento  per  graça  denosso  senhor,  que  boa  sages 
bem  parecente,  e  graciosa  molher  cõ  que  homem  seia 
casado  ,  e  se  muyto  amen  he  grande  remédio  contra 
atristeza ,  e  serafadamento.  Equando  meu  jrmaão  ojf-* 
fãte  dom  pedro  desta  terra  se  partio,  sabendo  eu  que 
alguâ  desto  sentia  lhe  fiz  este  consselho  ajuso  scripto, 
oqual  ajnda  que  falle  em  outras  partes  sobreste  caso 
he  seu  principal  fundameto  Emandeyo  aqui  screuer 
por  alguns  remédios  pêra  esto  proueitosos  era  elle  see* 
rê  scriptos. 


0    LEAL    CONSSELHEIRO.  75 

Cap:  XXÍIIJ. 
Do  consselho  q  sohreslo  dey  ao  ÍJJante  dom  Pedro, 

onssclho  pêra  uos  sobeio  me   parece  screuer,  por 
que   aiiossa  grande  bondade,  e  discrecom  me  faz  nem 
saber  que  auysanient.o  nos  possa  dar,  que  per  nos  me- 
lhor iioin   sejaaes  anisado,  mas  por  alguu  pouco  com- 
prir  oque  uos  disse  em  breue,  esto  uos  screuo.  Eajnda 
que  muyto   cõuijnha  seer  emendado,  e   corregido  na 
substancia   e   modo   descreuer  por  ope   q  no  tempo  e 
apressa,    que  auya   de   outros   feitos,  Epor   que.  som 
certo   que   aaenlençom    principalmente  olharees ,  nom 
quis   sobrelo   mais   trabalhar.  Temperaae   as  afeiçoões 
assy   que   per   ellas   nom   deseiees   nem   façaaes  alguâ 
cousa   contra  razom ,    e  dereito ,    nem   ponhaaes   tara 
ryjo   auontade   no  que  uos  por  alguém  parece  que  de- 
uaaes   requerer,  que   nom   se  compryndo  oque  bem  o 
dereitamente   cuidaaes   que  requerees,  muyto  empee- 
ce  auosso  stado  ,    e   repouso   de   uosso   boo  coraçom , 
mas  todo  fazendo ,  e  requerendo  com  razoada  deligen- 
cia   e  boa  discliçom  ,  ordenaae  assy  auoontade  que  a$ 
fijs  dos  feitos,  uijndo  de  qual  quer  guysa  este  prestes 
e   aparelhada   nom  filhar  tal  toruaçom  que  uos  empee- 
cymento   possa  trazer.  Na  sanha  esso  medes  uos  com- 
pre  auysamento   em   tal   guysa,  que   compraaes  oque 
diz  oapostollo  Assanhandouos   e   nom  queiraaes  pecar 
Efarees  esto  dando   spaço   aas*execuçoões  defeito,  e 
dicto  quandoa  com  uosco  sentirdes,  saluo  em  os  casos 
que  no  recebem  trespasso,  e  naquellas  obraae  tempe- 
radamente ,  conhecendo  que  auoontade  com  ella  quer 
obrar  sobeio  -   Datristeza    uos  auisaae  quanto  com  a- 
graça   de   nosso  senhor  poderdes   Edesto  el  soo  he  de 
lodo   meestre    Mas  fallando  do  que  anos  perteece  do- 
brar, amym  parece  que  com  sua  mercee  cada  huu  po- 
de receber  grande  ajuda,  sguardando  aos  ires  poderes 

K  2 


76  O    LEAL   CONSSELHEIRO. 

que   som   ênos ,    dessuas   ordenadas    folganças.    Eestes 
som  ,  primeiro  decreer ,  e  gouernar  ocorpo  segundo  do 
sentir,  terceiro   do  entender,  e  razom  ,   Edeuees  des- 
saber   que   per  desfalJecymento  de  boo  stado  de  cada- 
huil  destes,  atristeza   uem    alguãs    uezes   conhecendo 
donde,  e  outras  nõ  saluo  aquelies  que  dessy  teem  huã 
grande  jndustria  per  muyto  special  graça,  ou  per  muy- 
la   grande   pratica  de  coraçom  repousado  q  se  examy- 
ne   sem    afeiçom   por   oque   el  sente.  Eaoutros  dignos 
de  autoridade  ouujo  e  teem  aprendido.  Epera  esto  he 
dessaber  que  opoderio  de  crescer,  e  gouernar  requere 
comer,  beuer,  dormyr,  e   lançando  fora  toda  sobegi- 
doõe   daquello   em   que  se  sostem  desse  ja  manteer  o- 
corpo   em   saúde ,  e  necessário  lhe  cõuem  trabalho ,  e 
folgança.    Eossentir  demanda  cousas  lygeiras  depassar 
com    prazer   cõ   toda  deleitaçom  dauoontade ,  sem  re- 
guardado  seer  bem  feito ,  segundo  razom  e  ley  do  se« 
nhor  deos  Eo  do  entender  requere  bem  fazer  com  fol- 
gança em  cuidar  de  compoer  em  obra,  e  em  obrando 
e  desque  o  tem  feito  nembrandolhe  queo  fez,  seendo 
obra  enssy  boa  e  bem  feita ,  ou  lhe  pareça  que  he  tal 
ajnda  queo  nom  seia.  Eacadahuã  destas  partes  ,    com- 
pre reger  muyto  bem  e  discretamente,  aquel  que  de» 
tristeza   se  quer  afastar,  e  com  agraça  do  senhor  traz 
seu   coraçom   em  boo  assessego  por  que  em  elles  som 
estes   três   poderes,  Eper  aazo  de  cadahuu  recebemos 
cada  dia  folgança  segundo  per  speriencia  sêt3'mos  Eas- 
sy   nos   entra   atristeza,  posto   q   o   nom  conheçamos, 
por   teermos   afeiçom  ahuã  das  partes,  nom  sentymos 
oque  da   outra   nos  uem  nacendo ,  assy  como  huu  de- 
uoto  sem  discreçom  ,   sentyndo  em  sy  grande  folgança 
de   uvgilia,    ou   de  jejufi ,  cuidado   muyto   per   aquele 
prazer  adeos,  que  perteence  ao  poder  darrazom  ,  cor- 
rendo per  seu  camynho  muyto  desordenadamente,  nom 
proueendo   ao   que   lhe   demandam  os  outros  poderes, 
jse   per  sua   special   graça  nom  fosse  guardado  de  que 
seno  fazia  merecedor,  pois  adiscreçom  desemparaua, 


o    LEAL    CONSSELHEIRO.  77 

nem  se  scusaria  decair  em  tristeza,  e  perder  afolgan- 
ça  que  penssaua  dauer.  Essi  huíí  que  deseiando  uyuer 
em  folgàça  e  fora  de  tristeza,  por  satisfazer  ao  que 
requere  aquel  poderio  de  crecer,  Etoda  sua  u}da  des- 
])endesse  em  Jargo  comer,  beuer,  e  dorm}  r ,  fallece- 
ria  sem  duuyda  dafim  que  per  aquel  camynho  percal- 
çar  entende,  por  que  teendo  femença  aaquel  sentido, 
desemparou  os  outros  dous  que  no  coraçom  teem  seu 
quynhom  ,  Essentyndosse  fallecidos  de  lhe  darem  oque 
deuem  auer,  couem  que  traga  tristeza,  ou  rayngua  de 
boa  ledice,  que  auer  poderá,  se  cadahuíí  proueessa 
como  deuya,  Eesto  dando  mais  ao  melhor,  e  assy  ca- 
dahuii  oque  per  necessydade  requere,  Econhecendo 
que  anos  he  dado  uyuer  per  razom  em  uantagem  ,  so- 
bre íodallas  outras  potencias  aeste  poder  daremos  a- 
moyor  parle  danossa  folgança.  Epor  que  afilha  princi- 
palmente fazendo  bem,  em  esto  despenderemos  a  mayor 
parte  de  toda  nossa  uyda.  Do  sobrepojamento  dalgui^is 
humores  que  desgouernam  ocorpo .  que  aeste  poder 
dessua  gouernança  perteece  cernem  resguardar  .  por 
que  alguas  uezes,  uem  por  el  atristeza ,  mais  nom 
sempre,  porem  errom  muytos  querendosse  logo  pur- 
gar, ou  sangrar,  como  som  tristes  Eatristeza  nom  he 
sempre  dally,  mas  uem  da  myngua  de  nom  dar  acada 
huu  destes  poderes  oque  bem  requere,  ca  se  mal  de- 
scia, nom  lhe  he  deoutorgar,  mas  com  discrecom  ,  e 
boo  consselho ,  uos  trabalhaae  em  quanto  poderdes  de- 
conhecerdcs  uossos  desfalecymentos ,  Eondeos  poder- 
des forçar,  forçayos ,  e  onde  nom  contenperanca ,  e 
jndustria  uos  fazee  scorregar,  por  uos  tornardes  aaquel 
geito  que  uos  boo  parece.  Elouuarom  os  boos  que  som 
em  uyda  Eaquelles  que  êssynanças  em  liuros  aproua- 
dos  leixarom  Eporem  he  deproueer,  em  qual  quer  ca- 
so que  atristeza  uenha ,  seo  corpo  he  em  boa  desposi- 
çom  e  saúde,  por  que  ajnda  que  per  aquel  aazo  nom 
uenha,  a  tristeza  meesma  traz,  desordenança  do  cor- 
po, aqual  sempre  requere  emenda,  por  quea  faz  acre- 


JS  o    LEAL   CONSSELHEIRO. 

cenlar  Eassy  quando  derdes  acadaliuu  poder  com  boa 
discliçom  conhecimento,  aqueJlas  folganças  que  bê 
deseia,  com  aajuda  daquei  per  que  todo  bê  se  começa 
persseuera,  e  acaba  uyuerees  ledo  em  esta  uida,  e 
com  sperança  dauerdes  mayor  ledice  da  que  ha  deuijr 
Essobresto  uos  cõuem  poer  grande  guaarda  nos  desor- 
denados deseios,  dequererdes  fazer  alguas  cousas  As 
quaaes  nom  uijndo  segundo  nossa  uoontade,  cõuem 
perforça  que  nos  traga  tristeza  Etam  bem  uos  deuees 
guardar  depresumir  que  muyto  merecees ,  e  nõ  uos  fa- 
zem oque  he  razom  ,  mas  fazee  todo  bem  que  poder- 
des,  conhecendo  que  mais  nom  podees  do  que  deos 
quyser  ordenar.  E  esto  medes  das  uoontades  ,  que  na- 
da he  todo  uosso  querer ,  nem  poder ,  pêra  fazer  oque 
quyserdes  se  el  nom  manda  que  uenha  aperfeiçom  E- 
demericimentos  conhecee  que  os  nom  teendes,  e  que 
mais  uos  da  do  que  dar  deuya,  segundo  nossas  obras, 
auendo  sobresto  huú  tal  geito,  que  se  uossa  uoontade 
se  desatentar  em  grande  ledice,  ou  se  leuantar  em  so- 
berua  presunçõ  ou  uaa  gloria,  apresentaae  ante  uos  os 
falicymentos  que  deuos  conhecees  decadahuú  daquei- 
les  três  poderes  de  que  mais  quer  presumyr,  ouse 
gloriar,  Etanto  acharees  que  nom  trestombando  per 
uosso  presumyr  ou  ledice  sobeia  que  depois  faz  cair 
em  tristeza  uos  tornarees  auosso  boo  stado  de  coraçom 
spaçoso ,  e  bem  ledo  Esse  uos  ueem  ameude  taaês 
nembranças  q  muyto  uos  querem  derribar  em  abaixa- 
mentos e  menos  preços  de  nossos  feitos ,  pessoa,  ou 
uyda,  logouos  alçaae  dando  graças  adeos  trazendo  aa- 
memoria  todos  aquelles  beês  que  dei  auees  recebidos 
de  cadahuíi  dos  sobredictos  poderes  Ecom  deuydo  a- 
gradecymento  oolhando  em  elles  tiraae  da  memoria 
aquella  nembrança  por  que  em  ella  muyto  durando 
per  força  uos  trazera  grande  tristeza  Eesto  fazee  emen- 
dado sempre  naquelles  erros  deque  uerdadeiramente 
uos  sentirdes  culpado ,  trazêdo  ante  uos  anembrança 
da  mysericordia  de  nosso  senhor,  em  que  deuees  auer 


o    LEAL    CONSSELHEIRO.  79 

segura  pperança  ,  que  todallas  cousas  faz  por  bem  da- 

quelles  queo   amam  ,    e   seruem ,   ou   seruir   deseiom 

seguiidiz   oapostollo   que   todallas  cousas  se  tornam  a- 

bem  aos  que  teem  propósitos  de  sanctos  que  he  tomar 

dessua   mam    todallas   cousas   que  nos  faz   que  sõ  por 

nosso   bem  ,  Conhecendo-  que   mais  nos  gallardoa  que 

merecemos    E   menos  pena  do  que  somos  culpados  E- 

trazendo   sepre   com   nosco   tal  teençom  e  auysamento 

cõ    boa    sperança    andaremos   com    agraca   do  senhor 

miiyto    arredados   detodas   tristezas.    No    beuer,  fazee 

poer   temperança   em    uossa  casa,  por  que  Ja  fora  on- 

desse  mais  acustuma  husarem  sobejamente  esta  manha 

e   desordenarsseham  seos  bem  nom  guardaaes  Efarom 

esto    por   que   auoontade    lhe   ha  grande  afeiçom ,   per 

todollos  três  poderes,  por  quanto  el  sente  do  que  per- 

íeence  ao  poderio  decrecer  grande  mantymento  dessua 

gouernança   Eperao   sentyr   grande    ledice   em    obeuer 

com   as  falias,  e  outras  cerjmonyas  que  acustumani  os 

que  em  esta  golosice  filham  folgança  deafazer ,  e  falla- 

rem  em  ella  Equanto  aarrezoni  ilies  parece  que  he  bem 

cduydar  seus  amygos ,  e  lhes  teer  companhia.  Eporeni 

íeendo  taaes  razoões,  com  fundamento  de  custume  da 

terra    cõuem   detressayrem  ,  se   per  nossos  consselhos, 

e  anisamentos  com  aajuda  do  senhor,  mujto  nom  som 

emendados  Seedo  mais  anisado  que  nas  cousas  que  ou- 

Berdes  dacabar,  busquees  geito,  com  spaço  dauoonta- 

de  ,  no    obrar   quando  comprir,  ajnda  que  seia  aficada 

na  teençom  Enom  tenhaaes  que  com  todollos  homeens 

cõuem   denos   auer  dfmâ   guysa ,  mas  conhecee  quãta 

ami   parece   que   cadahuu   requere  sua  maneyra  de  o- 

brar  com  elles,  e  cõiierssar,  mayormente  se  he  senhor, 

ou  jgual   Eporem   guardando   uosso  boo  estado  traba- 

}baae   deos   conhecer.  Essegundo   delies  conhecerdes, 

assy  uos  gouernaae,  nom  porem  que  ^m  ta]  geito   po- 

nbaaes  final  entençom ,  mas  obrando  em  esto ,  pev  dis- 

ereçom   auee   uossa  speranra   em    aque]   que    uos  dea 

afiftuy   boa  uõotade ,   e   entender,  que  el   «os  dí?ra  a» 


CO  o    LEAL   C0NS5ELHEIR0. 

boas  fijs ,  e  saydas  em  todos  uossos  feilos,  em  tal 
guysa  qiieo  grande  e  boo  nome  que  per  el  leuaaes  da- 
questa  terra  ,  seia  sempre  uerdadeiramente  por  sua 
mercee  de  bem  em  melhor  acrecentando.  Epera  boo 
êcamynhamento,  e  ajuda  destes  feitos,  achey  por  gran- 
de remédio  e  consselho  fallar  claro  e  descuberto  com 
boo  sages  e  uerdadeiro  amygo.  Eque  seia  nom  derri- 
bado, nem  tocado  daquel  failicymento  deque  homem 
se  queria  correger,  e  nom  se  deue  fallar  cõ  muytos, 
ajnda  queos  ajaaes  por  amj^gos,  mas  com  aquel  ou  a- 
quelles  que  pêra  tal  caso  scolherdes  por  melhores,  E 
mais  chegados  aageeral  boa  teençom  Esse  poder  sseer, 
com  os  que  ja  daquel  cazo  ouuerom  speriencia  per 
grande  husança  Essom  ê  boo  stado  retornados,  ou  que 
contra  el  sêpre  se  bem  gouernarom. 

Cap."   XXF. 
Do  nojo ,  pezar ,  despi  azer  ^  auorrecimêto  e  suydade. 

jLjLntre  nojo  e  tristeza,  eu  faço  tal  deferença,  por  que 
atristeza  per  qual  quer  parte  que  uenha ,  assy  embar- 
ga sempre  contynuadamête  ocoraçom  ,  que  nom  da 
spaço  depoder  em  ai  bem  penssar  nem  folgar  Eo  nojo 
he  atêpos ,  assy  como  se  uee  na  morte  dalguíls  paren- 
tes e  amygos,  onde  aquel  tempo  que  per  justa  í^lta 
ou  lembrança  se  sente,  ossêtymento  he  muyto  ryjo. 
Porem  taaes  hi  ha,  que  passado  o  dia,  logo  rij ,  fal- 
iam, e  despachadamente  no  quelhes  praz  penssom. 
Eatristeza  nom  conssente  fazer  assi ,  por  que  he  huài 
door ,  e  contynuado  gastamento  com  apertamento  de- 
coraçom  Eo  nojo  nom  continuadamente,  saluo  se  tan- 
to se  acrecenta  que  derriba  em  tristeza  Etal  deferença 
se  faz  antre  nojo  eo  pezar  por  que  o  nojo  no  spaço 
queo  sentem  ,  faz  em  aquel  queo  ha  grande  alteraçora 
mostrando  manyfestos  sygnaaes  ê  chorar,  sospirar,  e 
outras  mudanças  decontenêça,  oque  nom  mostra  opezar 


o    LEAL   CONSSELIIEIRO.  81 

soUamente.  ca  bem  ueemos  que  das  mortes  dalguns 
jios  })esa  iiiuyto,  e  uoni  nos  derriba  tanto  que  façamos 
oque  onojo  nos  costrange  fazer,  e  menos  caymos  era 
tristeza,  nem  dello  auemos  sanha,  mas  propriamente 
sentymos  no  coraçom  huií  pesar  com  assaz  dessentido 
Eaquesto  medes  se  faz  quando  alguãs  cousas  bem  nom 
fazemos  depequena  conta  Ca  se  degrandes  som  trazem 
nojo  e  se  demayor  contynuada  tristeza.  Odesprazer  lie 
ja  menos  ,  por  que  toda  cousa  quesse  faz  deque  nos 
nom  praz,  podemos  dizer  com  uerdade  que  nos  des- 
praz delia,  ajnda  que  seia  iam  ligeira  que  pouco  syn- 
tamos.  Eoauorrecymento  auemo  dalguãs  pessoas  que 
desamamos,  ou  de  que  auemos  êueja ,  posto  que  seia 
ê  nossa  secreta  camará  do  coraçom,  e  dos  desagracia- 
dos  enxabijdos,  ou  senssabores ,  Eaquesto  do  que  fa- 
zem que  anos  nom  perteêça  nê  nos  torue,  ca  senos 
tocar,  ou  em  alguã  cousa  toruar,  ou  empeecer  ossen- 
tydo  que  dello  ouuermos;  sanha,  nojo,  ou  pesar,  se 
deue  chamar  mais  que  auorrecimento.  Esso  medes  dal- 
guus  tempos  conlrairos  anosso  prazer  que  nom  empee- 
cem  algua  cousa,  mes  naturalmente,  ou  por  alguã  ra- 
zom  desacordem  denossa  compreissom  ,  ou  uoontade. 
Eassy  he  bem  uisto  como  estas  cousas  som  antressy 
apartadas  ,  ajiid.a  que  huus  nomes  por  outros  se  custu- 
niem  chamar,  mas  aquelles  que  husarom  detal  desuai- 
ro  de  uocabuUos,  souberem  que  traziam  ê  realidade 
uerdadeira  deferença ,  miiytas  uezes  ueem  sem  sanha 
Eporem  nom  propriamente  segundo  me  parece  por  par- 
tes delia  deuem  seer  contadas.  Eassuydade  nom  des- 
cende de  cadahuâ  destas  partes;  mes  he  huíí  sentido 
do  coraçom  que  uem  da  senssualidade ,  e  nom  darra- 
zom  ,  e  faz  sêtir  aas  uezes  os  sentidos  da  tristeza  e  do 
nojo,  E  outros  ueem  daquellas  cousas  que  ahomem 
»  praz  que  sejam  E  alguus  cora  tal  lembrança  que  traz 
prazer  e  nom  pena  E  em  casos  certos  se  mestura  com 
tam  grande  nojo  que  faz  ficar  em  tristeza  Epera  enten- 
der esto,  nom  compre  leer  per  outros  liuros,  ca  pou- 


82  O    LEAL    OONSSELHEíRO. 

COS  acharom  que  dello  fallê,  mes  cadalmu  ueendo  oqiie 
screuo  conssíjre  seu  coraçom  no  que  ja  per  feitos  des- 
uairados  tem  sentido  E  poderá  ueer  e  julgar  se  fallo 
certo  Fera  mayor  deciaraçom  ponho  desto  exempros. 
Se  alguã  pessoa  por  meo  seruyço  e  mandado  demym 
se  parte,  e  delia  tenho  suydade  Certo  he  que  detal 
partyda  nom  ey  sanha,  nojo,  pezar,  desprazer,  nem 
auorrecymento,  ca  prazme  desseer,  e  pesarmya  se- 
nom  fosse  Epor  se  partir  alguãs  uezes,  uem  tal  suyda- 
de que  faz  chorar,  e  sospirar  como  se  fosse  denoJQ 
Eporem  me  parece  este  nome  dessuydade  tam  próprio 
que  olatyni  nem  outra  linguagem  que  eu  saibha  nom 
he  pêra  tal  sentido  semelhante.  Desse  auer  algnãs  ue- 
zes com  prazer  e  outras  com  nojo  ou  tristeza  Esto  se 
faz  segvido  me  parece,  por  quanto  suydade  propria- 
mente he  sentydo  que  ocoraçom  filha,  por  se  achar 
partido  da  presença  dalguã  pessoa  ,  ou  pessoas  que 
muyto  per  afeiçom  ama  ou  oespera  cedo  desseer.  Ees- 
so  medes  dos  tempos  e  lugares  em  que  per  deleitaçom 
muyto  folgou,  dygo,  afeiçom  e  deleitaçom,  por  que 
som  sêtymentos  que  ao  coraçom  perteecem  dõde  uer- 
dadeiramente  nace  assuydade  ,  mais  que  darrazom  , 
nem  do  siso  Equando  nos  uem  algíla  nembranca  dal- 
guu  tempo  em  que  muyto  folgamos,  nom  geeral ,  mass 
que  traga  ryjo  sentydo  Epor  conhecermos  oestado  era 
que  somos  seer  tanto  melhor,  nom  deseiamos  tornar 
ael ,  por  leixar  oque  possuymos ,  tal  lembramento  nos 
faz  prazer  Eamyngua  do  deseio  per  juyso  determynado 
darrazom  nos  tira  tanto  aquel  sentydo  que  faz  assuy- 
dade,  que  mais  sentymos  afolgança  por  nos  nenbrar 
oque  passamos  que  apena  damyngua  do  tempo  ou  pes- 
soa. Eaquesta  suydade  he  sentyda  com  prazer,  mais 
que  cõ  nojo  ne  tristeza  Quando  aquella  lembrança  faz 
sentir  grande  deseio  ,  outorgado  pertoda  mayor  parte 
darrazom,  detornar  atai  estado,  ou  cõuerssaçom ,  cora 
esta  suydade  uem  nojo  ou  tristeza ,  mais  que  prazer 
Epor  que  sobresta  lembrança  que  traz  suydade  muytos 


o    LEAL    CONSSLLIIEiRO.  83 

eiicorrem   em    pecado,    tristeza,  e  desordenanca ,  da- 
uoonlade  lembrandulhes  por  uisla  dhomêes  emolheres 
casadas,  cantygas,  clieiros ,  ou  per  saltamento  doutras 
falias   e   cuydados ,  algíias   pessoas  com  que  ouuerom 
algíías    folganças  quaaes   nom   deuyam  ,    ou   poderom 
compridamente  auer  como  deseiauã  e  oleixauam  defa- 
zer.  Epor  ello  lhes  uem  deseio  de  tornar  atai  estado  e 
cõuerssaçom   nom   auendo   reprendimento  do  mal  que 
fezerom  ,  mas  ham   desprazer  do  que  norii  conipryrom 
Estes   proueitosos   auysamentos  ,    penssei  declarar  da 
boa  maneira  que  deuemos  teer  em  tal  cazo  Primeiro, 
he   conhecer  como   per  contriçom  os  pecados  se  per- 
doam ,  e   sem   ella  muj   poucas  uezes  ou  nunca  Epor 
que   lai  suydade   com   deseio   deliberado  detornar   ao 
mal  que   fez   priua  toda   contriçom   e  faz  ressurgir  se- 
gundo dicto  de  sam  paulo,  aquel  mal  que  ia  destroyra 
porende  assy   como   do  aazo  da  morte,  pêra  sêpre  he 
deguardar  detal  paixom  e  sentymento.  Segundo,  lem- 
bramos deue  que  nosso  senhor  ama  quê  ledamente  por 
elle   faz   toda   obra   uirtuosa ,  ca  requeresse  pêra  bem 
se  fazer  alguã  cousa  que  se  faça  com  escolhimento ,  e 
deleitaçom  ,  Eporende  como  delia  uem  arrepeendymen- 
to,  oraericymento   do    bem  que  fez  se  perde,   Econs- 
sijrando  estes  malles,  que  detal  cuydado  se  recebera, 
com   agraça  denosso   senhor   rauyto   dei  nos  deuemos 
guardar.  Com  taaes  precebymentos  quando  uem  ode- 
seio   de    tornar   ao    mal   que  comprio,  arrepeendymeto 
do  bem  que  fez,  ou  dos  erros  que  leixou  defazer,  lan- 
çallo  deuemos  logo  denos  dizendo  ,  deos  em  meu  aju- 
doiro  resguarda,  senhor  trigate  por  me  ajudar,   ou  a- 
carretando   nosso   cuydado   apenssar  em   ai ,   Esse  uir 
que  se   nom   quer   arrincar  nem  fazer  scorregar  leixeo 
correr  alguú  pouco  com  entençom  deo  tirar  desta  guy- 
sa ,  amoestando   a?sy   medes   com   aquella  pallaura  de 
sam   paulo,  que  fruito  ouuestes  da  quellas  cousas,  de 
que  agora   sentijs  uergonça ,    e   afym  delia  he  morte, 
Etal  conuem   sentyr  das  semelhantes  porende  nom  he 

L  2 


84  o    LEAL    CONSSELHEIRO. 

deperder  obem   que  per  conlriçom  do  mal  auemos  re- 
cebido ,  nem   per  arrepeendimento  das  cousas  per  nos 
bem  feitas  O  gallardõ  que  per  mercee  de  nosso  senhor 
dei   speramos  em  nada  seia  toruado  mais  sempre  faça- 
mos fim  de  taaes  cuydados  em  louuar  seu  santo  nome, 
por  nos   releuar  as   grandes   penas  na  uyda  presente , 
deque   éramos    per   taaes   feitos   merecedores  ,    Eassy 
speramos  que  seia  na   outra   arredandonos   dos   aazos 
que   podemos   em   elles  ,    e   semelhantes   cayr.    E   dos 
beês   que   per  sa  graça  fezermos  sempre  lho  tenhamos 
em  grande  mercee  quanto  mais  poder  anossa  fraqueza 
Efazendo  assy  per  sua  graça  seremos  em  taaes  cuyda- 
dos  fora  depecado,    e    tristeza   poendo  por  ello  nosso 
coraçom    e  uoontade  em  grande  assesspgo  e  contenta- 
mento Que   assanha  uenlia  sem  desprazer,  pesar,  no- 
jo ,    ou    tristeza    apratica   bem    odemostra  ,    mas   pêra 
mayor  declaraçom  ponho  exempro.  Sealgflu  tem  alguâ 
tal   liança   com   outrem   de   que  lhe  prazeria  partirsse 
per  mouymento  dauoontade ,  ou  conhecendo  que  seria 
seu    proueito   e   aquesto  achando  razom  dereita  perao 
fazer,  se  aquel  que  lhe  faz  tal  cousa  deque  aja  sanha, 
e   conhece  doutra  parte  que  ja  tem  dereito  fundamen- 
to pêra  se  partir  do  que  leixar  deseiaiia,  ou  fazer  mal 
aquém  por  êueja,  ceumes,  ou  sua  uantagê  muyto  lhe 
prazeria,  Certo  he  que  detal  sanha,  nom  ueni  despra- 
zer geeralmente  pois  lhe  praz,  e  menos,  pezar,  nojo, 
nem   tristeza    Eo  enfadamento    he  desuairado  detodos 
estes  sentymentos,  e  uem  segundo  he  ia  declarado  no 
capitólio   que   deile  falia    Aquestas  dectaraçooes ,  nos 
screuo   conssijrando   meus   sentidos,  e   dos   outros  se-- 
gundo  meu  juyzo  demostra  ,  antre  estes  nossos  seníy- 
mentos,  nos  quaaes  he  de  conssijrar  que  podemos  er- 
rar per  os  auermos  nos  casos  que  nom  deuemos  ryjo , 
e   mais   tempo   que   he   razom  Esse   por  elles  fazemos 
destiiamos   fazer  tal  mal  anos  ou  aoutrem  deque  deua- 
mos*auer  corregyraento ,  ou  fazer  satisfaçom  com  pro^ 
posito  desseaielhante  anosso  poder  nom  fazermos  e  nos 


o    LKAL  CONSSELHEIRO.  85 

tirar  com  agraça  de  nosso  senhor  dalgua  uoontade  e 
teenc^om  que  por  sanha,  malquereça,  tristeza,  nojo, 
|)ezar ,  desprazer,  auorrecymento,  suydade  em  nos  syn- 
tamos,  aqual  nom  he  deconssítir,  ou  consselhandonos 
Seia  qiio  aleixemos  per  tal  pessoa  que  deuamos  creer, 
ou  obedecer. 

CapHvUo  XXVI. 
Do  pecado  da  occiosidade. 

í^a  occiosidade  em  nosso  linguagem  seu  nome  mais 
apropriado  he  priguyça  Assy  que  todo  erro  da  priguy- 
ça  procede  da  occiosidade.  Edella  uem  mal  tarde  ,  e 
frac^niète  começar,  coiitynuar,  e  acabar  as  cousas  que 
bem  e  cedo  se  deuem  fazer  Eaquesto  per  estas  seis 
deferenças  Primeira,  per  apertamento ,  empacho,  e 
fraqueza  do  coraçom.  Segunda,  do  deseiar,  e  seguir 
sobeio  uyda  folgada,  e  uyçosa.  Terceira,  de  pospoer 
os  feitos.  Quarta  por  seer  mouediço  ,  e  demaao  asses- 
sego ,  per  cuydado,  falias  occiosas,  e  obras  sem  pro- 
Tieyto  Quynta,  por  auer  pequena  lembrança,  sentydo, 
e  auysamento,  percebimento  perao  que  cõuem  fazer. 
Sexta,  por  seer  deleixado  ,  froxo  ,  e  tardynheiro  em  as 
cousas  que  faz.  Per  todas  estas  partes,  ou  cadabuàt 
delias,  ameu  juyzo  erramos  per  occiosidade  segudosse 
pode  sentir,  quem  em  sy  e  nos  outros  be  conssijrar 
Eaquesta  repartiçom  faço  assy  breuemente,  nom  em- 
bargando que  em  huu  liuro  que  deste  pecado  .  e  dos 
outros  traula  muy  compridamente  achey  dei  xxiiij.  de- 
ferenças .s.  spaçamento  dos  beês  que  som  pêra  fazer. 
Emuelhentamento ,  ou  priguiça  Arrefcecymento  do  a- 
nior  de  deos  Pusalamjdade  ,  que  he  pequeneza  do  co- 
raçom Mouymento  do  coraçom  Desassessego  do  cor- 
po. Desassessego  da  uoontade  sem  razom,  Ignorância, 
que  he  myngua  de  saber  Occiosidade  em  special.  So- 
beio fallar,  Uaao  fallar,  Mormuraçom  que  he  maldi- 
zer doutrem  Maao  caliar.  Pesume  pêra  bem  fazer,  Sono 


iJt)  o    LEAL   CONSSELHEIRO. 

aalem   rlarrazom    Negligencia,  que   signyfica  myngua 
dediuida  sollicitidoõe  acerca  dos  feitos  próprios  Leixa- 
niento  do  que  he  theudo  fazer  Ingralidoõe  myngua  de 
deuaçõ  Langor,  que  he  huã  jnfirmydade  dalma  q  tira 
do  coraçom  toda  dulçura  do  prazer  spiritual  Empacha- 
mento   de   bem   fazer,  nojo  deuyuer,  Falicymento  de 
comprir  peendêça   Esse   tê  propósito   deanom   fazer  , 
chamasse  pecado,  no  spu  sancto,  desperaçom  de  deos, 
e  dessua   niysericordia  Enom  fallando  mais  destas  por 
scusar  grande   prolixidade.    Da  primeira  mynha  defe- 
rença   .s.  do   apertamento,   êpacho ,  e  fraqueza  deco- 
raçom  ,  uê  nom  cometer  os  feitos  de  que  se  recrecem 
perigoos,  grandes  trabalhos  do  corpo,  e  do  spíi  Epos- 
lo  que  se  comecem  nom  os  contynuam  nem  acabo  as- 
si  bem  como  deuem  ,  nem  iiyda  uirtuosa  pode  percai- 
çar  pêra  que  se  requere  boo  esforço  Ca  scripto  he  or- 
leyno   dos  ceeos  força  padece ,  e  os  fortes  orroubam , 
e  tardam  muyto  sobeiamente  as  execuçooês  dos  feitos 
com  receo  do  medo,  perda,  ou  desprezamento  dalguãs 
pessoas,  que  temer,  e  recear  nom  deuya.  Eporem  os 
fracos  empachosos,  e  apertados  de  coraçom,  nom  po- 
dem grandes  feitos  bem ,  e  uirtuosamente  acabar.  Se- 
gunda do  deseio  dauyda  uyçosa  e  folgada  que  cayamos 
em  opecado  da  occiosidade,  he  uysto  per  oque  se  afir- 
ma ,  ouyço  seer  sempre  acompanhado  com  uycio  Eque 
homem  folgadio  acabara  em  proueza  deuirtudes,  ebeês 
temporaaes.  Terceira   do   pospoer  dos  feitos  aalem  do 
que   compre   em  todo  caso  se  recrece  grande  mal,  oa 
pecado.    Ca  scripto   he  no   guardes   que   faças   Eesto 
procede  claramente  da  occiosidade    Etem  huã  pratica 
muyto   certa  ,  pêra  se  poder  conhecer  opriguyçoso  do 
aguçoso    Ca   os   tocados  de  priguyça  ante  quesse  des- 
ponham  pêra  obrar  as  cousas,  sempre  lhes  parece  que 
teem   grande   spaço   e   porem  as  pospõe  Edesque  som 
em  ofeito  parecelhes  otêpo  assy  breue  que  ja  nom  po- 
derom  acabar  e  porem  que  melhor  he  ficar  pêra  outro 
dia.  Os  degrande  aguça  fazem  ocontrairo  porq  ante  do 


o  LEAL  CONSSELHEIIIO.  g7 

começo,  entendem  que  passa  otempo  trieosamento,  e 
que  he  bem  começarem  logo  sem  tardança,  e  assy 
contynuar.  Equando  os  outros  acabom  penssando  que 
nom  auerom  spaço ,  elles  crêem  que  ajnda  pode  mais 
fazer,  por  melhor,  e  mais  cedo  uyuerem  aperfciçom 
do  que  deseiom  Eos  de  tal  teençom  se  ouuerem  saber 
e  geito  de  bem  executar  faram  mais  cousas  em  breue 
spaço,  que  outros  em  muyío  mayor  Eos  que  som  be 
aguçosos  todallas  cousas  fazem  deboo  spaço,  polias  co- 
meçarem com  tempo  razoado  Eos  prigujçosos  desor- 
denadamente se  triga,  pctr  que  se  despoõe  mal  e  tar- 
de  ao  que  harn  defazer.  Os  que  priguyçosamente  o-^ 
bram  fazem  dias  e  noites  pequenas  .  dizendo  q  nom 
acham  tempo  abastante  por  se  scusar  de  suas  priguy- 
ças ,  oqual  perdem  segundo  diz  soneca,  dauyda  q  he 
grande,  mas  nos  afazemos  curta,  por  assabermos  mal 
e  priguyçosamente  repartir,  e  despender.  Aqui  he  de 
conssijrar  como  por  nossa  myngua  leixamos  daprender, 
saber,  e  praticar  uirtndes,  boas  manhas  pêra  alma  e 
perao  corpo  Eperdemos  muyto  tempo  que  ja  mais  co- 
brar nom  poderemos.  Quarta  no  moujmento  e  maao 
assessego  ,  assy  erramos  per  occiosidade,  como  no  so- 
beio  repousar  Ca  todo  esta  em  bem  executar  as  cou- 
sas que  deuemos  fazer,  Tanto  erramos  per  este  peca- 
do quando  em  casa  grandes  feitos  deuemos  obrar,  se 
despendemos  nossos  tempos  em  montes,  caças,  fes- 
tas,  jogos ,  e  falias,  sem  proueito ,  como  em  jazer, 
ou  dormir.  Ebe  pensso  que  os  senhores  per  este  dosas- 
sessego  caaê  em  occiosidade,  mais  que  per  outra  par- 
te. Eaquesto  fazemos  per  duas  guysas ,  Hua  perafei- 
çom  que  auemos  aestas  folgaças  suso  dietas  Outra  por 
apena  e  trabalho  do  sprito,  que  sofrer  nom  podemos 
Epor  lhes  fugir  por  occupaçom  destas  cousas,  despen- 
demos os  tempos  assy  mal  e  deshordenadamente  que 
com  dereita  razom  nos  pode  por  ello  muyto  culpar. 
Esse  disserem  que  apriguyça  mostra  folgança  epnreni 
nom  deue  concordar  seer  chamado  aos  que  taae-S  cou- 


88  o    LEAL    CONSSELHEÍKO. 

sas  de  trabalho  despendem  seus  tempos  aalê  do  que 
cõuem  Aeslo  respõdo  que  huã  prigu}ça  he  de  traba- 
lhar do  corpo ,  e  outra  do  spíi  Eassy ,  como  aquel  que 
mal  e  tarde  se  despõe  aas  obras  corporaaes  que  deue 
fazer,  erra  por  esta  occiosidade,  ou  priguyça,  desta 
guisa  que  he  culpado  oque  faz  semelhante  nas  obras 
do  entender ,  posto  que  do  corpo  trabalhe ,  ca  nom 
erra  por  trabalhar  corporalmête .  mes  por  nom  fazer 
nem  executar  per  obra  do  entender  oque  deue  Ca  es- 
te pecado  esta  em  leixamento,  e  nom  em  cometer. 
Eporeni  grandemente  e  per  muytas  partes  os  senhores 
erramos  e  caymos  em  el ,  por  que  atantas  cousas  so- 
mos obrigados  de  bem  fazer  as  quaaes  leixamos ,  ou 
bem  nom  comprymos  por  seguyr  uoontade  uencendo- 
nos  per  fraqueza  Eassy  obrando  outros  feitos  em  que 
nosso  tempo,  ou  bees  despêdemos  no  que  poderiamos 
bem  scusar  segudo  se  poderá  ueer  em  huú  liuro  que 
chama  de  martym  pires ,  em  que  toca  os  pecados  que 
perteecem  aos  senhores  demayor,  e  mais  somenos  es- 
tados, Ecomo  poucos  se  poderiam  achar  fora  de  gran- 
des culpas  posto  que  doutros  per  mercee  do  senhor 
deos  estem  em  boa  desposiçom  Ecaymos  em  tal  peca- 
do,  per  cuydados ,  falias,  obras  sê  proueito  e  fora  de 
tempo,  per  que  nos  toruã  do  que  somos  obrigados  de- 
fazer  Eu  nom  digo  que  filhar  spaços  razoados  em  as 
cousas  suso  dietas  seia  occiosidade  ,  ante  he  necessá- 
rio, e  cada  huii  segundo  seu  estado  o  deue  filhar,  cons- 
sijrando  sua  desposiçom  do  tempo,  logar,  e  as  cousas 
que  tem  de  fazer ,  assy  que  onde  na  somara  estando 
em  logar  razoado  ,  e  sem  special  occupaçom  ,  duas  ou 
três  uezes  podesse  bem  yr  amonte ,  ou  caça,  quando 
comprir  per  dous  ou  três  meses,  assy  aaja  em  squee- 
cimento  como  se  dello  sentido  nom  teuesse ,  e  assy 
detodos  outros  spaços,  e  desenfadamentos ,  por  que 
na  sobeia  occupaçom  das  cousas  per  que  leixamos  bem 
defazer  oque  deuemos  esta  opecado.  Tanto  tempo  scu- 
se  taaes  folganças,  seo  bem  poder  sofrer  Epor  que  em 


o   LEAL   CONSSELHEIRO.  09 

todos   pêra   dcsuairados   feitos   auirtude  e  desposicom 
nom  he  igual ,  proueja  razoadameiíte  ao  que  sua  com- 
prelssom  ,  e   poderios  dalina  requerem  e  fazendo  assy 
noni  cayra  por  ello  em  csLe  pecado.  No  cuydado  scor- 
regamos    sandyamente   em   este   desassossego  ,    quSdo 
ossenhor   penssa  como   regeria  omundo   seendo  padre 
sancto,  e  caualleiro,  se  fosse  bispo,  auyda  que  faria, 
e   opobre  se  cobrasse  riqueza  e  ouelho  se  tornasse  as- 
seer   moço,  estando   em   huá  terra,  se  em  outra  este- 
uesse  Eassy   e  outras  semelhantes  fantesias  per  occio- 
sidade ,    leixamos   grandes   teujpos   sem   proueito  des- 
pender ,  em   que   poderamos   penssar   cousas   que   nos 
con)prissem  ,    ou   como   acrecentando  em  uirtudes  lei- 
xariamos  malles ,  e  pecados.  E  conhecendo  sam  paulo 
omal  desta  fantesia,  sem  proueito  lhe  cliamaua  descor- 
rymento   da    uoontade   que   pêra  nada  uai,  como  suso 
he  dicto,  do  que  nos  encomenda  que  sempre  nos  guar- 
demos   E   detal   soltamento   de   cuydado   se   recrecem 
muytos  fallicimentos.  Ca  el  acustumado  aesta  soltura, 
se  hua  heresia,  ou  penssamento  detristeza,  uaã  gloria 
com  própria  presuçom,  e  outras  semelhantes  ryjamen- 
te  filha,  jamais  onom  quer  leixar  ataa  que  detodo  nom 
faça  cayr  aquel  que  tal  custume  lhe  leixou  auer   Epor 
nos  guardar  de  tal  erro  segundo  meu  juyzo,  com  agra- 
ça  de  nosso  senhor  he  boo  remédio ,  nííca  longamente 
correr   per   taaes   fantesias,  nem   filhar  em  ellas  alguâ 
folgança,    mes   quandosse   apresentarem,    ornais  cedo 
que  podermos,  as  arryncar  mudar,  ou  desprezar,  oc- 
cupandonos   em    outras   honestas  obras,  ou  cuydados , 
Cao  soltamento  detal  uoontade,  melhor  semuda,  que 
refrea ,  nem  arrinea,  lembrandonos  como  som  de  pou- 
co proueito,  e  muyto  empeecymento  Edaquesta  guy- 
sa  erramos  per  este  desaSsessego  se  no  tempo  de  orar, 
e   ouuyr  oficies  dyuynos ,  nos  consselhos  proueitosos, 
fallamentos ,  ou   desembargos   leuantamos  storias,  re- 
contando lôgos  exempros  Eesso  medes  nas  obras  quan- 
do nos  ocupamos  naquellas  que  nom  cõuêe  ao  tempo 
que  ai  deuemos  fazer.  M 


90  O  LEAL  CONSSELIIEÍRO, 

CapituUo  XXVIJ. 
da  quynta  e  sexta  defereças  per  q  cay^nos  em  occicsidade. 

,A.  quynta  deferença  per  que  caymos  em  occiosidade, 
he  por  auerinos  pequena  nembrança,  sentido,  aujsa- 
luento,  e  percebyniento  perao  qne  he  bem  defazermos. 
Ca  se  for  por  mais  nom  saber,  êtender,  ou  poder,  riom 
uem  delia,  mes  onde  auemos  todo  esto  razoadamente, 
e  nõ  damos  execuçom  oque  deuemos  sem  duuyda  per 
occiosidade,  priguiça  do  entender,  ou  do  corpo  erra- 
mos. Sexta  quando  deleixadamente  obramos  oque  agu- 
çoso e  com  boa  deligêcia  auyamos  defazer  Bem  nisto 
he  que  se  por  nom  auermos  uoontade  ou  mais  nõ  po- 
der ofazemos  ,  que  tal  maneira  de  obrar  da  occiosida- 
de uem.  Eesso  medes  em  fazer  tarde  oque  compre  seer 
feito  com  tempo  ca  nom  he  menos  erro  depriguyça 
tardar  desselançar  adormyr,  ou  assentar  acomer  quan- 
do cõiiem  ,  que  nom  se  leuantar  ao  tempo  cõuenyête , 
e  razoado  por  que  todo  procede  depriguyça  e  occiosi- 
dade  Eacerca  desto  me  parece  boo  consselho  ,  nom  se 
reger  per  ossentido  que  uem  do  coraçom  ,  mas  per  de- 
terraynado  juyzo  doenteder,  por  que  se  bem  nos  lem- 
la^rar,  e  reguardarmos  ao  desuairo  que  nossa  uoontade 
faz  em  as  cousas  que  obramos ,  e  como  alguãs  uezes 
mestra  que  som  ligeiras  da  cabar,  e  de  grande  honrra, 
jwoueito,  ou  prazer,  e  aquellas  per  arrefecimento,  ou 
toruaçom  delia ,  peussamos  que  som  forles ,  e  perlon- 
gados  pêra  uijrõ  a  boa  fym,  e  fora  da  quelles  beês  que 
aoutra  uoontade  per  muyto  deseio,  ou  desposiçom  mais 
&aa  e  ryja  ou  leda  faz  sentir,  podemos  bem  conhecer 
como  nom  he  segura  cousa,  é  dereita  fazermos  nossos 
feitos,  ou  os  leixar  per  oque  nos  ocoraçom  requere 
Mas  opor  queja  passamos,  eneemos  que  os  outros  fe- 
zerom ,  julgar  oque  he  bem  defazer.  Nom  afroxando 
per  fraqueza  de  uoontade,  nem  nos  toruando  por  tri- 


o    LEAL    CONSSELHEIRO.  91 

gança  com  grande  aciecenlaineiUo  delia  mas  delermy- 
iiando  seguramente  oque  he  bem   em   cadaluiú  feilo, 
nom    se   recrccendo  e  el  lai  caso  que  seia  razom  fazer 
niudamêto  no  começado  nom  leixemos  nosso  proj)osilo 
por  suas  mudaças,  ante  com  boa  deligencia  per  graça 
do  senhor  contynuemos  alaa  uijr  afynal  concíusom  de- 
nosso  deseio.  Seu  contrairo  deste  pecado  de  occiosidade 
he  seer  nas  obras  do  corpo,  e  do  entender  bem  aguçoso, 
e  uirtuosamente  despender  toda  nossa  uyda  Eaos  feitos 
que   f;izer  deuemos  com  razoada  deligencia  dar  boas  e 
prestes  execuçooês ,  filhando  sempre  com  boa  uoonta- 
de    os   trabalhos  que  nos  mais  cõuenham  ,   segundo  a- 
quel  estado  em  que  formos  Ca  muyto  certa  speriencia 
me    parece   dos  que  leixam  decauar,  roçar  aterra,  ou 
ujuerem  per  boo  trabalho  de  seus  entenderes  que  sem- 
pre  se   tornam   afurtar,  enganar,  e  roubar  os  homeês 
Eaquesto  uem  tanto  de  priguyça  como  da  cobijça  des- 
hordenada    O   leer   dos  liuros  de  boas  jnssynanças  nos 
tempos   em    que   nom   còuenha   obrar   em  outras  mais 
conuenyentes  feitos  me  parece  pêra  esto  bem  prouei- 
toso ,  reguardando   nossa   uyda,  e  dos  outros  pêra  en- 
tendermos oque  ieermos,  assy  que  os  liuros  nos  decla- 
rom   nossas   obras ,  cuydados ,  e   sentidos.  Enosso   co- 
nhecimento   nos   faça  melhor   oentender   oque   de   tal 
sciencia   Ieermos  e  ounyrmos  Eassy  conssijrando  ama- 
neira  denosso  uyuer  com  as  declaracooês  suso  scriptas, 
poderemos  conhecer  quanto  de  occiosidade  e  priguyça 
somos  tocados.    Ecom  agraça  do  senhor  deos  deuemos 
guardar  delia,  como  daquel  mal,  que  antre  os  princi- 
paaes  pecados  he  contado,  de  que  grandes  perdas  peraal- 
ma,  corpo,  e   fazeda   se   recrecem    Eos   fallicimentos 
delia  mais  caãe  em  culpa  que  no  mal  decerta  malicia; 
Acerca  desto  he  de  saber  que  os  legistas  poõe  em  nos 
erros  que  se  fazê  estas  deferenças  cõuem  assaber,  doi- 
lo,  que  he  propriamente  engano,  ou  mal  acijnte  feito. 
Culpa  declarada   e   muyto   mais   clara  em  que  alguus 
fallecera  que  he  tãto  acerca  deculpa  como  aquello  que 

M   2 


92  O    LEAL    CONSSELHEIRO. 

por  uootade  se  faz  Outra  culpa  chamoni  leue  Eaniais 
pequena   muyto   leue,  de   que  dar  exenpros  leixo  por 
noni    per  longar.  Por  deferenças  destas  culpas  he  deS" 
saber  que  se  oerro  he  tal  em  que  huú  boo  bomem  der- 
razoni   nuua  cayria  ,    be  culpa  muyto   manyfesta  ,   se 
poucas   uezes   be   clara,  se  delio  bem  senom  podessê 
guardar  sem  grande  auysamento  be  culpa  leue.   Seen- 
do    tal  que  aconíece  per  grande  uentura,  e  muy  pou- 
cos  delias  se  auysom ,  contasse  por  muyto  leue  cajom 
em    que   nom  ba  culpa  Quando  fallecermos  per  alguãs 
das   partes   suso  dietas  conssijrando  qual  nos  parecer, 
assy  culpemos  nos,  e  os  outros  Enaquestas  culpas  le- 
ues   dizem   queo  justo  caae  no  dia  sete  uezes  por  tar- 
dar  alguíi   pouco  em  cuydado  que  boo  nom  seia  mais 
do  q  deue,  por  fallar,  pesar,  e  por  nom  saber  nem  se 
lembrar,  ou    auysar  no   que   compre  por  algua  torua- 
com  de  sanha,  alteraçom  de  uãa  gloria,  necessydade, 
ou   arreuatamento   Eporende   acerca   deste  pecado  de 
occiosidado  cadahuu  conssijre  se  be  nas  cousas  que  faz 
assy  delegeníe   como  deue,  e  os  boos  e  discretos  em 
semelhante  fazem  Esse  uyr  que  uay  razoadamente  per 
respeito   delles  demandando  anosso  senhor  sêpre  ajuda 
pêra   mais   bem   fazer,  do   que  obra  nõ  íilhe  ryjo  des- 
contentamento, ajuda  que  conheça  que  amais  he  obri- 
gado.   Esseendo   el  melhor   bem    opoderia  fazer ,  mas 
continoe   per  seu  obrar  crecendo  quanto  poder  debem 
em    melhor  ,    entendendo   que   per  sua  mercee   como 
formento  fará  multiplicar  nossos  fracos  mericimentos 
Equandosse  tal  maneira  nom  teuer  razom  he  que  filhe 
dello  sentydo   e   muyto   façom   por   se   correger   Epor 
penssar  que   poderiam   dizer  que   fazendo   tal  leitura, 
caya  em    este   pecado  de   occiosidade ,  por  seer  obra 
pêra   mym    tã   pouco   perteeeente    Respondo  nom  me 
parecer  assy  conssijrando  amaneira  que  sobrello  tenho 
Ca  esto   faço   principalmente   nos   grandes  oficyos   da 
igreia  que   custumo  douuyr  acabando  o  que  ey  derre- 
.^ar,  ou  em  alguús  poucos  spaços  q  me  synto  fora  dou- 


o    LEAL    CONSSELTIEIRO.  53 

cupaçoòes,  onde  filho  esto  por  folgança,  como  outros 
teemno  que  lhes  praz  E  graças  anosso  senhor,  oníais 
do   tempo    me   sinto   assy   desposto   que   nom    auendo 
cousas  muyto  speciaaes  que  me  costrangam  como  que- 
ro  screuer  em   esto   assy  liuremente  olaço  que  os  ou- 
tros cuydados  pouco  me  toruam  Etai  me  fazem  alguãs 
outras  cousas  que  me  praz  dobrar,  e  penssar ,  que  por 
aquel   tempo  sr3  toruaçom  aaquello  me  despenho,  co- 
mo se  dal  nom  teuesse  carrego,  nem  uoontade,  Equem 
assy  opoder  fazer   entendo  que  sentira  em  ello  prazer 
em    boa  liberdade  e  será  semelhante  aaue  caçador  de- 
muytas  relees  que  filhando  alguãs,  nom  leixa  bem  de- 
filhar   outras  ,    nom   se  rebotando   por  caçar   muytas , 
quando   pêra  ella   som   razoadas  Ealguus   nom   sabem 
mais  dhua  sciencia ,  oficio,  ou  mester,  nem  se  podem 
dar   mais   que   ahuu  soo  cuydado  e  cõ  outro  qual  quer 
se   toruam ,    os   quaaes  por  ello  nom  som  pêra  despre- 
zar, ca  podem  tam  bem  saber,  e  obrar  oque  lhe  mais 
compre,  q   posto   que  dal  pouco  saibham  lhes  faz  pe- 
quena  myngua    Earrazom    mostra    queo   deuem   saber 
mais   perfeitamente   por   aquella   pallaura   que  declara 
como   seendo  em  tento  ê  muytos  feitos  auermos  myn- 
gua do  saber  decadahuu  Eoque  disse  nosso  senhor  as- 
sancta  marta  que  por  seer  embargada  em  muytas  cou- 
sas ,    se   toruaua   quando   era  huã  soo  necessária  Epo* 
rende  quando  formos  em  stado  queo  demande,  ou  tal 
feito   se  recrecer ,  em  aquel  solamente  deuemos  pens- 
sar, e  contynuadamente  aficar  nossa  uoontade  arredan- 
doa  desse  enuoluer  em  outros  oque  nom  lie  boo  defa- 
zer  aquém  ocontrairo  ha  custumado ,  mas  taaes  hy  ha 
que  acadahuã  cousa  sabem  repartir  seu  tempo  pêra  o- 
brar,    e   cuydar   como   deuem    Epor  que  tenho  deseio 
de  seguyr  este  geito  ,  e  eondiçom  ,  nom  me  toruo  cora 
tal   scriptura,  fazendoo  na   maneira  suso  scripta.  Enõ 
screuo  esto   per  maneira  escollastica ,  mas  oque  leeo. 
per   liuros  delatym  ,  e  detoda  lengua  ladinha,  do  que 
alguã  parte  seme  entende,  concordo  com  apratica  cor- 


'ji  o   LEAL   CONSSELHEIRO. 

tesaâ  na  mais  cõaenyente  maneira  que  me  parece  Eas- 
sy  faço  esta  breue  e  sympres  leitura,  da  qual  muyto 
séria  contente  que  uos  prouuesse,  e  alguí^is  prestasse 
pêra  seguyr  aqueJia  teençom  que  no  começo  uos  scre- 
uy  E  conssijrando  qiieos  que  lêem  geeralmente  reguar- 
flom  aestas  fijs  .s.  Prymeira  por  acrecentar  em  uyrtu- 
des,  rnynguar  em  fallicimentos ,  prazendo  por  ello  a- 
nosso  senhor,  e  alcãçar  na  uida  presente  que  spera- 
mos ,  oque  da  graciosamente,  aos  que  per  ssa  mercee 
lhes  praz  bem  uyuerem.  Segunda  por  contentamento 
que  filha,  do  que  sabem.  Terceira  por  tal  sciencia 
Quarta  por  querer  parecer  sabedores  Quynta  queren- 
do âlguã  parte  de  tempo  bem  despender  Sexta  por  se- 
melhante em  leendo  aníressy,  ou  aoutros,  filhar  pra- 
zer. Eamym  parece  se  afeiçom  me  nom  torua ,  que  os 
leedores  deste  trautado,  alguãs  delias  per  el  poderem 
percalçar,  porem  me  praz  deo  screuer.  Essemelhante 
omuy  excelête,  e  uirtuoso  rey  meu  senhor  e  padre  cu- 
ja alma  deos  aja,  fez  huii  liuro  das  oras  de  sancta  ma- 
ria,  e  salmos  certos  por  os  finados,  e  outro  damoon- 
taria  Eo  jflãte  dom  pedro  meu  sobre  todos  prezado ,  o 
amado  jrmaão,  decujos  feitos  e  uida  muyto  som  con- 
tente, compoz  o  liuro  da  uirtuosa  benfeituria,  e  as  oras 
da  confissom  Eaquel  honrrado  Rey  dom  aífonsso  estrol- 
logo  quantas  multidoôes,  fez  de  leituras  Eassy  Rey  sal» 
lamom,  e  outros  na  ley  ãtiga,  e  doutras  creenças  seen- 
do  em  real  estado  filharom  deseio,  e  folgança  em  scre- 
uer seus  liuros,  do  que  lhes  prouue ,  os  quaaes  me 
dam  pêra  semelhante  fazer,  nom  pequena  autoridade 
Eporem  nom  entendo  que  seia  occiosidade ,  mes  re- 
médio pêra  tirar  delia  mym  e  os  outros,  que  per  este 
trautado  quyserem  leer ,  ou  semelhante  screuer,  nom 
se  toruando  por  ello,  do  que  ham  deobrar  como  gra- 
ças anosso  senhor  eu  faço  Errequeresse  pêra  guardar 
tal  geito  natural,  cõdiçom  ,  e  geeral  custume  em  cou- 
sas desuairadas,  e  liberdade  do  coraçom  que  nom  ande 
sogeito  nem  desordenadamente  legado  per  alguã  pai- 


o    LEAL    CONSSELHEIRO.  Í)S 

xom ,  damor,  temor,  ou  cadaliua  das  snso  scriptas 
Epcra  liusar  uirtuosamente  desta  liberdade,  necessa- 
riamente faz  mester  graça  special  denosso  senhor  sem 
aqual  cousa  bem  feita  nom  podo  perfeitamente  fazer. 

Cap:  XXFIIJ. 
âo  pecado  daauareza. 

V>^  pecado  daauareza  he  repartido  em  liuros  de  confís- 
sooès  e  doutras  enssynanças  em  muvtos  ramos  Mas  em 
este  breuo  sumario  em  quatro  geeraaes  se  departe. 
Prymeiro,  per  que  se  cobijça  deseia  determynadamen- 
te  Esse  percalça  oque  nom  deue  seer  cobijçado,  de- 
seiado ,  ou  pessuydo.  Ea  questo  por  acousa  seer  qual 
nom  côuem  ,  ou  per  modo  ao  que  faz  contra  justiça , 
ou  descõuenyente  Segudo  per  que  reteem  as  cousas 
que  restituyr,  ou  dar  se  deuyam  ,  e  aquesto  por  see- 
rem  mal  guançadas,  possuydas,  e  per  justiça  acujas 
doreitamente  som  ,  deuerem  seer  dadas ,  ou  ê  obras  de 
piedade  em  satisfaçom  ,  despezas ,  quando  aparte  por 
desmericimento  de  restituycom  nom  he  digna,  ou  nos- 
sos beès  nom  damos  e  despendemos  em  satisfaçom  de 
mercees  boas  obras  seruyços,  obrigaçoôs,  dyuydas, 
promjtymento ,  cousas  meritórias,  ou  por  fazem:  os  a- 
quelias  despesas  que  secundo  aquel  estado  em  que 
formos  nos  côuem  dar,  despender,  ou  emprestar.  Ter- 
ceiro, quandosse  da,  ou  despende,  rnynguado,  tarde, 
cõ  maa  uoontade,  pallauras ,  e  contenença  segundo 
som  as  pessoas  que  dam  ,  recebem  ,  eas  despesas  que 
fazem  Quarto  que  faz  gabar,  e  retraer  aquém  bem 
fez ,  ou  arrepeêder  doque  tem  dado ,  ou  despeso.  Ea- 
questo  per  sentido  do  coraçom  ,  mostramento  degeitos 
ou  razooês  Per  todas  estas  partes  cada  huu  dia  se  fa- 
zem muytos  malles  e  caãe  em  grajides  mynguas.  Ea- 
■cerca  da  concyencia,  per  r^guardo  de  pessoas  uirtuo- 
sas  das  primeiras  duas  he  principalmente  deguardar 
,s.  de  nom  cobijcar  nem  aucr  oque  nom  cçiuem.  Eclei- 


re  o    LEAL   CONSSELHEIRO. 

reteer  oque  se  deue  restytuyr  pagar,  ou  despender. 
Eperaa  openyom  do  geeral  poboo  jioiii  som  menos 
necessárias  as  outras  duas.  Terceira ,  e  quarta  pêra 
quem  da  fama  de  tal  uycio  se  quyser  guardar,  e  per- 
calçar  nome  de  graado  E  por  tanto  nom  penssem  os 
que  som  bê  guardados  nas  duas  primeiras  as  quaaes 
som  em  realidade  principaaes  que  nom  sejam  prasma- 
dos  em  odicto  erro.  Seas  lu  e  quarta ,  bem  nom  prati- 
carem ,  ante  osserom  mais  queos  que  bem  guardom 
as  duas  primeira,  e  segunda  e  na  questas  fallecem  ,  ca 
muitos  som  que  filham  muytas  cousas  como  nõ  deuem, 
e  nom  dam  nem  pagom  osseu  como  som  obrigados 
Epor  darem  ,  e  despenderem  em  outras  partes  Jarga- 
niente,  com  tempo,  cirimoniaes ,  e  pallauras  pertee^ 
centes ,  sô  por  ello  chamados  mais  graados  que  os  que 
semelhante  nom  fazem,  por  muy  bem  quesse  guardem 
deíilhar,  cobijçar,  e  reteer  oalheo ,  e  por  pagarem 
ísuas  dyuydas  como  for  razom.  Eos  que  assy  geeral- 
raente  per  tal  maneira  som  graados ,  nom  se  tenham 
por  fora  deste  pecado  daauareza.  Senas  primeiras  duas 
fallecê ,  que  som  principaaes,  ante  sem  duuyda  erron 
mais  queos  outros  pois  em  seus  mayores  erros  som 
culpados  Eos  que  buscam  uirtude,  nom  curando  niuy- 
to  defaraa  delias  principalmente  seguardom  Eporem 
quem  deste  iiicio  se  quyser  com  agraça  do  senhor 
guardar,  auendosse  como  cõuem ,  e  possuyndo  libera- 
leza,  que  he  huã  uirtude  posta,  e  declarada  nas  etíli- 
cas daristotilles,  e  outros  muy  tos  liuros  em  meo  antre 
scacesa  e  sobeio  degastar ,  jnclynandosse  amais  des- 
pender que  amenos.  Edaquesta  uirtude  no  liuro  dauir- 
tuosa  benfeitoria ,  que  meu  sobre  todos  prezado  e  a- 
niado  jrmãao  ojfãte  dom  pedre  compôs  ,  he  bem  e  lar- 
gamente trautado  Ealguus  husam  delia  naturalmente', 
por  que  dessua  naçom  aella  som  jnclynados,  Outros 
ajnda  que  nom  tanto  per  natureza,  com  prudência, 
aqual  manda  scolher  omelhor  em  todos  nossos  feitos 
Eper  justí^ça  que  faz  dar  acadahuã  cousa  oque  seu  he 


o    LEAL    COXSSELHEIRO.  97 

obranlo   em    todo  justamente,    çiiardam    e  fazem  so- 
bresto   oquo   deueiii  ,    jjosto   q   ijom  tam  bem  como  a- 
quel  que  tlessua  naçô  percajt^a  tal  uirtucie,  auendo  ra- 
zoado seiílydo  das  outras  priucipaaes  Esto  digo  por  se 
declarar  que  todo  aquel  que  boo  deseia  seer,  auenhuCi 
uycio   se   deue   uencer,  mes   ora  lhe  seia  concordante 
ou  contrairo,  assua  natural  jnclinaçom  sempre  sea  des- 
forçar, com  grande  e  boa  speranca  deo  uencer,  e  g;aan- 
çar   boo   estado  dauirtude  contrairá  dei  Enosso  senhor 
ueendo  como  queremos  responder  ao  geeral  boo  deseio 
que   nos   outorgou  ,    acrecentara   em    el   dandonos  sua 
graça  pêra  obrarmos  em  toda  cousa  segundo  deuemos 
Eperaos    que  deseiam  guardarsse  detodos  estes  fallici- 
mentos  côuemlhes  temperar  seus  estados  em  gente,  e 
todas   outras  despesas  que  concordem  em  razoada  ma-^ 
reira  com  suas  ordenadas  rendas.  Ca  onde  tal  nom  for 
cõuíjra  falecer  em  cada  huã  das  dietas  partes ,  por  que 
se  quyser  guardarsse  de  nom  filhar  oalheo ,  ne  auer  ou 
reteer  cousa  contra  dereilo,  e  razom  pagando  quanto 
deue  Eatodas  partes  de  suas  despesas  compridamente 
satisfazer  sè  fallicymento ,  ueendo  que  adespesa  orde- 
nada  que  razoadamente  bem  se  nom  pode  scusar  pas- 
sa  sobre   arrecepta    per  costrangimèto ,  ajnda  que  lhe 
pes  cõuem  cayr  em  cada  huà  da  quellas  mynguas  que 
por   menos    mal  mouydo  per  uoontade ,  ou  razom  sco- 
llier,  ataa   que   as  despesas  com  arrecepta  seiam  tem- 
peradas, como   diz   bernardo,  em   otrautado  do  regy- 
niento   da  casa,  onde  screue  que  se  as  rèdas  e  despe- 
sas  forem  jguaaes,  qual  quer  caso  nom  penssado  que 
se    recreça    cedo   apodera   deslroyr  Eporende  assy   he 
necessário    temperar   oque   ha  desseer  ordenado  quan- 
dosse   bem    poder  fazer  que   tenha  prouijmento  perao 
extra  ordinário    Esto  nom  por  cobijca  desordenada  nê 
deseio  delhesourar  na  terra,  os  ladrooens  ofurtam  ,  ra- 
tos ocomem  ,  ferrugem  e  traça  ogastam  ,  mas  por  teer 
com     que    possa   guardarsse   com    amercee   do   senhor 
deos  dos  erros  suso  diclos  Eassy  demyngua,  prasnio. 


08  o    LEAL    CONSSELHEíRO. 

uergòça ,  e   empacho  Eno  teinpo  que  razoadaniêíe  se 
deue   fazer  bem  he  fazereiísse  niuvto  mais  largas  des- 
pesas  que   as  ordenadas,  ataa  onde  ofeilo  demandar, 
e   cada   huu   mais  poder  per  boos  camynhos  percalçar 
Eporem  muyto  com  grande  auysamenlo  perceber  dena 
cair    em    mayores    fallicimentos   querendosse   guardar 
doutros  nom  iam  grandes,  e  assy  soporlar  alguãs  cou- 
sas contra  sua  uoonlade,  e  prazer  dos  outros  que  sem- 
pre  mais  satisfaça  ao   que  somos  obrigados  ,  segundo 
deos   de   cõprir   e  nos  guardar  Edesy  ao  do  muiido  se 
gouerne   na   mylhor   maneira    que    poder  pêra  ê  todas 
partes   uyuer   uirtuosamente   cõ  uerdadeiro  boo  nom© 
Eantre   as   quatro   partes   desta   uirtude  suso  scriptas , 
ofilJosofo  declara,  que  percalçar  nome  degraado  sobre 
todo  he  necessário  largamente,  e  bem  dar,  e  despen- 
der, mas  esto  nom  embargando  muy  spicialmenle  cÕ- 
uem  aos  senhores  principaaes  guardarsse  de  nom  íilhar, 
nem    reteer   oalheo.  sofredo  suas  mãaos  dos  bees  nom 
dereitamente   auydos,    ou   reteudos,  ca  tal  rey  louua 
mujto   aristotilles   no  liuro  de  secretes  secretorum   E- 
nom    sem   razom   ca  pcra  em  esto  mal  de  gouernarem 
som  enduzidos  per  muytos  requerymentos  deuoontade, 
e  necessydadeH  suas  e  alheas  aque  deseiam  complazer, 
Epor  deseio   de  percalçar  fama  que  he  degrandes  fei* 
tos,  despesas,   e  muyto  graado    Eacrecentameto  de- 
uaã  gloria   per  muytos   loiíuamynheiros   que   pêra  em 
esto  muyto  se  largarem  cõ  sperança  de  seus  proueitos 
as  cousas  mal  feitas  fazem  dignas  delouuor,  mostrando 
assaz  demuytos  outros  senhores  por  exempro  que  assy 
ofazem  Eaucndo  taaes  ajudas  com  poder  liure  pêra  o- 
brar  oque   lhes   praz,  quem   outrem   fará  cõteer  osse- 
nhor,  senom   amor,  e   temor   de  deos  com  uerdadeiro 
deseio  de  realmete  guardar  justiça  Econssijrando  quan- 
to  geeral  mal  se  recrece  detal  desordenança  ,   o  gran- 
des   bees,  deteer  sobresto  boo  regimento  com  dereita 
razom  dos  sabedores  e  uirtuosos  ossenhor  que  sobresto 
justamente  uyuer  grande  louuor  percalçar  e  dedeos  per 
sa  merece  deue  sperar  boo  gallardom. 


e    LEAL   CONSSELHEIRO.  99 

Capitullo   XXIX. 
Da  maneira  do  dar  por  nosso  senhor  deos. 

í  or  que  antre  as  grandezas,  aquellas  que  por  nosso 
senlior  deos  se  fazem  som  deraayor  mericimento,   uir- 
tiide,   e   dignas   antre    pessoas    uirtuosas,  demais  uer- 
dadeiro  louuor,  segundo  se  screue  dos  magnjficos  que 
antre  as  obras  per  que  ornais  demostram,  som  nas  que 
auosso   senhor  perleecem    Eporende   sobrello   penssey 
deuos    fazer    esta   breue  declaraçom    Primeiro   deque 
auyamos   fazer   tal   despesa,  Segundo   em   que  modo, 
Terceiro  por  q  fvm.   Quarto  aquém.  Quynto  como  en- 
tendo que  nos  seia  recebido.  Equanto  ao  primeiro  di- 
go que  denosso  próprio  auer ,  bem  auydo ,  e  possuydo 
por  que  scripto  he   Honrra  deos  de  tua  substãcia,  em 
que   se   demostra   que  do  allieo  nom  deuemos  fazer  o- 
ferta  ,   nem   esmolla    Eafirmasse  q  tal  oferta  he  seme- 
lhante daquelle  queo  fyiho  quysesse  matar  por  ossacri- 
íicar   asseu  próprio  padre  Porende  aesmolla,  ou  oferta 
dacousa   bem   auyda   e  possuyda   se   deue  fazer,  pêra 
seer  bê   recebida  Esse   das   cousas  alheas  se  fezer  tal 
boa   obra   que   recebe   aquel   aque   aesmolla  he  dada, 
nom   aproueita   aaquel  quea  faz,  por  que  todo  deuera 
tornar,  e   restituyr  aaquel   cujo  he  Edello  justamente 
ai   nom   pode  fazer,  saluo  em  caso  de  grande  necessy- 
dade  por  acorrer  ahonrra ,  uyda,  ou  saúde  dalguã  pes- 
soa, auendo   firme  propósito  delogo  tornar  afazer  per- 
feito pagamento  asseu  dono.  Ca  nom  se  tolhe  opecado 
senom   satisfazem    e  tornam  oauer  mal  gaançado   Esse 
alguãs  cousas  deuem,  aquellas  som  mais  obrigadas  de- 
pagar,  que  fazer  outras  ofertas,  nem  smolla,  mas  as- 
sy  deue  cadahuil  gouernar  seus  feitos,  que  satisfazen- 
do  ao  que   deue   nom  cesse  defazer  ofertas,  e  esmol- 
las,  segundo  perteecem  asseu  estado,  e  fazenda,  pêra 
receberem  per  ellas  ajuda  em  todos  seus  beês  Ao   se- 
gundo do  modo,  diguo  que  em  abastança  cedo  cõ  se- 

N  2 


100  o   LEAL  CONSSELHEIRO. 

gredo  ledamente  per  boa  conssijraçom  detempo  e  Jo- 
gar em  que  se  ao  ferta ,  ou  esmoila  deue  fazer.  Ca 
scripto  he  quem  escasso  semea  assy  recebera  Esse  for 
largamente  debeen(;om  recebera  seu  galiardom  ,  do 
cedo  mandandonos  he  que  nõ  tardemos  decomprir  as 
cousas  que  por  deos  proposermos  fazer  em  segredo  , 
por  que  ossenhor  manda  que  amaao  ezquerda  nom  sai- 
bha  oque  fezer  adereita,  ledamente  por  que  oapostol- 
]o  diz  que  deos  ama  aquém  por  el,  com  ledice  da  suas 
csmollas,  e  ofertas  per  boa  conssijraçom  por  guardar 
aquel  dicto  que;  todallas  cousas  façamos  per  boa  orde- 
nança e  consselho  Ao  terceiro,  daí}  m  por  que  odeue- 
mos  fazer,  pareceme  que  por  seermos  daquelles  que 
ossenhor  ao  dia  do  juyzo  jioser  aadeeslra  parte  quan- 
do por  as  obras  damysericordia  per  el  formos  pregun- 
lados  seerem  nossos  pecados  relenados,  por  que  assy 
como  aaugua  apaga  ofogo,  assy  aesmolla  apaga  opeca- 
do  5  auermos  muytas  pessoas  que  orem  por  nos,  ca 
scripto  he  que  mujto  uai  aoraçom  do  justo  amehude 
feita,  e  ossenhor  por  taaes  nos  promete  acorrer  em 
nossas  necessidades,  como  nos  fezermos  aasnjynguas  e 
pressas  alheas  por  seu  amor  Do  quarto  aquém  se  fa- 
rom  as  ofertas  dobrigaçom ,  ou  uoontade ,  principal- 
mente aos  sacerdotes,  e  legares  sagrados,  por  que 
ossenhor  j)er  elles  as  quys  e  quer  receber  Eas  csmol- 
las aos  postos  em  necessidades  per  mynguas,  proueza, 
doeça  ,  ou  prizom,  e  aquelles  que  per  ellas  mais  uy- 
iiem  specialmenle  se  por  nos  ham  derrezar,  ou  os  aue- 
inos  por  deboa  e  santa  uyda.  Os  quaaes  mais  que  ou- 
tros per  nossas  smollas,  e  ofertas  deuem  seer  ajudados 
Ao  quynto  de  como  nos  seia  recebido ,  creo  que  seo 
fezerermos  por  louuor  e  uaã  gloria  que  nos  seia  dicto 
que  ja  recebemos  nosso  galiardom  ,  Esse  for  em  boa 
leençom  com  as  condiçooês  e  maneiras  suso  scriptas, 
que  cousa  de  bem  nom  faremos  que  sê  galiardom  pas- 
se,  por  que  nom  será  mal  sem  pena,  ou  satisfaçom  , 
nem  bem  sem  auondoso  galardom,  outorgado  per  amy- 


o    LEAL    CONSSELHEIRO.  lOl 

serlcordia  de  nosso  senhor  deos  que  nos  pnny  menos 
que  merecemos,  e  muyto  mais  gallardoa,  specialmen- 
te  se  he  feito  com  firme  fie,  boa  sperança  ,  e  rjjo  a- 
mor  e  caridade  ,  com  as  quaaes  osseiihor  recedeo  odi- 
nlieiro  da  uellia  sobreíodallas  ofertas  muyto  mayores 
que  lhe  foram  quando  el  oferecidas.  Epor  huú  uaso 
daugua  fria  prometeo  que  sem  boo  gallardom  nom  pas- 
sara de  que  deuemos  tomar  estes  auisamentos  Primei- 
ro que  toda  cousa  que  começarmos  aqual  deseiemos 
trazer  aboa  fim  ,  sèpre  seia  com  special  smolla  e  ora- 
çom  por  tal  queo  senlior  nos  traga  tal  feito  aaquel  ter- 
mo que  sabe  pêra  seu  seruyço  seer  melhor,  por  q  da- 
quella  mais  que  doutro  em  todos  nossos  feictos  nos  de- 
ne  prazer  Segundo  que  como  cayrmos  em  alguu  peca- 
do de  que  ajamos  special  sentydo  ,  por  oapagar  aellas 
nos  acorramos  sentardança  Terceiro  se  temermos  em 
nos,  ou  em  outrem  alguu  mal  em  auessamento ,  ou 
contrairo  aesto  nos  tornemos  por  tal  queo  senhor  nom 
nos  leixe  cayr  em  tentaçom,  mas  que  nos  liure  demal. 
Eaalem  detodo  esto  por  husar  decaridade  e  comprir  as 
obras  damysericordia  quanto  bem  podermos  seinpre 
delias  husemos.  Eda  questas  smollas  e  ofertas  nom  se 
deue  teer  teêçom  que  sempre  seiam  em  grade  canti- 
dade,  mas  segundo  for  ofeito  teeçom  pessoas,  e  ades- 
posiçom  ,  assy  as  demos  ,  guardando  porende  em  cada 
huã  destas  partes  as  condiçooês  suso  scriptas,  fazendo 
grandes  despesas,  quandosse  tal  caso  bem  oferecer, 
por  amor  daquel  senhor  que  nos  da  quanto  auemos 
Eassy  afaçamos  pequena  ,  e  demos  em  pequena  canty- 
dade  segundo  pêra  tal  feito  pessoa  se  requero,  pois 
se  faz  por  aquel  que  nom  despresa  cousa  ,  ajnda  que 
pequena  seia  seendo  feita  delimpo  e  boo  coraçu. 


102  O    LEAL  eONSSELHElRO. 

CapituUo  XXX. 
Do  pecado  da  luxuria. 

JLÍo   pecado  da  luxuria  breuemête  fallando,   pjBcam 
por   ueer ,  ouuyr,  fallar,  deseio   penssaiiiento  ,  e  obra 
Da  uista  diz  ossenhor  que  se  nossos  olhos  forem  sini- 
prezes  aueremos  corpos  limpos  e  claros,  e  se  mallecio- 
sos  seram  treeuosos  Do  ouuyr  fallar  se  diz  que  se  cor- 
rompem  boos   custumes   per  maas  falias  e  aquesto  no 
menos   aquém   as   ouue   com  maa  entençom  empeece. 
Do  deseio   se   screue   quem  uyr  amolher  e  acobijçar, 
ja   pecou    Edo  cuidado  onde  for  teu  thesouro  será  leu^. 
coraçom  Eesto  será  quando  per  sobeio,  ou  desordena- 
do penssamêto  em  taaes  feitos  despendermos  nossa  uy^ 
da.    Da   obra  oapostollo  nos  manda  fugir  detoda  luxu- 
ria, fornysio ,  e  çugidade  Epera  guarda  deste  pecado, 
nosso   primeiro  fundamento   deue  seer  amar,  e  prezar 
uirgijndade  e  castidade  quanto  se  mais  poder  fazer  a- 
uendoa  por  grande  uirtude,  que  muyto  deseiamos  sem- 
pre dauer,  e  possuyr  Epor  que  todo  homem  com  gran- 
de  deligencia  guarda  oque   mujto   ama  e  preza,  quê 
esta   uirtude   muyto   amar,  e  prezar,  por  abem  guar- 
dar ,   se   afastara  das  ocasioões  e  aazos  per  que  apossa 
perder  Esse  chegara  sepre  aos  consselhos  per  que  seia 
mais  limpamente  persseuerada,  ouuyndo  pessoas  dignas 
per  saber  e  onesta  uyda  Eueendo  liuros  aprouados ,  e 
perssy   certas   praticas ,  buscando   pêra   mais  perfeita- 
mente  como   deue   aguardar  prepoendo  em  seu  cora- 
çom  ,   que  ja   mais   com    agraça  de  nosso  senhor  deos 
nunca  por  ocasiooês  ou  tentaçom  que  lhe  uijr  possa  em 
tal  pecado  cayra  ,  mas  auera  sempre  aquella  mais  per- 
feita lembrança   que  as  mais  uirtuosas  pessoas  dessua 
maneira  possam  auer  Enaquesta  teençom  sentindosse 
tam   firme   que   nom    entenda  poder  seer  derribado  de 
seu  boo  obrar,  e  propósito,  conhecendo  esto  seer  dom 
special  de  nosso  senhor,  que  lhe  outorgassem  meryci- 


o    LEAL    CONSSELMEIRO.  103 

mentos  seus,  e  pode  per  maao  auysamento  e  pecados 
perder,  deuesse  guardar  de  todallas  ocasiooes  que  pê- 
ra tal  caso  empeecer  j)ossam,  tani  perfeitamente  como 
se  el  penssasse  que  era  niuy  fraco  contra  este  pecado, 
creendo  sobrello  boos  consselhos  que  lhe  seiom  dados, 
e  el  leer,  ou  per  seu  cuydado  achar  pêra  conhecer  os 
aazos  empeeciuees,  e  esso  medes  se  deue  guardar,  do 
que  el  per  sy  sentyr  que  lhe  faz  alguíi  teníaçom  ,  ca 
se  no  começo  lhe  der  lugar  adyante  lhe  será  maa  de 
tirar  e  uencer  Eposto  que  em  tal  guarda  senta  pena, 
conssijrando  que  percalça  per  ella  tam  perfeita  uirtu- 
de ,  que  pêra  esta  uyda  outorga  muyta  segurança,  ty- 
randonos  demalles ,  perdas  perigoos,  e  trabalhos  gan-* 
çando  boo  nome  com  grande  sperança  dauer  por  mer- 
cee  do  senhor  muytos  bees  na  uyda  presente,  e  em 
fjni  sua  sancta  gloria.  Deue  receber  tal  folgança  que 
apena  seia  pouco  sentida,  e  muytas  uezes  se  allegrar» 
seendo  tentado  por  sentyr  que  he  poderoso  de  uencer, 
quem  tantos  sabedores,  e  grandes  pessoas  tem  uenci- 
das.  Sobresto  he  huã  regra  geeral  de  todallas  uirtudes 
que  as  nom  possue  como  deue  quem  em  ellas  nom: 
sente  mais  prazer  e  folgança,  que  pena  em  contradizer 
aos  pecados,  seus  contrairos.  Ca  em  quanto  se  guarda 
com  mayor  trabalho  e  tristeza  que  prazer,  posto  que 
dos  malles  se  afaste  nom  os  fazendo,  ajnda  uyue  na 
parte  da  continência  ,  aqual  porem  he  bem  de  louuar, 
mas  nom  possue  tal  uirtude,  como  graças  anosso  se-- 
»hor,  bem  uy  esta  praticar  a  pessoas  em  ella  muy  beni 
acabadas  com  que  ouue  grande  afeicom  que  uailen te- 
mente o  pecado  seu  contrairo  sempre  cõtradisserom  , 
8  uencerom,  os  quaaes  nom  sollamente  som  delle  guar- 
dados sem  tristeza,  mes  trazem  boo  auysamento  de 
temperar  o  prazer  que  syntem  na  guarda  da  uirtude 
temendosse  cayr  por  ello  em  pecado  de  uaã  gloria. 
Eacerca  dei,  e  dos  outros  semelhantes  uejo,  e  synio 
que  continuadamente  se  faz  em  nos  hua  luita,  segun- 
do   odicto   do   apostollo     EaqueJ  que   he   acusiumado 


lOÍ  o    LEAL    CONSSELHEIRO. 

aueencer  sempre  alryuydo  uem  ao  campo  E  muy  ly- 
í^eiramente  se  rei)de  aquel  que  custuina  seer  uencido 
Eporê  uai  muyto  boo  custume,  e  grande  íirmeza  em 
uirtuosa  teençom  e  propósito  com  guarda  continuada 
dos  empeciuees  aazos ,  contra  este,  e  todos  outros  pe- 
cados, ca  per  graça  denosso  senhor,  os  que  teuerem 
sempre  delles  serom  uencedores  Eassy  como  alguíi  que 
sobe  pêra  monte  alto,  synte  grande  trabalho  ataa  que 
seia  encima  dei,  e  muytas  uezes  scorrega ,  e  se  uee 
acerca  de  cayr  Edesque  he  encima  se  acha  firme  e  fol- 
gado ,  tal  se  faz  nos  que  uãao  deposla  perfeiçom  dal- 
guãs  uirtudes,  as  quaaes  sem  cuydado  ,  britamento  de 
uoontade  poucas  uezes  se  percalço  Enaquellas  como 
iieem  aboo  estado  logo  se  acham  firmes,  Jedos,  e  fol- 
gados, muyto  m.ais  que  os  obradores  dos  pecados  seus 
coiitrairos  aída  que  ao  primeiro  sentydo  se  mostrem 
demayor  deleitaçom  ,  mas  por  que  obem  das  uirtudes 
sempre  crece ,  e  odos  uycios  e  pecados  traz  conssigo 
suas  penas  cõuem  aquella  boa  folgança  muyto  crecer, 
e  na  questa  fallecer  posto  que  se  ao  presente  tanto 
nom  conheça,  porem  diz  ossenhor  deos  que  osseu  ju- 
go he  brando ,  eosseu  carrego  he  leue. 

CapUullo  XXXI. 
Da  questô  q  faze  por  q  ah/uús  na  udhice  caâe  e  luxu- 
ria de  q  na  mâcehia  foro  guardados. 

VOobre  aguarda  da  castidade,  custumam  preguntar, 
por  que  alguns  uelhos  que  bem  se  gouernarom  em  el- 
la  no  tempo  damancebia,  cayrom  na  ueihice,  no  pe- 
cado seu  contrairo ,  parecendo  contra  razom  ,  por  a- 
uoontade  seer  mais  fraca ,  e  adescripçom  deuya  seer 
em  mayor  acrecentamento.  Ao  que  respondo  segundo 
me  parece  quetal  fallymento  se  recrece  por  estas  par- 
tes. Primeira  por  sobeia  destemperança  de  beuer  per 
que  oentender  se  enfraquece  ,  aconciencia  se  torna 
fria,  odeseio  detal  pecado  se  acrecenta  Eassy  squee- 


o    LKAL    CONSSELHEIRO.  105 

eido  de  seu  boo  propósito,  torna  seer  uencido  da  quel 
que    ante    uencia    Eda    questes   se    diz   no  auangellio, 
quando   oesprito    cujo  he  laçado   fora  per  abstinência 
e  boo  regymento  ãda  per  Jogares  secos  e  fora  detaaes 
sobejas  luimjdades  debeuer  ueendo  aquella  pessoa  tor- 
nar adesordenarsse    no   uynho  ,.    diz  tornarmey   acasa 
donde  say  ,  e  assy  som  feitas  as  postumeiras  obras  de- 
tal  homem  peores  que  as  prime} ras  Segunda,  pormyn- 
guamento  de  fle,  Eaquesto  se  faz  em  alguus  que  seen- 
do  mancebos  teem  assy  ryjo  acreença  de  nosso  senhor 
que  muy  syngularmente  oamom  e  temem  ,  e  porê  de- 
seiora  sempre  seg-uyr  as  iiirtudes  e  tirarsse  detodos  pe- 
cados ,  por  cujo  fundamento  uyuem  sempre  castamen- 
te Edepois  faÚecendo  tal  ffe  ,  per  maaos  exempros  ra- 
zoões  nom  catilycadamente  dietas,  ou  per  seu  próprio 
reuessado  penssamento  por  oque  douydam  que  adiante 
deos   fará,    nom  querem  leixar  oprazer  dapresente  uy- 
da,  e  começando  sentir  adelleitaçom  da  parte  senssual, 
priuasse  arrazom.  Eaquestes  som  tornados  aaquel  esta- 
do tibo,  que  no  epocalipse  som,  mais  que  outros  does- 
tados. Terceira  por  nom  continuar  aguarda  dos  maaos 
aazos   e  filhar  afeiçom  douydosa  com  alg-uã  tal  molher 
de   que   ante   se  custumaua  guardar  Esto  por  penssar 
que  ja   he    posto    per   ydade ,  e  longo  custume  em  tal 
segurança   que   senom    deue   guardar.  Epor  que  nouas 
afeiçooês  trazem  nouos  deseios,  e  ofogo  que  per  arre- 
damento de  lenha  se  nom  acendia  per  seu  achegamen- 
to   declara   sua   encuberta   força  Eassy   como    uencido 
caae   na    quel   laço   em  que  per  seu  maao  auysamento 
se   leixou   cayr  ,    nom    guardando   aquel   consselho   de 
sancto  agostynho  em  que  defende  que  ja  mais  nom  se 
acoste  acerca  dalguã  molher,  demostrando  que  neces- 
sariamente  cõuem    aos   que  castidade  querem  guardar 
que  sempre  se  afastem  dessua  conuerssaçom,  nom  des- 
amparando  em    taaes   feitos   empacho,  euergonça  por 
que   no    liuro   do   regymento   dos   princepes   se  afirma 
que   os   uelhos   naturalmente  som  uiais  sem  uergonça 

O 


106^  O    LEAL   CONSSELHEIRO. 

que  OS  mancebos  Eaqiiesto  se  faz  em  lodos  es(es  ca- 
sos suso  scriptos  per  esta  giiysa  Nom  embargando  que 
tal  lêtaçom  aos  mancebos  mais  uezes  requeyra,  aquel- 
la  medes  delarde  em  tarde  uem  aos  demayor  liydade) 
Esse  os  nom  achar  muy  firmes  em  aqnella  forteJkza  e 
boa  teençom  que  ante  auya  aquella  tentaçom  que  al- 
guâ  ora  os  requere  achando  em  el  fraqueza  de  boa 
uoontade,  e  uirtuoso  propósito  com  myngua  dempa- 
cho  5  e  uergõça  cõuem  queos  uença  Eassy  caae  donde 
ate  se  guardaua  e  faz  oque  contradizia  uencendosse  a- 
quella  reuessada  uoontade  de  que  per  lar.to  tempo  fo- 
ra uencedor  Econssijrados  be  os  enxempros  dos  seme- 
lhantes se  conhecera  melhor  esto  que  screuo,  por  tal 
queos  detal  }dade  se  guardem  decayr  per  taaes  partes 
lembrandosse  daquel  dicto  denosso  senhor,  aquel  quQ 
persseuerar  ataa  fim  será  saiuo. 

Caj?:  XXXIT. 
Do  pecado  da  fjidla, 

Sumariamente  em  quatro  partes  opecado  da  gulla  se 
pode  partir.  Primeira ,  que  ora  razoada  cõuenyente  ou 
ordenada  pêra  comer  ou  beuer  nom  quer  aguardar. 
Segunda  que  ouentre  decomer,  ou  beuer  deseia  so- 
bejamente decher.  Terceira  que  uyandas  e  beueres  es- 
tremados cobijça  sempre  dhusar.  Quarta  que  sobeia- 
mente  com  grande  folgança,  e  gloria  faz  comer  e  be- 
uer pêra  cllo  perceber  e  aparelhar.  Da  primeira  na- 
ce  desobediência  5  e  aparlaada  conuerssaçom  de  boas 
pessoas,  e  por  esto  nom  guardar  dias  dejejuus  boôs 
consselhos,  e  custumes  Da  segunda,  luxuria,  destê- 
perança  do  entender  e  do  corpo  muytas  jnfyrmydades. 
E  pêra  todo  boo  saber  muyta  rudeza.  Da  terceira  uem 
aos  rellygiosos  nom  cõssentir  que  uyuam  na  proueza 
que  pormeterom  ,  por  que  se  trabaíhom  <leteer  com 
qiie  satisfaçom  ao  que  deseiom  Eaos  que  riquezas  po- 
dem po&suyr  faz  seer  proues  mal  as  despendendo  em 


o    LEAL   CONSSELHEIRO.  107 

custosas  uyantlas,  e  uvnhos  que  bem  scusar ,  se  tem- 
perados fosseui ,  poderiam.  Da  quarta,  uem  fazer  deos 
do   seu    uentre   nom  auendo  tanto  deseio ,  nem  conti- 
nuado penssamento  deprazer  ao  seniior  como  ael  e  aos 
gargantoões  cOuem,  nom  guardar  ora  cõuenyente,  os- 
sobeio  comer  e  beuer  E  aos  golosos  uyandas,  beueres 
estremados  custuraar,  e  sobeiamente  em  comer  e  be- 
uer segloriar    Epora  ello  seer  com  delygencia  sempre 
auysados,  e  quantos  malles  deste  pecado  se  recrecem, 
nom   se   podem  bem  declarar,  cpie  por  seer  cousa  na* 
tural  poucos  scapom  limpamente  desseus  laços  na  man- 
cebia ,  e    menos   na   uelhicc;,  specialmente  em  beuer, 
ca  liuus  per  afeiçom  .  outros  per  íraqueza  jnfirmydades 
derrybamento  de  compreissora ,  custume  da  terra,  fes- 
tas,, joços ,    e   gasalhados    se   uaaõ   custumando   detal 
guisa   que   do   uenyal   deque  senom  guardon)  ueem  a- 
mortai   que  ja  remediar   bem   nom  pode.  Pêra  guarda 
deste   pecado ,    regra  certa   decomer   e   beuer  nom  se 
pode   bem   deuysar,    por   odesuairo   das   côpreissooes , 
terras,  e  custumes  ,  mas  estas  regras  guardando  pou- 
co  se  deue   em    el   pecar  Primeira  que  coma,  e  beua 
por   uyuer,  e   nom    queira   uyuer   por   comer   e  beuer. 
Segunda  quesse  gouerne  daquella  guysa  queo  fezerem 
os  que  geeralmente  dessua  maneira  onde  el  uyue  som 
auydos  em  este  caso  por  bem  regidos  Terceira  que  se 
guarde   gordura,    na   saúde,  e   se   for  sentido  orregy- 
mento   que   lhe  for  dado  e  consselhado  per  aquelles  a- 
que  c(5ue  obedeecer  em  tal  caso ,  que  se  trabalhe  des- 
se guardar  em  special  dos  quatro  erros  suso  scriptos  a 
que   seruyr   per  deseio   mais  jnclinado ,    nom  seguido 
uoôtade,  mes   per  razom   sempre   se  regendo,  aníâdo 
uirtude   detemperança   como   dicto   lie  decastidade,  e 
muorrecendo    muyto    beued  ce ,    e   desordenado   comer 
por   grande   mal   que   dello  se  recrece    Edeue  teer  na 
uoontade   firme    propósito,   que   por  doença,  hydade , 
mudamento  de  compreissom,  nom  beua  muyto  uynho, 
nem   pouco  aauguado ,    mas  q  per  outras  guysas  suas 

O  2 


108  O    LEAL  CONSSELHEIRO. 

jnfirmydades  se   possam   curar.    Eel  seer  trazido  ahoo 
esforço,  e   ledice,  e   saúde,  mes   nunca   per  renu  dio 
deujnho   ao  qual   ponha   regra   de   que  se  nom  parla, 
saJuo   se  for  per  grande  necessidade  Eesto  poucas  ue- 
zes ,    e   poucos   dias,    E  neesta  leençom  rjjamente  se 
poderá  teer.  Conssijrando  quantas  moJheres ,  e  mouros 
beuem   agua  em  esta  terra  e  com  ella  passam  doores , 
e  ueem  amuyta  uelhice,  em  geeral  tanto  e  mais  saãos 
dos  que  beuem  ujnho  Equen^  bem  se  quyser  cuslumar, 
nom   filhara   por   guardar  tal  regyniento  graiide  traba- 
lho,  por   que   nom   he  natural  tal  beuer ,  nes  per  hu- 
sança  e  per  ella  se  leixa.  Ca  todo  razoado  custume  em 
este   caso   he  bem  ligeiro  demanteer,  e  n  ujto  prouei- 
toso  e  traz  grande  bem  peraalma  corpo  e  fazenda  Epe- 
ra  se   guardar  dequatro  erros  suso  scriptos  que  deste 
pecado  procede,  este  me  parece  boo  regyniento.  Quan- 
to ao  primeiro  de  jantar,  e  coar,  qual  quer  pessoa  de 
íiosso  estado  geeralmente  deue  seer  contente,  jejuando 
aquelles  dias   que   per  aigreja  for  mandado,  e  alguus 
outros  ,    por    sua   deuaçom.    Perao   segundo  ,    poendo 
grande  temperança,  no  comer,  e  beuer,  nom  seia  so- 
beio  Eporem  ao  jãtar  e  aacea  beuer  duas,  ou  trcs  ue* 
zes   ao   mais.  E  huã  despois  que  cear,  sollamente  me 
parece  razoada  regra,  e  quem  esta  poder  scusar  ê  muy- 
los   casos  presta  muyto  e  se  beuer  seia  per  boo  spaço 
ante  que  durma    E  pêra  guardar  do  terceiro  erro  be- 
uer uynho  ,  omais   do  tempo  com  duas  partes  daugua 
E   que  seia  delgado,    e  como  teuer  hufl  que  razoado 
seia,    nunca   buscar   outro.    Do  comer  ajnda  que  seia 
seruydo  tam  auondosamente  como  quem  omais  for,  a- 
parte   certas  uyandas  de   que  lhe  mais  praza,  das  ou- 
tras  breueniente   se  despache.  Perao  quarto  erro  filhe 
custume   destar  pouco  aamesa  e  de  nom  fallar  em  uy- 
nhos ,  nê  uyandas,  nem  se  deleitando  sobeio  em  elias, 
e   comendo   e   beuenda   per  necessidade  mais  que  por 
special   afeiçom   se   arredara  da  deligencia   e  cuidado 
que  niuylos  em  esto  assy  trazem,  nora  pêssando  outra» 


o    LEAL    CONSSLLIIEÍRO.  105 

seer  mayor  folgança,  que  bem  comer,  e  beiíer,  oque 
sentem  muyto  per  contrairo  aquelles  aque  deos  outor- 
gou auerem  sobrelo  auirtude  da  temperança.  Ca  certa- 
mente elles  sentem  mayor  prazer  em  uyuerem  ordena- 
damente ,  nom  se  derribando  por  afeiçooês  que  tantos 
derribam  do  que  podem  auer  todollos  gollosos,  em  co- 
merem tam  largo,  como  elles  deseiarem  ,  porque  cer- 
to he  quoo  prazer  do  possuymento  das  uirtudes,  he 
folgança  daalma  razoauel  mayor  com  dobro  que  ade- 
leitaçom  dos  pecados  seus  contraíres  Epor  esta  decla^ 
raçoni  em  huS  parte  ?e  mostra  como  nosso  senhor  ou- 
tori^a  na  presente  uida  cento  por  huu  aos  que  leixam 
alguS  cousa  por  seu  amor,  ca  lhes  da  oprazer  do  pos- 
suyr  das  uirtudes  e  contentamento  deas  enssy  sentir 
Edí^sprazimento  por  ellas  das  cousas  contrairás  que  aos 
seguydores  dos  pecados  e  malles  mu}to  atormentam. 
Epor  q  das  cousas  ai  principalmente  nom  possuymos 
se  nom  folgança,  e  contentamento  que  delias  fylhamos, 
com  merecymento  de  bem  per  mercee  do  senhor ,  os 
que  leixam  sua  uoontade  em  todos  estes  pecados  suso 
scriptos,  por  fazer  assua,  recebem  per  el  das  uirtudes 
contrairás  cem,  tanto  comprimento  delia.  Ca  sempre 
som  cõtentes  ,  fartos,  e  seguros  em  suas  boas  uoonta- 
dcs  Eos  outros  omais  do  tempo  som  descontentes,  de- 
seiosos  ,  e  temerosos  deperder  o  mal  que  sobeiamente 
amam  ,  prezam  ,  ou  seguem  ,  por  que  as  obras  do  pe- 
cado ,  nunca  dã  longamente  contentamento,  nem  se- 
gurAça.  Sobre  todos  pecados  deuemos  conssijrar  nom 
fiollaniente  oque  fallecemos  como  syngullar  pessoa  , 
mes  ueendo  estado,  oficio,  hidade ,  e  desposiçom  que 
auemos  pêra  fazer  mais  bem  ,  e  nos  guardar  do  con- 
trairo Cõssijrando  esso  medes  se  comprimes  oque  de- 
uemos, ou  nos  guardamos  do  que  arrazom  nos  defen- 
de. Ca  segundo  som  três  regimêtos,  huíj  da  própria 
pessoa,  outro  da  casa,  e  oterceiro  dauilla,  ou  regno , 
assy  em  cada  huu  regimento  ha  certos  erros  como  se 
bem  demostra  em  oliuro  do  regimento  dos  priacijies. 


lio  o    LEAL    CONSSELHEIRO, 

em  que  se  declarem  os  pecados,  e  fallrcymenlos  que 
perteecem  atodos  estados  ,  ofícios ,  e  hydades  Eamyni 
parece  que  as  mais  das  gentes  destes  regnos  ,  graças 
a  nosso  senhor,  segundo  afraqueza  da  humanai  geera- 
com,  razoadamente  se  gouernam  ,  no  q  perteece  assuas 
pesvsoas,  mes  no  regimento  das  casas  e  uylJas  nom  tam 
bem.  EalguQs  teem  que  agrands  auondança  natural  os 
faz  seer  menos  cuydosos  e  sotijs  pêra  se  guardar  das 
niynguas  Epor  assegurança  e  largueza  que  ham  de  co- 
raçooês  nom  se  auysam  dos  perigoos ,  e  malles  que  se 
podem  seguyr.  Eporem  se  recrece  nas  casas,  e  uyllas 
alguã  myngua  de  nom  boo  regymento.  A  cerca  desto 
eu  conssijro  que  geeralmente  som  três  maneiras  de  ri- 
queza, huã  natural,  outra  arteíicial ,  e  aterceira  dope- 
iiyom.  Natural  he  toda  grande  auondança  de  boos  aa- 
res  ,  auguas,  mantijmentos  ,  e  fruitos  da  terra,  do  mar, 
e  das  outras  cousas  necessárias  peraa  uyda  dos  homeês 
Arteficiaaes  as  que  som  feitas  per  suas  meestrias ,  e 
arteficios,  e  aquellas  que  per  boas  jndustrias  e  saber 
gaançom  e  possuem  per  maneira  demercadaria  De  o- 
peniom  chamo  aouro ,  e  prata,  pedras,  aljôfar,  e  se*- 
melhantes  cousas  pouco  perteecentes  aa  uyda  ,  e  per 
openyom  geeral  som  theudas  em  grande  preço  Edestas 
riquezas  estes  regnos  graças  anosso  senhor  som  ricos 
de  natural  riqueza  em  muytos  legares  tanto  como  a- 
quel  queo  mais  he ,  nias  das  outras  duas  nom  tanto 
Epor  que  podemos  por  estas  partes  fallecer ,  cõuem 
que  conssijremos  orregimento  que  auemos  em  nossa 
pessoa,  casa,  senhorio,  ou  ofícios  senos  for  encomen- 
dado pêra  correger  em  nossos  falliciraentos,  e  no  bem 
contynuar  cõ  amercee  do  senhor,  e  acrecentar.  Epor 
que  moramos  em  terra  de  uyandas  e  beueres  niujto  a- 
uondosa  contra  este  pecado  de  guargãtoyce  nos  cõuem 
fluer  mayor  auysamento,  e  muyto  mais  grande  aos  que 
som  postos  em  real  estado  por  seerem  sobeiamente 
pêra  comer,  e  beuer  requeridos,  e  ligeiramente  pode- 
rem fallecer,  desy  por  seu  boo  exempro  poderem  pres- 
tar amuytos,  e  per  coatrairo  empeecer. 


o  LEAL  CONSSELIIEIRO.  Hl 

CopituUo  XXXÍIJ, 
Da  deferença  dos  jejuús. 

JL  or  que  os  jejuus  semosíram  seere  contrairos  dag-.ir- 
gantnyce,  uos  íaço  declaraçom  de  ires  deferenças  del- 
les ,  as  qiiaaes  em  todas  cousas  meaãs  se  podem  achar 
Prymeira  daquelles   que  som    boos  e  de  imíricimento.' 
Segfunda  dos  que  som  inaaos,  o  dig^nos  derrepreenssoui- 
Terceira  dos  que  nem  som  delouuar,  ou  doestar.  Quan- 
to aaprymeira,  som  boos  todos  aquelles  que  som  nian^ 
dados  per  asancta  igreja  nossos  prellados  ou  confesso- 
res.   ICaquesto   por  auirtude  da  obediência,  daqual  ao 
senhor  mais  praz  que  do  sacrificio  Eda  qui  he  de  notar 
quanto   errom   algufis    que  lantesyosamete  querem  je- 
jíiar  alg-uus  dias,  que  jurarom  ,  ou  lhes  praz,  leixando 
aquelles   que  aigreia  manda.  Casse  todo  podem  fazer, 
bem  he  deo  comprir.  Esse  fallecer  em  alguii,  quebrem 
ate   ajura  e  compram  oque  lhe  mandom  ,  que  he  mais 
principal ,  por  que  he  regra  geeral  que  juramento  fel-, 
cto  contra  boos  custumes  nom  uai.  Êporende  auer  de- 
quebrar    omâdado   da  sancta  igreia  ,  por  comprir  oque 
jurou  ,  nom    he   razom  ,   por  que  ajura  nom  pode  obri- 
gar  afazer  tal  cousa  per  que  seiam  desobedientes  aas- 
sancta   madre   igreia,    e   do   quebrátaniento ,    deuesse 
fazer  saíisfaçom  se  tal  caso  for.  Segunda  he  dos  jejuus, 
que  por  speciaí  deuaçom  se  guardom  Os  qiiaaes  ajnda 
que  nom  assj ,  como  aos  primeiros  seiamos  obrigados, 
poronde  as  speriencias  bem  demostram  ,  como  anosso 
senhor  delles  praz,  por  cujo  exepro  aquelles  da  cidade 
nyue   forom    saluos   da   sentença  de  sua  desíruyçom  e 
no   euangelho   disse   nosso   senhor  dalgnfis  demonyos , 
que   se   nom    curauom   senom    per  jejuiis    e   ouraçom. 
Elal    maneira   de  jejuar,  do  que  per  spocial  he  feito, 
mais  principalmente  se  deue  entender  E  cada  hufi  dia- 
os   que   delles   bem   husam ,  conhecem    per  s])eriencia 
que  som   acrecentadores  de   uirtude^    e   que    abatem 


112  o    LEAL   eONSSELHEIRO. 

ros   pecados,  como  aqiielles  per  que  se  faz  hu5  gran- 
de parte  depondença  e  satisfaçoni  Terceira  he  daquel- 
Ics  que  se  fazem  por  guardar  uirtude  de  têperança  por 
bem  daalma,  corpo,  e  boo  estado  Eaquestes  poslo  que 
geiam  demais  pequeno  merecimento ,  quem  os  guardar 
per   prazer  aaquel   senhor  deos ,  aque   sempre   muyto 
praz  detoda  boa  pratica  deuirtudes,  nô  será  sem  gran- 
de gallardom  ,  por  que  el  diz  per  oprofeta,  que  ojejuu 
que  lhe   praz  he  muy  principalmente  em  cessar  demal 
fazer    Pois   muyto   cessa  demal,  quêsse  guarda  degar-^ 
gantoyce ,  e  beuedice,  e  guarda  boa  temperança  Eo- 
aposlollo   nos   manda ,   que   selamos  temperados  e  uy- 
gyemos  sabendo  que  nom  podem  bera  uygiar  pêra  sua 
saluaçom  e  todo  outro  bem  nem  daquelles  que  lhe  som 
encomendados,  quem  temperadamente  nom  uyuer.  Per 
boa    temperança  daboca ,  se  percalçam  todas  boas  fijs 
Prymeira,  quanto  aaconciencia,  uencendo  aquelle  pe- 
cado  per  que   os   prymeiros   parentes   forom  uencidos 
Segunda  da  hõrra  recebem  louuor  de  huii  iam  boo  no- 
me  que  he  digno  degram  contentamento   .s.   que  som 
bem   senhores  de  sua  boca ,  e  segouernõ  bem  ,  e  dis- 
cretamente   Da   terceira   quanto   aas  pessoas  ham  per 
ella  com   agraça   do   senhor,   mais   perlongada   uyda, 
com  muyta  saúde,  Aquarta  da  fazenda,  nom  he  duuy- 
da,  que   per  temperança  decomer,  e  beuer  nom  seia 
bem   regida ,  e  per  maao  regymêto  desgouernada.  De 
folgança,    que   he   aquynta ,    muyto   mais   percalçom , 
por  que  sempre  som  contentes  deguardar  boa  têperan- 
ça,  e   se   allegram  muyto,  ueerensse  fora  daquel  ray- 
uoso  deseio  em  que  sempre  uyuem  beuedos,  e  gollo- 
sos  Eassy  ojejuíi  quesse  faz  e  guarda  per  cadahGa  des- 
tas cousas   he  boo  digno  delouuor  etraz  muy  grandes 
beês,  peras   uydas   presentes,  e  que  speramos.  Oque 
he   maao   se  faz   per  outras  três  deferenças.   Prymeira 
per  myngua  de  discriçom ,  jejuando   tanto  que  ueem 
por  ello   amorte,  sandice  ou  grandes  jnfirmidades  das 
quaaes  som  uystos  tam  claros  exêpros  que  nom  compre 


o    LEAL   CONSSELHEIRO.  113 

sobrello    mais   screuer  SeganHa  ,  por  uaa  gloria,  que- 
rendo   ali;nris   por  eJlo  dos  homeès  seer  louuados  Epor 
eslo  pryiicipalmente  ofazem  ,  errando  graiiemente,  se- 
gundo sediz   nos   slatutos   de  sam  jolia  ocasiano  ,  que 
som  nniyto  deculpar  os  que  fazem  semelhante  por  lou- 
uor  dos   homees   cajndo  em  pecado  de  sacrilégio,  por 
que   aquellas   cousas  que  au}am  dobrar  por  lounor  de 
deos  ,  mais   as  quyserom  comprir  por  louuor  das  cria- 
turas.   Terceira  daquelles   que  cora  sanha  e  nojo  nom 
querem  comer,  nem  auer  mantijmento  necessário,  ou 
j)or   afazer   aoutrem  ,    dos   quaaes  se  serene ,  quedam 
decomer  aos  outros   amargura  em  seu  fel  euolto   Ea- 
questes   nom    sentem    toda  myngua  decomer,  e  beuer 
por  fazerem  despeito,  ou  filharem?  alguã  uyngança,  de 
qnêadeseiò  dauer.  Eos  semelhantes  dessy ,  e  dos  ou- 
tros começam  seer  omecidas   Os  meaaos  sõ  per  outras 
três   maneiras   breuemente  scriptas    Prymeira  por  nom 
teer   que   comer,  ou   beuer,  ca  em  esto  nom  ha  mais 
pecado  nem  mercee  senom  quanto  com  sanha,  ou  pa- 
ciècia  he  soportado  Segunda  por  nom  auer  algua  uoon- 
tade ,  como   cora  fastio  geeral ,  ou  special  amuytos  a- 
contece,  em    que   nom    ha  fallicimenlo,  saluo  se  ueeo 
per   seu   aazo  ,    maa   gouernança,  ou  adiante,  pêra  se 
levxar  uencer,  onda  j)oderia  contrariar  alguu  mal  des- 
selhe   seguyr.    Terceira   por  seer  entento ,  e  trabalhar 
em    outros  feitos   E  naquesto  ha  mérito,  ou  desmere- 
cimento   segundo  aquel  feito,  por  que  leixar  decomer 
Casse  for  por  obras  meritórias  merecera.  Eassi  das  ou- 
tras segundo  forem  auera  seu  gallardõ,  mas  em  tal  je- 
ji^iar  synipresmenle ,  nom  ha  pecado,  nem  merecimen- 
to Eslo   nos   sereno   breuemente,  segundo  me  parece 
pêra    destas  maneiras  dejejíiar  auerdes  algua  enforma- 
com  ,  preguntando  se  nos  prouuer  aoutro  leterado  que 
mais   perfeitamente   uos   declare   amaneira   e   medida, 
que   sobre   todo  tempo,  hidade ,  e  desposiçom  deuees 
teer,  pêra  qiiesse  requero  mais  compryda  leitura. 


114  O    LEAL    CONSSELHEIRO, 

Cap:  XXXIIIJ, 
Da  ffe. 

Jl  or  outra  conssijraçom  podemos  bera  uijr  aconhecy- 
inento  de  nossos  fallicymenlos,  e  pecados  sobre  aqual 
muyto   bem   se   poderia  screuer,  mas  por  algUtã  uossa 
enformaçom    esto   pouco   e   simprezmente   uos   screuo 
Reguardar  como  guardamos  epossuymos  asvii  uirludes 
principaaes    .s.    fie,    sperança ,    Caridade,   Prudência, 
justiça  Temperança   e   forteiieza  Edo  que  uirmos  que 
per  mercee  de  nosso  senhor,  somos  em  boo  estado,  o 
esforcemonos  debem  ,  em   melhor,  sempre  acrecentar 
e  dos  erros  nos  doer,  e  confessando,  enmendar,  e  sa- 
tisfazer Essobre  aíTe  deuemos  conssijrar  conio  sabemos 
e   crpemos   os   artigoos  e  comprvmos  os  sacramentos, 
guardamos   as   ordenanças,  e  cerynionyas  da  sancta  i- 
greia    Ecomo  as   igrejas   e  pessoas  eclesiásticas,  e  de 
religiom  ,  som   denos  honrradas   bem    írautadas,   e  no 
que   côuem   obedecidas,  e   acõuerssaçom  que  auemcs 
com  pessoas  fora  da  nossa  creença ,  contra  determyna- 
çom  ,  e   mandado  dos  nossos  prellados ,  ou  cõfessores 
Eas   escomunhoões ,  como   as   receamos,  e  delias  nos 
guardamos,  e  tiramos  Eueendo  bem  em  cadahuã  des- 
tas  partes  oque  denos  sentymos ,  e  poderemos  enten- 
der com  agraça  de  nosso  senhor,  como  estamos  acer- 
ca danossa  fle  Ca  diz  sâctiago  em  sua  epistoila  que  aífe 
Sem    obras   he  morta  per  que  os  demoes  assy  crêem  e 
ham   temor,  porem  cõuem  pcra  nossa  saiuaçom  q  aíTe 
que   ouuermos   deboas ,  e   uirtuosas  obras  sela  bem  a- 
companhada  Essobre  os  proueitos  que  se  recrecem  de- 
auermos   segudo   pella  sancta   igreia  nos  he  mandado. 
Ouuy  ameestre  francisquo  meu  confessor  em  huã  pree- 
gaçom  ,  como  em  desputando  huu  xpaáo  com  huu  hfí- 
reje,  que   da   outra   uyda  cousa  lhe  nom  prazia  creer  , 
disse,  que  seedo  uerdade  oque  dizia  ohereje ,  el  cousa 
com  perdia,  por  que  aboa  sperança  dauyda  eterna. 


o    LEAL   COXSSELHEIRO.  115 

e  atloleltaçom  das  uirtudes  que  por  ella  mais  scgiiya, 
lhe  dana  inais  prazer,  seiu  algiiu  contrairo  que  afol- 
íj-ança  dos  pecados ,  e  do  mal  fazer.  Esse  uerdade  era 
oque  nos  aíkiiiainos  dauyda  pêra  sempre,  que  perde- 
ria por  sua  descreen<:a  amavor  perda  que  poderia  per- 
der Epois  da  creença  nossa  alguu  mal ,  nem  desprazer 
em  esta  uyda,  nem  na  outra  se  nom  recebe,  que  mais 

bem,  e  folgãça  lõ ajom  por  as  razoues  suso  dietas 

Edea   leixar  de   creer,  seendo  uerdade,  oque  afirma- 
mos aueriam  tal  mal  perdendo  omayor  dos  bees ,  arra- 
zom  bem  demostra  que  grande  siso  he ,  nunca  tal  da- 
u}da  tardar  em  nossos  coraçooês  E  por  que  me  pare- 
ceo   muyto  proueitosa  enssynança  m.e  prouue  de  uolla 
screuer    Essobre   amaneira   do   desuairo   das   creenças 
Eu   conssijro   como   na  íTe   que   perteence   aas  cousas 
cellestriaaes  ha  grandes  mudanças  e  desuairo  õ  geeral 
Eos    mais   detodos  daquella   ley ,    seita,    ou   heresya, 
concordam    em   hua   maneira  de  creer.  E  na  determy- 
naçom  das  uirtudes  e  pecados,  xpaãos ,  mouros,  gen- 
tios e  judeus  em  todos  seus  liuros,  acerca  em  todo  se 
acordam    Ena  teençom    callada  que  cada  huíi  tem  em 
seu  coraçom  ,  os  mais  som  desacordados  Ca  hufís  nom 
teem  por  mal  mentir,  eganar,  e  bulrrar,  por  seu  pro- 
ueito  ,  outros   beuedice ,  e   desordenado   comer.  E  al- 
guus   sanha,    mal   dizer,   scarnecer,   filhar   uyngança, 
nom   conssentem   seer  grande  fallycymento   Eassy   os 
mais,  ajnda   quesse   callem  ,  nom    teem   por  pecado  a- 
quello   aque   muyto  som  per  afeiçom  jnclinados ,  oque 
he   grande   erro,    por  que  se  alguém  jusíamõte  deseia 
uyuer,  nunca  deue  sobre  toda  cousa  que  aíTe  dos  arti- 
goos  dos  sagramentos  das  uirtudes  e  pecados  perteen- 
ce auer  teeçom  noua,  nem  reprouada ,  mes  estar  sem- 
pre bem   firme   na   quella   parte,  que   assancta  igreia 
seguramente   mandar-   Eoque   por  ella  nom  he  deter- 
mynado ,  prazanos  mais  trazello  em  duuyda  ,  que  filhar 
errada   teençom    Edandonos  logar  de  podermos  em  al- 
guãs  cousas  seguramente  scolher,  qual  parte  nos  prou- 

P  2 


li  6  o    LEAL    CONSSELHEIRO, 

uer,  em  aquestas  sem  empacho,  cadahuu  scolha  oque- 
Ihe  mjlhor  parecer, 

Capilullo  XXXV. 

Do  que  me  parece  sobre  aconcepçom  de  nossa  senhora 

saneia  niaria. 

&obre  aduuycía  que  se  tem  da  coneepçom  denossa  se- 
nhora síícta  maria  ,  se  foy  sem  pecado  original,  eu  te- 
aiho   quessy  por  estas  quatro  razoôes.    Pryme^ra,    por 
quanto   da  sua   parte  foy  declarado,  que  delia  llie  fe- 
zessem  festa,  expressamente  nomeando,  q  da  coneep- 
çom  achamassem ,    e   assy   rezassem    seu  oficio,  oque 
seriom   mandaria  se  fora  cm  pecado,  ou  em  ella  nom 
ouuera  special    pryuylegio  asseus  parentes  outorgado, 
pois   na   quel   têpo  era  criatura  dalma  racional  nõ  era. 
Segunda   se    quysera  que  fora  feiía  per  sanctifieai^om  , 
quando  aalma  foy  criada,  nom  mandara  tal  festa  se  fe- 
desse  em    tal   tempo  ,  por  que  daquy  asseu  nacimento 
som    noue  meses,  mas  deuerasse  fazer  aaquel  que  se- 
gundo geeraí  openyom  ,  as  almas  nas  moças  som  cria- 
das.   Epois  specialmeníe  foy   mandado   q   fosse   agora 
cellebrada,  mostrasse    que   por  o   pryuylegio   que  foy 
outorgado  asseus   geeradores  que  sem  original  pecado 
ag^eerasse  tal  festa  lhe  prouue  seer  feita.  Terceira  quan- 
do  auemos   lyure   autoridade  pêra  de  nossos  senhores 
ou  amygos,  poder,  de  duas  cousas  huã,  creer,  e  afir- 
mar,   aamylhor  deuemos  seer  jnclinados,    pois  como 
assy   seia    que   aigreia  nos  da  lugar  que  tenliamos  que 
foy   concebida   sem    origynal   pecado,    ou   ocontrairo , 
JEm  esta  que  segundo  nosso  parecer,  he  demayor  per- 
rogatyua  sua   e   de   seus   padre  e  madre  nos  deuemos 
afirmar.  Quarta  por  se  fazer  defcrença  antre  ella  e  sam 
joham  ,  ca  dei  se  faz  festa  do  nacymento  ,   por  que  no 
uentre  dessua  madre  foy  sanctifycado  Edella  por  mayor 
perrogatyua   desseus   parentes  da  coneepçom  mostran- 
do., que  receberem,  tam  excelJente  pryuylegio,  con- 


o    LEAL   CONSSELHEIRO.  Il7 

írairo  do  g-eeral  fallicinieiUo  cie  íotlollos  hompes ,  e 
mullicres.  Porem  dereitainente  delia  se  diz  que  fov 
sem  inaldiçom  de  pecado  morlal ,  uenyal,  e  original 
côcebida,  Epois  eu  tenho  liberdade  pêra  poder  teer 
qual  teençom  destas  duas  me  prouuer  Euejo  que  afes- 
ta  se  mandou  ê  tal  tempo  fazer,  Eper  ordenança  sua 
de  nossa  senhora  da  concepçom  foy  chamada  ,  Em  a- 
quesla  partiçom  assua  graça  me  acordo  senij)re  sem 
duuyda  teer  e  afirmar  Eassy  faço  que  lie  no  ceeo,  em 
corpo,  e  em  alma  per  muy  euydentes  razooes  que  os 
leterados  demostram  ,  e  por  scoiher  aquella  parle  que 
ameu  juyzo  he  pêra  ella  de  mayor  louuor  e  perrogatiua 
e  aquesla  maneira  de  creer,  em  todas  estas  parles  me 
])areceo  muy  seguro  camynho  per  agraça  denosso  se- 
nhor perao  seu  sancto  rejno  Epera  uyuermos  em  esta 
presente  uyda  uyrtuosamente  Ca  per  huíi  pratico  exem- 
])ro ,  eslo  bem  se  pode  conhecer,  por  que  se  alguiis 
camynhos  perijgosos,  e  que  nom  saabhamos  auemos 
depassar,  aquel  scolhamos  que  leuam  os  demayor  au- 
toridade, per  boo  saber,  e  grande  custume  Eassy  pois 
amorle  scusar  senom  pode  pêra  fym  denossos  dia5,  mais 
boa  sperança  podermos  auer,  cõuem  que  ajamos  firme 
firmeza  da  fie,  nos  artigoos  e  uirtudes,  pois  que  os 
mais  perfeitos  esta  estrada  leuom,  aprouam,  e  seg-uem, 
fazendo  sempre  bem,  e  guardandonos  de  sospeila,  por 
leuar  nossa  carreira  dereita  Epor  seguyr  tal  teençom, 
contra  os  que  tom  deseio  comprir,  suas  maas  uoonta- 
des ,  dizendo  que  os  bees  na  uyda  presente  ueem  da- 
uentuira,  e  na  per  ordenança  denosso  senhor  Eu  diga 
q  per  sa  determynacom  como  tem  assancta  madre  i- 
greia,  que  aos  boos  dará  sempre  bem,  e  as  cousas 
contrairás  selhes  tornarem  em  boa  parte  como  diz  oa- 
postollo.  Esse  de  uentura  esta  deuyam  ante  aguardar 
bê  uyuendo  em  companha  dos  boos,  e  uirtuosos,  que 
mal  fazendo  com  os  malleciosos,  ou  públicos  pecado- 
res Eao  têpo  que  na  qiiesto  screuy em  niynhamys- 

sa  leerom  epistolía;,  e  auangelho,  que  me  parccco  gran^ 


118  o   LEAL   CONSSELHEIRO. 

parte  fazorS  aiucu  propósito,  dos  quaaes  aconclusom 
he  esta  Mauiglestas  som  as  obras  da  carne,  as  quaaes 
som  foni}  zio ,  entidade,  auareza ,  Juxuria,  e  seruy- 
doõe  dos  vdollos  jnmijzadas,  demandas,  rifaria,  Ijyra, 
reixas  ,  desacordos,  seitas,  êuejas  ,  omecidas  ,  beuedi- 
ces ,  e  outras  cousas  aestas  semelliantes ,  as  quaaes 
digo,  como  ja  ante  disse,  que  os  obradores  de  taaes 
feitos  ,  orreino  de  deos  nom  auerom  O  fructo  do  spri- 
tu  he  caridade,  prazer,  paz,  paciência,  grandeza  de- 
coraçom  ,  bondade,  benygnidade  ,  manssidoõe ,  íle^ 
sperança  ,  contynencia  ,  castidade  Esto  diz  aepistolla 
em  que  bem  se  demostram  as  obras  que  ham  de  fazer, 
e  seguyr  os  que  buscam  os  reynos  dos  ceeos.  Ediz  no 
euangellio.  JNom  podees  seruir  adeos ,  e  ao  mamona. 
Poreui  eu  iios  digo  que  nom  seiaaes  sollamente  cuy- 
dosos  e  nossas  almas,  por  oque  auees  decomer,  nê 
pêra  uosso  corpo,  que  auees  de  uistir,  certamente 
aalma  mais  he  que  manjar,  e  o  corpo  mas  que  uesti- 
dura.  Olhaae  as  aues  do  ceeo  que  nom  semeam  ,  ne 
colhe,  nem  ajuntam  em  celleiros,  e  nosso  padre  cel- 
Jestiai  as  gouerna  Vos  mais  e  meliiores  sooes  que  el-' 
las,  qual  deuos  outros  assy  cuydosos  pode  acrecentar 
em  sua  grandeza  huii  couodo ,  e  das  uystiduras,  por 
que  sempre  cuidaacs.  Conssijraae  os  lileos  do  campo 
como  crecem  ,  nom  trabalhem  ,  nem  colhe.  Eu  uos  di- 
go que  nom  sallamom  em  toda- sua  gloria  he  cuberto, 
assy  como  hufi  destes  seo  feno  do  campo  que  hoje  he, 
e  demanhaã  no  forno  he  posto,  deos  assy  neste  quan- 
to mais  auos  fará  de  pouca  íTe.  Nom  queiraaes,  porem 
seer  ccntynuadamente  cuydosos,  dizendo  que  comere- 
mos, ou  que  beueremos,  ou  de  que  nos  cobriremos 
todas  estas  cousas  as  gêtes  demandam.  Certamente 
uosso  padre  sabe  que  as  auees  mester,  buscaae  porem 
primeiro  orreyno  de  deos,  e  assua  justiça  sempre  Eto- 
das  estas  cousas  uos  serom  acrecentadas-  na  questo 
manygfestamente  se  demostra,  que  nom  dauentura^ 
nem  per  costellaçom  nos  seram  outorgadas  estas  cou- 


o    LEAL    CONSSELHEIRO.  iI9 

sas  perteecentes  aauyda  presente,  mes  por  buscarmos 
prymeiro  seu  rejno  ,  e  ajusj.yça  sempre  ,  oquo  se  fará 
se^uynJo  aquellas  obras  do  spritu  ,  na  epistolla  decla- 
radas, e  leixando  as  da  carne  Edoutra  guysa  esto  me 
parece  que  deuemos  fazer  Jogo  na  manhaà,  cheg-armo- 
nos  aos  ofícios  |)or(.tecentes  ao  seruyço  do  senhor,  e 
per  todo  o  outro  tempo,  obrar  em  nossos  negócios, 
guardado  sempre  justiça  Ou  subre  qual  quer  feito  pens- 
sar  pr\meiro  se  per  el  seguyremos  orrejno  dcdeos ,  ou 
dei  nos  afastamos,  e  quando  boo ,  e  pêra  soguyrmos 
nos  parecer  sepre  ocontynuaremos  ,  obrando  todo  jus- 
tamente ataa  opoer  com  sa  graça  em  deuyda  e  desola- 
da f\  m  ,  e  conclusom.  Eauendo  ííe  certa ,  e  íirme  que 
deuemos  nossos  feitos  com  tal  tençõ  seguyr,  e  que 
assy  nos  desponhamos  aello  com  sa  graça,  e  mais  le- 
dos com  boa  sperança ,  e  seguramente  entendermos 
oque  deos  dereito,  e  piadoso  senhor  quyser  denos  or- 
denar que  penssar  que  uíram  perfortuna,  nem  costol- 
laçom  de  pranetas. 


C 


Capltullo  XXXVÍ. 
Sobre  departidas  cousas  q  deuemos  creer. 

/on?sijrando  em  amaneira  qbe  deuemos  teer  nas  cou- 
sas denossa  creença,  amym  parece  que  se  partem  em 
cynquo  deferêcaâ  por  que  assancta  igreia  nos  manda 
creer  oque  se  contem  em  ocredo,  e  no  quycunque  uult, 
e  outros  certos  artigoos  em  os  quaaes  nom  cõuem  bus- 
car razoões  ajnda  que  os  Reymonystas  muytas  demos- 
tre, mas  per  obediência  segura,  e  assessagada  me  pa- 
rece que  realmente,  e  mais  fora»  deperigo  ,  e  têtaçom 
podemos  e  deuemos  creer  que  per  outra  demostrança 
derrazooês  Eassy  ouy  scripto  em  huà  preegaçom  de- 
mestre  vycente  em  que  dizia  que  peraa  uijnda  do  an- 
te xpõ  ,  no  era  mais  seguro  camynho  pêra  estar  íirme 
í>a  fie,  que  per  symprez  obediência,  nom  curando  dou- 
tras pallauras  creenios  como  per  assancta  igreia  nos  lie 


J20  O   LEAL  CONSSELHSÍRO. 

manrlaclo  Eno  liuro  do  regymento  dos  pryncypes,  on- 
de  diz    como  na  ydade  nona  ,  nossa  fie  óeue  scer  ens- 
synada,  por   fundamento    pryncipal ,  declara  conio  se- 
íioni   pode  bem  demoslrar  per  razom  ,  nem  conipre  a- 
gente  denossa  maneira  esto  mnyto  scoldrynhar  temen- 
do  aquella  pallaura  queos  scoldrynhadores  damagesta- 
de   eternal  seram  abatydos,  e  oque  se  diz  que  os  juy- 
zos   de  nosso  senhor  se  nom  podem  comprender,  nem 
percalçar.    Segunda   he  dos  sagramenlos  que  som  sete 
.s.  Bautismo  ,    Crisma,  COfissom  ,  Sagramento  damys- 
sa  5  Ordem  do  casamento,  Estrema  Hunçom    Eaques- 
tas   assy   cõucm   sem    duuyda   creer   que   som  delanla 
iiirtude,    e   poder   como    per  assancta  igreia  he  deter- 
niynado,  nom  buscando  razom,  mais  gaançar  omericy- 
menlo   da   íle  ,  per   simprez   obediência.    Ena   questas 
duas    partes  5  myllagres  ouencerom  ,  e  souigarom  toda 
razom,   Ea   quem    os    nom    creer  digo,  aquel  dicto  de 
sam  grigorio  que  da  por  manyfesto  niyllagre ,  nossa  ffe 
se   poder  creer  sem    myllagres   com    taiitas  mortes  de 
sãctos,    heresias,   ypocrisias  ,  cysmas  ,  symon}  as  ,  co- 
mo  delias  em  soma  se  faz  menço  no  liuro  daaruor  das 
batalhas,    iodos    aquelles    malles    per  niyllagres  forona 
uencidos   per   os  quaaes  nossa  fle  se  fundou  jírincypal- 
mente  como   diz  nosso  senhor,  se  ami  nom  creerdes, 
creede  as  obras,  por  que  sõ  taaes  que  oiitrem  nou)  as 
faz,  Eassy  os  apostollos  compridos  de  sanctesprito  |)or 
mujto  que  preegassem  afiorça  do  couertiniêto  de  todo 
opouoo  foy  per  mxllagres,  porem  aos  precgadores  muy 
necessário    lhe   cõuem    q    ajom   tal  uyda  que  nosso  se- 
nlior   per  elles    ajude   suas  preegaçoôes ,  ca  os  outros 
que  bê  preegom  ,  e  mal  uyuem  dam  abeuer  augua  cu- 
ja trilhada  com  seu  maao  uyuer,  como  diz  sam  grego- 
rio  no  liuro  pastoral.  Posto  que  nom  uejamos  assy  cra- 
ramente   os    myllagres,    creer  deuemos  os  que  per  as- 
sãcta   igreja   som  aprouados  sem  alguã  duuyda.  Equal 
quer   que   cadahuú  uyr ,    lhe  deue  íazer  grande  ajuda, 
pêra  nom  duuydar  nos  outros,  como  dizia  sancto  agos- 


o   LEAL  CONSSELHEIRO.  ]21 

tynlio,  por  amorle  do  sam  lourenço.  Eu  uy  huii  niuy- 
to  claro  em  os  comos  do  cabo  de  sam  uycenle  dos 
(juaaes  afyrinani  os  que  inoram  na  qiiella  comarca  ho- 
meens  de  iiiuy  aiilijga  ydade  aqueo  preguntey  que 
jiuuca  uyrom  ciu  eJJes  iniidaiica  ,  por  que  som  dous , 
e  nuca  mais  nem  menos  Ueensse  aosliomeens  receber 
opam  que  lhe  iançom  ,  e  aguardam  tãsseguro ,  e  de 
preto  como  se  fossem  aues  massas.  Esto  natureza  noin 
conssente  que  iCiío  podessem  uyuer  por  que  na  leenda 
do  dicto  saneio  fez  meençom  que  dous  cornos  guarda- 
rom  osseu  corpo  das  outras  aues,  e  caaès  quando  no- 
campo  foy  lançado,  e  agora  ueer  aquelles  que  nunca 
som  nem  mais  nem  menos,  como  dicto  he ,  sem  adoe- 
cerem ,  nem  fazerem  mudança  em  sua  manssydooe  pa- 
rece cousa  muyto  marauylliosa  Esse  disserem  que  os 
coruos  uyuera  muyto,  como  em  geeral  sediz ,  e  porem 
nom  he  myllagre ,  digãme  doutros  semelhantes,  por 
que  nunca  os  uy,  nem  ouuy  delles  fallar.  Se  todos  tan- 
to uyuessem  pois  que  fazem  geeraçom  ,  como  todas 
outras  aues,  muytos  mais  seriam  Epois  assi  nõ  he  e 
aquesto  magnyfesto  se  demostra,  conuem  confessar  a- 
todos  que  he  gram  marauylha  Eaos  xpãaos  que  he 
mny  eujdente  myllagre  Esse  disserem  que  os  filhos  a- 
prêdem  dos  padres,  alguãs  uezes  seria  mais,  ou  me- 
nos que  dous,  oque  senom  uyu  em  renerobrança  dos 
homeês.  Eassy  como  ueemos  este ,  deuemos  creerlos 
outros  aprouados  per  assancta  igreia  em  que  anossa 
fie  ouue  muj  pryncipal  fundamento  Terceira  faço  das 
uirtudes ,  assy  que  ajamos  per  uirtude  oque  per  ella 
for  determynado.  Ej)or  que  naturalmente  per  ordenan- 
ça denosso  senhor  ellas  podem  seer  conhecidas  per  to- 
das pessoas  uirtuosas,  e  entendidas,  bem  he  trabalhar- 
mos deas  saber  e  praticar  quanto  mais  e  melhor  po- 
dermos Quarta  he  do  conhecymento  dos  pecados  so- 
bre CS  qiiaaes  he  dessaber  que  som  sete  segundo  gee- 
ral deuysom  como  dicto  he ,  mas  teem  rouytas  defe- 
renças.    Ca  som  alguus  em  obrar,  fallar,  ou  penssar, 

Q 


122  o    LEAL    CONSSELIIEÍilO. 

outros  per  leixamento,  e  aquesto  por  ofeito  seer  da 
geeraçom  ilos  malles  e  coníradizer  expressamente  aliei 
da  natureza,  em  que  toda  boa  razoni  concorda,  e  taaes 
cousas  hy  ha  q  mais  nom  som  ma! ,  que  por  seerem 
defesas  e  oíallicymento  da  quellas  uem  por  nom  que- 
rer saber  as  cousas  que  deue  fazer  ou  delias  se  g:uar- 
dar  Eposto  que  lho  digam,  per  soberua,  e  presunçoni, 
nom  querer  conssentir ,  e  creer,  segundo  per  assar-cta 
igreia  nos  he  deíermynado  no  que  cõuem  per  ohedien»* 
cya  sem  duuyda  auer  por  pecado  Eper  boa  delligencia 
trabalhar  quanto  mais  poderê  pêra  bem  conhecer  e  sa- 
ber todallas  suas  maneiras  Ecom  ftgraça  do  nosí^o  se- 
nhor deos  se  guardar  delias  conssijrando  as  coiit^as  q 
se  mandam  e  as  que  som  encomendadas  mais  que  man- 
dadas das  quaaes  se  dyz  que  oquesse  encomenda  ,  0 
nom  manda  seo  fazem  aproueita,  seo  leixara  nom  con- 
dana,  e  aquesto  deuem  saber  aquelles  que  razoada» 
mente  entendem  per  certa  uista  de  outoridade  de  tex- 
to abastante  e  nom  per  openyoões  de  doutores  Eo3 
que  tanto  no  souberem  per  mandamento  depessoas  a- 
prouadas  se  regem.  Aquynta  maneira  he  dos  dereitos, 
sobre  as  liberdades,  e  jurdiçõ  da  igreia  Epor  quanto 
alguus  destes  sõ  scriptos  per  leterados  ,  C|ue  sobrello 
screuero  forom  clérigos,  e  quyserom  largamente  fauo- 
rezar  assua  parte ,  posto  queo  fezesse  com  boa  teen- 
çom.  Porem  esto  nom  embargando  todollos  senhores 
em  esta  parte  teem  certas  ordenanças  em  suas  terras 
por  consseruaçom  de  seus  estados  e  bem  desseus  sub- 
dictos ,  per  antigo  custume  aprouados  que  parecem 
contrairás  aopenyom  delles ,  as  quaaes  entendo  que 
cada  huíi  pryncipe  deue  guardar,  por  seruiço  de  nosso 
senhor  deos,  como  fezerom  seus  antecessores,  segun~ 
do  el  com  seu  consselho  por  melhor  acordar  Ca  sam 
paulo  dyz  huS  autoridade,  que  os  |)rellados,  clérigos, 
e  religiosos  miiyto  bem  deuem  conssijrar  ajnda  que  a- 
todos  perteença,  manda  em  sua  epistoUa,  que  seiamos 
assy  como  iyures,  e  nom  que  ajamos  ueeo  de  liberda- 


o    LEAL    CONSSELHEIRO.  123 

de,  de  mallicia  ,  \í  cora  lai  cubeilura  os  senliores  iiom 
se  tleucm  estender  pêra  britar  opryuylegio  clical,  mais 
que  seus  antecessores,  nem  dar  luçar  aelles  que  uy- 
uam  em  desenfreado  atreuymento ,  como  alguíis  que 
boos  nom  som  fariom  ,  se  per  os  senhores  nõ  fossem 
temperados,  oqiie  sempre  se  deue  fazer  com  grande 
tento ,  e  boo  consseJho  com  reguardo  do  seruiço  de 
deos. 

CapiluUo  XXXFIL 

Das  outras  tiijíudcs ,  e  sciencias  aque  dam  fe  per 

dcsuairadas  inaiíeiras. 

V^onssijrando  nas  desuairadas  maneiras  que  se  da  fie  , 
e  creejiça  aas  profecias,  uysooês ,  sonhos,  dar  auoon- 
tade  uirtudes  das  pallauras,  pedras,  e  eruas ,  signaaes 
dos  ceeos ,  e  que  se  fazem  na  terra ,  Em  perssoas  e 
alimárias,  e  terremotos,  graças  speciaaes  que  deos 
outorga  que  ajam  alguãs  pessoas  Eaestroilazia,  nygro- 
mancia ,  geomancia,  e  outras  semelhantes  sciencias, 
artes,  sperinientos  e  sortillezas,  demodo  detregeitar 
per  solilleza  das  maãos ,  ou  natural  maneira,  nora  cus- 
tumada  Eoutros  per  força  de  natureza ,  alguíí  pouco 
em  soma  uos  quero  screuer,  do  q  sobrello  entendo,  e 
perao  poderdes  seguir  se  uos  bem  parecer.  Alguíís 
ueio  que  todo  querem  afirmar  certamente  ,  ou  assjr 
negar,  e  cousa  nora  lhes  praz  trazer  em  duuyda  ojq^ue 
me  parece  muy  douydoso  camynho ,  por  oque  se  diz, 
melhor  he  duuydar,  que  atreuydamente ,  sem  descrip- 
çoin  determynar  Eporem  sobre  todas  estas  partes  a- 
quellas  creeo  que  assancta  igreia  manda  creer,  nom 
dando  ffe  aas  que  defende  ,  e  as  outras  trago  em  du- 
uyda, sem  me  afirmar  detodo  acadahuã  das  partes, 
por  que  alguãs  parecem  jmpossiuees,  e  som  uerdadei- 
ras  Eoutras  afirmam  muy(os  que  som  sem  duuyda^ 
que  tenho  por  falssas ,  enganosas,  e  contrafeitas  Epo- 
rem os  que  ueem  taaes  desuairos,  deuem  filliar  por  se- 
guro camynho  nora  -se  afirmar  muy  to  em  cada  huã  defi- 

Q  2 


J24  O    LKAL   CONSSELHEIRO. 

tas  partes  per  teençom  ,  nem  pallaura ,  por  nom  pare- 
cer ahuus  mentiroso,  e  aoiitros  que  com  perfia  con- 
tradiz oque  todos  afirmam,  por  nue  em  cada  terra  (eem 
alguãs  cousas,  tanto  por  contrairás  que  por  muyto 
quesse  afirmem  sempre  por  muytos  sam  auydas,  Eou- 
tras  crêem  tam  sem  dunjíla  que  ham  por  fora  derra- 
zom,  e  comprydos  de  niuyta  perfia  quem  as  nom  creer 
Por  ueerdes  desto  enxempros ,  quem  contar  fora  da 
terra  que  pedre  aus  uee  as  aguas  e  da  os  synaaes  que 
ataa  XX  braças,  e  mais  du  soterra,  serom  achadas  E- 
que  aqueste  moço  pedro,  tam  simprez,  que  assy  afir- 
ma que  as  uee,  e  posto  que  nom  seia  demuyta  auto- 
ridade, como  ia  em  aliceces  de  casas  foy  achado  cer- 
to sem  falh^cer  cousa  em  altura,  e  na  terra  soljre  que 
erom  fundados.  Eda  molher  que  passa  de  xji  anos,  que 
no  çumo  de  huã  maçaam  ,  ou  semelhante  comer,  no 
dia  em  que  mais  largo  come  se  mantém,  nom  gostan- 
do carne,  pescado,  ouos ,  leite,  nem  outra  boa  uyan- 
da,  mas  com  tam  pouca  como  dicto  lie,  sem  uynho  se 
mantém  em  soo  beuer  daugua  simprez,  que  he  jncrt- 
dyuel  Edos  que  guarecem  os  mordidos  dos  caães  da- 
nados per  os  beenzer  Ecomo  deuynhã  os  que  os  uaSo 
buscar  ,  por  ossentirem  no  coraçom  ,  segundome  ja 
contarom  dons ,  padre ,  e  filho  Ehuú  capellam  meu 
que  tem  esta  uirtude,  e  tam  bem  deparirê  as  molheres 
sem  cajom  em  sua  presença,  nom  som  cousas  que  se 
bera  cream  Ede  dar  aauontade,  oque  adiante  se  acò- 
tece,  Eu  uy  ja  cousas  tam  certas  que  seriam  muy  du* 
uydosas  decreer.  Eassy  outras  taaes  uirtudes  que  nos- 
so senhor  quer  outorgar  aalguãs  pessoas ,  nom  se  po- 
dem cõprehender  per  razom.  Eoferro  caldo  que  na 
questa  terra  tantos  certificam  queo  uyro  filhar,  quan- 
do fora  se  diz  por  muyto  quesse  afirme,  poucos  acham 
queo  bem  cree  Essemelhante  fazemos  nos  doutras  que 
muytos  defora  contam,  por  que  as  obras  da  feitiçaria, 
e  quesse  dizem  decatelloniia,  e  saboya  eu  lhes  dou 
pouca  ffe   Nem  aaquelias  q  muytos  afirmam  em  este» 


o    LEAL    CONSSLLHEIRO.  125 

royno?  por  que  ornais  clelodo  ey  por  engnno  e  bulrra. 
Sobrestas    obras   defcitiçcs  muytos  caae  ê  grandes  pe- 
cados e  se  leixam  com  grade  mal  e  desohonrra ,  conti- 
nuar  em    elles ,  por  lhes  dar  fie,  ou  querendo  mostrar 
que   som    forçados   que  amem  aiguãs  molheres ,   e  uy- 
uam    com    ellas   cotílra    conciencia ,  e   seu   boo  estado 
dando  em  proua  que  nom  se  deue  penssar  que  huu  tal 
homem    conhecendo    talo  mal^  se  dei  nom  guardasse, 
nom  seen-do  per  feitiços  uencido  Edizê  que  sas  molhe- 
res  llie    parecem    bestas,    e   semelhantes,    afirmam   as 
rnolheies  por  queos  maridos  Errespondendo  aesto,  di- 
go que  mynha  teençom  he  que  se  dam  acomer,  e  be- 
uer  cousas  p.era  matar,  tirar  o  entender,  faz  uijr  adoen- 
ças ,    mas    pêra   amar   nom    quero    creer,   pois  onunca 
uy ,'  e  arrazom  mo  nom  conssente,  nem  per  aigreia  he 
mandado   qtieo   crea  Esse  conssijrarmos  no  que  oamor 
do  uynho  faz  aos  homeês,  bem  se  conhecera  que  todo 
uem   desse   logar   e   coraçom  deshordenadamente  com 
alguã  cousa,  oqual  nom  saben»  forçar,  nem  fazer  scor- 
regar    Eporem   pooe  por  sy  tal  scusa  ,  ou  per  aymagi- 
naçom  assy  openssom  Essobresto  tenho  uystos,  e  ou- 
uydos  muytos  enxempros  pêra  tirar  tal  fantesia,  oque 
me  fazem  teer  em  esta  teençom  Essegundo  meu  cons- 
selho  quem   em    tal   cayr  com  aajuda  denosso  senhor, 
per  seu  esforço ,  e  saber ,  e  poder ,  tilhando  consselho 
de  perssoas  uirtuosas  se  esforce,  e  nom  se  cure  defei- 
tiçaria.    Ecom  grande  razom  se  faz  justiça  das  pessoas 
que   sequerem    trabalhar   detal   sciencia  fundada  sobre 
mentira,  engano,  e  bulrras ,  fora  detodo  uirtuoso  fun- 
damêto  Eporem  me  praz  trazer  taaes  cousas  em  duuy- 
da,    seas  magnifestamente  nom  uir    Ena  quellas  ajnda 
que  as  por  certas  aja,  fallar  pouco  agente  estrangeira, 
e  com    razooes   bem   reguardadas    Ca   nom    uem  deas 
contar    tanto    proueito,    honrra ,    ou   prazer  que   mais 
empacho  nom  seja,  auerem  presfiçom  que  nom  he  uer- 
dade   oque   dizemos,  por  que  nos  senhores  esta  uirtu- 
de>  autre  todas  muyto  recebe  grande  loauor,  onde  por 


Í-2íJ  o    LÍÍAL  CONSSELHEfRO. 

gpecial  delia  som  chamados  jilusírissimus,  e  serenyssy- 
iiios,  mostrando  que  som  assy  cJanjs  em  uerdade,  fo- 
ra de  bulira ,  engano ,  e  mentira ,  que  nõ  dcueiii  em 
áeus  feitos  e  dictos  poer  duujda  penssando  que  podem 
cavr  em  taaes  fallicimentos.  Eporem  mais  segura  par- 
te me  pareeé  semelhantes  cousas  nom  muyto  as  afir- 
mar, nem  contradizer.  Da  estronomya,  e  ou  Iras  scien- 
cias  5  ou  artes,  quem  se  pode  muyto  atirmar,  iieendo 
álguãs  uezes  percalçar  per  ellas  tam  grandes  uerdades, 
e  doutras  tantas  fallecer.  Das  obras  naturaaes,  quem 
conssijrar  como  parecera  jmpossyuel  ,  aquém  nunca 
liyo  bôbardas,  ou  trôos,  dizerenlhe  que  hua  pouca  de 
poluora,  pode  lançar  tam  grande  pedra  muyto  longe, 
com  tal  força,  do  que  nos  ja  nom  poemos  duuyda,  j)or 
acontynuada  speriencia  conhecera  que  detodo  nom  de- 
ue  contradizer  outras  semelhantes,  posto  q  as  nom 
uyssé  Eassy  deiiemos  penssar  doutras  semelhantes  o- 
bras ,  ajnda  que  nos  pareçam  fora  de  razom  ,  ^ue  pe- 
dem seer  uerdadeiras,  mas  por  tanto  nom  deuemos 
creer  outras  semelhantes,  senom  quando  assy  decerto 
nos  forem  demostradas,  nem  demos  fie  aos  feitos,  e 
bulrras  dos  alquimystas  que  per  taaes  semelhanças 
inostram  que  os  deuemos  auer  por  nerdadeiros  Eposto 
que  nom  acertem  defazer  que  ja  uerdadeiramente  se 
fez,  nem  dos  que  afirma  auer  ouro  encantado  oque 
tenho  por  grande  bulrra,  por  euydentes  razoões  e  boos 
enxêpros  que  prolixo  seriam  descreuer.  Porem  sobres- 
tas obras  da  natureza  ,  meu  consselho  he  que  ligeira- 
mente nom  se  creít,  por  as  mentiras,  que  alguiis  que 
parecem  doutoridade  sobrellas  afirmam.  Nem  detodo 
fee  contradigam  ,  por  as  muy  maraujlhosas  que  se  fa- 
zem,  e  deuensse  detrazer  em  duuyda,  mais  jnclyna- 
dos  áas  nom  creer  que  as  afirmar,  temendo  aquella 
sentença,  quem  deligeiro  cree ,  he  deleue  coraçom 
Da  goyros,  sonhos,  dar  aauoontade  ,  synaaes  do  ceeo, 
e  da  terra ,  alguu  boo  home  nom  deue  fazer  conta  por 
que  se  nom  pode  bem  entender,  quandj)  he  per  natu- 


o    L'EAL    CONSSELHEIRO.  l^T 

ral  demoslraçom  denosso  senhor,  tentaçom  do  jniijgo 
que  natural  precieíiciam  ,  ou  que  ueein  per  svmprez 
acontecimento  per  mudança  da  compreissom  ,  ou  fal- 
ias passadas,  se  alguú  sii^íiylicado  Kpor  que  nom  so 
pode  ama}  or  parte  bem  conhecer,  ornais  seguro  camj- 
nho  ,  he  nom  curar  de  todo  esto,  e  seguir  aquel  cons- 
selho  que  diz,  lança  teus  cuydados  em  deos ,  e  el  te 
recriara. 

^ap:  xxxrijj. 

Da  sperança. 

W  obre  aesperança  danemos  cõssijrar  que  podemos  er- 
rar sobeiando,  como  fazeui  alguus  que  cont ynuadamen- 
te  mal  u}uem  Equcrendo  assy  husar,  dizem  que  deos 
he  iam  piedoso  que  todauya  os  saluara  muj  sem  te- 
mor, assy  oesperom.  Outros  poôe  tàta  sperança  em 
huCi  soo  dia  que  jejuam  ,  oraçooès  que  rezam  ,  nomy- 
nas  que  trazê,  ou  em  certas  romarias  que  prometem, 
que  sem  temor  speram  auer  saluaçom  ,  e  de  grandes 
malles  seer  guardados,,  no  ieixando  depecar ,  nem  se 
trabalhando  <le  uyuer  uirtuosamente  ,  entendendo  quq 
aquella  grande  afeiçom  que  teem  em  cada  huã  daquel- 
las  cousas  he  abastàte  pêra  lhes  tirar  todo  mal,  e  lhes 
seer  outorgado  grandes  beês ,  posto  que  nas  outras 
cousas  uyuam  ao  com pry mento  de  seus  maaos  deseios 
Eajnda  que  por  todos  malles  nom  fazendo  satisfaçouji 
aja?nos  dauer  pena,  e  dos  beès  gallardò  Porem  noB» 
assv  grande  e  geeral  como  alguns  por  estas  obras  spe- 
ciaaes ,  denom  acabado  raericymento  querem  sperar 
cô  pouco  entender,  as  preguiçosas  uoontades  dizendo 
nosso  saluador,  e  nora  aquelie  que  diz,  senhor,  entra- 
ra em  seu  reyno ,  mes  oq  fezer  a  uoontade  de  seu  par 
dre ,  Edalguus  jejuús  que  os  nom  recebera,  por  quç 
nõ  som  acompaiibados  de  obras  uirtuosas  ,  doutros  lhe 
Tiom  praz  receber  os  «acriftcios ,  p0r  seer€!>ni  êuoltos 
€m  grandes  pecados.  Alguns  que -e ai  seu  nome  curara 
os  enfermos   e  <leinA>nyokadjQS   a   q^e  (d^a  os  mm  co- 


128  O    LEAL    CONSSELHEÍRO. 

nhece ,  por  seerem  obradores  de  maldades  Ediz  maia 
queos  uerdadeiros  oradores,  iiom  hironi  buscar  ihrlm  , 
nem  outro  monfe,  mes  em  sprito  e  uerdade  orarom 
ao  padre.  Ca  el  laaes  quer  queo  adorem.  Eassy  ])or 
estas  razoôes  se  mostra  como  anosso  senlior  nom  praz 
que  ponhamos  em  estas  cousas  speciaaes  nossa  prin- 
cipal sperança  ,  mes  em  el  cô  leixamento  detodos  pe- 
cados mortaaes,  e  seguymento  geeral  detodas  uirtu- 
des.  Ca  per  obrigaçom  cm  todos  estados  ssomos  tlieu- 
dos  denos  guardar  ou  comprir  oque  geeralmerite  nos 
he  mandado  Per  myngua  da  sperança  errom  e  g-eeral, 
quando  da  saluaçom  das  almas  nada  se  nembrom  ,  ou 
ajnda  que  lebre,  per  myngua  de  flò ,  cousa  dello  nom 
cura ,  ou  por  se  auerem  por  tam  maaos  que  nom  spe- 
ram  que  nosso  senhor  os  possa,  nem  queira  saluar, 
ou  mudar  de  sua  fallicida  maneira  deuyuer  Efazem  es- 
to em  special  per  huíi  erro  deque  poucos  scapom  Ea- 
questo  quando  dalguíis  falliciraentos  nom  speram  auer 
corregymento ,  posto  que  em  todas  outras  cousas  se 
esforcem  abem,  e  uirtuosamente  uyuer,  ca  huu  dos 
arreuatamentos  da  sanha  per  que  trespassam  as  obras 
ou  pallauras  quaaes  nom  deuem  ,  outros  do  comer  e 
beuer  sobeio ,  das  afeiçooês  das  molheres,  dos  ódios, 
êuejas ,  malquerenças  Eassy  de  cadahuíi  dos  malles  se 
teem  por  tam  costrangidos  que  penssã  seerem  per  sua 
própria  natureza ,  tanto  per  obrigaçom  sogeitos  atai 
pecado,  que  por  todo  seu  poder,  nunca  dei  se  pode- 
ram  curar,  nem  emendar,  saluo  se  deos  myraculosa- 
mente  os  correger  perao  que  elles  mynguados  de  spe- 
rança,  ja  nom  querem  trabalhar,  por  que  assy  como 
uencidos  em  suas  uoontades  Em  sua  sogeiçom  se  que- 
rem leixar  jazer,  dizendo  que  nom  podem  em  todo 
seer  perfeitos.  Euencidos  per  afeiçom  e  fraqueza,  som 
contentes  da  maneira  desseu  uyuer,  teendo  que  nom 
som  dignos  de  perdurauel  pena ,  nem  da  presente  re- 
reprehenssom  ,  por  seerem  derribados  dalguiis  grandes 
pecados  j  se  dos  outros  sentem  que  som  em  boo  esta- 


f>    LEAL    CONSSELHEIRO.  129 

do,  com  algua  tal  maneira  deuyiier  qiio  uirtaosa  pa- 
reça, ou  digna  (lemericimeiílo  Nom  seedo  lembrados 
daf^uella  pallaura,  quem  em  huu  pecado  fallece  em 
lodos  lie  culpado. 

CapiluUo  XXXIX. 

Em  g  mostram  as  partes  per  que  se  da.  e  muda 

nossa  condiçom. 

A  e;a  tirar  fantesia  e  dunyda,  que  nom  podemos  uljr 
aboo  estado  detodas  uirtudes.  Eu  acho  que  per  todas 
estas  partes  nos  he  dada,  e  outorgada  condiçom,  o 
inujtas  uezes  mudada,  segundo  em  nos  e  per  outrem 
bem  poderemos  sentir,  e  conhecer.  Da  terra  compreis- 
som  ,  Do  leite,  e  uyandas  criaçom  Dos  parentes  na- 
çom  Das  doenças  e  acontecimêtos  ocasiom  Das  pra- 
iietas  costellaçom  Dos  senhores  e  amygos  conuerssa- 
çom  Denosso  senhor  deos  per  special  spiraçom  nos  he 
outorgada,  condiçom,  e  discreçom  Aquestas  cousas 
suso  scriptas,  que  mudam  nossa  discreçom,  e  condi- 
çom ,  screuy  em  simprez  rimanço  ,  por  se  melhor  po- 
derem reteer  das  quaaes  por  declaraçom  ,  ponho  en- 
xempros  Prymeiro  da  terra  comprejssom  Esto  ueemos 
graças  anosso  senhor,  como  em  geeral  os  mais  deto- 
dos  portugueses  som  leaaes  e  deboos  coraçooês,  Eos 
ígreses,  vallentes  homeês  darmas ,  degrade  eboo  regy- 
niento,  em  sas  igreias,  e  casas,  Eassy  quaaes  quer 
outras  naçooês  teem  geeralmente  alguãs  uirtudes,  e 
fallecymentos ,  nom  que  todollos  dorreyno ,  ou  senho- 
rio igualmente  as  ajam ,  mas  em  geeral  teem  dello 
grande  parte.  Das  mudanças  que  as  uyandas  e  leite 
fazem  em  nossas  còdiçooês  compreyssoôes ,  os  físicos 
seiam  preguntados,  e  aesperiencia  da  grã  testemunho 
A  geeral  maneira  de  uirtudes  e  nialles  que  ueemos  em 
alguàs  lynhageês,  nos  mostra  quanto  dos  padres,  e 
madres  íilhamos  em  nossas  condiçooês ,  entender,  e 
uirtudes.    Ca   bem   ueemos  os  mais  dalguns ,   boos  ho- 

R 


130  O    LEAL    COKTSSELHEIRt). 

lueês  darmas ,  outros  entendidos  Eassy  de  bem,  e  de 
contrairo,  leuom  cada  huíis  seu  camynho,  em  que  nos 
mostra  que   filhamos  delles   grande    parte   das   condi- 
çooês.    Quanto  aas   doenças  e  acontecimentos ,  fazem 
grande   mudança   em   nossa   condiçom  ,  e  discripçom  , 
se  mostra  muyto  claramente  per  uista  demuytos  sesu- 
dos,  que  se  tornam  sandeus  e  os  temperados  beuedos, 
e  sem  boa  gonernança.  e  os  ardidos  detVacos  coraçooês, 
e  os  manssos,  e  humyldosos,  soberuosos  Eaquesto  per 
doenças,  nojos,  tristezas,  e  mudança  destados  em  bem ^ 
e  no  contrairo  Que  as  pranetas  nos  outorguem  grande 
parte   das   condiçooês   preguntensse  os  estrollegos  Os 
quaaes   nom   sollamente  parte  destas,  mas  todas  que- 
rem  afirmar  q   nos   som  dadas,  oque  aesperiencia  das 
cousas   suso   dietas  nom  outorga,  e  menos  acathollica 
determynaçom   que   declaro   ho  homem  sabedor  se  as- 
senhorar das  est relias    Esse  fosse  coontrairo,  nõ  aue- 
riamos  liure   aluydro,  nem   ojuyzo   pareceria  dereito , 
que   mal   uehesse  aquém  as  cousas  fezesse  per  necessi- 
dade,   e  nom   seria   uerdade,    oque   se   diz  na  sancta 
scriptura,  por  que  fezeste  mal,  ouueste  tal  pena  Epor 
que  bem  gallardom  ,  ca  se  todo  fosse  costrangidamen- 
te  nem  por  nossos  feitos  aueriamos  gallardom  ,  ou  pe» 
na  5    mes   por   ordenança  das  pranetas  e  dos  mandados 
e  consselhos  da  noua ,  e  uelha  ley ,  sobeios  seriam.  Ca 
se  todo   per  tal  ordenança  fezessemos ,  e  nom  per  de- 
termynaçom  de   nosso    liure  aluydro ,  aque  seria  man- 
dar, e  consselhar  aquém  per  sy  mais  poder  nom  teues- 
se,  de   que   as   pranetas   nos  outorgassem  Eporem  he 
deteer  sem   duuyda   que   as   pranetas   nos  êduzem ,   e 
dam  jnclinaçom  abem,  e  amai,  como  fazem  as  outras 
partes   suso   scriptas,  mas  nom  em  tal  guysa  que  lhe 
nom  possamos  contradizer  com  agraça  denosso  senhor, 
ca  per   aquella   pallaura   de  sam  paulo,  onde  diz,  fiel 
be  deos,  que  nõ  conssentira  mais  seermos  tentados  do 
que  poderemos  contradizer,  se  mostra  claramente  co- 
mo das  pranetas  j  e  todas  outras  partes  podemos  seer 


o    LEAL    CONSSELHEIRO.  131 

enduzidos,  e  tentados,  mes  noni  costrangidos  Por  que 
pryncipalniente  íica  todo  em  i)oder  denosso  liure  alui- 
dro ,  noai   nos   costrãçendo  apredistvnaçom  ,  nem  per 
sciencia  do   nosso  senhor  deos.    Ca  por  seer  perfeita- 
mente sabedor,  sabe  todallas  cousas  presentes,  preté- 
ritas, e   futuras.    Eper  sua  perfeiçom  de  justiça,  nos 
leixa  fazer  nossos  feitos  detal  guysa  que  dereitamente 
per  desmerecymenlos,  os  maaos  recebem  pena,  per  el 
dada  com  piedade,  E  os  boos  gallardam  com  sua  mer- 
ece  per  alguã  pequena  parte  demericymento ,  ou  uir^ 
tuosa  desposiçom  que  neelles  se  mostra  Enaquesto  no 
deuemos   duuydar,    posto  que   perfeitamente  nom  en- 
tendamos como  todo  pode  seer  Epareceme  grande  sym- 
preza  filhar  duuyda  no  que  per  assancta  igreia  he  de- 
termynado   que  se  crea,  por  nom  se  poder  entender. 
Ca  denossa  natureza,  como   obra  tam  discretamente 
quem  oentende ,  e  opoder  da  memoria,  ueer,  ounyr, 
cheirar,  gostar,  e  raais  special  sentir  qual   perfeita- 
mente per  razom  o   poderá  demostrar,  pois   se  oque 
auemos  em  nos  nom  percalçamos  per  natural  juizo  co- 
mo as  cousas  denosso  senhor,  queremos  perfeitamen- 
te entender ,   e  julgar ,    porem    todo  esto  que  se  nom 
entenda  como  he ,  deuesse  per  obediência  da  íTe  auer 
por  entêdido  ,  creendo  tam  sem  duuyda,  como  se  per 
clara   razom   nos   fosse   demostrado   conhecendo   nossa 
fraqueza,    e   segundo  nosso  mericymento  da  humylda- 
de ,    e   obediência,    Essobre   esta   força  tias  pranetas , 
dizem  alguíis  que  pois  nauyos ,  cauallos  ,  armas,  aues, 
caaês   som   bê   ditosos   como  semelhante   nos  homeês 
nom    faram    as   pranetas,  aos  quaaes  eu  respondo  que 
ijora   contradigo   que   aquellas   cousas  nom  tenham  al- 
guà   tal  jnfruencia  em  nacença,  fazimento ,  ou  tempo 
em   que   se  ha  delias  senhoryo ,  que  magnyfestamc-nte 
senom  ueja  como  desto  ham  grande  parte  Mas  eu  te- 
nho que  por  os  homees  serem  mais  excellêtes  criaturas 
que  assua  costellaçom  em  nos  feictos  pryncypaaes  cor- 
lege  todas  outra  Esse  he  ho  homem  sabedor  se  asse- 

R  2 


132  O   LEAL   CONSSF.l  HEÍRO. 

nhorea    das    praneias    per   aforça   q   do   Jjtire   aluydro 
quanto    mais    farom    aqiielles    que    amarem    ossenhor 
deos,  dos  quaaes  he  scriplo  que  lodallas  cousas  selhes 
tornarom    em   bem  ,  Epor   esto   he   deteer   que   as  jn- 
fruencias  suas  neui  doutra  cousa,  nom  pode  toruar  al- 
guCi   dessaluar  sua  alma,  nem  lhe  fará  on:bargo  em  os 
outros   feitos   se   amar   nosso  senlior  e  ujuer  uirtuosa- 
mente,  pois  as  cousas  que  parecem  contrairás  lhe  som 
proueitosas.    Da   cõuerssaçom  do  senhor  e  amjgos  co- 
mo  se   muda   nossa   condiçom  ,  per  sper  encia  bem  se 
mostra,  nas  cortes  dos  senhores,  Reynos ,  e  moestei- 
ros,  como   grande  parte  dos  sobredictos,  seguem  seu 
senhor,  e   amygos ,  Ca   bem    uysto   he  graças  a  nosso 
senhor  ,    como    todollos   moradores   destes  reynos   em 
tempos   dos   Muy    uirtuosos  rex  meus  senhores  padre, 
e  madre,  cujas  ahnas  em  sa  gloria  deos  aja,  auàçarem 
em  grandes  coraçooês ,  boo  regymento  de  suas  uydas, 
e   outras   manhas   e   uirtudes,   mais   doque   ante  eroni 
Eas   molheres  de  sua  criaçom  quanta  lealdade  guarda- 
rem   todas  asseus  marydos  ,  donde  as  mais  dos  reynos 
íilharõ   tal   exempro   que   antre   lodallas  do  mudo ,  do 
que   enformaçom   auemos ,    ê   geeral  merecem  grande 
]ouuor.  Esse  huu  moesteiro  he  bem  regido  em  dereita 
deuaçora  ,  quantos   ael  ueem  decustumes  desuairados, 
todos  se  tornam,  pouco  mais  ou  menos  ahuã  maneira 
deujda  e  cusiumes  E  nom  he  marauylha  porq  três  cou- 
sas pryncipalmente  nos  enduzê  abem  uyuer  .s.  Temor, 
Sperança ,  Eamor.  Per  temor,  tememos  as  penas  pre- 
sentes  e   do  jnferno  ,  que  por  nossos  malles  receamos 
dauer,  Por   aesperâça,  speramos   dos   bees   que  fezer- 
mos  receber  galiardorn  na  uyda  presente,  e  na  sancta 
floria.    Per   oamor  denosso  senhor  deos ,  dos  boos  se- 
nhores, e  amygos  têporaaes  e  afeiçom  das  uirtudes  as 
sseguimos,  e   percalçamos  Porem    arrazõ  mostra  queo 
regedor  queo   mal  castigar  e  gallardoar  os  boos  e  uir- 
tuosos, louuãdo  as   uirtudes   per   pallaura ,  e   boo  en- 
xempro  da  sua  uyda  encamynhara  seus  subdictos  uir- 


o    LEAL   CONSSELIIETRO.  J33 

tuosamente  uyuer,  e  que  deue  fazer  em  elles  gram 
mudança  de  condiçoues  Aquy  he  de  conssijrar  que  se- 
nom  som  emendados  os  mayores  ,  e  mais  cliegados 
queos  outros  daquella  maneira  poucos  osserom  Ena 
cõuerssaçom  dos  amygos ,  oque  se  faz  em  mudança 
das  condiçooês,  mostrasse  per  aquel  exempro,  vay 
huu  uaaes ,  com  quaaes  te  achares  tal  te  farás  Esto 
porem  nom  he  daquel  que  for  assy  uirtuoso  que  os  ou- 
tros trasmuda  em  sua  semelhança,  por  alguã  conpanhia 
nom  se  mudado  Etal  he  comparado  ao  diamom ,  mes 
por  que  os  mais  som  pêra  mal  fazer,  assy  molles  co- 
mo cera  que  recebe  as  feguras  das  cousas  que  aella 
compremêdo  se  achegam,  grandes  mudanças  fazem  os 
semelhantes  por  as  cuuerssaçoões  como  per  speriencia 
/  bem    se   mostra.  A  mudança  que  nosso  senhor  faz  per 

sppcial  spiraçom  ossaluamento  do  ladro  que  com  el 
pendia  na  cruz  Gõuertimento  de  sam  paulo  que  pêra 
prêder,  e  atormentar  os  xpaàos  era  êuiado  Ede  sam 
matheu,  que  era  õzaneiro,  e  operdom  da  magdanella, 
claramête  odemostram  Eaqueste  exempro  de  poucos 
nom  he  pêra  sandiamente  nos  esforçar,  ne  tal  camy- 
nho  seguyr  Ca  donde  mu_ytos  se  perdem,  e  poucos  se 
saluom ,  todos  deueriam  seer  guardados ,  mes  ajnda 
que  cayamos  per  oexempro  dos  suso  dictos,  nunca  de- 
uemos  desesperar. 

Capiliillo    R, 

Do  auysamenlo  por  cts  partes  suso  scriptas, 

e  da  Jiança  e  confiança, 

JL/aquesto  sobressy ,  se  deue  tomar  auysamento  nom 
fallâdo  da  special  graça  que  perssy  soo  faz  mudar  to- 
das condiçooês,  e  discriçooes  que  cada  huâ  das  outras 
partes  per  sy  nom  he  tam  poderosa  que  amai  uyuer 
assy  nom  derrube,  que  das  outras  partes  nom  receba- 
mos tam  grande  parte  de  ajuda  per  aqual  cada  huu  se 
CO  uallente  teençora ,  e  graça  do  senhor  deos,  quyser 


134  Ó   LEA.L  CONSSELHEIRO. 

sy  bem  esforçar,  poderá  uencendo  pecados  princypaaes 
uyuer  sempre   uirtuosamente    Eporem   nom   deuemos 
cayr   em    tal  desperaçom  per  que  nos  ajamos  assy  por 
sogeitos  dalguu  principal  pecado,  que  delle  nom  spe- 
remos  com  amercee  do  senhor ,  nosso  saber ,   querer , 
e  poder,  que  nos  tem  outorgado  seer  liures,  âte  de- 
uemos sperar  em  sa  grande  mysericordia,  que  per  nos- 
sos trabalhos  e  boo  esforço,  uyuermos  sempre,  e  aca- 
baremos  em  seu  sancto  seruiço  Essobre  aesperança  eu 
uejo   errar  alguús  por  auerem   fiança  e  confiança  em 
quem  nom  deuem,  e  nom  afilharem  dequem  he  razora, 
faço  eu  deferença  destes  dous  nomes ,  que  muytos  fi- 
lham  por  huã  cousa.  Afiança  perteece  aauoontade,  e 
pêra  aconfiança  se   requere  mais  saber  e  poder,  assy 
que   nos  feictos  per  que  he  necessária  pryncipalmente 
boa  uoontade,  fiança  se  deue  auer,  mes  nos  que  de- 
mandam  grande  saí)er,  e  poder,  aboa  sperãça  que  se 
ha  em  tal  caso ,  confiança  he  seu  próprio  nome   Epo- 
rem côuem  reguardar  oque  se  ha  dencarregar  e  apers* 
soa   qual  he    Esse  forem   feitos  pêra   que  abaste  soo 
aboa  uoontade,   busquesse  boos  amygos   Esse  deman- 
darem fortelleza  decoraçom,  do  corpo,  ou  saber  natu- 
ral ,    e  sciencia  necessário   he  buscarensse  laaes  que 
perao  feito  sejam   perteencentes  aalem  dageeral  bon- 
dade e  amor  que  nos  tenhora    Edestes  com  agraça  do 
senhor,  se  deue  teer  boa  sperança  no  que  lhe  for  en- 
comendado ,  e   nos  outros   que  todo  esto  senom  guar- 
dar, fraca  e  dauentura   Esto   screuy    por   me  parecer 
proueitoso   auisamento   perteencente   aaesperança  que 
deuemos  auer  dos  feitos,  aoutrê  encomendados  Equan- 
to  perteece  anosso  senhor  deos,  aesperança  com  iyuza 
e  cõfiança  deue  seer  muyto   grande   per   aguisa  suso 
scripta    Conssijrando   como  deliuu  soo  pynhom  que  na 
terra  semeam ,    da  tã  grande  aruor  com  multidoõe  de 
pynhoões  Eque  assy  e   mais   compridamente  nos  res- 
pondera com   auondoso  fruito,  de  qual  quer  boa  obra 
que  por  sua  graça  fezermos ,  ou  proposermos  defazer 


o  LEAL  CONSSELHEIRO.  13ft 

senom  fycar  per  nossa  myngiia  ,  como  se  c^iz  delrrey 
dauid  ,  que  lhe  foy  contado  por  nosso  senhor  por  obra 
demerecymenLo  auer  propósito  defazer  osseu  templo, 
posto  queo  nom  podesse  fazer. 

Capitullo  RJ, 
Sobre  adeferença  dos  estados^ 

A  or  que  alg"uus  leterados  e  outras  pessoas  que  uy- 
uem  ê  religiom,  faliam  contra  os  estados  dos  senhores. 
homêes  de  linghagem ,  riqueza  poderio  temporal,  e 
semelhantes,  mostrando  que  sõ  de  grande  empeecy- 
meuto  como  cousas  nom  boas,  ou  em  que  aja  neces- 
sariamente pecado  Eos  fazem  auer  pequena  sperança 
de  sua  saluaçom  ,  louuando  sua  maneira  deuyuer  por 
mujto  segura  Eos  jejuus,  vigillias ,  rezar,  por  obras 
certamente  boas  ,  vos  faço  esta  declaraçom  ,  do  que 
sobrello  me  parece,  tirada  pryncipalmente  aforça  dei- 
la  do  liuro  das  collaçooês  Em  el  se  contem  que  todas 
nossas  obras  em  três  deferenças  se  partem  .s.  boas, 
maas,  e  meaãs,  boas  diz  que  som  uirtudes  sollamente 
das  quaaes  perasse  poderem  conhecer,  screue  taaes 
pallauras  ,  bem  pryncipal  he  aquei  que  perssy  he  boo, 
e  nora  per  outra  cousa,  perssy  necessário,  nom  por 
ai,  sempre  he  boo  que  nunca  se  muda,  e  tem  sua  ca- 
lidade  perdurauel,  assy  que  nom  passa  em  parte  con- 
trairá, operdymento ,  ou  cessamento  dei  nom  pode 
quytar  grande  perda  Eoque  for  ael  contrairo  ,  he  assy 
mal  principal  que  nom  uem  ja  mais  em  alguu  têpo 
aboa  parte.  Mal  afirma  que  he  cair  em  pecados  por 
que  nos  parte  daquella  perfeita  bondade  que  he  deos , 
e  nos  chega  ao  diabo  em  que  ha  comprymento  detoda 
maldade.  Medeaneiras  som  aquellas  cousas  que  se  po- 
dem ajuntar  ahuã ,  e  aaoutra  parte  segundo  deseio ,  e 
aluydro  daquel  que  husa  delias,  assy  como  som  pode- 
rios, riquezas,  honrras,  força,  em  corpo,  saúde,  fre- 
mosura,  uyda,  morte,  proueza,  infermydade   do  cor- 


J3fl  o    LEAL    CONSSELHEIIIO. 

po ,  as  enjiirias .  jejiuis,  uigilias,  rezar  Eassy  todas, 
outras  cousas  semelhantes  que  segundo  acalidade,  e 
deseio  de  aquel  que  hnsa  delias,  pedem  trazer  aboa 
parte,  ou  contrairá,  per  que  as  riquezas  mu}/tas  ue- 
gadas  aproueitam  em  bê  segundo  oapostoUo  que  enco- 
menda aos  ricos  deste  mundo,  que  deê  de  grado  aos 
myriguados,  que  façom  thesouro  deboo  fundamento, 
perao  que  ha  deuijr  por  que  recebam  por  as  riquezas 
nyda  perdurauel  Essegundo  oauangelho,  boos  sô  aquel- 
les  que  fazem  assy  amygos  dos  aueres,  demais  os  quaaes 
diz  aescriptura  que  som  sagraaes  .s.  mundanaaes.  Eper 
contrairo  essas  meesmas  riquezas  acrecentã  mal  quan- 
doas  ajuntam  tam  soomente  peraas  guardar,  e  pêra 
norn  uyuer  bem  com  ellas  ;  nem  as  despender  em  ne- 
cessidades dos  mynguados;  Opoderio ,  honrra,  força 
do  corpo,  e  saúde  que  som  medeaneiras,  e  cõuenhâ 
abem,  e  amai,  esto  ligeiro  he  deprouar  Ca  muytos 
dos  sanctos  em  ouelho  e  nouo  testamento,  husarom 
detodas  estas  cousas.  Ca  ouuerom  grandes  dignydades, 
muytas  riquezas,  forças  em  os  corpos,  E  com  todo 
esto  forom  muyto  achegados  adeos  Eper  contrairo  os 
maaos  husarom  mal  destas  cousas ,  e  as  tornarom  as- 
seruiço  demaldade,  e  com  dereito  forom  atormenta- 
dos, e  mortos  E  que  esto  assy  fosse  comprydo  dizeo 
o  liuro  dos  Rex  em  muytos  logares ,  e  outras  estorias 
decerla  autoridade,  esto  afirmarom,  que  auyda,  e  mor- 
te seiam  cousas  medeaneiras  prouano  as  nacenças  de 
sam  joham  bautista,  e  dejudas  Huã  delias  foy  tam  pro- 
ueitosa  assy  meesmo  que  acrecentou  prazer  amuytos 
quando  naceo ,  segundo  aquello  que  he  scripto  dei , 
muytos  se  alegrarom  em  seu  nacymento,  e  da  uyda 
do  outro ,  bem  fora  pêra  el ,  he  nom  fora  nado  aquel 
homem.  Da  morte  de  sam  joham  ,  e  dos  outros  san- 
ctos leemos  Preciosa  he  amorte  dos  sanctos,  ante  deos 
Eda  morte  dejudas,  e  doutros  semelhantes,  amorte 
dos  pecadores,  muyto  maa  he.  Que  ajnfirmidade  cor- 
poral   seja  medeaneira  deuiostrao  abem  auenturança 


o    LEAL    CONSSELIIEIRO.  137 

tlelazaro ,  que  era  cheo  dehuçara.  Ca  clesto  nom  nos 
mostra  aescriptura  outra  uirtude,  mas  por  que  sofreo 
em  paciência  ajnfirmydade  corporal,  mereceo  de  seer 
recebido  em  no  seo  de  abraao.  Que  aproueza  e  perss\- 
guyssooes,  e  as  jnjiirias  que  segundo  aopenyom  do 
pouoo  sõ  maas,  que  sejam  proueitosas,  e  necessárias, 
bem  se  pode  prouar  por  os  sanctos  baraoòes,  e  nom 
tam  soomente,  nom  as  csqiiiuarom,  mas  cobijçaronas, 
e  sofrerõnas  por  muy  alta  uirtude  Efezeronsse  amygos 
dedeos  ,  e  alcancarom  por  elJas  gallardooês  dauyda 
perdurauel  Eassy  oconta  oapostollo  Eu  me  alegro  em 
mjnhas  jntirmydades ,  e  em  os  doestos,  e  nas  myn- 
guas ,  e  nas  perssyguyçooes ,  e  nas  angustias  por  jhú 
xpõ  Ca  em  na  jnfirmydade  se  mostra  oíorte  Eauirtude 
em  ajnfirmydade  sse  mostra  Porem  aquelles  que  se 
exalçarem  ])or  grandes  riquezas  do  miido ,  honrras,  e 
poderes ,  nom  cream  que  percalçarom  grande  bem  ,  o- 
qual  çegundo  uerdade  e  em  as  soos  uirtudes  mais  huii 
médio  ,  por  que  assy  como  aaquelles  que  dereitamente 
husam  delias  como  deuem  som  proueitosas,  geerando 
dessy  occasiô  deboas  obras  e  fruyto  deuyda  perdura- 
uel,  bem  assy  os  que  delias  husam  mal,  sonlhes  em- 
peecivees,  e  sem  proueito,  e  dãlhes  occasiom  depeca- 
do ,  e  demorte.  Eajudíído  aquesta  teençom  no  dicto 
liuro  se  declara  que  aos  mõjes  cõuem  fazer  três  renu- 
ciaçoôps  Prymeira  das  propriedades  dauyda  presente 
Segunda  de  todollos  pecados  Terceira  de  íilhar  cuyda- 
do  do  obras  fora  de  necessidade  que  aos  feitos  deste 
mundo  perteeça  A  prymeira  diz  que  nom  he  boa  nem 
maa  mas  meaam  por  que  alguiis  per  ella  percalçom 
uyda  perdurauel,  e  outros  ocontrairo  Da  segunda  que 
he  necessária,  e  dalerceira  que  nace  das  outras  duas 
Em  outra  collaçom  tam  bem  se  afyrma  que  per  au}da 
dos  frades  e  dos  jrmytaaes  nõ  som  lodos  perteecentes 
Eque  porem  cõ  muy  grande  examynaçom  os  recebiam 
por  que  aos  que  abem  guardam  ,  faz  uíjr  abem  auen- 
íurança  Eaoutros  he  aazo  degrandes  perigoos  Eper  es- 

S 


l:}8  o    LEAL  CONSSELIIEIRO. 

tas  razooês  claramente  se  demostra  que  todoUos  esta- 
dos que  aigreia  nom  reproua  som  meãaos  Emosquaaes 
quem  bem  uyuer,  se  pode  com  agraça  denosso  senlior 
saluar,  ou  per  contrairo ,  uíjr  acondanaçõ  Porem  nom 
he  alguu  deteer  em  desprezo,  nem  os  outros  por  de- 
todo  seguros  Ede  taaes  cousas  peraa  uyda  presente 
Eque  speramos,  huãs  se  jnclynã  mais  aaparte  dobem 
Eo  ao  contrairo  como  som  riquezas,  stados ,  e  pode- 
rio, que  parecem  mais  cõuijr  aaparte  dabê  auenturan- 
ça  deste  mundo  Porê  mujtos  ueherom  per  cadahuã  des- 
tas partes  agrando  deshonrra,  morte,  aleyjamento,  e 
perlongadas  prysoões  ,  no  que  assaz  de  mal  passarem 
em  esta  uyda  com  pouco  mericimento  da  outra  Eassy 
he  dos  casamentos,  íilhos ,  e  todas  semelhãtes  cousas 
que  uystos  seus  enxempros  bõ  mostram  como  som  da- 
quel  meaão  estado  Equando  se  cobrarem  ,  ou  perde- 
rem na  quella  conta  sedeuem  teer ,  conhecendo  que 
som  mais  jnclinados  aaparte  do  bem  ,  ou  do  mal ,  se- 
gundo as  sêtyrmos  per  oque  ueemos  ou  speramos  P^nom 
que  detodo  som  proueilosas  ou  empeecyuees,  por  que 
muytas  dam  per  tempo  grande  bem  auenturanca.  Ede 
pois  todo  ocontrairo  no  que  demostra  claramente  co- 
mo som  meaãs ,  pois  abem,  e  mal  ligeiramente  se  tor- 
na pêra  esta  uyda  Eassy  j)eraa  outra  como  peraas  de- 
claraçoões  suso  scriptas,  he  bê  declarado,  porem  he 
deteer  sem  duiiyda  que  husar  das  uirtudes,  he  uerda- 
deiramente  bem,  e  boo  stado,  pois  nunca  delias  alguu 
pode  mal  husar,  e  cayr  em  pecado,  e  acabado  mal. 
Etodas  outras  cousas  que  façamos,  O  stado  que  te- 
nhamos cousas  som  meaãs  que  nos  trazem  abem ,  e 
contrairo,  segundo  praz  anosso  senhor,  deas  aderen- 
çar,  manteer,  e  acabar.  E  creer  deuemos  que  todos 
possuymos  razoados  estados  pêra  bem  uyuermos  na 
presente  uyda  e  pêra  cobrar  aoutra  com  agraça  denos- 
so  senhor  se  per  nossa  myngua  ou  desauentura  q  de 
pecados  e  fallicy mentos  as  mais  uezes  se  recrece,  nom 
ibrraos  toruados  Econtynuando  cadahuu  em  oque  pos- 


o    LKAh    CONSSELHEIRO.  13S 

áuyr,  deue  trabalhar  quanto  el  for  pêra  uyuer  ledo,  o 
uirtuosaiiiente  Eus  outros  que  razoados  som  nom  plas- 
me, nem  sobeio  louue  pois  meaãs  som  ,  e  nom  delodo 
boob ,  ou  maaos  nem  assy  alguus  perijgosos  que  todos 
em   elles   se   percam,  nem   os  outros  tam  seguros  que 
muytos  e  elles  leixem  dyr  acondanaçom.  Esse  alguém 
por   ydade  ,    ou  requerymento  de  seu  juyzo,  ou  uoon- 
lade  mudar  seu  estado  com  sperança  demylhor  uyuer, 
nõ    tenha  que  filha  uyda  segura,  mas  tã  duuydosa  co- 
mo ante ,  por  que  em  todas  maneiras  deuyuer  ha  suas 
Iblgãças   e   penas,    tentaçooês,    e    boo   assessego.    As 
quaaes  como  cadahuu  se  auera ,  lõga  sua  experiência, 
e   nom   ai   odemostra,    por  que  nom  teem  todos  cora- 
çooes  em  semelhantes  cousas,  huii  sentymento  no  bem, 
e  nó  contrairo  Porem  conhecydo  pellos  padres  antigos, 
nom   engalíiauam   alguu  pêra  seer  frade ,  ou  jrmytam  , 
mas  com  grandes  protestaçooes  os  recebiam  e  confor- 
lauam  todos  em  seus  boos  estados  Eo£  encamynhauam 
per  muytas  maneiras  como  em  elles  se  leuassê  com  a- 
graoa  do   senhor,  camynho  de  saluaçom,  segundo  sô 
mostra  per  aquestas  pallauras  ê  el  còtheudas. 

Capitullo  RU. 
De  muytos  e  desuairados  fruytos  da  pcedeça, 

JLlepois  de  aqiiella  graça  geeral  do  bautismo ,  e  de» 
pois  do  bê  perfeito,  e  preçado  do  martirio  que  se  gaa- 
nha  per  louuamêto  do  sangue,  som  os  fruitos  da  peen- 
dença ,  por  os  quaaes  uem  alympeza  dos  pecados.  Ca 
assaude  perdurauel  nom  he  permetida  tanssoomente 
por  aquel  nome  symprez  de  peendença  da  qual  falia 
oapostollo  ,  dizendo  assy,  fazede  pendeça ,  e  cõuerte- 
deuos  por  que  sejom  detroidos  uossos  pecados,  Essam 
joham  bautista  messegeiro  denosso  senhor,  diz,  faze- 
de pedença ,  e  achegarssea  orreyno  de  deos  Mais  aju- 
da  quebrantasse  opeso  dos  pecados  nor  deseio  dacari- 

S   2 


140  O    LEAL   CONSSELHEIRO. 

ílade  Ca  acaridade  encobre  amultydoõe  dos  pecados. 
Outrossy  tam  bem  por  as  esiiiollas,  recebem  meezy- 
nha  as  nossas  chagas  Caassy  como  aaugua  apaga  ofe- 
go,  assy  aesmolla  afoga  opecado.  Epor  achuyua  das 
lagrimas  percalça  ohomem  rcllcuamento  dos  pecados, 
segando  aqiiello,  lauarey  em  cadahuã  das  no}  les  o 
meu  ]ey(o,  e  regarey  o  meu  estrado  com  as  mynhas 
lagrimas  Edyz  mais  demostrando  qne  as  nom  tomou 
em  uaão.  Arredadeuos  de  m}  m  os  que  obrades  malda- 
des, ca  ossenhor  ouuyo  auoz  domou  choro.  Outrossy 
por  aconfissom  dos  pecados  gaaidiasse  perdem  delles, 
ca  diz  confessarey  conlramym  as  nivnhas  n;aldades  ao 
senhor,  e  tu  perdoaste  amahlade  demeu  coraçom  ,  e 
em  outro  logar.  Conta  tu  primeiramente  as  tuas  mal* 
dades,  por  q  sejas  justificado.  Outrossy  por  alguíí  no- 
jo do  coraçom  ,  e  tormento  do  corpo ,  gaanhasse  per- 
dem dos  pecados  Ca  diz  assy,  uee  amynha  humilda- 
de e  omeu  trabalho,  e  perdoa  todollos  meus  pecados 
Emayormente  em  emenda  de  custumes  Ca  diz  arre- 
dade  ho  mal  das  nossas  cuydaçooês  demeus  olhos,  ces- 
sado ja  deíazerdes  mal,  aprendede  afazerdes  bem,  bus- 
cade  juyzo,  acorrede  ao  apressado,  julgado  o  orfom  , 
defendede  auehuLia,  e  prouademe  Diz  ossenhor,  se  fo- 
rem os  uossos  pecados  assy  como  earuom  ,  embran- 
quecerem assy  como  neue,  e  se  forem  uermelhos  assy 
como  sanguynha ,  serom  assy  como  laã  branca  Eajnda 
aas  uezes  se  gaanha  perdom  dos  pecados  per  rogo  dos 
sanctos,  onde  diz  sam  joham  apostollo.  Quem  sabe 
que  seu  jrmaão  pecou  pecado,  demandade  por  el  mer- 
ece, e  dar  lhe  ha  deos  uyda  FJo  apostollo  sãctiago 
diz,  Se  alguil  de  uos  enfermar  chame  os  clérigos  da 
igreja  e  rogue  sobrei  huntandoo  com  ollyo  sancto  eia 
noiíie  do  senhor,  e  aoraçom  com  fe  saluara  oenfermo, 
e  salualloa  ossenhor  Esse  esta  em  pecados  seerlheam 
perdoados  Muytas  uezes  se  conssiime  amagoa  dos  pe- 
cados, por  mericimentos  de  mysericordia ,  e  de  fie, 
geguciílo  aquello  por  mysericordia^  e  por  fíe  se  preegora 


o    LEAL   CONSSELHEIRO.  141 

OS  pecados.  OiiLrossy  muytas  uezes  por  cõuerssaçom 
de  aquclles  que  se  saluom  por  os  nossos  aiiioeslamen- 
tos,  ou  por  preegaçom  Cao  q  fez  que  opecador  se 
couorla  do  error  dessua  carreira,  saluara  sua  alma  de 
morle,  e  encobrira  enssy  multydooe  de  pecados.  Ca 
onosso  senhor  diz  assy  se  uos  perdoardes  aos  homeês 
seus  pecados  ouosso  padre  celiistial  perdoara  auos  os 
uosÃos  Pois  ja  ueedes  (pianLas  portas  de  mysericordia 
abrio  apiedado  do  nosso  saluador,  por  que  nenhuú  ^ 
cobijça  saúde  possa  seer  quebrantado  em  desaspera- 
çom ,  quando  uir  q  he  couydado  aauyda  por  tantos 
remédios.  Se  dizees  que  nom  podees  defazer ,  ou  der- 
releer  os  uossos  pecados  per  afeiçom  de  jejuíis  por  a- 
fraípieza  do  corpo,  noin  podedes  dizer  os  meus  geolhos 
enfíaípjneceni  por  jejniis  e  amjnha  carne  he  mudada 
per  oazeite,  ca  eu  coniya  cijnza  assy  como  pam  e  o- 
nieu  beuer  era  mesturado  com  choro,  mais  cõpre  que 
os  aja  derremijr  com  esmollas  Esse  nom.  tees  que  par- 
tas com  opobre,  como  quer  que  amyngua  da  necessy- 
dade ,  e  da  proueza  nom  scuse  nenhuú  desta  obra, 
quando  dos  dinheiros  tam  soomente  damoeda  meuda 
que  pos  au^huua,  forom  mais  prezados,  que  os  gran- 
-des  dooês  dos  ricos  Equaudo  por  hufi  naso  daugua  fria 
promete,  ossenhor  «J^allardom  por  certo  parece  que  te 
poderás  purgar  por  emeda  de  teus  custumcs,  e  se  nom 
podes  uijr  a|)erfeiçom  deuirtudes,  por  que  nom  podes 
percalçar  comprida  purgaçom  detodollos  pecados,  toma 
em  ty  piadoso  cuydado  dapurgaçom  dos  pecados  alheos 
Se  peruentuyra  te  querellas  que  nom  tees  maneira  de- 
leixar  aquello  que  as  mester  poderás  encobrir  os  pe- 
cados com  deseio  decaridade.  Ainda  sele  tornar  fraco 
pêra  esto  algua  pryguy<^a  ,  ou  maldade  deuontade  ji> 
clynate  com  alguu  deseio  dehumyidade  Esse  nom  j)o- 
des  ai ,  busca  remédios  de  oraçom  e  derrogos  de  san- 
ctos  peraas  tuas  chagas.  Efinalmente  quem  he  aquel 
que  nom  pode  dizer  fiz  aty  conhecer  omeu  pecado  e 
nom  ascondy  aniynha  maldade ,  por  que  por  esta  con- 


142  o    LEAL    CO^'SSELHEiKO. 

fissom  mereçamos  ajuntar  oal  que  se  segue  cÒ  boa  feu- 
za  .s.  que  tu  abrandaste  as  maldades  do  meu  coraçom 
Ajnda  sete  uenha  uergonha  e  nom  te  atreues  adesco- 
brvUas  ate  os  hoineês  ,  nom  leixes  deas  cõfessar  cada 
dia  com  humyldade  aaquel  quesse  nom  pode  asconder^ 
e  dizeliie  assy  ,  Eu  conheço  amynha  maldade  e  omeu 
pecado  sempre  he  contra  mym  ,  aty  soo  pequei,  e  fiz 
mal  dante  ty  Ca  esto  acustuma  saamête  sem  publyca- 
çom  deuergonha,  e  perdoa  os  pecados  sem  profaço, 
anda  em  pos  este  defendimento  muyto  prestes,  emuy- 
to  certo ,  e  deos  te  dará  sua  graça  per  que  seias  em 
boo  estado  deuerdadeira  conlissom  ,  contriçom  ,  e  sa- 
tisfaçom,  deu  nos  ajnda  outro  modo  mais  ligeiro  abon- 
dade  de  deos,  e  esta  ajuda  derremedios ,  e  posea  em 
nosso  aluydro  que  recebamos  operdom  dos  nossos  pe- 
cados,  segundo  onosso  deseio  dizendo  ael  perdoa  anos 
as  nossas  dyuydas,  assy  como  nos  perdoamos  aos  nos- 
sos deuedores  Epor  ouuyr  alguíls  fallar  per  desuairada 
maneira  uos  screuy  todo  esto  outorizado  pricipalmente 
per  aquel  liuro  suso  scripto  aque  dereitamente  deue 
seer  dada  sobresto  grade  fie  ,  por  tal  que  uyuamos 
sempre  com  agraça  do  senhor  deos  em  boa  sperança, 
nõ  poendo  achaque  de  nossas  mynguas  ao  estado  que 
possuymos  ,  pois  todos  sõ  taaes  que  nom  dam  torua 
aquém  bem  quer,  e  sabe  uirtuosamente  uyuer.  Esse- 
gundo  aquel  dicto  de  sam  bernaldo  segura  aesperança 
deuemos  auer  em  nosso  senhor  quando  conssijrarmos 
que  ofilho  mostra  ollado ,  e  chagas,  asseu  padre,  e 
amadre  os  peitos  e  regaço  ao  filho  por  auer  piedade 
dos  pecadores  reguardando  quanto  padece  por  nos 
gaançar  perdõ  nom  pidindo  quanto  mais  pronto  será 
pêra  nos  perdoar  selho  bem  requerermos  ,  lembrando- 
iios  que  nom  he  naçom  q  aja  deos  assy  chagado  ,  co- 
mo au«mos  nosso  senhor  cada  huú  dia  em  ossancto 
sagramento.  Outra  conssijraçom  muyto  deue  acrecen- 
tar  aboa  sperança  daquelies  que  teuerem  deseio  de 
seruyr  deos^  guardandosse  de  malles,  e  pecados,  cada 


o    LEAL    CONSSELIIEIRO.  14:^ 

liuu  ueja  qual  êtende  que  teem  aquelles  que  seruS 
boos  senhores  temporaaes,  ricos,  de  grande  poder,  e 
uirtuosos.  Eporeni  bem  se  pode  conhecer  ,  quanto 
mais  naquelle  adeuem  auer  que  he  perfeita  bondade, 
todo  poderoso,  comprido  de  sabedoria,  cõ  jnfijda  niy- 
sericordia  Etaaes  conssijraçooes,  grande,  boa  sperança 
deuera  acrecentar  naquelles  que  ouuerem  fyrme  fíe 
com   razoada  caridade. 


Cap:  RITJ. 
Da  caridade. 


A. 


.cerca  da  caridade  he  deconssijrar  que  como  ella 
seia  amar  nosso  senhor  deos  sobre  todallas  cousas,  e 
nossos  prouxemos  por  el  como  nos  Edo  seu  amor  el 
disse,  que  aquel  oamaua,  que  guardaua  seus  manda- 
mêtos  ,  e  osseguia,  deuesse  reguardar  deque  guisa  os 
guardamos,  os  quaaes  sõ  estes.  Oprymeiro  da  noua 
Jey  Amaras  Honrraras,  Temeras,  Lonuaras  deos  sobre 
todallas  cousas :  Segundo,  amaras  teu  prouxymo,  assy 
como  tu  medes.  Eo  primeiro  da  Le\  antijga  JXom  a- 
doraras  deuses  alheos,  no  qual  se  entende  toda  specia 
de  ydoilatria.  Segundo,  nom  tomaras,  onome  dedeos 
era  uaaõ  em  tua  boca.  Terceiro  sanclificaras  ossabba- 
do ,  per  oqual  se  entende  aguardar  dos  dias  mandados 
per  aigreia,  e  que  se  despendam  em  sanctas  obras 
Quarto  borraras  teu  padre,  e  tua  madre,  e  per  este 
se  êtende  das  perssoas  que  per  temporal  e  spiritual 
dyuydo  deuemos  honrrar,  e  obedecer.  Quynto  ,  nom 
mataras,  aquy  he  de  conssijrar,  do  feicto,  dicto  ,  uoõ- 
tade ,  aazo  ,  e  conssentymento.  Sexto,  nom  farás  adul- 
tério, e  na  queste  he  de  conssijrar  na  maneira  suso 
scripta  acerca  das  mõjas,  e  casadas.  Septymo  ,  nom 
furtaras,  no  qual  precepto  se  entende  todo  retijmento 
dalguâ  cousa  que  perteença  aoutrem,  que  no  seia  bera 
possuyda  per  aquel  quca  tem  ,  e  toda  perda  ,  e  dano 
aalguem  feicto.  por  aqual  seia  necessário  reslytuyçoni 


J44  o   LEAL   CONSSELHEJRO. 

Oj-tauo  ,  nom  dirás  contra  teu  pruxyino  falsso  teste- 
munho,  per  oqual  se  defende  todas  mentiras,  special- 
mête  as  que  anos,  ou  aoutrem  podem  êpeecer  em  pes- 
soa,  fama,  beês,  ou  quebramento  de  boo  prazer,  ou 
uoontade,  Noueno ,  nom  deseiaras  amolher  deteu  pru- 
xyrao  por  se  auer  nom  justamente ,  ca  deseiar  alguâ 
cousa  per  justo  titoUo ,  e  amaneira  razoada  nom  he 
pecado  nem  erro.  Epor  quanto  el  nos  declara  as  cou- 
sas que  saaê  do  coraçom  fazerênos  lympos,  ou  cujos. 
Conssijrar  deuemos  como  nas  doze  payxoões  ja  scriptas 
que  lhe  perteecem  nos  gouernamos  as  quaaes  som  es- 
tas: Amor,  Deseio,  Edeleytaçom  que  perteenceni  ao 
bem  na  parte  deseiador  Eao  seu  mal,  ódio,  auorrecy- 
mento ,  tristeza  Eao  bem  da  parte  que  se  chama  jra- 
cyuel  ,  ou  defenssor  perteecem  ,  JVJanssidoõe ,  speran- 
ça ,  atriuymento,  Eao  seu  mal,  sanha,  desperaçom , 
medo,  ou  temor,  em  cada  huâ  destas  payxoões  deue- 
mos conssijrar  como  nos  gouernamos  Epor  que  grande 
parte  do  boo  estado  do  coraçom  ,  esta  em  guarda  dos 
sentydos  .s.  ueer,  ouuyr,  cheirar,  tanger,  e  gostar, 
he  bem  deconssijrarmos  como  nosso  senhor  com  elles 
seruymos ,  ou  se  fazemos  ocontrairo  do  que  per  nosso 
grande  bem  e  proueito  nos  he  mandado  Eesso  medes 
per  falar  cuydados ,  e  deseios  Etodo  esto  bem  conssij- 
rado  com  as  obras  que  fazemos  segundo  aquel  estado 
que  deos  nos  deo,  e  como  per  ellas  seguymos  as  gran- 
des uirtudes ,  que  per  sa  uyda  nos  tem  demostradas, 
poderemos  bem  sentir  como  auemos  aprymeira  parte 
da  caridade  Epor  oamor  do  prouxymo,  eonssijremos 
que  as  obras  som  demostraçom  da  bêquerença ,  porem 
reguardemos  como  comprymos  em  toHas  as  sele  obras 
spirituaaes  que  perteecem  aalma  .s.  dar  saaõ  coiisse- 
Iho  ,  enssynar  bem  e  uirtuosamente  oque  non)  sabe,  e 
encamjnhar  oque  uay,  ou  anda  desencamjnhado ,  cons- 
sollar  odesconssollado  peruista,  ]>allaura,  e  obra,  doersse 
do  mal,  e  perda  do  seu  prouxymo  proueendolhe  ê  to- 
do tempo  oque  bem  poder,  rogar  adeos  pollos  camy- 


o    LEAL   CONSSELKrEIIlO.  J45 

nliantos ,  e  andantes  sobre  ornar,  fazer  oracom  pollos 
fynados  eni  geeral ,  e  especialmente  por  aquelles  aque 
somos  obrygados  Eas  vii  corporaaes  que  perteecen  ao 
corpo  .s.  uestyr  aos  queo  liam  mester,  dar  decomer 
aos  famijntos,  e  debeuer  aos  sedorêtos ,  visitar  os  en- 
fermos, visitar  os  encarcerados,  dar  pousada  aos  ca- 
niynheiros,  enterrar  os  finados,  Esse  todo  esto  for  cons- 
sijVado,  e  com  elle  nossas  obras,  falias,  e  penssaraen- 
los  bem  examynados  com  amerceedenosso  senhor  deos, 
poderemos  sentyr  como  auemos  esta  perfeita  uirtude 
que  sobre  todas  per  el  he  mais  louuada,  onde  diz  que 
delia  pendem  lex ,  e  profetas  Eo  apostollo  que  outras 
passarem,  e  aquesta  pêra  sempre  ficara,  e  como  suso 
dicto  he ,  ajudados  com  fyrmeza  da  ffe  ,  e  grande  boa 
sperânça  nos  trabalhemos  dea  percalçar,  com  sua  gra- 
ça, omais  perfeitamente  que  fazer  podermos  Essobres- 
to  he  dessaber  que  os  possuydores  desta  uirtude,  sem- 
pre trazem  em  seus  coraçooes  huii  procurador  da  parte 
denosso  senhor  deos,  e  dos  prouximos,  assy  que  as 
cousas  per  el  ordenadas  nos  faça  filhar  por  melhor  fei- 
ctos  que  pessar  se  podem ,  e  nom  soliamente  ossynta- 
mos ,  mes  que  seus  feitos  atodos  scusemos  e  defenda- 
mos per  dicto,  e  feicto.  Etam  bem  anossos  prouximos, 
como  razom  for,  Eporem  se  quisermos  tal  uirtude  se- 
guyr,  este  procurador  ajamos  guardandonos  deprasmar 
per  dicto,  ou  penssamento  os  feictos  do  senhor  deos 
Ecada  huu  home  quãto  uyrmos  queo  bem  fazer  deue- 
mos  Tenho  conhecido  que  nom  podem  possuyr  esta 
uirtude  estas  pessoas  .s,  os  seguydores  desseus  praze- 
res,  e  uoõtades,  Os  cobijçosos  desordenadamète  das 
cousas  do  seu  proueito,  e  auíitagem  ,  e  os  soberuosos, 
e  desprezadores.  Ca  se  leerdes  huâ  collaçom  que  falia 
damyzade  Eo  liuro  que  tuUio  delia  fez,  e  pistollas  des- 
seneca ,  o  trautado  de  j.°  de  lynhano,  e  certos  capitól- 
ios da  pratica  que  guardauamos  ao  muy  uirtuoso  Rey 
nosso  senhor  e  padre  cuja  alma  deos  aja,  que  adiante 
serora   scriptos   verees  be  que  taaes  perssoas  íiom  po- 

T 


14G  O    LEAL    CONSSELHEIRO. 

dem  alguém  dereilamente  per  uirlude  amar,  nê  guar- 
dar caridade  Tanto  prouue  anosso  senhor  que  sempre 
nos  amassemos  que  per  esle  signal  sollamente  quia 
seerem  conhecydos  seus  seruydores  ,  dyzendo  em  esto 
uos  corihecerom  que  sooes  meus  dicipullos,  se  huus 
aos  outros  uos  amardes  Eacerca  desto  he  dessaber  que 
som  quatro  maneiras  dhomeês,  huus  que  chamam  pra- 
zenteeiros  que  atodos  querem  comprazer,  eanyn^guera 
fazer  cousa  que  lhe  pese.  Outros  tam  agros  que  com 
alguã  pessoa  se  nom  acordam.  EaJguus  que  cadahuâ 
destas  partes  mais  som  acostados ,  porrde  nom  fará  de 
razom  Epois  muy  uirtuosos  que  deseiom  comprazer 
atodos  quando  dereitamente  poderem ,  e  jior  alguns 
penssar  nom  leixam  defazer  ,  e  dizer  oque  he  bem 
Com  estes  homeês  nos  deuemos  auer,  como  aquel  ^ 
aos  cauallos  bem  sabe  trazer  amaao  que  conssijraido 
seu  geito  lha  traz  branda,  ou  mais  (eente  alta  pelio 
collo  arriba,  ou  mais  baixo,  e  çarrada  Equando  ueQ 
que  per  cadahuã  destas  guysas  com  mudança  defreo, 
e  boo  custume  onõ  pode  bem  enfrear  parteo  dessy  , 
ca  taaes  bestas  hy  ha  que  ja  mais  nom  seram  bem  a- 
derençadas  Eassy  quando  começarmos  com  algua  pers- 
soa  decõuerssar  trabalhandonos  com  agraça  do  senhor 
de  conhecer  sua  maneira,  e  lha  guardar  em  toda  cou- 
sa que  razoada  seja,  senom  forê  daquelles  que  som 
desacordatyuos ,.  com  todos  deuemos  auer  Icnçom  de- 
nos  sempre  acordar,  nom  em  conta  despeciaaes  amy- 
gos ,  ca  poucos  pêra  esto  podem  seer  achados ,  mas 
como  uyrmos  que  còuem  cõssijrando  seu  estado  ,  sa- 
ber, boo  geito  e  afeiçom  que  com  elles  deuemos  auer, 
mas  do  áspero,  agro,  de  pouco  saber,  e  mal  acustu- 
mado,  mais  seguro  he  partir  dessa  conuerssaçom  Eco- 
mo  das  bestas  que  bem  enfreadas  nom  podemos  nos 
guardar  que  nom  pensso  que  alguu  sem  muj  special 
graça  possa  bem  encamynhar  todollos  homees  que  òu- 
uer  derreger  por  cujo  exempro  de  doze  apostoUos,  huíi 
se  perdeo  Eassy  dos  outros  junlamentos  de  uirtucsas. 


o    LEAL  «OXSSELTIEIIIO.  147 

perssoas  algiius  se  uaão  aperdiçom  ,  que  jamais  riom 
podem  seer  bem  aderençados  Eo  senhor  no  auangelho 
nos  mandou  que  quando  alguú  de  mal  uyuer  per  a- 
iMoeslaçooês  se  nom  quiser  correger  queo  ajamos  por 
inaao  e  pubricano  Eo  apostollo  assy  declara,  que  com 
os  semelhantes  nom  deuemos  conuerssar,  porende  tal 
nom  deuemos  fazer  saluo  contra  aquelles  de  cujo  cor- 
regimeto  per  certas  prouas  formos  desesperados  Pêra 
conhecermos  que  camynho  sobresto  leuamos  conssijre- 
nios  se  amayor  parte  denos  se  desacorda,  e  poucos 
boos  e  uirtuosos  cõnosco  som  acordados  Esseendo  as- 
ey  saibhamos  que  amyngua  he  em  nos  ,  posto  que  pa- 
reça os  desacordos  nom  uijrem  per  nosso  aazo.  Eassy 
podemos  bem  julgar  nos,  e  os  outros  consijrando  quan- 
tos e  quaaes  se  desacordarem  ,  e  por  que  razom  ,  so 
ouuermos  tal  entender  que  per  afeiçom  no  selamos 
tornados  de  podermos  cõ  amercee  de  nosso  senhor 
bem  conhecer  quem  he  culpado,  e  auydo  tal  conheci- 
mento, trabalhar  deuemos  de  poer  boo  auysameto ,  e 
remédio  onde  comprir.  Em  tal  guysa  que  uyuamos 
sempre  em  caridade,  da  qual  se  diz  que  ajnda  que 
ajamos  todas  uirtudes,  se  as  nom  possuyrmos,  nada 
nos  aproueitarom  E  por  auer  esta ,  que  se  deuem  lei- 
xar  as  obras  q  parecem  uirtuosas  e  de  gram  merici- 
niento  E  quem  mora  em  caridade  que  mora  em  deos 
e  deos  em  elle. 

CapiíuUo  RIIIJ. 
das  manei ras  damar. 

V^onssijrando  como  nosso  senhor  me  outorgou  uyuer 
sê])re  sem  fallicymento  em  amyzade  nniy  special  com 
os  muy  uirtuosos  Rey  e  Raynha  meus  senhores,  pa- 
dre, e  madre  cujas  almas  deos  aja  e  com  todos  meus 
jrm^ãos  nom  symprezmente  como  seruidor,  ou  per  o- 
brygaçom  de  dyuydo  ,  mas  em  aquella  mais  perfeita 
maneira  que  outros  achar  se  podessem ,  fyrmados  em 

T  2 


J48  O   LEAL   CONSSELHEIRO. 

grande  amor  e  boas  uoontades  deloda  parte  cô  rriuyta 
guarda  dello  enssynados  per  deos  boo  enxempro  dos 
diclos  senhores  e  do  que  huus  dos  outros  aprend}  ainos 
de  tal  guisa  que  noni  me  pareceo  quando  uy  oliuro  de 
tullio,  e  outros  que  delia  faliam  q  achaua  cousa  noua 
nem  contraíra  de  que  husauamos  Eposto  que  assy  ra- 
zoar onom  soubera,  ja  no  coracom  aquello  sentia,  e 
per  obra  husaua  Emuytas  graças  anosso  senhor,  por 
nossas  grades  uirludes.  e  merycynientos  antre  nos  que 
semelhante  sentyraos  razom  me  parece  que  alguã  cou- 
sa sobrello  declare  como  das  uirtudes  suso  scriplas 
Porem  segundo  meu  parecer  delia,  e  das  outras  ma- 
neiras damar ,  esto  pouco  uos  screuo.  Seu  começo  he 
huu  geeral  prazimêto  por  dyu}do,  bem  feituria,  bon- 
dade, saber,  fama,  ou  alguu  meric}  mento  Eaquesto 
da  parte  do  entender,  ou  por  sentimen(o  do  coraçom, 
dauista,  falia,  boa  graça  no  que  faz,  ou  por  concor- 
danca  da  cõpreyssom  ,  calidade,  ou  nacenças.  Da  ly 
crece  ataa  seer  per  cada  huã  destas  partes  muy  spe» 
ciai ,  com  oqual  uem  amor.  Edel  nace  deseio  defaz.er 
todo  bem  que  poder  aquém  assy  ama,  por  folgar  êno 
fazendo,  e  seer  dei  assy  amado  como  el  sete,  quer  a- 
niar,  e  obrar,  afeiçom  com  tal  pessoa  mayor  e  me- 
lhor que  se  poder  auer,  E  compryndo  seu  deseio  filha 
delleitaçõ  daqual  uem  contentamento,  per  ossentido , 
ou  conhecy mento  do  entender  Co  geeral  contenta- 
mento damar,  seer  amado,  possuyr,  e  lograr  afeiçom 
da  quella  pessoa,  que  muy  syngullarmenle  ama,  faz 
sentir  contynuado  prazer,  no  qual  uyuê  os  boos ,  e 
uirtuosos  amygos  deuerdadeira  amyzade ,  como  deue 
seer  antre  marido,  e  molher,  parentes,  senhores,  ser- 
uydores ,  e  muy  próprio  antre  os  que  se  acordam  per 
grande  afeiçom  em  estado,  ydade ,  uirtuosa  maneira 
deuyuer,  e  boo  deseio,  propósito,  entender,  e  uoon- 
íade.  Do  amor  que  he  nome  geeral  me  parece  que 
nacem  quatro  maneiras  damar,  homeês ,  e  molheres, 
por  que  das   outras  ao  presente  nom  faço  meençõ  .s» 


o    LEAL    CONSSELHEIRO.  149 

Benquerença   prynieira,  deseio   de  bem  fazer,  segun- 
da. Amores,  terceira,  Amvzade,  quarta  Das  quaaes 
mostrarey  breuemente  alguãs  deferenças  pêra  cadahuu 
dessy ,  e   dos   outros   conhecer  dequaj  delias  ama,  ou 
}ie  amado.  Ecomo  em  cadahuã  nos  deuemos  auer.  Ben- 
qucrença  he  tam  'geerai  nome  que  atodas  perssoas  que 
mal  nom  queremos,  podemos  bem  d^zer  que  lhe  que- 
remos  bem    Ca  nos   ])raz   de   sua   saluaçom ,  uyda ,  e 
saúde,    e   de  outros  muvtos  bees  que  nom  sejam  anos 
contrairos   Deseio   debem   fazer  he  jamais  special  por 
que   poucos   teem     tal   uoontade   atodos  ,    ajnda   queo 
possam  bem  comprir,  e  acerca  dos  chegados  ossenteni 
l^-porem  he  ja  em  grano  mayor ,  e  mais  estremado  Os 
amores   em  alguíías  pessoas  destas  duas  partes  se  des- 
acordam ,    por  que  per  elles  pryncipalmente  se  deseia 
sobre  todos  seer  amado,  auer,  e  logar  sêpre  muj  che- 
gada  afeiçom  ,  com    quem   assy    ama  E  muytas  uezes 
con)0  cego  ou  forçado  nom  cura  desseu  bem,  nem  te- 
nie   o   mal,    e    tal   faz   delia,  quando  per  outra  guisa, 
nom  pode  acabar  oque  sobre  todas  cousas  sempre  coa- 
t\nuadamente  mais   deseia    Eassy  nom  lhe  querer  em 
lai  tepo  bem  ,  nem  deseia  delho  fazer,  pois  queria  seu 
conlrairo,  se  doutra  guisa,  nõ  podesse  seu  deseio  com-> 
prir  Amjzade  he  desuairada  detodas  eslas,  e  participa 
com  ellas.  por  que  sempre  quer  bem  asseu  amygo ,  e 
nunca   ocontrairo,    e   assy  deseia  dello  fazer  com  toda 
cousa   por  guarda  da  sua  conciencia  acrecêtamenlo  da 
honrra  ,  saúde,  proueito,  e  boo  prazer  Eprazlhe  nuiy- 
lo   seer  desseu    amygo    perfeitamente   amado,  e  auer 
com    el   sempre    boa,    e  razoada  cõuerssaçom  Tem  a- 
uaníagem   dos   prymeiros,    porque  muy  special   bem 
quer  ao  amygo,  e  assy  deseia  delho  fazer,  como  pêra 
sy  medes  oqueria  Dos  amores  desuaira,  por  que  amam 
pryncipalmente   regidos    por   oentender,  e   dos  outros 
per  mouymento  do  coraçom  ,  o  deseio  de  seer  amado, 
ajnda    nom   concorda   com    amygos  ,    por  que   sempre 
peenssom   queo  som  ,  cu  doutra  guysa  nom  ae  terriam 


150  a    LEAL    COÍfSSELHEíRO. 

em  tal  conta,  dos  quaaes  se  diz  que  som  outros,  eu 
e  alguas  semelhantes  razoões  nos  liuros  ja  dictos  Ea- 
feiçom  nom  deseiora  assy  rvjo  ,  e  continuadamente  a- 
chegada  como  namorados,  nem  atai  fym  ,  por  que  oa- 
luygo  quando  compre  desse  ])artir ,  ajnda  que  dei  syn- 
ta  suydade  seguramente  e  bera  ossoporta,  mas  sempre 
he  presente  em  tanto  que  no  liuro  que  delia  fez  tullyo, 
diz  que  nem  amorte  os  parte  Edesto  eu  dou  boo  tes- 
temunho graças  a  deos,  por  que  ofynamento  dos  dictos 
senhores  Rey  e  Raynha  nom  me  partyrom  de  seu  a- 
mor ,  por  que  assy  deseio  delhes  fazer  seruyço ,  e  pra- 
zer como  se  uyuos  fossem,  e  receo  aquellas  cousas, 
que  uyuêdo  sabia  que  nom  auyam  por  bem ,  como  se 
duuydasse  demo  poderem  ao  presente  contradizer  Ea- 
legrandome  fazer  as  que  pensso  quelhes  prazem  ,  ou 
prazeria,  se  na  presente  uyda  fossem,  segundo  niynhas 
obras  bem  as  demostram  Ojtfante  dom  p.°  meu  sobre 
todos  prezado,  e  amado  jrmaão  posto  que  fosse  no  rey- 
no  dungria,  com  pequena  teençom  de  tornar  aesta  ter- 
ra, bê  pensso  que  sempre  conheceo  seer  assy  presen- 
te em  meu  coraçom ,  como  fosse  naquel  logar ,  onde 
eu  era,  Eaducquesa  debregonha ,  mynha  muyto  preza- 
da e  amada  jrmaâ,  nunca  tam  perfeitamente  sentyo 
mynha  boa  uoontade ,  como  desque  foy  destes  reynos 
pari  ida  Os  amores  simprezmente  niuytas  uezes  teem 
maneira  contrairá,  por  que  fazem  amar  dequê  nõ  he 
amado ,  ou  per  razom  synte  que  nom  deue  assy  da- 
mar,  efn  que  muyto  damyzade  se  desuaira.  Porem  so- 
bresto tenhamos  tal  determ^-naçom  ,  que  bem  queren- 
ça  deuemos  atodos  em  ogeeral  deseio  de  bem  fazer 
em  toda  cousa  que  bem  podermos  Eas  pessoas  anos 
chegadas,  ou  queo  merecem,  tal  deseio  íleue  seer  mais 
auantejado.  Os  amores  em  todo  caso  ajamos  por  du- 
uydosos  se  tanto  crecem  ,  que  cheguem,  ou  forcem, 
por  que  se  leixarmos  denos  reger  per  dereita  razom, 
e  boo  entender  que  ualleremos  Epois  dellef.'  esto  uem 
muyto  som  <lerrecear.    He   uerdade  que  fazem  gente 


*    LEAL    CONSSELHEIRO.  15l 

manceba  melhor  se  trazer,  e  percalçar  algiiãs  manhas 
cnslumadas  nas  casas  dos  senhores.  JVlas  por  operigoo 
que  mu}tas  uezes  delles  se  recrece  couem  miiyto  des- 
sa prisoin  se  guardarem  os  que  uirtuosamête  deseiõ 
uyuer. 

Cap:  RK 
damaneira  como  se  deue  amar  os  casados. 

\Js  bom  casados  detodas  quatro  maneiras ,  snso  scri- 
ptas ,  ameu  parecer  se  douem  amar,  e  nom  seendo 
assy ,  nom  chegam  asseu  perfeito  stado .  por  que  so- 
bre todos  he  ra/om  querersse  bem,  e  assy  deseiar  deo 
fazer  huíi  ao  oulro  em  todas  cousas  que  razoadamente 
poderem.  Fsseer  mais  que  doutrem  amados,  com  afei- 
çoai grande  contynuada  Epor  suas  bondades,  uirtu- 
des  ,  e  outros  grandes  mericymentos  seerem  muyto 
contêtes  per  afeiçom  ,  entender,  e  razom  que  faz  uy- 
uer em  contynuada  ledice,  que  nace  de  tal  contenta^ 
mento,  nunca  ja  mais  em  oras,  e  tempos  razoados  hud 
com  outro  senfadando  Etodo  bem,  honrra ,  saúde, 
boo  prazer  de  cada  hun  se  deseiar,  e  porei  trabalhar 
e  fazer  como  por  osseu  medes,  e  mais  em  muytas  par- 
tes. Uijdo  alguiis  atai  estado  syntirom  como  se  amam 
perfeitamente  per  todas  quatro  maneiras  damar,  ao 
qual  pensso  que  poucos  som  despostos  deuijr  permyn- 
gna  de  uirtudes ,  saber,  ou  boa  uontade ,  que  ha  em 
cadahuã  das  partes,  mas  aquelles  que  atai  chegarem 
conheceram  bem  quanto  uerdadeiramente  sereno  des- 
ta sciencia  graças  anosso  senhor  per  nos  bem  pratica- 
das. Do  grande  amor  se  geera  huii  formeto  no  cora- 
çom  que  faz  crecer  todallas  payxooês  ja  dietas,  do  de- 
seio  ,  deleitaçom  ,  sanha,  tristeza,  e  assy  das  outras 
em  toda  cousa  de  bem  ;  e  do  contrairo  que  muyto  per- 
teecê  aquém  amar  per  grande  amyzade,  ou  ryjos  amo- 
res. E  nas  mais  das  obras,  cujdados,  e  fallicymentos 
a  elle  tem  pryncypalmente  respeito,  pêssando  como 
por  elo  gaança  ou   perde  amor  e  afeicom  daque  assy 


]52  f)    LEAL   CONSSlíLHEmO* 

ama,  per  cada  huii  destas  maneiras  Emuyto  mais  se 
for  per  ambas  juntamente  como  fazem  os  muy  bem 
casados  Jípor  agram  força  destas  maneiras  damar,  diz 
seneca  das  ryjas  amyzades ,  e  amores  que  se  nom  po- 
dem forçar,  mas  sagesmente,  quando  compre  per  gran- 
de discreçom  se  fazem  scorregar  Eaquesto  entendo 
que  se  faz  com  special  graça  denosso  senhor,  aqual 
com  nossas  forças  sempre  deuemos  dajudar,  quando 
uyrmos  que  nos  faz  mester  Epor  que  razoadamente  os 
casados  deuem  trabalhar  por  seerem  de  suas  molheres 
bê  amados,  e  temydos  nom  se  teendo  aaquella  pallaura 
que  muy  tos  dyzem  per  delleixamêto,  myngua  deuoon- 
lade,  ou  de  boo  saber  que  se  nom  querem  correger, 
liem  auer  boa  guarda  na  maneira  que  com  ellas  deuê 
detecr,  por  que  ja  enganarom  ,  quê  auyam  denganar, 
os  quaaes  nom  penssom  que  ajnda  queas  tenham  em 
sas  casas  nom  teem  seus  coraçooês  acordados  per  de- 
reito  amor  asseu  prazer  Porem  sobrelo  he  de  conssij- 
rar,  queo  amor  uem  como  ja  disse  per  razom  ,  ou  per 
deseio  docoraçom  Eassy  cõuem  seer  gaançado  e  niã- 
theudo  Eda  parte  darrazom  se  percalça  per  uirtndes  , 
outras  bondades  5  e  boas  manhas,  com  acrecentamen- 
lo  de  boo  estado,  teendo  com  elia  em  todo  boa  ma- 
neira em  ahonrrar,  e  prezar,  sabendosse  bem  concor- 
dar com  suas  uoontades  Eas  outras  per  temperados , 
e  discretos  aujsamentos  ,  e  releuar,  e  correger  E  co- 
mo a  esperiencia  bem  demostra  que  os  semelhàtes  ra- 
zoadamente custumam  as  mais  uezes  seer  bem  ama- 
dos,  e  prezados,  e  obedecydos.  O  coraçom  pellos  v. 
sentidos  filha  principalmente  amor,  e  deleiíaçô  Epo- 
rem  cõuem  deos  engalhar ,  quanto  cada  hufi  melhor, 
ou  menos  mal  poder,  assy  que  contente  sempre  auista 
per  razoado  parecer,  quanto  cm  el  for,  cõssijrando  sua 
hidade,  estado,  e  desposiçom  ,  per  boo  geito ,  corre- 
gymento,  e  toda  cousa  que  fezer  Eouuyndo  pello  que 
fallar,  e  assy  dos  outros  sentidos,  de  que  mais  em 
special  nom  faço  mençom   segundo  per  nos  podemos 


o   LEAL   CONSSELHEIRO.  153 

filhar  enxempro  ,    teendo  com  ellas  aqiiella  maneira 
que  nos  prazeria  que  ellas  teuessem  com  nosco,  guar- 
dando aquellas  deferenças ,  que  anlre  nos  razoadamen- 
te  deuem  seer  guaardadas  Equando  esto  for  bem  guar- 
dado  com   perfeita  lealdade,    sem   aqual   todo  muyto 
nom  he  deprezar,  os  maridos  das  boas  molheres  Creo 
com   agraça  do   senhor  que  seram  sempre  amados,  e 
obedecidos  como  deuê,  por  que  das  outras  nom  fallo, 
com   que  adeos   graças ,    nom   lenho  cõuerssaçom    Eo 
que  delias  me  parece,  nom  concorda  cõ  esto  que  scre- 
uo.    Se  disserem   poucas  som   as   boas,  Eu  digo  que 
muytas  em   este  caso,  pois   ao  presente  eu  nom  sei, 
nem  ouço  molher  de  caualleiro,  nem  outro  homem  de 
boa  conta  em  todos  meus  reynos  que  aja  fama  contrai- 
rá de  sua  honrra  em  guarda  delealdade    Epassarom  de 
cem  molheres  que  elrrey  e  a  Raynha,  meus  senhores, 
Padre,  e  Madre,  cujas  almas  deos  aja,  Enos  casamos 
de  nossas  casas  ,    e  prouue  anosso  senhor  deos  que  ai- 
guã  que  eu  saibha ,  nunca  falleceo  em  tal  erro  des  que 
foy  casada  Epareceme  que  pois  em  andando  por  don- 
zellas  dalguã  fama  contrairá  se  dizia,  que  semelhante 
quando   fallecerom   seendo  casadas,  se  dyssera ,  Epor 
esto,    e  outras   razooês  dereitas   que  aello  me  jnclinâ 
som  muylo  dassua  parte  em  louuar ,  e  prezar  aquellas 
que   boas   som  ,   contrariando   aos  que  as  prasmam  em 
geeral ,  e   deslouuam    Ca  prasmarem  alguãs  que  falle- 
cem  como  nos  fallecemos,  podesse  fazer,  conhecendo 
queas  mais  uezes  nace  apryncipal  culpa  denos ,  poren- 
de  eu  das  boas  screuo  esta  maneira,  que  cõ  ellas  pêra 
seus  maridos  seerem  delias  amados,  prezados,  e  obe- 
decidos me  parece  quesse  deue  teer.  Da  conhecida  por 
boa,  sages,  e  discreta  molher  que  bê  ama  seu  marido, 
nom    he  razom  que  se  tenha  ceumes,  nem  duuyda  em 
guarda  de  sua  lealdade,  ajnda  que  el  nom  seta  em  sy 
muyta   perfeiçom    pcra   seer  amado,  por  que  ella  ofaz 
pryncypalmente  per  sua  uirtude,  e  bondade,  pella  qual 
as  semelhantes  lhes  releuam  grandes  mynguas,  e  fally- 

U 


J54  O    I^íi AL   CONSSELIIEÍUO. 

cymentos ,  segiintlo   desto   iiy   niuytos  e  boos  enxem- 
pros  Aos  quaaes  nom  deue  fazer  per  juyzo ,   oqiie  ou- 
tras fezerorn   em  contrairo.  Esto  digo  segujulo  mynha 
tençom  ,  ajuda   quo   miiytos   entendydos   tenhoni  ope- 
nvom   conlraira    Cao  ainordassemelhanl.es,   mais  cõ- 
Gorda  com  benqnerença  de  períeiLa  amjzada.  que  lan- 
ça fora  todo  temor,  e  maa  sospeita  de  quem  ama,  por 
uyuerem  em  folgança  contynuada  de  grande  contenta- 
mento ,  que  epni  amores,  os  quaaes  de  ceumes  miiyto 
som   acompanhados   por  auerem  fundamento  no  deseia 
do  coraçom  ,  que  nom  recebe  com  elles  dereita  segu- 
rança,  como  da  oentender  per  boo  conhecymento  daae 
uirtides.  Eo  amor  da  semelhante  molher.  E  pêra  ella. 
qual   outra   pode   seer   melhor  guarda   que  acrecenla- 
raento  dessua  boa  uoontade,  aqual  razoadamente  muy- 
to   deue   crecer,    por  agrando  confyança  que  delia  se 
tem  ,    por  saberem  que  nace  da  boa  teençom  que  seu 
marido  ha  delia.  Etenho  nisto  per  certa  speriencia  que 
faz  mais  proueiiosa  guarda  em  semelhantes  com  acre- 
centamento   damor  ,    prazer,    e   obediente   uoontade, 
que  nunca  os  ceoiues  podem  fazer  Porem  pêra  taaes , 
rçuessada  sospeita,  ou  duuyda  enssa  lealdade,  he  muy* 
to   scusada    Eacerca   das  outras  amaneira  quesse  deue 
teer  nom   sereno   por   nom    perteecer  graças  adeos  a- 
xneu  propósito.  Antre  os  boos  amygos,  e  bem  casados, 
astas   cousas   muy   necessariamente   se  requerem    Pri- 
meira lealdade  em  todo  caso,  defeicto ,  dicto,   e  mos- 
trança.    Segunda,    segredo   que   nunca  diga,   nem   de 
ae!f]tend<!r  oq  sabe,  ou  duuyda,  se  assua  molher,  e  a- 
mygo  pede  desprazer  desseer  sabido   Terceira,  uerda- 
diy  guardandosse  detoda  mêtira  digna  derrej)rehenssom 
Quarta  segurança  que  antre  ambos  seia  guardada,  por 
muy  perfeita  teençom  que  luiu  do  outro  sempre  teen» 
auyda.  Quynta  boa  entrepetaçom  em  todas  suas  obras, 
píiilíiuras,  e   conteneça,  assy   que  todo  se  filhe  aamy- 
llior   parte   da   quel   que  se  teem  em  conta  de  boo,  © 
wirtuoso,   por  que  outra  pessoa  iiom  pode  uerdadeira- 


o    LEAL    COKSSELn"ElRO.  155 

mente   husar   danivzade.    Sexta   boa   presuficom  ,    que 
tlessy    tenham,  e   hiiu   do   outro,  que  som  pêra  obrar 
realmente  em  todas  cousas  com  muy  uerdadeiras  uoon- 
tades,    como   boos   amygos   o   pedem,  e  deuem  fazer. 
Eonde  esto  bem  for  guardado,  nõ  creo  q  ceumes  que 
de    conta   sejom   ally   possam    morar.    Porem    arrazom 
bem   demostra  que   onde  os  ha,  nom  he  aquella  mais 
iierdadeira   maneira  de  amar,  por  que  ceumes  me  pa- 
recem huu  receo  que  alguu  tem  por  nom  boa  tençom, 
©u   sospeita ,  em  feicto,  dicto,  boa  uoõtade  em  myn- 
gua  sua,  e  acrecentamento  doutrê  ,  por  conhecymento 
de  seus  fallicymentos ,  em  desposiçom  ,  uoontades,  es- 
tado, graça,  e  semelhantes  Emais  perfeitamente  por 
certas    mynguas,  que   naquella   pessoa  de  que  se  ham 
os  ceumes  som  conhecidas  em  bondade,  entender,  ou 
boa   uoontade    Eporem  onde  tanto  crecem  que  aoraço 
nõ  leixam  filhar  razoada  segurança,  com  amyzade  uer- 
dadeira  ,    nom    se  podem  bem  acordar  ajnda  quesse  a- 
jom   dalgUi^  q   muy  ryjo  por  outro  fundamento  amem  y 
ca   pois   antressy   cabe   tal   duuyda  ,  nom  pode  seer  a- 
quella   perfeita  amyzade  que  muj  acabadamente  faz  a- 
mar,    e   assy   creer  sem   duuyda   que   he  bem  amado. 
Quynto   he   necessária  grande   guarda,  e  auysamento 
Ha  falia  por  que  alleda  cõuerssaeom  requere  contynua- 
çom  delia  em  toda  cousa,  e  maneira  razoada  Ca  coma 
dizem   que   no   muyto   fallar  nom  fallece  pecado ,  assy 
da   muytas   uezes   antre   os  amygos  aazo  de  gram  dis- 
córdia ,  porem  detal  guysa  còuê  razoar  ãtre  elles  q  sê- 
pre  matenhã  auyrtude  da  discreçom  ,  guardandosse  de 
mentira,    louuamynha  ,    perfia ,    áspera   palaura ,   com 
tal   contenença  ,    ou   dafrontas,    callar  com  despreço , 
leuemetito   roper   aestoria  começada ,    sobejamente  sê 
fundamento    em    hu;i   contynuar   pêra   comytymento  , 
n«m  repostas,  alto  fallar,  ou  aoutrem  descobrir,  onda 
compre  segredo,  mal  dizer,  tristes  fallamentos ,  desa- 
tento  nas   cousas  depeso ,  fracas  razoões ,  ou  daperta- 
da  uoontade,  onde  compre  esforço,  pallauras  de  peca- 

U  2 


156  O    LEAL    CONSSELHEÍRO. 

do  OU  desonestas,  segundo  requere  ologar,  fallamen* 
to  e  pessoas  maliciosamente  louuar  aopjnyom  do  a- 
mygo  sem  discreçoni  acontradizer  nom  guardando  pal- 
lauras,  ou  tempo,  faliar  fora  de  propósito  Ede  nom  da- 
nar boas  razoadas  fijndas  ou  conclusooês  ao  que  fal- 
iam ,  que  mostrem  pouco  reguardo,  saber  e  sentydo 
Edeuem  auer,  e  mostrar  em  todas  suas  obras  e  razooês 
grande  lembrança  do  principal ,  bem ,  saúde  prouei- 
to ,  boo  prazer  do  amygo,  por  que  muyto  lega  sempre 
a  boa  e  doce  pallaura ,  segundo  aqufl  dicto  de  salla- 
mom ,  que  assenielhante  junta  os  amygos.  Ea  mal  or- 
denada sparge  e  cria  muj/tos  desacordos  e  pellejas  Po- 
rem antre  os  quesse  bem  amam  ,  grande  guarda  nas 
pallauras  he  necessária  com  boas  obras  sempre  bem 
acompanhadas,  sem  as  quaaes  razooês  nom  som  muy- 
to deprezar  Epor  q  acontece  filhar  oamigo  empacho  e 
desprazer,  de  que  he  feito  e  dicto,  com  dereita  têçom, 
e  querendo  sobrello  muyto  razoar  se  recrecem  empa- 
chos, arrefecymento  da  boa  pratica,  que  antrelles  se 
custuma,  boo  cõsselho,  me  parece  muy  cedo  dela! 
estoria  sayr,  e  jamais  em  ella  pouco  ou  nada  faliar 
ca  nom  cõuem  fazer,  nem  husar  fíidamento  donde  na- 
cem  5  quando  bem  esta  opryncipal ,  ca  muytas  uezes 
uem  per  teníaçom  do  jnmijgo  dynfruencia  das  prane- 
ías ,  ou  per  taaes  segredos  denosso  senhor  que  nom  se 
pode  saber  nem  entêder  Eporem  he  mylhor  onde  nom 
ha  razom  demal  ,  nom  acriar  per  fallamenfeos  largos 
sem  proueito,  mas  cedo  e  sagesmente  sayr  de  tal  es- 
toria, e  fazer  fim  per  boa  maneira  em  outros  pesados, 
ou  ledos  fallamentos  com  gracioso,  e  temperado  spe- 
dimento  quando  cadahuCi  se  partir  Ediz  tullyo  Grand« 
hem  he  leuar  uantagem  ãtre  os  homeês  no  bem  ra- 
zoar, por  que  na  questo  sobre  todas  cousas  elles  ateem. 
Enas  mais  das  outras  folganças  as  bestas  tanta  deleita- 
çom ,  e  vnais  que  nos  recebem  ,  mas  no  boo  faliar  nos 
soliamête  aliogramos  Eos  boos  amygos  em  ello  mais 
sem  caassaço,    e  enfadamento  que  todas,  deiei taco ota 


o    LEAL    CONSSELHEIRO.  157 

sempre  se  alegram  ,  porem  com  grande  e  boa  deligen- 
cia  dcuemos  trabalhar  com  agraça  do  senhor  deos  por 
bem  e  sagesmente  obem  fallar  praticarmos, 

CapituUo  RVL 

Damaneira  que  se  deue  tcer  peraas  boas  molheres 

recearem  mylhor  seus  mandos, 

Jr^era  os  maridos  melhor  serem  temydos,  nom  sey, 
peraas  somelhãtes  boas  molheres  mais  proueitosa  re- 
gra,  que  trabalhar  por  seer  delias  bem  amados,  go- 
uernandosse  em  todo  uirtuosamente,  por  que  tal  amor 
traz  mais  real.  e  perfeito  temor  danojar  aquém  duuy- 
da  sollamente  de  perder  alguã  parte  da  boa  uoontade, 
e  doce  cõuerssaçom  que  antre  elles  he,  que  aoutras 
ferydas  nem  ameaças  podem  fazer.  Eaquestas  regras 
me  parecem  pêra  esto  razoadas.  JVlas  por  que  assy  co- 
mo dyzem  os  legistas,  mais  som  os  negócios  que  os 
uocabros  desta  gujza  peraos  geitos  speciaaes  que  lêem 
homeês  e  molheres,  nom  se  podem  per  geeraaes  auy- 
eamentos  em  todo  refizer,  ca  huãs  prezam  mais  estado, 
e  uirtude  ,  outras  bem  parecer,  e  mancebias,  alguãs 
per  brandeza  de  pallauras  so  auisã.  E  bem  obedecendo 
fazem  oqtie  seu  marido  lhes  diz  Etaaes  hy  ha  que  cõ- 
uera  aas  uezes  mais  mostrança  de  força.  Porè  conssij- 
jando  no  que  ey  scripto,  e  adeante  se  dirá,  destas 
maneiras  damar,  e  apessoa  com  que  trauta,  cada  huu 
se  gouerne  como  lhe  bem  parecer,  nom  se  teendo 
mais  ao  que  screuo ,  que  quanto  per  boa  speriencia 
achar  proueitoso  em  sa  casa  Ca  omeu  geeral  fallar, 
nom  abasta  pêra  cada  pessoa  specialmente  seer  regida 
Eaquesto  digo  por  algufi,  achando  nom  boo  meu  cons- 
selho ,  me  nom  prasmar ,  ca  eu  screuo  com  boa  tee- 
çom  oque  bem  me  parece  ,  ê  teendo  que  todo  saber 
dos  homeês  ,  pêra  sêpre  realmente  manteer  amyzade 
nõ  he  bastante,  como  diz  tullyo  ,  sem  graça  dyu^nal 
Porem  aquelles  que  uyuerê  em  ella ,  nom  asseu  saber, 


15»  o   LEAL    CONSSELHEIRO. 

nem  ouiro ,  merecynienio ,  mas  adeos  dêem  todo  lou- 
uor,  e  gloria  dizendo  cadahuú  dia,  conf3/rnia  senhor 
esto  queas  obrado  em  nos.  Dos  outros  que  per  real 
amyzade  se  podem  amar,  os  liuros  ja  dictos,  muy  bem 
declarom  ,  como  dos  uirtuosos  que  ajam  etitendimen- 
tos  humyldosos,  uoôtades  concordauees  dhuú  propósi- 
to, querer,  nom  querer,  e  nom  dos  outros,  he  perfei- 
tamente guardada ,  por  que  huiis  so  de  tam  curto  sa- 
ber, ásperos,  agros,  sõssabores ,  ou  deseiadores  de 
sua  uantagem ,  que  nom  se  podem  jguallar  com  alguã 
pessoa  em  boo  amor,  e  cõuerssaçora.  Outros  sospei- 
tosos  que  detodos  presumem  opeor,  filhando  em  sua 
ajuda  aquel  dicto  de  jtallya  ,  nom  te  fiees  sse  nom 
queres  seer  enganado  Enõ  resguardam  aoque  seneca 
diz,  com  teu  amygo  todas  cousas  delibera,  e  deter- 
Kiyna,  roas  dei  pryraeiro,  em  que  se  mostFa ,  como 
tal  pallaura  assy  em  geeral  nora  se  deue  filhar  por  que 
detodos  nõ  deuemos  confiar,  nem  lhe  filhar  seus  dictos, 
e  feitos  aamylhor  parte ,  nem  pello  contrairo ,  mas  co- 
nhecendo cadahuíi,  assy  tomar  oque  faz,  e  diz,  auêdo 
em  esto  aquel  auysamento,  que  fazê  os  boos  montei- 
ros ,  que  conhecendo  aueaçom ,  e  ueendo  como  ho 
folgada,  conssijra  oque  ha  defazer ,  guardando  em  gee- 
ral ladeiras ,  aos  hussos ,  sopee  aos  porcos ,  comyadas 
aos  ceruos  Enos  cõssijrando  acondyçom,  saber,  amor^ 
e  aazo  das  pessoas  com  que  praticamos,  assy  entrepe- 
temos,  e  filhemos  sospeita  sobre  seus  feitos.  Dos  to- 
cados da  soberua,  uaâ  gloria,  ou  cobijça  nas  cousas 
dessua  uantagem,  e  melhoria,  nos  auysemos  por  que 
aesta  cumyada  como  ceruos  correm  Edaquelles  que  se 
uencem ,  aluxuria,  gargantoyce,  preguyça .  na  quello 
mais  ligeiramente  tenhamos  que  podem  fallecer,  lan- 
çandosse  per  osso  pee  destes  pecados  como  porco  cans- 
sado,  que  ja  outro  camynho  nom  quer  leuar,  Edos  sa- 
nhudos ,  euejosos,  demallecioso  saber,  ou  pecos,  aui- 
sar  nos  deuemos  q  nom  obrem  contra  nos  reuesada- 
mente  contrairo  muytas  uezes  do  que  mostram ,  semer 


o  LEAL  CONSSELHEIKO.  I  5*> 

llian(es  aoí?  husos  e  seu  treuessado  correr.  Dos  uirtuo- 
sos  anijgos  nom  deuenios  duuydar  quando  noni  u\  rmos 
oconlrairo,    por   que   som  cousas  contrairás  auello  por 
anijgo,  e    poer  duuyda   em   seus   feitos  quanto  he  da- 
uoontade ,  por  que  no  poder,  e  saber  bem  se  pode  fi- 
lhar duu}da,    segundo   for   o   feito,  e  oque  do  amjgo 
sentynios.   Dos  arteiros,  e  malJecyosos  derrybados  aos 
fallycynientos  suso   scriptos,  filhar  seus  dictos,  e  fei- 
tos, aapeor  parle,  nom  pêra  os  julgar,  mas  pêra  del- 
\es  nos  guardar,  discreçom  he ,  E  nom  em  todas  cou- 
sas mas   na  quellas  em  que  deuamos  per  razom  sentir 
sospeita  Dos  que  bem  nom  conhecemos  os  feitos  e  di- 
c(()s   se  deuem  filhar,  duuydosamête  entrepetando  pe* 
raos  julgar  aamelhor  parte,  e  pêra  nos  guardar  acon* 
traíra  ,    assy   que   penssando   opeor  que  sobrello  pode» 
riam    fazer,    da   quello   sejamos  prouystcs  e  auysados, 
por  que  poucas,  e  certas  pessoas  deuem  seer  aquellas 
pêra  que  se  nom  deua  filhar  percebymento  perao  con- 
trairo   do  que   se   mostra  nos  feitos  duuydosos   Etaaes 
som  os  uerdadeiros  amygos,  os  quaaes  prymeiros  deuè 
seer   per   longo   tempo  ajjrouados,  e  bem  conhocydos 
Edes  que  forem  bem  examynados ,  e  filhados  por  spe- 
ciaaes   amygos,    com   elle   seguramente   fallem  ,  e  cõ- 
iierssem  e  trautem  todas  cousas,  e  se  por  tal  onom  co- 
nhecer,   tenhansse  em   conta   dequem   amam  ,  e  pêra 
que  muyto  bem  desciam  ,  mas  nom  damygos  ,  pois  em 
sua  boa  noontade  pode  tal  duuyda  qual  em  elles  r>un- 
ca  deue   caber   Eantre   os   boos  casados,    e   amyíjos , 
honrra,   saude,  proueito,  e   boo   prazer  de   cadahuíi. 
como   seu   próprio,  realmente  deue  seer  guardado  ,  e 
líiuytas  uezes  mais  manteendo  aquella  regra  de  tullia^ 
que   huu  por  outro  nom  faça  cousa  torpe  nem  requey- 
ra  quesse  faça  Echamasse  cousa  torpe  oque  se  faz  con- 
tra  conciencia,    boa  honestidade,    dereito,    e  razom , 
liem   cõuem    antre   elles    temor  de   pena   que  chamam' 
seruir,  mas   aquel   que  ueni  da  grandeza  do  amor  que 
faz  taato   de  fazer  desprazec  aquera  muyto  ama,  que 


160  O    LEAL   CONSSÉLHEÍRO. 

outro  temor  nom  he  mais  receado,  como  se  uee  per 
os  namorados  que  duuydando  desse  anojar,  conciêcia 
nom  sentem  ,  ahonrra  desprezam  ,  destruê  assaude ,  e 
afazenda  gastam  Esse  tal  receo  pode  esto  fazer,  a  boa 
e  leal  amjzade  em  cousas  dereitas,  e  honestas,  nô  me- 
nos fará,  mas  em  as  mal  feitas,  nõ  faz  tanto,  por  que 
os  amygos  amansse  jncrynados  per  razom  ,  e  boo  juy- 
zo  do  entêder ,  com  acordo  do  sentydo,  e  afeiçom  do 
coraçoni ,  porem  todo  fazem  cora  reguardo  dejustiça  e 
temperança,  as  quaaes  guardadas  nom  farom  cousa 
mal  feita,  nem  destemperadamente,  como  aquelles  ^ 
som  uencidos  ao  deseio ,  e  leixando  discreçom  tirados 
fora  dessa  liberdade  fazê  os  quelhes  mandam.  Ca  de 
huú  error  muytos  se  podem  seguyr.  Eaquesto  fez  a 
Rey  sallamom  leixar  aley  dedeos ,  e  adorar  os  ydollos, 
por  que  perdendo  dereito  juyzo  decoraçom ,  foy  feito 
seruo  de  quem  nom  deuera,  per  cujo  regymento  se 
uenceo,  por  aquelle  errado  temor  da  nojar  aquellas 
molheres ,  que  assy  amaua,  pêra  fazer  quanto  ellas 
quyserom ,  ajnda  q  grande  mal  fosse  Eaesto  bem  pens- 
so  q  per  uynho  muyto  seria  derribado,  por  q  de  hiiíi 
acordo  em  semelhante  caso,  muyto  mal  fazem,  ca  el 
assy  destroyo ,  aalma ,  corpo ,  e  fazenda ,  como  taaes 
amores.  Ca  hníi,  e  o  outro,  se  forrem  sobejos,  pryua- 
rom  o  entender,  e  arrazom  ,  e  fazem  apessoa  que  del- 
les  assy  husa  uyuer  bestialmente  E  quando  tal  amor, 
fez  tanto  temer  aeste  Rey,  danojar  as  molheres ,  que 
affe  perdeo  da  discreçom,  e  temperança  nom  husou, 
deguardar  ajustiça ,  e  contra  taaes  pecados,  manteer 
real  fortelleza  nom  fez  cota.  Como  nom  deuemos  auer 
boa  sperança,  que  as  boas  molheres,  por  bem  amar 
seus  maridos,  os  temern  n)ais,  e  melhor,  quf  per  ne- 
nhuil  outro  temor  Epor  que  naquestes  capiloUos  suso 
scriptos,  consselho  guardar,  da  benquerença  da  mores, 
e  seu  aazo  pryncipal ,  he  fastar  da  cõuerssaçom  ,  cm 
ajuda  do  que  digo,  uos  mandey  screuer  huu  capitólio 
do  liuro  que  fez  sam  thomas  de  equino  sobre  amaneira 


o    LEAL    CONSSELHEIRO.  161 

do  confessar,  que  aestre  propósito  bom  declara  omal , 
que  da  cõuerssaçom  antre  pessoas  uirluosas  se  recrece, 
por  se  conhecerem  ,  quàto  mais  se  fará ,  nos  que  taaes 
nom  som  ,  sea  ouuerem  fora  de  boa  maneira  special- 
mente  em  lugar  q  nom  seia  de  preça,  ou  se  for  muy 
cont)'nuada. 

CapiluUo  RFIl 

Do  perigoo  da  cõuerssaçom  das  molheres  spirituaaes 

tirado  de  huú  irautado  de  sam  thomas  diequyno. 


Jl  or  que  muytos  som  negligentes,  e  esqueecydos  a- 
conheccr  suas  maas  afeyçoões,  e  nom  curam  confessai- 
las,'  pêro  com  deligencia  as  deuê  na  confissom  decla- 
rar, e  esplicar,  distyntamenle  os  pecados  que  delias 
nacem  ,  por  tanto  he  denoíar  confemença,  que  em 
desuairadas  se  occupa  ocoracom  do  homem  ,  onde  al- 
guns hã  afeiçom,  e  amor  sobeio  assy  meesmos.  Outros 
ham  amor  aalguãs  pessoas  E  outros  aas  honrras  do 
mundo  Outros  aas  riquezas  temporaaes,  E  por  que  es- 
tas cousas  todas  e  cada  huã  delias  som  assy  como  huH 
muro  e  })arede  epachosa  antre  deos  e  aalma,  por  esso 
que  aquel  que  alguíi  empacho  destes  ja  dictos  ha,  nom 
pode  seer  encamynhado  com  proueito  no  camynho  de 
deos,  nem  fazer  sua  oraçom  pura,  sem  raestura  dou- 
tro penssamento  Essyngullarn)ente  ãtre  todas ,  estas 
outras  afeiçooês  ,  Cjuando  afeicionado  he  ,  carnalmente 
aalguã  pessoa.  Edesta  compre  por  agora  mais  compry- 
damente  fallar,  por  que  tal  afeiçom  como  esta,  em- 
bargou muytas  uezes ,  e  depresente  embarga  muytos 
spirituaaes,  so  semelhança  despiritual  amyzade ,  does- 
tado da  oraçom ,  e  do  fruyto  dessa,  aqual  per  sua  mal- 
leza ,  e  peçonha  mortal  cõmoue ,  e  contorna  aalma  do 
orante.  Eapresentandolhe  jntellectualmente  as  figuras 
das  pessoas ,  que  per  tal  amor  ama  Eas  afeiçooês  del- 
ias côtrairas  ao  spritu,  sparge  na  boca  dei  as  pallauras 

X 


162  O    LEAL    CONSSELIIEIUO. 

da  oraçoin ,  e  deritro  na  mente,  ençuja,  embarg-a , 
ofriijto  delia  ,  por  que  assy  como  apura  oraçom  purifi- 
ca aalma,  e  alomea,  fazea  seer  leda,  e  forte,  e  en- 
grossaa  per  caridade,  assy  aafeiçom  nom  lympa  da  car- 
De,  cuja,  e  tornaa  negra,  e  fazea  entristecer,  enfra- 
quecer, e  secar  E  nom  soometite  aalma,  mas  ajnda 
ocorpo  encorre  por  aazo  da  conipanhia  Essas  meesmas 
penas  spirituaes  triste  .c.  Epor  que  esta  doutrina  singul- 
Jarircnte  he  dada,  e  ordenada  peraa  quelles  que  som 
spirituaaes  ,  pollos  quaaes  specialniente  foy  scripto, 
saibham  estes,  que  pêro  que  aafeiçõ  carnal  atodos  ho- 
meens  geeralmente  seia  perijgosa  e  degrande  dampno 
aelles,  porem  he  mujto  mais  que  aoutronenhuu  IVÍayor- 
mente  quando  toma  cõnhecença ,  côuerssaçom  ,  e  fa- 
niyliarydade  cora  alguâ  molher,  que  he ,  ou  parece 
spiritual,  por  que  como  quer  queo  fundamento  detaJ 
amyzade  pareça  boo  porem  agrande  famyliarydade ,  e 
conhecymento  com  taaes  pessoas,  nom  he  ai  senom 
perijgoo  brando,  per  juyzo  deleitoso,  e  mal  encuber- 
to ,  pyntado  de  culor  de  bem ,  aqual  famyliarydade, 
■quãto  mais  crece ,  tanto  mais  my  ngua  ofundamento 
|)ryncipal  Co  primeiro  motyuo  em  que,  e  por  quesse 
adita  afeiçom  se  começou,  e  assy  cadauez  mais,  sem 
magoa,  apureza  de  huu  ,  e  do  outro,  e  corrompesse 
as  tentaçooes  em  cada  huã  das  partes ,  por  aazo  do 
chegamento  corporal,  nom  sentem  porem  logo  este 
mal  no  começo,  por  que  obeesteiro ,  que  he  oamor 
isíenereo ,  prymeiro  lança  as  seetas  em  herua  que  fere 
<]oceBient8  ,  e  geeram  amor  Edespois  aquelias  que  le- 
■uam  apeçonha  Esto  em  breue  se  parece  por  que  logo 
apouco  deueer  atanta  amyzade,  que  ja  nom  assy  como 
^jos  sem  carnal  côuerssaçom  acerca  do  propósito,  era 
-que  começarom  antes,  assy  como  homeês  decarne  ues- 
(tidos ,  oolham ,  e  esguardam  huu  ao  outro  husando 
<lalguãs  recomendaçooès  per  pallauras  brandas  ,  e  de 
loUuor  cobryndo  suas  pallauras  decollor  dedeuaçom , 
por  que  pareçam  3eer  dietas  com  spy-ritiuil  teençom 


o    LEAL   CONSSELHEIRO.  163 

EdesY  começam  cada  huii  delles  trabalhar  por  ueer,  o 
outro   corporalmente,    por  que   assemelhanças   corpo- 
raaes   que   lura  do  outro  teem  jmpresas,  nas  fantesias 
os  demouê    Errequerem   ademandar   huú  ueer  o  outro 
posto   que   mentalmente   sempre  presente  seia  huu  ao 
outro    Èassy   de   pouco   em   pouco  adeuaçom  destes  e 
aamyzade  spiritual  tornasse  em  carnal  e  corporal  afei- 
çom' Eas  almas  suas  que  antes  suyam  fallar  com  deos, 
sem  empacho  nenhuu,  ou  meo ,  quando  orauom  ja  en- 
tõce  pooê  antressy  e  deos  m.eo ,  por  que  antre  poõe  a- 
fegura  corporal  buíi  do  outro,  sê  aqual  nom  podem  ai- 
guã  cousa   outra  puramente  penssar,  nem  orar  E  por 
esto  cobrem  e  fazem  ceiza.  sua  oraçom,  poendo  antres- 
sy  e  aface  dedeos ,  aface  da  criatura  Eem  esto  come- 
tem  erro   grande ,  mas  muy  mayor  em  quanto  nom  ê- 
mendâ   aquello    que   deuyam   emendar  conhecendo  tal 
amor   nom    nacer  decaridade,  mas  antes  sopoendo  sua 
razom  ao  sentido  julga  nom  doutra  cousa  senom  deca- 
ridade  proceder   pello  qual  juyzo  enganados  cuydâ.   E 
mentyndo   dizem  que  huíí  uee  o  outro  quasy  presente 
em    sua   oraçom    E   esto  crêem  que  se  faz  per  uirtude 
de   deos  ,    que   os   assy   quer  apresentar  pêra  huíí  orar 
pello  outro  Eassy  aquella  conssollacom  que  de  todo  he 
senssual ,    a   qual  recebem  huu  e  o  outro,  em  aquella 
representaçõ  que  lhe  assoo  fantesia  faz,  quando  oram, 
cujdam  ,   e   afirmam  que  lhes  uem  per  graça  spiritual, 
e  uirtude  de  cyma,  onde  certo  he ,  que  em  este  enga- 
no caãe  por  seerem  negligentes  em  se  conhecer.  Eou- 
trossy  por  scarnecymento  do  diabo,  cujos  scarnhos  ,  e 
enganos,  que  specialmente  nas  molheres  demostra  por 
que   mais   ligeiramente  se    uencem   acreer  os  êgenhos 
que   odiabo   obra,    no    entend3'mento ,    sõ   tantos   que 
quasy  eposiuel  he  ao  hon)ê  sabellos,  nem  podellos  con- 
tar as   quaaes  ameude  acontece  quando  alguíi  tal  co- 
nhecymento  ham    que   estando   em   oraçô  por  aazo  da 
figura  corporal  daquelle  que  selhe  mentalmente  repre- 
senta j  sentyr  huú  ardor,  e  esqueentamento,  tam  a^íeso-, 

X  2 


164  O    LEAL  CONSSELKEIRO. 

que  sobeio  he  E  com  feiíiença  crêem  que  he  ardor 
spiritual  ,  e  fogo  da  caridade  geerado  per  oespiriio 
sancto  no  coraçoin  seu  pêra  ajuntar  ambos  os  spiriíus 
ê  hufi  com  icgalho  decaridade,  pêro  que  aquelle  fogo 
he  mais  fogo  de  amor  Juxurioso  e  carnal,  segundo  se 
despois  se  demostra  pella  pratica  seguynte  áesy  con- 
fiando em  sy,  e  êtendendo  que  som  spiritualmente 
hunydos,  entendem  que  ja  daily  em  diante  sê  prasmo 
nem  huu  podem  com  segurança  fallar  muyto  e  ameu- 
de ,  e  que  porem  nõ  perdem  nenhfia  cousa  dos  beens 
do  spiritu  por  aazo  de  despender  tempo  em  fallar  an- 
te gaanham  E  com  esto  buscam  por  marauylhosas 
coutellas,  maneiras  syngullares,  e  camynhos  muytos 
per  q  huíi  ao  outro  possa  fallar,  alegando,  e  achado 
camynhos  5  e  causas  per  que  mostram  seer  necessário, 
e  proueitoso  defallarem  ambos  ,  pêro  que  outra  cousa 
ne  huã  nom  seja  causa  destas  tam  ameudadas  falias 
senom  agraueza  ,  e  malleza  dos  sessuaaes  deseios,  aos 
quaaes  ja  orracional  istito  he  detodo  sujugado  per  esta 
guysa ,  os  niizquynhos  feitos  cegos  pollos  deseios  da 
carne  otempo  que  ante  suyam  despêder  em  oraçom  ,  e 
occupaçooês  spirituaaes,  tornansse  aperdello  em  falias 
sem  proueitos,  e  farayllyarydades  danosas  Eassyas 
purydades  deuynaaes  cambam  em  consselhos  carnaaes, 
do  qual  se  deuê  muyto  doer,  tanto  he  aas  uezes  ossa- 
bor  destes  parlamentos,  que  se  anoyte,  ou  outra  for- 
çosa causa  nom  nos  estoruasse  nom  se  parteria  huu  do 
outro  Eajnda  entom  triste,  e  sem  tallente  se  parte 
huíi  do  outro,  aqual  tristeza  he  synal  manygfesto  que 
amor  carnal  e  nom  outro  he  aquelle  que  os  ajunta  E 
em  esto  podes  conhecer  adyuersydade,  e  dessemelhau' 
ça  que  ha  ãtre  as  conssollaçooes  dyuynaaes  e  aquelias 
que  som  carnaaes,  e  diabólicas,  porque  adyuynal  de- 
leitaçom  ,  nom  se  acha  em  corporal  presença  Eoutros- 
sy  por  esta  çugidade  em  que  estam  cuydam  quelhes 
nõ  he  desonesto  todas  cousas  que  lhes  auoõtade  da  la- 
5£er.    E  que   todas  cousas  lhes  som  honestas  segunda 


o    LEAL    CONSSELHEIRí^.  ](55 

.«criptiira ,  que  diz,  todallas  cousas  som  Ivmpns  aos 
lympos,  trabalhesse  fazer  alguus  actos,  posto  que  lhe 
sejam  perigoo  manygfesto  |)or  aqual  razom  assy  com 
jnssenssvuees ,  feictos  caaê  muytas  uezes  em  grandes 
erros  sem  tomarem  dello  sentido,  cuydâdo  que  lhes 
he  dado  toda  cousa  fazer,  pois  que  som  spirituaaes  E 
pêro  que  desta  matéria,  mais  cõuenyente  seja  callar, 
que  muyto  em  ella  fallar,  porem  nom  pode  homem 
teersse  que  alguã  cousa  nom  diga,  mayormente  da 
quellas  que  nom  ha  muyto  que  acontecerom  E  estes 
spirituaaes  deque  falíamos  entanta  sâdice  deueer  que 
dam  dessy  conssentymêto  huii  ao  outro  .s.  el  aella  des- 
se leixare  tocar  so  specia  de  caridade,  contado  huíi 
ao  outro  ogrande  amor  quesse  ham  ,  chamando  nescia- 
niente  aquel  amor  caridade  E  em  tal  recontamento ,  6 
descobry  mento  damor,  ha  grande  cajò  ,  por  que  de- 
taaes  contos  ueem  seetas  que  empecoentara,  e  chagam 
mortalmente  os  coraçoões  damor  desordenado  Eoque 
em  e^^to  peor  he ,  que  nom  soo  adeos ,  e  aos  ãjos ,  mas 
também  aos  homeês,  eaos  diabos  auorrece ,  forom  ai- 
guãs  molheres  chamadas  spirituaaes  enflamadas  de  spi- 
ritu  deluxuria,  que  por  scusarem  sua  luxuriosa  condi- 
com  presumyrom  dizer  que  em  aquelles  abraços,  e 
tangymentos  cujos  e  contrairos  aapureza  da  castidade, 
auyam  grande  desejo  dedeos  oque  nom  entendo  que 
seja  senom  huã  fabulla  de  error  pêra  remouer  e  êduzer 
homem  acometer,  e  comprir  semelhauees  malles,  e  ou- 
tros peores  sem  scrupulo  de  conciencia ,  dime  tu  que 
per  uentura  esto  poderias  creer  alguà  que  to  dissesse 
cuberta  de  enganoso  uestido  se  este  ou  esta  que  te 
semelham  spirituaaes,  sõ  esso  que  parecem  segundo 
tu  crees.  Certo  he  que  outra  cousa  nom  deuem  fazer 
nem  dizer  se  nom  aquella  que  do  spiritussancto  proce*> 
de,  pois  sem  duuyda  uerdade  he  que  do  spiritu  sancto 
nom  procede  cousa  senom  proueitosa,  honesta,  e  nom 
danosa  ,  pois  que  concordança  tem  oespiritu  sancto 
com  os  tocamentos  cujos,  ebeyjos  luxuriosos,  ou  que 


fC>6  o    LEAL    CONSSELHEmO. 

honrra  recebe  em  elles  deos  E  que  proueito  se  segue 
aty  nem  aoutrem  por  fazeres  estes  autos,  e  tocamen- 
tos  ou  conssentylos ,  que  com  memoria  lie  ado  Jympo 
spiritu  sancto  açujaãe  da  carne,  por  tanto  grande  pre- 
sunçô  he  atua,  fazer  tamanha  jnjuria  ao  spu  sancto 
que  contes,  e  outorgues  ael  ofedor  da  tua  luxuria, 
oqual  ha  grande  pena  pode  conssentyr  os  diabos  Eque 
loucura  he  atua  molher  chea  de  ypocrisia  Eauorrecida 
dedeos  pêra  dizeres  que  adelleitaçom  de  tua  cuja  carr 
ne  he  agraça  de  tua  conssollaçom  diuinal ,  saae  ergo 
besta  maa  dos  termos  de  tua  luxuria  aqual  he  tam  so- 
beja queos  demoes  do  jnferno  nom  apodem  sofrer,  nem 
soportar  Eestas  cousas  e  emxêpros,  jrmaãos  meus  nora 
som  sem  causa  scriptos,  em  esto  doutrina  pêra  saber 
cada  huu,  que  desta  uenenosa  afeiçom  e  famylyarida- 
de  so  collor  de  spiritualydade  aquerida  grande  embar- 
go se  segue  aapureza  da  confissom,  e  oraçom  Eaa  cor- 
dial lympeza  pêra  fugirem  delia  assy  como  de  cousa 
ínortal,  por  que  he  assy  como  aueiha  ferrugem  que  ha 
grã  força  se  pode  alympar,  e  tirar  daalma  depois  que 
em  ella  huã  uez  for  encascada,  mayormente  que  taaes 
pessoas  em  quanto  som  feridas  deste  mal,  nunca  em 
|)ura  perfeiçom  se  confessa  Eesto  por  quesse  auergo- 
nham  de  descobrir  ao  confessor  esta  jnfirmydade  pellar 
^ual  he  menos  prezada  apessoa  spiritual  Eajnda  tomam 
tiergonha  de  clarar  as  circunstancias  que  som  chega- 
das aeste  amor  E  porem  ,  ou  as  callam  detodo ,  ou  as 
confessam  imperfeitamente  husando  de  pallauras  coUo- 
radas,  pelias  quaaes  nom  descobrido  perfeitamente  as 
óccupaçoões  que  ham  em  sua  alma ,  e  jmagjnaçoões 
torpes  que  ham  acerca  da  pessoa  que  amam  tam  bem 
orando  como  qual  quer  outra  obra  fazendo  ,  nem  ade- 
leitaçom  que  han  em  aueendo,  ou  em  lhe  fallando  ,  ou 
ém  outro  auto  co  ella  fazendo,  nem  da  neghgencia  sua 
òue  ham  nom  se  emendando,  nem  se  afastado  delia,  e 
de  sua  conuerssaçom ,  e  presêça  nem  outras  mnytas 
tòusás  de  que  elles  ham  speriencia  quedam  sempre 


o    LKAL    CONSSEI.HEIRO.  167 

áoeníes  por  nom  querer  sua  jnílrmydade  releuar  couio 
deuem   Kpor  esta  razom  aineude  queriam  mudar  ocon- 
fessor ,  e    mudam  deíeilo  quando  podem,  quedam  po- 
rem  tristes,   e  desemparados  na  mente,  assy  per  ra- 
zom   daafeiçom   imperfeita  da  qual  elles  meesmos  que- 
dam  descontentes,  e   com  remorso  da  conciencia.   Eo 
que   peor  li€ ,  testes  que  deuyam  buscar  físico  spiritual 
entendido   e  sperto  que  soubesse  dar  medicynal  remé- 
dio Conhecendo  adoeça,  e  as  causas  delia,  nom  seme- 
lhante nom  buscam  tal  Mas  ajnda  se  caso  acham  alguu 
que   conheçam   em   confessandosse  que  tal  he  por  huã 
uez   se   podem   confessar  ael ,  mais  daly  adiante,  assy 
foge  dei  que  nunca  ael  mais  tornam  E  buscam  aoutros 
confessores,  }diotas,  leigos,  e   denem   huu  saber  que 
nom  conheça  aenfermydade ,  nem  as  cousas  donde  na- 
ce  Epor  esso  nom  podem  dar  meezinha  deuyda  Eeslo 
auonda  seer  dicto  desta  matéria  pêra  que  aquelles  que 
esto   esguardarern ,    e   quyserem   seguir  ocamynho  da 
limpeza  per  esta  doutrina  tomem  uoontade  de  encamy- 
nhar   pella   uya   sem  magoa,  e  fugir  da  perijgosa  pes- 
tellença   .s.   da   famyliaridade  sobeja  das  beguynas  de- 
uotas ,  ou  mõjas  Aqual  famylyaridade ,  e  côuerssaçoni 
nom  pode  myllior  scusar,  que  fugindo  delia,  muyto  se 
poderia  ohomem  desta  seeta  peçoenta  ferido  quebran- 
tar per  jejuns,  uygias,  e  desci plynas,  e  oraçoôes ,  que 
em   quanto   nom  fugyr  da  presencia  e  corporal  specto 
da   perssoa ,  nunca   será  daquella  jnfirmydade  curado, 
antes   cada   uez   mais  crecera  achaga  no  coraçom  seu, 
por  quanto  he  boo  ocõsselho  de  sam  jeronymo  A  mo- 
Iher   que   tu   uyres  de  honesta  uyda ,  e  de  sancta  con- 
uerssaçom ,  deuella  aamar,  mas  nom  jr  amehude  onde 
ella  esta,    corporalmête  ,    por  que  amehude  ujsitar  as 
molheres ,  começo  he  de  luxuria ,  nem  podes  per  mj- 
Ihor  arte  uencer  omundo  com  as  molheres,  que  fugyn- 
do  delias,  que  atodollos  outros  pecados  ohomem  pode 
contradizer,  e   punar  com  elles,  mas  este  no  pode  fa- 
zer resistência ,  seiiona  fugyndo  dasHiQlheres.  Eem  ou- 


168  O    LEAL   (JONSSELHEIRO. 

tra  parte  diz  se  amolher  foy   poderosa  auencer  aquel 
q  ja  estaua  no  parayso ,  nom  he  sem  razom  poder  em- 
pachar  aquelles   que   ajnda  ao  parayso  nom  chegarem 
Ediz   mais  nom    presumas   seer,    ou   estar  com  alguâ 
molher  soo  em  lugar  secreto,  e  ascõdido  sem  juyz,  e 
testemunha  Ediz  mais  este  medes  doutor  nom  te  atre- 
uas   soo   com  molher  morar  em  essa  medes  casa,  nem 
tomes   confiança  na   castidade   em  que  antes  uyueste , 
por  que  no  es  tu  mais  forte  que  sam  sam  ,  nê  mais  sa- 
bedor  que  sallamom  ,  assy  como  diz,  quando  aquelles 
cayrom  ,    mais   asinha   cayras   tu,  que  nom  as  poder , 
«em  saber,  mas  podes  dizer,  ja  ocorpo  meu  morto  he 
Essem  tal  sentido,  nom  confiees ,  porem  ajnda  que  as- 
sy fosse,  que  posto  q  carne  morta  seja,  odiabo  uyuo 
he ,  cujo  sopro  he  de  tanta  força  que  faz  arder  as  bra- 
sas mortas  e  os  caruooês  ê  fogo  Item  diz  mais,   todal- 
las   uirgees   de  xpõ ,  e  moças,  ou  igualmente  as  ama, 
ou  igualmente  as  leixa  de  conhecer,  assy  como  se  dis- 
sesse, por  que   aquel   que   desta  door  ferido  he ,  nom 
pode   todallas   molheres   deigual   amor  amar,  por  que 
cõuem   que  mais  se  jncline  ahuã  que  aoutra  por  tanta 
mais   seguro   he   todas   igualmente   squyuar  Em  ajuda 
desto  diz  sancto  agostynho  ,  com  as  molheres ,  poucas 
pallauras   deue   homem   auer  e   ásperas,  nem  se  deue 
menos   guardar   por   ellas  seerem   mais  honestas,  que 
quanto   ellas   mais   sanctas   som,  tnto   mais   adoçam  e 
contentam  ocoraçom   Esso  afornia  da  branda  pallaura, 
se   mestura    per   uezes   ouycio    da  cruel  luxuria   Eporê 
amym,  diz   odoctor,  que   eu    bpõ    ssõ ,  e   segundo  x." 
fallo  ,  e  nom  mento,  os  cedros  do  libano  .s.  os  homeês 
demuy   alta   contemperaçom  ,  e   os   carneiros  dos  gaa- 
dos ,    Esto   he   grandes  prelados  dos  poboos ,  eu  os  uy 
per   esta   guysa   cayr,  cuja   queeda   eu  tam  pouco  te- 
mya ,  como  ade  sam  jeronymo,  ou  de  sancto  ãbrosio, 
em    cuja   cõcordancia   diz   sam   bernardo    Se  tu  queres 
seer    a  uydo    por  casto ,  dado  que  sejas ,  Eporem  cada 
dia  cõuerssar  com  molher,  magoa  trazes  dessospeila. 


o    LEAL  CONSSELimiRO.  1C'J 

scandallo  me  fazes,  tira  dety  amateria  e  acausa  do 
scíídallo,  por  que  maldito  he  ohomera  ,  por  q  scãdailo 
nace. 

Capitullo  RFIIL 

por  que  os  amores  fazem  mais  sentimcto  no  coraçom 

que  outra  benquerença. 

yjs   amores,    no  coraçom   fazem  mais  ryjo ,  e  conty- 
nuado  sentymento,  queoutra  benquerêça  por  estas  ra- 
zooês.  Prjmeira  por  acontrariadade  do  entender  que  os 
contradiz,  mostrando  de  huii  parte  quanto  mal  por  el- 
les  se  faz,  defendendo  que  seno  faça    Edoutra  odesejo 
que   mu}  to  cõ  elles  reyna  requerendo  com  grande  ati- 
camento,  que  persseuere  no  que  ha  começado,  fazem 
liuã  períia  que  còtinuadamente  da  gram  pena  desprito, 
afam  ,  e  cuidado  de  que  muy  amyude  os  namorados  se 
queixom  ,    aqual  senom   pode  passar  sem  ryjos  senty- 
inentos.  Segunda,  por  que  ryjo  desordenado,  e  conty- 
nuado   desejo,  ceumes,  e  uaã  gloria,  fazem   no  cora- 
çom   grande    sentimento    Epor   quanto   estes   reynam 
mais   em    amores  que  com  outra  benquerença,  porem 
fazem    mayor    sentido.    Terceira,    por   que   assy  como 
dizem  as  cousas  ciistumadas,  nõ  fazerem  tanto  sentyr, 
per  esse   fundamento   aquellas    que   se  aballam  cõuera 
queo  acrecentem    Ej>ois  que  os  amores  nunca  dam  re- 
pouso   por   fazerem    contentar   de   muy  pequeno  bem  , 
assy  como  de  hua  boa  maneira  doolhar,  gracioso  rijr, 
Jedo  fallar,  amoroso,  e  fauorauel  gesto    E  de  tal  con- 
trairo  se  assanham,  tomam  sospeita,  caae  em  tristeza, 
filhando   tam  ryjo  cuydado  por  huâ  cousa  denada,   co- 
mo se  tocasse  atodo  sseu  boo  estado ,  queo  nom  leixa 
em    quanto   dura  penssar  em  ai,  lyuremente,  mas  co- 
mo  aquel   que    tem    iieeo    posto  ante  os  olhos,  uee  as 
cousas,  dessa  guysa  el  pêssa  em  todas  outras  fora  des- 
seu   fundamento    per   cima  daquel  cuydado  que  lhe  faz 
parecer   todallas   folganças   nada ,  nom  auendo  aquella 
que  mais   deseia.    Éssea  cobrasse  que  tristeza  nunca 

y 


170  O   LEAL   CONSSELHEiRO» 

sentiria,  oque  he  taiu  errado  penesarnento  como  bem 
demostram  ruu}tos  enxêpros,  os  qiiaaes  nom  quercons- 
sentir  quesse  creain  .  posto  que  claramente  se  demos- 
trem ,  penssaiulo  que  nunca  semelhàte  como  el  senlio, 
que  ocontrario  podesse  sentir,  oque  adeante  as  mais 
das  uezes  se  demostra  muy  desuairado  do  que  parece 
Kper  aqiiy  se  pode  bem  conhecer,  posto  que  nom  caya 
em  outro  erro,  quanto  perigoo  he  trazer  huu  tal  cuy- 
dado  assy  reynante  em  el  que  o  nom  Jeixe  penssar  em 
cousa  liuremente,  sem  auer  delle  lèbramento.  E  como 
costrai  gido  cujdar  em  qual  quer  outro  feito  por  pesa- 
do q  seja  ,  por  que  ocoraçom  no  que  taaes  amores  lhe 
mandam,  quer  embargar  seu  sentydo  desemparando 
todailos  outros,  por  necessários  que  sejam  Epor  estas 
razooês  cõuem  que  traga,  e  faça  mayores  sentymen- 
tos ,  que  outra  maneira  damar.  Aboa  amyzade  dátre 
marido,  e  molher,  e  outros  uerdadeiros  amygos,  des- 
te sentem  ocontrairo,  por  q  quanto  ao  prymeiro,  nom 
passam  tal  cõtrariedade  dantre  oentender,  e  uoontade, 
por  que  anbos  som  dhuu  acordo,  quanto  praz  ao  co- 
raçom  damar,  tanto  assy  julga  oentender  que  he  bem 
desse  fazer.  Ao  segundo  desejo,  ryjo ,  nom  sentem, 
por  que  uyuem  em  delleitaçom  ,  e  contentamento  , 
taaes  ceumes  nom  deuem  auer,  por  agrande  seguran- 
ça que  huú  do  outro,  sê  alguii  temor,  sempre  tem» 
Se  disserem  que  muytos  casados,  que  muyto  se  amam, 
tem  ceumes.  Respondo  como  ja  disse,  queo  amor  dos 
casados  partecipa  com  todas  maneiras  damar.  Equanta 
mais  he  sobre  amores  per  desejo  decoraçom  ,  que  per 
conhecimento  deuirtude  segura  dàbalJas  partes.  Aqual 
se  requere  na  real  maneira  damyzade  os  semelhantes 
sentylos  hã  por  que  ajnda  que  muyto  se  amen» ,  nom 
chegam  auerdadeiro  estado  dos  muy  boos  amjgos.  An- 
tro os  quaaes  nom  cõue  alguã  sospeita  derro  ou  fally- 
cymento  que  huií  em  contra  do  ouiro  asseu  cjjte  ja 
mais  niica  faz  nem  querra  fazer,  ante  nem  mujtas  da 
condiçom  reuessada  decadahuiij  ou  faUicymento  de- 


o    M.AL    CONSSELIIEFRO.  1  "I^l 

bondaíle,  e  de  boa  liooníade  que  no  outro  iice  ou  sos- 
peita   JMas   antre   atjuellcs  casados,  que  lie  esta,  muj 
perfeita  maneira  daniar  afirmada  per  grande  experiên- 
cia,   e   boo  conhecimento  que  huii  do  outro  tem  auy- 
da,  os   ceumes  som    de   todo   scusados ,  ou  tam  leuc- 
mente   sentidos   que   cadaliuu  nom  fazem  algua  torua- 
çom,    ou   empacho.    Uaam   gloria  nom  recebem,  mas 
real,  e  uerdadeiro  prazer,  em  que  os  semelhantes  con- 
tinuadamente  uyuem  ,    nem   do  que  hum  pello  outro 
faz  filha  desordenado  prazer,  por  que  ja  tem  determy- 
nado   que  aquello  seu   boo   amygo  faria,    mas  dando 
graças   anosso  senhor,  confirmandosse  em  sua  boa  en- 
tençom  e  uoontade  se  alegra  temperadamente,  segun- 
do  tal  feito   requere  nê   traz  catyuo  seu  cuydado ,  na 
maneira  suso   scripta .  que   fazem    os  amores  mais  ly- 
uremente  penssam  no  que  lhe  praz,  por  que  tal  amy- 
zade   uem   per  special   graça   denosso   senhor  Eperssa 
niercee  com   dobrez  uirtude  se  mantém.  Eporem  nom 
pode  dar  pena  nem  toruaçom,  mas  prazer,  e  liberdade 
que   uem    do   contentamento,   e  segurança  Esse  alguu 
sente  trabalho  ou  ameude  se  torua,    por  amor  que  te- 
nha  dalguã    pessoa,    se   nom  he  por  magnyfesto  mal, 
per  goo ,  ou  perda  ,  que  nem  ael  ,  ou  aqueni  assy  ama, 
saibha   que    tal   anior  he  per  desordenada  paixom  ,  ou 
faliicimento  dalgua  das  partes,  e  nom  damyzade  q  per 
uirtude  acordo  derrazom  ,  e  boo  entender  dambos,  cõ- 
uem   seer   confirmado,    os   quaaes   sem   causa  dereita 
nom   dam  ,    nem   conssentem    padecer    por  assy   amar 
sospeita ,  nojo,  tristeza,  ou  alguu  empacho,  nem  cali- 
uamento    decujdado  ,    mais  outorga  liberdade.    Eajnda 
pêra  todas  cousas  dereitas  na  boa  andança,  e  contrai- 
rá,   segundo   diz   tuliio,    tanto   delia  nos  logramos,  e 
pêra   tantas   cousas   como   daugua   e   do  fogo  Eporem 
ajrida  que  os  amores  tragam  os  sêtymentos  suso  dictos, 
e   façom   obrar  por  ellcs  cousas  muy  reuessadas ,   nom 
se  crea  porf  m  que  com  elles  mais  amam,  por  queo  uer- 
dadeiro amor  com  benquerença ,   e  uoontade  de  bem 

Y  2 


172  O    LEAL   CONSSF.LHEÍRO. 

fa/er,  mais  esta  na  dereita  amyzade  ca  em  elles ,  cujo 
fundamento  como  disse,  he  luiu  desordenado  desejo 
desseer  bem  quysto ,  e  comprir  uoontade  per  conti- 
nuada afeiçom  ,  sem  outro  regymento  de  boo  enten- 
der,  nem  uirtude  Esse  me  disserem  que  todos  nom 
som  taaes ,  eu  sey  bem  que  he  uerdade,  por  que  al- 
£uus  se  mesturam  com  amaneira  damyzade  como  fa- 
zem os  boos  casados ,  ou  que  razoadamente  sperara 
desseer.  E  alguus  poucos  que  sempre  querem  e;uardar 
uirtude  Mas  daquelles  digo  que  nacem  dessãdeu  dese- 
jo, sem  boo  fundamento  os  quaaes  som,  JVIuyto  pêra 
delles  guardar,  oolhãdo  aquelle  enxempro  derrey  salla- 
mom  que  ja  disse,  e  outros  semelhantes  que  cada  huu 
dia  se  passam.  Desto  mais  nom  per  longo ,  por  que 
aabastãça  do  que  sobrello  se  pode  bem  screuer,  e  fal- 
lar  me  faz  nom  prosseguyr  tam  grande  leitura  como 
destas  maneiras  damar  se  recreceria ,  desy  por  que  se 
forem  bem  reguardadas  aquellas  praticas  q  guardaua- 
mos  ao  dicto  rey  meu  senhor,  cuja  alma  deos  aja,  que 
adiante  uaao  scriptas,  se  pode  ueer  alguã  parte  do  que 
dello  entendo,  mas  aqueste  pouco  screuy,  por  que  me 
parece  que  nom  ham  mujías  delias  boo  conhecymento. 
Ea|í>-ua  pnrle  por  esto  que  sereno  o  poderom  auer. 
Esse  uyrem  os  lyuros  que  delia  trautà  e  aquella  ma- 
neira de  nosso  screuer  seere  nlais  compridamente  auy- 
sados.  Porem  dou  este  auysamento,  que  nõ  pensse  al- 
guíi ,  que  possa  bem  achar  pessoa  tam  perfeita  pera- 
amar  que  seja  fora  de  todos  fallicymentos,  e  em  urrtu- 
des  ,  cõdiçom,  maneira  deuyuer,  linhagem,  ydade, 
acordamento  deuuoontades ,  e  boa  desposiçom ,  mas 
onde  opryncipal  bem  esta,  as  pequenas  mynguas  deue 
seer  Iam  scurentadas  que  senom  sentam ,  ou  pareça 
que  nom  queriam  quesse  mudasse,  duuydando  deper- 
der  algua  cousa  do  pryncipal  que  mais  preza.  Esto  se 
deue  fazer  como  faz  nosso  senhor,  que  posto  que  ade- 
reita  carreira  da  perfeçom  seja  tam  estreita  que  per 
niuy  poucos  he  seguida,  porem  ueedo  boo  propósito-^ 


1 
^    t)    LEAL   CONSSELÍIEÍRO.  ]  73 

e  teen(;oni  todos  traz  aporto  coni  saúde,  dizciido  que 
por  iiiuytos  camynhos  opodenios  seruir.  Ca  liuus  com 
aspereza  e  rigor  lhe  fazem  seruiço,  por  que  aesto  per 
sua  natureza  som  jnclinados,  os  quaaes  husam  delia 
com  tal  temperança,  que  j)oucas  uezes  fallece,  e  muy« 
las  bem  obram  ,  oque  outros  nom  poderiam  ,  nem  sa- 
beriam assy  fazer.  Essemelhante  fazem  alguus  com 
blandeza  buscando  assy  boas  maneiras  em  todo  quan- 
to fazem  que  som  seruidos,  obedecidos,  e  temydos , 
detal  guysa ,  que  castigam  ,  emendam  ,  e  corregem  co- 
mo se  ásperos  fossem  ,  e  rnuytas  uezes  mais  certo  e 
seguramente  como  fazê  as  cordas  delaam  ,  posto  que 
blandas  pareçam ,  nom  leixam  bem  datar  Eassy  das 
perssoas  que  amamos,  pois  homeês,  e  molheres  som, 
perfeiçom  nom  busquemos,  mas  sejamos  contentes  do 
razoado  com  lealdade,  e  boa  uoõtade  Enom  filhemos 
que  mylhor  ama.  quê  mais  sente,  como  fazem  os  na- 
morados, mas  aquelles  que  mais  realmente  manteem 
e  guardam  as  boas  lex  damyzade,  oque  se  nom  pode 
bem  conhecer  sem  perlonga  cõuerssaçom  em  feitos 
desuairados,  por  os  quaaes  se  diz  que  se  cõuem  comer 
cora  alguú  ante  queo  bem  conheçam  hum  moyo  des- 
sal ,  e  como  esto  deue  seer  entendido  no  capitullo  a- 
diante  scripto  se  declara. 

Capitullo  RIX. 

ãa  razoni  por  que  dizem  que  se  deue  comer  huú  moyo 

dessal  com  alguâ  pessoa  ataa  queo  coyiheçam. 

JL  era  boo  conhecymento  dos  homeês,  e  molheres  di- 
2em  quesse  requere  comer  com  elles  hnu  moyo  dessal 
prymeiro  que  os  ajom  bem  conhecidos.  Eaquesto  por 
que  sem  grande,  e  perlongado  tempo  senom  pode  fa- 
zer. Ca  nom  digo  dos  outros,  mas  dessy  medes  poucos 
ham  boo  conhecymento.  Epor  que  niuytos  cuydam  o- 
contrairo,  querendoos  tirar  de  talduuyda,  lhes  pre- 
guuto,   se  grande  feito  nunca  lhe  foy  encomendada. 


174  O    LEAL    CONSSELHEIRO.       ^ 

nem   oteuerom   defazer,    como   sabem   que  discreçom 
teem  ,  por  que  ajnda  quelhes  pareça  que  as  bem  enlê- 
dem  ,  nom  se  julgue  assy  por  quanto  aprudêcia  e  dis- 
creçom  quer  obrar  acabadamenle  Enom  soomeiUe  en- 
tender,   e   orrazoar  como  fazem  muyios  maaos  execu- 
tores dagrãdes  e  boos  feitos  Nem  justiça  como  aguar- 
dam ,    de   que  guysa  opoderom  saber  senom  teuerem 
carrego  de  dar  sentença,  ou  fazer  tal  cousa  que  tocas- 
se  asseu    proueito  ou  de  outras  pessoas.    E  por  amor, 
hodio,   proueito,   perda,   prazer,   sanha,   temor,  pre- 
guyça ,  ou   epacho   nom  leixarom  de  obrar,   ou  julgar 
dereitamente   Datemperança  como  esta  olhem  ao  co* 
nier,  beuer,  e  feito  demolheres,  como  se  cadahuíi  go- 
uerna,    em   que  pryncipalmente  tal  uirtude  se  demos- 
tra ,    desy  se  todos  feitos  assy  temperadamente  obram 
q  nom  tressayara  nas  partes  sobejas ,  ou  fallidas.  Esçe 
todo  esto  alguíí  nom  conssijrou  como  conhecera  quan- 
ta parte  tem  em  el ,  ou  seu  amygo  desta  uirtude.    Na 
fortelleza  em  pellejas,  perigoos  domar,  doêças,  cousas 
dempacho  ,    tristeza  ,    nojo  ,    trabalhos  ,    e   cuydados , 
quem  demostra  uerdadeiramente  qual  he  cadahuu ,  se- 
nom aexperiencya  Em  lealdade  nas  cousas  perijgosas, 
molheres ,  dynheiros,  e  arrebatamento  dessanha,  quem 
per  todo   nom   passou  como   se   pode   conhecer.  Esse 
mal  assy   medes,    menos  aos  outros.  Epor  que  alguíi 
poderá   dizer,    pois   dos  homeês  senom  pode  auer  boo 
conhecymento  sem  taaes  experiências ,  e  prouas  como 
he   razom   auer  fiança  no  amygo,  que  per  todas  estas 
partes   nom  he  bem  examynado.  A  esto  respondo  que 
em  assua  boa  uoontade ,  nom  se  deue  poer  duujda  co- 
mo  dicto   he   desque  he  filhado  em  tal  conta,  mas  no 
poder  e  saber  nom   cõuem   mais  auer  confiança  ,  que 
segundo  dei  conhecermos,  assy  que  tenhamos  boa  spe- 
rança   contrairá  ,  ou  duuydosa  segundo  soubermos  que 
naquelle   feito   sabe,  e  pode.  Ca  nom  faz  perjuyzo  as- 
seu   amygo  quem   he   certo  que  nom  sabe  nadar,  por 
Bom  auer  em  aquello  dei  boa  sperauça  Eassy  em  se- 


o    LEAL   CONSSELIIEIRO.  175 

melhaníes  enxempros,  mas  nom  que  perteece  aaleal- 
dade  ,  e  fallicimento  de  certa  malícia  daquel  que  co- 
Dhecermos  que  teme  nosso  senhor  deos ,  ama  uyda 
uirluosa,  seo  por  nosso  amygo  conhecemos,  nunca  se 
deue  teer  contrairá  teençom  ,  ou  duuydosa.  Enos  que 
som  de  pouca  conciencia,  e  de  condiçooês  reuessadas, 
poslo  que  amygos  se  demostrem  ,  nom  se  deue  teer 
boa  sptrtirança  Ca  pois  nom  amam  deos  nem  a  melhor 
pnrte  dessy  medes,  doutrem  boos  amygos  nom  podem 
seer ,  posto  que  algíias  cousas  bem  feitas  por  elles  se 
aconteça  de  fazer.  Caos  feitos  de  semejhãtes  som  muy- 
to  daiientuira,  por  que  senom  regem  per  razom  ,  mas 
per  uoontade  que  oje  quer,  e  logo  enteja  Essegundo 
seus  mudamentos  cõuem  as  obras  seerem  de  pouca  fir- 
meza, e  segurança. 

Copilullo   T. 

Em   geeral  da  prudência  ,  justiça  ,  temperança,  f orlei* 

leza ,  e  as  condiçooês  que  perteece  aboo  consselhdro, 

XlásiSiS  três  uirtudes,  suso  scriptas,  .s.  Ffe,  Sperança, 
e  Caridade  se  chamam  theologaaes ,  por  que  per  ellas 
nos  enderençamos  asseruiço  denosso  senhor  deos,  que 
atheos  em  grego  he  chamado  E  das  outras  quatro  .s. 
prtidencia ,  justiça,  temperança,  forteileza ,  que  per 
xpaãos  de  todas  maneiras,  gentios ,  judeus ,  e  mouros 
que  liuros  delias  screuerom  som  chamadas  pryncipaaes, 
he  muy  comprydamente  trautado  em  o  liuro  do  regy- 
mento  dos  pryncipes  que  compôs  frey  gil  derroma  E- 
no  memorial  das  uirtudes,  que  das  heticas  daristotiiles 
me  ordenou  oadayam  de  sanctiago  Eno  pumar  das  uir- 
tudes que  fez  meestre  andre  de  paz,  menystro  dos  fra- 
des nieores  em  cezillia  Eem  uallerio  máximo,  E  tullio 
de  oficijs  Eno  liuro  das  coUaçooes  de  sam  joham  casia- 
no,  e  seus  stabeliicymentos ,  os  quaaes  ajnda  que  trau- 
tem  segundo  axpaâ  leligiom  todo  porem  tillosofalmente 


176  o    LEAL    CONSSELHEIRO. 

he  fundado  sobre  as  uirtudes  e  seus  contrairos  E  assy 
em   outros  liuros  que  eu  tenho  em  latim,  e  delles  em 
tal  ling-uagem  que  bem  sabees  leer ,  e  êtender,  porem 
sobejo   me   parece   screuer  delias  grande  leitura,   mas 
por  algua  cousa  delias  e  de  nossos  fallicimentos  sentir- 
des ^    uos  screuo   esta  mynha   conssijraçom  com  parte 
do  que  se  contem  nos  dictos  liuros,  nom  leuando  todo 
per  ordenança,  mas   mesturando  parte  do  que  me  so- 
bresto parece  per  conssijraçom  damaneira  denosso  uy- 
uer  com  alguãs  partes  daquelles  liuros,  e  dalguns  ou- 
tros  dictos   aprouados   que   ameu  propósito  me  lêbra- 
rom    Epor  que  doutras  uirtudes  assy  nom  screuo  e  a- 
questas   quatro   som   principaaes   do  que  as  outras  em 
special  perteece  alguas  cousas  aestas  aproprio  por  que 
aellas   bem   podem   perteecer.    Por  q  nos  auemos  me- 
moria, entender,  e  uoontade,  pareceme  que  toda  cou- 
sa em   que  fallecemos,    he  per  fallicymento   de  cada 
huã  destas  partes  .s.  por  nom  nos  nenbrar,  nõ  enten- 
der, ou  myngua  deboa  uoontade  Epera  gouernar  ame- 
moria   e   oentender  auemos  prudência,  aquai  se  pinta 
com    três   rostros  per   que  se  entende  nembrança  das 
cousas  passadas,  conssijraçom  das  presentes,  e  prouy- 
dencia   perao   que   pode   acontecer,    ou   speramos  qu» 
seja  Epera  reger  auoontade,  auemos  justiça ,  que  nos 
manda   entoda   cousa   obrar  oque  justo  e  (íereito  for, 
ajnda  que  ai  mais  desejemos,  ou  por  ello  ,  mal,  traba- 
lho, ou  perda,  duuydemos  receber.   Eper  esta  justiça, 
deuemos   anosso  senhor  deos  honrra  e  obediência   Aos 
prouximos  amor,  e  concórdia  Anos  castigo,  e  discipli- 
na   Eos   dous    geeraaes  desejos  ,  huii  que  chamam  co- 
bijçador,  per  temperança  se  rege,  Eo  que  dizem  yra- 
ciuel  per   fortelleza  Eauemos   em  cadahuà  cousa  ,  sa- 
ber,   querer,    e  poder,    ossaber  per  prudência  se  rege 
oquerer  per  justiça  e  o  poder  per  temperança  nas  cou- 
sas deleitosas,  e  per  fortelleza  em  contradizer,  come- 
ter, e  soportar  os  feitos  detemer,  ou  sentyr  perigoos, 
trabalhos,    nojos  grandes,   despesas,    desprazymento 


o   LEAL   CONSSELHEíRO.  177 

dalí^uas  pessoas  se  cõprir  por  guardar  oa  percalçar  uir- 
tude    Eposto   que   estas   uirUides   atodos  perteecã  aos 
grandes  senhores  mais  som  necessárias,  sem  as  quaaes 
suas  almas,  pessoas,  estado,  eos  dosseu  senhorio  se- 
riam  e   gram   pcrdiçom  ,    consijrando   sempre,    queos 
reynos   nom   som   outorgados   pêra  folgança  e  deleita- 
çom  ,  mas  pêra  trabalhar,  despritu,  e  corpo,  mais  que 
todos,  pois  que  tal  oficio,  que  ossenhor  nos  outorgou, 
he   mayor   e   de  muy   grande  merecimento,   aos  queo 
bem  fezerem  na  uyda  presente,  e  que  speramos  Eassy 
per  contrairo,  aquém  o  mal  gouernar,  por  que  nosso 
bem    «juer  amuytos  aproueita,  per  exempro,  castigo, 
niercees ,    e  gasalhado,    e   boo  razoar   Eo  mal  grande 
parte  perassy,  faz  tirar  segundo  aquel  dicto  per  exem- 
pro  do   rey  os  de  sua  terra,  mujtos  se  gouernam.  Es- 
sentyndo   o   muy  uirtuoso  e  degrandes  uirtudes  elrrey 
meu  senhor  e  padre  cuja  alma  deos  aja,  os  grades  car- 
regos dos   Rex   em   huã   roupa  fez  borlar  huu  camello 
por  seer  besta  demayor  carrega,  com  quatro  sacos  em 
que  eram   postos  sobre  cada  Irníí  estas  letras  ,   no  pri- 
meiro temor  demal  reger,  segundo  justiça,  com  amor, 
e  temperança,   terceiro  contentar  coraçooês  desuaira- 
dos  ,  quarto  acabar  grandes  feitos  com  pouca  riqueza, 
as   quaaes   carregas,    bem  conssijradas  poderom  os  se- 
nhores  entender   quanto   lhes  compre  encomêdar  seus 
feitos   a  t)osso  senhor,  e  chegarsse  ael  seguyndo  sem- 
pre  as    uirtudes  suso  scriptas  com  leixamento  detodos 
pecados.  E  por  q  muy  neces^ario  nos  he  pêra  bem  nos- 
so ,    e  de  nossos  reytíos  ,  e  senhorios  saber  filhar  cons- 
selhos ,  e  husar  delles  bem  ,  e  continuadamente  muyto 
cõuem  conssijrar  com  quem  nos  deuemos  auer.  E  por 
que   iiy   no   liuro   secrelis   secretorum  ,   que   se   afirma 
que    fez   aristotilles ,    alguãs   speciaaes   condiçooês ,    e 
uirtudes    que    se    requerem    ao    boo   consselheiro  ,    as 
quaaes  em   geeral  me  bem  parecerem  ,   uolla  fiz  aquy 
Iralladar,  por   tal   que   conheçamos  quanto  alguíi  pêra 
tal  carrego  he  perteecente,  e  uendo  esto  os  queo  te- 

Z 


178  O    Í.IÍAL   CONSSELHEIRO. 

uerê  se  auysem  do  que  deuem  fazer.  O  mais  proueito* 
so  pryuado  lie  aquel  que  mais  ama  tua  uyda  e  que  en- 
duze,  e  traz  os  subdictos  aatua  obediência,  e  amor ,' e 
te  oferece  todas  suas  cousas,  e  sua  própria  pessoa  des- 
poe  aproprio  teu  arbítrio,  e  prazimêto ,  e  tem  estas 
uirtudes  e  custumes  que  contar*íy.  A  prymeira  he  que 
aja  nêbros  cõuenyentes,  e  perteecentes  aas  cousas  per 
as  quaaes  he  scolhido  E  assegunda  que  auonde  em 
bondade  auondosa  pêra  poder  entender  aquello  que  se 
diz  Terceira  que  seja  deboa  memoria  pêra  reteer  a- 
quello  que  aprende,  e  ouça  detal  guisa  qòe  nunca  oti- 
re  fora  damemorya  O  quarto  que  conssijre  bem,  e  en- 
tenda quando  myngua  crecer  segundo  suso  disse  O' 
quynto  que  seja  cortes,  e  de  doce  lyngua,  em  taj  guy- 
sa  que  aiyngua  responda  ao  coraçom,  e  ao  penssamen- 
to,  e  sua  falia  seja  tal  que  lhe  cõuenha  O^sexto  que 
seja  penetratyuo  em  toda  sciencia ,  specialmête  naarte 
do  conto,  por  que  he  arte  muyto  uerdadeira,  e  de- 
mostratiua  Osseptimo  que  seja  uerdadeiro ,  e  amador 
deuerdade ,  e  fugydor  damentira,  e  deboa  desposiçom' 
em  custumes,  e  deboa  compreyssom  ,  suaue  ,  e  amo- 
roso, e  trautauel ,  e  mansso,  Oytauo  que  sejam  sem' 
€onstrangymento  de  gulla  o  gargantuyce,  e  heueclice 
em  seu  comer  e  beuer,  e  sem  çugidado  demolher  E  q 
se  departa  e  tire  dos  jogos,  e  deleitaçooês  carnaaes 
Onoueno  he  que  seja  de  grande  coraçom  ,  e  amador 
dehonrra.  Odecimo  he  que  ouro  e  prata^  e  outros  muy- 
tos  acidentes  cordiaaes  deste  mundo  sejam  delle  des-í 
prezados,  e  quasi  os  repute,  por  de  nenhuu  uallor,  e 
seu  proposyto  e  entençom  todo  seja  em  aquellas  cou- 
sas que  perteecem  e  cõuem  aarreal  mageslade,  o  aa 
seu  regymento,  e  ame  assy  pêra  guardar  justiça ,  oar- 
redado  como  oachegado.  Undecymo  he  que  ante  ame 
e  preze  os  justos  e  ajustiça,  e  auorreca  os  malles,  e 
êjurias,  e  todaiias  oíenssas  ,  e  de  a  cadahuu  oque  he 
seu,  e  socorra  aos  aflitos  e  aprossados,  e  seja  tirador 
da  sem  razom   aqueiles  que  sem  causa  padecem  jnju* 


o    LEAL    COxXSSELHKIRO.  179 

rias,  e   agranos,  e  iiom  faça  em  esto  deferença  anire 
os  liomees  que  deos  osenxalcou  e  criou  jguaaes  O  xij.* 
que  seja  deíbrlc  e  persseuerante  propossilo  em  aquel- 
Jas   cousas   que   sabe,    e   entende  que  tem  defazer ,  e 
audaz  e  sem  temor,  e  mjngua  Oxiij."   he  que  saibha 
como   se  fazem  as  despesas,  e  nom  lhe  seja  ascondido 
qual   quer  proueito   que   spere   do   negocio   que  aelle 
perteece ,    e  nom   seja   cousa  queos  subdictos  se  pos- 
sam delle  quereilar,  nem  fazer  alguíí  queixume,  saluo 
em  os  casos  suso  dictos  .s.  que  perteçam  e  aproueitem 
aarreal  magestade  Oquarto  decimo  he  que  nõ  seja  pal- 
]auroso  ,  nem   auedor  de   arroydos  ,  nê  rijso,  por  que 
atemperança  muyto  uai  em  ohomem,  Eleixesse  detodo 
em  todo  deuyar  esto  contra  os  homeens,  e  trautos  be- 
nignamente   Oquynto  decimo    he   que   nom    cõuersse 
jiem   huse   com  aquelles  que  husam  e  se  reproua  com 
ouynho ,    e   assua  casa  seja  conhocida  e  manygfesta  a- 
todos    Esseja   pronto   e  jntento    buscar   e  saber  nouas 
dos  homeens  segundo  lhe  perteece  Essaibha  conssolJar 
os  subdictos,  e  correger,  e  emendar  suas  obras  cons- 
selhandoos ,    e   remouendo,    e   tirando  suas  symplezas 
em  as  cousas  contrairás.  Sabe  (  g° )  que  deos  exceisso 
nom    criou    criatura  mais  sabedor   queo  homem  ,   nem 
ajuntou  em  criatura  nenhuma  oque  pos  em  elle,  e  nora 
poderás   achar  em  outra  criatura  que  anymal  seja  cus- 
tume  que  nom  aches  em  o  homem,  e  que  delle  parti- 
ci])ante  nom  seja,  e  companheiro. 

CapituUo  1j. 
Da  uirtude  da  prudência  em  special. 

Q 

V^  obre  oque    perteence   aauirtudo   prudência  ,    amym 

parece,  que  nom  cõuem  aperssoas  que  uirtuosamente 
dospjom  uyuer  creersse  per  seus  coraçooês  em  qual 
quer  estado,  por  as  grandes  mudanças  de  seus  senli- 
menios  por  que  hufi  promete  que  he  abastante  jejíiar 
tempo  muy  perlongado  fora  do  geeral  custume,  e  ou- 

Z   2 


ISO  rt   LKAL   OONSSELHEIRO. 

tro  nom  quer  dar  lugar  que  aguarde  acomer  ataa  ues- 
nera   sê    tain    grar.de    pena    que  mostra  nom  seer  pêra 
soportar.   FCssemelhante  faz  nas  pellejas ,  obras,  despe- 
sas, trabalhos  do  etitender  e  do  corpo  Eas  cousas  con- 
trairás de  grande  conta  muytas  uezes  soporta  njuy  ual- 
lêtemente,  e  outras  assaz  pequenas,  fora  de  razom  o- 
derrubam    Epor   ta;. to   cada   liuu   conssijre   suas  obras 
que  ja    praticou,  e  as  que  fazem  seus  seniellianíes ,  e 
assy    ueja  oque  pode  fazer.  Essobre  tal  fundamenlo  se 
afirme,    nom   se   atreuendo  sandiamente  por  alargueza 
de  seu  coraçom  ,  nem  se  aperte,  recee  ,  ou  apriguyee, 
por  sua   fraqueza,    e   deleixamento ,    por  que   grande 
fundamento   he  da  rauy   perfeita  prudência  nom  se  re- 
ger  per  seus  desejos  e  paixooês,  mas  per  aquello  que 
nosso   boo   entender  demostra,  ou  per  soficieníes  pes- 
soas quando  cõuem  nos  he  eõsselhado.    E  diz  no  liuro 
do  regymento  dos  pryncypes,  que  por  três  cousas  per- 
teece  aos  Rex  e  senhores  seer  prudentes.  Huii  he  por 
ceerem  uerdadeiros  regedores,  e  saberem  afym  per  a- 
qual  deuem  reger  e  guyar  seu  poboo,  ca  nom  ossaben- 
do ,    nom  poderiam  reger  auondosamente  e  seriam  se- 
melhantes aaquel  que  tem  oarco,  e  he  prestes  pêra  ti- 
lar oqual  nom  ueendo  ossynal  nora  tiraria  dereitamen- 
te    Porem  diz  arristotilles  no  liuro  sexto  damoral  íillo- 
sofía ,  aqueiles  sõ  prudentes  que  sabem  reger  sy  e  ou- 
tros pêra  fym  cõuynhauel  Epois  que  afym  he  dos  Rex 
seerem   regedores    Eesto   elles  nom   podem  fazer  sem 
prudência,  necessariamente  lhes  cõuem  seer  prudentes 
Eem  outra  guysa  seriam  chamados  Rex  e  Senhores,  © 
nom  osseriam  uerdadeiramente,  semelhãtes  aosdynhei- 
ros   dos   contadores  que  representam  grande  uallor,  e 
per  sy  ualem  muy  pouco.    Outra  cousa  per  que  os  se- 
nhores  deuem    seer  prudentes  he  por  quanto  aqueiles 
que    prudência   nom    hfí   ligeiramente  poeram  sua  bena 
aiienturan^a   nas   riquezas   deleites,   e   j)razeres  corpo- 
raaes,  e  leixarom  as  bondades  das  uirtudes,  e  todo  sea 
bem  será  aue?  auondança  dos  beês  dos  sentidos,  e  pe^ 


o  LEAL  CONSSELÍÍÍIÍIIO.  lííl 

ra  éomprír  seu  apetito  fazersseam  tiranos  e  roubadores 
do   poboo.    A   terceira   cousa   que  deueni  os  Senhores 
drmouer  asseer  prudentes  he  por  seerem  naturaaes  se- 
nhores,   e  regedores  Ca  diz  aristotiles  no  prymeiro  li- 
iiro  da  polecia,  aquel  que  deslallece  no  jntendiniento , 
e   noni   sabe   reger  sy  meesmo  he  naturalmente  seruo 
Aquel  que  iè  prudência .  e  sabe  reger  sy  e  outros  na-, 
turalmente  he  senhor  E  esto  nom  sooinente  he  uerda- 
de  por  odizerem  os  fillosofos,  mas  aída  conssijrando  os 
regymenlos  naturaaes,  ueemos  os  homeês  seer  senho- 
res  das   bestas  por  sua  prudência  ,  e  as  molheres  seer 
sogcilas   aos  baroões ,  por  que  fallecem  em  prudência 
E   os   moços  naturalmente  deuem  obedecer  aos  uelhos 
q    ham    niayor  speriencia  das  cousas  e  som  mais  pru- 
dentes   E    por   tanto  pois  q  os  Rex  som  naturaaes  se- 
nhores e  regedores  perteecelhes  muyto  seer  prudentes 
e   deboo   entender,  por  tal  queo  nome,  e  oficio,  e  as 
obras   que   fezerem  ajam  outrossy  perteecente  concor- 
dança  Eno  pumar  das  uirtudes  se  declara,  que  prudên- 
cia, he  muyto  necessária  aos  pryncypes,  segundo  que 
diz  uegecio  em  no  liuro  da  cauailaria,  antre  todos  nom 
he   alguii   aque   mais   perteeça   saber   mais  e  melhores 
cousas  que  ao  pryncipe,  por  que  sua  doutrina  deue  a- 
proueitar  atodos  seus  sujeictos    Earristotilles  no  3."  li- 
uro dos  tópicos  diz,  nenhuú  deue  descolher  os  moços, 
guyadores  dos  exércitos,  guerreadores ,  por  que  cousa 
manyfesta   he ,    que  nõ  som  prudentes  segundo  que  se 
lee  em  o  5.  liuro  depollicrato  Três  cousas  som  que  fe- 
zerom  os  romaãos  uencedores  das  gêtes  .s.  Sabedoria, 
Exercício,  Fe.  Sciencia   de  bem  reger.  Exercício  das 
armas  e  Qe  era  manteendo  oque  prometia  por  que  se- 
gundo se  proua  pellas  defijçooês  da  prudência  Prudên- 
cia he  huà  sabedoria  e  sciencia  per  aqual  ohomem  co- 
nhece ordenar,  e  em  deuyda  fym  ecamynhar  as  cousas 
que  ha  defazer  Eporisso  dizia  platom  Entom  será  bem 
auenturado    omundo,    e   aterra,    quando   os  sabedores 
começassem  derreynar  e  os  Rex  de  saber,  oqual  dicto 


1S2  o  LEAL    CONSSELHEIRO. 

deplatom   nembra  boecio  em  oliuro  prymeiro  da  oons-r 
sollaçõ  dafiUosofia  per  taaes  pallauras  E  lu  dizia  afilio- 
Sofia  aboecio ,  que  assentença  deplatom  per  tua  boca 
iBuytas  uezes  louuaste,  bem  auenturadas  as  cousas  pu- 
blicas ,    se  alias  forem  regidas  e  gouernadas  per  sabe- 
dores ,    ou  seos   regedores  delias  aqueecem  seer  sabe- 
dores, leesse  ajnda  no  liuro  ojtauo  do  pollicrato  os  ro- 
naaãos  emperadores  ,  e  seus  regedores,  e  duques,  nom 
me  nembra  queo  bem  publico,  nom  fosse  melhorado 
em  quanto  elles  forom  sabedores  e  leterados ,  e  nõ  sey 
como   aqueeceo ,    ca  logo  como  auirtude  do  saber  em 
elles   enfraqueceo ,    logo   enfermar  começou  amaão  da 
jauallaria    Eiiõ    sem   razom  ,    por  que   sem   sabedoria 
nom  pode  muyto  durar  opryncypado  Eporem  diz  dessy 
assabedoria  5  aos   oito  capitullos ,  dos  prouerbios   Per- 
mym  reynam  os  Rex ,  e  os  pryncipes  som  senhores   E 
certo  destas  autoridades  bem  se  demostra  que  compre 
aos  pryncipes  seer  prudentes  Eajnda  se  pode  esto  de- 
clarar per  alguãs  rezoões ,  das  quaaes  aprímeira  he  es- 
ta   Aos   principes   compre  derreger  e  encamynhar  seu. 
poboo   em   ordenada  e  deuyda   fym,  e  esto  faz  apru- 
dencia,   ergo  sem  prudência,    nom  poderam  reger,   e 
per   consseguynte  nom  poderam  seer  pryncipes.    Asse- 
srunda  razom,  diz  aristotilies ,  enno  5."  liuro  das  ethi- 
;cas   aquelles   que   penssamos   seer  prudètes  que  assy  e 
aoutros   podem   encamynhar   e   prouer    Pois   certo  aos 
pryncipes   cõuem  muyto   de  jmaginar   e   penssar  boas 
cousas   e  proueitosas  perassy  e  pêra  os  outros   Perassy 
por  que  muytas  cousas  deuem  amuytos,  e  hanlhes  de 
<lar   peraos   outros,    por   que   deuydo    he   ao  pryncipe 
.s.   atodos  aproueitar  ergo  aelles  compre  specialniente 
seer  prudentes  A  terceira  razom  he  prudencya  he  assy 
como   huu  olho  daalma,  per  oqual  em  todallas  cousas 
per  que  opryncipe  opoboo  deue  desseer  encamynhado, 
'ergo  se  oprincipe  carecer  de  tal  olho,  opoboo  nom  po- 
derá seer  bem  encamynhado,  nem  bem  gouernado  E- 
desto  se  segue  destruyçom  do  poboo ,  e  destrujdo  o- 


o   L^EAL    CONSSELHEIRO.  1  R3 

poboo  destruydo  he  opryricypado  Aquarta  razom  he 
esta,  assy  se  deue  de  auer  opryrjcypado  ao  poboo,  as- 
sy  como  obeestciro.  se  ha  assecla,  pois  certo  assy  sea 
obcesteiro  que  nom  pode  encaiiiynhar  asseeta  ao  fito 
senom  qiieo  ueja,  ergo  oprincipe  nom  pode  encamy- 
nhar  opoboo  aboa  fyni,  nom  conhecendo  afim  Eafim  se 
nom  pode  conhecer  sem  prudência,  ergo  compre  ao 
pryncype  seer  prudente  Aqujnta  razom  ,  e  derradeira, 
assaude  do  poboo  he ,  he  saúde  do  pryncipe  eo  pryn- 
cipe  áeue  muyto  de  amar  sua  saúde,  Etal  amor  nom 
pode  seer  sem  prudência,  ergo  côpre  ao  pryncype  seer 
j  rudente. 

Copytullo    111. 

Que  cousas  perfeece  aos  Rex  e  aoutros  senhores  pêra 

seerc  prudeies ,  e  per  q  modo  opodeni  seer. 

\^'  isto   quanto   compre   aos   senhores  Eaos  que  teem 
regymento  seerem  auondosos  em  prudência  seguenss» 
as  cousas   que   lhe  perteece  perao  seerem  com  agraça 
de   deos    E   per  que  modo  se  podem  fazer  prudentes, 
nom   declarando  que  he  prudencya  segundo  as  desuai- 
radas   defijçoões  entençooês   dos   sabedores  que  delias 
failom  ,    por   que   perteecem  mais  assaber  de  leterados 
que   aos   que   som   damaneira  de  nosso  uyuer.  Naquel 
liuro  do  regimento  dos  pryncypes  se  declara  que  todo 
Rey   e   duque,    que    perfeitamente  quer  auer  prudên- 
cia,   deue   auer   as   propriedades  da  dieta  uirtude,  as 
quaaes  som  oito   .s.  Renembrança  das  cousas  passadas 
Ca  diz   aristotilles   no  2.°  liuro  da  rcictorica,  que  nos 
feictos  que  os  homeês  fazê  por  sua  uoontade ,   amayor 
parte   dos   que   hã  desseer,    som  semelhantes  aos  que 
ja  forom.  Outrossy  deue  auer  auysamento ,  magynan- 
do  oque  ha  da  contecer,  e  per  que  maneira  mais  asy^ 
nha   auera  seu  propósito,  deue  ajnda  desseer  entendi- 
do, e  sabedor,  que  saibha  lex,  e  cuslumes,  e  regias 
de   dereita  razon) ,    as   quaaes  lhes  sejam  pryncipios  e 
fandamentos  deque  proceda  em  seus  feitos.  Epertee- 


184  O    LEA.L   CONSõELHEIRO. 

celhe  desseer  razoauel  pcra  maginar  quaaes  camynhos 
e  modos  pode  tirar  daquelias  regias  peraauer  oque  de- 
seja,   Cõprelhe   outrossy  auer  sotilleza  pêra  seer  acha- 
dor   dos   beês   que   som   compridoiros  ao  seu  poboo  E 
por  quanto   huu   homem   nom   pode   tam  magynatyuo 
seer   que   todallas  cousas  proueitosas  aas  suas  gentes, 
perssy   possa  cuydar,    cõuem   atodo   senhor  que  beni- 
gnamente ouça  os  consselhos  dos  sabedores,  e  dos  ba- 
roões   dos   fidalgos ,  e  dos  antijgos  e  daquelles  que  a- 
mam  orreyno ,  e  ossenhorio  Epor  que  as  gentes  muy- 
tas  ham  cõdiçooês  desuairadas,  e  per  desuairados  mo- 
dos deuem  seer  regidos ,  he  necessário  ao  senhor  auer 
muytas  speriencias  de  conhecer  osseu  poboo  perao  sa- 
ber melhor  reger  e  ordenar  aafym  que  ha  dauer.  Apes- 
tumeira  propriedade  que  ha  dauer,  he  que  seja  sages 
por  que  assy  como  nas  sciencias  per  uezes  se  ajuntam 
aas  falssidades  com  as  uerdades ,  e  penssa  homem  que 
todo   he   uerdade,  assy   nos  feitos  e  obras  que  homem 
ha  de  fazer  aos   poboos  se  ajuntam  os  maaos  e  pare- 
cem  boos ,    e  nom   os  som  Epor  tanto  compre  ao  se- 
nhor seer  sages  pêra  estremar  ornai  do  bem  ,  e  derei- 
tamente  reger  sua   gente,  auendo  renembrança,  e  a- 
uysamêto  e  sabedoria  seendo  razoauel  que  dhuã  razoai 
lire  outra  segundo  for  corapridoiro,  e  aja  sotilleza  den- 
tendymento ,  e  receba  bem  os  consselhos ,   filhe  muy- 
tas speriencias  e  seja   sages   em   suas  obras  e  per  tal 
maneira   poderá  uerdadeiramente  seer  p-rudente   E  cõ- 
uem aos  senhores  por  tal  que  ajom  prudência,  despen- 
derem amayor  parte  dessua  ujda  em  cuydados  prouei- 
tosos  aos  seus  senhoryos,  filhando  porem  em  tal  guysa 
as   recliaçooes   corporaaes   que   nom  sejam  por  ello  ê- 
bargados   no   regymento   natural    Eprimeyramente  de- 
uem  magynar  os  tempos  passados,  e  trabalhesse  que 
osseu  tempo  seja  semelhauel  aaquel  em  que  os  reynos 
e  senhorios  forom   melhor,    e  mais  seguramente  regi- 
dos,   que  assy  como   os   sabedores   proueitam  no  que 
screuerom  os  ieterados  antijgos ,  assy  proueitam  os  re- 


o  LEAL  CONSSTILHEIRO.  105 

gedores  conssijrando  per  qíje  maneira  regerem  os  seus 
antecessores,  e  em  estes  íiiiiarom  renenibraça.  Deuem 
ajnda  magynar  os   proueitos   que  podem  uijr  aas  suas 
terras  e   os   malles   quesselhes  podem  soguyr,    e  assy 
auerem  aujsamento  pêra  se  poder  guardar  domai  e  mais 
tostemente   auer  obem    Outrossy   deuem  conssijrar  os 
boos  custumes,    e   boas  Jex ,    e  quanto  mais  em  elles 
souberem,    tanto  serom   mais  sabedores ,  e  cõuenlhes 
ameude  cuydar  per  que  guysa  segundo  taaes  lex  rege- 
rem  osseu   poboo,  e  fazendo  esto  serom  razoauees ,  e 
auendo    tal   husança,    fazersseam   prudentes.    Essobre 
todas  estas  cousas,  muyto  perteece  aos  senhores  aue- 
rem boas  uoontades,  por  que  amallicia  faz  maao  juyzo, 
e  auoontade  malleciosa  julga  as  boas  cousas  por  maas, 
e   as   maas   por  boas,  segundo  que  faz  aquel  que  tem 
ogosto  corrupto,  ao  qual  acousa  doce  parece  amargo- 
sa   Eesta   boõdade   da  uoontade   he   muyto  necessária 
aqual  quer  rregedor,    e   sem  ella  nom  pode  seer  pru- 
dente E  por  esto  diz  aristotilles  no  sexto  liuro  da  mo- 
ral fiUosofia,  que  ípossyuel  cousa  he  oprudente  seer 
nom  boo. 

Capitullo  liíj. 
Doutros   speciaaes  aujsamentos  sobre  aprudencia\ 

V^uerendo  sobre  auirtude  da  prudência  dar  alguús 
outros  speciaaes  auysamentos,  me^pareceo  sobejo  e 
presunçom  pêra  mym  pouco  perteêcente,  mas  conssij- 
rando que  pryncipalmente  screuo  pêra  uos ,  e  outras 
pessoas  de  corte  do  que  tenho  scripto,  e  adyante  se 
dirá  com  oque  ao  presente  se  coorre ,  uos  declaro  es- 
tas cousas  adiãte  scriptas  por  mayor  enformaçom  pas- 
sando per  todo  sumariamente.  Por  agrando  excellencia 
delia,  geeralmente  percalçamos  com  agraça  do  senhor 
deos  as  cinquo  fíjs  no  começo  deste  trautado  decJara- 
ílas  .s.  pryncipal  per  guardar  sempre  bem  aconciencia 

Aa 


J85  O    LEAL   CONSSELHEÍRO. 

na  fym  de  nossos  dias  hirmos  a  eternal  gloria.  Seg-unda 
bem  niáleer  e  acrecentar  nossa  honrra ,  e  boo  estado. 
Terceira  Continuadamente  uyuer  em  boa  desposiçoni 
de  saúde    Quarta   gouernar   acasa  ,  e  fazenda  bem  ,  e 
proueitosamente  Quynta  uyuer  sempre  em  razoado  boo 
plazer   e   contentamento.    Eno   capytollo   do   entcndy- 
mento   que   desto   falia   som  declarados  alguils  médios 
pêra   iiijr  aesías  fíjs,  mas  nom  embargando  que  apru- 
dencia  de  cadahuii  denos  nom  seja  bastante  cobrar  nem 
manteer  qual  quer  delias  per  nossa  própria  uirlude  sem 
special   graça   da  nosso  sejihor  arregra  dicla  darrazom 
quanto  em  nos  for  nunca  deue  seer  leixada  onestamen- 
te    uyucndo  aoutrê   nom  empeeceiido,  e  dando  acada- 
huã  cousa  oque  seu  he.  Equando  assy  fezermos  sobre 
alguii   feito   leixemos   a  nosso   senhor   oque  for  aalem 
denosso   poder   e  saber,  ca  daquella  guysa  que  nossa 
razom    e  discreçom  nom  deuemos  presumyr  que  he  a- 
bastante  pêra  per  ella  sollamente  alguii  pryncipal  bem 
percalçarmos ,    e   assy   nunca  deuemos  leixar  de  obrar 
com   ella,    ataa   onde   mais  e  melhor  obrar  podermos, 
por   que   grande   mal  e  pecado  he  ,  nom  curarmos  da- 
quella estremada  uirtude  per  que  ossenhor  deos  deto- 
das   outras    criaturas   deste  mundo   nos  ha  estremado  ^ 
em  uantagem  ,  e  melhoria  E  nom  deuemos  leixar  nos- 
sos feitos  aafortuna  por  seguyr  uoontade,  e  uyuer  bes- 
tialmente  ou    por   maas   artes   e  meestrias ,   ajnda  que 
delias   por  hiiu   tempo  nos  achemos  ajudados,  e  syga- 
mos  nom  justamente  nossas  uantagees,  por  que  he  con- 
írairo   danossa  sancta  fíe ,  e  uirtuosa  tcençom  ,  mas  o- 
boo  cathoUico  deue  filhar  as  bem  auenturanças  e  auers- 
sydades  presentes  por  cousas  meaâs  ,  as  quaaes  ueê  a- 
cadahíiu  como  praz  anosso  senhor,  per  tantos  segredos 
que   senom    podem   entender,  nem  julgar,  as   quaaes 
aos  queo  uerdadeiramente  oamam  ,  e  ham  propósito  de 
uirtuosamente  uyuer   todas   se   torna   em  íjem  na  pre- 
sente nyda ,  ou  que  speramos,  e  na  questa,    huãs  ue- 
zes   logo   conhecidamente,    e   outras   tanto   longe  que 


o    LEAL    CONSSELIIEIRO.  187 

poucos  oconssijratn  ,  poroiii  sem  duuyda  cõuem  creer 
que   osseu  justo  juyzo  iiuiica  podo  fallecer.  Conlra  os 
que   aueiUura,  coslelJaçom  de  pranetas  eiicomendani  , 
e  leixam  seus  feitos,  eu  lhes  digo  que  se  bem  conssij- 
rarem   que   todo   uem   denosso  senhor  Ca  se  disserem 
tal  homem  he  bem  squeençado  em  guerra  por  que  ou- 
ue  boo  nacymeuto,  c  as  planetas  Jho  outorgarem  com 
ajuda  dessua  uaçom ,  I3  nhagem  boa  husança  e  per  ou- 
tros speciaaes  segredos  da  fortuna  que  se  nom  podem 
bem  percalçar,  oqual  uyue  mal,  e  nom  he  em  ai  uyr- 
tuoso  como  foy  anybal ,  e  outros  assaz  de  que  ao  pre- 
sente som  em  renembrança,  assaz  de  enxepros  Eporem 
ataaes   nom  deuya  este  bem  seer  outorgado  queo  per- 
calçom    sem   prudência  nem   uirtude    Aesto  respondo 
que  nom   contradigo   uijrem  estes  beês  aos  semelhan- 
tes, pois  som  cousas  meaãs  que  aboos  e  amaaos  podem 
uijr,  mas  todo  uem  per  ordenança,  ou  peruisõ  daquel 
senhor  que   diz   sem  mym  cousa  nom  podees  fazer ,  e 
que   os   pássaros   na  praça  se  nom  uendiam  sem  nosso 
padre  que  he  nos  ceeos ,  mas  esto  lhes  leixa  nijr  aal- 
gufis   por   gallardom   de   certos   bees ,  e  uyrtudes  spe- 
ciaaes  que  ha  em  elles  desseerem  uerdadeiros,   myse- 
ricordiosos,  castos,  e  semelhantes  aas  quaaes  nom  po- 
dendo ficar  sem  gallardom  na  presente  uyda  per  taaes 
beês  finalmente  orrecebê  outros  leixa  leuantar  por  re- 
ceberê  maa  e  desonrrada  fym,  por  tal  que  nom  se  po- 
nha em  semelhantes  cousas  nossa  principal  bem  auen- 
turança   como  se  diz  no  liuro  do  regymento  dos  pryn- 
cipes   q   nom  se  deue  poer  em  ai  senom  em  obem  das 
uirtudes,  nem   as  auerssidades  filhemos  por  mal  pryn- 
cipal   segundo   seneca  no  trautado  da  prouydencia  dy- 
uyna.  inuy  compridamente  proua  e  declara,  e  assy  na 
sexta  coUaçom   sobre  amorte  dos  sanctos    Eporem  so- 
bresto que   he   dicto   e   adiante  se  dirá ,   sam  de  filhar 
es(as   cõclugsooes.   Prymeira  que  todas  cousas  que  nos 
uenham  ,  som    per   ordenãça  denosso  senhor  deos  que 
muy  dereitamête  sempre  da,  bem  aos  boos  e  uirtuo- 

Aa  2 


188  O    LEAL    CONSSELHEÍRO. 

SOS,  OU  ajnda  que  pareça  uijrlhe  mal  que  todo  se  tor- 
na em  mellior  na  presente  uyda,  ou  que  speramos  Se- 
gúda  que  alaa  onde  abranger  nossa  discreçom  com  boo 
consselho  e  auysamento  das  pessoas  aque  perteece  em 
cada  huu  feito,  nunca  leixemos  com  sandice,  priguy- 
ça  esta  cesa  e  seguymento  de  uoontade,  nossos  feitos 
afortuna,  nem  speremos  que  myracullosanienle  deos 
nos  ajude  oqual  nos  mandOu  uygyar,  seer  auysados  bê 
e  prudentes.  Terceira  que  nunca  pêssemos  seermos 
bastantes  pêra  uijr  per  nosso  saber,  e  poder  soliamen- 
te  aperfeiçom  da  alguu  grande  bem.  E  quando  nos  ue- 
her,  nom  anos  mas  aossenhor  demos  gloria  Quarta, 
que  quando  fezermos  em  qual  quer  cousa  omelhor  que 
podermos  entender  com  grande  paciência  e  boo  esfor- 
ço, soframos  oque  nos  contrairo  parecer,  que  nos  uem 
per  ordenança  denosso  senhor  deos  emendado  nossos 
iallycymentos ,  pedindolhe  mercee ,  e  piedade,  conhe- 
cendo nossa  fraqueza  e  sua  excellencia.  Quynta,  que 
deuemos  saber,  e  bem  conhecer  as  próprias  uirtudes  e 
pecados ,  eos  aazos  per  que  podemos  com  agraça  do 
senhor  as  uirtudes  mais  ligeiramente  segujr,  e  auer, 
ou  nos  pecados,  e  outros  erros  eayr,  e  mal  delles  nos 
guardar  Eauydo  tal  conhecymento,  seguyr  omelhor  por- 
q  aprudencia  pryncipalmente  esta  em  bem  e  uirtuosa- 
niente  sempre  obrar,  mais  q  entender,  nem  razoar. 
Sexta,  que  saibhamos  que  opossuyr  das  uirtudes  he 
uerdadeiro  bem  ,  e  oestar  ,  e  acabar  em  mortal  pecado 
he  acabado  mal  E  que  todas  outras  cousas  som  meãas 
delias  mais  jnclinadas  aaparte  do  bera ,  e  outras  ao 
contrairo  em  cadahuíi  estado  pêra  auyda  presente  & 
que  speramos.  Seytema  que  sejamos  bem  auysados 
prouystos  e  percebidos  peraos  casos  cõtrairos  com  boa 
duuyda ,  e  receo  delles  auendo  no  coraçom  razoada 
segurança,  como  fazia  aquel  sancto  Condestabre  que 
na  paz  e  todo  assessego  era  tam  auysado  e  bem  pro- 
uysío ,  como  se  fosse  ê  tempo  de  grande  necessydade 
Eaquesto  fazia  por  Ires  razoões  Prymeira  por  nom  seer 


o    LEAL   CONSSELHEIRO.  189 

acTiado  despercebido  em  algiius  acertamentos  nom  pens- 
sados,  Segunda  por  trazer  os  seus  bem  custumados  as- 
sofrerem  trabalhos  em  o  uellar,  roldar,  caualgarem  muy 
ameude   com   as   lanças   na  maão ,  e  cotas  uestidas ,  e 
semelhantes ,    Equando   tal   caso  uehesse  melhor  osso- 
portarem  Terceira  por  nom  fazer  por  pequenas  cousas 
moslrança   denouo  receo  por  se  querer  pêra  elias  per- 
ceber.   E  antro  as  muytas  uirtudes  que  ouue  este  uir- 
tuoso   conde  desta  foy  sempre  muy  louuado  que  eram 
tam  circonspecto  em  todo  que  ouuesse  de  fazer  q  nom 
podiam    com    razom  em  myngua  da  uysamento,  e  boa 
percebimento   seer  cõ   dereito  e  uerdade  prasmado   E 
con»    todo   tal   auysamento ,  e  receo  do  que  acontecer 
lhe  podia  ,  era  nos  medos  e  pellejas  tam  seguro  e  sem 
temor   pêra   soportar,    e  cometer  que  outro  mais  nom 
poderia  seer  achado    Epor  que  husamos  destes  nomes 
que  huCis  por  outros  mujtas  uezes  se  dizem,  .s.  auysa- 
do ,    percebido,    proujsto,  e   circonspecto,  uos   farey 
declaraçom    de  suas  deferenças,  por  oque  dello  uy ,  e 
me  razom  parece  Conssijrando  no  q  pratycamos,  e  for- 
ça  dos  uocabullos ,  e  de   tal   conhecimento  aalem  da 
enssynança  do  razoado  fallar,  se  deue  seguyr  proueyto 
pêra  sabermos  como  detodo  esto  cõuem  bem  husar  aos 
que   teuerem   auyrtude   da   prudência  Auysamento  he 
de  duas  guysas ,  huâ  nas  cousas  q  ueê  darreuato,  e  a- 
contecymento,  outra  denos  outrem  auysar,  ou  pernos 
penssarmos    peranos  guardar  dos  contraíres  q  nos  pos- 
sam uijr,  ou  percalçar  os  beens  que  desejamos  Percy- 
bymento   quãdo   teemos   prestes  e  bem  aparelhadas  a- 
quellas  cousas  deque  nos  entêdemos  seruyr,  defender, 
aproueitar,  e  honrrar.  Prouymento  he  quandosse  bem 
prouee  que  ja  tem  uysto ,    ou  sabido  perao  melhor  sa- 
ber ordenar,    dar   aexecuçom   per   obra,  ou    pallaura. 
Circonspecto   he   pallaura   latynada ,  pouco  custumada 
em   nossa   lynguagem  aqual  se  diz  em  logar  destas  to- 
das  três  e  asse  por  muy  pryncipai  parte  da  prouyden- 
cia,  por  que  per  esta  uirtude  se  reaembram  no  lempo 


100  o    LEAL.    COXSSELHEiaO. 

<j|ue  perteecê  as  cousas  passadas  Esse  ha  boa  conssij- 
raçom  nas  presentes  e  prouijmento  peraas  que  som  por 
uíjr,  ajnda  perteece  aesta  uirtude  sagesmente  sospei- 
tar  oque  se  faz  ascondidamente ,  e  deujnhar  per  lume 
dessotil  entender  e  boa  pratica  das  cousas  oque  adian- 
te dos  feictos  sj)eciaaes  se  ha  desseguyr  Esto  uj  fazer 
aelrrey  meu  senhor  cuja  alma  deos  aja,  muyto  dauan» 
tagem  em  cousas  que  os  mais  julgauom  por  começo 
dauerssydade  determynar  que  uerriam  aboa  fym,  e  ou- 
tras ao  contrairo  Eadiante  as  mais  uezes  sempre  era 
como  el  dizia  Enom  embargando  q  sobre  tal  adeuy- 
niiar,  nom  se  aja  defazer  certo  fudamento  muyto  po- 
rem respondem  os  feitos  como  julgam  os  discretos  prá- 
ticos, e  bem  entendidos  Por  quanto  se  diz  nos  cons- 
selhos  daristotilles  dessecretis  secretorum  que  per  cõs- 
selhos  destroUogos  auemos  de  fazer  todos  nossos  fei- 
tos por  que  he  grande  prudência  E  em  esto  me  pare- 
ce que  deuemos  estar  adetermynaçom  da  saneia  ma- 
dre jgreja  Eonde  ella  outorgar,  e  nom  contradisserem 
seus  consselhos  ao  que  perteece  anosso  boo  estado, 
jiom  deuem  em  todo  seer  desprezados ,  mas  onde  ai- 
greja  ocontrairo  mandar,  anosso  senhor  que  he  sobre 
todos  estrollogos ,  e  melhor  sabe  scolher  os  tempos  e 
oras,  deuemos  todos  nossos  feitos  comêdar  nom  deso- 
bedecendo ael  por  obedecer,  nem  seguyr  outro  cons- 
selho  destroUogos,  nem  dos  que  pêra  outras  artes,  ou 
sonhos  adeuynham  ,  nem  uoontade  que  nos  faz  sospei- 
tar  oque  será,  mas  onde  nom  for  defeso  bem  se  podem 
guardar  alguãs  speríencias  speciaaes  que  cadahuíí  acha 
certas,  nom  lhe  dando  por  ello  grande  ffe,  conhecêdo 
que  som  taaes  cousas  em  que  ha  muytas  bulrrás,  e 
poucas  uerdades.  Posto  que  per  mym  nom  possam  seer 
declaradas  todallas  partes  que  perteecem  aaprudêcia, 
como  aquella  que  he  uirtude  do  jntendymento ,  rege- 
dor das  uirtudes  moraaes,  pella  qual  se  fazem' as  obras 
seguiido  os  modos  achados,  e  julgados ,  ajuntador  das 
regias  geeraaes  aos  auctos  partycullares,  a  qual  proce- 


f^    LEAI.   CONSSELHfirRO."  191 

de  da  ordenança  da  boa  uoontade  ,  porende  estas  spe- 
ciaaes  toco  que  muyto  cõuem  conhecer,  e  bem  saber 
as  cousas  que  som  mandadas,  encomendadas,  consse- 
Ihadas   e   se   dam   aentêder    E  quanto   ao  prymeiro  os 
preceptos  nos  som   mandados ,    e   os   pecados  defesos 
Edesto   nom    podemos   sa}r   sem  mortal  culpa  se  noni 
ouuermos   certas   scusas   per  dereito  aprouadas,   assy 
como  matar  per  justiça  em  nossa  defenssom ,  ou  guer- 
ra justa  e  semelhantes  Do  segundo  as  obras  de  pieda- 
de nos  som  encomendadas  as  quaaes  sempre  merecere- 
mos ênas  compryr,  e  poucas  uezes  aculpa  mortal  nos 
obr\g-am  assy  como  nom  acorrendo  anossos  prouximos 
em  caso  degrande  necessidade.    Do  terceiro  ossenhor 
da    por  consselho   que  uendaraos  oque  auemos  e  ossy-» 
gamos.  Edesto  nom  se  cõpryndo  anenguem  obryga,  mas 
em  sppcyal  aquom  ofezer  per  maneira,  e  teençom  qual 
deue ,  he  caiiiynho  de  grande  perfeiçom.  Do  quarto  se 
screue  que  preguiçando  nosso  senhor  per  seus  dicipul- 
los  ,   se   era  bem  casar  sentindo  nossa  fraqueza  e  desy 
como   se    todos   guardassem    uirgyndade ,   ou   de   todo 
castidade   omundo   se  acabaria,  nom  quys  mandar  en- 
comendar,   consselhar,  mas   deu    aeniender   que  pêra 
percalçar  orreyno  dos  ceeos  alguus  detodo  podiam  lei- 
xar  aobra  do  casamento.    Esto  me  parece  q  deue  seer 
per  prudência,  bem  conssijrado  pêra  conhecermos  aque 
somos  obrigados  5  quato ,  e  como,  ca  scripto  he  no  li- 
uro  das  collaçoões  que  as  cousas  que  som  encomenda- 
das ,    e   nom  mandadas  sesse  fazem  aproueitam  ,    sess© 
Jeixam  aJguãs  uezes  nom  condaniT ,  e  menos  as  que  so 
consselhadas ,  ou  se  da  aentender  Esto  do  que  pertee- 
ce   ao   spiritual.    EquantD.  aapresente   uyda  ,   cadahuil 
conssijre  quem  manda,  encomenda,  consselha  ,  roga, 
ou  da  bem  aentender  Eassy  obedeeça  e  siga  como   uir 
que  compre,  e   mjlhor  he  de  fazer  segundo  for  ofeilo 
E  conssijrando  seu  estado,  e  dos  outros  contra  quem, 
ou  por  quem  ha  dobrar. 


152  O   LEAL  C0NS3ELHEIRO. 

Capilullo   "liiij. 
Das  razoôes  por  que  me  parece  bem  fugir  tiapestellença, 

Jl  or  que  uy  niuytos  fallar  se  era  bem  fugyr  aapestel- 
lença  teendo  desuairadas  teençooês,  afirmado  cadahuu 
assua  seer  mylhor,  uos  screuo  oque  dello  me  parece. 
Os  que  teem  que  he  bem  nom  lhe  fugyr  da  estas  ra- 
zooês  Prymeyra  que  ao  poder  denosso  senhor  nom  se 
podem  sconder  como  se  screue ,  se  sobir  ao  ceeo ,  la 
es ,  e  se  ao  perfundo ,  per  teu  poderio  presente  estas , 
assy  que  alguu  dei  nom  se  pode  sconder  Porem  nõ  cõ- 
uem  fugyr  aapestelJença ,  que  per  seu  special  poderio 
uem  e  leua  quaaes  lhes  praz,  e  leixa  os  que  manda. 
Segunda,  dizê,  que  se  uyssem  de  que  fugiriam  como 
de  huíí  homem  5  e  besta  queo  matar  quysesse,  e  do 
mar,  fogo,  e  outros  contrairos  conhecidos,  mas  que 
delia  nom  ueem  deque  ajom  de  fugyr.  Terceira  mos- 
tram setodos  fogyssem  omundo  se  perderia,  por  que 
as  cidades  e  uyllas  seriam  despobradas  detodo ,  e  as 
herdades  nom  se  aproueitariam.  Eporem  he  bem  nom 
fugir  e  aguardar  amercee  denosso  senhor  Quarta,  fi- 
lham por  fundamento,  que  he  outra  cousa,  nom  so- 
mos mais  theudos  que  acomprir  as  obras  da  mysericor- 
dia,  pois  como  as  cumpriremos  em  tal  tempo,  que  tan- 
to compre  pêra  uysytar  enfermos  ,  soterrar  mortos  , 
conssollar  os  desconssojlados ,  senos  de  tal  lugar  par- 
tirmos Eassy  per  taaes  razooês ,  e  semelhãtes  afirmam 
que  nom  he  bem  defugyr  Aas  quaaes  eu  respondo  se- 
gundo melhor  me  parece  por  que  som  per  requerjmêto 
dauoontade,  e  per  razom  muyto  jnclinado  asseguyr  o- 
consselho  dos  físicos,  e  lhe  fogir  cedo,  longe,  e  tor- 
nar tarde  Equanto  aaprymeira  digo  que  nom  fugo,  ao 
poderio  denosso  senhor,  ante  me  acouto  ael,  dandolhe 
graças  por  me  fazer  home  razoado ,  conhecedor  das 
cousas  contrairás ;  e  proueitosas,  aalem  do  que  fazem 


o    LSAL    CONSSELHEÍRO,  J93 

as  V>rutag  anymalyas  Erregendome  per  olume  do  jn- 
tendymento  que  me  el  deu  ,  sygo  aquello  que  melhor 
me  parece  pêra  consseruaçom  da  mynha  uyda  em  toda 
cousa  que  asseu  seruyço ,  ou  manylesta  mynha  honrra 
nom  seja  contrairá ,  nom  auendo  pryncypai  esforço  em 
meu  saber,  e  poder,  mas  em  el  per  cujo  dom  conhe- 
ço aquello  que  por  mal  e  contrairo  me  faz  conhecer, 
e  me  da  maneira  pêra  dei  me  guardar,  nom  otentando 
que  spere  que  myracullosamente ,  e  contra  cursso  na- 
tural mj  e  os  meus  aja  de  guardar,  ou  symprezmête 
como  besta  aguarde  ocontrairo  que  uejo  nos  outros 
como  senom  conhecesse  que  era  doença  special  em 
huii  terra  mais  que  em  outra,  e  contagiosa  que  per 
partipaçom  se  apega.  Eassy  concludyndo  sobresta  par- 
te digo  que  nom  fugo  ao  poder  denosso  senhor,  mas 
huso  daquel  juyzo  que  el  me  deu  ,  oqual  me  demostra 
seer  bem  quando  razoadamente  fazello  poder,  e  muy 
euydente  sympleza  parece  fazerê  todos  fugyr  como  os 
gaados  dos  que  andam  depestellença  doentes  Eos  ho- 
meês  queo  bem  fazer  podem  em  sy  e  nos  que  som 
dessa  casa,  no  husar  dessemelhante  remédio,  per  to- 
dos sabedores  auydo  por  mais  certamente  aprouado 
Assegunda  razom  respondo  que  pêra  os  homeens  assy 
he  uisto,  oque  per  entender  percalçamos  como  se  per 
os  olhos  corporaaes  fosse  uisto  Eporem  como  dos  lo- 
gares  em  que  ueemos  no  ueraão  adoecer  demalleitas 
nos  guardamos,  posto  que  per  uista  nom  enxerguemos 
donde  tal  mal  procede,  muy  to  mais  da  pesteilença  o* 
deuemos  fazer  que  he  muylo  mais  perijgosa  jnfirmyda- 
de  Arrazom  terceira  nom  uai,  por  que  miiytos  cons~ 
selhos  som  boos  e  delouuar  specialmente  que  ao  bem 
geeral  da  gouernança  do  mundo,  trazeriam  grande  em- 
peecimêto,  como  he  daguarda  dacastidade,  e  uirgijn- 
dade ,  por  que  se  todos  fossem  uirgeês  omundo  em 
menos  decento  anos  fazia  fym.  Esse  uendessem  quanto 
teuessem ,  e  nom  quysessem  possuyr  herdade,  nem 
outra  possissom  em  special ,  nem  comuu  omundo  mal 


194  O    LEAL   CONSSELHEIRO. 

se  gouernaria,  porem  se  dam  em  special  taaes  consse- 
lhos  pêra  encluzer   ao   que   he   auydo  por  mais  seguro 
camvnho    pêra   saluamento   das   almas   daquelles   queo 
quyserem  ,  podem,  e  souberem  realmente  seguyr,  mas 
he  certo  que  todos  nom  osseguyrom.   Essemelhante  se 
consselha  ofugyr  da  pestellêça   por  saúde  corporal ,  e 
guarda  da  uyda ,  quanto  em  nos  for,  por  seer  proueito 
pêra   este   caso   geeralraente   dos  que  dello  bem  husa- 
rem  com  agraça  denosso  senhor,  ao  qual  praz  que  poen- 
do   em   el   nossa   pryncipal  sperança  nos  ajudemos  da- 
quella   prudência,    e   discreçom   quanto  mais  bem  po- 
dermos Aquarta  destingo,  das  pessoas,  ])or  que  taaes 
som  que  deuem  aguardar  assy  como  confessores,  e  os 
que    teem   curas  das  almas,  e  por  que  aquello  prynci- 
palmente  lhes  sõ  dadas  suas  rendas,  e  como  cuuem  ao 
caualleiro  sofrer  os  perijgos  das  pellejas,  assy  aquelles 
dapestellença  seno  buscarem  outros  que  per  seu  grado 
de   seus    encarregos   os   releuem  por  boo,  e  soficiente 
contentamento  que  lhes  facom  E  os  outros  que  per  a- 
contecymètos  speciaaes  nom  forem  occu pados  ê  alguu 
tal  carrego,  mais  obra  demysericordia  farom  em  guar- 
dar  quanto   ê  elles  for  sy  de  morte,  Eos  dessas  casas 
que  por   pouco  entender,  pryguyça ,  scacesa ,   ou  de- 
seio   doutras   uoontades   que   bem   se   deuyam  scusar, 
estarem   onde   ãdar  apestellença    Eos   que  teem  regi- 
Biento   das   cidades,    e    villas,    por  scusar  quanto  mal 
delia   se   recrece ,  grande  bem  he ,  mandar  algufis  cu- 
rar fora  delias,  e  assy  os  enterrar  quando  delia  morre- 
rem   fechando   as  casas  por  xv  ou  xx  dias  ,  ca  ueemos 
cortar  ou  queymar  huu  membro  mal  desposto  por  nom 
se   perder  perssa   contagiem   ocorpo    todo.  Em  mayor 
prouaçom    desta  mynha  teençom  ,  ueemos  que  seendo 
dicto  anosso  senhor   que  do   pynacullo  abaixo  se  lan- 
çasse respondeo  que  era  scripto  nom  tentaras  teu  deos 
E  que  ai  he  tentar  deos,   senom  quãdo  bem  scusar  se 
pode,    nom  scolhermos  aquella  mais  segura  parte  que 
nosso  entender  nos  demostra,  e  prouarnios  outra  teen- 


o    LEAL    CONSSELHEIRO.  105 

do  sandeu   esforço   em   sua  sperauça  no  caso  que  per 
necessidade   uõ   somos  coslraugydos  deo  assy  íazcr,   e 
grade  niyngna  de  boo  saber  seria  passar  per  huu  uaao, 
ou  em  huà  barca  onde  cadadia  nuijtos  morrem,  e  lei- 
xar  outra  que  passom  meses  que  alguu  nom  se  perde, 
pois  tal  he  dos  logares  das  pestenenças  ode  cõtinuada- 
niente    rnuytos    morrem    arrespeito  dos  semelhantes  , 
que  som  dessaude,  pore  sandice  he,  se  special  neces- 
sidade  estar  onde    ella   andar   Eaos  dicipullos,  disse 
nosso   senhor  :  Quando   uos   persseguyrem  em  huã  ci- 
dade ,  fugij   peraa   outra,  pois  assaz  he  grande  perssi- 
guyçoni    ueer  cadahuu  dia   morrer,  e  adoecer  outros 
homeês   assi   como   nos,  sperando   que  semelhante  da 
nos  e  dos  nossos  se  faça.  Ca  scripto  he,  derradeiro  dos 
temores  he   amorte ,    pois  se   aoutras  perssyguyçooês 
ossenhor,    seus  dicypullos  mandaua  fugyr,    como  nora 
se  conhece  que  semelhante  consseiho  em  este  caso  he 
bem  todos  fylharmos  Enosso  senhor  e  sua  muy  sancta 
madre  nõ   mandou   fugir,  quando  erodes  mandou  que 
os  moços  jgnocentes  matassem.  Emuyando  sua  jra  so- 
bre acidade  desodoma  e  gomorra  mandou  alot  que  fu- 
gysse   como  nom  penssara  cadahuu  que  ossenhor,  co- 
mo piedoso  padre  lhe  da  proueitoso  consseiho  quando 
tal  jníirmydade  he  em  alguu  logar,  elie  acorda  de  fu- 
gyr pêra   outro  saão  segundo  pellos  físicos  he  consse- 
Ihado    Ca   per   as  jnfirmydades  seus  consseihos  mais  ^ 
dos  confessores   he   desseguyr  em   todo  caso  que  sem 
pecado  se  pode  fazer.  Veemos  que  per  aigreja  seer  de- 
feso que  certos  meses,  sem  special  caso  denecessyda- 
de   nom   entre  no  mar,   pois  assy  he  nosso  senhor  po- 
deroso deguardar  de.  tal  perigoo  como  da  pestellença, 
mas  quer   que   per  os  homeês  uencidos  per  seus  san* 
deus  desejos,    nom  se  despenham   aconhecydos  peri- 
goos,   quando  bem  se  scusar  se  pode.  E  assy  mandar 
fastar  os   gafos   por  seer  doença  contagiosa  que  dhufl 
aoutro  se  apega,  pois  qual  mais  que  esta  door  que  ca- 
ilahuu  dia  ueemos  tam  claros  enxempros  Eporem  ajnda 

Bb  2 


196  O    LÀAL    CONSSELHEIRO. 

que  nom  se  mande  por  que  per  todos  ono  podem  com- 
prvr  por  taaes  enxeíiipros,  bem  se  demostra  oque  os 
prudentes  deuem  em  tal  caso  sempre  fazer  Eos  derei- 
tos  dam  logar  que  nom  uaão  posto  que  citados  sejam 
alogar  onde  for  pestellença ,  e  que  se  nom  possa  con- 
tra elles  g^ãaçar  reuelia.  Nem  se  crea  sobresto  consse- 
]ho  defrades  nem  declerigos  ,  porque  forom  custuma- 
dos  estarem' em  ellas,  e  auer  delias  muytos  temporaaes 
proueitos  Easey  como  natureza  teem  ja  nom  as  temer, 
por  que  os  que  delias  scaparom  gaãçarom  per  afeiçom 
do  proueito,  e  falias  dos  semelhantes  com  que  forom 
criados  grande  atreuymento  pêra  estarem  em  ellas, 
como  fazem  muytos  outros  em  assaz  perijgosos  casos 
onde  ham  grade  proueito  que  omedo  pouco  sentem , 
Bõ  digo  que  esto  consselhani  com  mallycia,  mas  por 
seguyrem  ateençom  em  que  forom  criados,  e  gouerna- 
dos ,  mais  proueitosamente  naquelles  tempos  que  nos 
outros  Eos  que  morrerem  em  ellas  ja  nom  podem  de- 
clarar quãta  sandice  he  nom  lhe  fugir  seo  podem  bem 
fazer.  Porem  concludindo  digo  que  onde  nom  leixam 
por  lhe  fugir  manygfestamente  assy  osseruiço  denosso 
senhor  deos  que  aíhur  nem  despois  nom  uejam  manei- 
ra deo  poderem  refazer,  ou  cayrom  em  tal  myngua 
que  claramente  seja  muyto  uerdadeira  desonrra,  como 
fez  eirrey  nosso  senhor,  quando  el  sofreo  e  quys  que 
eu  e  meus  jrmaãos  ojfante  dom  pedro  e  dom  henrrique 
e  o  conde  de  barcellos  sofrermos  na  fylhada  decepta 
assaz  muy  grande  pestellença  oqual  sempre  mujto  cus- 
tumaua  delhe  fugir  que  todauya  bê  que  he  se  fastem 
delia  Eassy  em  semelhantes  casos,  ou  per  mandado 
desseu  senhor,  ou  por  nom  perder  detodo  sua  fazen- 
da, razom  me  parece  estar  em  ella  Eatodos  outros 
tenho  por  grande  prudência  tirarsse  delias,  como  dicío 
he.  Nem  se  crea  que  sempre  uê  apestellença  per  spe- 
ciai  sentença  do  senhor  deos.  Ca  certamente  conhece 
que  he  semelhante  aas  speciaaes  mortes  que  ueem  aas 
uezes  per  sêtença,  e  as  oulra  natural  per  acOtecimen- 


o    LEAL   CONSSELHEIRO.  197 

to,  ca  delia  declarom  que  uê  geeralmente  per  quatro 
guysas;  primeira,  per  special  sentença  do  senhor  deos, 
como  se  fez  arrey  dauyd  quando  colou  opoboo,  e  se- 
melhantes. Segunda  por  geeral  costoUaçom  como  foy 
apestellcnça  grande  que  ante  per  muyto  tempo  dos  es- 
trollogos  foy  prenosticada  Terceira  por  corrupçom  dau- 
guas  e  semelhantes,  como  se  faz  em  Ueneza  e  Roma, 
mais  dos  ueraãos  Quarta  per  apegamento  como  gee- 
ralmente  em  esta  terra  mais  se  custuma,  porem  ajnda 
que  em  este  e  todo  outro  caso  compre  muyto  denos 
tornarmos  pêra  nosso  senhor  deos  que  nos  guarde  sem- 
pre de  mal,  nunca  porem  deuemos  leixar  arregla  da 
discreçom  quanto  em  nos  for,  filhando  enxempro  do 
que  fazemos  que  som  auydos  por  discretos  e  sesudos 
de  que  per  agraça  do  senhor  deos  se  bem  achom  Epois 
per  todos  outros  senhorios  lhe  fogem  ,  opadre  sancto  e 
Cardeaaes.  e  mayores  e  somenos  queo  bem  podem  fa- 
zer, assyo  deue  fazersse  yr  quem  bem  poder  Egraças 
adeos  per  speriencia  de  mynha  corte  bem  se  pode  co- 
nhecer quanto  he  bem  desse  fastar  delia,  por  q  muy- 
tas  uezes  seram  em  ella  Ires  myl  pessoas,  e  que  apes- 
tellença  seja  huil  ano  per  meus  reynos,  nom  morrerom 
delia  três  homeês ,  por  teer  custume  delhe  fugir  sem 
tardança  E  como  se  pessaria  sem  special  m^Ilagre  do- 
qual  nom  deuemos  tentar  nosso  senhor,  que  se  aten- 
dêssemos onde  andasse  ,  que  grande  parte  delia  nom 
morressem.  Porende  pois,  razom  ,  autoridade,  êxem- 
pros,  e  aprouada  experiência  esto  demostra  por  «em 
discreçom,  e  perfioso  deue  seer  contado,  que  tal  teen- 
çom  contradisser,  ou  asseu  poder  assy  onom  comprir 
Equando  for  necessário  estar  em  ella  se  nom  prouee- 
ren?  detodos  boos  consselhos,  e  auysamentos  medici- 
naaes  que  cadahuu  poder  Enonsse  íeixarem  aafortuna 
como  pessoas  em  que  nom  ha  entender,  nem  discre- 
çom Ca  posto  que  aamorte  nom  possamos  fugyr,  to- 
dos porem  quanto  em  nos  for  com  agraça  denosso  se- 
nhor   deos    delia    nos  deuemos  arredar.    Conssijraiido 


198  o   LEAL   CONSSELHEÍRO. 

qaanto  lie  auydo  por  grade  pecado  seer  cadahuu  ma- 
tador dessy  medes,  do  qual  nom  he  muyto  afastado, 
quem  dessemelhante  doença  seno  guarda  quanto  em  eí 
be,  segundo  adesposiçom  que  tem  perao  bem  fazer. 

Capitullo  Tv. 

das  uirludes  e  âesposiçoocs  delias  peraa  prudencya 

necessaryas  ou  perteecentes. 

JL^os  liuros  que  dauirtude  da  prudência  trautam  de- 
três  uirtudes  aescreuem  acompanhada  .s.  Eubolia,  que 
he  huà  dereitura  de  consselho  no  que  homem  ha  do- 
brar, pêra  que  se  requerem  quatro  cousas.  Prymeira 
que  seja  filhado  pêra  boa  fym.  Segunda  que  seja  per 
boas  perteecentes  maneiras.  Terceira  que  se  aja  tal 
consselho  ao  tempo  que  deue  como  compre,  nom  se 
trigando  ,  nem  com  priguyça  leixar  passar  tempo. 
Quarta  q  seja  geeralmente  em  todos  feitos ,  ca  seo  fi- 
lhar em  hujt  cousa,  e  nom  em  as  outras  segundo  aquel- 
la  husara  desta  parte  daprudencia,  mas  em  geeral  nom 
se  deue  chamar  prudente.  Porem  Eubolia  he  dereitura 
de  consselho  aboa  fym ,  symprezmente  detoda  nossa 
iiyda  per  médios  cõuynhauees,  e  atempos,  e  modos 
côuenyentes.  A  outra  uirtude  chama  synesys  he  boo 
juyzo  dos  partidos  da  cousa  que  se  faz  per  consselho, 
ca  odereito  ,  e  boo  scoldrynhamento  que  se  chama 
consselho  dos  meos  e  partes,  cõueem  aboa  fym  da  uy- 
da  humanai  perteece  aeubolia,  mes  dereytamente  jul- 
gar e  scolhei*  oque  alguii  ha  defazer  em  os  partidos  a» 
chados  no  consselho  chamasse  Synesis  Por  que  os  fei- 
tos dos  homeês  som  muyto  desuairados,  e  per  uezes 
segundo  as  circonstancias,  e  modos  dos  tempos,  nom 
compre  de  tomar  ocamynho  que  he  acustumado  em 
semelhantes  casos  ,  mas  outro  syngullar  Edar  certa 
temperança  descolhymento  em  alguii  caso  apartado  de- 
reitamente  e  segundo  compre  aboa  e  dereita  fym  chaf 
maese  gomy.  Eporem  posto  que  nas  sciencias  specula- 


o    LEAL  CONSSELHEIRO.  19!) 

tvuas  arrazom  obre  tam  sooiíiente  duas  cousas.  Apry- 
níevra   lie,    que   em    querendo   acha,    Assegunda,  do 
que  acha  julga,  scolhendo  oqiie  ha  de  creer,  ou  nom  , 
por  que  quanto  ao  saber  perteece  abasta  conhecer  a- 
uerdade,  mas  em  feito  pratico  das  obras  dos  custuQies 
arrazom    obra   três   cousas.    Aprymeyra,   em  querendo 
acha.    Assegunda,   scolher  do  que  acha  julgando  oque 
lhe   parece    Aterceira   manda  pêra   executar,  por  que 
posto   que   em   as   cousas   quea  sciencia  perteece  nos 
contentemos,    quando  ja   sabemos  oque  saber  queria- 
mos,    em   as   cousas  que  auemos  dobrar  nom  he  assy, 
mas   depois   que   sabemos   oque   auemos   dobrar  ajnda 
henecessario    poello   em   execuçom    Porem   aprymeira 
parte    que  he  dereitura  de  consselho  pêra  achar,  per- 
teece aeiiuollia  Assegunda  que  he  dereitura  de  juyzo, 
ou   descolhymento   pêra   scolher    das   cousas   achadas, 
consselho,  q  he  oque  se  ha  defazer,  se  he  aquello  que 
se  comunalmente  deue  fazer,  e  oescolher  por  amayor 
parte   chama  synesis    Terceira   se   em  as  mais  poucas 
cousas,  e  syngullarmente  fora  da  ordenança  acustuma- 
da,  e  chamasse  gnomj  ,  afym  detodo  esto  que  he  man- 
dar,   e  executar  perteecem  aaprudencia,  e  assy  apru- 
dencia  he  apryncipal  uirtude,  e  estas  som  aella  acos- 
tumadas como  suas  sementes    Epois  ao  prudente  per- 
teece  bem   obrar   em    todas  cousas,  bem  se  deue  co- 
nhecer que  lhe  cõuem  seer  assy  acabado  em  todas  uir- 
tudes  que  nom  falleça  em  alguã  pêra  percah^ar  em  boa 
soticiencia  todas  cynco  fijs   geeraaes  ja  declaradas  nos 
capitullos  que  delias  faço  meençom   .s.  pryncypal  glo- 
ria  eterna,    segunda,    honrra,  terceira,  boa  desposi- 
çom  da  pessoa,  quarta,  razoado  regimento  da  fazend» 
quynta,  cõtynuado  boo  prazer  e  coníeníaníiento  Epor 
esto   mais  declarar,  como  poderá  oprudente  percalçar 
orreyno  denosso  senhor,  e  na  presente  sua  boa  graça 
seno   ouuer  ífe ,    sperança ,    e  caridade,    porque  sem 
fle ,   jmpossyuel  he  prazer  adeos  Edesasperando  peca- 
remos no  spiritu  sancto  Epossuyndo  todas  estas  uirtu- 


2ft0  o    LEAL    CONSSELHEIRO. 

(ies ,  noin  auendo  caridade  pêra  saluaçom ,  cousa  nom 
aproueitam  ,  pois  uerdade  he  que  nom  deue  seer  cha- 
mado uerdadeirarnente  prudente  aquel  que  de  percal- 
çar  esta  mais  períeita  fym  he  desuyado.  Eposlo  que 
niuytos  assy  sejom  chamados  que  os  feitos  desle  mudo 
sagesmente  gouernados  ,  eu  entendo  q  nom  deuem 
com  uerdade  chamar,  pois  se  desuairom  da  mais  per- 
feita fym  aque  aprudencia  nos  deue  bem  encamynhar 
Eporem  necessário  cõuem  ao  prudente  possuir  estas 
theologaaes  uirtudes.  Hõrra  uerdadeiramente  comoa- 
deue  percalçar  nem  possuyr  senom  husar  sempre  de 
justiça,  temperança,  e  fortelleza ,  que  pois  ella  he 
reuerença  ,  dada  em  synal  deuirtude  como  se  deue 
dar,  ao  q  detaaes  uirtudes  for  mynguado.  Eassy  das 
outras  f]js  da  saúde,  proueito,  e  boo  prazer  Eporem 
ajnda  que  muytos  se  chamem  prudentes,  sesudos ,  e 
discretos ,  poucos  geeralmente  osso ,  ca  sollaraente  em 
assenhorar  sêpre  todas  paixooês ,  quem  ofaz  que  ame 
desejo  e  huse  das  deleitaçooês  tanto  e  como  deue,  aja 
ódio,  auorrecimento ,  e  tristeza  do  que  côuem ,  no 
tressayndo ,  ou  fallecendo  em  razoada  maneira,  huse 
sempre  demanssidoõe ,  boa  sperança ,  e  atreuymento, 
«em  fallecer,  uem  tressayr  em  cadahíía  das  partes, 
jiom  se  uêcendo  per  sanha ,  desesperaçom ,  nem  medo 
Esse  bem  conssijrarmos  como  cadahuíi  denos  husamos 
daquellas  uirtudes,  temperamos,  e  assenhoramos  estas 
paixooês,  poderemos  entender  como  nos  e  os  outros 
auemos  prudência.  Aalem  desto  cõuem  boa  desposi- 
çom  das  partes  do  jntendymento  que  no  começo  dysse 
.s.  boa  aprenssyua  pêra  prestemête  qual  quer  cousa 
entender,  memorya  pêra  nembrar  aeubollia,  pêra  cons- 
selhar  synesy ,  ou  gnomy  pêra  julgar  oquesse  deue  em 
cada  cousa  fazer,  sotilleza  pêra  nouas  cousas  e  auysa- 
mentos  achar  desposiçom  e  boo  geito  em  taaes  razooês 
pêra  oque  nos  aprouuer  per  pallaura  e  per  scripto, 
bem  declarar,  enssynar,  e  mandar.  Epera  bem  ditar 
perteece  bê  cuidar  as  cousas,   e  lembrarsse  do  que 


o    LEAL   CONSSELIIEIRO.  201 

penssou ,  screuendoas  claramente,  segundo  for  apro* 
possito,  e  teençom  per  fremosa  e  graciosa  maneira,  e 
pailauras  com  deuydo  resguardo,  segundo  for  apessoa 
e  o  fundamento  de  que  screue  em  curtas  palJauras, 
quanto  razoadamente  bem  se  poder  fazer.  Eperao  bem 
fallar  perteece  saber  as  cousas  bem  cuydadas .  achar 
certos  consselhos ,  boas  e  fremosas  razooês  enduzvdo- 
res  asseu  propósito  Kas  bem  cuydadas  perfeitamente 
em  sua  memoria  reteer,  Ivngua  pronta,  graciosa  com 
lodo  boo  geito,  e  soom  defalla  com  atreuymento  perao 
bem  dizer,  boo  reguardo  depallauras  contenença  ce- 
rymonyas  que  porteecem  ael ,  segundo  for  acousa ,  lu- 
gar, tempo  e  pessoas  aque  fallar.  Ecertamente  se  as 
obras  que  faz  som  razoadas,  obê  fallar  e  screuer  da 
gram  nome  daprudencia,  porem  assua  pryncipal  parte 
he  em  as  cousas  bem  executar,  e  trazer  adeuyda  fym, 
nom  as  tardando,  pospoendo  per  deleixamêto,  pryguy- 
ça  ,  myngua  decoraçom  ,  empacho  leuydade,  auareza, 
nem  no  estoruando  per  outro  cuydado ,  fantesia ,  dan- 
do  boa  ordem  atoda  cousa  que  per  nos  ajamos  dobrar, 
ou  mandar  que  se  faça  atee  uijr  todo  aperfeiçom  teen- 
do  em  todo  boa  firmeza ,  e  persseuerança  em  todas 
nossas  obras  e  boos  propósitos,  nom  as  mudando,  pos- 
poendo ,  ou  leixando  no  que  ueemos  que  he  bem ,  e 
compre  desse  fazer. 

Capitullo   Ivi. 

dalguâs  mais  cousas  necessárias  jjci^a  trazer  nossos  feitos 

adeuyda  fym ,  per  calçando  boo  nome  de  prudente. 

JAXuy  necessário  cõuem  ao  prudente  pêra  trazer  ade- 
13} da  fym  qual  quer  boa  e  grande  obra  partycullar, 
que  aja  delia  certa  speriencya  e  pratica  segundo  re- 
quere  oeslado  ydade  desposiçom  ,  carrego,  ou  oficio 
sem  aqual  ageeral  prudência  pêra  bem  fazer  oq  nos 
cCuem  nom  abasta.  Ca  se  alguu  nõ  praticou  os  feitos 

Cg 


202  O    LEAL   CONSSELHEIRO. 

da  guerra  como  sem  sperieucias  logo  certamente  saberá 
como  em  ellas  se  ha  dauer.  Eomar  quem  poderá  ajrida 
que  seja  geeralmente  prudente,  saber  reger  huú  nauyo 
em  tempo  deíbrtuiia ,  e  doutras  riecessydades  seo  nom 
pratycou  ,  e  assy  nas  semelhantes  cousas,  por  que  cõ- 
tiem  dar  autoridade  aos  que  teem  grades  e  nmytas 
speriencias  em  que  bem  se  gouernarom  ,  e  ueherom 
aboa  fym  desseus  feitos.  E  quererem  auer  seus  cons- 
selhos  e  auysamenlos.  Eassy  bem  he  necessário  oque 
prudente  quer  seer ,  e  por  lai  o  conhecerem,  que  sai- 
bha  bem  côuerssar  com  os  homeês  de  qual  quer  esta- 
do guardando  seu  geilo  contenença ,  feitos,  e  palla- 
nras  que  sempre  mostrem  boa  e  reuerenda  autoridade, 
e  que  he  uirtuoso  e  de  mujtoboo  saber.  Nem  abasta 
todo  esto  suso  scrípto  pêra  trazer  qual  quer  cousa  ao 
que  desejamos,  por  que  mais  perfeitamente  seremos 
julgados  por  j^rudentes  se  per  mysericordia  e  graça  do 
senhor  deos  nom  ouuermos  em  ella  boa  uentuira.  Ca 
cessando  todollos  aazos  e  acontecymêtos  grandes  e  pe- 
quenos per  que  os  feitos  ueem  aboa  conclusom  ,  ou 
contrairá  sobre  nosso  saber  e  poder,  quem  nõ  ueera 
quanto  boo  auyamento  ,  ou  desuairo  se  recebe  nos 
grandes  feitos  per  mudanças  de  tempos,  enfermyda- 
des ,  e  mortes  nas  partes  próprias,  ou  contrairás,  oq 
per  nossa  prudência  nom  poderemos  bê  quanto  he  ne- 
cessário remediar  Epore  se  deue  conhecer  quanto  em 
isto,  e  muytas  outras  partes  os  feitos  som  sogeytos 
aella ,  mas  esta  uem  per  ordenança  ou  conssentyniento 
do  senhor  deos  tam  dereito  juyz  que  acadahuu  da  se- 
gundo seus  merycymentos  ,  e  muytas  uezes  per  taaes 
segredos  de  que  se  marauylhaua  oapostollo,  dizendo  : 
Oo  alteza  de  sciencia  e  sabedoria  de  deos,  quanto  nos 
som  cõprêdidos  os  teus  juyzos,  e  as  tuas  carreyras  se- 
nom  podem  scodrynhar  Essobresto  se  recrece  huíl 
questom  dyzendo  alguns,  pois  as  cousas  som  todas  so- 
geitas  aafortuna  que  uai  aprudencia,  nem  discretamen- 
te se  gouernar  em  nossos  feytos.  Aos  quaaes  respondo, 


f)    LEAL    COXSSELHEIRO.  203 

que  muytos  sõ  õganados  per  opouco  conliecyniento  e 
sua  presunçoui  creendo,  partjue  se  g:ouernã  bem  na 
«íeeral  maneira  de  seu  uyuer,  q  assy  oíazem  Ha  quella 
special  em  que  afortuna  lhes  parece  seer  contrairá  E- 
desLo  q-uem  bem  oconssijrar  uee  muytas  uezes  ocon- 
trairo  ,  ca  muytos  que  parece  de  pouca  prudência  hu- 
sam  em  certas  cousas  de  muyto  saber  pêra  percalçar 
fama,  e  boo  nome  em  feitos  darmas ,  auer  ryquezas, 
e  gouernar  seus  corpos  em  boa  saúde,  e  outros  que 
per  sa  contenença,  falia,  e  gceral  pratica  som  julga- 
dos por  sesudos ,  fallecem  tanto  em  alguã  das  dietas 
cousas  que  assymedes  mais  que  afortuna  deuyam  acu- 
fsar,  se  uerdadeiramente  se  conssijrassem  Eposto  que 
todauya  per  ordenança  do  senhor  deos,  muytas  cousas 
uenham  per  ella  agrade  perfeiçom  ,  as  mais  uezes  com 
os  boos  e  uirtuosos  se  acorda  Eque  assy  nom  seja 
teem  uantagem  os  que  se  gouernam  per  ellas,  por  que 
as  boas  andanças  sabem  melhor  Kigrar  e  possuyr,  e  as 
auerssydades  soportar  mais  temperadamente  em  tanto 
que  delles  se  screue  se  teem  boo  e  dereito  propósito 
que  todallas  cousas  aos  semelhantes  se  tornam  em  boa 
parte,  por  que  com  as  bem  andanças  nom  enssoberue- 
cem  nem  nas  contrariedades  se  derrubam  ,  mais  he  a- 
uydo  em  todas  que  por  deestra  ,  e  seestra  maaõ  se  ha 
detal  guysa  que  em  cadahuã  se  faz  uencedor  como  de 
job  se  screue  e  de  jacob  no  eg-ypto  e  demuytos  outros 
sanctos ,  e  caualleiros  que  muyto  grande  louuor  per- 
calçarom  em  bem  sofrer  as  auerssydades  nom  os  der- 
rybando  posto  queas  muyto  sentam.  Ca  diz  seneca  no 
trautado  da  prouydencia  dyuyna  que  aos  que  som  uir- 
tuosos nom  tira  sentir  as  cousas  côtrairas,  mas  nom 
se  deuem  uencer  aellas  pêra  fazer,  nem  dizer  ocon- 
trairo  que  asseu  boo  estado  perteece.  Eassy  conclu* 
dyndo  pois  derrazom  afortuna  com  os  prudentes  e  uir- 
tuosos mais  se  deue  acordar,  e  as  cousas  bem  andan- 
tes melhor  logram,  e  possuem,  e  as  contrairás  sopor- 
tam   grande   bem   he   todos   nos  trabalhar  pêra  uvuer 

Ce  2 


204  O  LEAL    CONSSELHEIRO. 

uirtuosamente  segujndo  em  todo  as  regras  da  priiden- 
cia  quãto  mais  podermos  nom  nos  desemparando  aas 
uoontades  e  paixooês  desordenadas  so  íalssa  sperãça 
denõ  certa  fortuna. 

Copytullo  TviJ. 
Dalquãs  outras  specioaes  cousas  per  que  rrf.uy1os  som 
julgados  por  prudentes ,  e  nom  husarn  delia  como 
deuem. 


Jr^or  quanto  uejo  per  speriencias  nniytos  julgados 
geerahuente  que  som  prjidentes  em  algiiãs  cousas  par- 
ticullares  mal  se  gouernar,  penssey  desrreuer  mais  al- 
guns speciaaes  au}samentcs  breuemente  scriptos  per 
conssyraçom  daquellas  cynquo  fijns  siiso  scriplas  que 
per  tal  uirtude  se  deuem  percalçar.  Primeiro  quanto 
aaconciencia  errom  muytos  em  ateer  muyto  larga,  ou 
apertada,  ca  scripto  he  que  amuy  larga  geera  presun- 
çom  ,  e  aapartada  desasperaçom  A  muyto  larga  muy- 
tas  uezes,  diz  bem  do  que  he  mal,  e  amuy  estreita 
mal  do  que  he  bem  A  muyto  larga  salua  mujtas  cou- 
sas que  deuya  condanar  Ea  estreita  muyto  dana,  quem 
deuya  ou  podia  saluar.  Porem  assy  côuem  guardar  em 
esto  prudência  que  nom  trassayamos  acadahuã  das  par- 
tes sobejando ,  ou  mynguando.  Da  honrra  quantos  fal- 
lecem  querendo  cometer  com  grande  uoõíade  cousas 
mais  poderosas  que  seu  poder  abrange  com  desejo,  de- 
grande  nome  e  boa  fama.  Epor  nom  guardarem  aquel 
cõsselho  cousas  mais  altas  que  ty  nom  buscaras  eas 
mais  fortes  nom  demandaras.  Cafíe  atras  onde  cuyda- 
uam  auançar  Eassy  outras  com  apertamento  do  cora- 
çom  ,  e  myngua  degrande  uoontade  leixã  passar  muy- 
tas  cousas  em  abatimento  de  seus  estados,  e  boo  no- 
me ou  nom  percalço  oque  derrazom  poderiam  bem  a- 
uer  se  guardassem  em  esto  boa  prudência,  e  discreço 
que  lança  fora  as   partes  sobejas   e  myng*uadas  Epor 


o    LEAL    CONSSELHEIRO.  205 

que  do  bem  reger  da  jastiça  se  percalça  honrra ,  e 
boo  nome  quantos  somos  com  sobeja  piedade  so  fega- 
ra  de  uirtude  tornados  e  outros  per  crueldade  muyto 
auorrecidos.  As  casas  e  fazenda  quanto  maao  regymê- 
to  recebem  por  quererem  satisfazer  atodo  que  parece 
razom  ,  e  obras  piedosas,  nõ  conssijrando  que  outra 
nom  he  mays  forte  que  fazer  oque  bem  posso  aespe- 
ryencia  bem  odemostra,  por  que  se  faço  oque  nom  he 
bem  defazer,  ou  que  nom  se  pode  bem  soportar  con- 
tra niym  ,  e  fodailas  outras  cousas  mynhas  erro.  Ca  diz 
seneca  alguãs  cousas  nom  som  decomeçar  por  que  uy- 
uendo  nirtuosamente  se  nom  podem  acabar,  nem  con- 
tynuar  Eoutros  com  apertamento ,  e  temor  daauareza, 
a  cousa  deboo  e  seguro  gãaço  senom  atreuem  despoer 
corregymento  decasas,  e  gente  segundo  seu  estado 
nom  trazem  Etodo  esto  quem  o  têpera  senom  prudên- 
cia. Nom  conssentyndo  auer  rnayor  piedade  empacho 
doutrê  que  denos  medes,  e  dos  que  anos  som  mais  che- 
gados Rpor  querer  satisfazer  aoutrem  nom  demos  aazo 
conhecido  adestruyçom  de  nossa  casa  que  calladamen- 
te  começa,  e  na  fym  parceiramente  se  publica  Econ- 
tra  esto  aquel  sancto  cõdestabre,  quando  per  aficados 
reqiierymêtos  lhe  mostrauom  que  era  muyto  obrigado, 
ou  auya  grande  razoni  de  fazer  alguã  cousa  donde  sen- 
tia que  desgouernança  de  seu,  e  boo  estado  se  podia 
seguyr  Respondia  que  todo  omundo  era  cheo  deboa  ra- 
zom ,  mais  que  outra,  mais  forte  nom  era  que  fazer 
oadahuu  oque  bem  podia,  por  que  mais  nom  deuya. 
iEdaua  consselho  ,  que  sobresto  cadahuú  se  aforasse 
dela!  guysa  que  todos  conhecessem  que  por  afycamen- 
tos  nom  passaria  do  razoado  Essem  eiles  que  compry- 
ria  quanto  podesse ,  ho  que  uysse  que  era  bem  defa- 
zer. E  certamente  eu  uejo  ao  presente  grandes  myn- 
guas  no  sobejo  e  mynguado  por  bem  nom  guardar  es- 
tas regras,  huíls  por  nom  as  entenderem,  outros  por 
ocoraçom  que  com  empacho  piedade  custume,  ja  se- 
nom pode  sofrer  Porem  nom  he  duuyda  que  corn  pru- 


206  0   LEAL  CONSSr.LHElRO. 

dencia,  boa  pratica  com  aajuda  daboa  uentuira  per 
graça  do  senhor  deos ,  toda  cousa  dhonrra ,  boo  esta- 
do, e  fazenda  pryncypalmente  lie  bera  regida  Da  saú- 
de e  boa  desposiçorn  ,  quantas  mudâças  ueemos  em  os 
que  som  auydos  por  sesudos  ,  ca  huus  nom  curam  de- 
fisicos  ajnda  que  doentes  sejom,  mas  todo  leixam  adeos 
tentandoo  como  nom  deuem  pois  senom  ajudam  da 
prudência  que  nos  el  outorga  Eoutros  aauentuira  go- 
uernandosse  per  seu  entender  cõ  alguãs  speriencias,  e 
assy  bestialmente  acabam  como  se  fossem  fora  de  boa 
descripçom.  Eassy  engordam  aalem  da  razom  detal 
guysa  que  como  os  homeês  dassua  hydade  ja  senom 
podem  ajudar.  Outros  seendo  saãos,  sempre  som  doen- 
tes, por  que  tam  acouardados  ujuem  que  nom  podem 
folgança  tomar  em  cousa  que  façom  com  amendoren- 
tamento  dalgua  jnfermydadc  que  ja  passarem  ,  pens- 
sando  seer  esto  muy  grande  pnidencia  E  destes  por 
amayor  parte  som  sepre  menos  saãos,  por  quererem 
husar  de  meezinhas ,  purgas ,  sangrias ,  e  tam  estrei- 
tos regymentos  ,  que  sayndo  delles  conuem  que  se 
syntom  Eaquesto  quem  otêpera  senom  prudência ,  fa- 
zendo cadaluRi  que  se  reja  em  cada  tempo,  e  desposi- 
^om  como  cõuem.  Na  parte  do  prazer  seueera  muyto 
roayor  deferença  antre  aquelles  que  por  sesudos  som 
contados,  ca  huiis  som  muy  sobejamente  aalem  do  ra- 
zoado custume  ledos  filhando  por  cõsselho  aquel  dicto 
dessallamom  que  alegrarsse  e  fazer  bem  ,  e  comendo  e 
folgando  com  seus  amygos  era  afym  detodo  homem  , 
outros  som  tam  soturnos,  tristes  easperos  que  com  al- 
guém nom  podem  cõuerssar.  Etodo  esto  prudência  faz 
temperar,  posto  que  per  natural  compreyssom  e  aazos 
alguu  estremo  desejemos  deteer.  Porem  conssijrando 
esto  ueremos  como  cadahuu  se  rege  em  todas  |)artea 
per  prudência,  e  discreçom  ,  e  no  que  bem  for  degra- 
das anosso  senhor  deos  de  que  todo  bem  recebemos 
Èsseendo  per  ocontrairo  emêde  com  sua  ajuda  em  seu« 
fallymêtos   Porem  diz  tullyo,  posto  que  antre  os  ho- 


•    LEAL    CÔXSSELHEíRO.  207 

nie^s  aja  estas  deferenças  se  per  ellas  aigiui  iioiii  lies- 
savr  em  fazer  erro,  ou  pecado  noni  leixara  liusar  de- 
prudência  por  que  nom  còuem  nem  pode  seer  que  to- 
dos em  ellas  se  ajam  per  huã  maneira  por  odesuairo 
da  compreyssõ,  hydade,  mudança  de  tempos,  e  cõ- 
uerssaçõ  Eda  consselho  que  cadahuú  se  tenha  na  quel 
camynho  aque  per  natureza  e  desposiçom  sua  e  dos 
tempos  mais  for  bem  desposto  sea  uirtude  nom  for 
contrairá  segundo  bem  se  declara  no  capitullo  adiante 
scripto  tirado  amayor  parte  dei  do  liuro  que  fez  de 
oficijs  E  grandes  malles  se  recrecem  aos  que  som  tbeu- 
dos  em  conta  de  sesudos  de  pryguyca  do  corpo,  e  co- 
raçom  ,  e  nom  boo  encamynhamento  do  cuydado  lei- 
jando  sandiamente  uaguejar,  ou  se  occupar  em  cuy- 
dados  e  obras  pouco  perteecentes  Ede  filharem  ryjo 
sentido  das  cousas  contrairás,  ou  grande  <]esejo  do  quQ 
pouco  còuem  ,  e  se  nom  pode  remediar  Ca  detal  cuy- 
dado ja  nom  uem  ai  se  nom  doer  e  lastimarsse.  Esse- 
melhante  he  em  filharem  sandia  delleitaçom  em  alguãs 
cousas  com  pecado  sem  sperando  boa  nem  uirtuosa 
íira.  Por  todas  estas  cousas  que  scriptas  som  se  pode 
conssijrar  outras  se  conto  que  acada  feito  geeral  e  par- 
ticullar  se  recrece  pêra  bem  husar  desta  uirtude  da 
prudência  de  que  faço  fym  demais  screuer,  auendome 
por  nom  suficiête  pêra  delia  trautar  se  dalguns  liuros 
que  delia  fallom  ,  e  per  conssijraçom  do  bem  obrar  de 
pessoas  uirtuosas  com  q  t3Mie  e  tenho  boa  conuerssa- 
çom  pêra  ello  nom  fora  bem  ajudado  Egrande  parte 
do  que  sobresto  screuo  conheci  conssijrãdo  meus  fally- 
cymentos  e  doutros  que  per  desuairadas  maneiras  em 
contra  desta  uirtude  fallecyam. 


208  o    LIi\L  CONSSELHEIRQu 

Capilullo  IviiJ. 

Dos  Speciaaes  notados  do  liuro  de  lullyo  de  ojicijs  qut 

aaprudencya  perieecem, 

X.  ullyo  no  liuro  de  oíicijs  screue  muytas  e  boas  dou* 
trinas  sobre  aprudencia,  ca  onde  nos  outros  liuros  al- 
guus  screueroni  suas  deíínçooês.  e  deferenças  este  dei- 
la,  e  doutras  uirtudes  faz  conhecer  apralica.  Porem 
dos  seus  muytos  boos  dictos  alguíis  em  soma  aqui  fiz 
screuer.  El  diz  que  aprymeira  parte  da  honestydade 
he  prudência  aqual  esta  ê  conhecymento  dauerdade. 
Eaquesto  he  assy  junto  anatureza  aque  os  mais  somos 
trazidos  apercalçar  conhecimêto  e  cyencia  das  cousas 
e  auemos  por  fremosa  leuar  em  esto  uantagem  e  no 
saber  errar  deligeiro  seer  enganado,  dizemos  que  he 
torpe  e  maa  Enaquesta  uirtude  natural  e  honesta  de 
dous  erros  de  que  se  deuem  guardar.  Huú  he  que  a- 
quello  que  nom  soubermos,  nom  ajamos  por  sabido, 
nem  perfiosamente  oafirmemos  e  quem  quyser  fugyr 
atai  erro  e  todos  deuemos  querer,  poera  na  conssijra- 
<;om  das  cousas  tempo  cõuynhauel  e  deligencia.  Outro 
erro  he  que  alguíís  põem  muy  grande  estudo  e  grande 
trabalho  por  acalçar  cousas  scuras  e  graues  lhes  som 
pouco  necessárias  E  leixando  estes  dous  erros  por  to- 
do trabalho  e  cuidado  que  posermos  em  conhecer  as 
cousas  dignas  e  honestas  com  dereito  seremos  louua- 
dos  assy  como  ouuymos  queo  foy  gayo  soplicio  em  es- 
tronomya  e  conhecemos  sexto  pompeo  em  jeometria, 
muvtos  em  lógica,  e  alguus  em  dereito  cyuel  e  todas 
estas  artes  perteecem  ao  trabalho  dalcançar  conhecy- 
mento da  uerdade  Empero  por  oestado  delias  nom  de- 
uemos deleixar  as  obras  uirtuosas  por  que  olouuor  da- 
uirtude  todo  esta  na  obra,  mas  rnuyto  ameude  cessa- 
mos delia,  e  muytos  spaços  podemos  auer  peraos  es- 
tudos que  anossa  magynaçom  que  nunca  pode  estar 
queda  nos  trazera  estudos  per  cuydaçõ  ajnda  que  aom 


o    LEAL   CONSSSLHEÍRO.  200 

busquemos  ouíro  aazo  peraello.  i\las  todo  nosso  ciiy- 
dacto  e  ii)OU}inei)lo  de  nosso  coraçom  deue  desseer  oc- 
cupado  em  tomar  consselho  das  cousas  honestas  e  que 
anos  perteecem  pêra  bem  uiuermos  e  bem  auenluia- 
damente  ou  è  estudos  de  sciencias  e  conhecymento  da 
uerdade  E  diz  em  outro  capitullo  cadahuu  homem  de- 
ue seiíuyr  aquellas  cousas  que  lhe  som  próprias  com 
tàto  que  em  elJas  nom  aja  erro.  Eper  esta  maneira 
mais  ligeiramente  poderemos  acalçar  aquella  fremosura 
que  buscamos  nas  obras.  Edeuemos  trabalhar  que  nun- 
ca Contendamos  contra  ageeral  natureza  ,  mas  guar- 
dando aquella  sigamos  aque  anos  for  própria,  ajnda 
que  outras  sejam  melhores  e  demoor  autoridade  nos 
sempre  myd3remos  os  estudos  danossa  regia  que  nos 
deu  anatureza  por  que  nom  perteece  derrepunar  aana- 
lureza  nem  detrabalhar  por  aquello  que  nom  podemos 
acalçar.  Edesto  se  declara  quejanda  iie  aqueila  fremo- 
sura das  obras  Epor  esto  segundo  dizem  nom  perteece 
defazermos  cousa  em  nossa  u}da  aque  amynetua  seja 
contrairá  .s.  aquém  anatureza  repune  e  embargue  Ede- 
todallas  cousas  que  som  fremosas  nom  ha  hi  outra  queo 
mais  seja  que  huà  jgualdãça  de  toda  uyda  E  esso  mees- 
mo  das  obras  syngullarcs.  E quando  nom  pode  guardar 
esta  fremosura,  e  quyser  seguyr  anatureza  dos  outros 
cõuem  que  percas  atua  que  assy  como  na  linguagem 
aquella  (ieuemos  seguyr  que  nos  bem  sabemos,  por 
que  em  querendo  fallar  alinguagem  grega  ,  e  tornan- 
donos  em  elia  com  razom  ficaremos  scarnydos  E  assy 
em  nossas  obras  e  em  nossa  uyda  nom  deuemos  de 
husar  em  desuairanças  E  contemperando  estas  cousas 
deuemos  trabalhar  que  cadahuu  aja  aquello  que  he 
seu  ,  e  aaqueilo  se  acustume  nom  querendo  prouar  co- 
mo lhe  cõuijra  as  cousas  alheas  Eaquello  jirincipal- 
mente  he  seu-  Cadabuii  se  trabalha  de  conhecer  os- 
spu  engenho,  e  força  fazendosse  forte  juiz  e  escoldry- 
nhador  dos  seus  erros  e  dos  seus  beês  em  tal  maneira 
que  nom  pareça  que  os  albardáaes  teem  mais  sabedo- 

Dd 


210  o    LEAL    CONSSELHEIRO. 

ria  que  nos,  por  que  elles  nom  se  trabalham  darreme- 
dar  as  eslorias  melhores,  mas  as  que  lhe  som  mais  co- 
iienyentes  Pois  estas  cousas  taaes  esguardara  o  albar- 
dam na  zombaria  e  nom  as  ueera  ohomem  sabedor  em 
sua  uyda ,  porem  aquellas  cousas  que  anos  forem  mais 
perteecentes  ,  naquellas  pryncypalmente  trabalhare- 
mos Esse  alguãs  uezes  anecessydade  nos  tirar  delias, 
e  nos  lançar  em  cousas  que  nom  sejaõ  denosso  enge- 
nho todo  nosso  cu}'dado  e  penssamento  e  delig-encia 
poeremos  que  seo  nom  fezermos  tam  fremosameníe 
como  deuemos  que  ao  menos  nom  ofaçamos  feamente. 
Enom  deuemos  tanto  trabalhar  por  seguyrmos  os  beês 
que  nos  som  dados  de  natureza,  como  por  fugyrmos 
aos  seus  erros,  e  todas  estas  cousas  cõuem  que  abra- 
cemos com  nosso  coraçom  e  cuidado  quando  quyser- 
nios  buscar  afremosura  de  cadahua  cousa.  E  primeira- 
mente deuemos  ordenar  quaaes  e  quejandos  nos  que- 
remos seer,  e  em  q  maneira  de  uyiier,  aqual  deter- 
mynaçom  he  peor  defazer  que  todallas  outras  por  que 
encomeçando  amancebia ,  quando  he  mayor  fraqueza 
do  consseiho  Entoni  ordenou  cadahuii  amaneira  de  sua 
uyda  segundo  que  1/ie  mais  praz  Eassy  ante  se  despoõe 
aalguâ  certa  maneira,  e  encaminhamento  deuyuer  ^ 
elle  possa  julgar  qual  he  omylhor.  Naquella  determy- 
naçom  todo  consseiho  deue  seer  tornado  aanatureza  de 
cada  huíi ,  por  q  se  em  cadahuã  das  cousas  que  faze- 
mos segundo  a  natureza  de  eadahufi  sguardamos  oque- 
Ihe  períeece  muyto  deuemos  poer  mais  atiçada  femen- 
ça  na  ordenãça  detoda  nossa  uyda  que  seja  tal  que  em 
toda  nossa  duraçom  nos  seja  proueitosa.  E  nom  nos 
traga  aazo^  de  erramos  em  aquellas  cousas  que  deue- 
mos fazer.  Pêra  esto  que  dissemos  côuem  que  anossa 
razom  sguarde  como  he  grande  aforça  que  tem  anatu- 
reza  Edesy  ada  fortuna  quando  quyser  estremar  ama- 
neira em  que  ha  deuyuer.  Mais  pryncypalmente  deue 
esguardar  ada  natureza,  por  q  mujto  he  mais  firme  e 
mais  duradoira  como  quer  que  alguãs  uezes  parece  ^ 


o    LEAL    eONSSELHDlRO.  211 

afortuna  morlal  pelleja  com  anatureza  noni  mortal.  E 
quem  j)er  consselho  (Jetcrmjnado  ordenar  assua  uyda 
segundo  requere  assua  natureza  tenha  em  ello  firmeza 
por  que  aquesto  he  oquelhe  principalmente  jíeríeece , 
saluo  se  elie  enteder  que  errou  na  estremança  da  ma- 
neira de  seu  uyuer.  Esse  tal  cousa  acontecer,  e  pode 
acontecer,  deue  seer  feita  mudança  nos  custumes  E 
nas  ordenanças  que  achar  que  nom  som  boas  Eaques- 
ta  mudança  se  os  tempos  ajudarem  pêra  ello  mais  dili- 
geiro,  e  mais  proueitosamente  faremos  sea  fezermos 
passo  ,  e  que  seja  pouco  sêtida.  Assy  como  cm  as  a- 
myzades  que  trazem  pouco  prazer  e  pouco  proueito 
tcem  os  sabedores  que  mais  perteece  desse  passamen- 
le  desfazer  que  darreuato  seer  cortadas.  E  quando  for 
mudada  aordenança  da  uyda  com  toda  razom  nos  tra- 
balharemos que  pareça  queo  fezemos  com  boo  consse- 
lho. iVlees  por  q  pouco  ante  dissemos  desseguyr  «nos- 
sos ãtecessores,  esto  nom  deuemos  entender  queo  si- 
gamos com  os  erros.  Nem  esso  meesmo  se  anatureza 
nom  conssentisse  deos  nos  podermos  seguyr.  Assy  co- 
mo ofilho  do  mayor  africano  ,  oqual  per  doença  nom 
pode  seer  tam  semelhante  asseu  padre  como  africano 
fora  ao  seu.  Esse  nom  poderá  defender  as  cousas,  ou 
gouernar  opoboo  per  suas  boas  razooês,  ou  husar  de 
feitos  caualleirosos  deue  dar  aquello  que  he  em  seu 
poderio  .s.  justiça,  fie,  graadeza ,  e  temperança,  pol- 
ias quaaes  cousas  lhe  seja  menos  requerido  oq  lhe  fal- 
lece.  A  muyto  melhor  erança  he,  Eo  patrimonyo  mais 
proueitoso  detodos  que  os  padres  dam  asseus  filhos  he 
jouuor  deuirtudes,  e  de  boos  feitos  E  quem  esta  eran- 
ça nom  segue  deue  lhe  seer  cdtado  por  fealdade  ,  e 
por  erro. 


Dd  2 


212  o    LEAL    CONSSELHEÍRO» 


CapituUo    lix. 
sohre  a  prudência  feito  per  odoutor  Diegaffonso, 


JL  or  que  raynha  teençom  he  nom  me  ajudar  em  este 
trautado  de  alhea  leytura  por  mjnha,  saluo  em  allega- 
çooês  ou  parle  dalguiis  capitullos  tirados  doutros  ii- 
uros,  porem  este  ajuso  scripto,  que  me  odoutor  diego 
affonsso  do  meu  desêbargo  deu,  sabendo  que  desta  uir- 
tude  da  prudência  alguã  cousa  screu} a  por  me  parecer 
deproueilosa  enssynança  em  seu  nome  omandei  aquy 
screuer,  com  alguús  mais  adymentos  e  corregymenlo 
pêra  seguyr  mynha  teençom  necessários. 

A  uirtiide  geeralmente  he  propriedade  no  homem 
pella  qual  sua  razom  dereytamente  consselha,  e  auoon- 
tade  bem  mãdada  e  assenssuallidade  obedece  como  de- 
ue.  Nom  se  chama  pêro  uirtude  posto  que  se  assy  faça 
em  todas  cousas,  mas  naquelias  soomente  que  som  gra- 
"ues  defazer  aos  homees,  e  por  tanto  disserom  os  ãtijgos 
que  auerdadeira  uirtudaesta  em  três  autos  .s.  em  come- 
ter grandes,  e  graues  cousas  de  fazer  atodomem  em  so- 
portar  e  sofrer  as  cousas  contrairás  ao  seu  desejo,  e 
em  abstinência  das  delleitaçooes.  Esta  uirtude  se  par- 
te em  duas,  huã  he  natural,  e  outra  moral.  A  natural 
he  aquelia  que  nace  da  iguallaçom  dos  eliementos 
temperamento  dumores,  e  feiçom  do  corpo  ou  daquel- 
las  partes  onde  tal  uirtude  tem  seu  esercicio  e  da 
queste  soo  aquelle  he  uirtuoso  q  sem  pena  ledamente 
e  ajnda  delleitandosse  obra  uirtudes.  E  esta  natural 
ge  parte  em  duas,  huâ  he  prudência,  e  outra  justiça 
e  ambas  estom  na  naturaljeza  jntelleitual ,  outros  lhe 
chamam  spiritual  Epor  quanto  neesta  natureza  spiri- 
tual  ha  duas  potencias  .s.  jntendimêto  e  apetite  oqual 
geeralmente  se  chama  uoontade.  A  prudência  he  fica- 
da no  jntendymento ,  ,e  ajustiça  na  uoontade  E  como 
quer  que  estas  duas  nom  tenha  de  temperar  alguas 


G  LEAL  CONSSELHEIRO.  2  h3 

paixoões ,  assy  como  teem  as  moraaes .  pêro  neelJas 
se  assigna  sobejo  e  mynguado ,  na  prudência  ossoboio 
se  chama  em  Latym  demos  ou  astúcia,  ou  calliditas, 
que  em  linguagem  querem  dizer  maa  sagacidade  ,  ou 
arteiricc  mais  queo  que  compre,  ou  maljicia  Eo  seu 
inynguado  lie  crassitudo  em  latym  ,  que  quer  dizer  em 
linguagem  pequyce  ,  mas  se  estes  dous  extremos  fo- 
rem bem  sotilmente  speculados  nom  som  extremos  de 
prudência,  ca  pequenyna  prudência  nunca  será  pequy- 
ce,  nem  ajnfijnda  prudeucia  nunca  será  mallicia,  pêro 
dizemos  esto  por  abryr  ajntelligencia  das  cousas  Na 
justiça  osseu  sobejo  he  crueldade  e  osseu  mynguado 
he  misericórdia,  ou  piedade  e  jnssenssibiilidade,  e  des- 
tes extremos  digo  como  nos  daprudencia,  ca  nom  som 
«eus  uerdadeiros  extremos. 

Ora  quero  tornar  aaprudencia.  e  digo  que  prudência 
he  huã  dereita  razò  pêra  obrar  as  cousas  syngullares , 
nascida  da  experiência  das  cousas  passadas  situada  em 
natural  desposiçom  e  sguardante  nas  cousas  uíjdoiras, 
proueendo  ao  que  pode  acontecer  quanto  em  nosso  po« 
der  he.  Esta  prudência  he  feita  de  três  partes  em  tanto 
quesse  lhe  huã  soo  faliece  logo  nom  he  prudência  .s.  em 
qual  quer  cousa  que  auenha  consselharsse  homem  ao 
menos  conssygo  meesmo  e  esta  se  chama  em  latym 
embolja  A  outra  parte  he  julgar  sem  afeiçom  quer  por 
ssy  quer  contra  sy,  e  esta  se  chama  synesis  Esse  tal  juizo 
lie  nas  cousas  spiciaaes  que  poucas  uezes  acontecem 
chamasse  gnomy  A  terceira  he  executar  segundo  que 
foy  consselhado  e  julgado  no  discursso  do  jntendimento 
€  esta  se  chama  prudência.  Todas  estas  três  cousas 
juntas  som  perfeita  prudência  em  que  parece  claramen- 
te que  posto  q  huíi  homem  se  muyto  e  bem  consselhe 
conssigo  e  ajnda  com  outros  senom  julga  sê  afeiçom  al- 
demenos  dentro  enssy  nom  he  prudente  Item  posto  que 
bem  se  consselhe  e  bem  julgue  se  nom  executa  que 
nõ  he  prudente.  Item  posto  que  sem  afeicô  julgue 
*esse  nom  consselha  que  nom  he  prudente.    Item  que 


3J4  O    LEAL   CONSSELHEÍRO. 

posto  que  bem  execute  dauentuira  ou  necessidade,  se 
jirimeyro  nom  se  consseJha,  e  uoin  julga  dereyto  nom 
he  prudente.  Oajuntamento  das  duas  prymeiras  .s.  eu- 
bollia  e  synesys  se  chama  circunspecçõ.  =  No  exer- 
cytamento  da  prudencya  som  viu  regias  As  primeiras 
ires  perleecê  ao  côsselhamêto ,  e  as  outras  três  ao 
iulganiêto  e  as  duas  aexecuçom  =  A  prymeyra  regra 
he  presuppoer  em  toda  cousa  que  ai  jaz  em  ella  scon- 
dido  afora  oque  parece,  e  porem  compre  que  por  niuj- 
to  clara  que  pareça  auer  sobrella  esgarauatamento  der- 
razom  quanto  o  tempo  e  acousa  der  uagar.  Assegunda 
logo  esguarda  bem  delgadamente  as  fijs  e  saydas  todas 
possiuees  e  quaaes  e  quanto  aproueitam  ou  empeecem 
segundo  odesejo  da  cousa  e  tempo  Aterceira  sguardar 
todollos  meos  e  fazer  com  elles  allardo  pordante  ojn- 
tendimento  e  ueer  os  que  som  possyuees  e  as  contras 
delles  se  e  enque  maneira  se  poderem  remediar. 

=  As  outras  três  regias 
A  prymeyra,  antre  muytas  cousas  scolher  aquella  que 
tem  mais  aucãtageês  ajnda  que  pequenas  sejam  sesse 
podem  per  jntendimento  percalçar  Assegunda  scolher 
aquello  que  afortuna  e  husança  do  tempo  mais  segue , 
e  afastar  aquello  que  afortuna  segue ,  arrazom  contra- 
diz .  ou  as  speriencias  passadas  mostra  nõ  uijrem  aboa 
fim  e  cõclusom.  A  terceira,  scolher  pessoas  e  alimá- 
rias autas,  e  despostas  naturalmente,  e  auagosas  na- 
quello  que  quer  fazer  e  fugir  dos  que  teem  os  jnten- 
dymentos  scuros  e  dos  desauenturados  como  da  morte. 

=  As  duas  regias  = 
Aprymeira  que  soomente  executemos  aquello  em  cujo 
prossyguymento  nê  huti  mal  nom  uenha,  ou  seja  dei 
omenos  e  tal  qtie  bem  se  possa  remediar ,  e  fugamos 
daquel  onde  grande  mal  pode  uijr  specialmente  oque 
se  nom  pode  be  remediar  segundo  jntendymento  dho- 
meês.  Assegunda  que  saibhamos  refrear  assessegar  e 
contentar  oapetito  nosso  e  alheo  que  nos  muyto  segue 
ao  que  per  razom  nõ  achamos  boa  sayda  mostrandolhe 


o    LKAL   CONSSIÍLHEIRO.  215 

caâa  contra,  e  seu  mal  em  presente  E  que  ao  diaiUe 
defazer  oque  mal  deseja  se  lhe  pode  sjguyr. 

CapituUo  Ix. 
Das  uirluães  que  se  rcquere   ahuú  hoo  julgador. 

v^onssijrei   por  os  fallicimêtos   que  uejo  em  mujtos 
que   ahuu   boo  julírador  se  requerem  estas  uirtudes  as 
quaaes  screuo   pêra   cadahuíi  dessy  e  doutrem  poder 
sentir  quanto  pêra  tal  carrego  he  perteecente  Prymei- 
ra   lhe  cõuem  dauer  huâ  dereitura  geeral  da  uoontade 
em    todailas    cousas   com  desejo  de  fazer  dereito  dessy 
6  dos  outros  por  achegados  que  sejan  ,  tam  ryjo  ,  que 
temor  ,    ou   afeiço   onom    torue   nem    uença   Eaquesto 
íiauirtude   da  justiça   dereitamente  perteece    Segunda 
que    tenha   grande  e  boo  entender  demostrador  deuer- 
dade,    per   uerdadeiro  juyzo   natural,    e   boa  sciencia 
com  pratica  das  lex ,  stillos,  e  cusluraes    E  que  cons- 
sijre   os   feitos  por  conhecer  auerdade  e  fazer  justiça, 
e  r.om  por  os  torcer  ao  seu  desejo  special  oque  se  faz 
como  cõuem  per  prudência  Terceira,  que  se  tempere 
quandosse   trigar   ou  allargar  mais  do  que  cõuem,   ou 
se   per  sanha  se  acender,  pêra  executar  alguãs  cousas 
contra  dereito,  ou  por  seguyr  uoõtade  proueito  ou  pra- 
zer  qu}  ser  julgar  sê  razom  ou  leixar  de  compryr  oque 
deue,  pêra  que  se  requere  grande  temperança  Aquar- 
ta  que  persseuere  em  bem  obrar,  assy  que  per  medo, 
receo  de  perda  sua,  desprazer  doutrem,  pryguyça,  ou 
fraqueza   nom  leixe  de  fazer  oque  dereitamente  deue, 
guardando    auirtude    da  fortelleza   Aesperiencia  bem 
mostra  que  per  fallicimento  destas  partes,  alguns  ajn- 
da  que  saibham,  e  uejam  oque  he  dereito  deo  julgar, 
fallecem  per  corrutas  uoontades  q  uem  da  myngua  da- 
uirtude  geeral  dajustiça.  outros  que  ajom  boo  desejo, 
nom  teê  juyzo  e  saber  natural  pêra  conhecerem  oques- 
se  deue  fazer,  e  que  tenbom  boa  uoontade,  senom  te- 


216  O    LEAL   COXSSELHEIR©. 

uerem  saber  de  lex ,   custumes ,  e  ordenaçooês  da  ter- 
ra, seu  juyzo  atodollos  casos  nom  pode  proueer,  como 
cõuem   j)er  myiigua  de  ciência ,  ou  grande  e  boo  cus- 
tunae.    E   teendo   entender,    e   geeral  boa   uoontade, 
mujtos  per  cobijça,  desejo,   afeiçom ,   sanha,   ou  tri- 
gança  fallecem   por   nom   guardar  temperança,  outros 
com  rrceo ,  empacho,  pryguyça,  fraqueza,  som  torua- 
dos  de  fazer  justiça  per  fallicimento  defortelleza ,  por 
que  têtados  per  cadahuã  destas  guysas,  nõ  aturam  na 
boa  teençom  geeral  que  antes  auyam  ,  nem  julgam  o- 
que  prymeiro  bem  poderem  entender  Eporem  som  ne- 
cessárias ahufl  boo  julgador,  auer  todas  estas  uirtudes 
em  boa  soficiencia,  por  q  fallecendo  muyto  em  algua, 
posto    que  as   outras   razoadamente  aja  ,    côuem    que 
nunca  de   boa  execuçom ,  nos  mais  dos  feitos.  E  bem 
se   poderá  dizer  era   este  caso,    aquel  dicto  de  nosso 
senhor    Quem   faliecer   em   hua  parte  ,  em   todas  será 
culpado.    Ediz  no  liuro  das  collaçooês  por  exempro  da 
conciencia  que  nom  he  deferença  por  seu  mal  dos  que 
teem  huu  castello  seerlhe  filhado  per  cima  das  torres, 
ou  per  outro  pequeno  lugar,  pois  per  cadahuã  destas 
guysas  operdem.  Eassy  nom  presta  muyto  guardar  jus- 
tiça em  as  cousas  que  parecem  grades ,  e  por  huã  pe- 
quena dafeiçom ,  sanha,  ou  receo ,  fazer  cousa  contra 
dereito  ,  ou  leixar  de  comprir  oque  he  obrigado,  e  se- 
ja  por  ello   pêra  sempre   perdydo.  Eaquesto   screuy, 
por  ueer   mujtos  atreuydamente  fallar  nos  feitos,   por 
q  ossabem   seendo  corruptos  per  myngua  de  cada  huã 
das   partes   suso   dietas    Eoutros   com   esforço   de   boa 
uoontade,  natural  entender,  querem  com  perfia  fallar, 
e  determynar,  no  que  pouco  sabem,  nem  bem  pode- 
riam  entender  per   myngua  de  sciencia,   ou  de  boo  e 
grande  custume.    Epor  se  conhecer,  como  somos  per 
afeiçom   enganados,    e  nom   damos  dereito  juizo   Eu. 
conssijrey  que   tal  cousa  enssynamos ,    ou   mandamos 
fazer,  que  symprezmente  pareça,  como  leuar  huã  aue 
decaça,   tâgeij   screuer;   semelhante  ahuií  que  nuca 


o    LEAL    CONSSELHEIRO.  217 

ofez ,    que   se   lambem   como   nos   prazeria  onom  faz, 
que  logo  lie  castigado ,  ou  per  scaruho  ,  ou  menos  pre- 
ço  trazido.    Esse  alguii  queo  saibha  lazer  oproua  com 
amaão,  queo   nom  custuma,  cõuem  que  se  ache  muy 
loruado,    e   por  muyto   sem    geito,  e  empachado  que 
Be   ueja,    nom   se   culpa,    nem   lhe  parece  razom  seer 
por  ello    prasmado ,  nom  consijrando  quanto  menos  o- 
que   tal   cousa  nunca  husou  deuya  culpar.    Ca  per  en- 
tendimento  nom  assabe,  nem  doutra  maão  apraticou  , 
porem  nossa  afeiçom  faz  em  geeral  parecer  q  he  derei- 
to   os   outros   que  de    todo  saber,  e  custume  falleceui 
que  sejom  repreendidos,  e  prasmados  e  os  que  ai  nom 
íallece  senom  husança  da  outra  maão,  mostra  que  nom 
somos   deculpar.    Eassy   como  estes  casos  per  afeiçom 
nosso  juizo   ueremos  errado,  tal  se  faz  nos  outros  fei- 
tos por  que  nos  deuemos  perceber,  e  guardar  que  nom 
sejamos  assy  enganados,  ou  forçados.  Ou  se  tíita  força 
nom   sentirmos    em   nos   que  scusemos  filhar  carrego 
daquelles   onde   sospeitos  formos ,  por  que  se  podemois 
em   alguu  dos  outros   fallecer  per   mjg^ua  de  cadahuã 
das  uirtudes  suso  scriptas ,  que  mais  se  fará,  onde  per 
afeiçom  scurentada,  nossa  uista  do  entender,  nom  uir- 
mos   o   camynho  da  uerdade ,  ou  queo  uejamos  uenci- 
dos  per  fraqueza   seguyr   onom    podermos.    Porem  he 
mais  segura  parte  aquém  justamente  quer  uyuer,  nun- 
ca tal  carrego  aceptar ,  onde  sospeito  se  conhecer  Es- 
se   ouuer  sobrello   necessariamente  dobrar,   seja   com 
reguardo   dos   erros   em  que  pode  cayr ,  guardando  se- 
pre  aquellas  uirtudes  pryncypaaes  de  justiça,   prudên- 
cia, temperança,  e  fortelleza ,  per  que  todallas  cousas 
mais  perfeitamente  se  fazem.  Sobresta  maneira  de  jus- 
tiça ,  amyni  parece  que  algiiíís  teê  em  seu  juizo,   hua 
ballança  tam  sotil ,  e  dereita,  que  qualquer  cousa  que 
de  razom  e  dereito,  desacorda,  logo  amostra,  nem  se 
torua  per  afeiçom  ,  proueito  ,  perda,  prazer,  ou  sanha  , 
Outros  per  ocontrairo,  q  nom  syntem  senom  as  cousas 
degrande  cota,  e  aquesto  por  geito  natural,  maao  cus- 

Ee 


218  o    LEAL    CONSSELIÍEIRÔ. 

tume ,  ou  desordenada  uoonlade.  Porem  aquel  que  per 
mercee  do  senhor  teuer  o  dereito  juizo  em  cadaluia 
cousa,  nom  o  guardando  caae  em  mavor  culpa,  segu- 
do  assenteijça  de  nosso  senhor  jhú  xpô  q  diz  do  seruo, 
que  nom  sabe  auoontade  de  seu  senhor  sea  nom  faz, 
que  de  poucas  feridas  será  ferido ,  e  aquel  quea  sabe 
e  nom  a  guarda  demuytas.  Porem  nom  penssê  que  por 
anora  saber,  som  detodo  scusados  por  que  determyna- 
do  he  que  aignorãcia  nom  scusa  pecado  Edesto  se  po- 
dem tirar  dous  contrairos  Prymeiro  que  se  conheçam 
os  que  muyto  syntem  seus  fallicymentos  seerem  amais 
obrigados  senom  comprirem  oquelhes  bê  demostra  seu 
dereito  juizo  Eos  que  tanto  nom  syntem  nom  secream 
sempre  per  seu  juyzo,  mas  obedeeçam  aas  pessoas  que 
deuem ,  e  aageeral  openyom  per  os  mais  dos  uirtuosos 
aprouada,  por  que  sem  duuyda  este  he  ornais  seguro, 
e  melhor  camynho  sabendo  que  nom  scusarom  emenda 
dos  erros  em  que  cayrem  por  nom  saberem  oque  theu- 
dos  som  de  saber  Aos  senhores  que  teem  regymento 
desta  justiça  judicial  comprelhes  aquellas  três  partes, 
per  q  todas  cousas  se  fazem  uirtuosamente  .s.  Boa 
uoontade ,  per  que  sejam  sempre  muy  desejosos  defa- 
zer  atodos  dereyto  entendendo  que  aqueste  he  huu  dos 
pryncipaaes  ramos  de  seu  oficio,  per  oqual  percalçara, 
quando  bem  ofezer,  grade  gallardom  denosso  senhor 
deos  eô  Jouuor,  amor,  e  obediência  dos  homeês.  Abas- 
tante poder  defortelleza  ,  do  coraçom  ,  compreyssom  , 
e  uoontade  per  que  possa  soportar  os  trabalhos  das  o- 
diencias ,  desêbargos,  perdendo  sono,  comer,  beuer, 
e  folgança,  quando  compryr,  nom  se  uencendo  per  a- 
mor,  temor,  proueito,  prazer,  ou  sanha  Do  saber 
quanto  em  todo  pêra  esto  mais  fosse,  tanto  era  me- 
lhor ,  mais  onde  osseu  nom  abastar  deue  conhecer 
quaaes  som  as  cousas  que  nom  sabe  nem  pode  bem 
entender,  e  que  lhe  côuem  regersse  per  adetermyna- 
çom  dos  leterados  Esse  efeito  tal  for,  faDando  com  a- 
quelles  que  por  melhores,  e  fora  de  sospeita  conhecer. 


o    LEAL   CONSSELHEIRO.  219 

fazendo  que  lhe  mostrem  oque  lhe  dizem  enipresença 
daquelles  que  razoadamente  oentenderem,  ou  el  perssy 
oueja  se  sabe  entender  latyni.  Detal  guysa  q  uejam 
se  olexto,  i^rosa,  doutor  aquello  q  dizem,  ou  letera- 
dos  per  semelhante  oquer  aprycar.  Eassy  das  lex ,  stil- 
los ,  custumes  do  reyno  Ca  em  todo  esto  perteence  ao 
senhor  muy  discretamente  escoldrynhar  e  conhecer  as 
cousas  que  caaê  em  juizo  deboa  razom  ,  ou  som  assy 
custumadas  que  bem  sabe  amaneira  que  sobrellas  se 
deue  teer,  ou  se  perteecem  aos  leterados  de  as  deter* 
mynar  com  os  auysanientos  suso  scriptos.  Equando  al- 
guu  senhor  taaes  uirtudes  bem  ouuer  e  praticar,  com 
amercee  denosso  senhor  deos ,  fará  bem  em  esta  parte 
gouernar  ajustica,  nom  seendo  embargado  per  outros 
grandes  aazos,  enfermydades ,  e  pesados  feitos ,  queo 
íaçom  nom  poder  abranger  atodo  como  deseja ,  bem 
sabe ,  e  poderia ,  se  detal  guysa  nom  fosse  toruado. 

Sobre  aguarda  dos  vii.  pecados  e  seguymento  desta» 
uirtudes  theollegaaes ,  e  cardenaaes ,  sobre  que  tenho 
scripto  ,  tem  fundamento  adereita  deuaçom ,  por  que 
os  deuotos  me  parecem  três  maneiras  Hufis  cerymo- 
nias  q  as  seguem  por  uaâ  gloria,  e  contentamento  do 
geeraí  louuor  que  por  alguãs  mostranças  de  certas  de- 
uaçoões  demostrom  ,  em  niysas  ouuyr,  jejííar  e  seme- 
lhantes, os  quaaes  deuyam  temer  aquel  dicto ,  que 
nom  fezessem  taaes  cousas  por  seerem  dos  homeens 
louuados.  Outros  ateem  por  maneira  dagoiro,  e  aques- 
to  ,poendo  tam  firme  teençom  em  dizer  alguâ  oraçom  , 
ou  trazer  certas  reiiquyas ,  que  por  ello  entende  auer 
sua  saluaçom ,  uyuendo  acomprimento  desseus  maaos 
desejos  E  como  filham  por  agoyro  certos  synaaes ,  a- 
quelles  que  sandiamente  os  guardam  assy  aquestes  cons- 
sijram  alguãs  cousas  de  pouco  mericymento  ,  como  se 
aquello  fosse  apryncipal  guarda  denossa  conciencia  nom 
reguardando  aquel  dicto  do  auangelho  Nom  aquel  que 
diz  senhor  5  senhor,  entrarei  no  reyno  dos  ceeos ,  mas 
«q.uel  que  faz  auoontade  de  meu  padre  Eos  terceiros 

£e  2 


220  O    LEAL   fJONSSELIIEIRO. 

que  sua  final  teêçom  poe  no  leixaniento  de  pecados , 
e  segujmento  de  uirtude.  Porem  amym  parece  que  so- 
bresto se  deue  guardar  aquel  dicto  do  auangelho  que 
as  cousas  pryncipaaes  cõuem  fazer  .s.  guardar  dos  pe- 
cados, e  seguir  as  uirtudes,  e  as  outras  desposiçoões 
delias  Porem  sobrellas  deuem  fazer  pryncipal  funda- 
mento aquelles  que  uirtuosamente  desejo  uyuer,  nom 
desprezando  todas  boas  cyrymonyas  e  outras  honestas 
deuaçooês  que  acadahuú  segundo  seu  estado,  hydade, 
desposiçom  perteecerê. 

Capitullo  1x1. 
Das  defijçooes  ê  geeral  das  vii.  uirtudes  principaaes ,  e 
specialrtiente   das    tt^es  theollocjaaes  ,    segundo  etençô 
dalguns  sabedores > 


Jr^or  que  determynaçom  geeral  he ,  que  das  cousas 
auemos  grande  conhecimento  per  suas  defijnçooês.  Po- 
rem mandei  aquy  poer  alguãs  dos  vii  pecados  mor- 
taaes ,  e  das  principaaes  vn  uirtudes,  de  que  uos  en 
cyma  tenho  scripto,  segundo  per  alguils  doctores  e  sa- 
bedores som  scriptos  E  tjue  teençom  deuollas  assy  a- 
parladamente  mandar  screuer,  por  se  melhor  poderem 
aprender,  e  lembrar.  Edemym  nom  screuy  em  ellas 
senom  alguã  deciaraçom  do  lynguagem  ,  mas  dey  car- 
rego aleterados,  que  mas  screuessem,  e  todo  nom  he 
boo  de  entender  sem  deciaraçom  daquelles  queo  bem 
entendem,  porem  no  que  duuydardes,  atai  leterado 
pregtitaas  que  uollo  saibha  bem  declarar;  por  que  nom 
ham  todos  destas  cousas  aquelle  saber  que  deueriam. 
JDas  uirtudes  assy  podemos  fallar  de  duas  maneiras  .s. 
em  geeral ,  ou  propryamête ,  e  em  special ,  e  assy  huãs 
e  as  outras  requerem  suas  defijçooes,  por  que  he  do 
notar,  que  de  duas  maneiras  he  a  uirtude.  Huã  perfei- 
ta que  traz  amayor  bêauenturança,  que  he  auyda  per- 
durauel.   Eaquesta  he  uirtude  graciosa  aqual  segundo 


o  li:al  coxsselheiro.  221 

saneio  agostynho,  e  omeestre  das  sentenças  na  segun- 
da  desfijí^om  xxvii.  assy   se  defíj   em   geeral   Uirtude 
he  boa  qualidade  da  uoontade  per  aqual  uyuem  derei- 
tanieiite,    e   per  aqual  nhuu   mal  husa ,  que  deos  em 
ohoniem   obra.    Outra  he  uirtude  jmperfeita ,  ou  nom 
acabada  ,    q   nom   traz   aderradeira   perfeiçom  ,    aqual 
uirtude  jmperfeita  lie  chamada  politica  moral  ou  atque- 
sita,  a  qual  em  geeral  per  ofillosofo  prymo  ethicorum, 
assy  he  defijnda  :  Uirtude  he  que  faz  perfeito  segundo 
apresente   uyda,    oque  hatem  ,  e  traz  abe  suas  obras, 
ou  segundo  omeestre.  Uirtude  he  huú  abito  per  oqual 
aalma  ha  perfeiçom  per  bem  e  prontamente  obrar,  a- 
qual   defijnçom  atoda  uirtude  theolegal  jntellectual ,  e 
moral ,    parece   que   serue  Epois  que  assy  he  de  cada- 
huâ '  procedamos ,  e  prymeiro  das  uirtudes  theolegaaes 
As   uirtudes   theologicas   som    três   .s.   Fe,   Sperança , 
Caridade,  contando  per  ordem  arteficial,   suficiência, 
das  quaaes  assy  se  pode  determynar  toda  cousa  que 
obre  per  entendimento,  cõuem   ante   conhecer  afym. 
Eassy  he  afle.  Item  oque  conssijra  percalçallo ,  e  assy 
he  sperança.  Terceiro  que  conheça  aquello  seer  bem  , 
por  que  nhuú  deseja  senom  bem  ,  ou  que  pareça  bem 
Eassy  he  Caridade,  aqual  omais  alto  bem  deseja,  se- 
gue, e  ama  Esta  he  ossumario  das  sobre  dietas  uirtu* 
des.  Caridade  he  huu  amor  per  oqual  deos  he  amado, 
por  sy  meesmo ,  e  oprouximo  pello  de  deos  Eem  deos 
segundo   este  sancto   agostynho    Caridade   he   uirtude 
per  aqual  somos  mouydos  pêra  amar  deos  mais  que  nos 
e  oprouximo  acerca  denos  segundo  omeestre  das  sen- 
tenças.   Sperança  he  hufi  atreuymento  deuoontade  cõ- 
cebida  dalargueza  de  deos  peraauer  uyda  perdurauel, 
segundo  sancto   ag*ostynho.    Sperança  he  certo  aguar- 
damento   da   gloria   que   ha  deuijr  dagraça  dedeos ,  e 
nossos  mericymeníos ,  segundo  omeestre.    Fe ,    he  jn- 
tendimento   da   uirtude,  das  cousas  jnssenssyuees  que 
perteece  arreligyom   dos  xpaãos  ,    segundo   gregoryo. 
Fe,  he  uirtude  peraaqual  aquellas  cousas,  que  ao  fun- 


222  O   LKAL   CONSSSLHEIRO. 

damento  darreligiom  perteecem  firmemente  som  creu- 
das,  segundo  omeestre. 

Capitullo  Txií, 
das  quatro  uittudes  moraaes. 

^/tls  uirtudes  moraaes  que  cardenaaes  som  chamadas 
oconlo  de  quatro,  nom  passo  assuficiencia,  das  quaaes 
segundo  Sanctoniaz,  jmpryma  secude ,  assy  declara  as 
uirtudes  moraaes,  estam  formalmente  no  bem  da  ra- 
Í5om  Eesto  per  duas  maneiras ,  ou  segundo  estam  em 
essa  contemplaçom  da  razom  sympresmenle.  Eassy  he 
huã  spiritual  uirtude  que  he  chamada  prudêcia  Se  de- 
uerdade  esta  no  bem  darrazom  segundo  ordenança  E 
esto  de  duas  maneiras,  ou  acerca  do  obramento,  e  as- 
sy he  justiça,  cu  acerca  da  paixom  ,  e  esto  tam  bem 
de  duas  maneiras,  ou  apaixom  jnclina  per  desejo  a* 
prosseguir  alguâs  cousas  que  som  contra  ordenança  dai 
razom ,  assy  como  agargantoyce  de  luxuria ,  ou  quaes 
quer  outras  torpes  deleitacooês,  e  assy  he  sijnada  tem- 
perança que  refrea  apaixom  concupiciuel  Esse  apai- 
xom faz  tornar  atraz  dàquello  que  se  razoadamente  de* 
ue  seguir,  assy  como  de  trabalhar,  uygyar,  e  seguy- 
mento  de  justas  batalhas  He  assijnada,  outra  uirtude, 
que  se  diz  fortelleza  aqual  ohomem  esforça  pêra  co- 
meter as  cousas  fortes  e  soportar  as  tristes  Eporem 
nom  som  mais  que  quatro,  capitaaes  e  pryncipaaes 
uirtudes,  das  quaaes  sesseguem  as  defijnçooês,  e  pry- 
ineiro  da  prudência.  Prudência  he  conhecimento  das 
cousas  que  som  pêra  desejar ,  e  esquiuar  segundo  tul- 
lio.  Prudência  he  huii  juyzo  da  razom  per  oqual  se  po- 
de auer  conhecymento  de  bem,  e  do  mal,  e  do  que 
nom  he  dehuu  nem  do  outro,  segundo  origynem  Jus- 
tiça he  firme  e  perdurauel  uoontade  dador  acadahuâ 
cousa  desseu  dereito ,  segundo  sancto  agostynho.  Jus- 
tiça he  desposiçom  do  coraçom ,  e  desejo  da  uoontade 
per  aqual  cadahuú  he  dicto  justo  ipegundo  lullyo.  Tem'' 


f)    T.lílAL    CONSSELHEIRO.  223 

perajiça  he  afeiçom  ,  que  refrea  oapetito  ,  naquellas 
cousas  que  torpemente  desejadas,  segundo  agostynho 
Temperança  he  uirtude  que  anianssa  acobijça  pêra 
nom  sobrepojar  aley  da  razom  arrepeendendosse  da 
cousa  digna  de  reprehenssom,  segundo  macobryo.  For- 
telleza  he  firmeza  de  coraçom  acerca  da  queJlas  cou- 
sas que  temporalmente  som  tristes,  segundo  agosty- 
nho.  Fortelleza  he  huu  desejo  das  cousas  grandes,  e 
desprezamento  das  cousas  baixas,  e  sofry mento  de  pe» 
rigoos,  e  trabalhos  com  razoada  humyldade,  segundo 
tuilyo. 

Capitullo  Ixiii. 
dos  vil  pecados  moríaaes  em  geeral. 

V^ete  som  as  lâmpadas  no  epocallisse  que  signyficam 
as  VII  uirtudes  em  el  meesmo,  sete  phiaaes  signyficam 
ahira  de  deos ,  que  som  sete  pecados  per  os  quaaes 
adanaçom  perdurauel  merecemos  he  denotar  que  os 
pecados  e  assy  per  modos  jnfijndos  se  podem  defijr, 
por  que  obem ,  segundo  ofiUosofo  per  huu  soo  modo 
he,  O  mal  per  jnfijndos  errores  acontece,  empero  que 
Miuytas  cousas  som  uistas  per  omeestre  das  sentenças 
per  curta  auysada  determynaçom,  som  despostas  no 
seu  segundo  liuro  destijnçom  .3.  5.  onde  opecado  mor- 
tal defijm  em  geeral  de  três  maneiras,  das  quaaes  huâ 
soomente  ponho,  e  he  de  sanorfo  arabrosio.  Diz  que  o 
pecado  he  pryuaçom  da  lei  dyuyna ,  e  das  cousas  cel- 
iestriaaes,  e  desobediência  dos  mandamentos  Aqual 
defijnçom ,  atodo  pecado  mortal  pode  perteecer,  e  cõ- 
uijr,  mas  muyto  mais  ao  prymeiro  de  todollos  sete, 
assoma  dos  quaaes  assy  se  pode  cercar  de  suas  fíjs, 
assy  que  as  geeraaes  e  capitaaes  detodollos  pecadoa 
som  duas  .s.  parecer  huâ  cousa  bem  ,  que  per  sy  he 
mal,  ou  parecer  mal  aquello  que  uerdadeiramente  per 
sy  he  bem  ,  e  se  he  cousa  q  pareça  bem ,  e  uerdadei- 
Tamente  he  mal,  esto  de  três  maneiras,  ou  parece 
bem  honesto,   e  assy  he  sobçrua,  ajBsy  como  no  pry* 


224  O   LEAL   CONSSELHEIRO. 

meiro  ajo,  ou  parece  bem  proueitoso,  e  assy  he  aaua- 
reza,  assy  como  em  judas  scariote,  ou  parece  bem  de- 
leitauel  Eesto  de  duas  maneiras,  ou  segundo  ogosto, 
e  assy  pecou  eua,  per  agulla,  ou  he  deleitoso  segundo 
tangymento,  e  assy  he  luxuria  daqual  nom  desíallece 
exempro.  Se  he  cousa  q  pareça  mal ,  e  he  uerdadeira- 
mente,  de  duas  maneiras,  ou  me  parece  mal  segundo 
natura  e  assy  he  yra ,  e  assy  como  em  caym  ,  segundo 
gulla  he  bem  e  parece  mal,  assy  lie  êueja,  e  estes 
dous  se  entêdem  no  outro,  se  em  sy  parece  mal,  oque 
he  bem  ,  assy  he  acidia ,  assy  como  nos  homeês  pry-> 
guyçosos  aos  quaaes  he  boo  detrabalhar,  empero  pa- 
recelhes  mal,  por  aqual  razom  muytos  som  feitos  myz- 
quynhos  e  proues  E  assy  som  sete  pecados  capitaaes, 
e  nom  mais,  dos  quaaes  se  dizem  suas  defijnçooês,  se- 
gundo ordenança  daquella  dicom  salligia. 

CapituUo  Ixiíii. 

Seguensse  das  defijçooês  speciaaes  dos  rii  pecados , 

primeiro  da  soberua. 

VC^oberua  he  amor,  ou  desordenado  apetito  da  própria 
excellencia,  segundo  omeestre  das  sentenças.  Soberua 
he  liuu  cego  apetito  de  coraçom  ,  e  de  uoõtade  de 
syngullar  excellencia  sobre  todos,  segundo  sancto  a- 
gostynho.  Auareza  he  desteperado  apetito  de  dynhei- 
ro,  e  de  ciência,  ou  de  qual  quer  outra  cousa  que  se- 
ja de  buscar,  ou  reteer,  segundo  agosíynho.  Auareza 
he  cobijça  de  dynheiro  que  nom  quer  cessar  dos  ape- 
lidos,  nem  se  alegrar  das  cousas  que  tem  segundo 
tullyo.  Luxuria  he  feruente  desejo  dedormyr  com  mo- 
Iher  sobre  medo  ,  e  contra  razom ,  segundo  ysidoro  e 
hugo.  Luxuria  he  per  desejos  escorregauees  dauoonta- 
de,  e  da  carne  desenfreado  derribamento,  segundo  ysy- 
doro  Hyra  he  desordenado  apetito  deujngança,  segun- 
do sam  thomaz.  Hyra  he  mouymento  do  coraçom  das 
enjurias  passadas,  que  spera  detodo  ujngáça,  segundo 


o    LEAL    CONSSELHEIRO.  225 

algazer.  Gulla  lie  desortlenado  apetilo  de  comer,  e 
beuer ,  em  o  liuro  de  dieta  salutis.  Gulla  he  corregi- 
mento  sollicito  deuyandas,  aqual  traz  delleitaçooes, 
segundo  sam  joham  cimaco.  ínuydia ,  he  tristeza  da- 
bem  auenturatiça  dalguem  ,  e  de  contrairo  prazer,  em 
liuro  dicte.  ínuydia  he  tristeza  que  nom  quer  as  bem 
auenturanças  doutrem,  segundo  hugo.  Mucidia  he  pe- 
queno amor  dobem  com  nojo  e  desordenada  tristeza  do 
coraçom  ,  em  liuro  dicte.  Aucidya  he  auorrecymento 
que  agraua  aaima  do  homem,  e  lhe  nom  conssente  fa- 
zer alguâ  cousa  de  bem. 

CapituUo  Ixv. 

das  defijçooes  das  rii  uirludes  princypaaes ,  segundo 

os  remonystas» 

-T  e  he  uirtude  per  Eiqual  o  fiel  cree  aquello  seer  uer-t 
dade  que  nom  sente,  nem  entende.  Fe  he  uirtude  per 
aqual   ohomem   sobrepoõe   aas  uirtudes  dedeos ,  e  das 
suas  obras   sobre  as  naturaaes  forças  do  entendymen- 
to.    Sperança   he   uirtude ,  per  aqual  ohomê  espera  de 
deos  perdoança,  ajuda  gallardom  e  gloria.  Sperança  he 
uirtude   que   certefica   aalma  da  bem  auenturança  por 
uijr,  poendo  confiança  no  seu  grande  e  poderoso  amy- 
go.    Caridade   he   uirtude   per  aqual  ocaritatyuo   ama 
deos ,  sobre  todallas  cousas  e  sy  meesmo ,  e  prouximo 
jgual  assy  em  deos  e  por  ode  deos.  Caridade,  he  uirtu- 
de, com  aqual  auoontade  soube  amar  deos,  e  seu  prou- 
ximo sobre  seu  poder  natural.  Caridade  he  uirtude  per 
aqual   auoontade  he  regrada  pêra  amar  as  cousas  assy 
como  som  dignas  damar.  Justiça,  he  uirtude  per  aqual 
ojusto  da  adeos,    assy  e   asseu    prouximo  oque  deue. 
Prudência  he   uirtude  que  consselha  que  homem  ame 
obem  ,    e  enteje  ornai ,    e  mais  ame  omayor  bem  queo 
meor  que  mais  enteje  omayor  mal  queo  ineor.  Fortel- 
Jeza  he  uirtude  per  aqual ,  ohomem  fortefica  sua  alma 
contra  os  pecados ,  e  que  possa  percalcar  as  uirtudes. 

Ff 


220  O   LEAL   CONSSF.LHBHRO. 

Temperança  he  uirtude  per  aqual  ohomem  refrea  sua 
uoontade  que  esta  antre  duas  exlernjydades  contrairás 
em  canlidade. 

Capilullo  Ixví. 
das  deftjçooes  dos  Fii  pecados  segundo  os  remomjstas. 


.A.uareza  he  maao  apetito  de  auer,  e  reteer  os  beêâ 
que  ahonrra  dedeos ,  e  proueito  do  prouximo,  se  de- 
uem  despêder.  Gulla  he  pecado  per  oqual  ogosto  he 
desuyado  de  sua  dereita  fym  per  muyto  comer,  ou  be- 
uer.  Gulla  he  pecado  per  oqual  ogolloso  pryua  em  sy 
abstynericia,  e  temperança  per  muyto  comer  e  beuer, 
e  per  desordenado  apetito  delles.  Luxuria  he  pecado 
com  oqual  oluxurioso  desuya  acopulla  carnal  da  ordem 
e  fym  pêra  que  he.  Soberua  he  pecado  com  oqual  os- 
Boberuo  deseja  ahonrra  que  ael  nom  cõuem  Aucidia  he 
pecado  per  oqual  ho  oucioso  ha  negligencia,  ou  pre- 
guyça  de  demandar  as  uirtudes  e  esquivar  os  pecados. 
Eassy  se  dooe  dobem  doutrem,  e  se  alegra  do  mal  dei. 
Inveja  he  pecado  per  oqual  o  êiiejoso  jnjustamente  de- 
seja obem  doutrem  Hira  he  pecado  per  oqual  ossanhu- 
do  lega  sua  liberdade  e  delyberaçom  contra  arrefreada 
uoontade  regullada  so  paciência,  e  per  consseguynte 
enteja  obem ,  e  ama  ornai. 

Capytullo  Ixvii. 

ãos  pecados  e  outros  fallicimentos  que  se  apropriam  ao 

coraçom ,  e  aas  outras  7iossas  partes. 

iToT  que  me  pareceo  quando  uos  sobresto  faley  que 
uos  prazia  apropryar  os  fallycymentos  anossos  sentidos 
em  este  capitullo,  sobrello  farei  algua  declaraçom , 
mesturando  natural  com  moral,  segundo  amym  razoa- 
do parece  Eajnda  que  todollos  pecados  tenham  seu  na- 
cimento  principal  no  coraçom,  como  diz  nosso  senhor, 


o    LEAL   CONSSELHEIRO.  227 

porem  eu  penssey  de  assijnar  alguiis  specyalmente  ael- 
le ,    e   outros   aos  sentidos.  E])rymeiran)ci)te  aeel  per- 
leeiíce  toda  desgoueruança  das  doze  paixooes  suso  di- 
etas,  s.   AiDor  Desejo.   Edeleitaçoni.  Ódio  Eauorrecy- 
mento,  Tristeza,  IManssidooe,  Sperança  Eatreuymêto, 
Sanha,  Despcraçom  Etenior,  Einais  empacho  e  uergo- 
nha.  Nas  quaaes  cousas  como  se  trespasa  oque  arregla 
dereita   manda,    faz   cayr  em   mal,  e  pecado.   Edeste 
ueem  amayor  parte  dos  pecados  e  malles.  Ca  soberua, 
vaã  gloria  ,   Enueja  ,   hira  ,   Aucidia  ,   Auareza  ,   seus 
pryncipaaes  fallicymentos  das  dietas  paixooes  descen- 
dem   Etres   erros  que  muyto  condanam  .s.  das  cousas 
grandes  desesperar,   e  as  pequenas  desprezar,    e  bus- 
car razom   husse   nom   pode  achar ,  ael  deuem  seer  a- 
propriados,  e  teem  ally  seu  fundamento,  e  das  dietas 
paixooes  descendem  Ao  entender  perteence  saber  dar 
boa  fym  aos  cuydados  nas  cousas  que  auemos  defazer 
e  boos  remédios  ao  que  sea  decontradizer  Etodo  que 
bem  p^^ticarmos  das  vii  partes  no  começo  scriptas  .s. 
Apreder,    Nembrar,    Julgar,    Nouamente  achar.  De- 
clarar, Eenssynar,  Executar,  Epersseuerança ,  Cons- 
tância, e  firmeza.  Porem  todo  fallicimento  em  quecayr- 
nios  per  cadahuã  destas  partes  suso  dietas,  da  myngua 
de   boa  prudência,  que  na  parte  do  entender  tem  seu 
fundamento,  deue  seer  contado  que  nos  procede.  Nos 
olhos  leixando  curteza  ou   nom   dereita  uista  e  seme- 
lhante mynguas  naturaaes  em  que  nom  podemos  emen- 
dar. Eu  uejo  certos  fallicimentos  denom  boa  contenen- 
ça  .s.  oolhar  soberuo,  ryjo ,  sobejo,  louçaão,  e  argu- 
Ihoso,  desassessegado ,  ajudengado,  muj  symprez,  pe- 
sado ,  refiam  ,  demostrador  da  leuydooe  ,  preguyça  ,  ou 
dengano.    E  com  elles  pecamos  em  uista  deuaam  glo- 
ria  perteecente  a  cousas  nossas  de  q  nos  sobejamente 
alegramos,  e  doutras  folganças  que  assy  nos  praz  deíi- 
Ihar  ou  que  sejam  desonestas  de  crueldade,  descarnho, 
ou  mal  e  abatymento  de  nossos  prouximos  Per  fallici- 
naêto  erramos  em  nom  hir  ueer  nosso  senhor  e  lugares 

Fr  2 


2?8  O   LKAL    C0N5SKLHKIR0. 

deuolos ,  e  nom  uisitar  por  cõssollar  aos  qne  deuemos 
como  bein  poderíamos,  nem  queremos  leer  seo  sabe- 
mos oque  nos  pode  pêra  nosso  bem  enssynar,  e  apro- 
ueilar,  ou  ueer  pessoas  iiirluosas,  ou  boos  feitos  de 
que  fylhamos  boos  exempros  e  consselhos  pêra  nossa 
saluaçom  e  reg} mento  da  saúde,  e  boo  estado  E  per 
estas  partes  que  loco  se  pode  conssijrar  que  por  husar 
da  uista  como  nom  deuemos  ou  nom  querermos  ueer 
oque  nos  cõuem  mnjtas  uezes  caymos  em  pecado ,  ou 
fazemos  lai  cousa ,  ou  mostrança  que  he  digna  derre- 
preenssom.  Aos  narizes,  leixando  feiçom ,  e  alguãs 
nom  boas  contenenças,  que  alguns  filham  demaao  cus- 
lume,.  outro  faliicimeto  hi  nom  lia,  senom  sobeja  de- 
leitaçom  de  boos  cheiros,  e  delligencia  deos  auer,  ou 
trazer  com  enlençom  corrupta,  Deluxuria  ,  gargantoy- 
ce ,  ou  dessobeja  folgança,  na  dulçura  delles.  Aaboca 
perLeecem  estes  fallicimentos ,  leixando  feiçom,  nom 
boa  conteneça,  inyngua  degraça  em  fallar,  e  rijr  que 
se  nom  pode  enssynar  Da  parte  da  gargantoyt»:  como 
dicto  he,  nom  aaguardar  pêra  comer,  beuer  ora  cõue- 
nyenle ,  comer,  beuer  sobejo,  buscar  uyandas,  ou  uy- 
nhos  com  delligencia  sempre  estremados,  husando  dei- 
Ja  com  sobeja  folgança,  e  ceremonias.  Feo ,  desones- 
to, cujo,  mynguado  mal  e  desordenadamente  seruydo 
quanto  aos  custumes.  Do  fallar  som  fallicymentos ,  re- 
negar, jurar,  contra  deos  murmurar,  desasperar,  he- 
resias afirmar,  ou  êssinar  contra  as  ordenanças  da  igre- 
ja,  mal  razoar,  dalguem  maldizer,  assanhar,  ou  pro* 
uocar,  myntir,  enganar,  desonesto  fallar ,  períiar  sem 
tempo,  ou  contra  quem  nom  cõuem,  desprezar,  ou 
doestar  os  que  nom  deuemos,  palrrar  oq  se  deue  guar- 
dar,  ou  nom  amoestar,  enssynar,  encamynhar,  casti- 
gar, conssollar ,  scusar,  quando  he  bem  de  fazer,  nem 
outorgar  oque  he  razom.  Quanto  aos  custumes,  lei- 
xando gago,  e  semelhantes  fallicymentos  naturaaes  er- 
ramos per  fallar  muyto  sobejo,  mynguado,  trigoso , 
uagaroso,   mais  baixo   ou  alto  que  perteece  sem  bo» 


o   LEAL   cr>KS5ELífErR0.  "       229 

conlenè*j'a   elabora,  oolhar.  cabeça,  c  msaos   Ffvnal- 
mente   no   que   dizer   quysennos  nos   cõueni  consijrar 
prymeiro    anosso   estado,    hidade,    saber,   maneira  de 
falJar,  desem])aclio,  e  assessego  de  nosso  coraçõ  Edesy 
que   auemos   derrazoar,  quãto  aquém,  onde,  em  que 
modo,  e  quando  Ca  per  fallicimento  decadahua  destas 
partes  erramos  no  que  aafalla  perteece  em  conciencia, 
e   boos  custumes.  Vm  ouuyr,  leixando  maa  contenen- 
ça   dabrir  aboca,  torcer  acabeça  ,  estirar  dolhos ,  que 
se   pode   per   boo   custunie  scusar  nossos  fallicimentos 
podem  seer  conssijrados ,  por  oqiie  he  suso  scripto  de- 
fallar.  Ca  uistas  as  cousas  que  se  nom  deuemos  dizer, 
ee   conhecerem  ,    ao   que   nom   som   de  ouuyr  Eaalem 
delias  podemos  errar  em  nos  prazer  douuyrmos  nossos 
gabos,    ou    sobejamente   alguãs   cousas   por  folgança , 
em   que  pequemos  per  occiosidade  ou  uílam  gloria  Ao 
sentido   do   tanger  perteence  pryncipalmente  opecado 
da   luxuria,    de   que  mais  ê  special  nom  entendo  des- 
creuer.  Emais  todo  uyço,  mymo,  e  pompa,  muyto  de 
nossos   corpos,    per   roupas   que  tragamos,  camas  em 
que  jazemos,  fogo  aque  nos  achegamos,  casas  frias  no 
ueraão  ,  semelhantes  cousas,  por  deleitaçom  denossos 
corpos   que   se   façam  aalem  do  que  nos  perteêce,  se- 
giido  nossa  desposiçom  ,  e  hydade ,  Ca  nom  uem  desto 
pouco   mal,    onde   nosso   senhor  diz   :    Quê   amar  sua 
"uoontade   em  este  segre ,    na  uyda  perdurauel  aperde- 
ra.    Eporem   me  parece   que   nunca    destas  cousas  he 
muijto  de   curar,    nem  lhe  filhar  grande  afeiçõ  por  tal 
que   nom   sejamos   mais   solicites  das  cousas  ao  corpo 
perteecentes  que  ao  sprito.  Eos  que  bem  ossabem  fa- 
zer teeni   tal   maneira   que   ao  parecer   nom   mostram 
jiiyngua  delympeza,    nem  dabastança  em  toda  cousa, 
nem    modo  syngullar,  mas  dam  adeos  osseu  ,  gouernã- 
do  seus  estados  e  corpos  detal  guysa  como  pode  fazer 
qual  quer  outra  uirtuosa  pessoa  pêra  seer  prestes  e  so- 
frer por   seu   seru\ço  e  nossas  honrras  toda  cousa  que 
razoada  seja,  Eao  mundo  fazem  mostrança  em  todo  seu 


230  O    LEAL   CONStEIíHEIRO,  •        .    , 

alguu  fallicyniento  como  perteece  asseu  ho(i  estado. 
Per  aquesta  re])artiçoin  uos  poderees  auer  algiíu  spe- 
cial  conhecymento  de  nossos  fallic}' mentos,  e  teendo 
esto  acerca  scrij)to,  vi  em  huíi  Jyuro  que  se  chama 
uerdades  da  theollosia  huã  outra  dos  pecados,  que  me 
pareceo  bem ,  aqual  uos  mandei  tornar  em  nossa  lin- 
guagem, e  aquy  screuer,  por  aueides  delles  mais  com- 
prida, enformaçom  Edos  pecados  que  perteecem  aca- 
clahufi  estado,  em  huu  liuro  que  fez  huil  quesse  cha- 
ma martym  pez,  he  feita  boa  declaraçom,  segundo  uos 
ja  demostrei.  E  quem  delles  quyser  auer  comprida  en- 
formaçom ueja  odicto  lyuro,  por  que  lhe  dará  pêra 
ello  grande  ajuda. 

Capitullo   1 X  V  u  j . 

Sobre  arrepartiçom  dos  pecados ,  do  liuro  da  soma 

das  uerdades  da  theollogica. 

XJLuendo  scripta  esta  repartiçom  dos  pecados  suso  de- 
clarada ,  vy  aque  diante  se  cotem  em  huil  liuro  que 
chamom  soma  das  uerdades  da  theollogia  Epor  me  bem 
parecer ,  pêra  poderdes  auer  desto  mayor  conhecimen- 
to amandei  tornar  delatym  em  nossa  lynguagem ,  e  a- 
qui  tralladar,  pouco  tirando,  e  acrecentando  no  dicto 
trellado,  sobre  oqual  entendo  oque  das  defíjnçooês  das 
uirtudes  e  pecados,  em  cima  uos  screuy,  que  auerees 
mester  boo  declarador,  por  que  nõ  he  todo  ligeiro 
dentender.  Ajnda  que  detodo  pecado  seja  contra  deos 
geeralmente  que  he  trino  e  huíi  apropryadamente.  Em*^ 
pêro  se  diz  pecado  alguil  seer  em  opadre ,  outro  em 
ofilho,  em  oespirito  sancto.  Em  opadre  pecamos  per 
impotência,  em  ofilho  per  jgnorancia ,  e  em  oespiritu 
sancto  per  certa  mallicia.  Esto  he  quando  auoontade 
pode  e  sabe  contradizer  alguií  mal.  Eempero  per  soo 
malicia  aquello  scolhe  pecado  em  oespiritu  sancto  , 
procede  demaa  uoontade  de  liure  aluydre.  Edereita- 
meate  einpuna  agraça  do  spirilu  sancto  e  por  tanto 


^    LEAL    CONSSELHEIRO.  23* 

nohi  tee  collor  dcscusaçom  ,  por  que  quf.nto  lie  dessy 
doreitamenle  ,  he  empunaconi  do  físico  e  derremedio, 
pello  qual  se  ha  de  fazer  remyssoni  do  pecado  em  oes- 
pirilu  saneio  se  diz  inremissiuel  em  este  mundo,  e  em 
no   outro,    nom    que   se   nom   possa  perdoar,   mas  por 
que   raramente  se   perdoa,    ou  mujto  aadur,   em  este 
mundo  quanto  aaculpa.  Dizsse  ajnda  inremyssyuel  por 
que   se   nora    lee  perdoado  nem  qu}  te ,  assy  como  di- 
zemos de  melchsedhec  que  foi  sem  padre,  por  que  se- 
nom  lee  de  seu  padre.  Dizsse  ajnda  inremyssyuel,  por 
que   contradiz   aafonte   daremyssom  ,  e  perdoança  que 
lie   oespiritu   sancto.    Dizsse   ajnda   inremyssyuel  polia 
fraqueza,    pouco   poder  do   homem,    oqual   aadur  sse 
pode  fazer  prestes  aagraça ,  portanto  presume  depecar- 
do  queo  apreme ,    e  abaixa  onde  he  de  saber  que  este 
nome  inremysyuel,  em  três  modos  se  toma  .s.  per  ne- 
gaçom    que  em  nem  huã  guisa ,  seno  pode  perdoar.  E 
em  este  modo  opecado  do  prymeiro  ãjo  detodollos  da- 
nados  se   diz  jnremysyuel.   Dizsse  ajnda  jnremyssyuel 
per  pryuaçom,  por  que  nõ  ha  acongruencia  por  que  se 
deua  perdoar  empero  que  de  congruência  da  uoontade 
de  deos  se  possa  todo  pecado  perdoar.  E  em  este  mo- 
do ,    todo   pecado   mortal  se   pode   dizer  jnremyssyuel 
Dizsse   ajnda  jnremyssyuel   per  contrariedade  segundo 
que  alguã   culpa   contrairá  desposiçõ   pêra  se  auer  de 
perdoar   Eem   este  modo   pecado  em  oespiritu  sancto 

he  jnremyssyuel,  por  que  he  contrairo  aagrâ de 

perdoar  do  pecado.  Eesto  pêra  desperaçom  ou  presun- 
çom  ,  ou  outras  speciaaes  deste  pecado.  Onde  he  des- 
saber  que  som  seis  speciaaes  depecar  em  oespiritu 
sancto  .s.  per  desasperaçom  ,  presuncom  ,  jmpunaçom 
deuerdade  conhecida ,  êueja  damor  fraternal ,  obstyna- 
çom  definal  jmpenytencia,  e  oconto  destas  tomasse  as- 
sy. Em  no  perdom  som  três  cousas  .s.  aquel  que  per- 
doa,  e  ©perdoado,  desposiçom  deperdoar  aaquel  aque 
operdom  he  feito.  Em  aquelle  que  perdoa  som  duas 
cousas  .s.  mysericordia  e  justi<;a.  Contra  oprymeiro  he 


23*  O    LIÍAL,   CONíSELHEIRO. 

desperaçom ,  côíra  ossegundo  he  presunçom ,  Ema- 
quelle  ao  qual  operdom  he  feito,  duas  cousas  .s.  doer 
do  cometido  pecado,  e  propósito  deo  nom  mais  come- 
ter- Contra  oprimeiro  he  pecado  de  abstinaçom  ,  Con- 
tra ossegundo  he  pecado  definal  impenítencia,  Apry- 
iiieira  desposiçom  de  perdoar  em  aqueIJe  ao  qual  ope- 
Cíido  he  perdoado,  se  parte  em  duas  guysas  .s.  em  co- 
nhecimento da  uerdade,  e  amor  deboondade.  Contra 
opryrneiro  he  jmpunaçom  deuerdade  conhecida,  contra 
ossegundo,  êueja  de  graça  fraternal.  Dafinal  jmpeni- 
tencia  he  de  notar  que  nom  diz  cotynuaçom  depecado 
ataafym  ,  mas  em  todo  pecado  em  no  qual  cadahuu  a- 
cnba  cijntemente  he  dita  fynal  jmpenitencia.  Mas  afi- 
nal jmpenitencia  assy  como  he  huã  specia  depecado 
em  oespiritu  sancto,  segundo  que  se  aquy  toma,  assy 
he  dicto  propósito  de  nom  fazer  penitencia. 

Capitullo  Ixix. 
Dos  pecados  do  coraçom. 

vJs  pecados  do  coraçom  som  estes,  penssamenlo,  de- 
leitaçom ,  conssentymento ,  desejo  de  mal,  uoontade 
peruerssa,  jnfieldade  em  deuaçom  ,  presunçom,  deses- 
peraçom ,  temor,  mal,  omjliante  amor,  mal,  aciden- 
te, sospeiçora  ,  êueja,  hira,  ódio,  temor,  seruilmen- 
te ,  alegria  no  mal  do  pruximo,  desprezamento  dos  po- 
brees,  ou  dos  pecadores,  recebimento  de  pessoas,  per- 
fia,  desejo  dos  parentes  carnaaes ,  allegria  sem  prouei- 
to  e  uaam  tristeza  domundo ,  jmpaciencia ,  auaricia, 
soberua,  desassessego  em  no  huso  das  uirtudes ,  obsti- 
naçom ,  mallicia,  nojo  do  bem,  accidia,  iconstancia, 
door  da  penitencia  do  penitente  por  que  nom  faz  mais 
mal,  jpocrisia,  amor  de  prazer,  aquém  nom  deue  te- 
mor delhe  desprazer,  uergonha  de  bem  obrar,  amor 
pryuado  sentido  singullar,  cobijça,  dignidades,  uaam 
gloria  dos  beens  da  natureza,  ou  fortuna,  ou  graça, 
uergonha  dos  pobres  amygos  desprezamento ,  ao  a- 
moestamenio  na  êjuria. 


o    LEAL    CONSSELIIEIRO.  Si33 

Capílullo   Ixx. 
Dos  pecados  da  boca. 

yJs  pecados  da  boca  som  estes  acustumado,  juramen- 
to ,  perjuizo,  brasfemia,  o  nome  de  deos  sem  reue- 
rencia  tomar  auerdade  contradizer,  murmurar  contra 
deos  dizer  as  oras  sem  reuerecia,  detraher  mentira 
dizer,  uituperio,  maldiçom  ,  cõmunicaçom  ,  empuna- 
çom  de  uerdade  conhecida  empunaçom  deuerdade  fra- 
ternal,  semvnaçom  de  discórdia,  trayçom ,  falso  tes- 
temunho, maao  consselho ,  scarnymento,  condiçom  de 
obrar,  souerter  boos  feitos,  em  nas  igrejas  palrrar, 
ahira  ohomem  prouocar,  repreender  ohomem  na  quello 
que  elle  faz,  fallamento  uaao ,  fallar  pallaura  occiosa, 
e  supérflua,  jautancia  de  pallauras,  defendimento  dcs 
pecados,  braados ,  rijsos  ,  e  scarnecer,  torpemente  fal- 
lar pallauras  desonestas,  dizer,  cantar  cantigas  sa» 
graaes  em  no  canto  deuyno  ,  mais  estudar  em  quebràí- 
tar  auoz  que  deuotamente  cantar  e  murmurar,  dizer 
pallauras  que  nom  perteeçam  aboos  custumes,  uogar 
pella  causa  êjusta,  e  omal  aprouar. 

CapituUo  Ixxr. 
Dos  pecados  da  obr^a, 

v/s  pecados  da  obra  som  estes.  Gulla,  Luxuria,  Be- 
iiedice,  Sacrilégio,  Sy  monja,  Sortillegio ,  Quebranta- 
mentos defestas.  Indignamente  comungar ,  Britamen- 
tos  de  uotos.  Apostasia,  Desolnçom  em  no  oficio  de- 
ujno ,  Scandalizer  per  enxempro ,  Oprouximo  corrom- 
per. Danar  ohomem  em  nos  beês,  ou  em  na  pessoa, 
ou  ê  na  fama,  ou  furto,  ou  rapyna ,  Husar  engano, 
Jogo,  V'endiçom  de  justiça.  Rendas  ou  custumageês 
ou  excepçooês,  ou  cambos  jnjustos.  Scuitar  omal.  Dar 
aos  jograaees  o  necessário  lhe  tirar,  Tomar  as  cousas 
supérfluas,   Costranger  nhuu  aale  do  que  pode,  Cus* 

Gg 


234  o    LEAL    CONSSELHEIRO. 

tunie  de  pecar  ao  pecado  tornar,  Symullaçom  ,  Teer 
oficio  ao  qual  nom  seja  abastante,  ou  que  sem  peca- 
do nom  possa  fazer.  Co  maa  teencom  dançar,  Nouy- 
dades  achar,  Aos  mayores  reuellar,  Os  meores  abai- 
xar. Pecar  per  uista,  audytu ,  olfatu  ,  gostu ,  tauto, 
per  os  olhos,  per  canijnhos,  per  geestos,  per  mãda- 
dos  desprezando  as  circunstancias  agrauantes  contheu- 
das  em  as  sanctas  scripturas,  que  som  tempos,  lugar, 
modo,  numero,  perssoa ,  mora,  sciencia,  hidade,  nom 
perueendo  aatenlaçom,  costrangendo  assy  meesmo  a^ 
pecar. 

Capitulh  "Ixxir. 
dos  pecados  da  omyssom. 

KJs  pecados  da  omyssom  som  estes ,  nom  penssar  em 
deos,    e   graças   que   dei   recebeo  ,  e  de  cada  huíi  dia 
recebem,  nom    no   temer,  nem   no  amar  as  obras  que 
cadahuu  faz  ael  nom   nas  referir  dos  pecados  cometi- 
dos,  segundo   que   perteece ,  e  quanto  perteece  nô  se 
doer,    Nom  se  fazer  prestes  pêra  receber  assua  graça. 
JNom  husar  da  graça  recebida,  nem  ajnda  aconsseruar, 
nem   se  cõuerter  aaspiraçom  deuynal,  Non  conformar 
assua  uoontade  aa  uoontade  de  deos.  Aas  oras  dedeos, 
iiô   sguardar   com  toda  teençom    As  oraçooês  deuydas 
leixar,    aquellas  cousas   que  he  obrigado  de  uoto ,  ou 
de   percepto ,    ou   de   oficio   desprezar.  Comunhom  ,  e 
confissom   ao  menos  huã  uez  no  ano.  Nom  receber  os 
parêtes ,  nom  honrrar  se  assy  meesmo  ,  nõ  conhecer  e 
repreender  se  assua  conciencia  desprezar,  e  aas  pree- 
gaçooês  fugir,  e  as  tentaçooês  uaãs  resistir  Eas  peni- 
tencias mandadas  desprezar    Perlongar  aquellas  cousas 
que  logo  defazer  som  Do  bem  do  prouxymo,  nom  me 
prazer,    e  do  seu   mal  nom   me  doer  As  êjurias  nom 
perdoar,  ffe  ao  prouxymo  nom  guardar  Eaos  seus  be- 
nefinios  nom  responder  As  baralhas  nom  amanssar,  os 
jgnorantes  nom  jnssynar  ,  os   aflictos  nom  conssollar 
Aos  anaoestanieníos  nom  obedecer. 


f)  LEAL  eONSSELIIElKO.  236 

Cktpilullo    1 XXI 11. 

Do  contentamento. 

JL  or  que  niuytos  fallecem  em  nora  filhar  contentamen- 
to  do  que  couem  ,  ou  auer  do  que  nom  he  razom  do 
roeu   pouco  saber,    alguã  enssynãça  acerca  dello  uos 
entendo   declarar,  segundo  amym  parece  em  três  par- 
tes geeraaes  se   pode  auer  .s.  denos  da  maneira  que 
homees  e  molheres  cõnosco  tem,  e  das  cousas  que  ueê 
dacontecymentos,  como  som  doores,  mudanças  de  tem- 
po,  perigoos ,  perdas  e  semelhantes  casos  em  bem,  e 
DO  contrair©    Quanto  ao  primeiro  de  nos  opodemos  a- 
uer  delynhagem ,    desposiçom   do   corpo,   compreissõ, 
manhas,  saber,  condiçooês ,  e  uirtudes.   Da  lynhagera 
que   descêdemos   e   desposiçom  natural  de  nossos  cor- 
pos deuemos  seer  contentes,  ajnda  que  tanto  nom  se- 
jam  anosso   prazer.  Conssijrando  queo  auemos  per  or- 
denança de  nosso  Senhor  deos ,  que  nos  poderá  fazer 
huu  bicho  da  terra,  e  nos  fez  homem  que  he  tam  ex- 
cellente  criatura    Nembrandonos  de  qual  quer  auanta- 
gem  que  nos  tenha  outorgada,  pêra  mais  auermos  con- 
tentamento, sentyndo  aquy  prazer  e  bê  que  recebemos 
por   auer.    Eposto  que  syntamos  auer  alguãs  cousas  da 
uantagem ,  deuemollo  filhar  com  temperança ,  por  nos 
guardar  dessoberua,    e   uaam   gloria    Da  cõpreissom , 
inanha ,  saber,  condiçom  ,  uirtudes  em  quanto  reguar- 
darmos  ao  que  nosso  senhor  deos  nos  tem  naturalmen- 
te  outorgado  por  arrazom  suso  scripta,  sempre  deue- 
mos seer  contètes.    Nunca   lançando   ael   achaque  de 
nossas  culpas,  e  fallicimentos.     Do  que  anos  perteece 
de  nos  guardar  e  acrecentar,  debem  em  melhor,  nom 
deuemos  do  que  possuymos  auer  contentamento ,   mes 
continuadamente  penssar  e  obrar  por  mais  bê  acrecen- 
tarmos ,  detal  guysa ,  que  nossa  boa  compreissora  ,  per 
boo  regimento  façamos  melhor,  e  nom  falleça  per  nos- 
sa culpa  Eassy  das  manhas,  saber,  condiçom ,  e  uirtu- 

Gg   2 


236  O    LEAL    CONSSELHEÍRO. 

des   nos   trabalhemos   quanto   enos  for,  dauançar  e  r.ô 
fallecer,  ca  scripto  he  ,  noni  melhorar  ê  ocamynho  das 
uirtudes,  aparelhamento  pêra  descayr  se  começa.  Epo- 
rem  cõuê  remar  sempre  contra  uento,  e  maree,  e  que 
nom  leuemos  remo,  querendo  seer  contentes  do  bem, 
que  na  questa  parte  recebemos,    por  que  tentados  per 
omundo,  carne,  e  jnmijgo ,  nom  tornemos  ligeiramen- 
te atras,   per  nossa  segurança,   e  contentamento.   So- 
bre as  manhas  e  boo  parecer,   uejo  filhar  ryjo  descon- 
tentamento  aos   que  muyto  dessy  presumem  ,   quando 
outros  acham  que  os  auançam    Eaquesto  uem  por  que 
sobejamente  se  eõtêtauom  ,  e  per  êueja,  ou  abatimen- 
to  deuaam   gloria,   quando   som   uencidos ,   no  quo  os 
outros  sempre  uenciam  ,   syntem  grande  tristeza  e  pe- 
na.   Epera   desto   cada  huu  seguardar  bem  he  que  por 
auantagem    que   dello   se   aja   que   nunca  filhe   sobejo 
contentamento  Conssijrando  como  som  cousas  de  pou- 
ca dura,  afigurado  sempre  ante  arrenembrança ,  como 
ham  demynguar  aquém  muyto  uyuer.  Eporem,  nom  se 
tornara  quando  uyr  oq  de  certo  spera  Eposto  que  per 
bydade ,    ou   alguú   caso  todo  uaa  fallecendo,   nom  se 
nembre  de  quem  foy ,    mas  ueja  qual  he ,    nem  se  des- 
contente, por  os  queo  ja  ueencem  ,   mes  filhe  razoado 
contentamento  dos  que  ajnda  ueencer,  ca  sempre  tan- 
to fyca,  que  sobre  os  seus  jguaaes  q  taaes  nom  forom, 
e  muytos  mancebos  fará  tal  uantagem  de  que  razoada- 
mente   se   deue  contentar.  Etal  conssijraçom  bê  he  fi- 
Iharsse   em    mudanças  destados,    e  outros  casos  seme- 
Jhantes  quando  ueherem  pêra  nos  guardar  com  agraça 
de   nosso   senhor  ,    de   ryjo  descontentamêto   do   qual 
muyto  mal  em  todo  stado  se  recrece  Epera  questo  po- 
dees   conssijrar   como  cadahuii  denos ,   ameu  juyzo  he 
bê   denos   contentarmos  dalguíís  partes  e  doutras  nom 
seer  contentes  Dos  homeês  e  molheres,  no  sentimen- 
to  do   coraçom  ,   nom  deuemos  auer  muy  grande  con- 
tentamento  pt  r  boa  maneira  que  com  nosco  tenham, 
nem  ryjo  descontentamento  do  contrayro  Eaquesto  por 


0   LEAL  CONSSELHEIRO.  237 

Ires  rázooes ,  primeira  por  nom  poermos  em  uoontade 
doutrem  toila  nossa  boa  uentuira,  assi  que  na  quella 
ponhamos  apryncipal  parte  detodo  nosso  bem,  desem- 
parando  ateeçom  denossas  uirtudes  Onde  todollos  uir- 
tuosos  sabedores  poserom  assoma,  fym ,  e  termo  do 
que  deiiemos  desejar  e  seer  mais  contentes  em  esta 
uyda  sigujndo  aquel  filosofo  aque  ardeo  sua  casa  com 
oque  era  em  ella  E  seèdolhc  dicto  per  huíí  seu  amygo 
como  lhe  ardera  todo  quanto  auya  Respondeo  que  as- 
soo uirtude  filhaua  por  sua  realmente,  todo  ai  auya  por 
emprestado,  pois  outrem  lho  podia  tolher  Epois  de 
uirtudes  seu  coraçom,  cousa  nom  perdera  detodo  quan- 
to ardeo  nom  curaua ,  pois  per  fortuna  lhe  podia  seer 
tirado.  Seguda ,  por  nos  guardarmos  deuaã  gloria  fi- 
lhando sobeja  folg-ança  por  alguãs  maneiras  que  com 
nosco  se  tenham  ,  presumyndo  que  todo  he  por  nos 
omerecermos,  mes  conhecendo  que  se  faz  per  uoonta- 
de, e  ordenança  denosso  senhor  E  como  el  nos  des- 
emparasse,  tal  nom  se  terria  cõ  grande  reguardo ,  fi- 
lharemos em  ello  prazer,  e  contentamento.  Terceira, 
por  nom  cairmos  em  tristeza,  sanha,  desordenado  a- 
uorrecimento ,  danos,  ou  doutrem,  quandosse  acertas- 
se denom  teereni  aquel  boo  geito  com  nosco  que  nos 
entendemos  que  alguiis  deuyam  teer. 

Capitiillo   Ixxrrij. 
Como  per  razom  bem  he  denos  contentarmos, 

Ua,  parte  darrazom  ,  bem  he  cõssijrarmos  aquelles 
com  que  côuerssamos ,  quanto  som  merecedores  pêra 
delles  auer  contentamento  per  desposiçom,  mericimen- 
tos  dessuas  pessoas,  linhage,  boas  maneiras  que  tem 
em  totlas  cousas  Eassy  nos  contentar  corregendo  a- 
quelleá^  que  podem  auer  emenda  Eos  outros  soportar, 
ponjr,  ou  leixar  como  uyrmos  que  he  bem,  Conssijra- 
do  afraqueza  dos  homeens  Como  soo  deos  he  perfeito 


238  «    LEAL    CONSSELHErRO. 

E  que  na  uyda  presête  noiu  se  pode  achar  tal  pessoa 
de  que  sepre  detodo  nos  possamos  contentar  se  perfei- 
çom  buscarmos,  ca  destado,  hidade ,  cõdiçom  ,  saber, 
afeiçom ,  desposiçom  de  têpos  e  lugares  nom  fallece- 
rom  aazos  pêra  nos  descontentar,  mes  onde  ha  muyto 
roais  bem  ,  que  do  contrairo  grade  engratidooê  mostra 
quem  razoadamente  senom  contenta  Edeuesse  reguar- 
dar  que  os  boos  e  sages  com  os  que  mais  sabem  de- 
boa  maneira  cõuerssar.  Eos  destemperados  em  esta 
parte  poucos  acham  de  quelhes  praza,  nom  queiram 
receber  alguú  contentamento.  Eporem  segundo  nos 
demostra  ojuyzo  denossa  razom  decadahuíi  segando 
seus  mericimentos  nos  contentemos  prezandoos  e  fa- 
zendolhe  mercee,  ou  seruyço,  trautandoos  bem  em 
todas  cousas  que  podermos  sempre  entrepetando  os 
maÍ5  desseus  feitos  aamylhor  parte.  Nem  filhemos  gran- 
de descontentamento  por  nom  boa  maneira  q  com  nos- 
CO  se  tenha,  ca  ou  serom  pessoas  uirtuosas  ou  nom, 
Esseo  nom  forê  dello  nom  he  dauer  Cao  uirtuoso  se- 
gundo ateençom  dos  sabedores,  nom  se  deue  muyto 
alegrar  nem  toruar  por  boo  geito,  ou  nom  tal  que  os 
semelhãtes  com  el  tenham,  saluo  em  quanto  dello  sen- 
timos honrra,  praueito,  prazer,  ou  cõtrairo  Eaquesto 
nora  he  pêra  contentar  muyto  nem  descontentar  do 
geyto,  mes  do  que  nos  seguyr,  entendendo  que  foy 
da  contecimento ,  e  per  ordenança  de  nosso  senhor, 
oquelhe  deuemos  teer  em  mercee  aquelles  de  queo  re- 
cebemos, ou  seermos  conhecydos  como  tal  feito  mere»- 
cer ,  ou  aos  erros ,  malles ,  e  perdas  tornar  como  he 
razom ,  mes  geeralmente ,  em  nos  por  ello  nom  deue- 
mos filhar  grande  contentamento ,  nem  descontenta- 
mento Esse  boos  e  uirtuosos  forem  penssar  deuemos 
queo  erro  nom  he  no  geito  que  outrem  tem ,  mes  na 
niyngua  que  ha  em  nos  contra  deos ,  ou  contra  elle, 
aqual  emendada  ouirtuoso  corregera  logo  sua  boa  ma^ 
neira  E  assy  de  cadahuã  destas  guysas,  nom  conuem 
muyto  desconteutar.  Sobre  aparte  terceira  que  pertee- 


o    LEAL    CONáSELHEíRO.  239 

ce  aas  cousas  que  recebemos  deuentura  por  nos  iiTrem 
per  ordenança  denosso  seiihor,  das  que  forem  anosso 
prazer  ,  nos  deuemos  temperadamente  dando  jrraças 
ael  E  das  cõtrairas  auendo  paciência  bem  dizer  do  seu 
sancto  nome,  nom  filhemos  tal  descontêtamento  quo 
nos  empeecymenlos  traga  na  conciencia  uoontade,  e 
perssoa ,  e  requerendolhe  mercee  pêra  toda  cousa  que 
nos  praz  justificando  nossas  petiçoões,  amoestados  per 
seu  enxempro  diremos  sempre  em  nosso  coraçom  :  Se- 
nhor nom  como  eu  desejo,  e  requeiro,  mas  como  aty 
Miais  praz  E  tal  penssamento  faz  nossos  requerimentos 
dereitos,  e  as  uoontades  prestes  pêra  em  todo  filhar 
razoado  contentamento  E  buscando  primeiro  orreyno 
de  deos  e  sua  justiça  sempre  com  nosso  poder,  e  saber 
nos  deuemos  trabalhar  quanto  em  nos  for  dacrecêtar- 
mos  em  todo  nosso  bem,  e  mynguar,  e  desuiar  ocon- 
trairo  filhando  consselho  de  nosso  senhor  que  nos  man- 
dou pedir  pêra  receber,  buscar  peraachar  e  chamar 
pêra  seermos  recebidos ,  por  tal  que  nom  ponhamos 
ael  achaque  denossa  priçuiça .  e  fraqueza  E  bem  he 
pêra  esto,  penssar  oque  diz  sallamõ ,  que  ha  hi  tempo 
debem  ,  e  do  contrairo,  e  que  os  boos  e  discretos  tO" 
do  hara  de  passar  actuosamente  peraas  maneiras  suso 
scriptas  e  dessemelhantes  que  deuem  desaber  em  ca- 
dahuu  caso  specialmente  buscar  e  guardar,  por  tal  que 
per  mercee  do  senhor  todallas  cousas  se  nos  tornem 
em  bem,  como  diz  oapostollo,  Que  se  faz  aos  que 
ama  deos. 

Capitullo  Ixxv. 

Do  que  se  recrece  dobem ,  e  do  contrairo  em  saber 

fylhar  ocontentamento. 


D. 


'e  nos  sabermos  bem  contentar  em  todos  casos, 
esto  se  nos  recrece  acerca  denosso  senhor  Nom  somos 
engratcs,  e  as  bem  auent«iranças  e  nos  casos  contraí- 
res husamos  dehumyldade  e  do  que  anos  toca  nos  beês 
auondosamente  com  têperança  filhamos  prazer,  E  nafi 


240  o    LEAL   CONSSELHEIRO. 

auerssydades  auemos  paciência  onde  compre  atreny- 
inento  com  boa  sperança  se  tal  leito  he.  E  por  ello 
muy  bem  em  todo  nos  gouernamos,  recebendo  gra- 
ciosamente toda  boa  maneira  que  acerca  denos  se  te- 
nha Esse  tal  nom  he,  sem  toruaçom  ofazemos  corre- 
ger  e  emendar,  ou  castigar,  e  sabemollo  todo  passar 
com  menos  empacho  nosso  e  dos  outros,  do  que  fazem 
os  que  som  priuados  detal  saber ,  e  temperança  de  co- 
raçom  Casse  conssijrarmos  nossos  feitos,  e  os  alheos 
ueremos  quanto  mal,  tristeza  desacordos  por  aazo  do 
descontentamêto  se  recrece ,  e  com  guarda  da  uirtude 
mujta  honrra,  proueito  e  prazer  aos  queo  bem  sabem 
filhar  com  special  graça  denosso  senhor.  Per  soo  con- 
tentamento, os  pobres  som  ricos,  e  nas  cousas  con- 
trairás confortados,  os  que  pouco  comem,  beuem ,  e 
dormem  auondados  E  per  descontentamento  todo  se 
faz  em  contrairo.  Ca  se  alguu  do  que  de  nosso  senhor 
deos  naturalmente  tem  recebido,  ou  das  cousas  que  se 
per  acontecimentos  contra  seu  prazer  recrecem  filha 
ryjo  descontentamento  ou  da  maneira  que  com  elle  sô 
tem  per  senhores ,  amygos ,  e  seruydores ,  por  beãdan- 
te  que  pareça  de  todo  se  julga  fallido,  triste,  e  mal 
auenturado,  porende  muyto  nos  cõuem  com  agraça 
denosso  senhor  trabalharmos  por  seermos  contentes 
década  cousa  segundo  seu  tempo  e  razom  Côssijrando 
que  dos  uerdadeiros  beês  que  som  uirtudes,  e  nas  o- 
bras  delias  q  fazemos  ofilhemos  temperadamente  por 
nom  saber  em  esta  uyda  se  dignos  somos  damor,  ca 
de  ódio.  Desy  por  que  sempre  nos  deue  prazer  pouco 
com  desejo  demais  bem  auermos  e  nom  filharmos  uaam 
gloria  com  presunçom  denossos  mericimentos  Se  fo- 
rem cousas  meãas  perteecentes  aaparte  dobem ,  como 
som  hõrras ,  saúde,  e  riquezas  e  semelhantes  assy  cõ- 
uem desse  filhar,  nom  poendo  em  ellas  bem  auentu- 
rança  polias  razooês  suso  dietas.  Nas  cousas  contrairás 
deuemos  temperar  assy  com  sofrimento  nossas  uoonta- 
des  desse  nom  descontentar  que  per  humildade  e  pa- 


o    LEAL    C0N5SELHEIR0.  241 

ciência  aja  contentamèto   sentindo   queo   auemos  per 
dereita  ordenança  de  nosso  senhor,  que  nos  pena  me- 
nos  q   merecemos;    e   da  gallardom  mayor  que  nossos 
merecimentos.  Esseo  filhamos  denos  por  os  malles  que 
fazemos,  ou  auemos  feitos  seja  filhado  com  temperan- 
ça por  nom   cairmos  em  continuada  tristeza,   menos 
preço  ,    e    desordenado    penssamento  ou   desperaçom 
Esseo    das   cousas   per   nos   mal   feitas   nom   filharmos 
quãto  deuemos,    forçando   nosso  coraçom  lho  façamos 
aentir   E  per  taaes   auysamentos  com  agraça  denosso 
senhor  se  filha  cõtentamento  do  que  cõuem,  e  se  tem- 
pera em   bem   e  no  contrairo  quando  e  quanto  cõpre. 
E  aquel  queo  sempre  assy  fezer,   saibha  que  deos  lhe 
ortorg-ou   grande  mercee  na  uyda  presente  e  per  aque 
speramos    E  de    tal   enssynança  he   pêra  mostrar  aos 
quesse  regera   per  razom    Ca  pouco   uai  aos  que  se- 
guem desejos,  e   arreuatamento  dauoontade,   ou  que 
som   uencidos   dauorrecimento  e   tristeza,  ou  legados 
em   amor  desordenado  ,   por  que  dentro  êssy   trazem 
quem  os  faça  detoda  cousa  pouco  mal,  e  desconcerta- 
damente contentar,    mais  aos  saãos  entendidos,   tem- 
perados ,  e  desejadores  deuirtudes  pensso  que  praza  e 
aproueite  Eaos  outros  nom  empeecera  E  aquelles  que 
esto   todo   sabe  e   guardam  jiodêna  enssynar ,  sa  bem 
lhes  parecer.    Ca  nom  vy  sobre  eilo  outra  assy  apar- 
tadamente scripta. 

Capiiullo  Txxvi. 
Do  hoo  razoado  sentido. 

JLor  que  em  cadahuíi  dos  dictos  liuros ,  nom  se  toca 
huã  parte  deuirtude  per  cujo  fallicimêto  muytos  caaê 
em  pecados,  e  maíles,  alguii  pouco  dello  uos  quero 
screuer.  Eaquesta  he  que  das  cousas  ajamos  boo  e  ra- 
zoado sentido.  E  deo  auermos  nos  fallecemos  per  so- 
begidoõe  e  mynguamento  como  se  faz  em  as  mais  das 
uiitudes,    e  desposicoões  delias.    Essobejando  fallece 

Hh 


242  O    LEAL    CONSSELHEIRO. 

cadahuu  per  as  afeiçooes  de  que  mais  he  legado  ,  ou 
nas  paixooês  faiiido.  Caos  soberuosos  muyto  sentem, 
se  outros  com  elles  se  querem  iguallar  ou  sobrepojal- 
los,  dos  quaaes  elles  se  teem  em  mayor  conta.  £  os 
uaãos  gloriosos  filham  grande  sentido  do  que  por  aba- 
timento de  seu  louuor  e  fanja  he  dicto ,  ou  feito.  Eos 
êuejosos  bem  he  uisto  quam  sobc^jamente  sentem  os 
beês  daquelles  de  quea  teem,  ou  se  contra  elles  alguâ 
cousa  fazem.  Os  dessanha  tocados  filham  sobejo  senti- 
mento das  menencorias  quandolhe  feitas  som  Eos  tris- 
tes dos  nojos  e  desprazeres  grande  sentido  recebem. 
Os  priguiçosos  por  quanta  pena  ham  alguíi  cousa  de- 
trabalho  desprito,  ou  de  corpo  he  bem  conhecido.  Os 
auarentos  per  toda  perda  ou  myngua  de  gaãço  sopor- 
tam  desarrazoado  sentido.  Os  luxuriosos  bem  demos- 
tram per  obra  e  dictos  quanto  sentem  estoruarênos  de 
comprir  seus  maaos  desejos  lios  gollosos  e  gargantooês 
encobrir  nom  podem  apena  que  recebem  em  fazellos 
sofrer,  ou  lhes  tirar  ossobejo ,  e  gollosamente  beuer, 
e  comer.  Eos  ciosos  com  quanto  trabalho  decoraçom 
passom  sas  uydas ,  por  os  sentirem  aalem  darrazom  , 
bem  he  per  muytas  speriencias  demostrado.  Os  perfio- 
sos  seos  uencem  ,  ou  ryjo  contradizem  sas  perfias  bem 
mostram  oss^cHbejo  sentido  que  dello  filham  Eos  de  fra- 
cos e  apertados  coraçooês  sobejamête  sentem  as  cou- 
sas detemer  e  contrairás  E  muyto  mal  soportam  feitos 
grades  e  fortes,  nom  os  podem  acabar,  perfilharem 
delles  tal  carrega  com  sobeja  desperaçom  que  se  tor- 
nam 5  ou  detodo  leixani.  Eassy  he  claramente  uisto 
daquelles  pecados  e  fallicymentos  que  mais  seguidos 
8omos,  filhamos  mais  sobejo  sentimento,  e  aquesto  a- 
uemos  da  parte  das  condiçoocs  Per  sobejo  empacho,  e 
uergonça,  quantos  som  toruados  em  feitos,  e  dictos 
cadahuà  perssy  e  per  os  outros  poderá  bem  julgar  E 
faço  deferença  dauergonha  ao  empacho,  como  cõpry- 
damente  screuy  no  liuro  do  caualgar  por  que  auergo- 
nha  aproprio  aaparte  da  razom  fazendo  fundamento  em 


o    LEAL   CONSSELHEIRO.  243 

cousas  que  fiz  ou  ciuuydo  defazer,  contrairás  de  uirlu- 
de  Eo  empacho  queo  coraçom  fylha  de  qual  quer  cou- 
sa que  duuyda,  mal  parecer,  ou  seer  auydo  por  estra- 
nho,   ou   ryjo,    se  luayor  sentido  da  razoni  for  filhado 
jio  cometer  demuytos  boos  feitos,  faz  sobejo  empeeci- 
jnento,   e  fazendoos  da  sempre  grande  torua.  Os  que 
atodos  querem  cõprazer ,  c  anehuu  despraz,  ajnda  que 
naça   tal  desejo  so  semelhança  de  caridade  niujto  som 
toruados   em   bem   obrar ,  por  filharem  mayor  sentido 
dos   nojos  e  perdas  alhcas  do  que  cõuem  ,   ca  nom  de- 
ue   sentimento  aos  que  as  uirtudes  desejem  realmente 
guardar  fazer  tal  empacho  que  por  prazer  aoutrera,  ou 
lhe   fazer  perda,  mal  ou  nojo,  quando  necessário  for, 
leixem   de   comprir  oque   deuem  Eaesperança   mostra 
bem  aos  que  tal  uoontade  teem  que  ossentido  sobejo, 
que  dos  outros  se  filha  da  muytas  uezes  torua  pêra  uir- 
tuosamête  obrar   Eporem   quando  presta  deuemos  ael 
seruyr  Equando  empeece  forçallo  com  agraça  denosso 
senhor  ornais  que  podermos,  e  seguyr  sempre  oque  ar- 
razom  manda,    ca  nom  he  duuyda  queo  empacho  nos 
moços  ,  e  mancebos  muytas  uezes  faça  grande  prouei- 
to  E  o  receo  dauergonha  filhado  temperadamente  ato- 
dos  aproueita,    e   ossobejo   traz  empeecimento    Euejo 
em  dous  fallicimentos  muy  geeralmente  cayr   .s.  filhar 
muy  ryjo  sentido  das  cousas  que  ajnda  nom  som  como 
se  ja  fossem   segundo   alguíis   que   por  anouydade   se 
mostrar  errada  ja  choram  fame    Eassy  em  semelhantes 
outros   do   que  sospeitam  que  cõtra  elles  he  feito ,  ou 
dicto  filham  taõ  ryja  sanha,  tristeza,  ou  cuidado  como 
se   fosse  certo    Epor  que  muytas  uezes  todo  he  nada, 
ficam  em  ambollos  casos  com  mal  recebido  sem  razom 
per  sospeitas   e  receo  do  fallimento  da  sua  condiçom  , 
nom    dereita,  ou  mal  acustumada,  aos  quaaes  seneca 
consselha   que   nom   sejam  mizquynhos  ante  do  tempo 
Eporem  cõuem  sempre  filhar  esforço  com  auysamento 
pêra   nom   cayr   em    tal   erro,  Edas  compreissooês  em 
geeral  se  afirma  que  os  colloricos  dessanha,  perfia,  so- 

Hh  2 


244  o    LEAL  CONSSELHEIRO. 

berua  som  tentados,  querendo  semelhar  ao  fogo,  de- 
que  condiçom  mais  participam  em  aJteza  e  feruor.  Eos 
sâguinhos   das  cousas  alegres,  debem  querenças,  fes* 
tas,  jogos,    danças,   tanger,  cantar,  montes,  caças, 
pescarias,  todo  per  spaço ,  e  folgança  mais  som  reque- 
ridos. Segundo  acompreissom  do  aar,  por  que  os  obra- 
dores   detaaes   cousas   desordenadamente,   e   nom  aíal 
fim  como  deuem ,  uaydade  recebem  por  gallardom.  Os 
freimaticos,  uyço  decomer,  beuer,  dormyr  sê   traba- 
lho do  corpo,  nem  do  spirito  muyto  desejem  por  ope- 
sume  dessua  frieldade,    e   hum3dade   semelhante  aas 
auguas    Eos   menencoricos  das  cousas  tristes  dauorre- 
cymento   dessy  ,    e   doutrem    com   desperaçom    detodo 
bem  ,  e  grande  sospeita  dos  malles  he  requerido  seme- 
lhando  per  sua  frieldade  td  secura  aterra  seca  dauguas 
que  fruito  boo  e  proueitoso  nom  pode  geerar.    E  estas 
tentaçooês   fazem    filhar  mayor  sentido  que  cõuem  aos 
destas   cõpreissooês ,    nom   porem    alodos  que  som  al- 
guíjs  segundo  determynaçom  freimaticos  no  estamago 
E  todo  ocorpo  calórico,  e  assy  per  outras  semelhantes 
deferêças.   Eposto  que  alguã  destas  compreissooês  se- 
jam  enduzidos   afazer  alguíí  mal  per  cadahuã  das  cou- 
sas suso  scripías  que  mudam  as  condiçooês,  e  boo  cus- 
tume,    pode   seer   tam    temperados   que  nom  sintirom 
sobejo  as  tentaçõoes  que  sua  compreissom  lhe  outorga. 
E   per  aquestas   poderá   cadahuu   auer  alguã  parte  do 
conhecy mento   dessy    Edos   outros  conssijrando  acõdi- 
çom  e  compreissom  de  que  cousas  filha  mayor  sentido 
quando  senom  fazem  asseu  prazer  Eper  que  parte  mais 
fallece   em    nom   filhar  nos   feitos   aquel   cuidado  com 
delligente  trabalho  que  deue  por  penssar  ou  seguir  ou- 
tras cousas  q  tanto  nom  cÕuem. 


o  LEAL  CONSSELHEIRO.  2    -> 

Capitullo 'Jxxvn. 
Dos  erros  do  mynguado  setido. 

jfxlguus  errom  per  maneira  cõtraira  sentindo  as  cou- 
sas menos  do  que  cõuem  per  myngua  dememoria,  en- 
tender, uontade,  querer,  saber,  e  poder,  deque  aes- 
periencia  bem  mostra  claros  enxêpros  que  se  das  cou- 
sas nom  se  ha  tal  sentido  como  deue  nem  som  rienbra- 
dos   quanto  côuem  ,  ca  poucas  uezes  os  que  dos  feitos 
filham   per  afeicom   razoado  sentymento   se  denatural 
memoria    nõ   desfallecem  ,    nunca   som    squeecidos   do 
que  determynam  fazer,  nem  bem  entêder  as  poderom 
se   com   afeicionado^    desejo    delias   nom   filharem   boo 
CU}  dado ,    E  uoontdde   nom   poderom  auer  deas  bê  o- 
brar  se  per  ryjo  sentido  dauoontade,  proueito  nom  fo- 
rem  enduzidos.   Eassy  do   querer,   e   saber,   que  sem 
special  razoado  sentido  das  cousas  degrande  cota  nom 
ce  podem  querer,  nem  saber  tam  perfeilamente  como 
cõuem.  O  poder  quanto  com  grande  sentido  nos  feitos 
se  acrecenta  cadahuíi  perssy  opode  julgar.  Ca  por  auer 
uoontade  dehuâ  cousa  depequena  conta,  nom  sentem 
fame  ,   sede  ,   sono  ,  frio  ,    calma  ,   traballo   decorpo  ,  e 
desprito    Epor  outras  de  saluaçom  das  almas  da  honr- 
ra ,  e  proueito,  se  aperfeiçom  delias  nom  filha  lai  sen- 
tido,   Opoder  acha  tã  fraco,    que  cadahuâ  das  coussas 
suso  dietas  nom  sofre  afirmando,  que  nom  pode,  nem 
he  defazer,    parecendolhe  razom  por  huu  porco  andar 
todo  odia  sem  comer,  e  que  nos  ofícios  da  igreja,  em 
eonsselhos,  ou  desembargos  he  sobejo  estar  dei  amee- 
tade  Esse  per  semelhantes  enxempros  se  mostra  quark- 
to  per   myngua  deboo  sentido  nos  feitos  senom  ha  em 
elles  aquella  memoria,  entender,  e  uoontade,  querer, 
saber,   e   poder,   que  cõuem.    E  assy  per  fallicymento 
damemoria,  e  de  cadahua  das  outras  partes  nom  aue- 
mos,  nem  fylhamos  dos  feitos  razoado  sentido.  Os  dos 
coraçooês  muyto  largos ;  ou  fracos,  c  os  pryguyçosos 


246  ©    I.KAL   CONSSELHKIRO. 

e  deleixaclos  se  per  siso ,  e  razom  riom  se  corregem  , 
per  myng^ua ,  ou  sobegidoõe  muyío  fallecem  ,  caos  de 
largas  uoontades  ,  e  coraçooes ,  teerido  as  cousas  em 
pequena  conta,  nom  as  sêtem  quanto  couem  ,  e  os  de 
fracos  degrandes  desasperam  ,  e  porem  delias  riom  se 
curam ,  os  priguiçosos ,  e  os  deleixados  com  squeecy- 
mento  e  priguiça,  ou  fraqueza,  dos  feitos  filham  tam 
pequeno  sentido  que  sempre  os  mal  e  tarde  fazem  Es- 
semelhante  muytas  uezes  os  derribados  em  os  fallimen- 
tos  suso  dictos,  tanta  afeiçom  teem  aalguiis  reuessa* 
dos  desejos  ou  receos,  que  doutros  feitos  nom  podem 
auer  aquel  sentido  que  he  razom,  por  que  ameraoria, 
entender,  e  uoontade  assy  trazem  desordenadamente 
legadas  em  alguú  amor,  desejo,  deleitaçom ,  ou  em 
cadahuã  dos  outras  paixooês  suso  scriptas,  q  as  outras 
cousas  e  feitos,  nom  podem  nem  querem  sentir,  como 
dereitamente  deuem  fazer.  De  nom  se  filhar  ossentido 
que  cõuem  quando  som  feridas  muytos  ueherom,  amor- 
te  e  grandes  cajooês,  porem  assy  como  em  aiguíís  tem- 
pos bem  he  sofrellas  per  seruiço  denosso  senhor  deos, 
e  nossas  honrras ,  assy  nos  outros  bem  he  que  delias 
se  faça  tal  conta  como  cõuem.  Etodo  esto  fazem  muy- 
tos perfeitamente,  os  que  guardam  em  todcs  seus  fei- 
tos tempo,  e  ordem.  Ca  segundo  dicto  dessallamom, 
todallas  cousas  teem  seus  tempos,  por  que  tempo  he 
que  traz  seu  mericimento ,  matpr  alguu  homem,  e  ou- 
tro grande  pecado.  E  assy  de  gejuar,  vigiar,  e  todal- 
las cousas  meãas,  nas  quaaes  sua  perfeiçom  esta  em 
guardar  tempo ,  e  ordem  como  dicto  he.  Ca  nas  sete 
uirtudes  suso  dietas,  nom  ha  tempo,  lugar,  por  que 
sempre  som  necessárias,  eo  leixamendo  delias  fazersse 
nom  pode  sem  pecado,  segundo  esto  no  dicto  liuro 
das  collaçooês ,  muyto  bem  se  declara.  E  assy  he  bem 
nisto  que  guardar  tempos  em  nossos  feitos,  e  filhar 
em  elles  ossentido  que  deuemos,  he  alta,  e  grande 
prudência  E  com  esto  concorda  bem  aquel  enxempro, 
que    diz  ante  do  feito  consselho,  e  depois  esforço.   E 


o    LEAL    CONSSELIIEIRO.  2'ÍT 

aesy  couPtn  auer  ante  delles  boo  sentido  pêra  nos  aui- 
sar  ,  e  perceber  do  que  nos  perteece ,  e  depois  tempe- 
riilJo  nas  fljns  detodos  que  bem  uehereri) ,  pêra  nom 
sobejo  nos  allegrar  e  dos  contrairos ,  por  nom  receber- 
mos derrubameulo  no  coraçom  ,  uoontade,  e  boa  ma- 
neira deujuer,  lenibrãdonos  aquella  pallaura  que  diz 
Toda  cousa  que  se  faz  antre  uos,  guardando  ordem,  e 
tempo  se  faça. 

Ca  pi  tu  lio   n  X  X  V I  r  r . 
Côtra  quem  per  sobejo ,  ou  mynfjuado  sttido  erramos. 

JL^e  nom  se  auer  nem  filhar  aquel  sentido  que  em 
cadahuã  cousa  e  feito  auer  se  deue,  faze  erros  contra 
deos ,  e  contra  nos  medeses,  e  aos  senhores,  amygos, 
e  seru}  dores  ig-uaaes  denos  e  mais  somenos.  Errom  per 
sobejo  sentido  contra  deos,  quando  per  sanha  áe\  re« 
negom ,  ou  mal  fallom  dizendo  que  nom  he  todo  pode- 
roso ,  nem  faz  todallas  cousas  dereitas.  E  per  myngua 
deboo  sentido  esso  medes  fallecem  contra  el  quando 
das  almas  nom  curam  nem  lhe  dam  aquellas  graças  e 
louuores  per  reconhecimento  de  boas  obras  por  nos 
criar,  fazer  homeês  em  sua  lei  nados  com  outras  infijn- 
das  mercees  que  todos  dei  recebemos  Contra  nos  muy- 
to  caâe  em  mortes,  e  ê  outros  grandes  malles  per  tris- 
tezas, nojos,  desperaçooès ,  desesperando  com  sanha 
de  feitos  proueitosos,  e  boa  maneira  deuyuer,  seguyn- 
do,  e  uencendosse  amuytos  malles  per  sobejo  sentido, 
do  desejo  dalguàs  cousas,  e  temor  doutras,  como  per 
as  partes  suso  scriptas  he  declarado.  Ca  ogrande  sêti- 
do  tira  odormyr  e  dally  uem  grande  desgouernança  de- 
toda  compreissom  e  boa  ujda  E  per  fallamento  dei  fal- 
lecem nacõciencia,  honrra,  saúde,  proueito,  e  boo 
prazer,  por  nom  penssarem  ,  nem  obrarem  os  feitos 
como  deuem.  No  que  toca  aos  senhores,  os  seruido- 
res  fallecem  per  sobejo  sentido  ^  quando  por  desprazer 


248  O  LEAL  C0NS5ELHEIR0. 

q  ham ,  OU  mayor  proueito  que  speram  fazem  treiçom 
contra  elles,  ou  dessas  casas  nom  dereitaniente  se  par- 
tem mal  fallom ,  obra,  ou  conssenlem  polias  razooês 
suso  scriptas,  que  contra  seus  estados,  ou  cousas  que 
lhes  perteece  se  faça.  E  per  myngua  de  boo  sentido, 
nom  guardom  honrra,  estado,  e  seruiço,  desseus  se- 
nhores. Ca  per  apratica  que  meus  jrmaãos,  e  eu  teue- 
mos ,  graças  adeos  com  elrrey  nosso  senhor,  e  padre 
segundo  aos  jfantes  nossos  jrmaãos  screuy ,  e  na  ques- 
te  trautado  se  screuera  Vos  poderees  conssijrar  quan- 
to sentido  se  requere  auerem  os  boos  seruidores  pêra 
seus  senhores  seerem  delles  bem  seruydos.  E  fallecen- 
do,  ou  sobejando  deuentura  poderem  ê  cousa  seruir 
como  deuem.  Amysade  poder  realmente  sem  grande 
sentido ,  e  auysamento  seer  guardada ,  julgue  no  a- 
quelles  quea  bem  longamente  guardom ,  ca  outros  em 
ella  bem  nom  sabem ,  nê  podem  fallar ,  saluo  se  íbr  de 
cousas  ouuydas ,  ou  aprendidas  per  liuros ,  as  quaaes 
em  presença  dos  que  pouco  dello  sabem ,  se  mostram 
sabedores ,  e  ante  os  quea  pratico  se  muyto  fallarem 
ligeiramente  serom  conhecidos  que  fallom  deuirtude 
aprendida,  e  nom  gostada  per  longas  speriencias,  e 
semelhante  me  parece  que  se  faz  em  todas  uirtudes 
que  nom  podem  assy  perfeitamête  em  ellas  fallar,  por 
sotijs ,  e  leterados  que  sejom ,  os  que  as  nom  prati- 
com  ,  como  aquelles  que  per  muytas  e  longas  sperien- 
cias dessy  e  doutros  percalçom  as  uirtudes  delias.  E- 
taaes  como  estes  bem  sabem  que  amyzade  uerdadeira 
nom  se  pode  longamente  manteer  sem  grande  tempe- 
rança dessentido,  assy  que  de  cousa  nom  se  receba 
tam  ryjo  que  contra  oamygo  faça  oque  fazer  nom  de« 
ue  E  de  seu  bem,  honrra,  proueito,  e  saúde,  e  boo 
prazer  aja  tam  perfeito  per  requerymento  do  grande 
amor  que  per  myngua  deuoontade  contra  el  nunca 
possa  seer  culpado  Quê  duuydara  que  huã  das  prynci- 
paaes  cousas  per  que  os  senhores  mal  trautam  seus  ser- 
vydore^ ,  he  per  sobejo ,  ou  fallecido  sentido ,  ca  por 


o    I.KAL   CONSSELIIEIRO.  249 

sentido   da  sobeja  sanha,  hiuis  inataiii ,  outros  ferem, 
e  sobejamente  de  feito,  e  pallaura  mal  trauta  os  daa- 
uareza  ,    ou   cobijça  ,   tocados   dejmposiçooes   e    penas 
seus  subdictos,  mas  derrazom  som  carregados  por  se- 
guir desejos  deuaas  folganças,  muytos  som  desordena- 
damente trabalhados  em  taaes  cousas  que  por  seruyço 
e  razoada  folgàça  dos  senhores  scusar  se  deueriam.  E- 
assy  por  cadahuu  pecado,  de  que  os  senhores  som  por 
seus  sentidos  mais  derribados  seus  seruidores  recebem 
malles,  perdas,  e  maao  trazimento.  Nom  amenos  esto 
faz  per  fallicimento  de  boo  sentido,  que  delles  auya- 
mos  dauer.  conssijrando  que  som  homees  como  nos,  e 
muytos  acerca  dcos,    e  omundo  melhores,   mais  com- 
prados de  boas  uirtudes,  de  cujo  boo  regimeto  spera- 
mos   grande   gallardom  ,    e   boo  nome  com  muyta  fol- 
gança,  e  do   errado   pena,  defamaçom  ,  e  tristeza.  E 
porem   como  de  nos  contynuadamente   deuemos  auer 
detodos  grande  e  boo  sentido ,  nom  seguido  tanto  nos- 
sos   fallecidos   desejos   per  que   nom   sejamos   sempre 
com   obra  bem   lebrados  quanto  somos  obrigados  deos 
guardar  detodos  contrairos  e  acrecentar  em  todos  beês 
e   uirtudes ,  nem  per  myngua  de  razoado  sentido  seja- 
mos  esqueecidos  de  prouysara  e  teenças  que  denos  ha 
dauer  per  mercees  ordenadas  e  fora  dordenança,  e  de 
suas  honrras,  proueito  e  boas  folganças,   ante  sperta- 
das   per  boo  entender,   e  dereito  conhecimento.   Em 
esto   pryncipalmente   tragamos  todo   nosso  desejo,   e 
pryncipal  uoontade  como  nos  prazeria  que  todo  uosso 
seruiço    e   boo  prazer  elles   fossem    bem    nembrados  , 
nom  fallecendo  contra  nos  per  sobejo  sêtido,  mais  que 
auer  odeuem  ,  ou  fallecydos  delle  ao  que  anos  tocasse, 
leixassem  como  som  obrigados.  Antre  os  jguaaes,  quem 
faz  desacordos,  se  nom  sobejo,  ou  mynguado  sentido, 
cada  hua  parte  ossimprez  fallecimento  sem  uoontade 
demal   fazer,    que  per  soo  pallaura  podia  seer  corregi- 
do ,  ou  com  boo  geito  enmendado ,  sem  grande  escar- 
mento ,  nom  conssente  que  se  Jeixe  passar  Eos  erros  e 

U 


2r)0  o    LEAL    CONSSELIÍEIRO. 

nialles  que  per  el ,  e  pollos  seus  se  fazem,  ajnda  que 
grandes  sejam  por  delles  se  aiier  pequeno  sentido,  faz 
parecer  que   nom   som    pêra  fazer  conta,  regendosse 
per  ossentido   do   coraçom  ,  e   no  da   razom  ,  fazendo 
em   semelhantes  feitos,  aquella  deferença  que  ao  sen- 
tir corporal   cada  huíi  faz   de  huii  pequena  ferida  que 
recebe,    que   de   muyto  mayor  que  ueja  dar  ahuú  que 
nom  conhece  Eassy  os  que  seus  feitos,   e  alheos,  per 
afeiçom  de  coraçom,  ryjo,  sollamête  julgarem  os  erros, 
e   malles   que  eJles ,  e  os  seus  contra  outrem  fezerem 
lhe   parecerom    nada,  e  os  outros  tam  sobejos  que  so- 
portar  senom  deuem.  Os  somenos  que  per  os  majores 
sejam    trilhados,  e  mal  trazidos,  per  sobejo,  ou  myn- 
guado  sentido,    aesperiencia  das  casas  dos  senhores, 
de  cada  huã  cidade,  e  uyila,  o  demostra.  Ca  os  mayo- 
res   segujndo   ossentido   das   uoontades  e  pecados  que 
mais  em  cada  huíl  reyna ,  hufis  per  sanha  defeito  e  di- 
€to ,    trautam   sobejamêto   mal   aoutros,  com   soberua 
trilham  ,  e   per  auareza  roubam,  seguyndo  luxuria  em 
molhores  ,    e    filhas  deshonrram.    Eassy   ueencidos   ao 
sentido   desseus  maaos  desejos  amuytos  fazem  mal  em 
perssoas  e  beês  e  per  fallicimento  dando  lugar  aos  seus 
em  pousentarias,  e  andar  per  terras  alheas  continuada- 
mente  leixam   fazer  muytos  malles,  por  nom  se  guar- 
darem do  que  cõuem  ,  nem  castigarem  os  queo  mere- 
cem ,  ou  auysarem  aquelles  que  auysar  deuyam  E  per 
estas  partes  suso  scriptas ,  que  breuemente  fuy  tocan- 
do  segundo  que  muyto  melhor  e  mais  largamente  per 
aquelles   que   das  uirtudes   e  uicios  ham  boo  conheci- 
mento,    se    poderia  dizer,    por  que  atodo  se  estende, 
se   pode   bem   conssijrar  quanto  mal  se  recrece  do  so- 
bejo ,    ou   mynguado  sentido ,   que  filhamos  em  todos 
nossos  feytos. 


o    LEAL    CONSSELHEIRO.  261 

CapiíuUo  Ixxix. 

das  partes  per  que  somos  enssynados,  e  bem  encamy- 

nhados  arreceber  dereito  sentido  em  todallas  cousas. 


X  or  que  nas  obras  moraaes  nom  muyto  presta  conhe- 
cer as   perfeiçoões  tias  uirtudes ,  nem  todas  maneiras 
de   fallicimentos,  se   os   remédios  contra  o  mal,  e  ca- 
mynho  perao  bem  nom  se  demostra ,  e  sabido  dereita- 
niente,    se  pratica,  porem  uos  faço  esta  breue  decla- 
raçom  das  partes  per  que  este  sentido  com  agraça  de- 
Dosso  senhor  se  rege.    E  quanto  toca  nossa  conciencia 
per  as  três  uyrtudes  theollegaaes  suso  scriptas ,  somos 
encamynhados   ao  tilhar  na  ordenança  que  auer  se  de- 
ue ,    por  que  affe ,    que  auemos  dos  malles  nom  passa- 
rem  sem   pena,    ou  satisfaçom   na  uyda  presente,  ou 
por  uíjr,   nos  faz  tal  temor  detoda  cousa  de  que  nossa 
conciencia  nos   acuse,    per  que  recebemos  tal  sentido 
que  do   passado   fazendo  satisfaçom  nos  doemos  perao 
diante  de  cayr  em  semelhantes ,  somos  bem  auysados. 
Per  sperança  se  bem  reguardarmos  nos  beens  presen- 
tes, e  na  sancta  gloria  que  aueremos  se  uirtuosamente 
uyuermos   cõ    grande  sentido  seguyremos  as  uirtudes, 
e  leixaremos  os  malles  e  pecados.    Se  formos  per  cari- 
dade ,  no  amor  de  nosso  senhor  deos  das  uirtudes  êfra- 
mados,  todas  obras  uirtuosas ,  com  grande  afeiçom  ,  e 
sem   costragymento  seguiremos,  e  das  contrairás  com 
lodo  boo  sêtido  seremos  afastados.    Esse  reguardardes 
estas   uirtudes   theollegaaes   bem  podees  conssijrar  co- 
mo  os   que  as  ouuerem  razoadamente ,   das  cousas  da 
conciencia  deuemos  filhar,  e  auer  dereito  sentido  pêra 
conipryr  aquella  pallaura  denosso  senhor  em  que  mãda 
que   busquemos  prymeiro  orreyno  de  deos,  e  ajustiça 
dei  sempre,  e  todas  cousas  pêra  nosso  bem  necessárias 
nos  serom  outorgadas.  Eaquesto  compriremos,  se  ante 
que  façamos  qual  quer  obra ,  conssijrarmos  se  per  ella 

Ii  2 


252  O   LEAL  CONSSF.LHEIRO. 

fazemos  contra  seruiço  denosso  senhor,  que  por  uoon- 
lade,  proucito,  e  prazer  que  nos  requeiram,  nunca  se 
faça.    Esse   for  segundo   sua  uoontade  que  no  prosse^ 
guymenlo   fezermos,   guardemos  sempre   sua  justiça, 
ca   nom   abasta  fazer  obra   que   seja  boa,  mas  fazelJa 
bem   sem    mestura   doutros   errados  feitos,   ou  pratica 
uyciosa.  Peraos  feitos  da  presente  uyda,  estas  Ires  tiir- 
tudes   suso  scriptas  segundo  nossa  creença  e  calholica 
leençom ,  sõ   muyto   necessárias,  mas   faJlando   moral- 
mente, peraas  outras  quatro  cardenalles,  em  todo  nos 
regemos   e   filhamos  década   huã  cousa  ossentido  que 
auer  se  deue,  por  que  aprudencia ,  sollamente  fallan- 
do   em   geeral ,    perssy   faz  escolher  omelhor  em  todos 
nossos   próprios   feitos   Eaquesto  he  perfeiçom  detodo 
boo  sentido,  e  uirtude.    E  a  justiça  mandar  dar  acada 
Imu  oque  seu  he  e  obrar  em  todoUos  feitos  oque  mais 
dereilamente  se  deue  fazer.  Porem  se  mostra,   que  he 
eomprymento   detodallas  outras,  mas  fajjando  em  spe- 
cial  prudência ,  nos  mostra  em  todo  ,  oque  he  bem ,  e 
melhor,  ou  mal  e  peor,  consselhandonos  sempre  sco- 
Iher    aparte    mais  perfeita  ,    regendo   pryncipalmente 
nosso    entêder,    e    razom ,    mostrandonos   as   uyrtudes 
pryncipaaes  que  sempre  deuemos  seguyr,  nem  ha  tem- 
po pêra  obrar  seu  contrairo  Eas  desposiçooes  per  auir- 
tude   como   som  jejuiis,   uigillias ,   leer  deboos  liuros, 
ouuyr  sermoões,  e  boos  fallamentos,  e  estas  e  outras 
taaes  nom  som  propryas  uirLudes,  mes  despoõe  per  el- 
]as ,  e   atempos   cõuem  desse  fazerem,  e  outros  leixa- 
rem    E   mostra   conhecer   as   cousas  boas   per  openyõ 
das  gentes  como  som  reuerenças,  maneiras  derreceber 
seruiços  e  fazellos,  uestir,  e  trazersse ,  fazer  festas,  e 
semelhantes,    ca  esto   nom   he  mais  bem  q  quanto  se 
guarda  ocustume   per  boas   pessoas  ,    mais   aprouado. 
Enssyna  esso  medes  conhecer  os  sentidos,  e  nembran- 
ças  que  auemos  da  parte  racional  E  os  da  senssetiua, 
pêra  demostrar  com  que  remédios  os  fallicimentos  aue- 
inos  de  emendar,  e  correger,  e  nos  beês  manteer  « 


o   LEAL  C0NSSELÍIEÍII(5.  253 

aCrecenlar  Elam  bem  nos  faz  conhecer  em  que  cousas 
per  nosso  juyzo,  segundo  que  sabemos  e  praticamos, 
deuemos   delermjnadamente  fallar,   e   obrar  e  quaaes 
côuem    seerem   leixadas  aprellados  e   confessores   em 
feilo  da  conciencia ,  e  allegistas,  e  degratistas  no  que 
perteece   adereito    Caos  físicos,    e  cellurgiaães  em  as 
jnfirmades  Eassy  acadaliuu  em  as  cousas  que  per  theo- 
rica  e  pratica  mais  sabem,  husando  com  elles  per  nos- 
so juyzo,  nas  cousas  que  per  elle  bem  podemos  enten- 
der, e  determytjar   Eo  mais  someter  aas  suas  detirmy- 
naçoões ,  ca  per  myngua  detal  conhecimento,  muytos 
que  por  sesudos  som  contados,  caaê  em  grandes  falli- 
cimentos,  querendo  julgar,  e  determynar  per  boa  ra- 
zom  oque  por  elia  sem  enssyno ,   ou  grande  pratica  se 
nom   pode   bem  entender,    nem  saber.  Justiça  manda 
nossa  geeral  uoontade  desejar,  e  seguyr  oque  per  pru- 
dência Jhe  for  por  melhor  demostrado,  e  consselhado, 
per   temperança  pryncipalmente  regemos  todallas  pai- 
xooês   da   parte  desejador,   abem  e  amai  perteecentes 
E  per  fortelleza  dessa  guysa  as  da  parte  defenssor,  ou 
yracyuel. 

Capitullo  "Ixxx. 
dos  fallicimétos  aas  iiirludes  mais  chegados. 

JL  odas  estas  uirtudes  suso  dietas  nos  auysam  pêra 
bem  conhecer  e  seguir  as  dereitas  obras  uyrtuosas, 
desemparando  os  fallicymêtos  tanto  aellas  chegados 
que  per  geeral  openyom  huã  per  outra  se  filha,  das 
quaaes  por  algua  declaraçom,  estes  poucos  enxempros, 
nos  screuo.  Estucia,  per  prudência  muytas  uezes  se 
nomea  ê  tanto  que  no  auangelho  nosso  senhor  disse 
que  perderia  aprudencia  dos  prudentes,  e  que  os  filhos 
deste  segre  era  mais  prudentes  que  os  da  luz,  nom  di- 
zendo esto  dauerdadeira  prudência,  mas  dos  que  hu- 
Bam  da  estucia  E  antre  ellas  he  tal  deferença,  prudên- 
cia, todallas  cousas  manda,  e  consselha  fazer  aamylhor 
parte ;  guardando  seruiço  do  senhor  deos,  e  pratica 


264  O    LEAL   CONSSELHEÍRO. 

virtuosa,  nem  conssente  fazer  por  auantagê  que  senta 
obra  tal  que  aauirtude  seja  contrairá.  Eaestucia  per 
qual  quer  guysa  que  seja  se  trabalha  com  sotilleza 
dentender,  e  praticas  com  artes  de  côprir  seu  desejo 
e  uoontade  j  nom  se  curando  de  conciencia,  guarda 
deuirtude,  nem  boo  nome,  e  detal  estucia  he  grande 
conto  dos  chamados  sesudos,  os  quaaes  uerdadeira- 
rnente  nom  husam  ,  por  queos  nomes  de  prudente  des» 
pritu  e  sisudo  perteece  apessoas  uirtuosas,  e  nom  com- 
pridas dessaber  e  pratica  malleciosa  como  som  os  que 
husam  detai  estucia.  Justiça  tem  seu  chegado  fallici^- 
mento,  desejo  de  uyngança,  consseguymento  de  uoon- 
tade, e  deuaâo  nome,  por  ogabarê  que  he  dereito  em 
seus  leitos,  e  justiçoso,  antre  os  quaaes  esso  medes 
he  tal  deferença,  o  uerdadeiro  possuydor  da  justiça, 
nom  afaz,  nem  guarda  por  seguir  uoontade,  nem  por 
fama,  e  proueito  temporal  que  dello  selhe  seguir  pos- 
sa, mas  por  seruiço  denosso  senhor  deos,  amor,  e  a- 
feiçom  da  quella  uirtude  per  natural  estito ,  ou  conhe- 
cimento da  sua  perfeiçom ,  e  por  ella  como  cõuem  a- 
todallas  outras  Êos  outros  todo  pryncipal mente  fazê 
por  fartar  uoontade,  satisfazer  assanha  e  por  uaã  glo- 
ria. Temperança  tem  por  seus  chegados  uicios,  scace- 
sa,  e  sobeja  abstinência  decomer,  e  beuer,  e  dormyr, 
sntre  os  quaaes  he  tal  deferêça.  O  temperado  todo  faz 
por  seguyr  as  uirtudes  de  castidade,  humyldade,  e 
manssidoõe ,  e  boa  desposiçom  daalma  e  do  corpo  e 
pratica  uirtuosa  em  todos  seus  feitos,  nom  mynguando 
cousa  do  que  asseu  estado  cõuem  dar  e  despender. 
Eos  que  aguardam  por  teençom  cõtraira,  fazêno  pryn- 
eipalmente  por  auãçarem  na  fazenda ,  e  auerem  fama , 
e  nome  detemperados  sentindo  sua  folgança  em  o  pro- 
ueito, e  nomeada,  mais  que  no  bem  das  uirtudes. 
Fortelleza ,  perfia ,  e  pertinácia  tem  em  sa  companha, 
mas  como  das  outras  disse,  assy  desta,  oferte  comete, 
contradiz,  sofre,  e  soporla  todo  per  detcrmynaçom  do 
aatender  e  razom,  nom  uencido  per  desejo,  e  regidoõe 


o    LEAL   CONSSELHEIRO.  255 

de   coraçom  ,  nem  sanha,  mas  com  autoridade  depru- 
dencia,    e   uoontade  pêra  seguir  ou   compryr  justiça. 
Eo   perfioso  e  pertinaz  seguyndo  e  compryndo  odesòr* 
denado  desejo  desseu  coraçom  ,  e  uoontade,  quer  mal, 
e   como   nom   deue  seus  leitos  Jeuar  adiante,  filhando 
por  grande  fallimento  com  uaâ  gloria  e  soberua  decer 
e   leixarsse  decousa  que  começada  tenha  Entendendo 
que  fazello  assy  he  sua  myngua,  seendo  grandemente 
enganado,  por   que   ofallimento   he,  el  fazer  ou  dizer 
oque  derrazom   aja   leixar,  e   no  compryr,  mas  quem 
he  alam  acabado  que  todo  perfeitamente  diga,  e  faça, 
porem    quando   cousa  fallecida   fezer ,  he  dauer  pouco 
conten(amento   do   entender,  ou  uoontade  que  fez  co- 
meçar oque  nom  cõuem  contynuar  nem  trazer  a  fym-, 
E  deue  seer  bem  contente  sentir  que  deos  lhe  deu  taí 
desejo  deguardar  justiça ,  que  se  diz  obrauom  dereita- 
mente,  leixando  pertinácia,  ou   perfia  domai  empior, 
nom   querer  aturar,  mas  conhecendosse  como  cõuem, 
emendar,  correger,  e   auysar  das   cousas  que  per  seu 
juyzo   e   boo  consselho  entender  que  faz  ou  disse  nom 
dereitamente.    Orreceo   da   uergonça  que  he  delouuar 
com   empacho  do   coraçom   que   pêra  pouco  presta  se 
acompanha.    Eorreceo  das  cousas  per  aparte  da  razoro 
pêra   nos  guardarmos  do  que  se  pode  seguir  em  nosso 
contrairo ,    medo   do   coraçom   mujtas  uezes   traz  essa 
parçaria.  Ossentido  na  parte  do  tressayr  tem  mais  seu 
pr3'ncipal  fallicimento,  ca  per  as  partes  que  dietas  som 
poderees  conhecer  como  os  mais  daquelle»  que  uirtu- 
de,  nom  seguem  nom  soltamente  recebem,   e  se  lou- 
uam   do  que  filham,  com  mayor  sentido  que  cõuem, 
mas  aos  outros  como  uirtuosos  por  ello  continuadamê- 
te  louuam.  E  nom  guardando  em  esto  oque  he  dereito 
e  razom  ,  mas  auoontade  per  que  pryncipalmente  som 
regidos,  lhes  faz  louuar  os  outros  que  ssemelhantes  fa- 
zem    Eantre  estes  tal  he  adeferença  como  das  outras 
nirtudes ,  por  que  os  que  seguem  uoontade  per  sanha, 
€  c^ual  quer  das  outras  partes  suso  scriptas,  muytas 


25G  O    LEAL  C0NS5ELHEIRO. 

uezes  lhes  parece  que  fazem  oque  deuem  ,  ê  obras  re- 
uessadamente  feitas,  e  bem  acharem  quem  por  ello  os 
louue,  e  assy  cõsselhe.  em  uvnganças,  roubos,  e  fur- 
tos, por  mostrarem  que  tem  boo  sentido  de  suas  honr- 
ras ,  proueito ,  e  folgança.  Eos  que  se  regem  per  ra- 
zom ,  oentender  trazem  por. senhor,  ou  ayo,  nom  fa- 
zem cousa  sem  sua  autoridade,  e  mandado,  taaes  co- 
mo estes  nom  curam  das  openyoões  do  cumuu  ,  mas 
aquello  seguem  que  uerdadeiramente  melhor  lhes  pa- 
rece,  e  no  que  mais  se  acorda  as  uirtuosas  pessoas, 
segundo  aquel  boo  estado  em  que  for.  Eos  que  trazê 
uoontade  por  senhora,  e  oentender  em  lugar  de  ser- 
uydor,  ou  fraco  consselheiro,  iodos  seus  feitos  obram 
sobre  uêtuira ,  ca  onde  bem  desejam  alguãs  uezes  bê 
obram ,  e  se  contrairo  assy  ofazem  E  per  huã  maneira 
me  parece  que  homem  pode  conhecer,  com  qual  parte 
se  mais  lem  ,  ueja  em  seus  feitos  ,  como  mais  uezes 
chama  eu ,  e  assy  saibha  que  he  maneira  de  seu  uy- 
uer,  enxempro  desto ,  se  eu  custumo  dizer  meu  ente- 
der  me  consselhaua  esto,  mas  eu  onõ  quys  fazer,  sai- 
bha que  auoontade  traz  por  senhora.  Essem  toda  pryn- 
cipal  parte  de  sua  uyda ,  se  diz  mynha  uoontade  me 
requeria  tal  cousa ,  mas  eu  nom  quys ,  e  ê  algilas  pou- 
cas passa,  oentender  anda  por  ayo,  e  auoontade  por 
criado.  Esse  nunca  ou  ê  muy  leues  cousas  trespassa, 
oentender  he  senhor  E  assy  nos  deuemos  trabalhar 
que  sempre  seja.  Eporem  de  conssijrar  que  alguus  co- 
mo no  começo  deste  trautado  screuy,  teem  as  uoon- 
tades  muyto  humyldosas,  e  oentender  he  prestes  as- 
seguyr  oque  el  lhe  mandar,  ou  determynar.  Mas  oen- 
tender he  tam  pequeno  que  nom  sabe  mandar,  nem 
consselhar,  e  nos  semelhantes  oerro  uem  da  parte  do 
ayo,  ou  senhor  e  nom  dauoontade,  que  teem  lugar  de 
seruydor.  Eaeste  pêra  seu  boo  encamynhamento  cõ- 
uem  que  se  reja  per  consselho  doutrem,  que  lhe  man- 
de que  faça  em  cadahuã  cousa ,  pois  el  assy  medes 
nom  sabe  mandar  Eposto  que  ao  mais  sabedor  muyto. 


o    LEAL    CONSSELHCIRO.  257 

seja   proueitoso   lazer  seus  feitos  per  consselho,    aeste 
mais  he  necessário  Esse  oententler  bem  consselha  nias 
auoontade  per  aleiçom  regidooe,  ou  fraqueza  nom  quer 
obedecer,  e   cõpryr  oquellie   mostram,    por  mais  seu 
bê,  e   guarda  das  uirtudes ,  aculpa  nom  he  no  enten- 
der que  tem  em  tal  pessoa,  logar  de  consselheiro  des- 
prezado mas  na  uoõtade  que  lie  senhora.  Eassemelhan- 
tes  degrande  uentuira  podem  tornar  auirluoso  camynho 
se   nosso  senhor  deos  cô  as  uirtudes  da  Re,   sperança , 
caridade ,  os  nom  correge.  Acerca  desto ,  eu  uejo  cyn- 
quo  maneiras  dliomeês,  seguydores  deuoontade,  e  três 
desordenadamente  de  seu  entender.  Os  que  pouco  en- 
tendem ,    e   ham   ryjas   uoontades,    cousas  delias  nora 
quebram   mas   em    todo   se   trabalham   deas   compryr, 
julgando    aquello   que  lhes  praz  defazer,  no  seer  mal, 
ou  pecado,  ajuda  que  leterados ,  e  os  mais  entendidos 
digam   ocontrairo,    ou   posto  queo  aja  por  erro,  diz  q 
nom  ha  de  seer  perfeito    Eporem  nom  monta  husar  na 
quello  como. deseja,  pois  nas  outras  cousas  lhe  parece 
que  faz  oque  deue.  Ealguus  que  todos  leixam  apredis- 
tinaçom  ,    dizendo   que   seham  desseer  saluos  que  nom 
pode  seer  ocontrairo ,  e  que  porem  nom  deucm  leixar 
defazer  oque   lhes   mais   praz,  pois  todo  ha  deuijr  per 
uentuira   predestynaçom  ,    ou    ordenança  das  pranetas. 
Outros  que  per  maao  custume  da  níocidade  .  som  assy 
feitos  fracos   que   nõ  podem  contradizer  ao  pecado  no 
tempo  da  tentaçom  ,  dos  quaaes  diz  nosso  senhor  que 
atenipos  crêem  ,  e  no  tempo  da  tentaçom  desfallecem. 
Essemelhãte   fazem    os   que  som    ereges,  e  nom  cree 
outra  uyda  senom  esta.  Cataaes  toda  bem  auenturança 
poOe   em  seguyr  e   compryr  seus  desejos   Eainda  que 
pareçom   entendidos,    e   nom  se  atreuom  per  pallaura 
mostrar  suas  descreenças.  Porem  o  testemunho  desseus 
feitos   bê  odemostra   Ca  nora  se  uencem  ahuú  soo  pe- 
cado ,  mas  aquantos  per  uoontade  som  requeridos.  Os 
seguydores  de  seu  entender  som  aquelies  que  per  uaam 
gloria  muyto  se  alegrom ,    em  fama  demuyto  entendi- 

Kii. 


258  O  LEAL    CONSSELHEIRO. 

dos.  Ca  estes  penssando  que  abaterom  em  seu  nome 
se  condecerem  aas  openyooês ,  ou  determynaçooês  a- 
Iheas,  se  forem  contrairás  do  que  ja  em  praça  tem  di- 
cto  ,  ou  mostrado ,  e  por  cousa  nunca  se  uencem  ,  mas 
com  perfia  querem  leuar  seus  feitos  adiante  Etal  fazem 
os  mujto  deuotos  sem  descriçom  que  penssam  ,  todas 
suas  uoontades  e  juyzos  lhe  uijrem  daparte  dedeos. 
Eporende  que  se  nom  deuem  mudar  desseus  propósi- 
tos, por  boa  razom  que  ihe  seja  dieta,  nem  demostra- 
da. Èos  que  per  myngua  deííe ,  boa  enssynança,  ou 
com  simpreza  faze  mal,  penssando  que  heuirtude, 
dando  tãta  creença  ao  que  assy  entendem  ,  que  nom 
podem  receber  outro  boo  enssyno  que  lhe  dem  ,  ou 
queirom  demostrar.  Etodo  esto  per  graça  do  senhor 
com  as  uirtudes  pryncipaaes  suso  scriptas,  secorrege 
e  guarda.  Essem  elias  das  cousas  nom  poderemos  auer 
dereito  sentymento,  nê  as  obrar  uirtuosamente. 

Capitiillo  "Ixxxi. 

âas  casas  do  nosso  coraçom ,  e  como  lhe  deuem  seer 

apropriadas  certas  Jijs. 

JL  era  mayor  decíaraçom  de  como  entendo  que  deue- 
mos  auer  das  cousas  sentimento  uirtuosamente  Eu  cons- 
sijro  no  coraçom  de  cada  huu  denos  cynquo  casas,  as- 
sy ordenadas,  como  custumam  senhores.  Prymeira  sal- 
ía  em  que  entram  todollos  do  seu  senhorio  que  omy- 
zyados  nom  som,  E  assy  os  estrangeiros  que  aella  que» 
rem  uíjr.  Segunda  camará  deparamêto ,  ou  ante  cama- 
rá em  que  custumam  estar  seus  moradores,  e  alguns 
outros  notauees  do  reyno.  Terceira  camará  de  dormyr, 
que  os  mayores,  e  mais  chegados  de  casa,  deuem  auer 
entrada.  Quarta  trescamara ,  ondesse  custumã  uestir, 
que  pêra  mais  speciaaes  pe^^soas  j)era  ello  perteecentes 
se  deuem  apropriar.  Quinta,  oratório  em  que  os  se- 
nhores soos  alguãs  uezes,  cadadia  he  bem  desse  apar- 
tarem, pêra  rezar,  leer  per  boos  liuros,  e  penssar  ena 


o  LEAL  CONSSELHEIKO.  259 

uirtuosos  cuidados.  Eauemos  em  cadahuâ  destas  casas 
aquellas  doze  paixoões  que  ja  screuy  .s.  Amor,  Dese- 
jo, Deleitaçom,  Ódio,  Auorrecymento  triste,  Manssi- 
doõe,  Sperança,  Eatreuymento ,  Sanha,  Desperaçom 
Etemor,  Eossentido  de  todas  doze  em  casas  iguaaes, 
na  salla  será  mais  geeral,    e  menos  aficado    E  nas  ou- 
tras casas  ira  crecendo  ataa  oestudo  que  será  mais  spe- 
cial  e  ryjo  que  seer  pode.  Equando  nos  ueher  ossenti- 
mento   dalguâ  cousa  deuemos   bem   conssijrar  quatro 
fundamentos.  Prymeiro  qual  he  ofeito  dcque  nos  nem. 
Segundo ,  apaixom  que  nolJo  faz  sentir.  Terceiro  apes- 
soa  por  que  oauemos.    Quarto  aque  fym  somos  mouy- 
dos  deo   auer.    Ca  dizem  os  sabedores,  que  afym  dos 
feitos  he  seu  fundamento,  que  nos  demoue  aos  come- 
çar e  contynuar,  por  auer  oq  nos  praz,  ou  scusar  oque 
receamos.  Epois  afim  delles  he  seu  começo,  prymeiro 
adeuemos   ordenar   em  nosso  coraçom  poendo  na  salla 
todallas  cousas  que  nom  tem  outra,  afora  filhar  prazer 
Na  camará  do  paramento  as  do  proueito.  As  da  saúde 
corporal,    na  camará  do  dormir    Nas  trescamaras,    os 
feitos  da  honrra,  tirando  delias  toda  cousa  que  aauir- 
tude  seja   contrairá,    como   omeziados   de  nossa  casa. 
O  estudo  specialmente  seja  guardado  perao  seruico  de 
nosso  senhor,  e  seguy mento  das  uirtudes   Eposto  que 
sejam   estas  cynqiio  fíjs  assy  departidas ,  todos   porem 
nos  moueraos  quando  he  por  nosso  prazer,   apercalçar 
oque  nos  parece  mayor  bem,  ou  por  scusar  mayor  mal 
Aquesta  ordê  nos  mostra  ogeeral  custume,  ca  ueemos 
por  auer  riquezas  leixar  niuyto  prazer,  passando  ornar, 
sofrendo  fame,  frio,  calmas,  entendendo  que  oprauei- 
to  he  tal  fym ,  que  as  cousas  da  soo  folgança  em  casos 
iguaaes   som   maas  deleixar  por  q  trazem  longamente 
mayor  bem  ,  e  arredamento  demal.  Por  saluamento  do 
corpo,  os  que  husam  darazom  ,  ueemos  dar  oauer  de- 
boa  ooontade  em  doenças,  prisooês,  e  outras  necessy- 
dades ,   conhecendo  que  riquezas  som  demenos  conta, 
^  se  deuem  por  seu  bem ,  ou  arredamento  demal  des- 

Kk  2 


260  O    LEAL    CONSSELHEIRO. 

pender,  e  desto  as  aiiymallias  mostra  boo  enxempro, 
que  leixani  afolgança  de  seus  casamentos,  e  decomer, 
e  debeuer,  por  fugir  aamorte ,  e  prysoni  auendo  quel 
por  mayor  bem  que  seguyr  as  deleitaçoôes,  Que  o  cor- 
po se  auentuira  por  acrecêlar  ou  guardar  ahonrra  bem 
odemostrã  as  canonycas ,  e  enxempros  que  cada  dia  se 
passam  dos  que  por  guardarem  lealdade  se  leixam  ma- 
tar Eoutros,  querendo  por  toda  sua  lynhagem  guaa- 
nhar  grande  melhoramento,  se  auentuiram  a  perigoo 
magnifeslo  demorte,  entendêdo  que  obem  da  honrra 
dura  mais  longamente  em  auyda  sua,  e  de  seus  pa- 
rentes, que  ao  presente  sõ,  e  ao  diante  forem.  E  co- 
mo por  seruYço  denosso  senhor  leixam  todas  estas  fijs 
bem  se  demostra  por  as  ordeens  em  que  prometem 
proueza ,  e  obediência,  e  castidade,  per  que  desem- 
parom  as  prymeiras  duas  da  deleilaçom  ,  e  das  rique- 
zas, e  os  corpos  como  por  seruyço  denosso  senhor 
deos,  se  despoõe  aamorte  dos  mártires,  bem  odecla» 
ra  ,  as  honrras  som  de  todas  em  esta  uyda  leixadas  per 
os  que  se  uaào  aos  homeês  onde  nom  speram  alguã 
cerimonya  delia.  Por  que  ahonrra  propryamente ,  se- 
gundo amym  parece,  he  reuerença,  obediência,  ser- 
uiço  ,  acrecêtamento  .  gasalhado  ,  ou  festa  que  se  faz, 
alguém  por  sua  uirtude,  estado,  poderio,  ryqueza, 
boa  uentuira,  ou  afeiçom.  E  quê  bem  conssijrar  os 
enxempros,  ueera  se  tal  declaraçom  delia  he  razoada. 
Etodo  esto  desemparom  muytos  por  seruyço  de  nosso 
senhor,  ajnda  que  por  suas  uirtudes,  despois  ahonrra 
ossiga  ,  e  todas  estas  fijs  uaão  demandando  as  pessoa'S 
que  ordenadamente  leixam  huã  somenos,  por  seguir 
aquellas  em  que  ha  mayor  bem  em  casos  jguaaes  co- 
mo dicto  he  por  q  huu  senhor  dar  muyto  dinheiro  por 
alguã  cousa  q  nõ  tenha  outra  fyra  senã  soo  prazer  no 
erra,  cõssijrando  queo  dinheiro  que  pêra  outrê  he  muy- 
to na  casa  desseu  proueito  he  theudo  em  pequena  co- 
ta, e  oprazer  q  recebe,  ou  spera  receber  per  respeita 
de  sua  salla  em  que  deue  estar  he  grande.  E  quando 


o    LEAL    CONSSELHErRO.  ÍGl 

tal  desiguallanca  íor   nas  cousas  af}  m  do  prazer  deue 
passar    ado   proueito   Eassy   cadahuá   quando   ella  for 
grande,  e   as   outras  mais  pequenas,  segundo  sua  or- 
dê,  saluo  oque  perteece  anosso  senhor  que  se  percalça 
per  graça  special,  cô  guarda  das  uirtudes,   as  quaaes 
nom   ha  tepo    pêra   leixar   obrar  deJIas.  por  q  dizê  no 
seer   uirtude   principal   aq  te  alguii  tèpo  em  ^  seja  bê 
nõ  husar  delia.    Porè  os  que  uirluosauiente  uyuê  nQca 
deuê   leixar   osseruiço  denosso  senhor  deos,  por  cada- 
liuá  das  outras  fijs.  E  ordenado  assy  per  jmaginaçõ  es- 
tas  cousas  poderemos  neer  se  filhamos  aquel  sentime- 
to  q  deucmos.  Conssijrâdo  primeiro  q  feicto  he  ê  gran- 
deza,  por  q  das  cousas  perteecètes  ha  saúde,  das  mais 
perijgosas  ,    ajnda   que    onô  pareço  aueremos  principal 
sêtimèto  Eassy  cadahuâ  das  outras  fijs,  guardado  aor- 
dê  ja   dieta,    dessy  cõssijremos  por  qual  paixô  recebe- 
mop  dei  ossentimêto,  seno  por  desejo,   temor,  sanha, 
ou  cadahuâ  das  outras.  Ea  que  pessoas  perteece  e  por 
q   razô ,    ca   deuemos   trazer   as   que   forem   anos  mais 
chegadas,  na   mais  special  casa  aalê  da  q  perteece  a- 
deos,    Eassy   as  outras  descèdèdo   per   sua   ordê  ataa 
salla  em  que  lodos  per  amor  de  prouximos  deuem  an- 
dar E  esto  será  perao  q  graciosamête,  ou  cõ  razõ  auã- 
tagê  podemos  fazer,  cao  dicto,  e  justiça  geeral ,  ato- 
dos   jgualmête  ê  algufis  casos  deue  seer  guardado,  no 
per  respeito  das  pessoas,  mes  por  guarda  das  uirtudes 
q   he   anossa   principal   êtençô,    por  q  as  outras  sõ  de 
leixar  Essobre  todo  he  deueer  por  q  fym  ,  das  ciquo 
suso  fcritas  auemos  tal  sêtimèto,  ou  recebe,  ou  pode 
receber  aquelia  pessoa  que  nollo  faz  sentir,  e  todo  es- 
to  conssijrando   se   pode  julgar,   se   filhamos  daquella 
cousa   ossêtimêto   que   deuemos,    e   cõ   esto  q  screuy 
me   parece   còcordar  oq   se   cote  no  liuro  do  regimêto 
dos   príncipes,    onde   mostra   ê  q  deuemos  poer  nossa 
bê  auêturãça,  leixàdo  deleitaçõ,  riquezas,  fremosura, 
força,  saúde,  fama,  dehonrra,  nas  uirtudes,  declara  q 
deue  seer  posta,  auêdoa  por  mais  alta,  e  perfecta  fym 


i62  o  LEAL  CONSSELHEIRO. 

Ea  meestre  reymô  ê  hufi  liuro  que  falia  da  êtêçõ  pri*» 
meira  e  seg;unda,  mostrando  como  deuemos  dauer  pri- 
meira teêçò  as  cousas  mais  excellêtes  das  uirtudes 
principalmete  5  mostra  q  adeuemos  auer,  nosso  senhor 
no  auãgelho  míida  qo  amemos  detodo  coraçõ ,  uõota- 
de,  e  aalma,  e  detodas  nossas  forças,  è  q  me  parece 
requerer  aquel  nosso  estudo  do  mayor  sentido  do  co- 
raçõ,  querendo  seer  amado  per  cõsselho  do  entender, 
e  desejo  special  com  boo  costume  dauoontade  ,  na 
mais  grande  maneira  q  seer  pode ,  cõ  pura  delligêcia 
detodos  sentidos  q  ue  aproposito  damynha  maginaço 
suso  scripta  E  de  trazermos  este  mais  alto  e  ryjo  sen- 
tido do  coraçõ ,  dado  anosso  senhor  deos ,  nos  fará  to- 
das cousas  de  bem  fazer.  Principalmente  por  seu  a- 
mor,  guarda  das  contrairás,  por  seu  temor,  q  sõ  co- 
meço e  fym  das  paixocês  suso  scriptas.  E  pêra  ueer 
como  teemos  amor  anosso  senhor  deos,  diz  sam  tho- 
maz  de  equino  q  per  estes  sinaaes  he  conhecido  oprin- 
cipe  q  o  ama.  Primeira,  se  deboaraête  pêssa  ê  el.  Se- 
gunda ,  se  lhe  praz  das  cousas  q  cree  seerera  dei  ama- 
das, e  teê  ódio  aas  q  som  contrairás.  Terceira,  quan- 
do deboa  uoõtade  por  el  padece  ou  he  prestes  pade- 
cer. Quarta,  se  tê  amor  aos  lugares  sagrados  e  deno- 
tes Quynta  quando  ama  seus  seruos,  Sexta,  quando 
cõ  boo  desejo  dei  falia.  Septima,  quãdo  deboamête  dei 
ouue,  e  as  cousas  ouujdas  ê  memoria  retê.  Oytaua, 
se  deboa  guarda  da  por  seu  amor.  Nouena,  se  he  obe- 
diente asseus  mandados  Decyma ,  segundo  amym  pa- 
rece,  quando  bê,  e  deboa  uoõtade,  e  cõtinuadamête 
se  despoõe  aos  feitos  da  justiça,  e  proueito  da  cousa 
publica,  principalmete  por  tal  que  preza  adeos ,  e  seja 
dei  amado ,  assy  como  seruo  boo ,  e  fiel ,  bê  cõssijran- 
do  como  todo  esto  praticamos,  saberemos  se  aquel  es- 
tado do  coraçõ  suso  scripto,  perao  senhor  he  sêpre 
bem  guardado.  Outra  cõssijraçõ  me  parece  proueitosa 
peraa  gouernãça  de  nossos  sendos  nas  cousas  q  uehe- 
rê  contra  nosso  prazer.   Equanto  anosiso  senhor  deos 


■i 


o   LEAL   CONSSELHEIRO.  263 

creer  sem  duuyda  q  lodo  he  tam  bê  feito  q  melhor 
seno  pode  pêssar,  por  q  nos  da  penas  menos  q  mere- 
cemos, e  gallardoa  muyto  mais  No  q  anos  perteece 
ueer  os  erros  speciaaes  e  geeraaes  q  fazemos  contra 
deos.  Ea  boa  maneira  denosso  uyuer,  e  corregendo, 
e  aijysandonos  onde  uirmos  q  côpre ,  poermos  nosso 
coraçõ  ê  assessego  omais  cedo  que  podermos.  Do  ^ 
os  outros  fezerê,  nõ  filhemos  tal  sentido  q  nos  êpee- 
cimêto  possa  fazer,  mas  cô  tempo  lhe  preuejamos  co- 
mo cõprir,  quanto  ê  nos  for,  por  tal  que  onõ  ajamos 
dobrado,  quando  conhecermos  q  parte  daquel  mal  nos 
ueeo  per  nossa  culpa. 

Capilullo  1 XXXII. 

do  frro  que  se  segue  cm  nom  saber  trazer  estas  casas 

em  7WSS0S  coraçooes  ordenadas  cô  duas  Jijs. 

JL  er  fallicimêto  denõ  trazere  êssy  tal  ordenaça,  filha 
muyto    sêtimêto    destêperadamête  quando  alguíí  traz 
oamor  detal  niolher,  ê  q  nõ  aja  outra  fym  q  soo  folgã- 
ça  per  aííeiçô  sobeja  no  estudo  q  pêra  deos  deuya  seer 
guardado ,    êtõ   cõuê  q   as   paixooês  do  amor  e  as  ou- 
tras  por   ella  seta  descõcertadas ,  por  q  aocupaçõ  des- 
ordenada  da  melhor  parte  do  coraçõ  q  deos  sêpre  nos 
demãda,  pedindonos,   por   quanto   bê  nos   fez,   q    lho 
outorguemos  nos  faz  todos  nossos  sêtimêtos  andar  fora 
deboa  ordenaça    Etal  se  fará  ê  todallas  outras  deleita- 
çooês  se   cõtinuadamête  filha  e  mora  na  quelle  estudo 
q  pêra  deos  deue  seer  guardado  Eporê  os  auaiêtos  co- 
bijçosos  de   riquezas,    e  os  q  guarda  muy  sobejo  suas 
uydas ,  e  saúde,  nõ  se  querendo  poer  aperigoos,  e  tra- 
balhos  razoados   por  seruiço   de  deos  ,  dos  senhores  e 
suas   hõrras ,    nõ    se   scusarõ  demynguas,    prasmos,    e 
nialles    Esse   naquel   studo  poserè  odesejo  das  ceremo- 
nias ,  das  hõrras,  cõuelhes  cayr  no  pecado  da  soberua, 
uaâ  gloria,  e  outros  q  tal  desejo  desordenado  sêpre  re- 
crecê ,    por  desejarê  estados  e  fama  ajnda  q  seja  cõtr» 


2G4  O    LEAL    CONSSELHEÍRO. 

razô ,  e  dereito,  lodo  por  nõ  trazerê  no  coraço  ateêçõ 
detodas  eslas  ííjs  ê  aordenãça  suso  scripta.  Epera  esto 
côuê  as  quatro  uirtudes  principaaes  q  dietas  sò  .s.  pru- 
dêcia,  pêra  cõssijrar,  e  conhecer  ofeito  êssy ,  e  apaixô 
q  noUo  faz  sentir  Eapessoa  ou  pessoas  aq  perteêce ,  e 
por  q  fundamêto  jgualdãdo  agrandeza  das  fijs  per  res- 
peito das  casas  e  da  cota  q  naquella  casa  ofeito  te. 
Equanto,  e  por  q  anos  e  acadahuã  pessoa  couê  deo 
sentirmos,  ca  sê  taaes  cossijraçooês  per  dereito  juyzo 
liõ  poderemos  sêpre  auer  razoado  sêtimento  das  cou- 
sas Emuy  necessário  nos  cõuê  q  o  sêtido  de  qual  quer 
destas  fijs,  nõ  force,  nem  cegue  ojuizo  e  regimento 
da  razõ  ,  por  q  scripto  he ,  todo  oq  fezeres  prudêtemê- 
te  ofaz ,  cõssijrando  afym.  Justiça  se  requere  q  mande 
cõprir  ocj[  dereito  for  dando  acadahuã  cousa  oq  seu  he. 
Têperãça  pêra  refrear  os  desordenados  desejos ,  como 
freo.  Fortelleza  pêra  esforçar,  e  aguçar  cõ  spora  nossa 
fraqueza  decoraçõ  e  uoõlade,  e  acerca  deste  freo,  e 
tal  spora  tenho  teêçõ  q  nom  abasta  nosso  êtender  pe- 
rao  mal  seer  refreado,  nê  esforçar  pêra  bê  fazer,  se 
per  outra  paixõ  q  no  coraçom  ryjo  seja  sêtida ,  nõ  re- 
ceberemos têperãça ,  ou  esforço,  e  desto  mostram  boo 
êxêpro  os  moços  q  per  empacho,  e  uergõça  se  guardai 
dalguns  malles ,  as  quaaes  despois  q  as  perde,  ajnda  q 
omelhor  êtêdâ  nõ  som  delias  guardados.  Eesto  se  faz 
por  q  perdcrõ  aquel  freo  q  estaua  no  coraçõ ,  e  des- 
pois nõ  guaãçarõ  tãto  amor  adeos  ,  e  aas  uirtudes  ou 
boo  temor  q  os  refreasse,  como  ate  fazia  sua  uergõça 
q  lhe  fora  outorgada  per  aynorãcia  da  noua  hidade  E 
por  esto  cõuê  pêra  nos  têperar  ou  esforçar,  q  per  a- 
inor,  desejo,  speràça ,  ou  qual  quer  outra  paixõ  q  ry- 
jamête  e  cõ  grade  afeiçõ  nos  têperemos,  assy  q  per- 
dendoa  cobremos  fie,  sperãça ,  e  caridade,  q  nos  en- 
frearõ  e  aguçarõ  mais  perfeitamête  abem  obrar.  Com 
esto  cõcorda  huu  capitullo  q  no  liuro  docaualgar  auya 
scripto,  oqual  aquy  fiz  tralladar  de  nos  guardar  de  cayr 
pêra  diãte  apropriandoo   aas  cousas  contraíras.   Pçra 


o    LEAL    CONSSELHEIRO.  265 

detrás  as  debê  auenturàça  por  as  quaaes  trestòbando 
nos  podemos  perder  ahuã  e  aa  outra  parte  por  as  cou- 
sas q  reuessadaniete  açudem. 

CapituUo  1 XXXIII. 
âa  semelhâça  q  do  andar  dereito  na  besta  podem  fdhar. 


X  ai  geito  como  aquel  q  screuy  dãdar  dereito  na  bes- 
ta me  parece  q  deuemos  teer  em  os  mais  denosos  fei- 
tos  pêra  seermos  no  inundo  boos  caualgadores ,  e  nos 
teermos  forte  de  nô  cayr,  pêra  as  mallicias  cõ  q  muy- 
tos  derriba  j  q  senos  ueherê  alguãs  cousas  cõtrairas  de 
feito  e  dicto,  cuydado  ou  nêbrãça  ê  guysa  q  syntamos 
q  nos  queira  derribar,  ê  sanha  mal  querença ,  tristeza, 
fraqueza  de  coraçõ,   menos  preço  denos ,   ou  desagra- 
decimêto  adeos ,   e  aos  faomeês,  ou  nos  trouxe  amyn- 
gua  de  ffe,  ou  desesperaçõ  pêra  bê  começar,  cõtinuar, 
e  acabar  as  cousas  q  podemos  e  deuemos  fazer,  ou  e 
algua   priguiça,    q   uê   defraqueza ,  e  deleixamêto  da- 
uoõtade ,    logo   sperãdo   toda  princypal   ajuda  denosso 
senhor  deos ,  deuemos  êdereitar  cõ  esforço  e  boo  cõs- 
selho  nosso  e  doutros  q  por  grande  saber,  lõgas  e  boas 
speriêcias  bem  saibhã,  queira,  e  possa  em  taaes  feitos 
obrar  e  cõsselhar  Eaquesto  deuemos  fazer  trazendo  aa 
nossa  boa  nêbrãça   os   cuidados   cõtrairos  daquelles  q[ 
nos  segue  por  q  nos  conheçamos  jr  êcamynhados  pêra 
cadahuã  destas  cousas  suso  scriptas.  Edeuemos  sempre 
fallar,   e   cuidar  êtaaes  cousas  q  serã  boo  remédio  de 
cadahuíi  destes   fallicimêtos  q  nos  mais  sentirmos  se- 
guidos, e  nõ   ê  aquelle  q   mais  nos  derribe,  posto  q 
nossa   uoôtade   o  deseje,  por  q  aos  tristes  muytas  ue- 
zes   lhes  praz  fallar  naquelles  aazos  per  q  lhes  ueeo  a- 
tristeza ,    posto   q   mais  acrecentê  ê  eila  Esse  esto  bê 
quisermos  e   soubermos   fazer,    cÔ  agraça  denosso  se- 
nhor deos,  logo  CÔ  assua  ajuda,  bê  e  dereitamête,  sa- 
beremos andar  em  os  mais  de  nossos  feitos  Esse  piQ- 


2G6  O    LEAL  CONSSELHEIRO. 

sunçõ,  soberua,  ou  uaã  gloria  nos  quere  fazer  leuan- 
tar,*  e  trestõbando  ,  cavr,  perdendo  alguíis  começos 
debê  daalma,  e  docorpo  q  deos  nos  tê  outorgados,  lo- 
go apresêtando  ante  nossa  nêbrãça,  cã  pouco  per  nos 
uallemos,  e  podemos,  conhecendo  nossos  fallicimêtos, 
nos  guardaremos  cÕ  sua  graça  decayr  per  os  erros  suso 
scriptos  E  no  teendo  em  nos  oprincipal  esforço,  demã- 
daremos  aajuda  daquel  q  nos  deu  os  boos  começos,  Ç 
DOS  outorgue  bem  cõtinuar  e  acabar.  E  posto  q  ueja- 
mos  q  logo  nos  sétimos  per  tal  cõsselho  aquel  corregi- 
meto  q  desejamos,  deuemos  cõtinuar  e  adiante.  Euee- 
remos  bê  ogrande  proueito  q  detal  regimêto  dauoõta- 
de  e  cuidado  aueremos.  Esse  começarmos  fazer  alguãs 
cousas  CÕ  boo  propósito  e  fundamêto  e  nos  acuidirê 
leuessadamete  cõ  mallicia  dos  homeês,  necessidade, 
ou  uêtuira  nunca  leixando  dobrar  dereitameíe  segundo 
acousa  for  e  requere  obê  fazer.  Do  estado  e  q  formos 
seeremos  sêpre  anisados  de  nõ  tardar  de  cõprir  oq  de- 
itemos, nê  seermos  trigosos  no  cuydado  e  na  obra, 
aalê  do  q  he  bê,  mas  segundo  se  as  cousas  seguirê  cô 
uGÕtade  segura  sem  toruamêto  obraremos  oq  uirmos, 
^  cada  têpo  e  cousa  requere,  e  teêdo  tal  maneira  e 
nossa  uyda  cõ  aajuda  da  quel  per  q  todo  bê  recebe- 
mos, sêpre  andaremos  dereitos ,  e  ledamente  ê  todo» 
nossos  feitos  filhando  ê  elles  razoado  sêtido  e  cõtêta- 
mêto. 

CapituUo   Lxxxiiii. 

da  declaraçom  como  alguús  sô  boos  per  cuydado  nó 

taaes  per  obras ,  e  outros  pello  contrairo. 

jlS  om  êbargando  q  niuy  grande  bem  seja  dar  anossa 
senhor  aquella  mais  special  parte  do  coraçõ  q  ao  es- 
tudo he  apropriada.  Porê  nõ  ueê  por  ello  ao  estada 
deperfeiçõ  ,  se  das  obras  tal  teêçom  nõ  for  bê  acõpa- 
nhada.  Esto  digo  por  q  mujtos  sõ  pecadores  maaos  per 
•cuidado,  e  nõ  taaes  per  as  obras  q  parece,  e  outros 
"de  muy  iboos  pêssamêto ,  e  presí^içõ  E  no  obrar  fallece 


o    LEAL  (JONSSELHEIRO.  267 

niujto  do  q   sô   obrigados,    per  iiõ  saber  nesse  lõbrar 
priguiça,  ou  fraqueza.  Eposto  q  naquesto  cadahuu  dia 
íalleçamos,  por  me  parecer  q  poucos  teê  boo  conheci- 
meto  destas  deferêças  uos  farei  dello  per  exepro  algua 
declaraçõ.    Per  cuidado,  sô  maaos  cayndo  ê  heresias, 
nõ   auendo  no   senhor  dereita  fie,  nè  boa  sperãça  de 
seu   amor,    e   temor,  auendo   pouco  sêtido   E  acerca 
dos   prouximos  amando  alguãs  pessoas  como  nõ  deuê, 
e  assy  desamando  e  cobijçando  oalheo  cõtra  dereito  e 
razõ.  Outros  atormêtandosse  per  êueja ,  sanha ,  ou  tris- 
teza. E  assy  per  semelhãtes  fallicimetos ,  per  soberua , 
e  uaiX  gloria  em  seus  coraçooês,  anda  muytos  fora  de- 
boo  camynho  EporS  quanto  aas  obras  q  defora  parece, 
per  grande   tepo   nõsse   demostram    taaes  fallicimetos 
ates   som  julgados  q  sõ  demuy  boa  e  sâcta  uyda.  Per 
maneira  cõtraira  se   faz  em   aquelles  q  teem  em  seus 
coraçooês  amor,  e  temor  ao  senhor  deos,  e  propósito 
debê  uyuer  e  per  suas  maginaçooês  assy  pêssâ  c(  todos 
eeus  feitos  faze  uirtuosamête,  os  quaaes  per  cuidado  e 
propósito  se   teê   por  sãctos,  mas  aquestes  fallecê  al- 
guãs  uezes   per  arreuatamêtos  de  gram  desejo,  côtra 
oqual  per  fraqueza  q  neellas  ha  e  grande  jnclinaçõ  da- 
quel   pecado  nõ   se   pode   cõteer  dos  q  diz  ossenhor  q 
atêpos  creê ,    e  no  têpo  da  têtaçô  desfallecê.    Porende 
tãto  q  passa  tal  uoõtade  sytêsse  prepoos  mais  nô  fazer 
semelhãte  Eaquestes  sõ  chamados  icõtenentes  os  quaaes 
no  som   de   tãta  culpa  como   aquelles  q  erra  decerta 
mallicia.  Outros  fallecê  desta  guisa,  ena  obra  per  myn- 
gua   de   boa  discreçõ ,    nõ  conhecendo   alguas   cousas 
quanto  sõ  mal,  e  outros  fazê  pêssando  q  sõ  bê  feitas, 
ou   nõ  cõssijrâ  quanto  aellas  sõ  theudas  occupâdosse  ê 
obras  q  lhe  nõ  cõ])re ,  leixãdo  aquel^lo  q  mais  lhe  per- 
teece ,    assy   como  alguG  senhor  q  tê  grande  regimêto 
da   terra,    querendosse  dar  sobejamêto  aestudo  ,  e  na 
questo  despender  omais  de  seu  têpo,  nõ  querendo  ou- 
Víyr  os   malles  q  se  fazê  per  sa  terra,  ou  os  beês  q  se 
poderia  por  seu  mandado,  cõsselho ,  e  auysamêto  fa- 

Ll  2 


2G0  O    LEAL    GONSSELHEfRO. 

zer ,  no  será  scusado  de  grande  nal ,  e  pecado,  no  por 
seer  erro  estudar  e  leer  per  boos  Jiiiros,  mas  por  el  nô 
husar  dello  como  deue ,  see:iindo  quem  he ,  e  nô  des- 
pender ornais  do  têpo  no  q  lhe  mais  perteece  uisto  sua 
maneira  deuyuer  Eouiros  despende  todolios  dias  assy 
leuemête  ê  falias  sê  proueilo,  folgãças  leues ,  e  de 
pouco  bê  q  nõ  êtêdê  comosse  passa  aquellas  xxiiii. 
oras  q  antre  odia  e  noite  nos  sõ  outorgadas  Eassy  os 
semelhãtes  per  cuidado  e  teêçõ  se  teê  por  sãctos,  e 
nas  obras  fallecê  muyto,  no  que  mais  som  theudos  de- 
fazer.  Epera  dar  cõsselho  sobrestas  parles,  amym  pa- 
rece boo  auisamento  quanto  ao  primeiro,  trazer  sêpre 
na  renêbrãça  aquelles  dictos  denosso  senhor,  nô  ha 
cousa  ascõdida  q  no  seja  descuberta  e  sabida  E  q  dará 
seu  jujzo  jíítando  as  obras  cô  os  pêssamêtos.  E  côssij- 
rando  esti>,  cada  huu  se  deue  trabalhar  trazer  tã  lipo 
seu  coraçô  como  lhe  prazeria  q  as  obras  ate  ossenhor 
deos ,  e  todos  q  as  uissem  fosse  bê  praziuees  Ao  se- 
gundo côssijre  cadahuu  perssy  e  boo  cõsselho  que  lhe 
dê  aq  mais  he  obrigado,  por  oestado ,  hidade,  e  sua 
desposiçô  como  aello  satisfaz,  desy  aquellas  xxiiii  oras 
como  as  despende,  e  assy  uera  como  as  bem  despen- 
de. E  por  q  muytos  dizê  q  nô  acham  têpo  pêra  obrar 
as  cousas  q  hã  de  fazer,  oq  as  mais  uezes  muyto  cô- 
tradigo.  Eu  largamête  lhe  faço  tal  repartiçô,  pêra  ca- 
ma antre  dia  e  noite,  filhe  oito  oras,  pêra  mesa  duas, 
ofícios  de  myssas  ê  geeral  e  rezar  duas,  vestir  dama- 
iihaâ,  e  desuestir  danoite  duas,  spaço  pêra  leer,  e  fol- 
gar duas.  Eassy  fica  oyto  q  se  bê  forê  aturadas,  nõ 
ãtrepoendo  falias  e  obras  sê  proueito,  se  pode  orde- 
nar, e  fazer  grandes  e  boos  feitos  Eassy  como  faço 
esta  fegura ,  cadahuíi  segundo  sua  maneira  de  uyuer 
faça  sua  pêra  se  acusar  da  despesa  do  têpo  sê  razô , 
ou  nom  dereitamête,  da  quel  ossenhor  nô  menos  de- 
mãdara  coto  que  das  pallauras  occiosas. 


o   LEAL  CONSSELHEIllO.  269 

Capitullo  Lxxxv. 
Coimo  auemos  de  obrar  nossos  feitos  das  dietas  fjs. 

_L  or  quanto  aos  q  tee  uyda  autiua  couê  reguardar  as 
ciquo  íijs  suso  scriptas  .s.  por  auer  saiide,  gloria  per- 
calçar,  e  manteer  hõrra  cô  uerdadeiro  boo  nome,  cõ- 
tiijuar  ê  geeral  e  goueniar  bê  afazenda ,  uyuer  ê  boa 
ledice,  certas  regras  ê  ella  deuê  seer  guardadas  Pri- 
meira q  iiõ  queiram  jutan-ête  obraJlas  cousas  q  ahuã 
principal  perteecê  êbargandosse  no  q  aoutra  requero  , 
como  fazê  mu}tos,  q  ouuyndo  myssas ,  ou  rezando, 
dam  geeralmête  odiêcias  e  fallõ  nos  feitos  da  fazenda, 
e  outros  pêra  tal  tepo  pouco  perteecetes  E  quando 
trauíá  nos  da  horra  euoiuesse  e  filhíi  toruaçõ ,  por  so- 
bejo reguardar  e  seguir  as  cousas  do  desêfadamêto  E 
estando  ê  festas  ,  e  ê  outras  folgãças  ,  fallò  nas  cotas 
e  prouijmêto  da  casa.  E  assy  anda  toruados  e  tal  mes- 
tura  defeitos,  falias,  e  cuidados  do  q  se  còuê  guar- 
dar, quem  deseja  seus  tepos  bê  repartir.  Segunda  q 
nííca  por  cousa  q  faço  ajo  esqueecimêto  dequem  sõ 
per  estado,  hidade ,  saber,  e  poder,  por  tal  q  todo 
seja  obrado  como  atai  pessoa  perteecê.  Terceira  q  o- 
brando  nas  cousas  demais  pequena  fym ,  sêpre  reguar- 
dê  como  nõ  falleçõ  nas  damayor.  Assy  q  se  ãdarê  nos 
feitos  da  folgãça  nõ  destrua  por  ello  desordenadamête 
sua  fazenda,  nê  faço  manigfesto  perjuyzo  ê  sua  saúde, 
ahôrra  nõ  abata  em  alguã  parte ,  e  cõciêcia  ê  todo  sê- 
pre bê  guardada.  Com  taaes  regras,  e  outras  q  ajguiis 
sabedores  pode  melhor  cõssijrar  me  parece  q  teeremos 
cõ  agraça  denosso  senhor  boa  maneira  sobre  todaJlas 
fijs  em  cyma  declaradas. 


S570  O    LEAL    CONSSliLHElRO. 

CapituUo  "1 XXX Vi. 

dos  malles  que  se  recrecem  amuytos  por  nom  trazerem 

no  coraçom  aJ(juú  hoo  freo. 

Jl  or  fallicimêto  do  boo  setido  e  auisamêto  muytos 
fazê  grades  mudãças  ê  suas  uidas  de  boo  estado  ê  cõ- 
trairo  perdendo  alguú  desejo,  temor,  ou  uergõça,  q 
os  esforçaua  ê  bem  obrar,  refreaua  no  contrairo,  si 
cobrando  outro  tal  ou  melhor.  E  aquesto  fez  arrey  sal- 
larnõ  ê  cyma  de  seus  dias  cayr  naquelles  malles  q  tâto 
prasmara ,  por  q  leixou  auer  êtrada  na  quelle  estudo  q 
perao  senhor  deos  deuera  guardar.  Os  amores  de  al- 
guãs  molheres ,  e  mynguando  da  ffe  dereita,  perdeo 
oamor  e  temor  de  deos,  q  ante  tãto  louuara,  e  assy 
ficando  sê  freo,  e  desordenado  ê  seus  sêtimêtos,  pas- 
sou odesejo  das  deleitaçooês ,  q  na  salla  geeral  deuera 
trazer  ao  mais  alto  setido  do  coracô ,  oqual  todo  seu 
grande  êtender  nõ  pode  êfrear  no  mal ,  nê  esforçar  pê- 
ra bê  obrar  Porende  cõuê  pêra  guardar  esta  ordenâça 
das  casas  suso  scriptas ,  que  guardemos  as  portas  do 
coraçõ,  q  sõ  nossos  sêtidos,  deueer,  ouuyr,  tãger, 
gostar,  cheirar,  q  nõ  se  legue  desordenadamête  ê  a- 
feiçõ  dalgua  cousa,  ou  se  uêça  per  alguã  paixõ ,  ca 
per  estas  partes,  ocoraçô  recebe  seus  sêtymêtos  ê  des- 
uairadas  guisas,  alguãs  desubito  per  huã  soo  uysta, 
outras  per  cõtinuaçõ  e  aas  uezes  per  descorrimêto  de 
cuidado  do  q  uee  e  sospeita,  e  ouue ,  ê  q  filha  ryjo 
desejo,  sanha,  temor,  Eassy  cadahuã  destas  paixooês 
sobredictas,  porê  nõ  pêsse  quem  eSto  uyr  q  logo  o 
poderá  guardar  ,  êssy  tal  ordê  ca  se  requero  muj  spe- 
cial  graça  denosso  senhor,  cõ  boa  pratica,  grande  teê- 
çora  cõtinuada  deuyuer  sêpre  uirtuosamête  Ca  diz  se- 
neca  q  as  ryjas  bê  querêças  nõ  se  pode  forçar ,  mas 
sagesniête  se  faz  escorregar  e  tal  he  ê  todallas  outras 
paixooês  q  muyto  sõ  no  coraçõ  entradas  ataa  omais 
alto  setido ,  ca  nõ  he  menos  forte  detirar  ou  cõtradizer 


o    LEAL    CONSSELHEIRO.  271 

atristcza  q  rvjanicte  reyga  ê  alguu  temor  se  razõ  ,  co 
q  nmytos  êí^sãtleceiò  e  semataro  q  o  amar.  Eaquesto 
me  parece  q  ii;u}to  se  faz  por  pêssarê  q  alCbraiiça  do 
sêtido  dura  lato,  como  da  parte  da  rezo.  E  por  ella 
seer  ta  perfeita  q  tarde  ha  esquecimêto  teê  q  tal  se 
fará  na  sessetiiia.  Epore  q  se  no  pode  sofrer  agrande 
pena  q  sej)re  trazera ,  e  q  melhor  he  uêcersse  aquel 
desejo  da  uôotade.  Tal  teêçõ  traz  grande  erro  segun- 
do por  amorte  dos  amygos  claramête  se  mostra,  como 
alêbrança  da  parte  do  ryjo  sêtido  nõ  tato  dura,  como 
outra  geeral  da  razõ.  Epore  ajnda  q  aafeiçõ  nossa 
mostre  .  q  nuca  ê  tal  caso  se  poderá  squecer ,  por  nos 
legar,  ê  amor,  desejo,  sanha,  nojo,  desesperaçõ ,  ou 
medo,  reguardando  ê  nossos  êxêpros ,  e  dos  outros,  nõ 
ocreamos,  mes  forcemos  o  coraçô  todauia  pêra  seguir 
omelhor,  e  que  ao  presête  muyto  syntamos  forte  deo 
fazer,  per  têpo  se  passara,  e  obê,  e  auirlude  fica  sem- 
pre, cõuem  em  cadahuã  das  casas  suso  scriptas,  auer 
sêtimêtos  desuairados ,  ajnda  que  por  graça  do  senhor 
cô  razõ  se  retenha  ê  aquel  repartimêto,  cõssijrada  suas 
certas  fijs ,  por  q  nas  cousas  da  soo  folgaça,  dehuãs 
c^uê  auer  muyto  mayor  sêtimêto  q  das  outras,  assy  do 
proueito,  saúde,  e  hõrra ,  e  bê  das  uirtudes  Epore 
gem  special  graça,  cõ  desejo,  e  grande  teêçõ,  e  cus- 
tume  deuyuer  uirtuosamête  como  dicto  he  ,  Tal  prati- 
ca nõ  se  pode  bê  êtender  ,  e  menos  guardar,  ca  eu  fa- 
ço tal  cõssijraçõ ,  como  caçador  de  q  mais  êtendo  q 
de  Jetradura  q  ocoraçõ  decadahuu  denos,  he  assy  co- 
mo falcõ  q  auemos  defazer,  e  q  huus  som  ta  boos  q 
logo  ira  muy  alto  por  agarca  e  neesto  continuarõ  se 
per  maaos  caçadores  q  os  ceuê  ê  fracas  relees ,  nõ  fo- 
rê  danados  Outros  sõ  priguyçosos ,  fracos  de  uõotade 
e  pesados  sê  grande  força,  nõ  se  pode  boos  fazer  E 
assy  teê  poucos  ta  boa  uõotade  per  special  dõ ,  q  as 
uirtudes  sigàí  e  se  deleita  ê  ellas  como  ê  própria  sua 
folgaça.  E  taaes  nõ  se  danarom  saluo  se  per  maao  cus- 
tumcj   ou  muyto   contrairo  aazo  nõ  forê  tornados  de 


272  O   LEAL  CÔNSSCLTiTímo. 

cõtinuar  por  seu  boo  uyuer  E  alguus  naturalmête  som 
prontos  atodo  mal,  e  perao  be  nõ  despostos,  mas  per 
agraça  de  nosso  senhor,  boo  êssyno,  e  côuerssaçõ  tor- 
na abusar  deuirtude  como  aquelles  q  uirtuosos  nacerõ 
os  quaaes  assy  como  boos  caçadores  se  arreda  das  re- 
lees  contrairás,  e  ceuã  se»!S  corraçooes  nas  mais  auã- 
tejadas  e  ofiidamêto  detodo  esto  nace  principalmête 
de  três  uirtudes  theologaaes ,  Fe,  Sperãça,  Caridade, 
por  q  sê  fle,  ípossyuel  he  prazer  adeos  Essea  leuermos 
em  razoada  firmeza,  cõue  q  nos  faça  passar  osseu  a- 
mor,  Desejo,  Sperãça,  e  Temor  q  nace  da  grandeza 
do  amor,  aaquel  mais  alto  sêtimêto  do  coraçõ  q  apro- 
prio ao  estudo,  e  seendo  alli  per  sua  graça,  todallas 
outras  casas  cõ  suas  fijs  trazeremos  ordenadas,  como 
screuy,  pêra  dos  feitos  filharmos  razoado  sêtimêto  E 
quando  as  cousas  ueê  cõtra  uõotade  e  prazer  de  boo 
home,  nô  digo  q  as  nõ  seta,  mes  q  o  nõ  derrube,  e 
tristeza,  mal  fazer,  dizer,  ou  pêssar,  como  diz  sone- 
ca ê  huíi  razoado  da  pruuydêcia  deujna,  e  tullio  no  li- 
uro  dos  oficios,  e  no  liuro  das  collaçooês,  esto  muy 
declaradamête  he  declarado  specialmête  na  sexta  col- 
laçõ  q  falia  na  morte  dos  sactos ,  ê  q  mostra  como  os 
boos  e  uirtuosos  nõ  lhe  pode  uijr  alguã  cousa  da  cõti- 
cimêto,  se  nõ  for  per  sua  culpa  ^  afilhe  por  mal  nê 
cõtraira.  E  naquesto  esso  medes  cõcorda  huã  parte  da- 
quelle  liuro  deuyta  xpí ,  q  fez  segundo  dizê  q  por  el 
nõ  se  nomea  huu  freyre  da  ordem  dos  cartuxos  das 
maneiras  per  q  nosso  senhor  deos  cõssente  q  uenhã  os 
malles  e  afliçooês  aboos  e  amaaos,  oqual  me  parece 
inuyto  bê.  E  por  esso  omandei  aquy  tralladar  cõ  sua 
oraçõ  como  screuo  na  fi  decadahuíi  capitullo  do  dicto 
liuro. 


o    LEAL   C0N3SELHEIR0.  273 

CapituUo    Lxxxvir. 
ir  ai  lado  do  liuro  de  uyta  xpi. 

JL  rabalhemonos  ajnda  ê  todas   cousas   dar  graças  a- 
d€OS,  por   q  ê  as  outras  uirtudes,  esta  he  huã  cousa 
inuy   nobre,  e  splandecéte  ante  deos  .s.  q  o  home  co- 
mece  ê   esto  aobcdiêcia,  e  e  desterro,  pobreza,  ou  ê 
desprezo,  ítirmydade   e   ê   muytas  tribuilaçooes  q  seja 
posto   dauôotade ,    ou   do   corpo,  queira,  e   saibha ,  e 
possa  do   coraçu  beezer  ossenhor  ,     e   louuallo   ê  to- 
das  suas   obras   cõplazer,   onde  bernardo  bê  auetura- 
do   he  oq   ordena,    e   cota  as   paixooês   de  seu  corpo 
.s.   q   entende   q  lhe  ue  justamête  e  q  soporta  per  ofi- 
Iho  dedeos,  qual  quer  dano  q  padece.    E  esto  seja  sê 
murmurar   coraçõ ,  e  per  aboca  fazendo  auçõ  degracas 
e  dando  uos  delouuor.  Eesto  bernardo  quem  bS  cõssij- 
rar   q   aquelles  q  ama  deos.  todallas  cousas -se  torna  ê 
bê,  auera   ê   todo  grande  assessego  de  coraçõ,  e  ê  el 
se   cõprira   oq   diz   ossabedor  .s.  nõ  será  triste  ojusto  , 
cõ   cousa  q  lhe  uenha ,  por  q,  segundo  sancto  agosti- 
nho, esto   q   nos  assy  ue ,  q  quer  q  seja  nõ  odeuemoã 
poer  ao  poderio  do  jnmijgo  nosso  q  he  oespiritu  mali- 
gno, mas  aauõotade  dedeos   .s.  q  nõ  deuemos  êtender 
q  o  jnmijgo  poderá  aquello  fazer  se  a  deos  nõ  prouue- 
ra  perm.etello.  E  êtõ  poderá  este  tal  dizer  job,  segun- 
do prouue  a  deos,  assy  foy  feito  osseu  nome  seja  beC- 
to ,  porê  nas  tribulaçooês  q  te  aueherê ,  nõ  deues  poer 
alguã  duuyda,    por  q  deos   nõ   permete  q  uenhã  aos 
seus  ,  seno  por  seu  proueito  e  saúde. 

Alguãs  uezes ,  por  q  afastandosse  home  do  mundo, 
por  receo  delias,  auorrece  os  deleitamêtos  têporaacs, 
e  cõuertendosse  adeos ,  deseie  as  cousas  eternaaes, 
onde  agostynho  nõ  se  cõuerte  aalma  adeos,  saluo 
quandosse  afasta  deste  mundo  nõsse  aparta  home  dei 
como  deue,  seno  se  traballios  e  doores  se  mesturarê 
cõ  as  uiçosas  deleitaçooês  delie,    se  deos  cessasse  e 

Mm 


274  o    LEAL  CONSSELHEíRO. 

iiõ   mesturasse  alguãs  amarguras  aas  bê  auêliiraças  do 
mundo  esquecelioyamos  E  esto  agostynho  ,  e  porê  diz 
ossalmysta.    multiplicadas  sõ    as   suas   itirmidades,    e 
despois   começarõsse   de  estingar  e  apressar,  e  alguas 
uezes  ueê  as  tribullaçooês,  por  tal  q  conheça  seus  pe- 
cados, e  arrepeêdido  q  se  correga  Essegundo  diz  san- 
cto   agostinho   aquello  faz  atribullaçõ   ao  justo ,   q  faz 
afornalha  ao  ouro,  e  oinãgoal  ao  graão ,  alynia  ao  fer- 
ro, Onde  os  jrmaãos  dejosep  dizia  por  nossos  merecy- 
mêtos  padecemos,  esto  por  q  pecamos  ê  nosso  jrmaão. 
E   aJguâs   uezes    por   tal  q  tirado  oajudador  possa  me- 
lhor ueer  sua  perfeicõ,  e  se  conhecer  onde  ossalmista. 
Eu    disse   na   mynha   auondãça,  no  me  mudarei  deslo 
pêra  sêpre ,  mas  melhor  me  mostraria  pêra  queste  ou- 
tro  uersso ,    reuolueste   atua   face   demym    e  fuy   feito 
tornado.  Alguas  uezes  por  cõsseruar  home  ahumy Idade 
e  nõ  presumyr  desseus  merecymêtos,  nê  se  leuãlar  per 
soberua.  Onde  oapostollo  por  me  nõ  aleuãíar  ê  sober- 
ua   aalteza  das  reuellaçooes  heme  dado  huú  estimo  da 
carne  messegeiro  de  satanás  q  me  de  pescoçadas.    Al- 
guãs  uezes   por  saber   home   cã   maa   cousa  he  leixar 
home  deos  e  seer  delle  desêparado  Onde  geremias  sa- 
be  e    uee  ^  maa  e  amargosa  cousa  he  desêparares  os-^ 
senhor   teu   deos,    e   nõ   seer   seu    temor   acerca  dety. 
Alguas  uezes   por  declarar  deos  apaciencia  dealguu  e 
per   êxêpro   dei ,    e  dos  sanctos  êssynar  os  outros  apa- 
ciêcia    Onde  job ,  e  esto  seja  amym  cõssollaçõ  ,  q  me 
atormête  el  cõ  door ,  e  q  me  nõ  perca,  e  eu  nõ  cõtra- 
d;iga   as   suas   pallauras.    Alguãs  uezes  por  q  os  outros 
mais   temam  ,  e  q  tome  dally  êxepro  deuyuer  se^  for  a- 
çoutado    omallecioso   malfeitor,    ossãdeu ,    ou   neicio, 
fazerssea   mais  auisado.    Alguãas  uezes  por  se  guardar 
olouuor  de  deos,  e  se  pnenifestar  assua  gloria  segundo 
foy   aêfermidade  daquel  (^  naceo  cego,  e  amorte  dela- 
zaro.    Alguas    uezes    por   q    aja   nêbrança  ameude   das 
joyas  e   chagas   de   xpõ,    e   conheça  amysericordia  de 
deos  acerca  dessy ,  onde  no  liuro  dos  macabeus,  synai 


o    LEAL    CONSSELHKIRO.  275 

âe   grande  beneficio  he  quando  deos  nõ  leixa  os  peca- 
dores husar  de   sua   sezã   logo   tepo  .,    mas  logo  iie  cô 
uigãça.  Onde  sam  jeronjmo  grande  misericórdia  he  na 
uyda  presête .  nõ  poder  home  gaàçar  misericórdia.  Es- 
segundo  agostinho,  grande  he  assanha  de  deos,  quan- 
do no   correge   o    pecador,    mas   dalhe  lecêça  lõga  de 
cayr  ê  pecado.    Alguãs  nezes  por  q  aja  mayor  speràça 
em  deos  e  tenha  mayor  fie  em  el.    Onde  agostinho  cõ 
temor  deuees  desseer  quando  te  uay  bè,  por  q  melhor 
he  seer  tètado,  e  reprouado ,  e  doestado  Onde  bernar- 
do,   êtom   se   assanha  deos   mais,  quandosse  nõ  assa- 
nha,   ne   tenho   lyuza   q   el   me   aja  de  seer  fauorauel 
quando   eu   dei   nõ    tenho   setido,    mas   quando  osseto 
jrado,    quando   fores  senhor  jrado,  êtõ   te   nêbras   da 
misericórdia   Alguãs  uezes  por  saber  home,   cam  apa- 
relhado he  deos  peraa  correr,  seo  home  ael  se  tornar 
de  todo  coraçõ ,  Onde  ossalmista,  quando  era  atribul- 
lado ,  braadei  ao  senhor,  e  el  me  ouuyo.  Alguãs  uezes 
j)or  prouar  se  ama  homem  adeos,  e  se  ha  alguãs  uirtu- 
des  êssy.    Onde  gregorio  apena  pregíiía  se  ama  home 
deos  uerdadeiramête   quando  he  folgado,  e  sê  ella ,  e 
diz  mais  q  no  tepo  da  paz  nõ  conhece  alguê  suas  for- 
ças se  hi  batalha  nõ  ha.    E  q  aproueita  prouar  as  uir- 
tudes  e  força  alguãs  uezes,  por  q  home  seja  mais  pro- 
iiado,    e   aja  mayor  coroa   pêra  paciêcia,   segundo  se 
mostra  de  job,  e  dos  mártires  Onde  sãctiago,  bê  auê- 
turado   he   aquelle   q    sofre   têtaçõ ,    por  q  quando  for 
prouado  recebera  coroa  deuyda,  e  segundo  tfortonyo , 
por  tal  que  receba  synal  dos  thesouros,  e  doces  q  lhe 
deos  outorgou  ,  nê  uijria  odiaboo  ao  home  se  onõ  uis- 
se   posto  ê   mayor  hõrra  q   ssy ,  segundo   q  fez  cõtra 
adâ   q   era   muy   uistoso   cõ   dignidades.    E  contra  job 
por  q  ouio  coroado,    ou  cercado  de  marauylbosos  lou- 
uores  de  deos.  Outrossy  alguus  fracos  sõ  atormêtados, 
nõ   por  seer  feitos  lipos,  mas  pêra  começarê  de  auer 
dãpno  aquy  E  acrecêtamêto  das  penas  eternaaes  q  de- 
pois ha  de  sofrer  A  qual  cousa  he  própria  dos  obstina-- 

Mm  2 


276  O   LEAL   CONSSELHEIRO. 

dos  ,  assy  como  foy  ãlhiocheu  e  herodes  e  algiius  ou- 
tros q  foro,  e  niuytos  q  ajnda  ao  presête  padece,  aos 
qiiaaes   coue  aqiiello  doprofela  CO  doblada  pena  os  a- 
lormõta    A  taaes   como  estes   as  tribullaçooês  q  ha  a- 
quy   sõ  huu  preãbulo  das  penas  q  hâ  dauer  no  íferno  , 
as  quaaes  per  amiseria,  e  aíliço  daquy  mostram  aquel- 
lo   q   hã  de  padecer  depois  pêra  sêpre.  Ossenhor  deos 
reparte   acerca    dos   seus    misericordiosamête   todallas 
cousas  aproueito  delles,  ou  permete  delhe  uijrê.  Epo- 
rê  deue  sêpre  seer  louuado  ê  ellas  todas  Onde  agosti- 
nho,  auerdadeira  humildade,  íilho  meu,  he  seer  e  al- 
giia  cousa  soberuo  E  ê  nehiía  murmurar  nê  seer  êgra- 
to ,    nê   queixoso,    mas  ê   todos  juízos   dedeos  darlhe 
louuores  e  graças  ,  por  q  todas  suas  obras,   ou  sõ  jus- 
tas, ou  begninas.  E  esto  agostinho  cõssijrando  ergo  tu 
estas  cousas  estuda  de  ordenares,  e  estabelleceres  as- 
sy  teu   coraçõ   q    ©  todas   auerssidades  e  nojos  te  ajas 
paciêtemête,  e  humiklosa  Essejas  ê  ellas  ledo,  ou  cò- 
tête,    Eacustumate  yr   assy   per  este  camynho ,   q  he 
do  spiritu  sancto  por  q  sejas  cheo  de  seu  fcruor ,  e  tã- 
to  q  nõ  soUamête  ajas  ê  elUs  paciêcia,  mas  q  ajnda  as 
desejes   por   amor  de  jhii  xpõ  O  qual  êssy  e  nos  seus 
teue  este  caminho  alto,  e  leixou  atodos  êxepro  deãda- 
rê  per  el.    Quer  deos  q  os  íiJhos  do  seu  reino  aja  aqui 
afliçõ  ,  por   q   segundo  oapostollo,  aquelles  q  ãdâ  fora 
da  deciplina,  no  som  filhos  legítimos,  mas  adulterinos 
Essegundo  agostinho  aquel  q  he  fora  dos  açoutes,  fora 
he   de   auer   ouyço  ou  quinhõ  dos  filhos  ,  e  diz  mais  q[ 
íiõ   queira  homem  auer  speràça  daquello  q  o  auâgelho 
uõ  permete  por  q  necessário  he  desse  coprir  atees  afym 
oq   deserõ   as  scripturas,  as  quaaes  nõ  nos  permete  ê 
este   mundo  seno  tribullaçooês ,   derribamentos,   ãgus- 
tias,   acrecêtamêto  dedoores,    auondâça  detêtaçooês. 
E  pêra  estas  cousas  recebermos,  e  &oportarmos,  este- 
rnos  aparelhados,  e   prestes,  mais  q  pêra  outras,  por 
lai  q   nõ  falieçamos  no   q  deuemos  fa^er,  assy  como» 
desapercebidos  deUas.. 


o    LEAL  COXSSSLTTEIRO,  277 

Mas  alguas  iiezes  os  pecadores  som  pouco  punidos 
ou  o  nò  sò  ê  csla  presente  uyda,  por  q  ja  desperada  he 
acorreiço  delles ,  mas  aaquelles  aq  he  aparelhada  auy- 
da  eternal,  necessário   he  q  seja  feridos,    por  q  quan- 
tos  el   recebe   por  filhos,  ou  ha  derreceber  na  sua  he- 
rãca   eternal,    todos  acouta  e  por  tãto  diz  todos,   por 
q    atees   aquel  seu  filho  soo  se  pecado  foy  atormêtado 
Esse   el    no   leixou  passar  se  açoutes  este  seu  ,  ê  q  nò 
]ie  pecado,  etendes  q  leixara  passar  aassua  uoõtade  a- 
quelles   q   sõ  cõ  pecado.    Aquel  q  foy  sê  pecado,   mas 
nò   sê  açoutes,  deu  êxêpro  anos  em  seus  padecimêtos 
Nom  nos  deuemos  ergo  de  còtoruar,  quando  u irmos  q 
alguu    sancto   ou  boo  padece  graues  cousas  e  jndignas 
se  nò  somos  esqueecidos  das  cousas  q  padeceo  o  justo 
dos  justos,  e  sancto  dos  sanctos  Todos  beês  terreaaes 
despreçou  por  nos  êssynar  q  os  menos  precemos,  e  to- 
dollos  mártires   e  malles  soportou  por  nos  mostrar,  e 
mandar  q   os  soportemos.    JE  nò   busquemos   aquelles 
primeiros,  cuidado   q  auellos  he  be  auêturãça,  nê  re- 
cebemos  estes   outros    por  o  trabalho  e  desauètuira  q 
em   elles   ha.    Esto  agostynlio,  còpremos   ergo  ê  este 
mundo   auermos   afliçooês   por  q  ellas  nos  tira  muytas 
uezes   de  mal   Eporê  nò  nos  deuemos  queixar  ê  ellas , 
nê   seer   sê   paciêcia,  mas  ates  as  deuemos  desejar,  e 
amar   por   q   os  còtrairos  das  tribullaçooês  nos  trazem 
ameude  amalles,    e   nos   fazê  afastar  e  fugir  os  beês. 
Oraçò  :  Senhor  jhú  xpò  q  pêra  os  q  sperâ  êty  es  muro 
forte   q   nò  pode  seer  còbatido ,  sey  meu  couto  na  tri- 
bullaçò   e   mynha   defesa  ,  e  uee  as  mynhas  ãgustias  e 
tribullaçooês,  e  amerceate  dernym,  e  acorreme  cò  to- 
das  tuas  mercees  ,    uee   amynha    doença  ,  defendeme 
delia,  ou  curame  por  tal  q  ajudandome  atua  proueêca, 
nunca   me  desêpare ,    atua  còssollaçom  e  mercee,  nê- 
brate   senhor  da   tua  criatura ,  e  afasta  demym  os  jn- 
mijgos   q  me  spreitã  por  q  ê  mym  aduçura  da  tua  bò- 
dade  por  tua  misericórdia  E  de  meus  pecados  faça  di- 
gna peendença.  Amen. 


278  O    LEAL    CONiiSELHEIRO. 

CapiluUo  Lxxxvíii. 
do  tíicpro  do  spelho ,  rtiâia ,  e  padeiro, 

jT^era  se  mostrar  como  per  o  jnraijg;o  somos  tetados 
afilhar  mayor  sentido  dalguas  cousas  q  cõuê,  e  doutras 
menos  q  he  razõ ,  se  conta  liuu  êxêpro  per  fegura,  co- 
mo per  huu  spelho,  mata,  e  padeiro,  muytos  êgana  , 
dizê  q  teta  cõ  spelho  perasse  filhar  tã  ryjo  sentido  dal- 
^u^  cousa   por  q   nos  quere  eduzer  quando  cõtinuada- 
niête   nos   apresêta,    posto   q  no  queiramos  renêbrãça 
ahuus   de   molher  q  ama,  ou  deseja,  aoutros  riqueza, 
q  cobijça  ou   de   pessoa  q   lhe  fez  tal  erro ,  q  mostra 
razõ  desse   uyngar.  E  de  cousas  q  muyto  teme  ou  re- 
cea  pêra  êduzer  atristeza  cõ  taaes  nêbramêtos  se  diz 
têtarmos  cõ  spelho ,  por  q  sêpre  parece  q  nos  traz  ate 
os  olhos ,  ou  iêbrãça  do  coraçõ  a  legura  daquella  cou- 
so  q  cõ  desejo  sêtido  nos  faz  amar,  desejar ,  temer,  ou 
auorrecer.    Por  quanto  tal  sentido  errado  no  se  corre- 
ge  sê  outro  uirtuoso ,  nêbrandosse  os  malles  q  se  po- 
de seguir  das  cousas  mal  feitas  na  presête  ujda  e  na  q 
Bperamos,  todo   esto   cõ  amãta  se  trabalha  de  cobrir, 
mostrando   q  nõ  he  mal,  ou  nõ  tãto  q  se  deue  leixar, 
e   q   se  nõ  saberá  nem  dos  senhores  por  ello  recebera 
pena,    e  doutros  menos  preço  e  uergonha.  E  denosso 
senhor  cõ   myngua  deffe,  nõ  faz  cola,  ou  diz  q  he  ta 
mysericordioso,  q  por  tã  pouco  nõ  perdera,   e  q  têpo 
auera   pêra  se  emendar  Eassy  cegos  cõ  tal  cubertura 
lhes   faz   q  nõ  uejã,  êtendâ,  ne  syntã,  os  malles  q  o- 
bram  ,  eo  q  por  ello  se  pode  e  deue  seguyr.  Cõ  padei- 
ro  semostra   têtar   quando  as  cousas  q  prometia  seerê 
muyto   êcubertas   cõ   mal   e  perda  dos  queas  fazê ,  faz 
descobrir,  e   os  q   de  penas  nõ  sõ  atormêtados  ê  des- 
peraçõ  de  todo  bê  os  derruba,   mostrandolhes  q  todos 
sabe  omal   ^  fez  e  posto  q  more  ê  logar  apartado ,  os 
detodo   omundo   pêssa  q   o  sabe,  os  quaaes  soliamête 
orreyno  donde  he  níica  ho  ouu^írõ  nomear.  Oqual  assy 


V 


o    LEAL   CONSSELHEIRO.  279 

faz   acrecêlar  osselido   como   ãte  per  maginaçc5  apou- 
quêtaua,    por   taJ    q  desesperado  detodo  bè  spritual  e 
corporal    filhe   por  cõsselho   niatarsse ,    ou   tome  alguã 
uyda  catyiia,  fora  detodo  be  e  uirLude  Eporê  cõ  estas 
Ires  joyas  se  diz  per  razoada  figura  seermos  têtados,  e 
mu}  tos  èganados  do  q  nos  deuemos  guardar  com  agra- 
ça  denosso  senhor  per  ordê  cõtraira,  afigurando  as  per 
feiçoões   das   uirtudes   no   spellio   q  sêpre  seja  ê  nosso 
cora<^o  E  cobrindo  a  folgãça  dos  malles  cõ  amãta,  des- 
prezando  ossoõ  das  uozes  daquelles  q  nõ  querê  nê  se- 
gue as  obras  uirtuosas  e  soando  côtinuadamête  nas  o- 
relhas  denosso  coraçõ,  as  pallauras  q  leermos  e  ouuir- 
nios ,  por  q  do  mal  filhando  deujda  cõtriçõ  cõ  satisfaço 
e   corregimêto  nos  esforcemos  cõ  grande  sperãça  per^ 
iijiiérmos  sêj)re   bê   e   ledamete  Eos  sabedores  cõssij- 
rando  como  ja  aquy  disse  per  outras  uirtudes  speciaaes 
obramos    nos   feitos  ,    mais   perfeitamête   ajudando   as 
principaaes  suso  scriptas,  screuê  muytas  êssynSças  pa- 
ra nos   guardar  dos  fallicimêtos  q  sõ  acerca  delias.  E 
per   afeiçõ   ou    faliicimêto   nõ  sô   be   conhecidos,   dos 
quaaes   uos  mando   aquy   tralladar  dous   capitullos  do 
dicto  liuro  pastoral  q  fez  sam  gregorio,  sobre  auirtude 
daliberaleza    no    qual    poderees    ueer   amaneira   por  q 
muytos  caae  ê  pecados,  e  malles  pollos  nõ  conhecerê. 
Essemelhàte  sõ  scriptas  nõ  faço  meêçõ  por  mais  sobe- 
jo nõ   perlõgar,  e  no  dicto  liuro,  e  outros  semelhãtes 
muy  perfeitamête  opoderees  ueer,  quando  uos  prazerá, 
ê   hufi   liuro   q    se  chama  de  oficijs  q  fez  tullyu  ,  eu  lij 
da  dieta  uirtude  esta  pallaura  bê  denotar  .s.  nhuã  cou- 
sa he  feita  liberalmête,  seo  nõ  for  uirtuosamête  E  por 
tal  dicto  se  demostra  como  as  uirtudes  speciaaes  nõ  se 
pode  bê  praticar  se  as  quatro  principaaes  suso  scriptas 
nõ  forê  razoadamête  possuydas. 


280  o    LEAL    CONSSELHEÍRO* 

Cdjnl iillo   L X X X I X . 
do  liuro  pastoral  sobre  aliberaleza. 

JUoulra  guisa  deue  seer  amoestados  aquelles  q  todo 
oq  tijnhà  niisericordiosamõle  dere  E  doutra  aquelles 
q  se  trabalho  detomar  oallieo,  deueiu  seer  amoestados 
aquelles,  os  quaaes  todo  osseu  miserinte  destroyçô,  q 
nõ  ajo  de  êsobreuerê  por  q  as  cousas  terreaaes  assy 
partirõ.  E  nõ  por  esse  cuide  q  sõ  melhores ,  por  q  aos 
outros  nõ  ueê  assy  fazer,  como  aelles  ossenhor  deos 
as  cousas  terreaaes  destribuir  aos  seruos  seus  como 
lhe  prouue  a  huú  deu  por  q  reja  outros.  Eaos  outros 
por  q  por  elles  seja  regidos,  aaquelles  mandom  q  dê 
as  cousas  necessárias,  aos  outros  q  seja  seus  moordo- 
nios.  Eaestes  q  coimfí  aquello  q  dos  outros  recebe,  e 
muytas  uezes  ofende  adeos  aquelles  q  oficio  tee  de  re- 
ger outros.  E  aquelles  q  sõ  regidos  fica  na  graça  do  q 
os  rege  Eporê  merece  mujto  aquelles  q  sõ  despessei- 
ros  fiees,  os  quaaes  sê  ofendimêto  husã  dessua  despês- 
sõ ,  deuê  ergo  seer  amoestados  aquelles  q  misericor- 
diosamête  despêssõ  oq  possuê,  por  q  conheça  q  som 
despensseiros  de  senhor  ,  e  tato  omildosamête  esta 
cousa  faço  quanto  aquello  q  despenssõ  conheça  q  he 
alheo  E  quando  cõssijrõ  q  som  postos  ê  tal  oficio  pêra 
despêssar  as  cousas  alheas ,  nõ  leuãte  as  suas  metes 
per  jnchamêto  dessoberua,  mas  otemor  as  abaixe.  E- 
paramêtes  q  he  necessário  q  seja  sollicitos  por  q  ajam 
de  despêssar  dignamête  e  juslamête  por  q  nõ  de  al- 
guas  cousas  aquém  as  nõ  deue  dar,  ou  de  pouco  a- 
quem  deue  de  dar  muyto,  ou  muyto  aquém  deue  de 
dar  pouco  E  por  q  esto  q  assy  hâ  de  dar  seja  spargi- 
do  sê  proueito,  nê  seja  tardinheiros ,  por  q  atorniêtem 
òs  q  ha  de  receber,  e  as  suas  êteêçooês  nõ  seja  torna- 
das, por  q  ajíi  de  perder  agraça ,  e  nõ  ajõ  cobijçar, 
auer  louuor  das  cousas  transsitorias  por  q  perca  oeter- 


o    LEAL    CONSSELHEIRO.  281 

nal,   ne   ajo  de   etristecer,   por  aquellas  as^y  dar,  nè 
aja  mais   q    oq    perteece  desse   allegrar  por  aquello  q 
assy   der.    E   no   ajii  assy  de  dar  alguã  cousa  daquello 
q    assy   ncl  ha  dedar  por  q  nõ  precõ  todo  o  primeiro  do 
q  derò  E  por  q  no  apropriem  assy  auirtude  daliberalli- 
dade,    ouça    oq   he   scripto,    aquel   q   mjnistrar   algua 
cousa,  amenistra   pella   uirtude  q  lhe  deos  deu  E  por 
q  seno  aja  dallegrar  sobejamete  das  cousas  bè  feitas, 
ouça  oq  he  scripto.    Quando  fezerdes  todallas  cousas 
q  uos  som  mandadas,  dizede ,  seruos  somos  sê  prouei- 
to ,    aaquelles   oq   deueramos   defazer   ne  ofezemos.  E 
por  q  atristeza  nõ  corrõpa  a  largueza,  ouça  aquello  q 
he   scripto,    deos   ama  odador  allegre    E  por  q  nõ  ajõ 
de  buscar  louuor  daquello  q  assy  da,  ouça  oq  he  scri- 
pto, nõ  saibha  a  tua  seestra ,  oq  faz  atua  deestra,  co- 
mo  se  dissesse  dapiedosa  despêssaçõ,   nõ  queiras  glo- 
ria  desta   uyda  presente,  mas  atua  obra  seja  toda  de- 
reita   se   buscar  alguii  louuor.    E  por  q  esta  graça  de- 
menistraçõ  nõ  seja  começada ,  aos  parêtes ,  e  carnaaes 
amygos,  sollamete  ouçam  oq  he  scripto,  quando  feze- 
res  jãtar,  ou  cea  nõ  queiras  chamar  os  teus  amygos, 
Dê  os  teus  jrmaâos ,  nê  os  primos  cojrmaãos,  nê  os  ui- 
zinhos,    nê  os  ricos,  por  q  per  uentuira  elles  cõ  deca- 
bo  te  ajom  de  cõuidar,  e  será  aty  feita  paga  cõprida, 
mas  quando  fezeres  cõuyte ,  cliama  os  pobres,  fracos, 
mãcos ,  cegos,  e   bê   auêturado   serás   por  q  estes  n5 
teê   onde  te   aja   de   pagar  E  por  q  aquellas  cousas  q 
ha  dedar  cedo,  nõ  dê  tarde,  ouça  oq  he  scripto,  nõ 
dirás   ao  teu  amygo ,  uay  e  torna,  e  demanhaâ  to  da- 
rey  quando  logo  podes  dar  Epor  q  so  collor  delargue- 
za   aquellas  cousas  q    possue  sem  proueito  as  spargã, 
ouça  oq  he  scripto,  aquelle  q  pouco  semea,  pouco  co- 
lhe,   E   por   q  onde  cõpre  dedar  pouco  nõ  de  muyto, 
em  tal  guisa,  q  se  despois  elles  padeço  myngua,  e  nõ 
ajõ  paciêcia,  ouça  oq  he  scripto,  nõ  destrubua  deos  ê 
tal   guisa  q  aos  outros  seja  auondâça,   e  auos  tribulla- 
çõ,  mas  segundo  igualleza  deue  acorrer  aamyngua  dos 

Nn 


282  O  LEAL  CONSSRLHEIRO. 

outros  ê  tal  guisa  q  nõ  fique  mynguado  q  seja  costran- 
gido  aoutros  demandar  quando  aniente  do  destribuidor 
polia  moor  parte  nõ  sabe  myngua  Esse  muyto  dessy 
tira ,  e  tal  guisa  q  se  ueja  niynguado  busca  cõtrassy 
occasiõ  dauer  pouca  paciêcia  Epore  primeiramête  de- 
ue  seer  aparelhado  ocoraçõ  aapaciecia,  e  estonce  de- 
ue  seer  destrybiudas  as  cousas  pouco  ou  muyto,  por  q 
se  per  uêtuira  aliberdade  for  fora  de  mesura,  em  tal 
guisa  q  possa  uijr  myngua  ao  dador,  podesse  leuãtar 
ê  murmuraço,  e  perdera  omericimêto  daliberdade.  E 
por  q  pode  seer  q  nõ  darás  alguíi  ao  qual  deues ,  ouue 
oq  he  scripío,  atodo  aquel  q  te  pedir,  da,  e  por  q  n3 
he  de  alguíí,  a  q  nõ  deue  dar  nemygaiha  ,  ouça  oq  he 
scripto ,  faze  be  ao  humjldoso,  e  nõ  des  ao  maao  E  cõ- 
decabo  o  teu  pã,  e  teu  uynho ,  poê  sobre  assepultura 
dojusto,  e  nõ  queiras  dei  comer,  nê  beuer ,  cõ  os  pe- 
cadores Aquelle  da  osseu  pã,  e  osseu  uynho  aos  peca- 
dores, oqual  da  aos  maaos  ajuda  ou  ê  quanto  sõ  maaos 
Essõ  ajguus  ricos  deste  mundo  q  quando  ueê  alguâ 
proueza,  e  padece  fame ,  estonce  os  pobres  de  xp^ 
lhes  acorre  cõ  suas  esmollas ,  e  criam  e  elles  serpêtes , 
aquel  q  osseu  pã  da  ao  pobre  pecador,  nõ  ê  quanta 
pecador,  mas  por  q  he  home,  esto  cria  pecador,  mas 
cria  justo  por  q  el  nõ  ha  culpa,  mas  anatureza  ama, 
deuê  seer  amoestados  aquelles  q  osseu  ja  mjsericor- 
diosamête  derõ ,  q  estude  como  se  ajo  de  guardar,, 
por  q  ja  os  pecados  passados  remyrõ  per  esmollas  q  nõ 
ajõ  docemête,  outros  pêra  outra  uez  remyrê.  E  nâ^ 
pêssê  q  ajustiça  de  deos  he  cousa  q  se  possa  uender 
como  se  desse  pejlos  pecados  dynheiros ,  e  se  cuydarê 
q  ja  nõ  poderõ  em  nehuíit  cousa  pecar,  ouça  ocj  he 
scripto  ,  mais  he  aalma  q  o  mãjar  e  ocorpo  q  auestidu- 
ra.  Aquelle  ergo  q  da  mâtymèto  ou  uestidura  aos  po- 
lares, e  assua  alma  e  corpo  euolue  em  pecados  oferece 
aquello  q  he  demenor  uirtude,  e  aquello  q  he  demayor 
ao  pecado,  da  essas  cousas  adeos ,  e  sy  meesmo  ao 
diabo.  E  pello  cõirairo  deuê  seer  amoestados  aquelles. 


o   LEAL  CONSSELHEUvO.  283 

^  ajncla  oalbeo  elendõ  de  roubar,  q  ajam  sollicil.ameto 
deòuuyr,  oq  dirá  ossenlior  quando  ueher  ao  jn>zo,  di- 
rá  esto  q  sessegue.    Ouue  fanie ,  e  nom  me  deste  de- 
comer,  ouue   sede  e  nõ  me  deste  debeuer,   fuy   ospe- 
de ,  e   no   me   acolheste,  fuy   nuu   e   nõ  me  cobriste, 
êíermo   e   no  cárcere   e   nõ   me  uesitaste,  aos  quaaes 
dirá,    arredadeuos  de  mym  maldictos  perao  fogo  eter- 
nal ,    oqual   aparelhado  lie  ao  diaboo ,  e  seus  ãjos  Es- 
tas  cousas   nõ   ouuyrõ,  por  q  roubarõ  alguà  cousa  ou 
uyollètamete   tomarõ ,  èpero  serã  laçados  nos  fogos  e- 
ternaaes ,  desto  uc  acolher  e  quanta  danaçõ  som  laça- 
dos aquelles  q  tomarõ  oalheo  se  aquelles  q  osseu  rete- 
uerõ   ao  jnferno   som  julgados,    pcssem  aque  pena  os 
obrÍ2:a  acousa  tomada  sea  cousa  nõ  dada  sojuga  oliomê 
atai,  pena,    pessem    que  merece  aquel  pecado  cometi- 
do, se  tãta  pena  auera  aquel  q  nõ  fez  piedade  E  quan- 
do   as   cousas   alh^as  entende  derroubar,  ouça  aquello 
q   he   scripto,  Maldiçõ  seja  aaquel  q  multiplica,  e  nõ 
suas  cousas,  e  agua  cõtrassy  lodo,  basto  he ,   oauare- 
to  aguar  cõtrassy  lodo  basto  he ,  os  gaanhos  terreaaes 
cõ   pecado   ajutar    E  quando   cobijçâ  de  ajíitar  largas 
moradas,  e   auytaçooês,  ouça  oq  he  scripto,   maldiçõ 
seja  aaquelles  q  ajutã  casa  acasa ,  e  agro  ao  agro  ataa 
otermo   do   lugar,    per   uêtuira   morades  uos  soos ,  na 
meetade   da  terra   como  se  abertamête  dissesse ,  ataa 
quando    uos    estenderedes  ,    nõ   podedes  auer   e   este 
mundo   cõpanheiros  aq  sejades  iguaaes ,  apremedes  os 
q   uyuê   ajutados,  mas  sepre  achados  contra  os  quaaes 
uos   possades  estender.  E  quando  trabalho  dajutar  di- 
nheiros, ouça  aquello  q  he  scripto  :  O  auàreto  nõ  será 
cheo  de  dinheiro ,  e  aquel  q  an]a  as  riquezas  nõ  rece- 
bera delias  fruyto ,  receber  fruyto  delias,  é  spargerllas 
nõ   amãdoas   peraas  reteer,    e  por  q  as  ama  reteedoas 
porê  oleixara  sê  fruyto.  Equando  cobijça  de  seer  cheo 
derriquezas ,    ouça  oq   he   scripto  :  Aquel  q  se  atriga 
pêra  seer   rico ,  nõ  será  jnocête  e  aquel  q  se  trabalha 
dajutar  riquezas  e  he  negligente  pêra  squiuar  opecado, 

Nn   2 


284  O  LEAL    CONSSELHEIRO. 

e  tomasse  como  se  toma  aaue  cõ  aisca  das  cousas  ter- 
reaaes  as  quaaes  muyto  deseia,  iiõ  conhece  quando  he 
tomado.  É  quando  deseja  os  gaanhos  deste  mundo 
presente,  nô  sabe  aquello  q  padecera  no  futuro  pelJos 
danos  q  comete,  ouça  oq  he  scripto.  A  erdade  aqual 
home  ue  trigo,  semente  no  começo  perde  assorte  da- 
beiçõ  no  postumeiro  dia,  por  q  quando  por  auareza 
cobijçã  aquy  q  amalicia  seja  multiplicada  sõ  deserda- 
dos do  património  eternal  E  quando  cobijçã  auer  to- 
dallas  cousas  q  creçã,  ouça  aquello  q  he  scripto,  q 
aproueita  ao  home  se  todo  omundo  gaançar  e  assua 
alma  padecer  tormêto  pêra  sepre ,  como  jhíi  xpõ  dis- 
sesse abertamête  q  proueito  he  ao  home  se  todo  jii- 
tasse  q  he  defora  desy  se  soo  danar  aquello  q  dêtro 
he  êssy.  Epella  mayor  parte  aauareza  dos  roubadores 
mais  cedo  he  corregida  suas  pallauras,  da  quel  q  o  a- 
n.oesta  lhe  seja  demostrada  quanto  fugitiua  aesta  pre- 
sête  uyda  e  se  amemoria  lhes  he  trazido  aquelles  q  em 
este  mundo  cobijçarõ  seer  dotados  de  riquezas,  egaâ- 
çadas  as  riquezas  nõ  poderõ  mujto  uyuer  as  quaaes  a- 
morte  muy  trigosa  reuatadamête  tirou  toda  cousa  q 
ajutou  aassua  mallicia  Aquy  leixarõ  as  cousas  q  rou- 
barõ,  e  os  pecados  do  roubo  ao  juyzo  leuarõ,  o  êxê- 
pro  destes,  ouça  os  quaaes  nas  suas  pallauras  conda- 
nã,  por  q  possam  seer  retornados  aos  seus  coraçooês, 
e  ajõ  uergonha  desseguyr  aquelles  q  julga. 

Capitullo   LR. 
do  dicio  liuro  sobre  adicta  uirtude  da  lyberalleza. 


outra  guisa  deue  seer  amoestados  aquelles   q  no 

deseja  cousa  alhea,  nê  dã  as  suas,  e  doutra  aquelles 
q  o  q  teê  da,  deboa  mente,  e  nõ  leixarõ  por  ello  deto- 
mar  oalheo,  deue  seer  amoestados  aquelles  os  quaaes 
EÕ  cobijçã  oalheo,  nê  osseu  dã,  por  q  serã  sollicitos 
pêra  sabere  q  aterra  cousa  he  comuíi  atodallos  homees 


o    LEAL    CONSSELHEIRO.  285 

daqual  som   feitos    Eporê  damãtimeto   atodos  geeral- 
mete   e   cõtansse   por  jnnocetes   por   dizerem    q   o   da 
de  deos,   coinuu  he  seu  próprio,  os  quaaes  quando  a- 
quello   q   recebe   aos  pobres  nom  dam  êcorre  ê  morte 
dos    prouximos,  e   latas  penas  merece  quantos  pobres 
morre   per   mjngna  dessu'a  ajuda  E  quando  os  pobres 
mislramos   as    cousas  necessárias  damoslbe  oq  seu  he, 
e  no  oq  he  nosso,  e  estonce  pagamos  debito  de  justi- 
ça quando  amisericordia  cõprinK  s  per  obra.  Eporê  os- 
scnhor  jhu  xpõ  quando  enssynaua  cautellosamête  fazer 
amiirericordia   dizia   parademêtes   q    anossa  justiça   no 
façades    alaa   os   hoineès    Com    aqual   sêtença  cõcorda 
o^saln.ista  dizèdo,  Sparges ,  e  deu  aos  pobres,  e  ajus- 
tiça   fica   pêra    todo   sepre,  quando  mandou  alargueza 
fazer  aos  pt>bres  ,  e  no  lhe  chamou  n.isericordia  ,  mas 
justiça,  por  q  aquello  q  he  dado  pello  senhor  comuíi, 
juslo   he  sê  duuyda  q  aquelles  q  comuumête  dello  hu- 
sê    Eporê  diz  sallamõ  :  Aquel  q  justo  he  seja  liberal  e 
de ,  e   nõ  cesse,  deuê  seer  amoestados  q  soUicitamête 
aja  desguardar   q  afigueira  nõ  tenha  fruito  còtra  o  es- 
treito laurador,  Xpõ,  demadaua  por  q  razõ  occupaua 
aterra,  afigueira  occupa  aterra  sem  fruyto,  quando  a- 
mãte   dos   tenazes  e  scassos   aquello  q  amuytos  podia 
aproueitar  sê  proueito  guarda,  afigueira  occupa  aterra 
sê  fruyto  quando  ologar  oqual  outro  deuya  teer  e  oc- 
cupar  per  fruito  de  boas  obras,  ossandeu  per  soombra 
de   priguiça  apreme ,  e  sooê  estes  aas  negadas  dizer  : 
husamos   das   cousas  anos  cõcecidas ,  nõ  buscamos  oa- 
Iheo ,  e   se  nõ   fezemos  bem  ,  nõ  fezcmos  anehuíi  mal 
aqual   cousa   selem   por   q   aorelha  docoraçõ   çarra   as 
pallauras   cellestiaaes    Enõ  leemos  q  aquel  rico  doqual 
se   lee   no  auagelho  q  uestia  purpura  e  viso,  e  comya 
cada  dia  sprendidamête  q  roubasse  oalheo ,  mas  husa- 
na  das  riquezas  sê  proueito,  e  despois  desta  ujda  pre- 
sête   foy    laçado  nas  penas  do  jnferno  ,  nõ  por  q  alguã 
cousa  fezesse  ,  nõ  licitamête,  mas  por  q  osseu  topado 
huso  deusse  iodo  aas  cousas  licitas,  deuê  seer  amoes- 


28G  O   LEAL   CONSSELHEIRO. 

laiios  OS  scassos  q  aja  dessaber  q  esta  he  aprimeira  e- 
jiiria  q  fazê  adeos  ,  oqual  lhe  deu  todaJias  cousas,  nõ 
lhe  Tazõ  nehufi  sacrifício.  Eporê  diz  ossalmista,  nÕ  da- 
rá adeos  sacrifício ,  nê  preço  por  arrendiçõ  de  sua  al- 
ma, dar  preço  darrediçom  lie  fazermos  alguã  boa  obra 
per  q  uenha  sobre  nos  agraça  de  deos  Eporê  braada 
jhu  XpÕ  dizendo  jaa  segura  he  posta  aarraiz  daaruor, 
toda  aruor  q  no  faz  fruyto  boo ,  será  cortada,  emetida 
no  fogo ,  aquelles  ergo  q  se  ham  por  sê  pecado  por  q 
oalheo  nÕ  toma  auisêsse  do  golpe  da  segura  q  acerca 
esta  e  perca  apreguiça  se  querê  seer  seguros ,  por  q 
quando  ofruyto  das  boas  obras  nÕ  quisesse  fazer  desta 
uyda  presente  dauãdura  lhe  seram  cortadas  as  rayzes 
Epello  cõtrairo  deuê  seer  amoestados  aquelles  os  quaaes 
aquello  q  teê  dã  largamête,  e  nÕ  cessam  por  esso  rou- 
bar as  cousas  alheas ,  por  q  onde  cobijçã  desseer  jus- 
tos magníficos ,  e  largos  seja  feitos  peores  Estes  aa 
suas  cousas  próprias ,  sem  discreçÕ  dam  ,  segundo  êci- 
ma  dissemos,  e  despois  nÕ  hã  paciêcia,  e  sõ  costran- 
gidos  pêra  murmurar  pella  myngua  è  q  se  ueê  e  sõ 
trazidos  ao  pecado  daauareza,  q  cousa  pode  seer  mal- 
lauêturada  q  da  liberdade  nace  aauareza,  e  das  semen- 
tes das  uirtudes  quer  nacer  pecados.  Primeiramête  de- 
uê seer  amoestados  q  aja  dessaber  teer  razoauelmête 
osseu  e  entÕ  c5  decabo  nom  tome  oalheo,  se  arraiz 
da  culpa  na  largueza  nÕ  se  queima,  nuca  peraos  ra- 
mos poderá  sobir  aauareza,  tirasse  acausa  do  roubar 
se  bê  se  despooê  odereito  de  possuyr  E  éntom  ouça 
os  amoestados ,  como  híí  dedespender  aquellas  cousas 
q  bã,  pois  aprenderom  q  obê  misericordiosamête  des- 
pendido sem  opecado  da  rapina,  he  muyto  proueitoso, 
com  uyolencia  busca  onde  faço  misericórdia,  mas  ou- 
tra cousa  he  fazer  misericórdia  A  misericórdia  q  he 
feita  por  fazer  pecado ,  q  he  furtar  e  dar  por  deos ,  no 
aproueita  nada,  por  q  se  seca,  por  q  apeçonha  daa- 
uareza he  posta  na  raiz  delia.  Eporê  ossenhor  deos  a- 
uorrece  taaes  sacrifícios  pollo  profeta  dizendo  :  Eu  sÕ 


o    LEAL   CONSSELHEIRO.  207 

senhor  amador  da  justiça  e  ey  ódio  aarrapina  ofereci- 
da em  sacrifício,  e  outra  uez  diz  :  os  sacrifícios  das 
maãos  sõ  auorrecidos,  por  cj  sõ  auorrecidos  do  peca- 
do, por  q  muyto  amehude  tira  dos  mynguados  pode- 
res aquello  q  ha  de  oferecer  adeos ,  mas  ê  quanto  pe- 
cado taaes  êcorre,  ossenhor  omostra  por  huu  sabedor 
Aquel  q  oferece  sacrifício  dasustãcia  do  pobre ,  he  tal 
como  aquel  q  mata  ofilho  ate  osseu  padre,  qual  he  a- 
cousa  q  menos  deue  seer  soportada  q  amorte  do  filho 
ate  os  olhos  do  padre,  em  quanta  hira  he  posto  este 
sacrifício  ate  deos,  bê  se  mostra  pois  q  he  cõparado 
aadoor  do  padreorfom  do  seu  filho.  Eporê  muytos  nÕ 
querem  conssijrar  quanto  da  do  roubo  dos  pobres,  e 
cuydài  q  ha  grande  mercee ,  e  nom  cura  cõssijrar  as 
culpas  e  pecados  q  fazê ,  ouça  aquello  q  he  scripto 
Aquelle  q  ajutou  riquezas  .s.  do  roubo,  lãçouas  ê  saco 
roto,  no  saco  roto  som  laçadas  as  riquezas,  quando 
odinheiro  he  metido,  e  quando  se  perde  nÕ  he  uisto, 
aquelles  ergo  q  esguardâ  quanto  da  e  nÕ  quanto  rou- 
ba, no  saco  roto  mete  suas  riquezas,  por  q  certamête 
as  ajutarÕ  em  speraça  dessua  fiúza  ,  mas  por  q  no 
sguardarom  como  as  ouuerom  e  perderõnas. 

Capitullo   "IRi. 
da  tauoa  e  declaraçom  das  cousas  q  adiante  s6  scriptas, 

XJesejando  de  poer  fym  aesta  breue  e  symprez  leitu- 
ra as  cousas  por  mym  feitas  aesto  pcrteecêtes  (|  fica 
por  screuer  ê  ella  sè  outro  adimento ,  as  faço  trella- 
dar,  das  quaaes  este  capitullo  como  tauoa,  etendi  seer 
cõpridoiro  desse  fazer.  Primeira  he  aderlaraç(5  das  vil 
teêçoois  concordates  cÕ  as  vii.  uirtudes  principaaes 
sniso  scriptas,  q  fiz  per  uosso  requerimêto,  parecen- 
dome  razÕ  cõsseguir  otrautado  passado  q  delles  princi- 
palnnète  fallei  Segunda,  oapropriamêto  da  craçÕ  do 
pater  noster ,  aestas  uirtudes  principaaes ,  por  q  auer 


285  o    LEAL    CONSSELHEIRO. 

nõ  se  pode,  se  special  graça  de  nosso  senlior,  dizendo 
esta  niuy   sancta   oraçom    como   requeremos  as  dietas 
uirtudes   pêra  nosso  bem  sobre  todo  necessárias.  Ter- 
ceira,    damaneira  q  teer  deuemos  ê  leer  per  liuros  de 
sciêcia ,  e  êssynãça  spiritual,  e  das  uirtudes  moraaes, 
por  q   he   huã   cousa   q   quandosse  acustuma,  como  e 
quanto  deue   acrecêtar   muyto  e  todas  uirtudes  e  traz 
proueito ,    e   cõtynuado   prazer  E  por  se  nÕ  guardar  ê 
eIJo   deuyda  ordê ,    muytos  receberõ  detal  leer  muyto 
mal   e   perda,    filhando   heresias,  e   openyooês  q  teê , 
nom  deuyã   aoutros  per  sobejamête  sê  discreçÕ  dãdos- 
se   aello,  cairo   ê  sandices,  e  outros  è  jnfirmidades  E 
pêra   gaãçar  obê ,  e  cÕ  agraça  do  senhor  scusar  omal, 
screiíy  sobrello  alguiis  cõsselhos ,  e  auysamêtos  Quar- 
ta, huii  cõsselho  apropriado  aduas  barcas  q  frei  gil  lo- 
bo  meu  cõfessor  q  deos   perdoe ,  screueo  per  mynha 
ênençÕ,  e   mandado,  por  q   ê  huíí  fallameto  assy  lho 
razoei ,  e  disseme  q  lhe  parecia  boa  seraelhãça ,  pore 
lhe  disse  q  aescreuesse,  e  nÕ  lhe  furtando  seu  trallado, 
aêuêçom   foy   mynha   sollamête.    Eporê   em    coto   das 
cousas  por  mym  feitas  uolla  faço  screuer.  Quynta,  or- 
denãça  q  se  deue  teer  em  nossa  capeella,  por  q  gran- 
de parte   acrecêta  ê  boa  deuaçÕ ,  os  ofícios  deuynos , 
seerê  dictos  e  ouuydos  be ,  e  deuotamête,  e  aboa  de- 
uaçÕ faz  leixar  os  pecados,  e  seguyr  as  uirtudes.  Sex- 
ta,   se   declaro   os   têpos   q   nos   ofícios  da  jgreja  q  se 
custuma  dizer  e  nossa  capeella  ê  cadahuíí  igualmête  se 
deteê   peraos   começarê  cÕ  têpo  segundo  elles  forê,  e 
q  entêdermos  fazer.  Septima,  huã  pratica  q  guardaua- 
mos  aelrrey  meu  senhor  e  padre,  aqual  me  parece  boa, 
pêra  seer  cõssijrada  e  bem  preuista  per  aquelles  q  boa 
maneira   quiserem   teer  cÕ   senhores   e  outras  pessoas 
ãtre   q  aamyzade  desejarê  seer  guardada ,  aqual  se  ra- 
zoado possuymêto  das  uirtudes  como  cõuê  ãtre  as  par- 
tes,  nõ  se  poderá  bem  praticar,  Octaua ,  como  se  de- 
ue  alguãs   leituras   tornar   de   latym   e  nossa  lynguagê 
Esto  uos  faço  screuer  ê  este  trautado  por  q  oauya  por 


o    LLAL    CONSSELHEIRO.  289 

mym  scripto,  pêra  meu  auysamèto,  e  odar  aos  Q  al- 
guãs  obras  mantlassõ  Irallaclar  ,  e  semelhãte  se  nos 
prouuer  poderees  fazer.  Etiz,  Jogo  screuer  aoraçõ  d© 
justo  juiz  jlifi  xpÕ  ,  (~|  auosso  requerimêto  per  myni 
tralladey  delalyin  e  nossa  lynguagè ,  assy  rimada,  na 
qual  nõ  pude  bê  guardar  q  as  pallauras  todas  fossem 
scriptas  por  as  fazer  cõssoar,  ne  se  fez  ê  melhor  forma 
por  leuar  amaneira  em  q  per  lati  era  feita.  Noueno, 
huii  regymeto  q  fiz  perao  estamago  por  q  aboa  saúde 
corporal  he  cousa  be  deprezar,  e  aqueste  regimêto  nõ 
sollamõte  ao  estamago  aproueita,  mes  quem  aguardar 
como  cõueni  na  geeral  maneira  de  seu  uyuer  quanto 
aesto  perteece  por  be  regido  será  contado.  Decimo, 
amaneira  de  conhecer  aestrella  da  norte  e  per  ellas 
Buas  guardas  aamea  noite,  e  menhaã,  segundo  per 
nijm  grani  têpo  ha  foy  deuysado  Eposto  ê  scripto  pêra 
se  de  coor  poder  saber,  conio  defeito  ê  estes  reinos, 
ossabê  tãtos,  q  nÕ  pêsso  q  o  assy  geeralmête  saibha 
ê  outra  terra,  posto  q  delia  uenhã  os  rellogios  da  ga- 
lha q  trazê  as  figuras  nas  cuberturas,  por  q  se  pode 
bê  saber  otêpo  da  mea  noite  sollamête ,  mes  eu  orde- 
nei duas  rodas  huã  dameanoite  e  aoutra  daraanhaã  c5 
seu  regymeto  pêra  se  detodo  auer  boo  conhecimêto , 
he  cousa  bê  proueitosa  e  praziuel  aos  mais  q  assabê, 
por  q  ates  nõ  pêssÕ  q  seja  detãto  proueito  e  prazer, 
como  per  speriencia  mu}  tas  uezes  ossentê  Epor  q  os  q 
assabem  teê  ajuda  pêra  seerem  melhor  regidos  Item 
huu  capitullo,  q  falia  da  lealdade  por  fym  detodo  este 
trautado  E  alguãs  cousas  tenho  scriptas  no  liuro  q  fa- 
ço dessaber  bem  andar  acauallo  ,  e  fazer  as  boas  ma- 
nhas q  se  custumam  fazer  em  elles  E  outras  q  por 
nom  seerem  laaes  que  auos  perteeçam ,  as  nom  fiz  a- 
quy  tralladar. 


Oo 


290  o    LLIAL    COXSSELIIESRO. 

Capitullo  "IRii. 

das  VIJ.  entençoocs  per  que  seremos  cô  agraça  do  senhor 

adercnçados  apercalcar  as  fii.  uirludes  pryncyjmaes, 

Jb^m  nome  denosso  senhor  jhii  xpo,  com  sua  graça  e 
de  nossa  senhora  saneia  maria,  uos  screuo  estas  teõ- 
çooes  que  uos  íallaua  q  ameu  juyzo  deuiamos  todos  de 
trazer,  quanto  mais  per  sua  mercee  podcssenios,  as 
quaaes  som  estas  breuemenle  scriptas  por  satisfazer  ao 
q  me  requerestes,  ajnda  que  pêra  tal  sciencia  screuer 
outro  mecstre,  ou  doutor  se  requeria.  Aprimeira  teen- 
çom  he  auer  fie,  em  todollos  artigoos  do  credo  e  qui- 
cunque  uult,  como  determyna,  e  manda  assancta  igre- 
ja. È  esto  sollamete  per  symprez  obediência  de  que 
procede  nom  se  fazer  deferença  do  que  per  razom  e 
entender  percalçom,  ao  que  de  todo  parece  cousa  des- 
arrazoada ,  e  oenlêder  encalçar  nom  pode.  Ca  por  seer 
feito  fundamento  na  symprez  obediência  todo  he  per 
mercee  do  senhor  igualmête  decreer  auendo  sempre 
em  renembrança  aqueiJa  pallaura  sem  ffe  ,  empossyuel 
1)6  prazer  adeos  Assegunda  teençom  he  auer  certa  e 
determynada  creenca  da  pratica  dos  sacrametos ,  das 
uirtudes,  pecados,  e  malies,  segundo  pella  sãcta  igre- 
ja he  determynado,  assy  que  ajamos  por  uirtudes  oque 
ella  determyna.  E  por  mal  e  pecado  oque  ella  ouuer, 
creendo  sobrello  cõfiss^res  e  leterados  aprouados  e  de 
boa  uyda,  e  pessoas  uirtuosas  da  maneira  denosso 
uyuer  no  que  soubermos  q  entendem  e  bem  praticam 
nom  querendo  sobre  esto  tomar  teençooes  speciaaes , 
mas  concordar  e  sujugar  nosso  coraçÕ  aageeral  enten- 
çom  ,  e  determynaçom  aprouada  em  que  nom  aja  re- 
mordamento  deconciencia  E  ajnda  que  ai  nos  pareça 
razom  nom  curar  dello,  seendo  tanto  e  mais  contêtes 
denos  afirn^ar  em  estas  determynaçooes  per  obediência 
que  per  razom   conhecendo  que  he  camjnho  mais  se- 


o    LEAL    CONSS ALHEIRO.  291 

guro  lombrandonos  que  meliior  lie  obediência  que  sa-^ 
crilicio    A    terceira  que  ajamos  íle  ,  sem  duujda  deter* 
niynada   que   nosso   senhor  deos  he  bondade  perfeita, 
acabada  sabedoria,    e   todo   poderoso  per  que  cõuem 
que  determynadamete  creamos  querer  elle  sempre  per- 
feitamente  todallas   cousas  obrar,  e   sem  myngua  sa- 
bellas   fazer,  e  per  seu  jntijndo  poder  assy  as  comprir 
e   acabar  concordado  com  esto  quel  dicto ,  deos  he  a- 
quelia  cousa  myihor  que  pode  seer  j)enssada.  A  quarta 
que  nossa  teençom  seja  com  sua  boa  graça  uijr  atoda 
boa   perfeiçÕ   de   uirtudes    e   leixamento   de   pecados, 
iiom  seendo  ja  mais  contentes  do  que  fazemos  naquel- 
la   parte   que   he  perfeito  conhecimento  e  seguy mento 
delias,  e  syntymento,  e  leixameto  depecados  e  desor* 
denança  donesta  uyda  husando  dediscriçom  em  conhe- 
cer  as    perfeitas   uirtudes   como    som,    Fe,    Sperança, 
Caridade,    Justiça,    Temperança,    Fortelleza  &.^    as 
quaaes   sempre  era  todo  tempo  quanto  mais  podermos 
deuemos  seguyr.    Eas  desposicooes  deuirtudes,  como 
jejuns,   uygilias  .   estudo,   e   semelhantes,   as   quaaes 
querem  reguardo,  de  tempo,  modo,  e  desposiçom  ,  e 
se  pode  errar  sobejando,  assy  como  fallecendo ,  e  co- 
nhecendo que  per  nos  esto  sem  special  graça  iiom  po- 
deremos contynuadamente  fazer,  diremos  sempre,  deos 
reguarda  õ  meu  ajudoiro,  Senhor,  trigate  perame  aju- 
dar.   A   quynta ,  que  pois  nosso  senhor  deos  he  fonte, 
comprimento,  e  perfeiçõ  detoda  uirtude,  que  de  todo 
per   el  for  ordenado  sejamos   contentes,    ou   creamos 
íyrmemente   que  odeuemos  seer,  sabendo  que  ai  nora 
pode,    nem   deue   seer  bem  feito,  nem  be  ordenado, 
ajnda  que  odesejemos ,  ou  nos  razom  pareça,  dizendo 
em  caso  que  tal  duuyda,  ou  contradizimento  da  uoon- 
tade   syntamos  ,  Senhor,  nom   assy  como  eu  entendo, 
nem    quero,    mas   como   tu.    Assexta ,    que  ajamos  fie 
certa,  que  sua  gloria  he  o  mayor  bem,  e  deleitaçom 
que   se   pode   enmagynar,  Conssijrando   que  nom  aue* 
híos  mais  deleitaçom   e  prazer  em  cadahuã  cousa  que 

Oo  2 


292  O    LEAL  CONSSELHEIRO. 

quanto  el  naturalmente  nos  ordenou.  E  daquy  se  se- 
gue uíjr  a  conhecimento  quanto  mayor  será  aque  el 
outorgar  por  gallardom  ,  aos  scolhidos  da  que  em  gee- 
ral  se  da  aboos ,  e  amaaos,  e  as  bestas  Concordando 
em  esto  aquel  diclo ,  queo  olho  noni  uyo,  orelha  nom 
ouuyo,  coraçom  dhomem  nom  penssou  tã  grandes  beês, 
como  deos  tem  ordenados  pêra  os  queo  amam  ,  e  assy 
conssijrar  as  penas  do  jnferno,  do  qual  diz  ossenhor , 
que  aíly  será  choro,  e  aslringymento  de  dentes  As- 
seplima  he  que  em  estas  teêçooês  aturemos  sempre 
com  agraça  e  mercee  do  senhor  em  todas  nossas  uy- 
das  ,  nom  seendo  do  conto  daquelles  que  atempos 
crêem,  e  no  tempo  da  tentaçom  desíallecem  ,  lernbrã- 
donos  aquella  pallaura  que  diz,  quem  persseuerar  ataa 
fym  será  saluo.  De  taaes  tentaçooês  com  agraça  do 
senhor  deos,  senos  seguyra  percalçadamente  das  vii 
uirtudes  pryncij)aaes  suso  dietas,  ca  porem  a  prymei- 
ra  aueremos  íTe  segura,  fora  do  penjooes  com  assancta 
igreja  concordãte  Per  assegunda  aueremos  boa  speran- 
ça  que  hiremos  aporto  seguro  daquelia  sancta  morada 
que  per  os  fiees  catholicos  he  requerida,  pois  andamos 
per  estrada  real  das  pessoas  doctorydade  mais  louua- 
da,  e  aprouada.  Per  aterceira  aueremos  dereita  cari- 
dade, amado  ossenhor  deos  sobre  todalias  cousas,  por 
que  he  perfeitamente  digno  desseer  mais  amado.  E 
atodallas  criaturas  segundo  razõ  amaremos  por  el  nom 
desamando  alguém  por  nom  perder  osseu  amor  Per  a- 
quarta  husaremos  de  perfeita  prudencya  que  he  leixa- 
jnento  dos  malies  e  pecados,  e  uyuer  em  todos  nossos 
dias  e  feitos  uirtuosamente.  Per  aquynta  seguiremos 
justiça,  julgando  sempre  as  obras  denosso  senhor  que 
nom  podem  nem  deuem  seer  prasmadas,  nem  contra- 
dictas  per  obra,  dicto,  ou  pêssamento.  Per  assexta 
husaremos  de  temperança  em  toda  cousa  que  desejar- 
mos por  que  reguardando  ao  grande  bem  que  spera- 
mos,  com  sospeila  e  receo ,  husaremos  detoda  folgan- 
ça,  receando  perder  aquella  que  sobre  todos  mais  he 


o   LEAL  CONSSELnElRO.  293 

pêra  desejar.  E  temendo  grandemente  os  malles ,  e 
penas  que  som  aparelhados  aos  seguidores  de  maas 
uoonlades,  e  que  fora  deboa  temperada  ê  seus  feitos 
iiyue  e  acabam.  Per  asseptima,  cÕ  muy  special  ajuda 
do  senhor  aueremos  aqueíia  perfeita  fortelleza  per  que 
se  contradiz  toda  cousa  aauirtude  contrairá  e  sem  me- 
do ,  priguiça  ,  cscacesa  ,  ou  fraqueza,  as  uirtudes  se 
requero,  e  possuê  desejando  sempre  uyda  uirtuosa  Eo 
r<  j'.o  dos  ceeos  por  mais  alto  bem  ,  e  deleitaçom  que 
suer  se  pode,  e  temendo  perder  agraça  do  senhor  deos 
que  he  amayor  dos  malles  de  que  elle  nos  guarde  pê- 
ra sempre  ujue  e  rejna  ,  outorgandonos  sempre  conti- 
nuída  u\da  cm  seu  seruyço,  e  em  fym  sua  sancta 
gloria  amem. 

Capilullo  "IRiiT. 
ão  apropriamento  do  pater  noster  aas  rii.  uirludes* 


N, 


a  sancta  oraçom  do  pater  noster,  per  nosso  senhor 
jhu  XpÕ  feita  se  podem  apropriar  aas  vn  uirtudes 
pryncipaaes,  três  teollogaaes,  .s.  Fe,  Caridade,  Spe- 
rança,  e  as  quatro  Cardenalles  .s.  Prudência,  Tempe- 
rança, Justiça,  Fortelleza.  Em  esta  guisa  naprymeira 
pallaura  diz  :  Padre  nosso  que  es  nos  ceeos  E  aquesta 
se  apropria  aafib ,  por  que  auendo  uerdadeira  creença 
de  nosso  senhor  deos  ochamamos  padre  nosso,  confes- 
sando que  es  nos  ceeos  Sanctificado  seja  o  teu  nome, 
E  a  caridade,  esta  deue  seer  apropriada  por  que  auen- 
doihe  amor  sobre  todallas  cousas  olouuamos  e  sancti- 
íicamos.  E  aterceira  per  que  demandamos  Que  uenha 
osseu  rejno  com  aesperança  muyto  bem  se  concorda, 
por  que  sperando  auer  em  el  por  sua  sancta  graça  al- 
guâ  parte  demandamos  cadadia,  que  quãdo  ao  senhor 
prouuer  perao  seu  rejno  sejamos  chamados,  oqual  sem- 
pre speramos  que  nos  será  por  sua  mercee  outorgado 
E  aqiiestas  três  pallauras  se  apropriara  aas  três  primei- 


294  o    LEAL   CONSSELHEÍRO. 

ras  uirtudes  tlieollogaaes.  E  a  quarta  que  dizemos  Se- 
ja feita  atua  uoontade  ,  assv  íiaterra  como  nos  ceeos, 
nos  mostra  amais  perfeita  prudêcia  que  auer  se  pode^ 
entendendoa  per  duas  guisas.  Huâ  que  conformamos 
nossa  uoontade  com  assua,  dizendo  em  todo  q  nom  se 
compra  oque  desejamos ,  mas  oque  ael  mais  praz ,  sa- 
bendo que  aquello  he  meJhor.  Eajnda  que  ai  deseje, 
mais  auoontade  na  quello  se  afirma  nossa  pryncipal 
entençom  Eporem  dizemos  que  seja  comprida  sempre 
assua  Ea  outra  per  que  demandamos  ael  sobre  todaJIas 
mercees  que  nos  faça  sempre  seguyr,  e  fazer  sua  uoon" 
tade,  aqual  he  que  todos  nos  encamynhemos  anossa 
saluaçom  ,  assi  como  afazem  aquelles  que  ja  som  na 
sua  sancta  gloria,  êno  amar,  glorificar,  e  seruir  A- 
quynta  que  dizemos  :  Pam  nosso  decadadia  nos  da  oje, 
mostra  aquella  grande  temperança  de  que  lhe  prouue 
husarê  os  seus  discipullos,  e  outros  que  os  querem  se- 
guyr,  nom  desejando  sobre  auondãça  deuiandas,  mes 
do  mantymento  que  sempre  necessidade  requere  cada» 
huil  dya  demandando,  nos  contentemos  Assexta  per 
que  dizemos  :  Quytanos  nossas  diuydas,  como  nos  quy- 
tamos  anossos  deuedores ,  nos  he  mostrado  odereito 
camynho  dajustiça  que  com  nosco  se  terra,  segundo 
nossas  obras  E  que  nos  deuemos  dauer  misericórdia 
como  desejamos  que  denos  seja,  Asseptima  diz  :  que 
nÕ  sejamos  derribados  na  temptaçom,  mas  que  nos  li- 
iire  demal  E  aquesto  bem  he  uisto  que  auirtude  da 
fortelleza,  que  de  nosso  senhor  nos  he  outorgado,  de- 
ue  perteecer  ,  per  aqual  nos  guardamos  ,  e  teemos 
contra  todo  mal  e  nos  esforçamos  asseguyr  toda  uir- 
tude. 


o   LEAL   CONSsSLHEIRO.  295 

CapituUo  TRiiir. 

de  q  guisa  se  dene  Ice?'  per  os  liuros  dos  auãgelhos  y  e 

outros  semclhãtcs  peraos  leereni  proueitosamcte. 

jL\I  huíí  ora,  nom  leaaes  muyto,  mas  boa  parte  menos 
do  que  poderdes,  assy  q  se  poderdes  aturar  leer  doze 
folhas,   nom   leaaes   mais   de  três  ou  quatro    Eaquesto 
he  por  oentenderdes  melhor,  e  opassardes  mais  tarde, 
e   uos   enfadardes   delie    menos,   deuees   alguãs   uezes 
prouar   de  leer,  ajuda  que  uos  pareça  que  nom  auees 
uoontade    e    sentyndouos   sem    ella   a   huã  ora   nunca 
muyto   perfiees   por   que   traz   fastio,  e  auorrecimento» 
Mas  husando  amehume,  e  nom  muyto  juntamente  he 
melhor.  Quando  leerdes  mais  passo  do  que  auees  cus- 
tumado  e  bem  apontado.  Quando  alguã  cousa  nom  po- 
derdes  entender,    nÕ   uos  detenhaaes   muyto  porque 
nom   ha   meestre   em    theolosia   que  todo  perfeitamête 
entenda,    mas   passae   adiante,    e   tomaae   oque   deos 
uos  der,  conhecendo  que  nom  sooes  pêra  lhe  dar  per- 
feito  entendimento,    mes  que  oíílhaaes  com  protesta- 
çom  dauer  sobrello  firme  creença,  como  determyna,  e 
inãda  assancta  igreja,  e  que  se  ocontrairo  do  que  auos 
parece  ella  manda  que  se  crea,  que  uos  assy  oteendes 
firme   entençom   do   creer,    ajnda  queo  nom  possaaes 
daquella  guysa  entender.  Destas  cousas  que  assy  nom 
entenderdes,    nom    uos  embarguees  de  muyto  pregun- 
tar,    por   que   sabee   certamente  que  taaes  hiha ,  que 
poucos  assabem  ,  e   melhor  he  pêra  uos  passar  per  el- 
las ,  e  fazer  conta  que  as  nom  uistes  que  por  dicto  de 
alg-uu  que  auera  empacho  deuos  mostrar  sua  myngua, 
filhardes  tal  teençom  ,  qual  teer  nom  deuaaes ,  mes  se 
alguãs  quiserdes   saber,  sejam  preguntadas  a  certas  e 
ataaes   pessoas  que  sejam  auydas  por  boas  em  ujdas  e 
de  boo  e  grande  saber,    e  aoutras  nom.    Posto  que  ai- 
guii  boo  liuro  todo  leaaes,  nunca  uos  enfadees  detor* 


296  O    LEAL    CONSSELHEÍRO. 

nar  ao  leer,  por  que  alguàs  cousas  entenderees  sem- 
pre nouamenie  que  uos  farora  proueito  E  penssaae 
que  osseu  leer  he  obra  meritória,  e  porem  he  bem, 
assy  como  uos  nom  enfadardes  derrezar  alguas  uezes 
o  pater  noster,  e  assy  alguã  cousa  cada  dia  leerdes 
per  el ,  e  nunca  tanto  tempo  leerees  se  teuerdes  boa 
teençom  que  leyxees  da  char  cousas  que  uos  noua- 
mente  prazam  ajnda  que  as  ja  lessees.  Por  muyto  que 
dei  saibhaaes  nunca  perfiees  com  gente  da  uossa  ley, 
ou  fora  delia,  leedeo  pêra  uos  principalmente,  e  a- 
questo  peraa  prenderdes,  e  folgardes  em  boas  cousas 
leer,  e  despenderedes  alguã  parte  do  tempo  em  bem 
fazer  Epera  enssynardes  alguiis  que  uosso  boo  consse- 
Iho  queiram  filhar  Nom  tenhaaes  alguãs  teêçoões  assy 
firmadas  na  uoontade  que  todo  quanto  leerdes  quei- 
raaes  torcer  pêra  concordar  com  ellas ,  mas  aalem  da- 
quellas  que  per  ffe  e  determjnaçom  da  sancta  igreja 
auees  firmemête  creer,  outros  per  uos  nom  tenhaaes, 
nem  filhees ,  mes  em  todo  uos  fazee  liure  pêra  rece- 
berdes qual  quer  boo  consselho ,  e  determynaçom  que 
per  liuros  aprouados  achardes,  e  uos  der  tal  pessoa 
dequeo  deuees  filhar.  E  aquesto  uos  tirara  com  agraça 
de  deos  muytos  errores  em  que  alguiis  caaê  por  se 
nom  auysarem  Item  quando  for  adetermynaçom  do  que 
leerdes  duujdosa  prazauos  dea  leixardes  em  duuyda,  e 
nom  uos  quererdes  afirmar  em  alguã  parte  conhecen- 
do que  alguãs  cousas  certamente  auemos  outorgar  per 
íf e ,  e  obediência,  e  per  razom  outras  negar,  e  dal- 
guãs  seermos  duujdosos,  e  nom  encerta  determyna- 
çom E  por  esto  dizem ,  que  melhor  he  duujdar  que 
sandyameate  determynar. 


a   LEAL    CONSSELHEIRO.  297 

Copilidlo  "IRv. 
das  duas  barcas  cvue  assaber  da  saâ  e  darrota, 

.xV.inda  que  deos  por  sua  grande  abssoluta  jnfirmyda- 
de  ,  segreda  uoontade ,  alguãs  uezes  scolha  e  chame 
alguus  destados  uyçQsos ,  e  culpados,  assy  como  sco- 
Iheo  sam  matheu  do  síado  pecador  dos  publicanos , 
husureiros,  e  maria  magdaneIJa  do  stado  pecador  das 
molheres ,  e  oladrom  do  stado  dos  malfeitores,  e  da- 
nadores  E  assy  permita  danar  e  perder  outros  desta- 
dos perfeitos  e  uirtuosos ,  assy  como  judas  do  estado 
dos  apostollos,  e  nycollaao  do  estado  dos  dicipullos, 
por  isso  tam  grande  sandice  he  em  atreuimento  daboa 
uoontade  de  deos  desprezar  o  estado  das  uirtudes,  e 
escolher  o  estado  dos  pecados  como  seria  se  alguu 
quisesse  passar  alguú  ryo  perijgoso  e  tormentoso,  e 
achasse  duas  barcas,  huã  forte  e  segura,  e  muy  bem 
aparelhada,  e  em  que  raramente  alguu  se  perde ,  e 
por  amayor  parte  todos  em  ella  se  saluam  ;  e  outra 
uelha,  fraca  podre,  rota,  em  que  todos  se  perdem,  e 
alguiis  poucos  se  saluam  ,  abarca  firme  e  segura  e  for- 
te,  e  bem  aparelhada,  o  estado  das  uirtudes  he,  e 
deboo  e  sancto  uyuer  honesto,  e  sem  querella  de  deos, 
e  do  prouxymo ,  em  que  muy  poucos  perecem,  e  a- 
inayor  parte  se  salua  em  tal  estado  assy  como  era  bar- 
ca segura,  podem  naujgar  seguramente,  e  passar  sem 
perigoo  per  as  ondas  da  tormenta  deste  mundo  aporto 
seguro  e  .d),  prazer  que  he  agloria.  Abarca  fraca,  po- 
dre, rota  o  estado  dos  pecados  he ,  e  damaa ,  e  cor- 
rupta  e  desoluta  uyda  em  tal  estado  assy  como  em 
barca  podre ,  nom  pode  com  segurança  e  sem  perigoo 
as  tormentas  da  presente  uyda  passar,  nem  aporto  de 
folgança,  e  desejado  aportar,  e  que  alguus  se  saluê 
isto  lie  deueentuira,  ou  por  alguíi  segredo  juyzo  de 
deos,   acerca  dalguã  syngullar   pessoa  que  nom  quer 

Pp 


298  O    LEAL    CONSSELHEIRO. 

que  seja  amuytos  conssequencia ,  por  que  pryuylegio 
depoucos  nõ  he  subsidio  e  defeza  aos  nui}  tos  Deste 
enssynamento  com  seu  exempro  podees  entender  que 
cousa  perigosa  he  darsse  ohomem  adestemperança ,  e 
cousa  segura  aatemperança  Ca  ateinperançasalua  muy- 
tos,  6  destrue  poucos,  e  adestemperãça  corrompe  e 
destruo  muytos  e  salua  muy  poucos  Outro  enssyna- 
mento ,  cousa  perijgosa  he  scolher  homem  estar  no 
lugar  ode  morrem  depestellença ,  e  cousa  mais  segura 
partirsse,  ca  mais  morrera  dos  que  ficam,  e  poucos 
dos  q  se  parte. 

CapituUo  LR VI, 

dor  regimento  q  se  deiie  teer  na  capella  pêra  seer 

bem  regida» 


rymeiramente  que  se  proueja  bem  ,  ante  que  osse- 
nhor  uenha  aa  capeila  oque  ham  de  dizer  seendo  auy- 
sados  todos  em  geeral  e  cadahuíi  em  special ,  do  que 
soo,  ou  com  outro  ouuer  dedizer,  assy  no  leer,  como 
em  cantar.  Item  aquello  que  cantarem  seja  cousa  que 
todolios  quea  ouuerem  de  cantar  bem  saibham.  Item 
que  tenham  sillencio  na  estante  e  na  igreja  toda.  Item 
q  nom  tomem  os  cantos  mais  altos  dos  queos  foigada- 
nitente  poderem  leuar,  e  aquesto  assy  no  que  todos 
ouuerem  de  cantar,  como  ajguus  em  special.  Item  q 
se  nom  triguem  em  cousa  que  ouuerem  de  cantar,  ou 
rezar,  ou  fazerem  algiiii  seruyço  que  perteeça  asseus 
ofícios,  mes  todo  façam  com  boo  spaço  e  assessego , 
ajnda  que  seja  tarde  Essco  for  cantem  curtos  cantos, 
e  leixem  os  sobejos.  Item  que  se  nom  conssenta  rijr 
nem  scarnecer  em  quanto  durar  o  oficio  anem  huu  que 
seja,  e  muy  to  menos  aos  capellaaes  e  amoços  da  ca- 
pella ,  os  quaaes  deuem  estar  mais  honestamente  que 
poderem,  como  aqueiles  que  fazem  seruiço  spiritual 
adeos.  Item  deuem  seer  auysados  dessenon»  andarem 
buliindo   na  estante,  ou  coro,  mas  cada  huíi  estar  as- 


o  LEAL  CONSSELHEIRO.  290 

sei?segaílo   em    seu   logar  seo  neccssydade  o  nom  cos- 
tranger.  Jtem  que  se  nom  conssenta  nehuú  desacorda- 
liuo  aaeslante,  por  q  huã  corda  destemperada,  he  a- 
bastante   pêra   destemperar  liuu  estormêto.    Item  que 
se  conheçam   as   uozes   dos   capellaães,    qual   he  pêra 
cantar   alto,    e   qual   pêra   contra,    e  qual  pêra  tenor. 
Eassy    cantem    contynuadamente    j)pra    cadahuu  seer 
mais  certo  no  que  cantar  Item  que  se  conheça  quaaes 
antressy  nas   uozes   som   melhor  acordados  e  aquelles 
cantem    alguàs    cousas   que  se   ajam   estremadamente 
cantar,    por  que   hahi  alguas  uozes  que  ajnda  que  se- 
jam boas  antressy  nom  se  acordam  bem  ,  e  outras  que 
ambas  juntas   fazem    grande   auantagcm    Item    que  se 
reguarde   onde   ha  destar  aaestante,  e  acasa  quejantla 
he   pêra   soarem    melhor  ♦as  falias  por  que  se  esta  apar 
dalgua  janella,  ouenlo  se  uai  per  ella  fora,  e  faz  me- 
nos soar  as  falias.  Eesso  meesmo  faz  em  coro  alto,  ou 
muyto  alongado,  porem  se  deue  reguardar  olugar  pê- 
ra mylhor  soarem  specialmête  se  he  tal  tempo  em  que 
se  queira  resguardar,  ou  mostrar  seus  capellaães  Item 
inuyto   necessário  desse  criarem  mocos  na  capeella,  e 
que   sejam   de  jdade  de  vii.  ou  viii.  anos  de  boa  des- 
posiçom   em   uozes   e   entender,  e   sotilleza   e  de  boo 
assessego ,    por  que  taaes  como  estes  ueem  asscer  de 
razom    boos  clérigos  e  boos  cantores.    Item  que  tanto 
que   ouuerem   conhecimento   de   cantar  que   os  façam 
cantar  aaestante  ,    e   que   lhe   façom    enssynar   alguàs 
cantigas   alguCi   que   saibha  bê  cantar,    e  esto  peraas 
wezes   cantarem  ante  ossenhor,  ca  esto  lhe  faz  perder 
©empacho   decantar,    e   esforçar  auoz ,  e  gaançar  me- 
lhor  geito,    e   mais  gracioso  decãtar.    Item  se  deuem 
esquyuar  na   capeella,  quanto  se  mais  poder  fazer  ar- 
rujdos  e  êuejas ,  por  que  com  esto  nunca  se  deos  bem 
pode  seruir.    liem  se  deue  resguardar  queo  cantar  se- 
ja  segundo  as  cerjmonias  da  igreja,   ou  triste,   ou  le- 
do, e  segundo  os  tempos  ê  q  esteuerè.  Item  em  cada 
capeella,  que  boa  deue  seer,  deuem  seer  criados  qua- 

Pp   2 


300  O    LEAL  CONSSELHEFRO. 

tro  cachopos  ao  menos  huus  q  ajam  sobre  os  outros 
três,  ou  quatro  anos,  assy  que  quando  huus  forem 
doito ,  que  os  outros  sejam  de  doze,  porem  com  ra- 
zom  deuyam  seer  seis,  por  que  aas  uezes  huu  he  doen- 
te,  ou  toruado,  e  o  outro  fica  em  seu  logar  Item  que 
quádo  estes  moços  forem  em  tal  hidade  que  mudem 
as  uozes ,  helhes  grande  bem  fazerlhes  leer  latym  per 
dous  ou  três  anos  por  que  aelles  he  grande  proueito, 
e  lêem  por  ello  niuyto  melhor,  e  mais  certo  Esseo 
senhor  traz  meestre  em  sa  capeella,  elles  coíitynuada- 
iriente  podem  seruir  em  missas,  e  uesperas ,  e  outros 
ofícios,  e  nom  leixarem  da  prender.  Item  omeestre 
que  os  no  canto  enssynar,  deue  de  ser  boo  em  saber, 
e  geito  de  cantar  e  de  boo  entender,  e  custumes,  assy 
que  nom  tam  soomente  os  castigue  no  cato,  raes  em 
toda  outra  cousa  que  erre,  e  lhes  de  sua  boa  enssy- 
Bança  pêra  seerem  boos  em  sua  uyda,  e  custumes; 
Item  elie  seer  prestes  sempre  pella  manhaam  na  ca- 
peella, que  como  os  moços  acabarem  de  correger  o 
altar  que  os  faça  logo  cantar,  e  lhe  de  lyçom  antes 
que  ossenhor  uenha  ,  que  esta  lhes  aproueita  mais  que 
de  todoo  dia  E  assy  faça  aas  uesperas,  que  el  deue 
sSpre  prymeiro  seer  na  capeella  Item  que  os  capeU 
laaês,  e  cantores  sejam  sempre  cedo  na  capeella,  queo 
senhor  nom  espere  por  elles  Eos  capellaaês  prouee- 
rom  oque  ouuerem  de  dizer  Eos  cantores  praticarõ  em 
alguus  cantos  que  nom  teem  dia,  tempo,  mais  aaza- 
do  que  este.  E  mais  saberá  cantar  as  missas  que  hani 
de  dizer  e  leerlas ,  e  registar  oliuro ,  posto  que  hi  nom 
este  outro  capellam  queo  faça  Item  que  os  cantores 
aprendam  ossalteiro  ,  que  quandolhes  aamaaõ  ueher 
alguu  beneficia  queo  saibham  ,  que  nom  pode  seer 
boo  clérigo  senom  souber  ossalteiro  Item  deue  os  mo- 
cos seer  percebidos  depreguntare  per  uezes  eadanoite 
ao  senhor,  onde  e  aque  oras  quer  ouuyr  missa  peraa 
iiisar  os  capeliaàes  do  que  ouuerem  de  fazer.  Item 
quando    ueherem    alguus    festas  speciaaes  ocapellam 


o   LEAL    C0N5SELHEIR0.  301 

moor,  011  quem  logo  teuer,  deue  preguntar  ao  senhor, 
onde,  e  como  quer  ouuyr  o  oficio,  e  os  corregimen- 
tos  de  que  se  auera  em  elJes  de  seruir.  Item  se  ponha 
boa  guarda,  e  prouijmento  nos  ornamêtos  da  capeella, 
e  se  siiua  delles  segundo  otempo  for.  Item  sobre  todo 
he  necessário  que  aus  hoos  que  bem  seruem ,  com 
incrcees,  e  boo  ga^alliado  Jlio  agaliardoem,  e  reconhe- 
çam E  os  que  mal  iiyuem  e  se  arrufam,  e  mal  seruem 
Dom  passem  sem  pena,  e  escarmento.  Item  que  qual 
quer  cousa  que  ossenlior  u}  r  em  a  capeella  mal  feita, 
per  qual  quer  guisa  que  seja  logo  amande  emendar 
sem  tardança,  nê  trespasso.  Item  estas  quatro  som 
mujto  necessárias  peraa  capeella  .s.  Capellani  moor,  e 
meestre  da  capeella,  e  tenor  meestre  meestro  dos  mO' 
ços.  -  Item  deuem  seer  anisados  que  em  qual  quer 
cousa  que  ouuerem  decantar,  ora  seja  canto  feito  ou 
descãto  declarem  aletera  da  quello  que  cantarem  ,  sal- 
uo  se  ella  for  desonesta  perasse  dizer.  Item  em  qual 
quer  cousa  que  cantarem  deuem  de  declarar  aletera 
uogal  segundo  he  scripta  E  esto  por  que  alguiis  teem 
de  custume  prenunciar  mais  huã  letera  que  outra  em 
aquello  que  cantom.  Item  se  deuem  de  guardar  cantar 
delyngua,  nê  de  desuairamento  deboca ,  mas  sooaien- 
te  cantem  de  papo  cada  huil  melhor  q  poder. 

CapiíuUo  LRvii. 
do  tepo  q  se  deteé  nos  ojicios  da  capeella. 

JLieuando  per  esmo  razoadamête  estas  oras  se  deteem 
nos  ofícios  da  nossa  capeella.  Item  missa  cantada  dieta 
per  bispo  cõ  asperges  e  patrem  ora  e  mã.  Item  missa 
cantada  cômuu  sem  asperges  e  sê  patrê  ora.  Item  mis- 
sa cantada  de  requyem  =  menos  dora  =  Item  missa 
rezada  =  mea  ora  =  Item  uesperas  sollempnes  de  bis- 
po com  competra  =  ii  oras  =  Item  uesperas  cõmuíis 
cantadas  com  competra  =  i  e  mêa  Item  uesperas  re- 
zadas  com  competra  —  i  ora    Item   o  oficio  da  noite 


302  O    LEAL   CONSSELHEÍRO. 

do  natal  com  matjnas,  aiiangelho,  e  missa  e  sermom 
em  que  aja  huã  ora,  acujo  respeito  igualmente  se  leua 
Edeuesse  começar  o  oíicio  antre  as  noue  e  as  dez 
=  V.  oras  =  Item  o  oíicio  da  purificaçom  com  Terça 
cantada ,  preegaçõ  beêzer  decirios  e  procissom  =  3 
oras  ==  Item  o  oficio  da  quarta  feira  de  cijza  com  sete 
salmos  ,  beezer  de  cíjza  ,  e  poer  delia  missa  ==  2  oras  = 
liem  amissa  de  sancta  maria  ao  sabbado  seguynte  com 
myssa  rezada  de  quatro  têmpora ,  e  seis  profecias  cõ 
apistolla  =  ora  e  mea  =  Item  o  oficio  dos  ramos, 
com  terça  cantada,  e  beençom  dos  ramos  com  apistol- 
Ia  e  auangelho ,  e  dar  os  ramos  procissom ,  missa  com 
paixom  e  preegaçom  =  5  oras  =  Item  as  prymeiras 
treeuas  =  3  oras  =  e  nas  outras  pouco  menes  Ede- 
uensse  as  prymeiras  começar  denoite,  e  sair  denoite 
Eas  segundas  começar  de  dia,  e  acabar  de  noite  Eas 
terceiras  começar  de  dia  e  acabar  de  dia.  Item  aqiiyn- 
ta  feira  jn  cena  domyny ,  com  ])rima,  terça,  sexta, 
noa,  rezada  missa  e  mudamento  do  sagramento  ao  al- 
tar pequeno,  e  uesperas  cantadas  =  3  oras  =  Item 
aassesta  feira  dendoenças  afora  apreegaçom  que  se 
nom  pode  osmar,  era  pryma,  terça,  sexta,  noa  reza- 
das, e  duas  profecias  com  dous  tractos  e  paixom  e  o- 
raçom  sollempnes,  e  adoraçom  da  cruz,  mudamento 
do  sagramento,  do  altar  pequeno  ao  altar  pryncipal 
E  o  oficio  do  altar  e  mudamento  do  sagramento  do  al- 
tar ao  muymento  e  uesperas  rezadas  =3  oras  e  mea  = 
Item  ao  sabbado  uespera  de  páscoa,  prima,  terça,  sex- 
ta, noa  rezadas,  beençom  do  fogo,  e  do  encenço , 
beençom  do  cirio  pascoal,  xti  profecias  cantadas,  os 
três  trautos  cantados,  ladaynha  cantada,  missa  uespe- 
ra cantadas,  de  laudate  domynum  õnes  gentes  e  ma- 
nigficat  com  oraçõoes  =  5  oras  =  Item  o  oficio  dar- 
ressurreiçom  pella  manhaam  segundo  for  ologar  peraa 
procissom  ,  por  quanto  desque  he  acabado  nom  dizem 
senom  huã  oraçom.  Item  uespera  de  piticoste  que  se 
dizem   seis  profecias  cantadas  com  três  tractos,  e  la- 


o    LEAL   CONSSELHEIRO.  303 

daynha  catada  e  missa  Item  dia  depenticoste  matjnas 
e  pr}ma  cantadas  em  que  se  deteem  =  2  oras  =  E 
na  terça  cantada  com  Uj9ny  creator  sps  e  missa  do 
bispo,  e  preegaçom  se  deteem  =  3  oras  =  Item  por 
a  Raynha  uesperas  cantadas  de  requjem  com  orres- 
ponsso ,  e  acabadas  as  uesperas  em  quanto  se  diz  or- 
responsso  teem  12  Capeiiaaes  dos  queo  canlom  ,  xn 
tochas  acesas  ataa  que  seja  acabado  e  assyo  fazem  ao 
dia  despois  que  acaba  aniyssa  ataa  que  acabam  orres- 
ponsso.  Item  outro  dia  pella  manhaa,  matjnas  de  re- 
quyem  com  uilatorio  ix  Jiçooes  e  laudes  cantadas,  e 
missa,  e  responsso  cantados  =  3  oras  e  mea  =  Item 
matinas  de  sam  pedro  ,  com  j)ryma  rezadas,  e  assy  as 
outras  semelliantes  per  todo  ano.  Item  dia  de  saneia 
maria  da  gosto,  matinas,  prima  caiitadas,  terça,  e 
sexta  rezadas.  Item  dia  do  todollos  sanctos,  matinas  e 
prima  cantadas,  terça,  e  sexta  rezadas  Item  anoa  re- 
zada, e  uespera  rezada,  e  uespera  cantada  dos  finados 
com  responsso  Item  as  matjnas  e  missa  e  responsso 
assy  como  ao  dia  dossay mento  da  Raynha. 

CapiiuUo  "IR VI ir. 

âa  pratyca  que^  tijnhamos  com  El  Rey  meu  Senhor 

e  Padre  cvja  alma  deos  aja- 

jyjluy  prezados  e  amados  jrmaãos,  quando  ê  abrantes 
uos  falley  q  com  os  Rex  nossos  jrmaaõs  uos  quizessees 
sempre  bê  acordar,  uos  recdtey  alguàs  praticas  que 
meus  jrmaãos  e  eu  per  graça  e  merece  de  nosso  se- 
nhor deos,  e  de  sua  madre  nosi-a  senhora  sancta  ma- 
ria, guardauamos  ao  muy  uytorioso  digno  de  grande 
e  louuauel  memoria  El  Rey  meu  senhor  e  j)adre,  cu- 
ja alma  deos  aja,  per  as  quaaes  auyamoíí  recebido  tal 
graça,  que  ja  mais  antre  nos,  nom  fora  desacordo, 
nem  afroixamento  de  grande  amor  Edespois  fallando 
amossem  garcia  daznares ,  el  me  disse  que  uos  praza* 
ria  auerdes  sobresto  de  mym  per  scripto  alguus  auisíi'' 


304  O    LEAL  CONSSELHEmO. 

mentos,  por  que  da  nossa  pratica,  que  el  auya  bg  uis- 
ta  era  niuyto  contente  E  j)or  quanto  eu  tenho  grande 
desejo  deuos  complazer  em  toda  cousa  que  bem  poder 
jiom  reguardàdo  quanto  se  põem  em  juizo,  quem  taaes 
cousas   screue   depoder   seer  prasmado  em  sustancia  e 
forma.    Conssijrando  que  satisfaço  ao  que  uos  praz,  e 
que   estes   auisamentos   nom  som  per  muytos  sabidos, 
e  per  menos  praticados,  uoUos  ponho  per  scripto,  co- 
mo realmente  forom  per  nos  guardados  com  odicto  se- 
nhor rey   em   tal  guisa  que  sempre  fomos  em  sua  boa 
graça  e  ê  fym  desseus  muy  honrrados  dias,   mostran- 
donos  sempre  grande  boa  uoontade  em  nossa  presença 
se  partio  pêra  seu  criador,  leixandonos  em  aquella  leal 
concórdia  decoraçooes  e  honesta  couerssaçom  que  el 
nos  criara.    Screuo  todo  compridamete  como  opratica- 
mos,  nom  declarando  de  cadahuã  cousa  arrazom  ,  por 
que  entendo  q  pêra  uos  seria  prolexidade  de  scriptura 
bê  scusada,  Rogandouos  que  aassustancia  e  boo  dese- 
jo com  que  uollos  êuyo  queiraaes  reguardar,  nom  des- 
prezando alguãs  cousas  por  uos  parecerem  de  pequena 
cota ,    ca  depequenas  occasiooes  se  recrecem  grandes 
desacordos,  e  se  acrecentam  as  boas  uoontades,  e  as 
outras  nom  filhees  que  screuy  por  as  aprender  per  ens- 
synos  deliuros,  ou  dictos  dessabedores,  mes  nosso  sse- 
nhor,    ante   da   hidade  comprida  nos  outorgou  grande 
parte  da  pratica  ajuso  scripta  Edespois  per  ella  fomos 
enssynados,  conhecendo  como  recibiamos  tanto  cõpry- 
mcnto  de  beês,  quanto  no  começo  pouco  entendiamos 
E  assy  opraticar  nos  espertou  arrazom  ,  e  per  ella  nos 
esforçamos   com    agraça  do  senhor  deos  amylhor  obrar 
Eda   lembrança  do  que  uy  e  senti  que  fezemos ,  sere- 
no esta  breue  leitura 

O  prymeiro  nosso  fundamento  comendarmos  todos 
nossos  feitos  ao  senhor  deos,  Irabalhandonos  desseguyr 
sua  sancta  uoontade.  Conssijrãdo  que  nom  seendo  com 
el  em  boo  acordo,  com  elrrey ,  nen)  antre  nos  nunca 
opoderiamos  seer  E  per  sa  graça,  se  com  el  fossemos 


o    LEAL   CONSSELHEIRO.  305 

bem  acordados,  seguindo  sempre  seu  seruiço,  nossos 
leitos  aueriam  inelhoros  ííjs  do  que  nos  soubéssemos 
penssar,  nem  deuysar,  conhecendo  queo  saber  dos  ho- 
mees  pêra  qual  quer  feito  uai  nada,  se  per  special 
mercee  do  senhor  deos  nom  for  sempre  aderençado  ao 
que  el  sabe  que  he  mylhor  e  lhe  mais  praz  que  se  faça. 

Amor  e  temor,  sobre  todos  ao  dicto  senhor  Rey 
auyamos,  e  de  fazer  cousa  errada,  ou  desonesta  digna 
derreprehenssom  ,  ou  de  uergonça  pryncipalmente  de 
nos  era  receado. 

Das  cousas  em  que  duuydauamos  selhe  despraze- 
ria ,  nos  aguardauamos  deas  fazer  como  se  decerto 
soubéssemos  que  delias  lhe  pessaua,  ataa  que  fosse- 
mos em  boa  certidooe  quejanda  era  sobrello  sua  uoon- 
tade  Eassy  nom  errauamos  dizendo  nom  sabiamos  uossa 
teençom  ,  sabendo  que  opecado  da  jgnorancia  nora  he 
sem  culpa.  =  Esforçauamos  nossa  uoontade  pêra  re- 
frear assanha  e  desejo  e  sem  empacho  denehuâ  pessoa, 
nem  da  openyom  geeral  dauamos  aenxecuçom  oque 
sentiamos  q  era  mais  seii  seruiço,  e  boo  prazer  por 
nom  seermos  do  conto  daquelles  que  atempes  amam, 
obedecem ,  e  seruem ,  e  no  tempo  da  tentaçom  falle- 
cem. 

Auiamos  teençom  sem  duuyda  que  nos  amaua  e 
prezaua  muyto  E  era  bem  firme  em  esta  boa  uoonta- 
de, auêdo  segura  sperança ,  que  nunca  ja  mais  antre 
nos  aueria  mudamente  de  todo  boo  amor.  Epor  ateer- 
mos  em  grande  preço  éramos  anisados  em  toda  cousa 
que  asseu  seruiço  e  boo  prazer  tocasse,  com  tam  gran- 
de cautella  como  se  el  fosse  muy  engradoso  E  nom 
tara  firme  que  aballamento  e  mudaçom  podesse  auer. 

Da  prymeira  parte  nos  recrecia  grande  amor,  pens- 
sando  que  tanto,  e  assy  firmemente  nos  amaua  nunca 
perao  contrairo  nos  percebendo  nem  auysando. 

Da  segunda  auyamos  aquel  grande  temor  que  pro- 
cede do  perfeito  amor  q  faz  muj  firme  e  mãteer  as 
boas  amjzades 

Qa 


306  O    LEAL    CONSSELHEIRO. 

Naquellas  cousas  em  que  éramos  em  duiiyda  do  que 
sobre  ello  lhe  prazeria,  oníais  cedo  que  podíamos,  nos 
tirauamos  dessospeita,  sabendo  sua  teençom  sobre  a- 
qual  logo  repousauamos,  e  auyamos  por  determjnado 
dea  seguyr  quanto  bem  podessemos  Eaquesto  nos  fa.- 
zia  mais  cerlo ,  e  seguro  obrar  em  todallas  cousas,  de 
que  sua  certidoôe  auyamos,  e  nas  semelhantes. 

Eátabelleciamos  em  nossos  coraçooês  huú  procura- 
dor por  el  quenos  fezesse  todos  seus  feitos  entrepetar 
aamylijor  parte,  e  onde  o  nom  achássemos  uijnhamos 
em  lembrança  quanto  nos  amaua,  e  suas  grandes  bon- 
dades, e  uirtudes  por  as  quaaes  per  ffe ,  e  boa  ope- 
nyom  dei  criamos  que  com  boo  fundamento  fazia  to- 
dallas cousas  que  anos  tocauom.  Esse  aobra  manigfes- 
tamente  era  errada  ,  lembramonos  que  soo  deos  he 
perfeito  ,  e  que  porem  seus  fallicimentos  deujamos  so- 
portar  como  qiteriamos  que  el  os  nossos  soportasse  ,  e 
alguãs  cousas  q  nos  uiríuosamente  passara  Eaquesta 
teençom  nos  fazia  poer  em  todo  assessego  da  uoonta- 
de  Epor  nossa  boa  pratica  olegauamos  mais  em  nossa 
boo  amor. 

Nas  cousas  que  fallauamos,  ou  trautauamos  com 
el ,  nom  queríamos  leuar  nossa  teençom  em  diante, 
mes  todo  nosso  desejo  e  prazer  lhe  declarauamos ,  ofe- 
recendonos  ,  assem  empacho  receber  sua  determyna- 
çom  auendo  em  esto  propósito  que  obrando  assy  fa- 
zíamos ante  deos  que  ordenou  em  seu  amor,  e  obe- 
diência uyuermos,  oqiie  éramos  theudos  E  que  por 
ello  todos  nossos  feitos  per  sa  graça  nos  uijnriam  a- 
melhor  termo  do  que  saberíamos  deuisar. 

Acerca  dei  e  de  seus  feitos  ,  guardauamos  nom  sol- 
lamente  a  pratica  justa,  e  sentida  e  ofallar,  e  conle- 
nença  Eo  que  se  podia  sospeitar,  mas  assecreta  ca- 
mará do  coraçom  era  guardada  de  toda  entençom  ,  e 
openvom  qual  teer  nõ  deuiamos ,  conhecendo  quanto 
e  poV  quntas  partes  lhe  éramos  obrigados  E  ^  cada 
huu  se  nom  poderia  leer  na  conta  que  desejaua  se  em 


o    LEAL    COXSSELKEIRO.  307 

SOU   corac^om   em  tal  caso  leixasse  rejnar  cujdado,  ou 
desejo  qual  nom  deuesse. 

Com  el  por  cousa  nom  aperfiauamos ,  e  se  alguu 
fallamento  au}  amos  em  que  oiiosso  juyzo  e  parecer  do 
seu  desuairasse,  posto  que  despois  nossa  leêçom  a- 
chassemos  certa  e  mais  j)rouada  jamais  nunca  lhe  re- 
ferjamos ,  ante  se  el  nos  tornaua  dizer  que  era  melhor 
com  humjldade  recebiamos  seu  dicto  Esse  com  uerda- 
de  assua  podiamos  aprouar  sem  empacho  ofaziamos  no 
lha  referjndo  mais  nos  sayamos  da  dieta  estoria  Esse 
achauamos  que  teueramos  alguã  contrairá  da  sua  qual 
leer  nom  deuyamos,  logo  nos  reconhecíamos  tanto  que 
opodiamos  entender,  demandando  perdom  se  tal  caso  era. 

JNem  so  fundamento  demesura  com  el  nos  referta- 
uamos,  mes  como  duas  ou  três  uezes  nosso  parecer 
lhe  deziamos  logo  oque  el  mais  queria  fazíamos,  sa- 
bêdo  que  melhor  era  obediêcia  q  sacrifício 

Éramos  bem  guardados .  por  cousa  que  el  fczesse 
contra  nosso  prazer  e  uoontade  delhe  mostrar  por  gei- 
to ,  dicto,  ou  mostrança  que  nos  enfingiamos  ,  ou  ar- 
rufauamos,  nem  triste  contenença,  nem  aoutra  pessoa 
dei  nos  agrauauamos ,  mes  todo  que  nos  parecia  lhe 
razoauamos  ccmo  bem  entendíamos ,  concludido  que 
pois  era  nosso  senhor  e  padre,  parelhados  éramos  de 
seguir  e  sofrer  atodo  poder  sua  uoontade. 

De  fallar  contra  seus  feitos  em  praça  nem  ascondi- 
clo  por  nos  scusar  dalguãs  cousas,  querermos  dizer  o- 
que  nos  parecia,  ou  complazer  aalguã  pessoa  éramos 
muyto  guardados,  mes  quando  aazo  se  daua,  suas  muy- 
tas  uirtudes  e  grandes  feitos,  quando  com  razom  po- 
diamos sempre  louuauamos 

Seus  boos  seruidores,  e  os  que  el  amaua ,  preza- 
uanios,  e  recebia  denos  sempre  boo  gasalhado,  e  mer- 
cees  E  ajnda  que  fossem  em  alguã  parte  per  suas  pes- 
soas fora  denosso  prazer  per  honestas  maneiras  denos 
erom  soportados,  assy  q  por  ello  sempre  mercessemos 
louuor  e  nunca  prasmc- 

Qa  2 


308  O  LEAL  CÔNSSELHETRO. 

Em  lodo  caso  que  se  oferecia  per  pallaura,  conte- 
nença,  e  boa  pratica,  lhe  moslrauamos  que  seu  serui- 
ço ,  e  boa  uoontade  sobre  anossa  e  todo  nosso  prouei- 
lo  auançanamos. 

Em  nas  cousas  deconta  que  fazíamos,  sempre  auja- 
mos  grade  rpguardo  ,  como  per  odicto  senhor  seria  fi- 
lhados, ou  lhe  prazeria ,  alegrandonos  se  as  por  bem 
tomaua  E  do  contrairo  auiamos  tal  empacho  e  sentj- 
mento  como  aquel  feito  requeria 

Segredo  em  todo  que  nos  mandaua  era  realmente 
guardado,  e  esso  medes,  no  que  nos  entendíamos  que 
deuyamos  guardar,  posto  q  aujsados  nõ  fossemos. 

Sempre  husauamos  delhe  fallar  uerdade,  trazendo 
em  custume  se  tal  caso  era  que  razom  nom  fosse  dizer 
todo  claramente  delhe  pedir  que  naquelle  feito  sua 
mercee  nos  ouuesse  por  scusados,  por  nom  lhe  dizer^ 
mos  oque  sabíamos ,  ou  sobre  ello  entendíamos.  Eo 
dicto  Senhor  auya  por  bem  tal  reposta  ,  sabendo  que 
com  ella  poderíamos  husar  uerdadeiramente  como  de- 
ntamos ,  e  sem  ella  nunca  se  bem  poderia  fazer. 

Pêra  todos  feitos  grandes  e  outras  cousas  de  seu 
seruiço,  ou  boo  prazer  que  anos  cõuehesse  de  obrar 
trabalhauamos  desseer  realmente,  E  nos  mostrar  tara 
despostos,  per  querer,  saber,  e  poder,  que  ajnda  que 
nom  fôramos  filhos,  parentes,  ou  criados,  mes  quaaes 
quer  estranhos ,  per  nossa  boa  maneira ,  e  grande  des- 
posiçom  fossemos  bera  amados  e  prezados,  nom  fazen- 
do fundamento  pryncipal  nas  grandes  uirtudes  do  dicto 
senhor,  nem  das  razoões  que  com  el  per  muytas  par- 
tes aujamos.  Mes  na  graça  denosso  senhor  deos,  e  per 
ella  em  nossos  continuados  merecimentos  E  todos  car- 
regos que  nos  daua,  nunca  os  per  mjngua  deuoontade 
refusauamos ,  e  obrauamos  sobrello  sempre  omylhof 
que  podíamos,  sometendonos  com  deuyda  humyídade 
assua  correiçom  ,  e  de  quem  el  mãdaua  Eposto  que 
sua  encomenda,  ou  regimento  nom  fosse  anosso  juyzo 
dereita,  nom  nos  embargaua,  sabendo  que  nosso  caj> 


o    LEAL    CONSSELHEIRO.  309 

rego  em  esto  sollamenle  era  seruillo,  e  obodeecerlhe 
perfeitaniente  E  porem  mujtas  uezes  na  quelles  leitos 
uijnham  taaes  fijs  nom  peiíssados,  que  aquellas  emen- 
das nom  penssauamos  que  dalhur  podessem  uijr  se 
nom  do  dicto  senhor  deos. 

Se  alguus  carregos  do  que  nos  êcomendaua,  aou- 
trem  por  seu  seruiço  ou  querer  Jhe  prazia  dar  sem  ai- 
guà  toruaçom  os  leixauamos,  mostrando  que  deJlo  nom 
sõtiamos  outra  honrra  nem  proueito,  seno  quanto  mais 
fosse  seu  seruiço  e  boa  uoontade. 

Em  todos  casos  que  se  oferecia,  muy  dereitamen- 
te  ,  segundo  nosso  juyzo,  oconsselhauamos,  e^uardando 
tempos  e  boa  desposiçom  sem  empacho,  con  brandeza 
de  palJauras,  e  contenença  lhe  cõtradeziamos  oque  nos 
razom  parecia,  e  no  mujto  bem,  e  grandes  uirtudes 
q  deos  lhe  dera  olouuauamos  temperadamente  segun- 
do se  os  feitos  e  razoamêtos  seguyam. 

Éramos  bem  guardados  que  jamais  nííca  sentisse 
queo  queríamos  per  força  contrariar  ou  por  nosso  pro- 
ueito,  ou  prazer,  nem  doutra  pessoa  enganar,  nem 
per  manha  qual  nom  deuyaraos  adereçar  cõ  el  nehuã 
cousa 

Se  alguii  tanto  de  nossas  razooês  se  queria  agrauar 
com  grande  segurança  lhe  mostrauamos  que  nosso  di- 
cto e  consselho  nom  poderia  com  uerdade  na  teençom 
seer  prasmado  por  que  sempre  era  fundado  em  seruiço 
denosso  senhor  deos ,  e  seu  ,  como  melhor  o  entendia- 
mos.  Epor  estas  duas  partes  ael  nom  deuya  de  despra- 
zer delhe  leermos  acontra  dessua  uoontade,  ca  por 
outro  proueito  nem  prazer  nosso,  ne  doutra  pessoa 
nuncalha  contradezeriamos .  nê  entendiaraos  contradi- 
zer. 

Nas  cousas  que  nos  mandaua ,  ou  uiamos  que  lhe 
prazia  defazermos,  nom  reguardando  stado,  nem  uoon- 
tade, mes  com  grande  deligêcia  symprezmente  obe- 
deecendo  as  compriamos,  nom  entendendo  cousa  po- 
der seer  errada,  q  por  seu  seruiço  e  boo  prazer  fezes-» 


3{0  O  LEAL  CONSSF.LHEIRO. 

semos,  se  nom  fosse  contra  odo  senhor  deos  oque  bem 
sabíamos  que  nunca  nos  mandaria. 

Em  monte  e  caça,  quando  com  odicto  senhor  éra- 
mos, das  folg^anças  que  em  ello  custumauamos  de  auer, 
fazíamos  pequena  conta,  por  assua  sempre  seer  acre- 
cêtada ,  sentindo  mais  huu  seu  pequeno  desprazer  que 
perda  detodas  ueaçooês,  ou  desuyamento  detoda  mon- 
taria. 

Todas  festas,  jogos,  e  folgaças  honestas,  por  que 
outras  nuca  conssentia,  que  por  seu  boo  prazer  lhe  po- 
díamos ordenar,  sem  empacho  de  nossas  uoontades, 
trabalho,  e  custa,  fazíamos. 

Assy  ledamente  como  bem  podíamos  com  boo  re- 
guardo  do  seu,  e  nossos  estados,  segundo  os  tempo* 
e  lugares,  com  el  fallauamos  e  praticauamos. 

Se  alguãs  uezes  com  nosco  per  seu  espaço  lhe  pra- 
zia  fallar,  com  razoadas  repostas  sua  rezom  per  nossa 
parte,  nom  era  quebrada,  nem  mudada,  mas  em  quan- 
to lhe  prazia  sempre  lhe  mostrauamos  q  de  tal  sua  fal- 
ia no  éramos  êfadados. 

De  contar  nouas  contraíras,  e  doutros  fallamentos 
em  que  penssauamos,  poder  sentir  desprazer,  éramos 
sêpre  guardados,  nem  lhe  dizíamos  alguã  cousa ,  de 
queo  sentíamos  se  bem  podia  seer  scusado,  conhecen- 
do que  nossos  contra}  ros  sentjmentos,  como  seus  de- 
reitamête  os  sentja. 

Em  suas  doenças ,  por  lõge  que  esteuesseraos ,  lo- 
go muy  sem  tardãça  uijnhamos  ael ,  E  quanto  melhor 
podíamos,  era  per  nos  em  todo  bem  seruido  e  uysita- 
do  Eo  comer,  e  beuer,  e  dormir  e  todas  folgãças  muy 
sê  êpacho  quando  côpría ,  por  ello  leíxauamos. 

Todas  cerjmonjas  em  seu  seruiço  por  acrecenta- 
mento  de  sua  honrra,  que  lhe  prazia  dereceber  denos, 
muy  sem  empacho  éramos  cõtêtes  deas  fazer 

Quanto  mais  em  grandes  dias  se  acrrcentaua,  tan- 
to lhe  mostrauamos,  e  auyamos  mayor  reuercnça  com 
humy Idade,  conformando  nossa  uoontade  sempre  com 


o  LEAL  CONSSELHEIRO.  .311 

assiia  ,    e    segujndo    suas   detenuynaçooês  em   nossos 
consselhos. 

Seos  do  seu  consselho  dassua  teêçõ  desacordauom , 
nos  filhauamos  carrego  defazer  as  cartas  e  reginiêtos 
E  de  tal  guisa  se  fazia  que  com  boo  prazer  do  dicto 
senhor  sempre  ficauaraos  em  boo  acordo. 

Quando  alguã  pessoa  notauel ,  se  queria  dei  agra- 
uar,  per  nossas  boas  maneiras  otornauamos  em  sua  boa 
graça ,  como  razom  era. 

Do  tempo  certo  que  aassua  corte  nos  mandaua 
chamar,  com  poucos,  ou  muytos  ,  como  el  deuisaua, 
per  nosso  poder  nom  falliciamos  Edesque  éramos  eui 
ella,  outros  mais  deligentes  pêra  todo  seu  seruiço  e 
too  prazer,  de  qual  quer  estado,  nom  eram. 

Nos  carregos  que  nos  daua,  éramos  bem  guardados 
de  nos  alargar  mais  do  que  el  ordenaua  sem  autorida- 
de sua  por  requerjmentos  que  nos  fezessem,  nê  uoõta- 
de  q  nos  requeresse 

Em  todos  nossos  feitos  queo  requeria,  com  o  dicto 
senhor  rey ,  nos  consselhauamos  per  seu  grande  e  boo 
saber,  e  special  graça  que  deos  lhe  outorgara  de  acor- 
darem muytos  seus  boos  consselhos  co  as  boas  conclu- 
sooês  que  nos  feitos  auyam  deuijr  aalem  do  que  se 
poderia  per  razom  compreender  E  por  guardar  seu 
boo  amor  e  nossa  obediência,  e  do  que  com  el  nos  a- 
cordauamos  sem  outro  seu  acordo,  ou  razom  muyto 
manigfesta ,  nom  era  feita  mudança  Essea  faziamos 
sem  tardança  lhe  recontauamos,  por  que  seu  consselho 
em  todo  nom  fora  guardado,  demandando  perdom  do» 
mudamento  ajnda  que  dereitamente  se  fezesse. 

Todas  teençooês  geeraaes  e  speciaaes  do  dicto  se- 
nhor em  que  com  el  nos  acordauarnos  ryjamente  quan- 
dosse  o  caso  daua  defendíamos,  e  nas  que  nosso  juyzo 
do  seu  se  desacordaua ,  fallauamos  pouco,  ou  nada, 
saluo  se  uyssemos  que  compria  em  apartado  por  ser- 
uyço  de  deos,  ou  seu  delha  contradizer,  oque  fazía- 
mos na  mais  cuueniête  forma  que  senos  êtendia. 


312  o  LEAL   CONSSELHEIRO. 

Com  bestas,  aues ,  caaes,  e  quaaes  quer  outras 
cousas  pêra  seu  prazer  osseruiamos ,  seendo  rnuyto 
mais  ledos  defilhar  el  com  nossas  cousas  huâ  pequena 
foJg-ança ,  q  nos  niujto  major 

Em  desembargar  com  odicto  senhor,  guardauamos 
esta  ordeQ) ,  se  éramos  requeridos  detaaes  cousas  que 
fosse  contra  seruiço  de  deos ,  ou  seu,  ou  que  tocasse 
ataaes  pessoas  que  deuessemos  guardar,  nom  recebia- 
mos  dello  carrego,  ajnda  que  Jios  dissessem  ,  que  se- 
melhantes fazia,  ãte  se  tal  cousa  era  o  auisauamos  que 
resguardasse  em  elles  oque  per  razom  ,  ou  dereito  de- 
uya  fazer.  Os  outros  requerjmêtos  geeralmête  recebia- 
roos,  ajnda  q  nos  [larecessem  douydosos  de  os  odicto 
senhor  querer,  ou  poder  fazer.  Eesto  fazíamos  por  que 
alguãs  cousas  penssauamos  que  se  nom  faziam ,  das 
quaaes  elle  nos  mostraua  maneiras  certas,  e  funda- 
mentos per  que  se  podiam,  e  deuyam  fazer,  e  outros 
pello  contrairo.  E  porem  symprezmente  recebiamos 
os  requerimentos,  sem  declarar  oque  dello  nos  pare- 
cia. E  quando  pello  dicto  senhor  alguãs  cousas  dene- 
gar, as  partes  se  agrauauam ,  quanto  cõ  boa  razom 
podiamos  defendiamos  sua  teêçÕ,  fazendo  anosso  po- 
der que  todos  fossem  dei  bê  contentes,  e  nom  agraua- 
dos.  E  no  que  lhe  assy  deziamos ,  auyamos  em  custu- 
me  delhe  declarar  por  alguijs  quelhe  fallauamos  por 
mandar  como  aas  partes  respõdessemos  E  outras  cou- 
sas por  nos  parecerem  razom  ,  e  dereito ,  e  alguãs  por 
em  ellas  auermos  synguUar  uoontade ,  concludindo  to- 
dos nossos  requerimentos  q  todo  porem  fosse  compri- 
do, como  ael  mais  prouuesse ,  saluo  se  era  contra  jus- 
tiça e  conciencia.  Ca  naquelles  casos  orrequeriamos 
mais  afficadamente,  e  cô  toda  mayor  auoondança  de 
euydentes  razooès  que  podiamos  entender. 

Nom  custumauamos  desembargar  com  el  cadadia, 
mas  aaquelles  tempos  que  deuisaua,  e  nom  mais  q  quan- 
to sem  empacho  lhe  prazia  denos  ouujr ,  despachado 
nos  per  nossa  parte  muyto  breuemente,  e  com  poucas 


o    LEAL    CONSSELHEIRO.  tT  1  3 

replicaçoocs  no  que  lhe  fallauamos,  se  cousa  mujLo 
special  nom  era. 

Os  desembargos  que  nos  outorgaua  dauamos  logo 
aenxecuçom  aalè  dos  outros  proueitos  por  ao  dicto  se- 
nhor, por  tempo  perlongado ,  nom  poder  auer  delles 
perfeita  renembranca,  e  nos  culpar  em  sua  uoontade, 
que  por  fauor  nosso ,  ou  das  partes ,  allargauamos  al- 
guàs  cousas,  mais  q  outorgara.  Esseo  tempo  alguíi 
tanto  se  passaua  com  odicto  senhor,  nos  poynhamos 
em  renembranca  antes  que  os  desembargos  màdasse- 
mos  fazer,  por  tal  que  sobre  nossa  teêçom ,  e  palla- 
ura,  nunca  podesse  com  razom  filhar  duuyda. 

Se  denosso  fallamento  desprazer  demostraua  alguã 
razom,  outra  de  grande  peso  faziamos  acarretar,  em 
q  fallassemos,  e  delia  scorregauamos  aoutros  ledos  fal- 
lamentos  em  que  nossa  falia  se  acabasse  Esse  nom  po- 
díamos logo  fazer  omais  sem  tardança  que  se  fazer  po- 
dia ,  tornauamos  ael ,  guardando  esta  ordem  En  na  es- 
toria  de  que  el  filhara  desprazer  no  fallauamos  ataa 
que  uyssemos  tempo  côuenyente,  e  que  el  fosse  fora 
detodo  empacho  E  alli  demandando  perdom,  se  côuij- 
nha ,  mostrando  por  nos  alguàs  poucas  e  forçosas  ra- 
zooês  nos  scusauamos,  ou  detodo  aleixauamos  passar, 
sem  mais  fallar  em  ella ,  mais  per  outros  exempros 
quandosse  ofereciam  dauamos  nossa  scusa  sea  suficiête 
por  nossa  parte  auyamos.  E  adeos  graças ,  estas  cou- 
sas eram  tam  poucas,  e  de  tam  pequena  substancia 
que  per  qual  quer  destas  guisas  se  poderam  sempre 
muy  bem  ,  e  ligeiramète  emendar  e  correger 

Pêra  todos  seus  criados  e  seruydores ,  assy  como 
peraos  nossos  speciaaes  lhe  demandauamos  mercees, 
e  acrecentauamos ,  e  nunca  em  justas,  nem  e  outros 
jogos  conssentiamos  que  se  fezesse  apartadamente  por 
huíis  seerem  dehuã  parte,  e  outros  doutra,  mas  todo 
sempre  fazia  demestura.  E  os  seus  per  pallaura,  con- 
tenença ,  e  obra  eram  de  nos  mais  íauorezados  em  os 
feitos  de  uerdade,  quesse  antre  elles  aconteciam  e  assy 

Kr 


.314  O  LEAL    CONSSELHEIRO. 

nos  jogos  nem  conssentiamos  que  os  de  huít  casa  so- 
bre oy  da  oulra  em  nossa  preseça  por  geeral  louuor 
se  quissessem  auancar,  mais  syng-ullarmente  cadahuu 
g-abassê,  como  razom  fosse. 

Antre  mym  e  meus  jrmaãos  per  mercee  denosso 
senhor  deos,  se  guardauam  todas  estas  praticas  suso 
scriptas,  como  razom  era,  nunca  sentindo  antre  nos 
êueja,  desordenada  cobijça,  auareza,  desejo,  ou  mos- 
trança  de  sobrançaria,  mes  ao  dicto  senhor  rey  pedia- 
inos  mercee  pêra  cadahuíi  de  nos,  ou  peraos  seus  que 
se  acertaua  como  pêra  nos  medes  ,  ou  peraos  nossos 
E  quando  lha  fazia  realmente,  era  per  todos  remer- 
ceada.  Essoportauamos  huíjs  aos  outros  as  condiçooês 
e  uoontades  speciaaes,  ajnda  que  entodo  seno  cõcor- 
dassem  tam  perfeitamente  como  se  fosse  em  todallas 
cousas  liuu  juyzo,  uoontade,  e  propósito,  dando  pas- 
sada ao  que  cõtra  nosso  desejo  per  ajguu  denos  se  a- 
certaua  de  fazer,  tirandoa  danembrança,  como  se  nun- 
ca fora.  E  aquesto  nos  fazia  cõprir  grande  amor,  mu}- 
ta  obediencya  com  singullar  desejo  de  sempre  seermos 
em  perfeito  acordo  que  nosso  senhor  deos ,  e  sancta 
inaria  nossa  senhora  nos  outorgarom  desnossa  mocida- 
de oque  per  odicto  senlior  rey  era  recebido  em  gran- 
de mercee,  e  anos  por  ello  muyto  amaua,  e  prezaua. 

Em  jogos,  perfias,  e  openyooês  muyto  nos  guar- 
dauamos  dcsseer  contra  odicto  senhor,  nhuiis  contra 
os  outros  E  quandosse  acertaua  obrauamos  e  fallaua- 
mos  com  tanta  cautella  de  todas  partes  que  nunca  des- 
prazer, ou  scandallo  huíi  do  outro  podesse  filhar 

Homêes,  nem  moços,  hufis  dos  outros,  nunca  fi- 
Ihauamos  E  assy  faziam  os  denossas  casas,  e  das  cou- 
sas que  possnyamos  muy  iiberahnente  as  oferecíamos, 
e  com  grande  reguardo  as  queríamos  receber. 

Conhecendo  que  per  os  poderes  q  som  em  nos  das 
almas  uegetatyua,  senssetiua,  e  racional  auemos  todas 
estas  pessoas  special  amor  com  boo  reguardo  delles, 
Ggaâçauamos  do  dicto  senhor  rey  Perao  prymeiro  as 


o    LEAL    CONSSELHEIRO.  3  IJ^ 

cousas  boas.  que  aner  podianjos,  lhe  era  per  nos  oíe-' 
recicla,  leixando  toda  nossa  loigãça  por  lazer  assua  Ao 
segundo  traballiaiiainos  por  lhe  sempre  comprir  auoon- 
tade  Epor  que  do  bem  parecer  o  coraçom  se  conten- 
ta ,  enssa  presèça  auyamos  desejo  denos  correger  do- 
tal guisa  que  denossa  uista  no  ouuesse  descontenta- 
mento, nem  filhasse  despreço.  Do  racional,  sabendo 
que  lhe  jiraz  deuirtudes ,  geeral  bcondade,  boas  ma- 
nhas,  com  boo  grando  amor  Km  todo  esto  nos  traba- 
Ihauamos  delhe  côprazer. 

Por  screuer  uerdade  como  tenho  teençom  ameii 
boo  poder  sempre  fallar,  todo  esto  nom  era  per  todos 
igualmente  guardado.  Ca  segundo  cadahuú  denosso 
senhor  recebera  de  paciêcia ,  auysamento,  sotilleza, 
manhas,  e  auãtajosa  desposiçom  ,  em  cadahuã  cousa 
mais  perfeitamente  se  auya  Pore  auoontade,  propósi- 
to, e  desejo  detodos  huu  era,  e  assy  boo  mercees  a- 
deos  em  que  fallimenío  nom  sentiamos,  nem  na  ma- 
neira q  cadahiui  em  todas  estas  partos,  guardaua  que 
fosse  digno  derreprehenssom. 

Em  todas  estas  guardas  nom  sentiamos  algiia  pena 
nem  as  fazíamos  como  costrangidos ,  mas  recebíamos 
còtinuada  grande  folgança,  qual  nom  pode  sentir,  nem 
bem  creer,  quem  semelhante  nom  praticou.  Ca  certa- 
mente alembrança  do  que  sétimos  aprendemos  conhe- 
cemos do  dicto  senhor  Rey  nos  da  continuada  ledice 
E  nos  auemos  por  muyto  bem  auenturados  aalem  da 
honrra  e  proueito,  por  auermos  tá  uirtuosos  Padre  e 
Madre,  por  senhores  dos  quaaes  recebemos  nossa  pryn- 
cipal  enssynança 

Per  toda  esta  pratica  que  com  el  auyamos,  sempre 
claramente  confessauaraos  que  agrando  feuza,  e  cõfian- 
ça  que  auya  em  nos,  e  as  mujtas  mercees,  honrra,  e 
gasalhado  que  dei  recebíamos,  procedia  da  mysericor- 
dia  de  nosso  senhor  deos,  e  da  sua  grande  bondade,  e 
mercee  que  nos  queria  fazer.  E  as  boas  maneiras  per 
que  nos  gouernauamos   com   el,   nem  os   trabalhos  e 

Rn  2 


1116  O    LEAL    CONSSELHEIRO. 

cuydados  que  por  seu  seruiço  leuauamos,  nê  lho  re- 
feríamos, mes  afirmauamos  queo  nora  seruyamos  tam 
perfeitamête  como  era  nosso  desejo,  e  por  muytas  ra- 
zoões  nos  sentíamos  obrigados  Eporem  do  dícto  se- 
nhor Rey.,  dessa  jdade  que  nos  bem  acordamos,  nun- 
ca em  sanha  ouueraos  ferida,  nem  recebemos  huã  maa 
pallaura,  nem  sentimos  que  aJguíà  dia  éramos  fora  do 
seu  amor  e  boa  graça,  mes  recebíamos  dei  muytas 
mercees  e  grande  honrra  ataa  fim  de  seus  muy  borra- 
dos dias. 

IVo  sentido  per  seu  fynamenlo  ,  honrra  de  sepultu- 
ra, trailadaçom  prymeira  e  segunda  pêra  sua  capeella, 
agasalhamento  detodos  seus  criados,  outorgamento  das 
mercees  per  el  feitas,  comprymenío  de  seu  testamen- 
to, e  outras  obras  por  bem,  e  desencarre^amento  de 
cõciencía  do  dicto  senhor,  mercees  adeos,  teuemos  tal 
maneira,  que  bem  respondeo  com  apratica  suso  scrip- 
ta,  que  em  sua  ujda  sempre  com  el  teueramos. 

Tal  maneira  nom  se  pode  bê  teer  com  todos  se- 
nhorres ,  nê  se  guardar  em  todas  amyzades  Ca  scripto 
he,  amizade  perfeita  nom  pode  seer,  senom  antre  pes- 
soas uirtuosas  dehuu  propósito  e  querer  e  nom  querer, 
nas  cousas  pryncipaaes,  que  ajam  entendjmentos  hu- 
myldosos  ,  e  uoontades  concordauees  ,  fundadas  em 
muyta  lealdade  de  grandes,  largos,  e  boos  coraçooês, 
pêra  fazerem  e  dizerem  ,  e  soportarem ,  por  seu  se- 
nhor, ou  amjgo,  quanto  dereitamente  fazer  se  deue, 
e  lhes  obedeecerem  nas  determynaçooês  detodas  cou- 
sas dereitas,  e  honestas,  por  que  huã  das  mais  pryn- 
cipaaes lex  detaaes  amyzades  he  nunca  requerer  cou- 
sas jnjustas,  ou  torpes,  nê  as  fazer,  posto  que  reque- 
ridas sejam.  Eper  odicto  senhor  rey  nos  fomos  per  suas 
grades  uirtudes ,  muy  to  saber,  e  boo  amor  ê  esta  pra- 
tica bem  soportados,  e  sempre  entendemos  que  per 
el ,  e  por  arraynha  nossa  senhora,  e  madre  em  todas 
grandes  uirtudes  muy  to  perfeita,  cuja  aalma  creemos 
que  he  em  sancta   gloria,  fomos  êcamynhados  aquai 


o    LEAL    CONSSELHEIRO.  317 

quer  boa  maneira  que  sobresto  teuenios  E  assy  tenho 
teeçoni  que  os  clictos  rex  uossos  jriuãaos  som  tam  boos 
e  prudentes,  e  uos  amã  de  tal  amor.  que  toda  boa 
maneira,  q  com  elles  teucrdes ,  uos  responderõ  como 
deuem  ,  com  agraça  de  nosso  senhor  Ao  qual  praza, 
que  semj)re  lhe  façaaes  seru}ço  e  prazer,  e  pêra  todo 
nosso  bem,  e  grande  honrra  uos  outorgara  oque  pêra 
uus  for  ni5'llior.  Feito  per  Dom  Kduarte,  pella  graça 
de  deos  Key  de  portugal,  e  do  algarue,  e  Senhor  de 
depta  ,  em  a  cidade  deuora  xxv  dias  dejaneiro.  Anno 
do  nacimento  de  nosso  senhor  jhu  Xpõ  de  myl  iiiic. 
e  XXXV. 

Esto  me  parece  que  deue  seer  mostrado,  a  poucas 
e  certas  pessoas,  casseo  uyrem  os  que  som  fora  de  tal 
propósito  e  pratica,  mais  querram  prasmar,  e  contra- 
dizerme,  que  íiihar  dello  pêra  senhor,  ou  amygos  pro- 
ueitosa  êssynãça  Por  que  muytos  que  som  leterados, 
nom  sabe  trelladar  bem  deiatym  em  lynguagem  pens- 
sey  escreuer  estes  auysamenios  pêra  ello  necessários. 

Capitullo  IRix. 

da  maneira  pêra  bem  tornar  alguã  leitura  ê  nossa 

lynguagem. 

JL  rymeiro  conhecer  bem  assêtêça  do  q  ha  detornar, 
e  poella  èteiramente  nom  mudando,  acrecêtando,  nem 
mynguando  alguã  cousa  do  que  esta  scripto  Ossegun- 
do  que  nom  ponha  pallauras  latinadas,  ne  doutra  lyn- 
guagem ,  mas  todo  seja  nosso  lynguagê  scripto  mais 
achegadamête  ao  geeral  boo  custume  de  nosso  fallar 
que  se  poder  fazer. 

O  terceiro ,  que  sepre  se  ponha  pallauras  que  se- 
jam dereita  lynguagê,  respondentes  ao  latym ,  nom 
mudando  huãs  por  outras,  assy  q  onde  el  disser  per 
lat^ím  scorregar,  nô  ponha  afastar.  E  assy  em  outras 
semelhâteSj   êlendo  que   tãto  mota  huã  como  aoutra. 


3ld  O    LEAL    CONSSELHEÍRO. 

por  que  grande  deferêca  faz  pêra  sebem  êtender  see- 
rem  estas  paliauras  propriamente  scriptas. 

O  quarto  que  noni  ponha  paliauras  q  segundo  onos- 
so  custuuie  defallar  sejam  auydas  por  desonestas 

O  quinto  q  guarde  aquella  ordem  que  igualmente 
deue  guardar  em  qual  quer  outra  cousa,  q  se  escreuer 
deua  .s.  q  screua  cousas  de  boa  sustãcia  claramête  pêra 
se  bem  poder  êtender  e  fremoso  ornais  q  elle  poder,  e 
curtamête,  quanto  for  necessário,  e  pêra  esto  aproueita 
muyto  parragrafar,  e  apontar  bem  Se  huil  razoar,  tor- 
nado de  latym  em  lynguagê ,  e  outro  screuer  achara 
melhoria  detodo  jútamente  per  huii  seer  feito,  E  por 
que  per  uosso  requerjmêto  torney  em  lynguagem  sim- 
prezmente  rimada  désseis  pees  dehuii  conssoante  aora- 
çora  dejusto  juiz  jhííu  Xpõ  uolla  fiz  aquy  screuer,  aqual 
por  afazer  conssoar  nõ  pude  cõpridamente  dar  seu  lyn- 
guagê, nem  afiz  em  outra  mylhor  forma  por  concordar 
com  amaneira,  e  teêçom  que  era  feicta  em  latym. 

Justo  juyz  ihesu  xpisto 
Rey  dos  Rex,  e  boo  senhor 
Que  coo  padre  Reynas  sêpre 
Hu  he  dambos  huíj  amor 
Prazale  deme  ouuyr 
Pois  me  sento  pecador 

Tu  que  do  ceeo  descendiste 
Enno  uentre  uirginal 
Hu  tomando  logo  carne 
Liuraste  ossegre  demal 
Per  teu  sangue  precioso 
De  perdiçom  eternal 

Rogueu  aquella  meu  deos 
Ta  gloriosa  paixom 
Que  sem  cessa  me  defêda 
De  perigoo  e  cajom 


o    LEAL   CONSSELHEIRO.  319 

Per  que  possa  bem  iiyuer 
Ty  seruyudo ,  e  outrem  no. 

Tua  muy  sancta  uirtude 
Desy  gram  deíendimêto 
Sempre  me  seja  presente 
Por  me  guardar  de  tormêto 
A  que  me  traz  o  mijgo 
Per  arteir  enduzymento 

Per  atua  forte  deestra 
Que  os  jnfernos  quebraste 
Destruy  todos  meus  jmijgos 
Pois  sas  artes  desprezaste 
Per  as  quaaes  me  sempre  toruâ 
Do  bem  que  fazer  mandaste 

Ouue  Xpõ  mym  braadando 
Mysquynho  por  meu  pecado 
Que  demando  piedade 
Pois  passey  oteu  mandado , 
Ca  me  temo  do  jmijgo 
De  mym  seer  apoderado 

Com  destruyçora  se  calle 
Quem  me  cuyda  condanar. 
Seja  aelle  feita  queeda 
Olaço  que  quer  armar 
Jhíí  boo  e  piedoso 
Nom  me  queiras  desprezar 

Meu  escudo  com  emparo 
Sey  tu  meu  defendedor 
Por  que  eu  per  tua  graça 
Vença  meu  persseguidor 
E  per  seu  derribamento 
Maliegre  com  teu  amor 


320  o    LEvVL   CONSSELHEIRO. 

Manda  oteu  niessegeiro 
Do  ceeo  alLo  spiritu  sancto 
Quesclareça  e  aluniee 
Mym  q  nõ  mereço  tãto 
E  dos  jmijgos  me  liiire 
Por  nom  receber  quebranto 

Sancta  cruz  oteu  synal 
Me  defenda  os  sentidos 
Ta  bandeira  uencedor 
Faça  seer  sêpre  abatidos 
Meus  jmijgos  e  contrairos 
Per  ta  g-raça  destruydos 

Amerceate  de  mym 
Xpisto  deos  huu  soo  nacido 
Pêro  eu  mais  bem  te  peço 
Que  nom  tenho  merecido 
Sey  demym  sempre  Jêbrado 
Por  ê  fym  nõ  seer  perdido 

Do  deos  padre,  e  deos  filho 
Tã  bem  deos  sanctesprito 
Que  huú  deos  sempres  chamado 
Per  pallaura  e  per  scripto 
Comprimento  deuirtudes 
Te  confesso  por  meu  dicto 

E  traladey  do  liuro  dos  stabellicjmentos  de  sam 
johã  casiano  por  exempro  esta  parte  de  huu  capitólio 
ajuso  scripto  ao  pee  da  Jetera  que  chamam  os  letera- 
dos  acõtexto,  oqual  aalguus  nom  muyto  praz,  por  seer 
scripto,  na  maneira  latinada.  E  queriam  q  se  tirasse 
assentêça  posta  em  mais  geeral  maneira  defaliar,  Eou- 
tros  dizem  que  bem  lhes  parece,  porem  quando  man- 
dardes tornar  alg-ua  leitura  de  latira  em  nossa  lingua- 
gem ,  amaneira  que  mais  uos  prouuer,  mandaae  que 
tenha  aquel  q  dello  teuer  carrego 


o    LEAL    CONSSELHEíRO.  321 

Ouiie  que  diz  oapostollo  :  Todos  aquelles  que  em 
capo  pellojam  dotodas  cousas  se  austeê  em  queiramos 
de  quaaes  todos  pcra  podermos  receber  enssynâ(;a  da- 
])elleja  spiritual,  per  conteplaçom  dacarnal,  certamen- 
te aquelles  que  nesta  peíleja  uesyuel  estudam,  bem 
pellejar,  husar  detodas  u} andas,  as  quaaes  odesejo  da- 
carne  demanda,  nom  tem  autoridade,  mas  soo  daquel- 
]as  quea  enssynanca  detaaes  pellejas  estabeleceo  E 
Eom  sol  lamente  das  uy  andas  deíesas.  mas  da  beuedice, 
e  todo  jnchymento  necessariamente  se  deuem  conleer, 
e  ajnda  de  toda  pryguiça ,  occiosidade  ,  e  deleixamen- 
to  por  tal  que  per  contynuado  exercicio,  e  aficado 
penssamento  ,  sua  uirtude  possa  seer  acrecentada.  E- 
assy  de  todo  cuydado  ,  tristeza  dos  negócios  deste 
inundo,  e  ajnda  da  obra  do  casameto  se  couê  fazer 
estranho,  que  afora  otrabalho  da  sua  êssynãça  ai  no 
queira  saber,  nê  alguã  cura  deste  mundo  se  êbargar, 
da  quelle  tã  soomête  que  he  senhor  do  capo,  sperãdo 
galardom  psra  mãtijmêto  de  sua  uyda  E  q  digna  co- 
roa de  gloria  gaãçarom  per  seus  mericimentos. 

Capitullo   C. 
do  regimento  do  estamago. 

Q 

Ik^egundo  apratica  que  per  mym  passey,  este  acho  boo 

regimêto  breuemête  scripto ,  pêra  quem  tal  estamago 
lê  que  lhe  creça  freyma,  e  alguâ  uez  se  destêpera  por 
ella. 

Quando  jantar,  comer  bem  mastigado,  e  nom  be- 
uer  mais  de  duas  uezes ,  ou  três  ao  mais  largo  E  a- 
questas  nom  muyto  sobejo  em  cadahuã,  mas  tanto 
de  que  razoadamente  auoontade  se  contente,  ou  deua 
contêtar.  Eo  uynho  seo  beuer,  seja  razoadamête  au» 
guado,  por  que  se  he  forte,  da  mayor  trabalho  ao  es- 
tamago êno  cozer,  e  degerir  e  acrecêta  sede,  per  que 
nom  se  pode  bem  soportar  com  pouco  beuer.  Denata, 
e  de  toda  outra  uyanda  deleite,  comer  pouco,  ou  na? 

Ss 


322  o    LEAL   CONSSELHEIRO. 

da ,  e  sea  comer  seja  sobre  toda  outra  uyanda ,  nom 
beuer  sobrella ,  ou  se  no  começo,  cojma  bem  dal  ante 
que  beua.  E  todauya  o  comer  da  uyanda  do  Jeyte  seja 
pouco,  e  poucas  uezes.  E  esso  medes  detoda  outra 
uyanda  humvíla,  assy  como  cereijas ,  pêssegos,  e  os- 
tras, e  toda  grossura  de  carnes  de  pescados,  e  do  se- 
melhante comer  pouco,  ou  .nada,  e  tam  bem  das  muj- 
to  frias  e  aguadas,  assy  como  uynagre ,  e  Jymom  ,  e 
semelhantes,  dos  ouos  pêra  esto  nom  ha  regia  certa, 
por  que  ahuus  aproueita  e  aoutros  empeece.  Eporem 
cada  huu  huse  deos  comer  como  se  delles  sentir  Des- 
pois  de  comer  ataa  que  passe  huã  ora  nom  dormyr  de 
dia  E  quãdo  ouuer  de  dormyr,  nunca  detodo  desues-» 
tir,  ou  desabotoar,  mas  ajnda  que  desuista  alguã  rou- 
pa 5  sempre  aoutra  fique  abotoada.  E  nom  dormyr 
mais  q  huíí  sono,  e  quanto  mais  pequeno  tanto  my- 
Ihor.  E  como  for  acordado  logo  aleuãtar.  Sobre  odor- 
myr  ataa  que  passe  huã  ora,  nom  beuer  por  cousa  que 
seja ;  esse  poder  sofrer  ataa  cea  que  nõ  beua  he  muy- 
to  boo ,  se  tanto  nõ  quanto  mais  pouco  tanto  mvlhor. 
Sobre  gram  trabalho  queo  corpo  este  esqueêtado  he 
niuyto  sofrer  ocomer  e  beuer  ataa  que  ocorpo  este  em 
razoada  temperança.  Aa  cea  tenha  orregymento  que 
dicto  he  perao  jantar  Esse  poder  scusar  obeuer  des- 
pois  da  cea  scuseo  ,  e  se  nom  poder,  nom  beua  mais 
de  huâ  uez.  O  estamago  nõ  deue  trazer  desabotoado 
nem  froxo ,  mes  jgualmente  sempre  apertado.  Se  ao 
jantar  vir  que  come  muyta  carne,  ou  pescado,  ou  lhe 
praz  dello  sobejar  em  comer  opam  ,  em  no  beuer  as- 
treiío  seu  regymento  ,  e  de  fruyta  pouca  ou  nada 
Sobre  grande  comer,  ajnda  que  uenha  sede,  podesse 
melhor  sofrer  que  em  outro  tempo,  por  que  as  mais 
das  uezes  he  falssa ,  e  sea  sofrem  se  uai,  e  dessofrer 
aproueita  pêra  taaes  estamagos ,  e  nom  pode  em  tal 
tempo  cmpeecer  Portarde  que  cee ,  nom  se  lance  so- 
bre acea ,  ataa  que  hua  ora  nom  passe,  nem  se  desa- 
botoe senom  aaquella  ora  quesse  quyser  lançar  por  que 


o    LEAL   CONSSKLHEIRO.  323 

he  grande  erro  em  lai  caso.  Colhe  bem  qne  se  jantar 
mu>to,  que  cee  temperadamente,  poendo  antre  huii 
comer,  e  outro  vii.  ou  viu.  oras  Esse  muyto  cear, 
guarde  mais  orregimento  sobre  acea  que  è  outro  tem- 
po Eo  jantar  do  outro  dia,  aja  têperança  E  guardesse 
de  grandes  jejuns  acustumados  ,  por  que  amvngua  de- 
huu  dia  quersse  entregar  no  outro  Eo  estamago  açus-» 
lumado  apouco  comer  alguus  dias  sente  asynha  pena, 
quandolhe  mudam  seu  custume.  Lancarsse  denoite  ao- 
ras  razoadas,  e  assy  cedo  leuantar  he  muyto  bem.  E 
quandosse  leuantar  uystasse  cedo  Se  denoite  se  leuan- 
tar,  calcesse,  e  cobrasse  razoadameríte  Quando  dor- 
niyr  nom  se  cobra  sobejo  derroupa,  por  que  omuyto 
abafar  fará  descobryr,  e  fazê  logo  mudança  demuyta 
queentura,  ca  muyto  frio,  faz  mal  pêra  esto. 

Se  por  andar  camynho,  ou  alguíi  outro  trabalho  pas- 
sar muyto  aora  do  comer,  assy  que  seja  huã  ora  ou 
duas  despois  meo  dia,  coima  temperadamente  sobre 
opouco  E  no  outro  comer  se  pode  entregar,  e  a^-sy 
faça  na  cea,  por  que  hua  das  cousas  que  muyto  estor- 
uam  oestamago,  e  todo  ocorpo,  e  sobre  grande  traba- 
lho, passando  as  oras  do  jantar,  ou  da  cea,  ahua  uez 
comer  mujto,  e  se  jantar  assy  tarde,  e  uir  que  come 
muyto  scuse  acea,  ou  seja  tam  pouca  que  nom  possa 
empachar.  Se  de  comer  algua  vianda  se  achar  mal  nom 
acojma,  posto  que  aoutros  nom  empeeça,  por  que  he 
determjnado  que  alguãs  uyandas  per  uirtude  special 
aproucitam  e  empeecem  a  cadahuu  homem  ,  e  cada 
huã  door  E  posto  que  se  ache  bem  dalguã  uyanda  que 
nom  seja  boa,  ou  dalguii  regymento  reuessado,  nom 
se  deue  husar,  por  que  aafeiçom  daboca,  ou  do  cora- 
çom  muytas  uezes  faz  sentir  omal  q  dei  lhe  nem  ,  o 
qual  despois  cõuem  desse  sentir,  posto  que  seja  tarde. 
Eíssobre  grande  comer,  scuse  quanto  poder  filhar  logo 
graiide  trabalho,  e  nom  ueze  poer  emprasto  no  estama- 
go ,  nem  otrazer  sobejo  cuberlo,  mais  tragao  como  os 
outros  geeralmente  dessua  maneira  trazem.  Se  doer  al- 

Sâ  2 


324  O    LEAL    CONSSELHEIRO. 

guã  uez  oollie  segundo  orregimento  que  teue  otempo 
passado  de  que  uein  ,  e  se  for  defrio  per  comer,  e  al- 
guãs  cousas  queentes,  e  cobrir  oestaniago  ,  e  aquêe- 
tallo  bem  se  corregera  Esse  foi  de  comer  sobejo,  co- 
mer pouco  e  tarde,  e  alguâ  ujanda  seca,  assy  como 
pam  torrado,  e  beuer  pouco,  e  uynho  menos  augua- 
do ,  e  acharssea  dello  bem.  E  enquanto  sentir  empa- 
chado dessobegidõoe  deuyanda  ,  nunca  cojma  outra 
nehúa  perao  correger,  por  que  nom  ha  hi  melhor  mee- 
zynha ,  que  sofrer  tãto  ocomer  que  eile  per  sy  se  cor- 
rega ,  cobrjndosse,  e  aqueentandosse  em  razoada  ma- 
neira, segundo  otempo  for  E  acustumar  ocorpo  arra- 
zoado trabalho  de  pee ,  ou  de  besta,  em  jejCiu  ,  o  pe- 
queno comer  uai  muyto  pêra  este  caso.  De  xv.  em  xv. 
dias  ou  de  mes  em  mes,  he  muyto  boo  filhar  pirollas 
comúnes ,  e  se  doer  per  algucã  freyma,  ou  outro  humor 
que  traga  sobejo,  buscarlhe  remédio,  qual  mylhor,  e 
mais  sem  empacho  achar  per  que  se  uaa  defora,  per 
reuessar,  ou  sayr,  ou  se  gaste  per  boo  trabalho,  e 
abstinecia. 

Sobre  grande  comer,  se  trabalhe  em  tal  guisa  q  se 
muyto  squeente ,  ou  suar,  deue  seer  mujto  guardado 
do  uento  ,  e  do  aar,  nem  se  desabotoar,  em  casa 
muyto  fria.  Aanoite  sobre  grande  cea ,  beuer  muyto, 
ou  augua  empeece  em  este  caso  specialmente  se  ja 
tem  beujdo,  e  esta  pêra  se  lançar.  Eentendo  que  se- 
ja boo  pêra  taaes  estam.agos,  prouocarem  cadahuu  afia 
uomyto  duas  uezes ,  huã  despois  de  páscoa  por  acon- 
tynuaçom  passada  do  pescado.  A  outra  no  setembro, 
por  afru}'ta  do  uerãao  ,  sea  continua  muyto  de  comer. 
Se  entender  madurgar,  ou  tresnoitar  he  mujto  boa 
cear  pouco  ,  ou  nada  Esse  per  myngua  dessono ,  oes- 
tamago  destempera  pêra  dormyr  sem  comer,  nem  be- 
uer, e  sem  outra  meezynha  se  correge.  E  cada  noite 
ante  que  se  lance,  ajnda  que  lhe  pareça  que  nom  tê 
uoonlade,  deue  prouar  dessair,  e  esso  medes  pella 
maiihua.    Item  em  guardar  boa  e  razoada  temperança 


o    LEAL   CONSSELHEIRO.  325 

nos  trabalhos  do  sprilu  e  do  corpo,  conssijrando  hida- 
de,  e  desposií^om  e  (empos  esta  grande  parte  do  regy- 
meulo  da  saúde,  E  posto  que  esto  todo  parecia  niaao 
deguardar,  seo  for  acustumãdo,  parecera  bem  Jigeiro 
defazer  E  pensso  bem  que  achara,  quem  no  trabalho 
acustumar  deo  com  grande  melhorya  ,  e  aalê  desto  se 
lhe  comprir,  tome  consseího  doiUro  niylhor  físico.  Ajn- 
da  que  esto  dissesse  ,  e  começasse  ,  e  escreuesse  de 
jogo,  ê  todo  pensso  que  acharom  que  fallo  certo,  e 
dou  boo  consseího. 

CapituUo  Cr. 

darroda  pêra  saberem  as  oras  quantas  sô  damanhãa , 

noite ,  ou  despois, 

Jr  or  esta  figura  se  podem  saber  as  oras  da  noite  .s.  ê- 
magynar  em  o  ceeo  huã  cruz  com  estas  quatro  lynhas, 
segundo  que  aquy  he  deuysado  Eo  meo  seja  em  anor- 
te ,  e  resguarde  bem  esto,  que  as  pontas  da  cruz,  e 
das  lynhas  he  scripto  E  quando  aprymeira,  e  mais 
chegada  guarda  chegar  a  cada  huu  destes  legares,  ally 
he  mea  noite,  segundo  os  tempos  em  ella  deuysados 
Equanto  mais  passar,  ou  mynguar,  per  ally  julgue, 
quanto  he  mais  aaquem  ,  ou  aalem  da  mea  noite  Es- 
saibha  que  de  lynha  alynha  ha  três  oras,  e  de  ponto 
aponto  ha  huã  E  de  qujnze  em  quynze  dias  passa  huâ 
ora  e  nomes  duas.  Deues  saber  que  ha  de  nacer  osso], 
e  se  poer  aestes  tempos  aquj  deuysados ,  cõuem  assa- 
ber .  em  meo  março  nace  aas  seis  oras,  e  poensse  ael- 
las  E  em  começo  de  mayo,  nace  aas  cynco,  e  poensse 
aas  sete.  E  em  meo  junho,  nace  aas  quatro,  e  mea  e 
poensse  aas  sete  e  mea  E  no  começo  dagosto  nace  aas 
cynquo ,  e  poensse  aas  sete  E  em  meo  setembro  nace 
aas  sseys ,  e  poensse  aellas.  E  em  começo  de  nouem- 
bro ,  nace  aas  sete,  e  poensse  aas  cymquo.  E  em  meo 
de  dezembro,  nace  aas  sete  e  mea,  e  poensse  aas 
quatro  e  mea   E  era   começo   de  feuereiro,  nace  aas 


326  O    LTÍAL   CONSSELHEÍRO, 

sete  e  poensse  aas  cyuquo  E  per  esmo  era  os  mezea 
que  aquy  nom  declara,  poderees  entender,  aque  oras 
ossol  per  todo  oãno  deue  nacer.  E  desque  amanhecer 
ataa  ossayr  do  sol,  faz  huã  ora  E  no  têpo  do  ueraao 
faz  mais  auantagem,  e  per  esta  guisa  lie  desque  osso] 
se  poõe  ataa  noite  çarrada. 


No  Manuscripto  havia  espaço  para  a 
roda ,  7nas  naÔ  se  acha  neile^ 


Capitullo  Cir. 

pêra  saber  quantas  oras  som  ante  ou  despois  damea 

noite  ^  e  quanto  ante  manhaâ. 

X  era  saberdes  per  esta  roda  a  quantas  oras  be  ma- 
nhaâ, paraaementes  aaestrella  mayor  das  guardas  da 
noite  E  uede  ologar  onde  esta  arrespeito  darroda 
grande ,  e  ueede  onde  he  scripto  odia  do  mes  mais 
chegado  aaquel  em  que  estaaes,  e  contaae  as  oras  que 
ha  antre  ologar  em  que  aestrella  esta,  eo  dia  scripto 
do  tempo  em  que  estaaes  Eatantas  oras  será  manhãa 
clara  E  esso  meesmo  saberees  aquantas  oras  depôs 
mea  noite  ha  damanheecer,  contando  do  logar  em  que 
aestrella  faz  mea  noite  na  roda  pequena  ataa  odia  do 
mes  scripto  na  roda  grande  em  que  ha  desseer  ma- 
nhaâ na  quel  têpo.  E  daquesta  guisa  saberees  per  es- 
ta roda  pequena  quanto  sooes  ante  da  mea  noite,  ou 
despois,  ueede  ologar  onde  aestrella  esta,  e  onde  ha 
d(  fazer  mea  noite,  contaae  quantas  oras  esta,  ante 
ou  despois  mea  noite,  e  de  huu  risco  dos  que  som 
postos  em  na  uolta  darroda,  aou(ro  semelhante  ha  huât 
ora,  e  de  ponto  ao  risco  mea  ora,  e  antre  os  riscos 
pequenos  quarto  dora. 


o   LEAL  CONSSELHEIRO.  327 

CapiluUo  Cl  ir. 

ãa  guarda  da  lealdade  em  que  faz  fym  lodo  este 

iraulado. 

i  or  quanto  no  começo  disse,  que  me  parecia  filhar- 
des este  trautado  por  A.  B.  C.  da  lealdade,  e  que  per 
conhecyniento  denossos  poderes  e  paixoues,   percalça- 
mento  debondades,   e  uirtudes  e  corrcgyniento  de  pe- 
cados, e  outros  fallimentos,  se  guardaua  sempre  anos- 
so   senhor   deos  e  aos  homees  ,  faço  sobrello  adeclara- 
çom   segu}  nte     Os   que    trautam   de   moral   fillosoíia  , 
declarom    nosso    regimento   se   partir   em    três   partes 
Prymeira   da    proprja   pessoa   quesse   entenda   alma    e 
corpo    Segunda,    que   perteece   ao   regymêlo  da  casa 
.s.    molher,   e  filhos,   e  seruidores ,   e  de  todos  outros 
beês  Terceira  dorreyno  e  cydade  ,  ou  qual  quer  julga- 
do,  e  todos  estes  per  lealdade,  recebem  grande  ajuda 
pêra  seerem  bem  gouernados.    Quanto  ao  prymeiro  a- 
mym    parece,    que  deos  special  carrego  deu  acadahuíi 
de  eeu  coraçom  ,  mandandonos  dizer  aquella  pallaura, 
que  com  toda  delligencia  oguardassemos ,  e  como  cas« 
tello  que  nos  em  guarda  posesse  nollo  encomenda ,  o- 
quai  podemos  perder,  ou  cayr  em  myngua  delealdade 
por  estas  partes  que  trago  ameu  propósito.    Prymeira 
auendo   afeiçom   com   os  jmijgos.    Segunda ,  dandolhe 
entrada   em  elle    Terceira,  non  obedeecendo  ao  man- 
dado  do   senhor   queo  deu.    Quarta,  nom  poendo  boo 
regymento   e   proueença  nos   mantijmentos,   e  outras 
cousas  que  lhe  perteecem  ,    assy  que  per  fame,   sede, 
ou   desauysamento ,    seja  filhado    Quynta  per  fraqueza 
de  coraçom,  leixandosse  per  força  uencer,  podendos- 
seer  bem  defeso. 

Per  tal  semelhança  me  parece  que  mal  guardam  o- 
coraçom  ,  filhando  afeiçom  cõ  os  jnmijgos,  quandosse 
Jeixa  perlongadamente  correr  per  maaos  cuydados,  a- 
cadahuii  estado   nom   perteecentes ,    entrada  lhe  dam 


328  o    LEAL    CONSSELHEIRO. 

conssentyndo  deliberadamente  no  mal  fazer.  Ao  se- 
nhor nom  obedeecem,  quando  noni  recebem  seus  boos 
desejos,  nem  os  mandados,  consselhos ,  aujsamentos 
dos  que  odizem  em  seu  nome.  Com  desauysamento  se 
perde  quãdo  nom  conssijram  suas  forças ,  e  poderes 
em  todas  cousas  que  ajam  de  fazer,  pêra  percalçar,  e 
possujr  uirtudes,  e  se  guardar  do  contrairo  Per  fra- 
queza se  rendem  uêeceiídosse  aas  tentaçoòes,  mal  e 
fracamente  as  contrariando  E  pêra  guardar  esta  leal- 
dade acerca  denosso  senhor,  ornais  que  tenho  em  este 
trautado  scripto,  esto  consselha  enssyna,  e  auysa ,  ca 
eu  mesturo  moral  fillosafia ,  de  que  alguã  parte  vi, 
com  seus  mandados,  e  dicíos  dos  sanctos,  e  catholi- 
cos  sabedores,  quea  mais  perfeitamente  queos  fillosa- 
fos  entenderem,  e  derom  acabadas  enssynanças,  cons- 
sijrando  oque  dello  naturalmente  per  meu  sentido  en- 
tendo, e  do  que  uejo ,  ouço,  e  conheço,  em  mynha 
maneira  deuyuer,  e  dos  outros.  Ca  este  me  parece  de- 
reito  camynho  pêra  bem  sentir  dessemelhante  scien- 
cia ,  por  nos  guardarmos  cõ  agraça  de  deos ,  nos  con* 
trairos  casos  seguyndo  realmente  as  uirtudes  .s.  con- 
cordar os  dictos  denosso  senhor,  e  oque  os  sabedores 
catholycos ,  e  filJosafos  disserom  ,  com  os  sentydos  de 
nosso  coraçom ,  e  pratica  q  nos  outros  conhecemos 
No  regymento  da  casa,  quanto  bem  faz  lealdade,  e 
mal  se  recrece ,  nom  seendo  guardada  ãtre  marido  e 
molher,  padre  e  filhos,  senhor  e  seruydores,  e  antre 
os  boos  amygos ,  os  exempros  bem  odemostram  ,  ca 
nom  he  outra  mayor  fundamento  pêra  com  todas  estas 
pessoas  uyuer  em  paz  e  boa  concórdia,  ca  lealdade 
com  boo  entender  bem  guardada  Ca  esta  nos  faz  che- 
gar, e  assessegar  em  uerdadeira  amyzade ,  que  per  to- 
dos sabedores  he  tam  louuada  Esto  digo  por  que  gra- 
ças anosso  senhor  deos,  apratiquei  com  uosco  como 
bem  sabees,  e  com  eirrey  e  arraynha  meus  senhores 
Padre  e  Madre,  cujas  almas  deos  aja  e  assy  com  to- 
dos meus  jrmãaos,  como  ja  screuy 


o    LEAL    CONSSELHEIRO.  32!) 

E  nosso  fundamento  era  geeral  auysamcnto  de 
boas  uõotades ,  guardado  per  razoado  entender,  e  sê- 
pre  leaaes  coraçooõs ,  em  feito,  dicto  ,  e  penssamento 
E  porende  sey  que  lealdade  pêra  boo  regymento  da 
casa,  he  grande,  e  pryncipal  fundamento  E  assy  pres- 
ta muyto  no  boo  estado  dos  reynos,  cidades,  e  vyllas 
Porende  me  parece  seer  muyto  necessária  em  todos 
Ires  regy mentos  .s.  no  da  pessoa  por  manteer  lealdade 
anosso  senhor,  como  dicto  lie,  no  da  casa  por  aguar- 
dar 3el  que  toda  maldade  nos  defende  Edesy  atodos 
homeês  e  molheres  segundo  he  razô.  Nos  senhorios , 
cidades,  e  villas  como  aquella  uirtude  sem  aqual  boo 
regimento  nom  pode  longamente  durar,  ne  tt^er  bem 
se  pode  sem  boo  conhecimento  de  nossas  forcas,  po- 
deres e  paixooês,  anuTdo ,  t-eguyndo  aella ,  e  as  outras 
uirtudes ,  guardandonos  sempre  dos  malles  seus  con- 
trairos,  sobre  que  meu  trautado  faz  fundamento,  pros- 
seguymento,  e  fym,  por  seruyço  de  nosso  senhor  deos, 
e  nossa  senhora  uirgem  Mana  sua  muy  sancta  Madre 
Aos  quaaes  dalguíi  bem  se  neelle  he  dicto,  seja  dado 
louuor  e  gloria  E  por  fazer  uõotade  auos  Muyto  ex- 
cellente  Senhora  Raynha,  pedindolhes  que  uos  outor- 
guem sempre  na  uyda  presente,  e  no  seu  reyno,  com- 
prymento  deuossos  boos  desejos  e  mais  oque  sabe  que 
pêra  uos  he  melhor.  Amem. 

Adeos  graças. 


Acabado  de  copiar  em  14  de  Maio  de  1830  = 
Bibliotheca  Real  de  Paris  = 


Tt 


^\Vl\\%VViVVL\\V%X%V%i\^i^%«'i'V%.'V\'VV\t'\'%VV\l^Vt'\'%«'V%\'V\VVVVt'\VV\V%%V«lj 

T  A  U  o  A 

deste  limo  que  se  chama  leal  cosselheyro 
Prymeyramente  se  segue  oprollego 

Cí?/>.°  /."  das  parles  do  nosso  cntcndymento ,  6. 

Cap."  11°  do  entender  e  memoria,   II. 

Cap."  111."  da  declaraçom  das  uootades ,  12. 

Cap."  IlIJ."   Como  mnylos  errcnn   na  maneira  de  seu 

wjuer  per  aquella   terceira  tila  uoôtade  suso  scri- 

pta ,   15. 
CajJ."  y^."  em  que  se  demostra  per  que  uirludes  nos  c«- 

derreamos  a   deseparar  as    três  uootadcs  suso  scri- 

plas  e  seffuir  a  quarta,  20. 
Cap.''   yi.''  doutra  declaraçom  que  faço  sobre  as  uôo- 

tades,   22. 
Cajy."  Vil."  da  humyllia  de  Sã  grecjorio  sobre  oauange- 

lho  derrecumbentihus  fidecim  dicipullis,  26. 
Cap.°   Vlll."   de  quatro  maneiras  que  os  honieés  sô  fjfee- 

ralmenle ,  27. 
Cap°  1X.°  das  fijns  que  resguardam  as  partes  do  siso,  20. 
Cap."  X"  da  declaraçom  breue  dos  pecados ,  e  primeiro 

da  Soherua  ,31. 
Cap^  Xf.°  do  dicto  consselho ,  33. 
Cap."  XII. "  da  uaâ  gloria  ,  36. 
Cap.°  XIll."  do  caso  em  q  presta  auaã  gloria,  40. 
Cap."  XlllJ."  q  falia  da  dieta  neta  gloria,  42. 
Cap."  XV  da  êueja ,  45. 
Cap."  XI^J:  da  Sanha,  49. 
Cap."  XFIJ."  do  hodio,  52. 
Cap."  XFllJ."  da  tristeza,  55. 
Cap."  XIX."  da  maneira  que  fuy  doente  do  humor  mé- 

necorico  e  dei  guareci ,   58. 
Cap."  XX."  dos  aazos  per  que  se  acrecela  ossttido  do' 
humor  menecorico  e  dos  remédios  contra  elles ,  63. 

Tt  2 


332  T    A    U    o    A. 

Cap."  XX!.*  da  tristeza  que  sobre  pecados  ou  idrludes 

tê  nacjmetito ,  69. 
Cap."  XXIJ°  da  mais  forte  maneira  da  tristeza,  7h 
Cap."  XXIIJ."  das  partes  do  efadarneto,  72. 
C«p.°  XXIIIJ,''  do  co7isselho  que  sobresto  dey  ao  TJf an- 
te dom  P,\  75. 
Cap."  XXPV  do  nojo  ^  pezar ,  desprazer ,  auorrecjmêto 

e  suydade ,  80. 
Cap."  XX FI."  do  pecado  dà  occiosidade ,  85. 
Cap.°   XXP^IJ."   da  quynta  e  sexta  defereças  per  que 

caymos  é  occiosidade ,  90. 
Cap."  XXniJ,"  do  pecado  da  auareza ,  95. 
Cap."  XXIX."    da   maneira  do  dar  por   7iosso  senhor 

deos ,  9  9. 
Cap.''  XXX."  do  pecado  da  luxuria,   102. 
Capf.°  XXXl.°  da  questom  que  fazem  por  que  alguús  na 

uelhyce  caâe  e  luxuria  de  q  na  mãccbia  forú  yuar^ 

dados,  J04. 
Cap."  XXXII."  do  pecado  da  yidla ,   106. 
Cap."  XXXIIJ."  da  deferêça  dos  jejuas ,   111. 
Cap."  XXXIIIJ."  daffe,   114. 
Cap."  XXX V."  Do  que  me  parece  sobre  a  concepçom 

de  nossa  senhora  Sancta  Maria,   116. 
Cap."  XXXFI."  sobre  departidas  cousas  que  deitemos 

crcer ,   119. 
Cap."  XXX FIJ."  das  outras  uirtudes    e  sciêcias  a  que 

dã  fe  per  desuairadas  maneiras ,   123. 
Cap."^  XXXrilJ."  da  sperança ,  127. 
Cap."  XXXIX."  em  que  mostram  as  partes  per  que  se 

da  e  muda  nossa  côdiçô ,    129. 
Cap."  XXXX."  do  auysaméto  por  as  partes  suso  scrip- 

tas  e  da  fiãça  e  côjiãça ,   133. 
Cap."  XXXXJ."  sobre  a  deferêça  dos  stados ,   135. 
Cap."  XXXXIJ."  de  mujtos  e  desuairados  fruitos  da 

pêcdêça ,    139. 
Cap.'  XXXXllJ."  da  carydade ,  143. 
Cap."  XXXXIIIJ."  das  maneiras  damar ,  147. 


T    A    U    o    A.  333 

Cap."  XXXXV."  da  maneira  como  se  deuem  amor  os 

casados ,   151. 
Ca])."  XXXXfJ.''  da  maneira  (jue  se  deue  teer  para  as 

boas  molhercs  recearc  melhor  seus  maridos ,   157. 
Cap."  XXXXVIJ."  do  pefiqoo  da  cuuerssaçoni  das  mo- 

Iheres  spiriliiaaes   tirado  de  huú  trautado  de  sam 

ihomas  dicqvyuo ,   IGl. 
Cap."  XXXXFÍIJ."  por   que   os  amores  fazem    mais 

scnty mento  no  coraçom  que  outra  bfquercnça,   1G9. 
Cap."  XXXXIX."  da  razom  por  que  dizc  que  se  deue 

comer  huu  moyo  dessal  cô  alrjuã  pessoa  ataa  que  o 

conheça,   173. 
Cap.."  L.°  ê geeral  da  prudecia  ,  justiça,  teperãça ^for- 

telleza  ,    e    as   côdiçooes    que  perteece  aboo    cósse- 
•  Jheiro ,   175. 
Cap."  Lj.°  da  uirtude  da  prudecia  c  special  ,179. 
Cap."  Lij.°  que  cousas  perteece  aos  Rex  e  outros  senho- 
res pêra  seere  prudétes,  e  per  que  modo  o  podem 

seer ,   183. 
Cap."  Liij.°  doutros  speciaaes  auisamenios  sobre  apru- 

dencia  y  185. 
Cap."  Liiij."  das  razôoes  por  que  me  parece  bem  fugir 

aapestellença ,   192. 
Cap."  Lv.°    das   uirtude s    e  desposiçôoes   delias  pêra  a 

prudência  necessárias  ou  perteecetes ,   198. 
Cap."  Lvj.°  dalgúas  mais  cousas  necessárias  pêra  trazer 

nossos  feictos  a  deuyda  fym ,  percalçãdo  boo  nome 

de  prudéle ,  201. 
Cap."  Lvij.°  dalgúas  outras  speciaaes  cousas  per  que 

muytos  som  julgados  por  prudentes  e  nom  husam 

delia  como  deue,  204. 
Cap."  Lviij."  dos  Speciaaes  notados  do  liuro  de  tullio  de 

oficijs  e  que  aa  prudência  perieecem ,  208. 
Cap."  Lix."  sobre  a  prudecia  feicto  per  o  doutor  ( Die- 

gafíbnsso)  ,  212. 
CQp.°  Lx."  das  uirludes  que  se  requeré  a  huú  boo  julga- 
dor y  215. 


334  T    A    U    O    A. 

Cap."  Lxj.*  das  deftjnçoôcs  em  cjeeral  das  Vii  tnrtudes 
principaaes  ,  e  spcciídmcnte  das  ires  theollogaaes  , 
sequndo  cnteçom  dalguns  sabedores,  220. 

Cap."  LxiJ."  das  quatro  uirtudes  moraaes ,  222. 

Cap."  l.xifj."  dos  Fíi  pecados  mortaaes  e  geeral ,   223. 

Caj)."  LxiJiJ."  das  dejijçôoes  spcciaues  dos  vn  pecados 
primeyro  da  soberna  ,  224. 

Cap."  Lxv.°  das  defíjçôoes  das  rii  uirtudes  principaaes 
secfurulo  os  rernonystas ,  225. 

Caj^."  Lxvi."  das  defíjçôoes  dos  vil  pecados  segundo  os 
remonystas ,  226. 

Cap."  Lxvii/  dos  pecados  e  outros  fallicimentos  que  se 
apropriam  ao  coraçô  e  aas  outras  nossas  par- 
tes,  226. 

Cap."  Lxviij.*  sobre  arrepartiçom  dos  pecados  do  liuro 
da  soma  das  uerdades  da  theologica  ,230. 

Cap."  Lxix."  dos  pecados  do  coraçom ,  232. 

Cap°  Lxx.°  dos  pecados  da  boca,  233. 

Caj)."  Lxxi.°  dos  pecados  da  obra,  233. 

Cap."  LxxiJ."  dos  pecados  da  omyssô ,  234. 

Cap.°  LxxiiJ."  do  conttlamêto ,  235. 

Cap°  LxxiiiJ."  como  per  razô  bê  he  de  líos  contentar^ 
mos  ,  237. 

Cap."  Lxxv-°  do  que  se  recrece  do  bê  e  do  contrairá  em 
sctber  filhar  ocôtêtamtto  ,  239. 

Cap°  Lxxvj.°  do  boo  razoado  sêtido ,  241, 

Cap"  Lxxvij."  dos  erros  do  mynguado  sctido ,  245. 

Cap."  LxxviiJ."  contra  que  per  sobejo  ou  mynguado 
sêtido  erramos,  247. 

Cap."  Lxxix."  das  partes  per  que  somos  enssinados  e 
bem  encamynhndos  arreceber  dereylo  scniydo  em  to- 
dálias  cousas  ,  25  I. 

Cap."  Lxxx."  dos  fallimentos  aas  uirttides  mais  chega- 
dos,  2ò3. 

Cap."  Lxxxj."  das  casas  do  nosso  coraçô  e  como  lhe  de- 
uem  seer  apropriadas  certas  fijns ,  258. 

Cfíjp."  JLxxxiJ."  do  erro  que  se  segue  em  nom  saber  ira" 


T    A    U    o    A.  335 

zer  esfns  oasas  em  nossos  coraçoôes  ordenadas  com 

suns  /ijns  ^   2f)3. 
Cap."  Lxxxiij."  (la  scmeJhãça  que  do  andar  dcreilo  na 

besta  padé  filhar  ^  'ics. 
Cap."  LxxxiNJ."  da  declarnçnm  como  aJrjuiis  som  hc-os 

per  cinjdado   e   nom   taaes  per  obras  e  outros  pello 

contrairá^   2GG. 
Cap."  Lxxxv."  como  auemos  de  obrar  nossos  feitos  das 

dietas  fijns  ,  269. 
Cap.°  Lxxxvj."  dos  males  que  se  recrcccm  a  muytos  por 

nom  trazerc  no  cora^om  alc/uú  boo  freo  ,  270. 
Cap,"  Lxxxvij."  Irelludo  do  liuro  de  injta  xpí.    273. 
Cap.°  Lxxxviij,"   do  enxempro  do  spel/io ,  mala,  e  pã- 

,  deiro  ,  27  8. 
Cap°  Lxxxix."    do  lyuro  pastoral    sobre    a    liberalle- 

za  ^  280. 
Cap."  LK.°  do  dicto  liuro  sobre  a  dieta  uirtude  da  libe- 

ralleza ,  284. 
Cap.""  LKi."  da  tauoa  e  declaraçô  das  cousas  que  adiãte 

sô  scriptas ,  287. 
Cap."  LKiJ.°   das  vii  etençoôes  per  que  seremos  cô  a 

graça  do  Senhor  deos  adereçados  a  percalçar  asvu 

uirtudes  pryncipaaes  ^  290. 
Cap"  LKiij."  do  apropriamélo  do  pater  nosier  aas  rii 

uirtudes,   293. 
Cap."  LKiiij."  de  que  guisa  se  deue  leer  per  os  liuros 

dos  auangcUios  e  outros  semelhantes  pêra   os  leere 

proueitosamete ,  295. 
Cap."  LKv."  das  duas  barcas  .s.  dassaã  e  da  rota,  297. 
Cap."  LKvj,°  do  regymeto  que  se  dcue  icer  na  capeella 

pêra  seer  beem  reqida,  2;) 3. 
Cap."  LKvij  "   do  tipo  que  se  detee  720s  ofícios  da  ca^ 

peella,  301. 
Cap"  LKviij.°    da  pratica   que    tijnhamos  com  elrrey 

meu  senhor  e  padre ,  303. 
Cap."  LKviiij  °  da  maneira  pcra  bem  tornar  aJguã  lei* 

tura  em  7iossa  lynguage,  317. 


336  T   A   U   O   A. 

C«p.°  C."  ão  regime  to  do  estamago ,  321, 

Cap."  Cj.°  (lar roda  pêra  saberem  as  oras  quantas  sô  de 
ma7ihaã,  noite,  ou  despois ,  325. 

Cap.°  Cu."  pêra  saber  quantas  oras  som  ate  ou  despois 
da  mea  noite  e  quanto  ãte  manhaã ,  326. 

Cap°  CiiJ."  da  guarda  da  lealdade  em  que  faz  Jim  to- 
do este  trautado,  327. 


Acaba  o  Manuscripto  no  meio  da  1."  columna  da 
pa^.  128,  com  a  palavra 
*^  ^  D.  EDUARDUS. 


LIURO 

DA 

ENSSYNANÇA 

DE 

BEM  CAU ALGAR  TODA  SELA. 


E  N  S  S  Y  N  A  N.  Ç  A 

DE 

BEM  CAUALGAR  TODA  SELA. 

— — ^r-:^(B^':ii ' — - — 

jlim  nome  de  nosso  senhor  jhíi  xpò  com  sua  graça  e 
da  uirírem  maria  sua  muy  saneia  madre  nossa  senhora. 
Começasse  o  linro  da  enssynança  de  bem  caualgar  to- 
da sela,  que  fez  Elrrey  dom  Eduarte  de  portiigal ,  e 
do  algarue ,  e  senhor  de  Cepta ,  oqual  começou  em 
seendo  líiante. 


WWl/^^WX/WWWWWWV 


jlim  nome  de  nosso  senhor  jhesu  xpõ ,  segundo  he 
mandado  que  todallas  cousas  façamos  Ajudando  aquel 
dito  que  de  fazer  liuros  nom  he  fim,  por  alguil  meu 
spaço,  e  folgança,  conhecendo  que  amanha  de  seer 
boo  caualgador  he  huã  das  principaaes  que  os  senho- 
res caualleiros  e  scudeiros  deuem  auer.  Screuo  alguãs 
cousas  per  que  seran  ajudados  peraa  melhor  percalçar 
os  que  as  leerem  com  boa  uoontade  e  quiserem  fazer 
oque  por  mym  em  esto  lhes  for  declarado  Essaybham 
primeiramente  que  esta  manha  mais  se  acalça  per  na- 
çom  acertamêto  de  auer  boas  bestas  e  aazo  contynua- 
do  dandar  em  ellas,  morando  em  casa  e  terra  q  aia 
boos  caualgadores  e  preze  os  que  ossom  ,  q  por  sabe- 
rem todo  oque  sobresto  aquy  screuo  :  nem  poderem 
screuer  os  q  em  ello  mais  que  eu  entendem  .  nõ  auen- 
do  dello  boa  contynuada  husança,  com  as  outras  aju- 
das suso  scriptas.  Mas  esto  faço  por  essynar  os  que 
tàto  nom   souberem ,   e   trazer  em  renembrança  aos  <| 

1  * 


4  ENSSYNANÇA 

mais  sabem  as  cousas  que  ihes  bem  parecerem,  e  nas 
fallecidas  emendando  no  cj  screuo  aontros  podecrem 
auysar  Eos  que  esla  manha  quiserem  auer  lieihes  ne- 
cessário q  ajom  as  três  cousas  principaaes  per  que  to- 
dallas  outras  manhas  se  acaiçom,  as  quaaes  som  estas: 
Grande  uoontade,  Poder  abastante,  Emuyto  saber: 
decadahua  direi  apartadamète  oque  me  parece;  ajnda 
que  o  poder  e  querer  no  sejam  uerdadeiraniête  pêra 
ensynar,  por  q  se  gaãçom  per  natureza  e  graça  spe- 
cial  ê  cada  huã  cousa  ,  mais  que  per  ensynfíça  screuo 
sobrelo  por  espertar  odeseio  ,  e  mostrar  opoder,  que 
geeralmente  auemos,  se  uoontade  e  saber  ouuermos. 

Screuendo  esto  alguús  disserem  que  nom  deueria 
filhar  tal  cuidado,  quem  outros  tantos  e  tam  grandes 
sempre  tem  ,  e  desy  que  esta  manha  cada  huí^i  per  sy 
adeprende ,  e  porem  era  scusado  sobrello  screuer  Aes- 
to  respondo  por  me  scusar  e  dar  aontros  que  taaes  o- 
bras  quiserem  fazer  regra  per  amaneira  e  pro])osito 
que  sobrello  tenho.  Conssijrando  oque  lij  do  coracom 
do  homem  que  he  semelhante  aamoo  domoynho,  aqual 
botada  per  força  das  auguas  nunca  cessa  de  seu  andar, 
e  tal  farinha  da  como  assemete  que  mooe.  E  o  cora- 
com que  assy  faz  obrar  como  lhe  conssentem  que  mais 
pensse  E  falecendo  de  boos  cuydados  no  que  he  forte 
deo  sepre  teer  nom  podendo  estar  que  nõ  cuyde ,  tor- 
na ligeiramente  aos  maaos  que  som  nacimèto  de  toda 
maldade,  se  alguãs  uezes  lhe  nom  dam  outros  em  q 
possa  auêdo  spaço,  e  folgança  sem  mal  penssar  seer 
embargado.  Essentyndo  esto  ouallente  eperador  jullyo 
ceear  por  guardar  e  reteer  seu  cuydado  por  muyto  q 
ouuesse  defazer ,  sempre  quando  auya  spaço,  seguya 
oestudo ,  e  alguás  obras  denouo  screuia  Eueêdo  que 
meu  coraçom  nom  pode  sepre  cuidar  no  que  segundo 
meu  estado  seria  melhor,  e  mais  proueitoso ,  alguns 
dias  por  andar  amonte ,  caça,  e  camynhos ,  ou  desê- 
bargadores  nom  chegarem  amym  tam  cedo,  estou  co- 
mo ouciosOj  ajnda  que  ocorpo  trabalhe  por  nom  filhar 


DE  BEM  C  AU  ALGAR  TODA  SELA.  5 

em  tal  tempo  alguu  cujciado  que  empeec^/mento  me 
possa  trazer,  e  por  tirar  outros  de  que  me  Rom  praz, 
achey  j)or  boo  e  proueitoso  remédio  alguàs  uezes  pens- 
sar,  e  de  mynha  maao  screuer  em  esto  por  requery* 
mento  dauoonlade,  e  folgança  que  em  ello  sento,  ca 
doutra  guisa  nunca  ofaria,  por  q  bem  sey  quanto  pêra 
mym  presta  fazcllo ,  ou  leixallo  de  fazer.  Ao  que  dize 
que  esta  manha  sem  liiiro  se  deprende ,  digo  que  he 
ucrdade.  JMas  entendo  que  amoor  parte  detodos  acha- 
ram grande  uantagem  em  leerem  bem  todo  esto  que 
screuo  E  j)or  que  nom  sey  outro  que  sobrello  geeral- 
mcnte  screuesse,  me  praz  de  poer  esta  scyencya  pri- 
meiro em  scripto,  e  antremety  alguTis  cousas  que  per- 
teecem  anossos  custumes,  ajuda  que  tam  aproposito 
nom  uenhara  ,  por  fazer  aalguus  proueito  posto  que 
aoutros  pareça  sobejo.  Econhecendo  que  ossaber  dos 
senhores,  segudo  razom  ,  em  bua  soo  manha  nom  po- 
de seer  muyto  auantejado  ,  por  certo  he  que  auirtude 
espalhada  he  mais  fraca  que  se  for  ajuntada.  JMas  por 
auerem  cõuerssaçom  com  muytas  pessoas  destados,  e 
sabedores  desuairados ,  demais  cousas  que  outros,  a- 
iiendo  entender  natural,  razoadamente  deuem  saber. 
Porem  auoontade  me  requere  que  alg^uas  ouuy,  e  per 
mym  entendo  q  screua  ,  porsse  delias  ameu  juyzo  po- 
derem filhar  boos  auysamentos,  sem  nem  huà  perda. 
E  os  que  esto  quiserem  bem  aprender,  leãno  decome- 
ço  pouco  passo,  e  bem  apontado,  tornando  alguãs  ue- 
zes ao  que  ja  leerom  perao  saberem  melhor  Ca  seo 
leerem  ryjo  e  muyto  juntamente  como  liuro  destorias, 
logo  desprazerá,  e  se  enfadarem  dei,  por  onom  pode- 
rem tara  bem  entender,  nem  renembrar,  por  q  regra 
goeral  he  que  desta  guisa  se  deuê  leer  todollos  liuros 
daiguâ  sciècia  ou  enssynança. 


EXSSYXANÇA 


Aquy  se  começa  apriíiieíra  j)arte  deste  liuro 
que  traiita  daiioonlade. 

CapituUo  primeiro, 
que  faJla  das  razoues  per  que  os  caualleiros  ^  e  scudeiros 
deuem  descer  hoos  CQualgadores  por  o  bem  e  honrra 
q  se  de  tal  manha  segue. 

JL  or  que  todollos  homeês  naturalmente  desejam  sua 
honrra,  proueito,  e  boo  prazer  me  parece  que  todol- 
los senhores  caualleiros  e  scudeiros  esta  manha  deuem 
muyto  deseiar.  Uisto  em  como  delia  estes  beês  ueem 
aos  quea  bem  pratycam  Efalládo  da  honrra  e  proueito, 
logo  seria  de  contar  quantos  em  as  guerras  delrrey  meu 
senhor  e  padre,  cuja  alma  deos  aia,  e  em  nas  outras 
ham  percalçado  grandes  famas,  estados,  e  boas  gaan- 
ças  por  seerem  muyto  ajudados  desta  manha  E  nõ  he 
contra  razom  por  que  huã  das  mais  principaaes  cousas 
de  q  se  mais  ajudam  os  q  andara  em  ella,  e  som  boos 
caualleiros  E  por  tanto  bê  se  pode  entender  a  grande 
uantagem  que  teê  os  boos  caualgadores  nos  feitos  de- 
guerra,  se  ouuerê  as  outras  bondades  razoadamente 
dos  que  som  desta  manha  mynguados ,  posto  que  nas 
outras  seiom  seus  jguaaes ,  pois  he  huâ  das  melhores 
q  os  guerreyros  deuem  aauer.  E  em  boos  feitos  muy 
pouco  perassy  se  aproueitam  de  boos  cauallos  aquel- 
Jes  queos  bem  nom  sabem  caualgar,  segundo  cõpre 
pêra  aquel  feito  e  que  delles  se  hã  desseruyr.  Ca  som 
alguns  boos  caualgadores  dhuãs  sellas  queo  nom  som 
doutras.  Eajnda  taaes  hy  ha  que  seendo  uystos  em  rou- 
pas sobre  cauallos,  que  sollamente  os  corresse  per  a- 
quelles  queo  bem  conhecem  seria  julgados  que  sa- 
byam  pouco  decaualgar,  e  elles  armados  dejusta  nom 
poderiam  uerdadeiramente  seer  prasmados  E  assy  de 
cada  huã  cousa  q  ajom  de  fazer  a  caualo ,  fazem  huQs 


DE   BEM  CAUALGAIl   TODA    SELA»  7 

grande  uatagem  sobre  os  outros,  segundo  per  seu  na- 
tural geito  íorom  enclynados  e  ouuerom  aazo  degran- 
de  custume,  e  boa  essynàça.  i\las  ocaualleiro  ou  scu- 
deiro  q  dello  pouco  souber,  bem  deue  seer  julgado  dos 
queo  por  tal  conheceroin  ,  que  llie  niyiigua  huà  das 
manhas  de  q  muyto  ajudados  som  os  quea  sabem  co- 
mo deuem.  Por  que  ella  faz  aaiem  das  outras  uanta- 
gees  grande  acrecetanièto  em  boos  coraçooes  E  esto 
he  prouado  pello  q  ueeinos  dos  moços  e  doutros  ho- 
nieês  de  tam  fraca  desposiçõ  q  clarainête  confessa  que 
apee  seno  sente  abastantes  porá  fazer  oq  os  boos  e 
uallétes  faze  Ede  cauallo,  se  desta  manha  som  bem 
sabedores,  e  boa  uõotade  teê ,  logo  êtendê  quesse  a- 
uàtejarõ  sobrelles,  ajuda  que  boas  uoontades  tenha  seos 
delia  mynguados  conhecere.  E  assy  assêtem  uerdadei- 
ramente  em  muytas  outras  cousas  que  pêra  feitos  de- 
guerra  sõ  necessárias  E  fazelhes  mais  sêpre  trazer  boos 
cauailos,  e  esto  por  se  entenderê  delles  ajudar,  e  bem 
os  conhecer,  e  manteer,  e  acrecêtar  em  boos  custu- 
mes ,  e  mynguar  em  grandes  tachas  que  per  outros 
queo  bem  fazer  nô  soubessem  ,  seriam  acrecêtados  E 
trazendoos  taaes  sempre,  esta  em  razom  deauere  honr* 
ra  e  proueito  em  grande  auantagem  sobre  outros  q 
taaes  nom  os  trouuerem  E  assy  he  uisto  per  sperien- 
cia  claramête  as  mais  das  uezes  per  aquelles  q  em 
taaes  feitos  despendem  gram  parte  de  suas  uidas  Epo- 
rem  quantas  auãtagêes  recebem  ênas  guerras  os  que 
boos  cauailos  em  ellas  trazem  ,  e  bem  os  sabe  caual» 
gar  atodollos  que  em  ella  andarõ,  e  os  grandes  e  boos 
feitos  passados  uyrô  e  ouuyrom  he  bem  em  conheci- 
mêto  E  por  tSto  leixo  demais  sobrello  screuer  por 
niuyto  nô  perlongar. 


8  ENSSYNANÇA 

Capilnllo   se(]iindo 
daajuda  rjue  recebem  nas  manhas  da  paz. 

l\  o  tempo  cia  paz  recebem  os  que  desta  manha  hu- 
sam  g^raudes  itãtageês  em  justar,  tornear,  em  jugar  as 
canas,  reger  alguã  lança,  e  sabella  bem  lançar  E  assy 
em  todas  outras  manhas  que  acauajlo  se  fazem  que 
som  muyto  husadas  em  casa  dos  senhores  Por  q  em 
todo,  segundo  oq  naturalmente  hã  percalçado  de  cada- 
hucl  delias ,  assy  recebem  por  seerem  boos  caualgado- 
res  uatagees  sobre  os  q  taaes  nom  som ,  ajnda  q  per 
saber  delles  e  perposyçom  dos  corpos  jguallados  seiã. 
E  pêra  seerem  boos  raonteiros  lhe  faz  conhecimêto 
grande  auãtagê  em  podere  melhor  sofrer  os  grandes 
encontros,  e  seerem  soltos,  e  auysados  pêra  bê  ferir, 
e  fortes  em  suas  sellas ,  e  sabedores  em  sofrerê  bem 
seus  cauallos ,  e  saberêsse  delles  ajudar  onde  e  como 
compre,  e  se  guardarê  de  muytos  perigoos.  Todo  esto, 
e  outras  cousas  q  na  terceira  parte  serom  declaradas, 
sõ  muyto  necessárias  de  saberê  os  q  boos  mõteiros 
deseiõ  seer. 

Dalhes  mais  auantagem  debem  parecer ,  e  os  se- 
nhores terem  delles  por  ueerem  q  som  boos  caualga- 
dores  algCia  parte  deboa  presunçõ  pêra  feitos  deguer- 
ra  5  e  doutras  boas  manhas  q  muyto  uai.  Eos  preza 
por  seerem  seguydos,  os  outros  em  teerem  boos  ca- 
uallos, e  os  saberem  bê  caualgar,  e  correger,  e  auer 
em  sua  casa  muytos  e  boos  caualgadores  ,  e  bem  era 
caualgados  de  q  amayor  parte  dos  senhores  muyto  praz 
E  ajnda  lhe  pode  prestar  por  se  demostrarê  onde  quer 
que  forem  q  som  sendeiros,  e  podem  logo  fazer  tal 
manha,  per  q  seja  preçados  ,  e  conhecidos,  q  som  ho- 
meês  pêra  feito  e  criados  em  boa  cota  seos  outros  gei- 
tos  razoadamête  ê  elles  uyrê. 


DE    BEM   CAUaLGAR   TODA   SELA.  » 

Capital  lo  JII. 

do  que  se  pode  dizer  contra  o  proueito  q  disse  q  desta 

manlia  sesseguia  cô  sua  reposta. 

JAl  onsse  deue  oolhar  oq  algiuis  contra  esto  porlerom 
dizer  q  u}  rõ  miiytos  seer  boos  caualgadores ,   e  pouco 
por  ello  prezados,   por  q  esta  manha  j)erssy  soo  no  he 
goticiente  pêra  fazer  alguíi  muyto  ualer,  como  faze  ou- 
tros mesteres  per  q  os  homees  uiue,   saluo  se  for  cor- 
retor,  ou   quiser   uender  cauallos  criandoos ,   e  os  fa- 
zendo, por  q  as  cousas  principaaes  ecamynhadores  com 
agraça  de  deos  peraos  homees  auerê  todo  bem  em  es- 
ta uyda,  e  na  outra  som  estas.  Auerê  boas  uoontades 
de   fazer  todalias   cousas   uirtuosamente,   e  lealmente 
adeos   e  aos  homees ,  e  teere  boa  e  razoada  fortelleza 
do  corpo  e  do  coraçom,  per  que  auerã  poder  de  come- 
ter,   contradizer  e  soportar  todas  cousas  fortes  e  con- 
trairás. Esseerê  sabedores  per  boas  speriencias,  e  na- 
tural entender  das  cousas  que  perteecê  asseus  estados, 
e   ofícios   per   q   aiam  saber  certo,   e  uerdadeiro  do  q 
deuem  querer,  e  fazer  obrar,  contra  dizer,  e  soportar 
em  sy ,  e  nas  obras  defora.  E  aqueslas  sò   as  uertudes 
perssy   soficientes  pêra  perfeitamente   fazerem   uijr  a- 
grande  be  os  que  as  ouuerê,  e  outras  manhas  nõ ,  sal- 
uo em  quanto  forem  destas  acõpanhados ;  mas  aquel  q 
destas  três  for  desèparado,  nõ  espere  por  bê  caualgar, 
justar,  dãçar,  nê   por  outra  manha,  q  assy  como  ca- 
ualleiro,  ou   sendeiro   muyto  possa  ualler,  bê  poderá 
seer  que  uallera  como  home  seruyçal  demester  ou  jo- 
gral E  aquestes  quàto  mais  destas  três  uertudes  prin- 
cipaaes  ouuerê,   tanto  melhores  som.  Eos  que  teê  as 
principaaes,  som  muytas  uezes  ajudados,  dalguãs  des- 
tas manhas  somenos,  e  todos  se  deuem  trabalhar  pêra 
saberê  mujtas  delias,  segundo  oestado,  hidade ,  e  des- 
posiçõ  em  q  forê  por  ogrande  proueito  e  folgança  que 
delias  muytas  uezes  percalço  e  filha  os  que  delias  sabe 

2 


15  k.nssynan(,;a 

hijsar,  roguardando  í^c^ylos  e  tr-pos  segundo  cOprir  pê- 
ra so  bí"  fazerem. 

CapifnUo  IIIL 
da/oí(/ã^n  q  se  da(pj.csla  manJia  segue. 

■  ^  oIí;ri(;a  da  ra/õ  iniiyla  deue  daner  os  q  nosfa  manha 
Ibre  auanlejados,  ])or  q  uoomos  Tj  todollos  Tj  fazen»  me- 
lhoria V,  alti^uAs  do  pouco  jironoito,  assy  como  laçar 
barra,  e  saltar  ap<M>s  jmiloK  ,  o  outras  somolliAtííS  fol- 
gam áo  os  lounarõ  Tj  sobre  outros  sõ  anãtojados.  Esse 
estes  natiiralmento  de  lai  ionnor  s(;  ajjogro,  rpjo  farO 
os  Tj  o.síii  sabr  daurítaj^r  (\\n\  anire  as  outras  he  tam 
estr(Mnaíla  pcraos  q  perteece.  l)  ajnda  i^tMíralmeríte  he 
V  coidierymrto,  Tj  as  boas  o  híílas  bcíslas  alog;rem  muy- 
lo  os  ("orai^oors  dos  q  andam  oiu  ellas  se  as  sabe  ra- 
zoadamrte  canalii^ar.  F^assy  cochulindo  eTj  primeirame- 
le  disse,  mir  nyr  estes  bees  suso  tlictos  e  folgança  <pio 
se  desta  manha  segue,  e  outros  muytos  que  n)ais  lar- 
gamrte  jxjdero  dizer  se  (ai  for  (pn^  llu^  jxjrteera  ,  be 
tem  razom  deamuyto  desolar,  fvssobresta  j)arte  screuy 
tanto  por  endnzíír  os  quea  leercím  q  aiam  gram  uõota- 
do  ,  por  q  soa  ouuero  ligííiramõte  ,  auerom  opoder,  e 
saber,  que  pêra  seere  boos  caualgadores  lhes  será  ne- 
cessário, Kssomariamente  dehomem  aq  cõuè  tcer  boas 
bestas  ,  e  as  saber  bem  caualgar  sessegiiem  estas  seis 
auãtagees. 

A  primeira  seer  mais  prestes  pêra  seruir  seu  se* 
nhor,  (í  acudir  amuytas  cousas  (pie  lhe  acontecer  po* 
derom  <lc  sua  honrra ,  í?  |)roueito. 

Assegunda  andar  folgado;  terceira  borrado;  a  quar- 
ta, guar<lado;  a  (piinla  scmt  tymodo  ;  assexla,  ledo; 
asseitema,  acrecota  moyor ,  e  mylhor  coraçom.  10  a- 
questo  so  entende  íj  auerom  estes  bef^s  niujto  mais  Tj 
9Q  ieuessr*  maas  bestas,  e  as  sí>ubess<*í  mal  caualgar, 
aucndo  as  oulras  cousas  igualmete  pêra  senlirem  esteí 
proueitos  suso  seriplos    J^laalenj  desto  mujto  he  depre- 


DE    BEM    CACALGJkR  TODA    SELA.  11 

zar  esla  manha,  por  que  dhomè  sãao.  q  aia  boa  e  n- 
ja  uòotade.  e  sobejo  nom  ens^oriie.  larde  ou  nunca  se 
perde  coroo  fazem  as  roais  detodalias  ouiras  E  aquè 
boo  geiío  leuer  desselrazer  grande  auaniagê  lhe  dará 
delou§:a(ueDle  parecer  bera.  quando  for  em  cauallo. 
ou  qual  quer  ouira  razoada  besta  cora  perteecète  cor- 
reg^imenio. 

Acabasse  aprimeira  parte  da  uòoLade  E  começaisse 
assegunda  do  poder. 

CapituUo  primeiro 

do  potlír  do  corpo,  e  da  fazenda. 

VVuanto  perteèce  ao  poder  abastante  q  dcuem  aiier 
os  cauaJíradores  se  departe  ê  duas  partes.  Huà  de  des- 
posiçom  do  corpo,  e  oulra  da  fazenda.  Do  corpo  pès- 
«om   alsrúus   por  fraqueza  ou  ueliiice,   ou  gordura,   q 
nõ   poderõ   seer  boos  caualgadores.   e  porem  perdem 
aadoUde .   e  leixam   da   prender,   oq    pêra   ello  saber 
lhes  he  uecessario    Essom  conhecidamète  os  mais  em 
esto   encanados  e  assv  em  outras  muvtas  cousas  boas 
-q   por   esta  desasperaçora  perdem  ,   q  se  boa  esperaça 
ouuesem  cobrar  poderiom  Epodè  razoadamêle  seer  fo- 
ra de  tal  teêcom  os  que  filharem  este  cuydado.  penssê 
que  svntè   em  st  por  que  duuydam  de  poderè  percal- 
çar  esta  manha  Esse  for  fraqueza,   ou  uelhice,  ou  ou- 
tra  al^uà   cousa.   Joeo   acbarom   outros   mais  fracos  e 
iDais  uelhos  que  abem  sabe  E  assy  vgualmenle  coche- 
cerom  amoor  parte  dos  homeès  nos  outros  faliimentos 
^  se  leuerè  alguus  uerom  outros  q  os  teem  tamanhos 
e  mayores  q  dõ  sò  por  elies  tanto  embargados  q  grade 
parte   delia  nõ   aiom.    E  quando  uirè  q  os  taaes  como 
«lies,  e    mais  derribados  era  seus  falJvraentos  apercal- 
çam   e   husà   delia  assaz  razoadamenle ,   bem  deuê  co- 
*fcecer  que   se  uoontade  e  saber  ouuerem  que  opcder 
ad  lhe  íjdlecera  pois  podem  os  que  pêra  eik>  menos 


12  ENSSYNANÇA 

teê  que  elles  E  bem  pesso  que  se  tal  teeçoni  teiies- 
sem  todos ,  q  poucos  seria  q  per  ni3-ngua  tia  desposi- 
com  do  corpo,  razoadamôte  boos  caualgadores  leixas- 
sê  desseer.  Nõ  digo  boos  por  auãteiados  por  q  tenho 
q  em  toda  terra  acharõ  bem  poucos  q  aia  todallas 
meestrias  queo  stremado  caualgador  deue  auer  segun- 
do alguà  parte  por  mym  será  declarado  Mas  abasta 
que  sobre  as  bestas  ê  feyto  e  parecer  seiã  homeês  e 
nõ  bestas  mais  sem  proueito  que  ellas. 

Capitullo  segundo 
do  poder  da  fazenda. 

\J  poder  da  fazenda  se  departe  em  duas  partes  Haã 
pêra  cõprar,  e  auer  boas  bestas,  e  aoutra  peraas  go- 
uernar  E  pêra  cadahuã  destas  se  grade  uôotade  teuere 
e  muyto  saber  apoucos  fallecera  opoder.  Ca  pois  aos 
tafuees  nõ  myngua  q  jugar,  e  aos  bêbedos  q  despen- 
dam em  auãtajados  uynhos,  e  assy  das  outras  semelhâ- 
tes  manhas  astrosas  de  que  os  senhores  nom  recebem 
ajuda  antolhas  defende,  ou  contra  dizem  :  muyto  mais 
esta  em  razõ  nõ  mynguar  em  esta ,  se  tam  ryja  uoon- 
tade  teuere ,  por  q  nõ  ha  despesa  pêra  q  mais  sê  epa- 
cho  requeiram  mercees  aos  senhores  q  pêra  se  cõpra- 
rê  bestas,  e  as  gouernarê,  nê  os  senhores  mais  gee- 
ralmente  acustumê  de  fazer.  Ossaber  presta  muyto  ao 
poder,  por  se  auerem  mais  de  barato  per  cõpra  de  po- 
tros, e  outras  q  nõ  som  em  eõta  E  por  boo  conhecy- 
mêlo  cj[  delias  teem  cõprãnas  e  fazênas  e  logransse 
delias,  oque  outros  queo  nom  sabem  fazer  nõ  poderia. 
E  esto  medes  presta  na  gouernãça  por  que  certo  he  q 
muyio  mais  debarato  os  q  desto  bê  sabe,  e  uôotade 
tenham  gouernarõ  huã  besta  q  outros  mynguados  de- 
boo  saber.  E  da  maneira  que  se  ha  de  teer  na  gouer- 
nãça das  bestas  em  ueraão  e  em  jnuerno ,  e  pêra  as 
poer  em  carne  e  gouernar  em  ella ,  e  do  conhecimen- 
to das  doenças ,  criamento ,  e  enssyno  era  seendo  no^ 


DE  EEM  CAUALGAR  TODA  SELA.  13 

nas  -  nõ  entendo  lallar  por  que  he  larganiete  scripto 
em  alguns  liuros  dalueitaria.  Mas  quem  grande  nõota- 
de  teuer,  e  de  todo  esto  bê  souber,  seno  for  desaue- 
lurado  nas  bestas,  cõ  razcJ  sèpre  mais  poderoso  será 
que  os  outros  peraas  auer ,  e  gouernar. 

Aqui  falia  da  iiri  parte  em  que  se  dam  xvi  auysa- 
mentos  pryncypaaes  ao  boo  caualgador. 

Acabadas  as  duas  princypaaes  partes,  huã  q  decla- 
ra alguas  razooês  por  q  deuê  caualleiros  e  scudeiros 
auer  grande  uoontade  pêra  cobrar  esta  manha ,  e  ou- 
tra que  mostra  opoder  do  corpo  e  fazenda  q  amayor 
parte  de  todos  tee  em  abastança.  Screuerei  da  tercei- 
ra em  q  serã  mostrados  aquelles  auysamentos  q  poder 
screuer,  por  auere  omuyto  saber  q  disse  primeiro  pê- 
ra esta  manha  bem  auerem  seer  necessário  E  por  que 
algUcis  cousas  taaes  hi  ha  que  nom  po/lem  seer  postas 
em  scripto  como  se  praticam  e  demostram  per  uista, 
fique  carrego  aos  q  nõ  podere  entender  oque  screuo 
de  pregutare  aos  que  uirê  qobê  sabem  ,  por  q  elles 
lhes  enssynarom  oque  perssy  nõ  poderem.  E  pêra  esto 
he  de  saber  q  huíí  boo  caualgador  deue  auer  estas  cou- 
sas que  se  seguem.  Aprimeira,  e  mais  principal  q  se 
tenha  fortemente  na  besta  ê  todallas  cousas  qut3  ella 
fezer ,  e  lhe  possam  acõtecer.  Assegunda  que  seia  sem 
receo  decayr  delia,  e  de  cayr  com  ella  em  razoada 
maneira  comesse  tal  atreuymento  deue  auer,  segundo 
for  apessoa  besta,  lugar  e  oque  ouuer  em  ella  defa- 
zer.  Aterceira  que  seia  seguro  na  uõotade  e  contenen- 
ça  do  corpo  e  do  rosto  em  todo  oque  ouuer  defazer, 
essaibha  mostrar  sua  segurãça.  A  quarta  q  seia  asses- 
segado  na  sella  em  maneira  razoada  segundo  requere 
ogeito  dabesta,  e  oque  faz  A  quinta  que  seia  solto  em 
todas  cousas  que  fezer,  e  aquy  darey  breuemente,  se- 
gundo bem  poder  auysameto  dalguãs  manhas  que  fa- 
zem acauallo.  A  sexta  que  saibha  bem  ferir  das  sporas 


14  ENSSYNANÇA 

segundo  se  requere  em  cada  têpo  e  besta  Eaquy  scre- 
uerey  queiandas  deue  seer  as  sporas,  e  como  com  paao 
ou  uara  se  deuem  goiíernar.  Asseitema  que  traga  bè 
amãao  atodos  freos  e  bocas  de  bestas  e  todo  têpo  A- 
oytaua  quesse  saibha  guardar  dos  perijgoos  q  acontece 
por  as  queedas,  e  topainento  das  aruores  de  homees  e 
bestas  em  que  per  niyngua  dessaber  muytos  caioam. 
A  nona  que  saibha  bem  as  terras  ,  per  inatas,  serras  e 
colladas  e  per  quaaes  quer  outros  logares.  Adecyma 
que  seia  bem  auysado  em  todallas  cousas  que  sobre 
abesta  ouuer  defazer  Huudecyma  c|  seia  fremoso  ena 
toda  seila,  e  maneira  de  caualgar  ê  as  cousas  que  a- 
besta  fezer,  segundosse  per  tal  seJa  e  geito  e  oque  faz 
requere  Essaibha  correger  sy  e  sua  besta  pêra  bem 
parecer  e  se  mostrar  no  bem,  e  encobrir  ocontrairo 
dessy  e  delia  Oduodecymo  que  seia  boo  aturador  em 
andar  grandes  caminhos  e  fazer  grandes  corridas  cora 
pouco  trabalho  seu  e  de  sua  besta.  Oterdecymo  q  sai- 
bha bê  conhecer' as  bocas  das  bestas,  e  mandarlhes  fa- 
zer os  freos  de  todas  maneiras,  segundo  cõprir  Qua- 
trodecymo  que  lhe  conheça  as  mynguas,  tachas,  e  as 
saibha  tirar,  ou  emendar  Quyntodecymo  q  saibha  co- 
nhecer, guardar,  e  acrecentar  as  bondades  que  ouuer 
nõ  peiorando  per  desordenada  uõotade  ou  myngua  de 
saber.  Sextodecymo  q  per  speriecyas  e  regras  geeraaes 
conheça  as  bem  feitas,  e  boas  pêra  cadahuã  cousa. 
Outras  mais  cousas  compria  dessaber  operfeito  caual- 
gador  q  som  scriptas  em  iiuro  daalueitaria ,  mais  por 
muyto  nõ  perlõgar ,  e  outros  sobrello  screueerê.  E 
desy  por  eu  nom  auer  delias  tam  grande  speriêcia, 
como  destas  suso  scriptas  as  no  entendo  descreuer, 
mais  quem  os  liuros  sobrello  feitos  uir,  quanto  mais 
souber,  tanto  ê  esta  sciêcia  mayor  meestre  será. 


DE   BEM    CAUALGAR   TOl")A    SKLA.  15 

Capiiiillo  primeiro 

que  falia  de  seer  forte  na  besta  c  todallas  cousas 

que  fezer  ,  e  lhe  acontecer. 

JjJii  disse  que  hiiã  das  principaaes  cousas  que  auya 
dauer  oboo  caualgador  era  seer  forte  em  se  teer  na 
besta;  e  pêra  esto  he  de  saber  que  destas  seis  partes 
nos  podemos  ajudar  Aprimeira  dauer  boo  gcito  de  an- 
dar dereitamentc  na  besta ,  e  em  toda  cousa  q  fezer. 
Assegunda  do  apertar  das  pernas  Aterceira  do  firmar 
dos  pees  nas  estrebeiras  A  quarta  do  apegar  das  maãos 
ao  tepo  da  necessidade  A  quynta  do  conhecymeto  da 
maneira  do  caualgar  q  cadahufi  sella  requero  segundo 
sua  feiçõ  e  corregymêto  pêra  seer  em  ella  mais  forte 
Assexta  dessaber  correger  sy  ,  assella ,  e  as  estrebeiras 
dauàtage  pêra  todo  oque  ouuer  de  fazer  e  requero  o 
geito  q  abesta  tem  Detodas  estas  partes  nos  he  neces- 
sário denos  saber  bê  ajudar,  mes  nò  igualmente,  n© 
em  todo  têpo ,  nem  pêra  toda  besta  por  q  as  pryncy- 
paaes  e  mais  geeraaes  som ,  assabedoria  desseer  derei- 
to  segundo  as  cousas  q  faz  E  oapertar  das  pernas  e 
desy  aajuda  dos  pees  e  das  maaos  e  conhecymeto  das 
sellas  e  corregymêto  dessy  delias  e  das  estrebeiras. 

CapituUo  Ser/undo 
ãamaneyra  das  sellas  dehrauãte, 

X  era  esto  suso  scripto  melhor  se  declarar  he  de  sa- 
ber que  geeralmente  hi  ha  cinquo  geitos  decaualgar 
que  som  certos,  e  aque  todollos  outros  se  encostam. 
Primeiro  he  em  taaes  sellas  que  requerê  as  pernas  de- 
leitas, e  huu  pouco  diãteyras  e  firmadas  nas  strebei- 
ras ,  e  aseentadas  em  tal  guisa  que  ygualmente  se  aia 
em  todas  três  partes ,  nõ  poendo  mayor  femença  em 
ofirmar  dos  pees  que  em  no  apertar  das  pernas  ou 
sseer  da  selia,  mais  de  todas  ires  em  ygual  aia  aquella 


16  ENSSYNANÇA 

boa  ajuda  que  se  delias  pode  e  deua  auer  E  as  sellas 
que  requere  principalmente  este  caualgar,  das  q  hu- 
sam  em  esta  terra,  som  aquellas  aque  ora  chama  de- 
brauante  e  outras  de  semelhante  feiçom  Por  que  em 
taaes  como  estas  amaneira  que  deue  teer  quem  em  el- 
las  forte  quyser  andar  he  esta,  alongar  as  estrebeiras 
que  el  se  assete  ê  ella,  teendo  as  pernas  dereitas  E 
nom  porem  tanto  q  lhe  faça  perder  aforça  dos  pees , 
nê  os  deuetanto  da  firmar  que  afroxe  as  pernas,  mais 
assy  como  suso  he  scripto  detodas  três  partes  deue 
teer  têeçom  desseer  igualmente  ajudado  sem  teendo 
mais  feraença  ahuã  q  aoutra. 

Capiíullo  III. 
dos  que  nom  f aze  grande  côta  das  estrebeiras. 

V^egundo  detodo  seer  na  sella ,  trazendo  as  pernas  de- 
reitas, ou  alguú  pouco  encolheitas  nõ  fazendo  mêeçom 
das  estrebeiras,  em  tal  guisa  que  os  pees  lhe  ande  em 
ellas  luyndo  E  esta  maneira  segíjdo  me  dizem  husara 
em  jngraterra,  e  em  alguãs  comarcas  de  ytalia  em  as 
sellas  que  elles  custumã,  posto  que  seiam  de  feyçoões 
desuairadas ,  e  desta  maneira  afortelleza  do  caualgar 
sta  em  auer  principal  tençom  em  se  teer  dereito ,  e 
apertar  as  pernas  segundo  for  otempo  seendo  sempre 
dereito  em  ellas  nom  fazendo  grande  conta  das  stre- 
beiras  Porende  segundo  amym  parece  ajnda  que  as 
feiçoões  das  sellas,  e  husãça  esto  requeira  aajuda  das 
strebeiras  que  bem  auer  se  pode,  nom  deue  seer  lei- 
xada  teendo  porem  mais  enteençom  no  apertar  das 
pernas ,  e  se  teer  dereito  por  saber  andar  com  ocorpo 
em  todallas  cousas  que  abesta  fezer  que  em  aajudd 
dos  pees. 


DE  DEM  CAU ALGAR  TODA  SELA.  17 

CapiluUo  IIÍI. 
dos  que  andam  firmes  e  alto  nas  síreheiras. 

í  erceiro  andar  firmado  nas  strebeiras  e  pernas  derei- 
tas  no  seendo  denlro  na  sella,  raas  recebendo  algua 
ajuda  dos  arçoões,  e  as  cm  que  assy  caualgam  som  a- 
quellas  em  que  antijg-amente  auyam  acustumados  e  es- 
ta terra  dandar  sobre  cauallos.  E  as  em  que  justamos, 
e  torneamos,  e  outras  dessemelhãtes  feicooès ,  ama- 
neira  do  seu  boo  caualgar  he  esta,  ordenar  em  tal 
guisa  que  as  estrebeiras  seia  firmes  pêra  troxamento 
ou  correas  forçadas,  ou  per  outra  boa  maneira,  deuês- 
se  trazer  nõ  laçadas  pêra  diate.  E  as  pernas  do  caual- 
gadòr  deuem  seer  mais  dereitas  sêpre  que  el  poder 
trazer;  e  os  pees  be  firmes  e  nunca  seer  na  sella  por 
que  faz  perder  afremosura,  e  soltura,  e  assessego ,  e 
ajnda  seer  menos  forte.  E  nom  se  tenha  tèeçom  q  na 
justa  pêra  seer  forte  he  auãtagem  seer  em  ella  êco- 
Ihendo  algua  das  pernas,  por  que  certamente  he  ocon- 
trairo  seas  estrebeiras  sò  atroxadas  ate  deuê  atodo  po- 
der teellas  ambas  em  todo  tempo  bem  dereitas  por  q 
scusã  muyto  os  reueses  e  o  cayr,  e  ofaz  mais  solto  e 
mais  fremoso. 

CapituUo  quynlo 
do  caualgar  com  as  pernas  encolhydas. 


Q 


uarto  trazer  as  pernas  sepre  encolhidas,  e  asseen- 
tado  na  sella,  e  firmado  nos  pees  E  todo  igualmente 
assy  como  disse  q  se  deuya  fazer  nas  selas  debrauãte 
e  outras  daquel  caualgar,  mais  em  estas  nunca  denem 
seer  estiradas,  nem  em  as  debrauãte  encolhidas  E  a- 
questas  som  as  gynetas ,  e  outras  defeiçom  que  de- 
manda tal  caualgar  Eassua  maneira  mais  firme  he  çar- 
rarsse  todo  com  abesta  omais  q  poderê  pees,  e  todal- 
las  pernas,  teendoas  êcolhidas,  e  andando  sêpre  em 
meo  da  sella,  nõ  sç  botando  sobre  os  arçooès  trasei- 

3 


18  ENSSYNANÇA 

ros,  nem  dealeiros  Eos  pees  bem  firmes  dobrados  as- 
sy  que  lhe  pareça  q  tem  as  estrebeiras  filhadas  com 
elles,  baixando  os  calcanhares,  teendo  porem  em  to- 
do huu  geito  igual  como  ia  disse,  nõsse  desêparando 
assy  no  seer  da  sella  que  afroxe  as  pernas  e  leixe  de- 
lirmar  os  pees ,  nem  firme  tanto  os  pees  que  se  leuan- 
te  da  sella,  ou  afrouxe  as  pernas,  nem  as  aperte  de 
tal  guisa  q  traga  os  pees  soltos ,  e  lhe  luam  nas  estre- 
beiras Edeue  apertar  as  pernas  igualmente  dos  uètres 
e  dos  giolhos,  e  de  cyma  delles,  assy  que  em  todo  te- 
nha huu  modo  igual  desse  apertar,  e  teer  firme  quan- 
to bem  poder.  E  o  seer  no  meo  destas  sellas  se  deue 
entender  se  abesta  corre  ou  passeia  Esse  salta  boo  he 
têersse  no  meo  da  sella,  firmando  os  pees  e  apertando 
as  pernas,  êdereitar  ocorpo  pêra  traz  segundo  será  de- 
clarado onde  fallar  damaneira  q  os  homeês  deuem  teer 
pera  se  guardar  de  nom  cair  pêra  diante  Esse  abestai* 
bem  trotar,  omelhor  geito  he  teersse  firmado  no  ar- 
çom  traseiro  Esse  agallopa,  trota  mal  ou  ryjo ,  leuã- 
tarsse  nas  estrebeiras ,  e  chegarsse  ao  arçom  deâteiro 
Podesse  em  todas  estas  sellas  suso  scriptas  teer  esta 
maneira  de  caualgar  das  pernas  êcuruadas  assy  como 
em  sellas  gynetas  e  seer  forte  e  assessegado ,  e  solto 
mais  notn  fremoso  em  outras  que  eu  uisse  senom  era 
ellas  nas  quaaes  amym  bem  parece  Os  quaaes  dereita- 
mente  caualgam  aos  têpos  que  as  deuem  usar. 


Q 


Capitullo  Sexto 
do  caualgar  cm  ousso ,  e  hardom. 


uynto  caualgar  sem  estrebeiras  em  bardoões  ,  ou 
todo  e  ousso  E  aquestes  teê  toda  sua  raeestria  no  a- 
pertar  das  pernas,  e  teersse  dereito,  e  teê  três  defe- 
rêças  Primeira  com  as  pernas  tendidas  e  apertadas  dos 
geolhos,  e  das  coxas.  Segunda,  encolhendo  as  pernas 
todas ,  e  çarralas  com  abesta-  Terceira  apertado  assy 
todallas  pernas ,  metendo  as  pontas  dos  pees  acerca 
dos  couedos  das  bestas. 


DE   BEM   CAUALGAR   Ti)  O  A   SELA.  Ifl 

CapiluUo  Sciicmo 

do  jjroueilo  que  hc  cm  saberem  bem  husar  de  iodas  estas 

tnaiíeiías  de  cnualga?'. 

J.  odallas  outras  maneiras  decaualgar  se  Tícostã  aestas 
cynqiio  E  uejo  em  esta  terra  todas  acustumar,   delles 
è  boa  e   ordenada   maneira  segundo  assella  e  a  obra 
que   faz   abesta   orrequere    E  outros   por  nom  auereni 
mais  que  huu  geito,  todailas  sellas  querem  assy  caual- 
gar    Mais  aquel  q  boo  caualgador  deseia  seer  deiodas 
estas  guysas   suso   scriptas  deue  saber  ornais  que  po- 
der;  por  q  lhe  cduijra  per  necessydade  muytas  uezes 
caualgar  cada  huã  delias  por  quebrar  da  estrebeira,  ou 
por  ás  achar  lõgas  muyto,   ou  curtas  em  tal  caso  q  as 
nom  possa  correger  Essellas  q  achara  de  feiçooês  des- 
uairadas   Esse  nom  ouuer  em  custume  seno  as  de  bua 
feiçom   selhe  acontecesse  de  seer  em  alguíi  boo  feito 
em   outra  desuairada,    nõ  seria  meo   homem.    Essom 
muytos  que  chamam  caualgadores  que  logo  claramen- 
te dessy   conhecem   q  selhe  quebrasse  huã  estrebeira 
que   nom  poderiam  ne  ousariam ,   sem  grande  perigoo 
êtrar   em   cousa   douidosa,   e  outros  queo  sabem  nom 
seriam  com  ello  muyto  toruados  E  bem  pensso ,  ques- 
se  posessem  huu  marim  de  feez  em  huã  sella  debrauã- 
te,  e  lôgas  as  estrebeiras  que  nom  seria  muyto  forte, 
ne  solto  caualgador.    Ajnda  que  segundo  sua  guisa  os- 
soubesse  razoadamente  fazer.  Ne  tenho  que  huu  jngres 
ou  francos  se  bem  corregesse  em  huíl  cauallo  de  sella 
gyneta  de  curtas  estrebeiras  se  antes  em  ella  nom  ou- 
uesse  custume   dandar  E  assy  se  fará  a  cada  huii  que 
nom  souber  mais  de  huã  maneira  que  como  se  acertar 
em   outra  sella  será  meo  tolheito,   oque  faz  oboo  ca- 
ualgador pello  côtrairo  por  q  em  tepo  de  necessydade 
de   sella  nem   destrebeiras ,   nom  recebe  tal  torua  per 
queo   embargue   muyto  do  que  deue  fazer  arrespeito 
da  muy  grande  q  outros  recebem. 

3  * 


20'  ENSSYNANÇA 

CapiíiiUo  VIU. 
como  pêra  iodo  presta  andar  dereilo  em  todaUas  cousas 
que  ahcsia  faz  e  declarar  como  podemos  cayr  pêra 
cada/ma  parte" 

Pêra  se  teer  forte  em  todas  estas  maneiras  decaual- 
gar  he  todauya  principalmêle  necessário  saber  andar 
dereito  ,  como  dito  he  em  todo  que  abesta  faz  ,  e  co- 
nhecer de  quesse  ha  dajudar  e  que  a  defazer  E  desy 
prestam  as  outras  cousas  segundo  será  declarado  Eo 
teer  dereito  deuesse  entêder  assy.  Da  besta  nom  po- 
demos seer  derribados  seno  pêra  huã  de  quatro  partes, 
pêra  deSte,  e  pêra  detrás,  ou  pêra  cada  huã  das  ilhar- 
gas :  pêra  deante  me  pode  derribar  ate  parando ,  ou 
pullando  tornar  apoer  as  mãaos  acerca  onde  as  tinha, 
como  alguãs  bestas  fazem  com  malicia ,  ou  lançando 
as  pernas,  e  metendo  acabeça  antre  as  mãaos  em  aca- 
bando depullar  de  correr  ck)utra  desordenada  guisa,  ou 
em  saltando  algufi  feito,  teendo  abesta  geito  de  saltar 
sobre  as  maãos.  E  lançandosse  de  sospeita  per  huã 
barroca  abaixo,  uallado ,  per  outro  semelhante  lugar, 
ou  embicando ,  posto  que  se  abesta  tenha  E  parando 
quando  corre  sobre  as  mãaos  Pêra  trás  me  pode  derri- 
bar aluorando  ,  pullando  ,  saltando  ,  logo  no  começo 
começando  acorrer,  sobido  ryjo  per  huu  lugar  muyto 
agro  dessospeita.  ou  muyto  spesso  que  algufi  mato  me 
torue  e  caya  per  desacordo  Ha  huã  parte  ou  aaoutra 
posso  cair  spantandosse  ao  traues  uoltandosse  ryjo  fur- 
tando aespalda  quando  pulla  lança  os  couces  ou  come- 
çando danteparar  desuyandosse  acada  huã  das  partes 
Posso  ajnda  seer  derrybado  pêra  cada  huã  destas  qua- 
tro partes  por  força  q  me  sela  feita,  ou  regendo  algua 
]ãça ,  lãçandoa,  cortando  com  spada.  E  fazentlo  algiiâ 
outra  cousa,  em  aqual  nom  me  sabedo  bem  teer  posso 
cayr,  ajnda  que  abesta  nom  faça  por  que  me  deua 
derrubar. 


BE  BEM  CAr ALGAR  TODA  SELA.         21 

CapituUo  IX. 

ãe  como  se  hcnn  deteer  nas  cousas  que  as  bestas  fazem 

per  q  deiTybam  pêra  deâtc- 

a\-  todas  estas  maneiras  per  que  podemos  seer  derri- 
bado, nos  he  grande  auátagem  sabermos  andar  derei- 
to,  por  q  logo  ueerees,  como  por  myngua  deglo  bem 
sabeerê  caãe  amoor  parte  dos  liomees.  Se  huã  besta 
com  mygo  antepara  certo  heqde  cayr  pêra  deante  me 
deuo  guardar,  pois  que  presta  ir  com  as  maàos  aas 
comas  e  me  abaixar,  dando  de  mym  ajuda  aquella 
parte  pêra  q  me  abesta  quer  derribar  E  esto  he  certo 
que  se  nom  faz ,  saluo  com  desacordo ,  e  myngua  des* 
saber  por  que  em  tal  caso ,  em  todos  outros  q  per  a- 
quella  parte  derriba,  iiõ  presta  nada  aajuda  das  mãaos, 
saluo  por  mayor  remédio  quando  detodo  ymos  acayr, 
ou  como  ja  prouei  alguãs  uezes,  quando  cõ  mygo  pul- 
laua  curto  E  acabando  tijnha  geito  de  lançar  as  per- 
nas ,  e  eu  lãçaua  maão  no  arçom  traseiro ,  ou  no  esteo 
do  ferro  q  alguãs  sellas  trazê ,  e  faziame  mais  firme 
teer  dereito  do  corpo  e  seguro  de  yr  cô  as  maãos  aas 
comas.  Efazesse  aquesto  per  quem  obem  soube  tam 
encubertamente  q  ajnda  que  traga  alguu  paao  delgado 
na  maao,  q  nuca  dos  outros  q  onom  soubeirem  poderá 
seer  êtendido  setal  roupa  trouxer  E  esta  speriècia  a- 
chei  muyto  certa  per  mym  ,  por  q  oprouei  se  oueen- 
do ,  ne  dizer  aoutro,  nehuu  caualgador  E  etendo  que 
qual  quer  quesse  dello  quiser  e  souber  ajudar  q  Ibe 
será  proueitoso  em  otêpo  da  necessydade  ,  por  q  se 
deue  scusar  quandosse  fazer  poder  Mas  quem  se  qui- 
ser guardar  em  todallas  ditas  cousas  q  derriba  pêra 
deãte,  tenha  sèpre  conssigo  auysamêto ,  e  como  abes- 
ta fezer  aperte  as  pernas ,  e  firme  os  pees ,  e  enderei- 
te  ocorpo  pêra  detrás  quanto  bem  poder  em  boa  e  ra- 
zoada maneira  cô  as  pernas  dereitas  ou  êcolhidas  se- 
gundo assella  odemadar,  e  ajnda  faz  uàtagem  ê  seme- 


22  ENSSYNANÇA 

Ihãtes  casos  sesquinar  ocorpo  ecolhendo  alguã  perna, 
por  q  se  aperta  melhor,  e  ocorpo  se  tem  mais  quedo, 
e  seguro  E  fazendo  assy  níica  recebera  aballamêto  nê 
desapostamêto  q  lhe  niuyío  êbargo  possa  fazer  Porêde 
q  perao  laçar  das  pernas  do  firmar  dos  pees  e  endere- 
çar do  corpo  seguramête  sê  apertar  as  pernas  se  pode 
bem  correger  se  abesta  tem  geito  dereitamête  deas 
lançar. 

CapituUo  X. 
do  quesse  deue  fazer  quando  ahesla  faz  pêra  derribar 

atras, 

Jl  era  todallas  cousas  que  abesta  faz  por  q  nos  pode 
derrybar  atras,  todollos  homeês  filha  geeralmêteamayor 
ajuda  que  filhar  se  pode,  aqual  he  apegarsse  cõ  as 
jnaãos ,  e  tiraarem  ocorpo  adeãte.  Mas  elles  erra  de 
filharem  sèpre ,  por  que  níica  deue  seer  filhada  em 
quanto  do  geito  do  corpo  e  apertar  das  pernas  pode 
seer  scusada.  Edeuesse  leyxar  por  q  nõ  he  frenioso ,  e 
as  maãos  em  quanto  se  pode  fazer  am  destar  prestes 
pêra  nos  delias  em  ai  seruirmos.  Eporem  nõ  se  deue 
embargar  por  nos  teermos  na  besta,  em  quanto  sem 
ajuda  delias  nos  bem  teer  podermos  Essea  ouuermos 
defilhar  melhor  he  adas  comas ,  ou  do  arçõ  deâteiro  q 
adas  rédeas  E  por  quanto  muytos  em  começando  de 
correr ,  uãao  com  as  mãaos  aas  comas  por  seerem  fir- 
mes,  ou  filhare  assessego,  e  desqueo  teê  acustumado 
nõ  opodê  leixar,  achei  pêra  ello  certo  remédio  nõ  cor- 
rer alguus  dias  ataa  q  perca  tal  geito  sem  alguã  cousa 
na  maão  dereita  Equando  aballar  ocauallo  meter  ocor- 
po huii  pouco  desquyna  e  baixarme  pêra  deãte.  E  a- 
questo  se  deue  assy  fazer,  por  que  aballando  nõ  me 
moua  pêra  trás ,  ca  muyto  mais  firme  estou  q  todo  de- 
reito ,  por  q  ante  cõuem  q  me  endereite  q  me  atras 
possa  mouer.  E  quando  eu  fico  dereito  ia  passa  os  pri- 
meiros trâccos ,  e  êtra  em  seu  correr,  e  desque  assy 
uai  logo  o  caualgador  he  seguro,  e  assessegado  sê  aju- 


DE  BIíM    CAUALGAR  TODA   SELA.  2^ 

da  das  mãaos  E  assy  em  as  cousas  q  nos  pêra  detrás 
pode  derribar  do  geito  do  corpo  e  apertar  das  pernas 
nos  deuemos  principalmente  dajudar  E  por  mayor  ne- 
cessidade das  maãos  e  dos  pees  muyto  pouco,  e  bem 
tenho  q  em  este  caso  mais  caae  por  se  firmar  em  elles 
q  recebe  delles  ajuda  proueitosa  E  achei  certo  auysa- 
mêto  pêra  quando  abesta  sobe  per  alguã  sobida  muyto 
alta  pêra  se  teer  dereito  se  poendo  mãao  nas  comas, 
q  he  boo  êcolher  as  pernas,  apertandoas,  e  leuãtar  os 
pees  atras,  e  ocorpo  dereito,  ca  faz  parecer  q  passa 
per  lugar  muyto  mais  chaao  do  q  he  segundo  aeape- 
riencia  bem  mostrara  a  quem  oprouar. 

CapituUo  XI. 
da  semelhãça  q  de  tal  ãclar  dereito  podemos  Jilhar. 


X  ai  geito  como  este  dandar  dereito  na  besta  me  pa- 
rece que  deuyamos  teer  em  os  mais  denossos  feitoâ 
pêra  seermos  no  mundo  boos  caualgadores,  e  nos  teer- 
ffios  forte  denom  cair  peraas  maliicias  com  q  muytos 
derribam  per  esta  guisa  se  ueherê  cousas  contrairás, 
de  feito,  dito,  cuidado,  ou  lêbrãça  em  tal  guisa  q 
sentamos  seu  derribamêto  em  sanha,  mal  querèça, 
tristeza,  fraqueza  do  coraçom  nossomenos  preço,  ou 
desagradecimento  adeos ,  e  aos  homeês ,  ou  nos  trou- 
xesse a  myngua  de  fe ,  ou  adesperaca  pêra  bem  co- 
meçar, còtynuar,  e  acabar  as  cousas  que  podemos  e 
deuemos  fazer,  ou  em  algUcã  priguyça  q  uem  de  fra- 
queza e  deleixamêto  da  uõotade ,  logo  sperado  toda 
principal  ajuda  denosso  senhor  deos ,  nos  deuemos  en- 
dereitar  com  esforço  e  boo  cõsselho ,  nosso  e  doutros, 
Tj  per  grande  saber,  longas  e  boas  speriencias ,  bem 
saibhâ ,  queira,  e  pêssam  em  taaes  feitos  obrar  e  côs- 
selhar  E  aquesto  deuemos  fazer  trazendo  aanossa  re- 
nêbràça  os  cuidados  contrairos  dequelles  per  q  nos  co- 
nheçamos hir  encamynhados  acair  per  cada  huâ  destas 


24  ENSSVXANÇA 

partes  suso  scriptas.    E  deiiemos  sêpre  fallar  e  cuidar 
em   taaes  cousas  q  seiâ  boa  remédio  de  cada  huíí  des- 
tes fallicimentos,  q  nos  mais  sêtirmos  siguidos,  e  nom 
em   aquello  que  mais  derriba  posto  que  nossa  uoonta- 
de  odeseie,   por  que  aos  tristes  muytas  uezes  lhe  praz 
falJar  naquelles  aazos   per  q    ueo   atristeza  ,    posto   q 
mais  acrecêtem   em   ella.    Esse  esto  bem  quisernios  e 
soubermos  fazer  com   a  graça  do   senhor  deos,  logo 
com   assua  ajuda,   bem  e  dereitamente  saberemos  an- 
dar em  os  mais  denossos  feitos  Esse  presuçõ,  soberua, 
ou  uãa  gloria  querem  fazer  leuantar,  e  trestõbar  cayr 
perdendo  alguãs  começos  debem   daalma  e  do  corpo 
que  deos   nos   tem   outorgados,   logo  apresêtando  ate 
nossa   renêbrança  cam  pouco  per  nos  uallemos,   e  po- 
demos ,    conhecendo  nossos  fallicimêtos  seremos  guar- 
dados com  sua  graça  decayr  per  os  erros  suso  scriptos 
E  nom  teendo  ênos  o  principal  esforço,  demandaremos 
aajuda  daquel  que  deu  os  boos  começos  que  outorgue 
bem  cõtinuar  e  acabar.  E  posto  que  uejamos  que  logo 
nom   sêíymos    per  tal  consselho   aquel  corregymento 
que  desejamos,  deuemos   cõtynuar,  e  adiante   ueere- 
mos  be  ogrande  proueito  que  detal  regymêto  dauõota- 
de   e  cuydado  aueremos.  Esse  começarmos  afazer  al- 
guãs  cousas  cõ  boo  preposito ,  e  fundamêto  e  acudire 
reuessadamête  com   mallicia  dos  homeês  necessidade, 
ou  uêtura,  nílca  leixando  dobrar  dereitamête  segundo 
acousa  for,  e  requere  obem  fazer.    Do  estado  em  que 
formos    seremos  sempre  auysados  de  nom   tardar  de 
comprir  oque  deuemos ,  nê  seermos  trigosos  no  cuida- 
do, e  na  obra  aalem  do  q  he  bem.  Mas  segundosse  as 
cousas  seguem  com  uõotade  segura  se  toruamento,  o- 
braremos  oque  uyrmos   que  em  cada  tepo  e  cousa  re- 
quere. E  teendo  tal  maneira  em  nossa  iiyda  com  aaju- 
da daquel   per  q   todo  bem  nos  lie  outorgado  andare- 
mos sêpre  dereitamête,   e  ledos  em  todos  nossos  fei- 
tos. E  posto  que  pareça  sobeio  screuer  aqui  taaes  ra- 
zoões  por  nora  uijrem  aproposito,  eu  o  fiz  por  aalguiis 


DE  BEM  CAUALGAR  TODA  SELA.  25 

fazer  proueito ,  ajntla  que  doutros  bem  iioin  seja  filha- 
do. 

CapituUo  XII. 

de  como  acuemos  Jazer  por  nom  cayr  acada  huã 

das  partes. 

Jjim  oque  abesta  faz  secundo  disse  per  q  nos  pode 
derribar,  pêra  cada  hua  das  partes,  auemos  ajuda  muy- 
to  principal  no  ãdar  do  corpo,  no  tardando,  nê  nos  tri- 
lando em  tal  guisa  que  uoltemos  ocorpo  primeiro  q 
abesta,  ou  fiquemos  quandosse  ella  uoltar,  ou  desuiar. 
JMais  per  boa  sabedoria  segurança  e  grande  custume, 
nosso  corpo  uaa  como  ella  for,  se  der  auolta  das  mãaos 
altas,  e  pernas  baixas  nos  andemos  cõ  ocorpo  alg-ua 
cousa  baixo  pêra  deãte  E  fazendo  volta  sobre  as  maàos 
e  as  pernas  altas,  nosso  corpo  andedereito,  laçado 
atras  como  requere  aaltura  das  pernas,  no  ficando  tar- 
dynheiro ,  nê  seendo  trigoso  mais  do  que  abesta  uai, 
fazendo  per  esta  guisa  de  grande  acertamêto  podere- 
mos cair,  nê  receber  nehuii  êbargo  E  côpre  muyto 
pêra  ello  apertar  das  pernas,  ajuda  dos  pees,  e  das. 
mãaos  pêra  acorrer  ao  têpo  da  necessidade. 

CapituUo  XIII, 
da  pregunta  q  se  faz  donde  hc  melhor  apertar  as  per- 
nas ,  e  como  se  deue  trazer  os  pees» 

Jl  ornando  anosso  propósito,  fazê  algufis  preguta  se 
he  mais  firme  apertar  as  pernas  dos  geolhos ,  se  deci« 
ma,  ou  uêtres  delias.  Esse  he  melhor  pêra  seer  firme 
detodo  opee  na  estrebeira,  se  de  meo,  ou  da  pòta.  A 
esto  eu  respondo  q  nom  da  mais  huii  queo  ai,  por  que 
ja  uy  detodas  guisas  fortes  caualgadores.  Porê  pêra  for- 
telleza  cada  huu  caualgue  como  teuer  geito,  e  lhe  re- 
querer assella  em  q  andar,  estrebeiras  q  trouuer  e  as 
cousas  q  abesta  ou  el  faz  E  se  apertar  as  pernas  mais 
dehuu  logar  que  doutro  ou  de  trazer  opee  todo  dêtro, 

4 


2(5  enssynança 

ou   no   tanto ,  nõsse  faca  grande  cota ,  q  bem  ueemos 
que   oforte   caualgador  da  sella  gyneta  he  dapertar  os 
geolhos  delles  pêra  fundo,  e  dos  calcanhares,  ou  spo. 
ras   tem   grande  parte  de  sua  fortelleza   E  dos  geolhos 
pêra   cyma  tâto   como   nada    Edos  q  caualgã  em  seJla 
debrauãte  dos  geolhos  acyma  recebe  grande  ajuda  Eos 
que  justa  anossa  maneira  dos  geolhos  e  da  cerca  dei* 
les  principalmente  se  ajudam  ,   e  aquesto  medes  se  faz 
do  trazer  dos  pees  segundo  cada  dia  se  uee  per  speriè- 
cia,   huus  de  huâ  guisa,   e  outros  doutra    Porem  gee- 
ralmente  os  mais  acha  mayor  forlelleza  metendo  todol- 
los  pees  dêtro.  Essobresto  he  de  saber  este  auysamen- 
to   que   se  quisermos  trazer  os  pees  todos  dentro  pêra 
seer  mais  quedo  na  estrebeira,  as  põtas  deuem  yr  huu 
pouco   pêra  fora ,   e   se   demeo ,   ou  de  ponta  deuênas 
tornar  pêra  detro    E  quem  oprouar  achara  certo  esto 
que  digo,  e  porem  nom  cõpre  outras  razoões  pêra  mos- 
trar  por  ^   se  assy  faz    E  nom  digo  que  seiã  em  cada 
huã  guisa  muyto  pêra  fora,  ou  pêra  dêtro  mes  com  al- 
guã   deferêça    E  aquesto  he  pêra  seer  forte  ajnda  que 
pêra  bem  parecer,  segíido  se  dirá,  opee  dereitamente 
trazido  nom  apõta  pêra  dêtro,  ou  fora,  segundo  nosso 
custume  me  parece  melhor. 

Capitullo  XIIII. 
do  proueito  que  he  saber  geito  q  requere  cadahuã  sella. 


Jr  or  estas  cousas  suso  scriptas  se  pode  bê  ueer,  co- 
mo do  geito  do  corpo,  do  apertar  das  pernas,  e  do  fir- 
inar  dos  pees  nos  podemos  e  deuemos  ajudar,  dasniaaos 
por  derradeiro  remédio,  quando  as  outras  partes  falle- 
cem.  E  fica  pêra  declarar  aajuda  que  recebemos  do 
conhecymêto  da  maneira  do  caualgar  q  toda  sella  re- 
quere, e  do  corregymêto  delia,  e  das  strebeiras ,  e 
denos.  Edo  conhecimêto  do  caualgar  de  cada  huã  se 
pode  bem   ueer,  quanto  podemos  seer  ajudados  pello 


DE  BKW  CAUALGAR  TODA  SELA.  ?T 

que   siiso   he   scripto   das  maneiras  do  caualgar,   onde 
disse  como  gineta  demada  seerê  as  pernas  encolhidas, 
e  asseêtados  detro  em  ellas.    E  quem  tal  níica  uisse  c 
ouuesse  custumado  de  caualgar  õ  outras  que  demanda 
as  pernas  stiradas,    e  as  alojasse  como  querem  as  de- 
brauate,   niica   tam  forte  caualgaria,   como  aquel  que 
teuesse   acustumado   detrazer  as    pernas  êcolhidas  co- 
mo  taaes  sellas   orrequerem    E  assy  detodalJas  outras 
maneiras  do  caualgar  que  dissemos,   por  que  certo  he 
que  nuca  huú  home  será  geeralmête  boo  caualgador, 
se   acada   sella  no   sabe  omelhor  geito  q  se  pode  teer 
em  ella  Epor  oque  souber  dhuãs,  quando  husar  outras 
doutra   feiçô   saberá  conhecer  ogeito  q  demanda.   Em 
aquestas  debrauãte  ajnda  se  requerem  desuairados  gei- 
tos,  segundo  suas  feiçoôes  por  que  som  alguás  altas  e 
fortes  dos  arçõoes  traseiros  e  deãteiros,  e  no  meo  som 
streitas  E  taaes  como  estas  quem  ê  ellas  quiser  andar 
como   nííca   obem    fará   por  q   o  apertárnêto  delias  no 
leixa  cõportar   asseêtado   no   meo,   quando  abesta  faz 
asperamête.  Eporê  melhor  he  em  tal  feiçõ  de  sella  le- 
uãtarsse  nas  strebeiras  sobre  omeo  delia,  dous  ou  três 
dedos  trazendo  as  pernas  dereitas,  e  teendo  toda  outra 
maneira  como  suso  he  declarado    Esse  a  sella  for  lôga 
ou   chãa,   melhor  he  detodo  seer  em  meo  delia,   e  no 
porem   em   tal   guisa  que  perca  aforça  e  aajuda  do  fir- 
mar dos   pees  e   do  apertar  das  pernas   E  como  disse 
do  justar  anossa  maneira,  andando  atroxado  que  muy- 
to  mais  forte  he  andar  alto  nas  strebeiras  q  seer  dêtro 
nas  sellas,   assy  he  melhor  se  for  desatroxado  sêtarsse 
ê  ella  q  andar  nas  strebeiras  leuantado  per  esta  guisa 
em   cada  hua  feiçom  se  requero  sua  certa  maneira  de 
caualgar  ajnda  que  seia  de  pequena  deferêça. 


2fiF  líNSSYNANÇA  ' 

Capilullo  Xr. 
como  deuemos  reguardar  assella  e  freo  e  todo  outro 
adereço  q  seia  forte  e  bem  corregido  q  no  se  quebre 
ou  desconcerte. 

JL/o  corregymento  da  sella,  cio  freo,  e  das  strebeiras 
nos  deuemos  ajudar,  prinieiramête  reguardando  todo  q 
seia  forte,  e  também  pregado  q  per  fallicymêto  de  ca- 
da huã  delias  nõ  possamos  receber  morte,  cajõ ,  ou 
«ergonha  como  muytos  recebe  E  aquesto  faremos  seo 
uirmos  ameude  com  delligêcia  e  no  q  for  fallicido  e- 
mendarmos  logo  sê  scacesa,  e  preguiça  Esse  alguii 
teuer  carrego  deo  fazer  correger,  e  nom  comprir  oque 
lhe  for  mandado,  ou  el  deue  reguardar,  nõ  passe  sem 
emenda  e  castigo ,  por  q  nom  ha  cousa  que  perteeça 
ao  corregimento  dabesta,  nê  ao  penssar  delia,  que  de- 
tia  seer  prouisto  com  mayor  reguardo.  Casse  deue  fi- 
lhar sobresto  huu  consselho  que  ouuy  aelrrey  meu  se- 
nhor e  padre,  cuja  alma  deos  aja.  El  dezia  que  todal- 
Jas  cousas,  ajnda  que  parecesse  muyto  pequenas  se 
delias  nos  podesse  recrecer  deshonrra ,  grande  perda , 
no  corpo  ou  na  fazenda ,  q  assy  nos  deuyamos  ê  ello 
deproueer,  como  de  cousa  q  grande  fosse.  E  pello 
contrairo  onde  acousa  parece  grande  e  ornais  q  se  del- 
Jo  pode  seguir,  nom  pode  trazer  grande  perda,  nõ  se 
deue  dello  fazer  gram  cota  E  aquesto  se  pode  poer 
exemplo  em  todos  nossos  feitos»  Mes  trazendo  anosso 
propósito  se  eu  achar  huú  cauallo  pessado  tã  mal  q 
per  myngua  depêsso  possa  morrer  e  uyr  ofreo  quebra- 
do ,  e  meu  strabeiro  opodia  bem  ueer  seo  bem  reguar- 
dara,  pois  do  pêsso  dei  outro  mal  se  nõ  poderá  seguir, 
seno  sua  perda ,  ou  nõ  parecer  tam  bem.  E  do  freo 
quebrado  se  pode  recrecer  amym  cada  huã  das  cousas 
suso  scriptas ,  pella  myngua  do  pensso  lhe  deuo  dar 
huã  razoada  pena,  ou  castigo  e  pello  freo  muyto  mais 
grande. 


DE  BEM  CAtJALGAR  TOlDA   SELA.  fÔ 

Capitiillo  XFI. 
do  corregynxeto  das  slrebeiras  e  das  corrcas. 

X^euesse  mais  reguardar  q  as  slrebeiras  sei.a  norr\ 
rnuyto  largas,  nem  muyto  apertadas  por  que  nas  lar- 
gas os  pees  senom  assessegfani  ta  bem  ,  e  nas  aperta- 
das dõoe  e  cassam  mais  asinha  e  som  muyto  perijgo- 
sas  seo  pee  sê  êpacho  seno  pode  delias  tirar.  E  deue 
seer  defundo  nõ  muyto  iíchas  nem  muyto  streitas,  por 
q  nas  muyto  achas  opee  seno  pode  bê  dobrar,  e  nas 
muyto  streitas  dooe  e  cassam  e  aalgufis  filha  cabra  E 
arrazoada  medida  degeeraaes  stribeiras  me  parece  de 
deus  dedos  e  ataa  dous  e  meo .  se  forê  franceses,  e  as 
gynetas  aída  que  outros  tenham  teêçom  desuairada , 
eu  as  queria  leues ,  e  mais  sobre  opequeno  q  grandes 
nê  largas,  taaes  porê  q  os  pees  sem  êpacho  as  filhe,  e 
leixê  E  eu  achei  huã  noua  maneira  demandar  fazer 
strebeiras  cubertas  gynetas,  e  pêra  todas  outras  sellas, 
e  som  ameu  juizo  por  que  tenho  delias  grande  pratica, 
muyto  proueitosas  pêra  guarda  dos  pees  e  fazem  ca-^ 
ualgar  mais  forte ,  e  ao  cayr  as  leixarã  mais  ligeiramê-^ 
te  e  trazem  outras  uãtagêes  q  pode  em  ellas  bem  a- 
char  quem  as  husar  de  trazer.  As  correas  deuê  seer 
Schas  quanto  se  bem  poderem  correr  per  as  strebeiras 
e  fortes  em  tal  guisa  que  as  tragam  quedas  Eas  spen- 
das  da  sella,  se  ouuer  de  caualgar  em  besta  que  faça, 
seiã  taaes  q  senom  aballê  per  de  soas  pernas,  por  q 
ia  uy  alguús  q  se  mal  acharõ ,  por  se  desto  no  sabe- 
rem auisar,  caualgando  sobre  fundas  de  pano  ou  de 
coiro  ou  as  trazem  assy  mal  e  fracamête  corregidas  e 
de  tal  feiçõ  que  se  aballem ,  e  porem  deuem  seer  bê 
firmes  E  ueio  agora  custumar  ê  estas  sellas  debrauãte, 
iãçar  as  correas  de  cada  strebeira  per  cyma  das  spen- 
das,  e  pareceme  boo  custumCj  e  q  andam  per  ally 
mais  seguras  e  assessegadas. 


Sa  LNSSYNANÇA 

Capitullo  XFIl. 
do  corregimélo  da  Sella, 

,A.  sella  deue  seer  debardo  dos  aríjoões ,  e  detodollos 
outros  corregimentos  q  nõ  quebrem  nê  descõcertê   E 
deue   seer  assy  feita  que  se   receba   ajuda   do  arçom 
deãteiro   e  traseiros    Eo  logar  por  onde  andarê  as  per- 
nas seia   cauado  em   boa   maneira,   e  nõ  seia  lõga  do 
seio   nê   mu_yto  curta,   por  que  na  lõga  home  he  desê- 
parado,   e  na   curta  seno  pode  bem  cõportar,  e  todo 
seia   reguardado   segundo  for  sua  feiçom ,   maneira  da 
sella,  eo  que  ouuer  de  fazer  ê  ella  E  deuesse  guardar 
detrazer  quelhe  nojo  faça ,   assy  como  fazê  os  arçõoes 
traseiros   q   som   retornados  aas  pernas  muyto  sobeia- 
mete   agros,   deãteiro  que  se  tornar  pêra  dêtro  muyto 
altos,   ou   seerê  mal  cauadas  donde  andam  as  pernas, 
mal  corregidas  dolatego ,   cylha,  fyuella,   e  strebeiras 
Em   tal  guisa  que   cada  huã  destas  cousas  senta  q  he 
feita  ou  corregida  cõtra  uootade,  por  que  certo  he  q 
se  recebe  grande   torua  se  assella  he  êcontrairo  feita 
ou  corregida  deque  se  queria ,   e  deue  trazer.    Edeue 
seer  oolhada  se  he  bê  posta  na  besta,  segundo  afeiçom 
que  ella  requere  por  q  huãs  bestas  se  querem  selladas 
mais  deanteiras,   e  outras  traseiras    E  as  sellas  cheas 
deãte   ou  de  trás.    E  quem  em  ellas  andar  achara  me-» 
Ihoria  detodo  conhecer  e  ofazer  correger  assua  auãta" 
gê ,  specialmente  nas  bestas  que  som  fazedores.  Certo 
he  q  teê  geito  de  saltar  sobre  as  mãaos ,   ou  lança  as 
pernas,  he  grande  auãtagê  poorlhe  asselha  deãteira,  e 
seer  chegada  sobre  açernelha.  Por  que  assy  como  uee- 
mos  que  os  nauyos  trabalhem  meos  acerca  do  mastro, 
assy  as  bestas  q  fazê  daquella  guisa  som  menos  senti- 
das quando  as  trazê  deãteiras  Esse  fezer  sobre  as  per- 
nas, e   as  mãaos  altas  he  melhor  mais  traseira  em  ra* 
zoada  maneira  E  nouamête  mandei  fazer  sellas  de  no»* 
ua  feiçõ  as  quaaes  teê  os  arçoões  traseiros  uoltados; 


DE  BEM   CAÚALGAR  TODA   SELA.  51 

baixa  as  cauas  das  pernas  q  faze  iriayor  uãtagí^  do  q 
per  iiisla  se  pode  pèssar,  e  som  bem  folgadas  pêra 
caminhar  lõga  jornada. 

Capitullo  XFIII. 
do  nosso  corregymeto  queiando  deue  seer. 

Uo  nosso  corregymeto  receberemos  ajuda ,  ou  torua 
no  caualgar  das  sporas,  atacar,  feiçõ  do  gibõ,  da  rou- 
pa, cynger,  e  no  q  trazemos  na  cabeça  JEo  calçado 
deuemos  trazer  apertado  no  meo  do  pee ,  e  nos  dedos 
delgado,  logo  razoadamète,  folgado,  e  se  põta  Por  q 
se  for  miiyto  delgado,  e  largo  no  meo,  o  pee  doera  e 
cassara  mais  asynha  Esse  for  curto,  ryjo,  ou  apertado 
nos  dedos,  ou  cõ  põta,  opee  seno  poderá  bê  dobrar, 
nem  firmar  na  estrebeira  As  sporas  deuê  seer  fortes 
era  ferros,  gonços,  corroas,  e  q  se  ponham  justamente 
E  quando  taaes  som  alguãs  uezes  recebe  delias  gran- 
de ajuda,  alôgura  seia  segundo  for  assella  em  q  anda, 
eo  que  ouuer  defazer  Deuemos  seer  atacados  ê  tal 
guisa  que  toda  calçadura  q  trouuermos  ande  bem  justa 
por  que  fará  andar  mais  sessegados  e  firmes,  e  nõ  de- 
leixados.  E  nom  porê  lato  q  nos  peie,  ou  êpache  Esse 
caualgarmos  gynete,  acalçadura  seia  toda  mais  larga, 
e  menos  atacada  Eo  gibõ  assy  feito  q  nom  aperte,  nê 
fiJhe  em  nehuíi  logar,  nem  faça  peio,  ou  êpacho  E  nõ 
seia  tam  largo  que  ocorpo  ande  solto,  ou  se  for  bem 
atacado  renda  pello  asseêtamêto  do  collar  E  deuemol- 
los  guardar  se  afaldra  for  Ioga  ^  nom  passe  atacada 
os  arçooês  traseiros  em  estas  sellas  debrauãte,  desata- 
eando  dhuâ  parte,  seo  juba  for  aberto  pellas  ilhargas, 
ou  atacando©  tam  justo  q  afaldra  dei  aalem  dos  ar- 
çoões  nõ  possa  passar.  Por  q  ajnda  que  pareça  pouco 
ia  uy  dello  receber  grande  torua  aalguus  caualgadores, 
q  se  dello  auysauâ.  Arroupa  deue  seer  curta  razoada- 
mente  segundosse  custumarê  de  nom  grandes  mangas 
B  leue  Por  q  certo  he  que  todos  caualgadores  seachami 


32  ENSSYNANÇA 

mais  fortes  andando  despachados  e  Jeuemêle  uestidos 
do  ^  fazem  seendo  carregados  ou  trazendo  uestido  q 
os  êpache.  Eaquesto  que  failo  das  roupas,  entendo  das 
armas ,  q  quanto  cada  hiiu  se  armar  mais  leuemente 
e  despacJiado  em  qual  quer  cousa  q  ouuer  defazer,  tã- 
to  se  achara  mais  forte  caualgador,  E  ajnda  que  al- 
guns tenha  q  seiã  peores  de  botar  se  forem  pesados , 
eu  digo  que  se  tornarõ  peor  e  tarde  se  penderê  E  as- 
sy  nom  faz  tanto  proueito  ,  q  nom  faça  mais  perda, 
quanto  pêra  seer  forte  em  defenssom  nom  contradigo 
q  nom  possa  prestar  Eas  roupas  que  trouxerem  deue 
seer  soltas,  assy  como  mãtoões,  ou  jorneas,  ou  alguãs 
detal  feiçom  que  se  possam  assy  bê  trazer.  E  as  que 
ouuerê  andar  cyntas  deuensse  ciger  per  meo,  e  aper- 
tadas Esse  tal  corpo  teuer  q  aia  empacho  desse  aper- 
tar per  cyma,  deuesse  ciger  per  fundo  ,  e  alto ,  ea 
cynta  tãto  apertada  q  se  tenha,  ou  atacada  nas  ilhar- 
gas assy  q  nom  corra.  Nom  se  deue  trazer  na  cabeça 
grande  capello,  ou  carapuça,  mais  deuesse  trazer  pe- 
queno, ou  sobreiro  por  q  certo  acharem  q  muyto  peia 
na  Cabeça,  qual  quer  cousa  q  homem  traga  pesada  ou 
empachosa  em  besta  que  faça  E  aquestas  cousas  suso 
scriptas  no  deue  seer  reguardadas,  pêra  caualgar  era 
qual  quer  besta,  mais  soomente  se  deue  proueer  pêra 
alguã  que  seia  muyto  fazedor ,  por  q  em  toda  cousa  q 
se  proua  toda  ou  grande  parle  da  força  se  recebe  gran- 
de storua  do  pequeno  aazo.  Eaalem  desto  que  serene- 
mos se  pode  cada  huu  proueer  do  que  achar  auanta- 
gem  Por  q  certo  he  que  muyta  melhoria  sêtirô  todol- 
los  entendidos  nas  cousas  q  auyã  defazer  se  primeira- 
mête  era  prouistos  desse  guardarê  do  quelhes  perjui- 
20  ou  empacho  podia  trazer  E  huã  das  mais  certas  en- 
synãças  q  cada  huu  perssy  pode  filhar ,  assy  he  das 
tjuas  speriecias  E  deuesse  porê  bem  oolhar  e  conhecer 
oque  aproueita  e  parece  melhor,  por  q  em  esto  e  to- 
dallas  cousas  os  mais  dos  homees  teem  seus  speciaaes 
geitos  de  q  se  muyto  sentem  ajudados,  ou  storuados, 
e  os  outros  onom  achom  assy  como  elles. 


DE  BEM  CAUALGAR  TODA  SELA.  3â 

Capitullo  XIX. 
decomo  cãae  alguús  em  querendo  fazer  ahjuã  cousa 
posto  q  ahesta  nomjaça  por  q  deua  cayr. 

.tliu  disse  q  pêra  diãte ,  pêra  delras ,  ou  cada  hua  das 
ilhargas  podíamos  cavr  per  força  q  fosse  feita,  regendo 
algua  laça,  lancadoa ,  cortando  com  spada,  querendo 
fazer  alguà  outra  cousa  semelhàte,  per  myngua  de  nom 
sabermos  ogeito  que  em  ello  deuemos  teer.  Epera  de- 
claraçõ  desto  he  de  saber  que  amayor  parte  dos  ho- 
meês  caàe  destas  guisas  per  desacordo  dauõotade ,  e 
esto  se  faz  assy.  Se  huil  home  he  êconlrado  em  guer- 
ra, justa,  torua  em  el  alguã  outra  cousa,  ou  lhe  faze 
força  perao  derribar  a  cada  huã  das  partes,  e  elle  filha 
toruamento  na  uoontade  e  nô  se  sabe  teer  assy  como 
deue.  Certo  he  que  os  mais  cãae  por  se  desêpararê 
das  ajudas  do  corpo,  das  pernas,  dos  pees ,  e  das 
mãaos  q  poderia  auer.  E  nom  digo  todos,  por  q  alguíís 
recebem  tam  graiídes  êcontros,  ou  som  tam  ryiamete 
tirados,  ou  botados  pêra  cada  huà  das  partes,  q  per 
força  nê  poder  q  em  elles  aia,  teersse  nom  poderom. 
]Vlais  seas  uoontades  teuerem  seguras,  uyuas,  e  se 
souberè  ajudar  de  suas  uãtagêes,  scusarõ  as  mais  ue- 
zes  de  cayr,  nem  recebero  tal  aballamento  que  lhe 
muyto  êpeeça  E  aquesto  se  faz  como  acontece  aos  ho- 
ineês  em  luytãdo,  queo  bem  nom  sabe  fazer  com  qual 
quer  força,  ou  erro  quelhe  seia  laçado  caaê  muyto  li- 
geiramête,  por  toruaçõ  dauõotade  e  myngua  de  saber. 
E  na  uida  dos  homeês  ueerenios  bem  este  exêpro,  que 
muytos  se  leixá  derribar  e  cayr  ê  maldades,  e  catyuo 
uyuer,  cõ  pequenas  contrariadades  e  aazos  que  lhe 
ueè  per  fraqueza  de  coraçõ,  myngua  de  sabere  gouer- 
nar  sy  e  suas  fazendas,  oque  nom  faria  se  soubesse 
per  boa  maneira  passar  as  cousas  e  filhar  ajuda  de  boo 
esforço ,  auysamêto  dessy ,  e  doutrem  q  lho  bem  sou- 
besse e  quysesse  dar. 


;i4  ENSSYNANÇA 

E  em  regendo,  ou  querendo  fazer  cada  huã  das 
outras  manhas,  caãe  muytos  esso  medes  com  erro  da- 
uciotade  E  esto  faz  per  fraqueza  ou  per  sobegidooe 
com  myngua  de  saber.  E  fazêno  com  fraqueza  aJguus 
o  dessua  naçom  som  fracos  delias ,  ou  êpachosos  E 
quando  lhe  mandam  ,  ou  conuem  de  fazer  cada  hnâ 
das  dietas  cousas,  filham  tam  grande  toruamêto ,  íj 
com  desacordo  caãe  niuyto  ligeiramête  E  outros  q  per 
sobegidooe  dauoõtade,  e  myngua  dessaber,  e  de  hu- 
sãça ,  quando  cada  huã  das  ditas  cousas  querem  fazer, 
tãto  se  auyuã  e  teê  metes  como  as  faro  bem  ,  q  se 
squeecê  como  se  auerã  de  teer  na  besta ,  e  caãe  por 
este  aazo  E  ia  da  questa  guisa  uy  cayr  alguíís  queren- 
do reger  alguã  laça,  tãtosse  apegauã  com  ella  que  nÕ 
apode  teer,  ou  leuantar  quando  ella  caya  no  chaão , 
elles  lhe  tijnhã  cõpanhya  E  assy  era  laçando  tanto  têe 
algufis  têeçom  era  muyto  lançar  que  desèparandosse 
da  besta  com  alãça  se  uãao  fora  da  sella.  Eassy  acon- 
tece em  cortando  com  aespada,  ou  ferindo  de  sobre 
mãao,  oufazendo  outra  qual  quer  cousa,  que  desèpa- 
randosse da  besta  em  teer  cuidado  ao  q  ham  defazer 
cãae  muytos  com  desacordo,  e  myngua  dessaber. 

Capilullo  XX. 
damancira  do  trauar  aas  maãos  de  cauallo, 

X  or  q  algiiús  deuerdade,  ou  querendo  prouar  dejogo, 
se  filham  de  cauallo  aos  braços  pêra  se  derribarem. 
Certos  auisametos  pêra  esto  proueitosos  me  praz  des- 
creuer,  os  quaaes  pensso  que  achara  boos ,  quem  os 
custumar  Primeiro  busque  sella  que  aia  taaes  arçooês 
traseiros  em  que  se  firme,  E  tenha  que  he  melhor  huã 
sella  gyneta  que  outra,  seno  for  degrande  uantagè  E 
aquesto  se  faz  pêra  quem  tem  saber  de  se  firmar  no 
arçõ  traseiro.  Segundo  que  nora  tenha  grande  conta 
do  firmar  das  strebeiras,  seno  forê  troxadas.  Ca  por  se 
leixarem  hir  como  peder  ocorpo,  mais  êpeece  firmarssô 


DE  BEM  CAUALGAR  TODA  SELA.  33 

muyto  ê  ellas,  q  aproueita  Terceiro  q  se  çarre ,  e  das 
pernas  se  aperte  na  sella.    E  nuca  por  trauar  as  abra, 
ou   se   tire   do   dereito  seer  deJla  ,  mas  estando  quedo 
traue  no  outro  como  bem  poder  Quarto,  q  ornais  alto 
que   poder  tílhe   ho  outro,   ou  ao  menos  pello  braço, 
por  q  per  ally  faz  ocorpo  mais  pender  Qujnto  que  se 
U}  r  q  aquel  com  q  assy  prouar  se  desêpara  da  sella  por 
o  filhar,  tomeo  per  obraço,  e  tireo  detraues  pêra  fora. 
Ca   por  nom   estar  como  deue  e  ella ,   assy  oderribara 
mais  ligeiramète.  Seisto,  como  se  trauarê,  ornais  cedo 
que   poder,   deuolta  per  trás  as  ãcas  dabesta  do  outro 
Ea  aquella  parte  otire  sepre,  por  q  ajnda  q  tàta  força 
nom  tenha ,   cduem  que  leue  el  ou  abesta  seo  bem  ti- 
rar. E  pêra  esto  melhor  fazer,   quando  ueher  ao  filhar 
A  cabeça  da   besta  nuca  este  pêra  fora,   mas  uoltada 
quantosse  bê  poder  fazer,  trailas  ãcas  da  outra  Aalem 
destes  auisamêtos  cada  huíi  perssy  pode  achar  outros, 
se   esta   manha   prouar  por  boos,   os  quaaes  ao  tempo 
do   mester  podem   prestar,   ajnda  que  poucas  uezes  a- 
conteça    E   pêra  derribar  abesta   he   huã  maneira  de- 
grande  uantagem  pêra  quem  obem  sabe ,  e  pode  fazer 
íilhalla  per  acabeça  acerca  dos  mossos  e  tirar  ryjo  per 
ella  e  teer  a  maào  forte,  leuantandolhe  acabeça  peraa 
fazer  trestõbar  e   cayr,    E  detodas  estas  auãtagêes  se 
podem   ajudar  os  auisados  soltos  acauallo  razoadamen- 
te  ryjos  e  boos  caualgadores  por  q  os  outros  nõ  se  po- 
dem delias  tam  bem  prestar. 

Capitullo  XXI. 
datnaneira  que  se  deue  teer ,   quando  ouuermos  defazer 
cada  huã  destas  cousas  suso  scriptas,  e  outras  seme- 
Ihantes. 

\Vuando  cada  huâ  destas  cousas  home  fezer,  auõota- 
de  deue  seer  segura,  e  aentêçom  principal  em  se  teer 
dereito  na  besta  q  per  nehuã  guisa  ênas  fazendo,  nom 

5   * 


36  ENSSYNA.VÇA 

tenha  ê  ellas  tal  cuydado,  que  oteer  dabesta  lhe  sqiiee- 
ça  Esse  reger  huã  Jãça,  mais  aia  feineça  em  apertar 
as  pernas,  e  se  teer  firme  na  sella,  q  em  aforça  da 
mãao ,  nem  do  braço  peraa  soportar.  Equando  com  el- 
la  nom  poder  Jeixea,  eo  corpo  fique  assessegado ,  e 
seguro,  e  nom  queira  mais  fazer,  q  quanto  poder  aca- 
bar, teedosse  dereitamente  em  sua  besta  como  deue , 
em  ai  faleça,  mais  nõ  leixe  aboa  maneira  que  deue 
teer.  Eassi  era  laçar  principalmête  tenha  têeçom  em 
firmar  os  pees  e  apertar  as  pernas ,  e  se  teer  firme  E 
com  este  reguardor,  da  maão,  do  braço,  e  do  corpo 
se  ajude  quanto  abrãger  sua  braçaria  Edaquesta  guisa 
faça  DO  cortar,  e  ferir  de  sobre  mãao,  nô  se  desêpa- 
rando  da  sella,  por  cousa  q  deua  fazer.  Esse  trouxer 
tal  custume,  tornarssea  assy  como  natureza  Aqueste 
he  boo  auisamêto  e  muyto  proueitoso,  e  fremoso  a- 
quem  ossabe  fazer  E  bem  podemos  desto  tomar  exê- 
pro  das  desuairadas  maneiras  de  ujuer  dos  homees, 
por  q  som  alguús  q  nom  têedo  lêbraça  do  que  reque- 
rem seus  estados  boas  e  dereilas  uydas,  tãto  tee  atêe- 
'çom  ryja  e  desêparada  em  cõprir  oq  deseiã,  ajnda  que 
seia  cousa  de  pouca  uallia,  q  assy  cãae  como  uê  o^ 
elles  querem  fazer.  Ca  se  faz  seu  acabamêto  em  lhes 
dar  aazo  detristezas,  malquerêças ,  fazer  roubos,  ou 
semelhantes  malles,  logo  seguem  seu  deseio  sem  ou- 
tro reguardo  que  em  sy  aia  do  que  lhes  cõuem  :  ou- 
tros por  grande  têeçom  q  aiam  de  acabar  qual  quer 
cousa,  nuca  mais  fazem  do  que  bem  fazer  poder,  fa- 
zendo sempre  oq  deue  cõ  resguardo  de  suas  côciencias 
e  boos  stados.  E  certamete  como  per  tal  geito  fazê 
melhor  todos  boos  feitos,  e  nosso  senhor  da  melhores 
f  jjs  em  elles ,  assy  quando  home  trás  todo  seu  princi- 
pal propósito  em  se  teer  dereito  como  dito  he ,  sobre 
sua  besta  faz  muyto  melhor  todallas  cousas  que  sobre 
ellas  oiiuer  defazer  E  daquesta  pratica  uerô  certa  spe- 
riêcia  os  q  husarê  as  ditas  manhas  Enom  som  de  creer 
os  que  destes  feitos  pouco  soubere,  ou  husã  per  ocon- 


DE  BEM  CAtTALGAR  TODA  SELA.  37 

trairo  Ca  pois  nõ  custumam  de  tal  guisa,  nílca  sobrei- 
lo  bem  poderom  fallar  ou  cõsseihar,  por  q  certo  he 
que  os  mais  dos  homees  alguãs  uezes  hã  aazos ,  e  re- 
cebem consselhos  pêra  tomar  uidas  que  lhes  mais  praz. 
E  per  ellas  seguem  ataa  que  per  seus  têpos  cada  huíis 
recebe  seu  gallardom  Mas  em  todallas  cousas  os  boos 
homees ,  nõ  deuê  decurar  dopen}'oões ,  mas  firmar  e 
cada  huâ  certa  determynaçom  per  camynho  mais  de- 
reito,  e  perlõgadamète  por  os  boos  aprouado  E  da 
quel  por  cousa  q  uenha,  sua  uôotade  nuca  mude,  spe- 
rando  em  todo  gallardom  do  dereito  senhor  que  acada 
huu  graciosamête  sepre  da  segudo  suas  obras. 

Acabasse  aprimeira  parte  do  seer  forte  E  começasse 
assegunda  desseer  sem  receo. 

Capitullo  I. 

em  que  se  declara  per  quantas  partes  todollos  homees  sô 

sé  receo  E  como  per  nacéça  sô  alguús  sem  receo. 


JL  ois  acabei  descreuer  os  auysamêtos  q  boos,  e  ra- 
zoados me  parecerõ ,  pêra  caualgar  forte,  prosseguyn- 
do  manha  ordenãça  Screuo  outros  pêra  seermos  ajuda- 
dos acaualgar  sem  receo,  assy  como  disse  que  compria 
deo  seerê  os  boos  caualgadores  E  pêra  esto  he  dessa- 
ber,  q  per  estas  doze  partes,  todollos  homees,  segun- 
do mais  e  menos  somos  sê  receo  em  todos  nossos  fei- 
tos .s.  per  nacêça,  e  presunçõ,  per  deseio,  e  myngua- 
dessaber,  per  boas  squeêças,  husãça  e  razõ,  e  per  ou- 
tra mayor  receo,  e  desposiçom  ,  dauãtagê  sanha,  e 
graça  special.  Primeiramête  som  ajguíís  sem  receo  per 
nacêça,  por  q  nacem  sem  medo,  sê  uergonha,  e  sê 
empacho  razoadamête,  e  nos  mais  dos  feitos,  ou  em 
alguús  specialmente  Edizê  por  esto,  oque  ijatureza  deu, 
nõ  se  pode  bem  tolher  E  ueemos  huíis  recearè  os  pe- 


38  ENSSYNANÇA 

rigoos  das  pellejas,  e  sê  receo  sofrerê  os  do  mar  E  ou- 
tros nom  se  atreuer  apelleiar,  nê  hir  sobre  mar,  e 
muyto  sem  medo  estarê  ê  alguãs  grandes  pestelJêcias. 
JE  assy  teê  alguiis  tam  grande  uergonha  ou  êpacho  de- 
fazer  alguãs  cousas  q  ante  se  porriam  assofrer  aJguíí 
grande  perigoo  q  as  fazerê  em  lugar  de  praça,  por  re- 
ceo de  prasmo  das  gêtes ,  ou  êpacho  que  de  sy  filha, 
Eoulros  nom  aueriã  alguu  êbargo  deas  fazer,  e  esto 
por  desuairo  q  cadahuu  vecebeo  naturalmête  de  sua 
naçõ.  Essobresto  he  de  conhecer  que  podemos  cayr 
em  erro  per  myngua  denõ  seermos  atreuydos  tanto,  e 
assy  como  deuemos  ê  as  cousas  q  fezermos,  ou  por 
tressayrmos,  e  auermos  natural  atreuymêto,  sem  riie* 
do ,  sê  uergonha ,  e  sem  êpacho ,  mais  do  q  he  razõ. 
Epois  podemos  errar,  sobeiando,  ou  mynguando,  auir- 
lude  bê  se  mostra  q  he  no  meo ,  como  screuerê  da- 
uerdadeira  fortelleza ,  q  tira  os  receos,  e  têpera  os  so- 
beios  atreuymêtos,  dando  mais  ajuda  anos  muyto  atre- 
uer, q  arrecear.  E  assy  fallando  em  aquesta  parte,  do 
que  todos  recebemos  naturalmête,  eu  entendo  que  som 
alguíís  dessua  naçõ  em  caualgar  E  assy  em  todallas 
cousas,  tãbem  e  dereitamête  sem  receo  q  fazem  oque 
se  diz  deboa  natureza,  q  tanto  e  taaes  cousas  deseia 
quanto  e  quaaes  bê  pode  gouernar  E  elles  pêra  todo 
q  deuê  aauer  atreuymêto,  otêe  assy  como  melhor  teers- 
se  pode  E  as  cousas  q  sõ  de  recear,  elles  as  teraê,  e 
seguardam  delias  como  he  razõ.  E  daquesto  me  parece 
q  ueio  exêpro  muyto  claro,  nos  alãaos  q  nõ  sô  razoa- 
uees  Mais  de  sua  íclinaçõ  natural,  huiis  seendo  sobeia- 
mête  ardidos ,  se  ISçã  das  casas  abaixo  e  passa  per  fo- 
go,  e  fazê  outras  sandices  Eoutros  mynguando  som  tã 
sobeiamente  judeus  q  nehuã  cousa  duuydosa  ousam  fi- 
lhar Essom  alguiis  assy  têperadamête  ardidos  q  teme 
oque  he  detemer,  e  som  tã  sem  medo  onde  cõpre,  q 
outros  onô  pode  seer  mais  Eassy  como  se  faz  em  esta 
parte  medo  ueremos  deuergonha  e  do  êpacho  E  faço 
delerêça  do  êpacho,  e  da  uergonha  por  q  arrazom  per» 


DE   REM  CAUALGAR   TODA    SELA.  39 

teece   denos  fazer  sètir  uergonha ,   das  cousas  que  re- 
ceamos seer   mal  feitas,   ou  do  q  fazemos,   ou  fezer- 
mos ,  de  q  nosso  entendimêto  nos  da  juyzo  q  fazemos 
mal,  ou  duuydamos  de  seer  por  ello  prasmados.  E  da- 
questa  guisa  podemos  sobeiar  por  muyto  auermos  esta 
uergonha ,  ou  mynguar  nõ  assêtyndo  naquelles  casos  q 
assentyr  deuemos  E  auella  podemos  em  boa  e  razoada 
maneira  como  suso  scripto  he  do  atreuymêto,  auendoa 
com   boa   têperança    Eo  epacho  perteece  sollamête  ao 
sentido  do  coraçom  q  nom  reguarda  razoadamête,  se 
he   bem   ou   mal   aquella  cousa  de  queoa.    Mais  dessy 
ofilha  muytas  uezes   em   cousa  q  home  conhece  q  he 
mal  deo  auer,  e  lhe  prazeria  muyto  nom  osseíir  Eques- 
to,  segundo  meu  juyzo  nuca  faz,  saiuo  em  ajudar  oboa 
receo  dauergonha,   ou   assêtir  onde  côpre  que  assêta , 
pêra  nos  guardar  doutra  tal,   ou  semelhãte  q  procede 
do  conhecymêto  da  razom  Mais  el  perssy  nom  uai  na- 
da E  cada  huu  quanto  poder  per  siso,  husãça,  e  cada 
huã  das  cousas   q   tirom  orreceo  odeue  dessy  afastar, 
por  q   nõ  presta,   saluo  no  caso  ia  scripto.    E  miiytos 
som   enganados  ouuyndo  louuar  orreceo  dauergonça  q 
uem   do  boo  conhecymêto  das  cousas ,   e  bondade  per 
que  receamos  cayr  è  tal  erro,  que  dereitamente  apos- 
samos  auer.    E  penssando  esto  seer  epacho,   cuydã  q 
auello  he  uirtude,  seendo   tal   myngua  q  todos  deuê 
quanto   poderê  tirar  do   coraçõ  e  dauõotade    Essobre 
aquesto  nô  entendo  dar  mais  auysamêto  nê  enssyno, 
por  q  som  obras  danatureza  em  q  nom  podemos  emen- 
dar ,  seno   per  conhecymêto  da  razom.    E  pêra  as  ou- 
tras cousas  que  ia  disse  E  quando  delias  fallar  screue- 
rey  oque  entender.  Mas  esto  screuy  por  declarar  oque 
sobrello  me   parece   perao   q  screuer  adiante  seer  ne- 
cessário   E  cada  huu  conhecer  dessy  medes  a  que  de 
sua  naçom  he   mais  jnclinado    E  posto  que  se  diga  ^ 
Ko   podemos  mudar  as  cousas  danatureza ,   eu  tenho  ^ 
per  boo  entender,   e   geeral   boa  uõotade  os  homeea 
emenda  muyto  cõ  agraça  de  deos  em  os  seus  naturaaes 


40  ENSSYNANÇA 

fallecymêtos ,  e  acrecètam  nas  uirtudes  Eporê  cada 
huu  deue  trabalhar  porsse  conhecer  e  no  bem  que  na- 
turalmête  recebeo  se  manteer  e  acrecêtar,  e  nos  fal- 
l^^mêtos  emendar,  e  correger. 

Capitullo  II. 
como  alguús  cô  presunçô  som  sem  receo. 

v^om    presunçô   de  saberê  alguás  cousas  dauãtagem 
fazer,  nô  duuydã  muytos  fazellas  sê  receo  e  dizem  po- 
rê  que  nehuu  duuyda,  oque  dessy  conhece  q  bem  tem 
aprêdido    E  cada  huíj  pode  ueer,   q  sea  conhecymêto 
q   alguãs  cousas   certamête  sabe ,   as  faz  mais  sem  re- 
ceo,  que  as  outras  de  que  duuyda  como  as  fará.  E  no 
pareça  contrairo  oque  muytas  uezes  acontece,  recears- 
se  mais  huâ  cousa  q  se  mylhor  sabe,  q  outra  de  q  sea 
menos  saber  Por  que  esto  se  faz  por  aazo  de  cadahuã 
das  doze  partes  ia  ditas.  Em  tal  guisa  que  opresumyr 
do   saber  nõ  possa  tanto  tirar  orreceo ,   q  doutro  cabo 
hi  nõ  aia  outra  razõ  per  q  mais  creça,  por  oque  ia  em 
outros  feitos  sêtio  Mes  em  casos  iguaaes  certo  he,  que 
quanto  cada  huii  dessy  conhece  que  melhor  sabe  fazer 
alguã   cousa ,   se  faz  delia  cometedor  mais  sem  receo. 
Eporê  em   caualgar,  e  assy  em  todallas  outras  cousas 
q  fazer  quisermos;   se  receo   nos  embargar  deas  bera 
fazer,   trabalhemonos   queas  aprendamos    Esseas  sou- 
bermos  aueremos  denos  em  ello  boa  presunçô  E  logo 
todo  ou  amayor  parte  do  receo  será  fora. 

Capitullo   terceiro 
•  como  per  deseio  alguús  som  sem  receo. 

Jl  er  deseio  som  alguiis  em  seus  feitos  sem  receo,  co- 
roo todos  bem  conhecemos.  E  dizê  porem  q  nõ  parece 
cousa  forte,  aquém  muyto  deseia  E  tanto  he  claramê- 
te  conhecido  seer  assy ,  que  bem  scusado  seria  mais 
sobrello  screuer.  Me^  por  cõtynuar  como  tenho  come- 


DE  BEM  CAUALGAR  TODA  SELA.  41 

çado ,  sereno  oque  aprendi,  q  todo  quanto  per  uõota- 
de   fazemos   he   por  acalçar  huã  destas  quatro  fijs .   de 
folgãça ,  de  proueito,  dhõrra,  eonesta,  Edizem  que  se 
faz  algnã  cousa  por  desejo  de  honesta  fym,  quandonos 
praz  dea  fazer  por  amor  dalgua  nirtude  symprezmête, 
nom   auendo  pryncipal  têçom  aoiitro  proueito,   hòrra , 
ou  prazer,  q  se  delle  seguvr  possa  Mes  sollamete  por 
sabermos   que  he   bem.   ofazemos   sem   auersperaça, 
por  têçom  principal  agallardom  .  que  dele  se  spere.  E- 
dize  entêçom  principal  e  esta  guisa.  Se  huu  senhor  faz 
niercee   aos  seus  por  fazer  oque  he  thcudo  sem  sperã- 
ça  firme  doutro  proueito  q  dello  etenda  receber    Eaa- 
lè  desta  enteçom  per  q  o  faz  principalmêle ,   conhece 
pore  que  será  por  ofazer  mais  amado,  e  melhor  seruy- 
do    JMes  posto  q  todo  assy  conheça  ,   oprincipal  moue- 
dor  do  coraçom  sete  q  he  aquel  deseio,  deo  fazer  por 
conhecer  q  he  bem  ;  tal  como  esta  se  chama  principal 
entêçõ.  E  quando  alguâ  cousa  se  faz  cõ  tal  deseio ,  di- 
zê  q  se  faz  por  fym  honesta.  Eper  estes  deseios  todos 
quatro,   desejamos   todallas   cousas,   huã   delias   aboa 
lêçom  ,   e   outras  acontrairo   E  alguas  ahuã  symprez  q 
nom  he  pecado  ne  mercee  E  de  qual  quer  destas  cer- 
to  he   q   sêpre  ogrande  deseio  ajuda  muyto  tirar  orre- 
ceo  Esse  per  deseio  de  gaãço  os  marynheiros  nom  re- 
ceã  os  perigoos  do  mar,  e  os  públicos  ladroòes  ajusti- 
ça ,   quê  duuydara  q  se  alguê  grande  deseio  ouuer  de 
bem   saber  caualgar,   que  aquella  uoõtade  lhe  no  faça 
perder   orreceo   de   cayr  da  besta ,   ou   co  ella  em  tal 
guisa  q   toruar  onõ  possa  pêra  boo  caualgador  leixar 
desseer. 

Capitullo  quarto 
como  por  nô  saber  alguús  sô  mais  sem  receo. 

JL^esseerê  alguus  sê  receo  por  nô  saber  se  diz  aue 
scarraentado  olaço  recea  E  aquesta  myngua  dessaber, 
se  parte  ê  duas  partes  Huã  que  perteence  ao  jntendj- 


i2  ENSSVNANÇA 

meto .    Outra  ao  sentido  do  coraçom  E  per  entender 
nos  conhecemos  os  perigoos  q  som  feitos ,   còssijrando 
por  oque   uymos  e   ouuymos   oquesse  pode  seguyr  E 
auêdo   tal   conssiraçõ  receamos  omal  q  auijr  nos  pode 
E   tam   bem   se  faz   por   oqiie  sabemos  q  se  acõteceo 
em   algiiu  feito,    penssarmos   oque   se    pode  fazer  era 
outro,   ajnda  q   nom    seiã  semeliiãtes    E   o  receo  que 
uem  nas  cousas  per  tal  parte  nuca  traz  erro,  por  q  ar- 
razom  sêpre  manda  fazer  oque  bem  he ,   e  recear  todo 
côtrairo  Esse  receamos  oque  nom  he  detemer,   certa- 
mête   nõ  se  faz  per  aazo  darrazom  ,   mais  per  myngua 
de   sabermos   oqtie   he  bem,   ou  nõ  querer  obrar  oque 
dereitamête  êtendemos    E   posto   q    ueiá  alguus  myn- 
guados  dentêder,   ardidos,   e  outros  q  se  chama  sesu- 
dos  recearê  sobeio.  Digo  q  posto  q  omynguado  deten- 
der  sua   ardideza   nõ   faça  uirtuosamete    por  q  cõuem 
perao  assy  fazer,  q  aobra  em  sy  fosse  boa,  e  feita  em 
dereita   maneira    E   q   afezesse  por  scoihymêto  e  q  o- 
brasse  omelhor   por  oconhecer.    E  q  sentisse  prazer  e 
deJeitaçom    em   ofazendo.    E  esto  se   êtende   ê   todas 
maneiras   deuirtudes   fora  da  fortelleza  em  q  adeleita- 
çom  em  obrando  as  cousas  perijgosas  se  nõ  pode  auer, 
durando  apelleia  ante  q  uenha  ho  uecymêto.  Se  el  he 
sem  receo  onde  cõpre,  eu  tenho  q  el  obra  na  quel  fei- 
to mais  sesudamête  qo  entendido,  se  per  força  deme" 
do,  nom  conhece  oque  deue  conhecer,  ou  posto  queo 
conheça,   ocoraçõ   scoihe   per  myngua  de  sua  dereita 
fortelleza  ocontrairo  do  que  he  bê,  com  medo  ou  receo 
que   sete    Epera   aquesta   parte   da  razõ ,   boo  he  que 
saibhamos  em  esta  manha  do  caualgar  as  cousas  perij- 
gosas,   e  as  q  o  nõ  sõ ,  ajnda  queo  pareça  pêra  recear 
huàs,  e  outras,  nõ  duuydar,  por  que  ê  todoUos  feitos , 
quem  os  bem  conhece ,   os  uerdadeiros  perigoos  recea 
mais.    E  os  queo  parece  nom  osseendo,    filho  pequeno 
enbargo  E  quanto  aaparte  do  coraçõ ,  el  conhece  e  sa- 
be alguús  perigoos  principalmête  por  oque  passa   E  a- 
questo  ou  per  têpo  perlõgado  pouco  e  pouco ,  ou  ryja- 


df;  bem  caualgar  toda  sela.  'i3 

mente  per  liuCi  soo  acòtecjmeto.  E  per  mingua  de  lai 
saber  nom  recea,  e  se  niuvlo  sete  cousas  còtrairas,  uê 
arrecear  oque  ante  no  arreceaua ,  saluo  se  das  outras 
partes  Ibr  ajudado  ao  receo  tãto  nom  setir,  assy  como 
seria  se  huu  nuca  foy  em  medo ,  e  fosse  em  huã  pel- 
leia  e  em  aqual  seendo  ferido  uecesse  Aquel  saber  das 
feridas  nom  lhe  faria  tato  recear  ocoraçõ  .  q  aboa 
squeeça  por  í]  ueceolhe  mais  nõ  acrecente  oatreuymê- 
to  pêra  cometer  outra  tal  sem  receo  E  assy  pode  fa- 
zer algíia  das  oulras  cousas,  por  q  eu  disse  q  se  j)odia 
perder,  mais  perssy  sollamète  an)yngua  deconhecer  os 
perigoos  em  q  som,  ou  se  pode  seguir,  muytas  uezes 
faz  nom  setir  orreceo  E  detal  saber  do  coraçõ  he  bera 
denos  guardar,  nom  leixando  de  cometer  oque  he  ra- 
zom  Eporem  deuem  em  caualgar  conhecer  os  perigoos 
que  geeralmête  acotecem  pêra  os  ocoraçd  nom  apren- 
der aassua  custa,  por  q  desqueo  muyto  sete,  e  sabe, 
el  filha  muytas  uezes  tal  receo,  q  tarde  ou  nuca  olei- 
xa.  Esse  os  apredê  por  lhos  enssynarê,  ou  os  conhece- 
rem com  agraça  de  deos  serã  dos  cajooês  guardados 
E  nas  cousas  q  per  razõ  entendere  filharo  atreuymêto 
qual  cõpre.  Eo  ai  recearom  coroo  deuem. 

Capilullo  quynto 
como  per  hoas  squceças  alguús  se  fazt  se  receo  E  de 
que  guisa  os  moços  e  outros  que  começa  acaualgar 
deue  seer  enssynados. 


D. 


'eboas  squeeças  tirarê  orreceo ,  he  tam  claramête 
conhecydo  q  nom  se  requere  Ioga  scriptura  Por  que 
aesperiêcia  omostra  assy  claramête  Eporem  dizè  q  as 
boas  encarnas,  e  céuaduras  ofazem  perder.  E  hua  das 
boas  esquèeças  q  faz  pêra  percalçar  esta  manha  debê 
caualgar,  he  auer  logo  no  começo  boas  bestas  e  gei- 
losas,  segundo  requerem  os  tèpos  em  que  fore,  por  q 
dehua  guisa  deuê  seer  as  em  q  começare  decaualgar,  e 

6  * 


44  ENSSYNANÇA 

doutra  dally  aiiante.  E  por  quanto  aquy  se  oferece 
fallar  em  esto ,  he  de  saber  que  pêra  ensynar  hufi  mo- 
ço, ou  alguíí  outro  que  nouamete  aprenda  esta  ma- 
nha, q  logo  no  começo  lhe  deuê  dar  alguã  besta  muy- 
to  saâ  sem  mallicia,  e  seia  bem  corregida  do  freo,  cy- 
Ihas ,  strebeiras,  e  sella  E  nom  lhe  mande  ai  seno 
quesse  aperte  com  ella,  e  se  tenha  bera  per  qual  quer 
guisa  q  mais  achar  geito  E  cousa  que  mal  faça  nô  lho 
côtradigam  muyto,  ãte  pouco  e  passo  ocorregã.  Esse 
fezer  bè  largamete  olouuem  quanto  com  uerdade  opo- 
derè  fazer  Eaqueste  geito  tenham  com  el  pêra  alguu 
têpo  ataa  que  ueiã  que  el  uay  filhando  folgãça  em  a- 
prender,  husar,  e  querer,  receber  emenda,  e  ensyno 
Edally  auãte  uaàlhe  declarando  ogeito  que  terra  pêra 
se  teer  forte  por  q  esto  he  mais  necessário,  guardando 
sêpre  oque  disse  deo  gabar  mais,  e  culpar  menos  Esse 
acertar  acayr,  ou  leixar  aestrebeira  ou  alguã  outra 
cousa  contrairá,  se  uyr  queo  sete  muyto  el  odesaculpe 
omelhor  que  poder,  assy  q  nõ  perca  sperãça  e  uõo- 
tade  q  pêra  esto  e  todas  outras  cousas  muyto  uai.  E- 
façanlhe  husar  dãdar  ameude  debesta ,  e  ahuã  ora  no 
muyto  sobeio  E  corra  e  salte  alguii  salto  feito  que  seia 
seguro.  Eo  mais  que  eu  entêdo  he  dalguã  traue  ,  ou 
doutro  grosso  paao  q  iaça  em  boo  chaao  Eaqueste  sal- 
te trazendo  ocauallo  agallope,  e  auysallo  bem  do  q 
cõpre  segundo  ia  he  scripto  Eassy  huse  ê  tal  besta 
ataa  q  lhe  perca  todo  orreceo  E  como  uirê  que  ocor- 
re e  salta  em  el  sem  medo  busquenlhe  outro  q  bulia 
cõssygo,  e  filhe  alguíis  pequenos  saltos  assy  como  fa- 
zem os  rocijs  follooes  E  em  aquel  oleixê  andar  omais 
do  têpo  E  nõ  lhe  conssentã  andar  ameude  em  mullas, 
i)ê  facas,  ne  outras  bestas  queos  folgados  e  seguros 
trago,  por  q  auõotade  se  apreguiça ,  e  nõ  quer  deboa- 
mête  tornar  aas  outras  desque  aquestas  custuma.  Mes 
deue  husar  todalias  sellas ,  e  mote  e  caça,  e  reger,  e 
lançar  Eno  reger  com  leue  laça  de  que  seia  bem  se*- 
nhor,  seia  ensynado  aleuar  e  trazer  boo  geito  e  conte- 


DE  BEM  CAUALGAR   TOt)A    SELA.  45 

neça    E  no   lançar  essomedes  cõ  cousa  leue  razoada- 
niête  se   filha   niylhor   ogeilo    da   braçaria    E  deuêsse 
guardar  todollos  Tj  dello  pouco  souberê  delançarê  cou- 
sa q   seia  aguda  dalguà  das  partes,   por  q  da  bua  por 
êtrar  no  chaao.  E  da  outra  por  apõta  ficar  côtra  quem 
alítça ,   se   pode   dello   receber  grande   caio.    E  porem 
cana   ou   paao ,   rõbo  damballas  partes ,   e  de  peso  ra- 
zoado ,  segundo  a  grandeza  ,  do  nioço  he  boa  pêra  es- 
ta manha,  mais  sem  perigoo  aprender.  E  desque  omo- 
90   se   mostra   forte,   e  sem  receo  em  taaes  bestas,   e. 
husando    taaes    manhas    deuêlhe   outra   uez   debuscar 
boas   bestas,   e   corregellas  detodo   tam  bem  como  se 
fazer  poder   E  por  que  elles  ia  teê  afortelleza ,  e  atre- 
uymêto  stam  em  boo  tèpo  deos  ensynar  detodallas  ou- 
tras cousas  q  oboo  caualgador  deue  auer.  E  qual  quer 
erro  lhe  deuê  contradizer,  ryjamête  e  tantas  uezes  ataa 
qo   emende   E  husando   assy  boas  bestas  alguãs  uezes 
caualgue  em  outras  que  prouê  malicias  q  nom  seiíí  pe- 
rijgosas ,  assy  como  aluorar  e  tornar  aaperna  E  outras 
semelhates ,   e   q    seiam    muyto   fazedores,   e   corra  sê 
strebeiras,   e  proue  outras  cousas  taaes,   pêra  se  per- 
ceber do  q  lhe  pode  acõtecer  Aos  boos  homeês  ,  nom 
louuo  deprouarem   aquellas   em   que  a  manifesto  peri- 
goo,  e  aquel  q  per  uêtuira  ouuer  taaes  bestas,  e  niees- 
tres  auera  huã  squêeça  queo   muyto  ajudara  aperder 
orreceo    e    esta    manha    Som   outros   acertamêtos   em 
guerra,  justas,   e   torneos  per  (\  os  homeês  em  caual- 
gar  operdem    muyto    E   por  q  as  mais  das  cousas  quo 
uee  ajuyzo  dos  homeês  per  squeêça  som  mais ,  segun- 
do roeu  entender,  per  dereita  ordenãça  denosso  senhor 
deos,  anos  cõuem  trabalhar  primeiro,  e  pryncipalmen- 
te   pêra  auer  sua  graça  e  desy  oquerer,   saber,    e  po- 
der q  no  começo  disse  pêra  todo  seer  necessário   Esso 
em  esto  côtynuarmos  todallas  squêeças  nos  uijram  pê- 
ra sua  dereita  ordenãça,  como  pêra  nos  he  mylhor. 


46  ENSSYNANÇA 

CnphuUo    VI. 
como  per  husan^a  os  homeees  som  sem  receo. 

Jl  er  husaça  todollos  honiees  se  fazê  mais  sê  receo  se 
per  cadahuà  das  outras  partes  ia  dietas  nom  som  stor- 
uados  Epore  dizem  q  as  cousas  husadas  nõ  fazê  senti- 
mêlo  E  uijndo  anosso  propósito  he  de  saber,  q  se  per- 
demos ocustume  dandar  em  bestas  fazedores  e  desas- 
sossegadas,  e  de  correr,  e  saltar,  per  lugares  duuydo- 
SOS  razoadamête,  q  auõotade  nos  receara  deo  fazer, 
per  medo,  per  empacho,  ou  per  uergonha,  em  tal  gui- 
sa que  seo  muyto  leixarmos  acharnosemos  conhecida- 
mête  muyto  mynguados  do  q  ante  sentyamos.  E  assy 
quem  esta  manha  bê  quiser  auer,  nuca  por  stado ,  nê 
hidade,  atodo  seu  poder,  com  medo  ou  priguiça,  per- 
ca custume  razoado  de  caualgar  em  taaes  bestas,  q 
corram,  e  saltem,  por  lhe  nô  sentir  ocoraçõ  em  ello 
receo,  ca  se  perde  ahusãça  cobrara  cada  uez  mais  te- 
mor, e  per  el  leixara  grani  parte  desta  manha. 

Capitullo  VIL 
Como  per  razô  os  homeés  sô  se  receo. 

.Alguus  homeês  som  sê  receo  em  algilas  cousas ,  por 
lhes  mostrar  sua  razõ ,  que  nom  he  bê  deo  auerê.  Po- 
rem dizê  que  as  alymarias  per  natureza  se  regem ,  e 
os  boos  homeês  per  razom ,  e  aquesto  nom  se  faz  ato- 
dos ,  por  que  os  menos  se  gouernam  per  ordenãça  dei- 
la ,  e  os  mais  per  odeseio  dauôotade ,  e  fazem  esta  de- 
ferêça,  huíis  por  auerem  nas  cousas,  tam  curto  saber 
q  nom  conhecem  oque  he  bem  ,  e  mal ,  ou  por  auõo- 
tade seer  tam  ryia  q  cega  toda  arrazom,  ou  aforça  aja- 
da  que  de  todo  cegar  nom  pode  E  outros  que  boos 
som  se  regem  sempre  per  ella,  e  aquestes  muytas  ue- 
zes  deuem  fazer  oque  nom  querem,  e  leixar  de  cõprir 
quanto  deseiâ,  segundo  seu  boo  e  dereito  entender 


DE  BEM  CAUALGAR  TOttA  SELA.  47 

lhes  julgar,  e  sem  lecença  delia  noni  deue  obrar,  assy 
como  fazê  os  moços  bem  èssinados,  q  sem  outorgainê- 
lo  de  seus  ayos ,  cousa  nom  começa  E  os  que  trazem 
tal  custume,  nom  he  duuyda,  q  na  quellas  cousas  q 
elles  uyre  que  he  be  de  nom  aner  receo  que  nõ  per- 
cam delias  grande  parle,  ajnda  queo  aia  por  aazo  de 
cadahuã  das  outras  partes  ia  scriptas.  Epore  he  boo 
saberê  os  caualleiros  e  sendeiros,  quanto  he  auãteiada 
esta  manha  de  caualgar,  por  nom  recearê  dea  prouar, 
e  custumar,  por  tal  q  percalce  obem  q  se  delia  pode 
seguir  E  leixê  amyngua  q  pêra  elles  he  nom  assabere, 
deuem  esforçar  auõotade  pêra  husar  ,  e  nom  leixar 
squeecer  desque  forê  entrando  nos  dias  ,  por  q  aos 
mais  dos  homêes  uem  receo  de  correr,  e  caualgar  era 
bestas  fazedores  Esse  arrazom  lhe  nom  acorre  detodo 
perderõ  amayor  parte  do  custume.  E  quato  mais  lei- 
xarê ,  tâto  mayor  receo  aueram  ,  e  peor  caualgarâ  co- 
mo ia  he  dicto.  Mas  conhecendo  cadahuu  omal  que  se 
pode  dello  seguir,  deue  assy  forçar  auõotade,  q  aia  sê- 
pre  tal  husaça  e  atreuymêto,  qual  seu  entender  lhe 
mostra  q  deue  auer  Por  q  assy  como  os  mais  dos  mo- 
ços ,  menos  teme  as  queedas ,  do  q  he  bem ,  assy  os 
homêes  década  uez ,  mais  as  receam  ^  deue.  E  assy 
como  elles,  mais  cõpre  consselho  q  se  receê ,  e  tem- 
peradamente pêra  alguíís  logares  corra  Assy  despois 
q  os  dias  carrega,  cõuera  per  razõ  filhar  esforço  e  cus* 
tume  q  nõ  sa  couardem. 

Capitullo  VIU. 
tomo  por  auerem  alguâ  auantagem  som  alguús  homêes 
sem  receo.   Como  os  homêes  só  sem  receo  per  outro 
mayor  receo. 


Jl  or  alguíjs  ueerê  que  têe  auantagem  sobre  os  ootros, 
se  fazem  na  quellas  cousas  mais  sem  receo  E  aquesto 
he  nas  forças  e  saber  demanhas;  e  nas  armas  e  ajuda 


48  enssynaNça 

dhomees,  e  bestas,  e  outras  muytas  cousas,  secundo 
cadahuú  por  sy  pode  sctir,  e  nos  outros  hè  conhecer 
E  por  tanto  se  diz,  que  mais  sem  receo  pelleia,  quê 
as  costas  sete  quêetes  deboa  ajuda,  que  dessy  tem, 
ou  doutrê  spera.  Porê  he  sêpre  grande  proueito,  cada- 
huú se  trabalhar  por  auer  as  mais  boas  manhas  que 
poder  como  ja  disse  E  pêra  se  perder  orreceo,  per 
esta  guysa  em  caualgar,  he  muyto  boo  trazer  todollos 
corregimetos  auanteiados,  husar  boas  bestas,  por  q 
de  tal  husâça  gaãçarã  grande  atreuymêto,  e  do  con- 
trairo  crece  orreceo  De  homeês  operderê  em  alguâs 
cousas  per  outro  mayor  receo  he  muyto  claramête  uis- 
to.  Ca  huus  em  nauyos  temedo  aforça  do  mar,  se  lei- 
xam  yr  quebrar  aterra  Ej  outros  por  temerè  ofogo ,  se 
lança  de  casas  abaixo  E  porê  se  diz  que  huii  grande 
sêtymêto  tira  os  outros  somenos  E  assy  quem  recear 
amyngua,  q  he  aos  caualleiros  ,  e  scudeiros  nom  sabe- 
rem caualgar  e  cuydarem  que  se  ouuere  medo ,  ou  ê- 
pacho  deo  prouar  q  nuca  ossaberã  fazer  Cõuem  que  a» 
quel  receo  lhe  faça  perder  grande  parte  do  que  ouue- 
rem  de  cayr  com  abesta ,  ou  sem  eíla ,  em  tal  guisa 
que  por  el  nom  leixarõ  desseer  boos  caualgadores. 

CapiiuUo  IX. 
como  per  sanha  alguús  homées  som  se  receo. 

XJem  he  uisto  como  per  sanha  muytos  perdem  orre- 
ceo dalguas  cousas  que  sem  ella  oaueriam  Eporê  de- 
partem  alguus,  pois  em  esto  presta  se  ella  pêra  os  ho- 
meês he  boa  E  leixando  muytas  razooês ,  q  dhuã,  e 
doutra  parte  podem  fazer  segundo  aprendi.  Esta  he 
acerta  determynaçom  ;  que  ao  boo  homem  he  de  todo 
scusada ,  por  q  osaeu  boo  entender,  e  dereita  uõota- 
de ,  com  têperança,  e  fortelleza  lhe  abasto  pêra  bem 
dereitamente  uyuerê,  e  fazerê  todos  seus  feitos  Esse 
pêra  tal  home  he  boa  em  alguas  cousas,  seelloa  ê  auer 
sanha  dessy  se  mal  fezer,  ou  delia  meesma  sea  ouuer. 


DE  BEM  CAUALGAR  TODA   SELA.  4;) 

cotra  algiie,  onde,  e  como  nom  deue.  Caos  outros  ^ 
som  em  alguãs  cousas  mais  fracos,  e  mansos  do  q  ar- 
razom  dereita  nianda,  he  Jhes  muyto  boa,  seno  he  tam 
grande  que  otorue  Mes  se  lhes  faz  comprir  oque  ella 
manda,  como  nora  compriam,  seos  ella  nom  esforças- 
se, pêra  estes  e  tal  caso  he  muyto  proueitosa  E  uijn- 
do  ameu  propósito,  se  alguu  caualleiro  ou  scudeiro, 
faz  ocaualo  alguã  cousa  em  q  faça  myngua,  por  nõ  sa- 
ber caualgar,  conhecendo  que  por  ello  ficou  em  tal  fal- 
lymèlo ,  e  auendo  sanha  dessy.  Em  razom  esta  desse 
trabalhar,  denô  ficar  outra  uez  em  tal  perda,  ou  tor- 
uamêto  dauõotade,  perdendo  orreceo  do  medo,  e  em" 
pacho,  se  trabalhara  de  saber  esta  manha  oque  ante 
nom,  sabia,  ne  soubera,  se  assanha  nõ  fora  E  per  a- 
questa  semelhãça  se  pode  bem  ueer  aquaaes  he  pro- 
ueitosa ,  e  como  per  ella  se  tira  orreceo. 

Capitullo  X. 
como  per  agraça  special  alguús  som  sem  receo. 

i- 1  ora  êbargãte  q  pêra  auer  qual  quer  boa  manba , 
ou  uirtude  he  necessário  agraça  special  de  nosso  se- 
nhor deos ,  porem  neeste  caso ,  eu  declaro  assy  Se  al- 
guu homem  geeralmête  era  seus  feitos  recea  mais  do 
q  deue,  e  acertandosse  em  alguu  feito  perijgoso,  el 
se  mostra  tam  sem  receo  q  por  ello  ha  hõrra  e  scusa 
grande  mal,  que  diremos  que  faz  esto,  senom  graça 
special  E  assy  ueremos  alguus  que-som  sem  receo  era 
todos  seus  feitos,  e  alguã  uez  cayrem  em  grande  myn- 
gua,  e  desonrra  E  da  queste  que  se  pode  dizer,  se- 
nom que  deos  por  seus  pecados  odesemparou,  special- 
niente  do  grande  bem  que  lhe  auya  outorgado.  E  co- 
nhecendo assy  esto  ,  nos  deuemos  trabalhar  cõ  sua 
niercee  em  tal  guisa  q  aos  têpos  do  mester,  e  neces- 
sydade  nom  percamos  per  nosso  desmerycymêto  em 
caualgar,  e  todallas  outras  cousas  aboa  graça  q  nos 

7 


50  ENSSYNANÇA 

deu.    Mes  specialinêle  ueiamos  q  per  el  nos  lie  mais 
outorgada. 

Sobre  esta  parte  screuy  assy  lõgamête  por  q  bem 
conheço ,  que  muytos  por  auerê  mayor  receo  do  que 
deuem  6  caualgar  e  outros  boos  feitos  fica  mynguados 
de  saberem  oque  bem  poderiam  ,  e  a  elles  seria  pro- 
ueitoso  pêra  seu  acrecentamêto  e  grandes  honrras.  E 
conhecendo  cadahuu  dequantas  partes  este  receo  pode 
uijr,  e  como  per  agraça  denosso  senhor  deos,  com  al- 
guu  boo  esforço,  e  saber  se  pode  emendar.  Muyto  es- 
ta em  razom  de  mais  asynha ,  e  melhor  poder  receber 
emêda ,  do  que  fará  oque  senom  entender,  ne  conhe- 
cer omal  dondelhe  uem ,  e  as  cousas  que  lhe  pêra  elio 
pode  prestar. 

Acabasse  assegunda  parte  de  seer  sem  receo. 
Começasse  aterce-ira  da  segurança. 

Capitullo  L 

per  que  se  declarom  as  partes  como  se  gaanha 

assegurança. 


D< 


'esseer  home  sem  receo  em  caualgar ,  se  da  grSde 
aazo  asseer  see:uro  na  uõotade  e  contenêça ,  e  saber 
imOstrâr  sua  segurança  Porê  per  alguãs  das  partes  ia 
ditas  bê  podem  seer  alguus  sem  receo,  e  nom  seguros 
na  uootade,  nem  saberam  mostrar  sua  segurança,  assy 
como  huíi.  que  per  menêcoria  se  atreuesse  afazer  algua 
teousa  de  besta  de  que  el  nom  teuesse  fora  do  coraçS 
todo  medo ,  uergonça ,  e  empacho.  Gerto  he  que  aju- 
da que  teuesse  perdido  tanto  receo  per  que  toda  uya 
ofezesse,  nom  mostraria  porem,  nem  aueria  aquella 
boa  e  dereita  segurança,  que  huu  boo  cauajgador  de- 
^e  auer.  Mes  antre  as  outras  cousas  q  segfido  disse 
tirom  orreceo  ,  quatro  som  que  muyto  principalmête 
trazem  esta  segurãça  .s.  naçom ,  e  presunçom ,  husãça 
errazom    E  por  q  da  naçom  ,  e  preç unçom ,  e  husãça 


DE   BliM   CAUALGAU   TODA    SELA.  51 

tenho  ja  dito  como  fazem  perder  orreceo ,  e  gaanhar 
assegurança,  fica  declarar  quanto,  e  como  presta  arra- 
zom  pêra  auer,  manteer,  e  mostrar.  E  porem  he  des- 
saber  que  amyngua  da  segurança  da  uõotade  se  mos- 
tra per  cada  híià  destas  cynquo  partes  .s.  por  se  recear 
de  fazer  alguà  cousa,  ou  fazendoa  trigosamente,  ou  se 
toruar,  e  êpachar  quando  a  fezer  tarde  e  priguiçosa- 
niête  acodir  ao  que  compre  E  por  mostrar  que  põe 
em  ella  mayor  femença  do  que  deue. 

» 

Capitullo  Secundo. 

como  por  receo  se  mostra  amyngua  da  segurança,   E 

como  per  trigança  se  mostra  amyngua  delia- 

Jl  era  esto  melhor  declarar  ponho  êxempro  dello  S© 
alguu  andado  acauallo ,  recea  dauer  perigoo ,  ou  uer- 
gõça  Certo  he  que  auoontade  ia  nom  he  segura,  por  ^ 
otemor  esta  no  coraçom ,  e  pois  assegurança  em  el  tê 
sua  morada  ãbos  ahuu  tepo,  de  huã  cousa  nom  podem 
em  el  bem  estar  Eassy  auendo  receo  do  que  fazem, 
'  nom  pode  deilo  auer  segurança  em  quanto  durar  ote- 
mor E  posto  que  alguíí  per  sauha,  ou  as  outras  partes 
ante  scriptas  se  atreua  caualgar  huã  besta  fazedor,  ou 
queira  em  ella  tal  manha  de  que  nõ  ha  boa  segurança 
Certo  he  que  logo  per  quem  dello  ouuer  boo  conheci- 
mêto  será  iierdadeiramête  conhecido  no  rosto,  corpo, 
ou  conteneça  Por  se  trigar  he  bem  conhecida  amyn- 
gua da  segurâça ,  ca  temêdo  alguú  oque  uee  q  lhe  po- 
de êpeecer  trigosamente  lhe  quer  poer  remédio  E  as- 
sy  he  huã  synal  muyto  conhecido,  q  nom  ha  boa  se- 
gurâça na  uoontade  em  alguíí  feito  quem  se  triga  em 
ofazendo.  E  nom  he  de  filhar  q  se  faz  huã  cousa  com 
trigança ,  por  se  fazer  com  boa  aguça ,  ca  muyto  des-" 
uairô  ãtressy  per  esta  deferença ,  aguça  faz  sem  tar- 
dança cõprir  oque  manda  oboo  e  dereito  entender  E 
atrigança  uem  do  coraçom  j  por  seer  geeralmente  em- 

7    » 


fj2  ENSSYNANÇA 

lodos  seus  feitos  trigoso,  por  se  temer  em  algims  cou- 
sas como  suso  he  scripto,  ou  auer  em  ella  sobeia  uoon- 
lade,  e  as  mais  uezes  faz  mal  obrar,  sêpre  mostrando 
mjngua  de  segurãça. 

Copitullo  III. 
Como  per  toruamelo  ou  épacho  se  mostra  amyngua  da 
segurãça  E  como  per  tardar  sobeio  defazerê  oque  de- 
ue  se  mostra  mi/ngua  delia. 


Jlot  quanto  as  cousas  que  som  no  coraçom  nom  po- 
dem dos  outros  seer  conhecydas  seno  polias  obras  q 
ueê  de  fora,  Porê  ueêdo  aíguíi  q  tarda  muyto  fazendo 
alguã  cousa  de  acodir  ao  que  dizem  que  nõ  he  bê  se- 
guro ê  ella  Por  que  assy  como  alguíí  trigandosse  por 
seer  de  naçom  trigoso,  íhe  conta  queo  faz  sem  boa  se- 
gurança ,  se  be  tal  cousa  que  possa  auer  receo ,  uer- 
gõça,  ou  empacho,  posto  queo  elle  faça  por  sua  con- 
diçom  natural,  assy  quando  ueê  que  tarde  e  pryguy- 
çosamente  açude  ao  que  compre  em  as  obras  que  faz, 
be  taaes  som ,  logo  he  culpado  queo  nõ  faz  seguramê- 
te  Posto  que  el  por  seer  de  naçom  priguiçoso,  ou  ua* 
garoso  ofaça. 

Capitullo  IIIL 

como  se  mostra  a  myngua  da  segurança ,  por  alguú  poer 

mayor  femença  cm  alguã  cousa  q  faz  do  que  deue. 

Jr  aliando  propriamête  omedo,  ou  receo  he  contrarro 
da  segurança  Eporem  mostrando  ajguu  em  seu  geito, 
que  põe  mayor  femêça  no  que  faz,  do  que  deue ,  bem 
declara  que  osseu  coraçom  nom  esta  bem  seguro.  Ca 
teme-ndo,  ou  receando  alguã  cousa  contrairá  q  uijr  lhe 
pode,  põe  neella  sobeia  guarda  Equandolho  assy  uêe 
fazer  logo  entêdem  que  he  com  myngua  dessegurança 
Epodesse  mostrar  ante  do  feito  e  depois  q  som  em  el. 


DE   BEM  CAUALGAR  TODA   SELA.  53 

per  cadahuã  das  partes  suso  scriptas,  e  ponho  exem- 
pro  auosso  propósito  Se  alguíí  dizem  que  caualg-ue  em 
alguu  cauallo  fazedor,  e  el  receando  perigoo  ou  uer- 
gonha,  onom  ousa  fazer,  claramente  mostra  que  nom 
tem  na  quelle  feito  auõotade  segura  Esse  ueê  que  cor- 
regendosse  pêra  caualgar,  se  triga,  torua,  ou  empa- 
cha, ou  tarda  mais  do  que  parece  razom ,  bem  se  dirá 
que  per  myngua  de  segurança  ofaz  Esse  for  tal  besta 
em  4  ^1  "<^"^  ^j^  defazer  seno  corrella,  ou  saltar  huíi 
razoado  salto,  e  uee  que  põe  mujto  sobeia  delligêcia 
em  se  correger  por  se  guardar  de  nom  cayr,  assyo  jul- 
gam que  he  feito  cõ  myngua  dessegurança  E  por  esta 
guysa  se  uee  depois  que  som  a  cauallo  que  por  pouco 
"bulir  se  apertam  tam  ryjamete,  e  se  apega  com  tal 
contenêça  q  logo  declarom  sua  myngua.  E  desta  guisa 
em  outros  semelhãtes  casos  se  pode  assaz  entender  co- 
mo se  mostra  muytos  delia  fallidos  por  fazerem  as  cou- 
sas com  mayores  mostrãças  de  reguardo ,  e  femen^a 
do  que  efeito  requere. 

Capitullo  quynto 
comosse  pode  gaanhar  e  mostrar  esta  segurança. 

Xiitas  e  declaradas  estas  cousas  per  quesse  mostra 
ofallycimêto  da  segurança ,  se  pode  bem  conhecer  co- 
mo ella  se  deue  gaanhar,  manteer,  e  mostrar,  por 
que  guardandonos  do  que  he  cõtrairo  gaanharemos  a- 
quella  parte  q  auer  quisermos ,  e  ponho  desto  exem- 
pro.  Se  alguii  se  conhece  delia  mynguado  por  medo , 
uergonha,  ou  empacho  que  aia  decaualgar,  reguarde 
aquellas  cousas  suso  scriptas  por  que  declarey  que 
muytos  perdem  orreceo,  e  façaaes  assy  como  por  mym 
he  scripto  E  bem  creo  que  gaanhara  tanta  segurança 
que  pêra  este  feito  razoadamête  lhe  abastara  Eleixâdo 
todallas  outras,  sollamente  aia  husãça  ê  boas  bestas, 
«  geitosas  segundo  apessoa  for,  e  uera  conhecidaiuente 


54  ENSSYNANÇA 

que  recebera  grande  melhoria  E  do  q  eu  disse  de  tor- 
uar,  empacho,  e  trigança,  e  poer  ma)'or  femença  do 
que  deue ,  conhaçasse  cadahuu  se  erra  per  alguâ  desa- 
tas partes  Ca  se  bem  nom  conhecer  seu  falliçimento, 
em  esto  nem  outra  cousa,  nuca  se  bem  pode  emendar 
Esso  uyr  que  erra  por  trigança,  el  afaça  por  huú  têpo 
tam  deuagar ,  que  lhe  pareça  que  as  faz  mais  uagaro^ 
samête  que  deue  E  assy  em  nas  outras,  onde  sçtir  huu 
fallicimêto ,  huse  tanto  por  ocontrairo  que  lhe  pareça 
huíi  pouco  sobeio.  Por  que  regra  geeral  he,  q  assy  co- 
mo se  faz,  querendo  alguíi  paao,  ou  uara  torta  ende- 
reitar,  otorcem  aaparte  contrairá,  que  per  esta  guisa 
deuemos  fazer ,  se  conhecermos  que  nom  guardamos  ê 
alguâ  uirtude  omeyo  e  nos  derribamos  acada  huíi  dos 
cabos  ê  quea  erro,  q  assy  cedo  como  bem  podermos 
nos  deuemos  lançar  por  alguú  têpo  aoutra  parte,  em 
tal  guisa  q  per  custume  da  quel,  e  desauezamento  da 
outra  q  primeiramête  seguyamos,  nossa  razõ  possa  co- 
nhecer, e  ocoraçom  possuyr  aquelle  dereito  stado  5 
naquella  uirtude  deuemos  auer.  E  quando  alguâ  cousa 
de  çauallo  quisermos  fazer,  se  onosso  coraçom  por  seer 
ê  ello  mujto  seguro  nom  se  quer  proueer  do  q  lhe 
compre  O  desejo  denossa  saúde,  e  proueito  nom  cõs- 
sente  tam  sobeia  segurança,  eo  faz  proueer  detodo 
aquello  q  lhe  he  necessário  E  assy  quando  este  deseio 
me  requere  que  ponha  sobeia  deligencia  em  me  guar- 
dar dos  perigoos  que  me  podem  acontecer,  ocoraçom 
nom  me  cossyntira  q  ofaça ,  sentindo  que  por  ello  me 
podem  prasmar.  E  antre  estes  dous  contrai ros,  e  de- 
bates que  em  cada  huu  denos  mujtas  se  fazem ,  oboo 
entender  julga  oque  dereitamête  auemos  seguyr,  nom 
satisfazendo  detodo  aassobeia  segurança,  que  ocora* 
çom  quer  mostrar,  nem  ao  proueito  deq  odeseio  se 
quer  proueer.  E  conhecendo  dhuã  parte  que  pois  aue- 
mos razom  q  per  ella  todos  nossos  feitos  deuem  seer 
regidos  e  nô  leixar  as  cousas  sobre  uentuira.  E  da  ou* 
tra  conhecendo ,  cam  pouco  he  nosso  saber  epoder ,  e 


DE   BEM    CAUALGAR   TODA   SELA.  55 

como  toda  cousa  guarda,  por  muyto  que  nos  auisemos, 
na  maào  do  senhor,  princypalmente  he.  Aueremos  es- 
ta temperãça  nõ  duuydarnios  defazer  todallas  cousas, 
que  anosso ,  stado  ,  ydade  ,  e  desposiçõ  perteece  ,  se- 
gundo as  fazem  nossos  semelhantes,  que  por  boos  som 
conhecidos  ,  sabendo  que  oprincipal  carrego  de  nos 
guardar  he  daquelle  q  cada  huu  dia  deperigoos  sem 
conto  nos  guarda.  E  nos  porê  nom  deseparando  ahu- 
sãça  da  razom ,  nos  auisaremos  detodo  oque  bem  po- 
dermos, no  auendo  em  nos  oprincipal  esforço,  mes  em 
deos,  nem  leixando  por  ello  defazer  oque  deuomos  em 
todallas  cousas  ajnda  que  perigosas  seiã ,  quando  têpo 
razoadamente  nollo  demanda  Eper  aquestes  exêpros 
suso  scriptos  me  parece  que  he  declarado  como  os  ho- 
meês  per  boo  entender  pode  auer,  e  mostrar  sua  boa 
segurãça  por  conhecerem  seus  fallicimêtos  Esse  esfor- 
çarem quanto  em  elles  for,  e  acnstumarem  cõtynuada- 
mête  asseguyr  aquelle  boo  geito  q  uerdadeiramête  en- 
tenderem q  em  cadahuã  cousa  deuem  teer. 

CapituUo  Sexto 

comosse  per  aJguâs  mostrãças  pode  tnoslrar  esta 

segurança. 

JL  odesse  ajnda  mostrar  esta  segurãça  per  alguâs  mos- 
trãças contrafeitas  as  quaaes  nom  tam  soomente  pres- 
tam ao  parecer  defora  mais  quandoas  per  muytas  ue- 
zes  custumã  ocoraçõ  por  ellas  se  segura  mais  cadauez 
ataa  uíjr  a  gãaçar  boa  e  uerdadeira  segurança  qual 
pêra  esto  copre,  das  quaaes  por  exempro  declaro  es- 
ta». Huâ  he  quando  andar  acauallo  fazedor,  ou  quiser 
fazer  cousa  duuydosa ,  sempre  mostre  boa  leda  conte- 
nêça,  e  queda.  E  nom  porem  tãto  sobeio  q  conheçam 
que  he  contrafeita  Por  que  se  fosse  por  tal  conhecida 
mais  mostraria  myngua  que  auondãça  delia.  Outra  que 
se  atouçar,  ou  saltar  alguu  salto,  ou  contornar,  ou 
dessy  ocauallo  áspero  fezer  alguãs  uezes,  uenha  cora 


f^r,  -  ENSSYNANÇA 

amaao  passaniête  acorreger  ocapello,  ou  cynta,  ou 
roupa,  ciando  aêtender  que  daquello  ha  niavor  sentido 
que  desse  leer  firme,  mostrando  que  detodo  oque  a- 
besta  faz,  tem  pequena  cota.  E  esto  nom  façom  mujto 
ameude ,  nem  contynue  defazer  huâ  cousa,  mes  ora 
huã  ora  outra,  segundolhe  mais  ueher  ageito  E  qual 
quer  delias  nom  faça  per  logo  spaço ,  senom  como  re- 
quero oque  el  mostra  querer  correger  Doutra  maneira 
se  faz  yndo  fallando  em  algua  storia  com  pessoa  q  nom 
seia  degram  cota,  por  apertar  abesta  das  pernas,  ou 
passamête  atocar  da  spora,  em  tal  guisa  q  se  nom 
ueia,  ou  detetar  ofreo  afazer  que  ella  se  auyue,  mos- 
trando que  dessy  ofaz  Eajnda  queo  assy  faça  nom  mu- 
dando a  contenêça,  fallar,  e  ouuyr  como  ante  fazia.  E 
mostrando  que  quer  assessegar  abesta ,  dar  lhe  aazo 
encuberto  per  que  mais  faça  E  daquesta  guisa  se  pode 
mostrar,  fallando  com  alguú  senhor ,  se  abesta  dessy 
fezer,  nom  leixando  por  cousa  que  ella  faça  deleuar 
dereita  contenêça  êno  ouuyr,  e  lhe  fallar  Esse  ouuyr, 
ou  fallar  alguíl  que  uaa  de  pee,  nô  leixãdo  alguú  pou- 
co desse  abaixar  contra  el,  como  faria  se  queda  fosse 
E  assy  quando  todos  reguardam  alguã  cousa  sijnada- 
mête  q  bulyndosse  ajnda  que  áspero  seia,  nom  leixe 
dolhar  oque  como  trazem  os  outros  E  daquesto  se  filha 
huâ  geeral  regra,  que  por  cousa  que  abesta  faça,  ora 
seia  per  nosso  prazer,  ora  per  osseu  delia  se  tal  nom 
for,  que  se  detodo  deua  mostrar  que  nos  parceiramen- 
te  as  fazemos ,  sepre  deuemos  mostrar  que  aquello  tam 
pouco  sétimos ,  nem  nos  torua  como  se  fossemos  pas- 
seiando.  E  destes  exêpros  se  poderiam  dar  muytos  ou- 
tros, mes  per  aquestes,  quem  os  bem  reguardar,  uera 
que  maneira  nos  outros  casos  semelhauees  deue  teer. 
E  toda  ameestria  desto  esta,  q  assy  saibha  todo  faz, 
que  sempre  mostre  que  he  feito  cõ  segurança  real,  e 
uerdadeira,  e  nom  contrafeita. 


DE  BEM  CAUALGAR  TODA  SELA.  57 

CapituUo  septimo 
da  duuyda  sobre  esta  moslrança. 

A^gu\\s  diziam  que  taaes  mostrãças  senom  deuyam 
fazer  por  boos  homeês,  por  q  em  jogo  nê  uerdade  nQ- 
ca  deuya  husar  demõLira  nê  tal  mostrança  Ante  de- 
uem  scer  em  seus  feitos,  e  dictos  claros  e  uerdadeiros 
Ehusando  de  taaes  mêtiras  poderiam  filhar  custume 
demêtir  em  outras  cousas  Edesquesse  filha  por  husan- 
ça  he  muyto  maao  de  leixar  A  esto  respondo  que  taaes 
mostranças  feitas  aboa  fim  ,  por  home  uesar  bem  seu 
coraçom,  e  êcobrir  dessy  todo  contrairo,  sem  uijr  aou- 
Iro  perjuyzo,  q  nom  he  mêtira ,  e  podesse  fazer  sem 
prasmo ,  nem  embargo  da  conciencia  E  detal  husãça 
ho  boo  home  nom  filhara  custume  dementir  em  cousa 
que  nom  deua.  Ca  posto  que  taaes  mostranças  faça, 
sêpre  se  porê  guardara  daquellas  em  que  ouuer  peca- 
do, ou  dereito  prasmo. 

Âcabousse  aterceira  parte  da  segurança  E  começasse 
aquarta  desseer  assessegado. 

CapituUo  primeiro 

JTassadallas  três  partes  de  q  screuy,  aprimeira  des- 
seer forte  que  he  amais  principal  que  huíi  caualgadof 
deue  auer,  assegunda  do  atreuy mento,  a  terceira  das- 
segurança  q  pêra  bem  caualgar,  e  outras  cousas  muy- 
to uallem  ,  screuerei  na  quarta  desseer  assessegado 
mais  breuemêíe  E  pêra  cobrar  assessego  na  sella  , 
qual  se  deue  auer,  prestam  muyto  estas  principaaes 
partes  suso  scriptas  Desseer  forte,  sem  receo,  esse- 
guro ,  mes  côuem  q  se  declare  como  per  alguii  geito 
se  deue  filhar   Alguiis  penssõ   que  ogrande  assessego 

8 


58  ENSSYNANÇA 

mostra  myngua  de  soltura,  por  nom  conhecerem  de  q 
partes  se  ha  dauer,  eein  q  tempos,  e  aquesto  nom  he 
assy  Ante  oboo  assessego  da  grande  ajuda  assoltura, 
segundo  adiante  será  declarado.  E  pêra  esto  he  des- 
saber,  queo  boo  caualgador  deue  concordar  seu  asses- 
sego, segundo  ia  disse,  com  aobra  que  abesta  faz,  que 
se  for  passeiando ,  nom  presta ,  nê  parece  bem  asses- 
segarsse  muyto  ,  e  stirar  amballas  pernas  e  mostrar 
muy  firme,  e  queda  contenêça,  ca  fazendo  assy,  mos- 
tra que  traz  medo  da  besta,  ou  que  dessy  he  êpacha- 
do ,  mais  oboo  geito  C£  em  tal  têpo  se  deue  teer  he 
mostrar  sua  soltura  g^eeral  de  todoo  corpo  assy  segura, 
como  se  de  pee  fosse  passeiando  E  nom  porem  em  tal 
guisa  q  se  deleixe  na  sella,  ca  sêpre  parece  mal,  mes 
ieuãdo  a  contenença,  q  assella  em  q  for  requere,  des- 
sy meesmo  mostre  assoltura,  e  q  nom  leua  receo,  nem 
uay  êpachado  E  todo  porem  se  pode  fazer  em  tal  guy- 
sa ,  que  se  guardara  odereito  assessego  que  cadahuiS 
deue  teer,  segundo  quem  he ,  e  olugar,  e  abesta  em 
que  uay  E  quando  trotar,  ou  uyuamente  andar,  ia  pa-» 
rece  melhor  mostrar  em  eíla  mayor  firmeza,  e  assesse- 
go E  dally  auante  quanto  mais  fezer  abesta,  tanlomy- 
Ihor  parece  andar  quedo  e  seguro  na  sella. 

Capiliãlo  segundo 
como  deue  seer  oassessego  Jilhado, 

Ho  assessego  se  deue  filhar  primeiramente  dos  gío- 
Ihos  arriba,  que  ia  mais  nô  se  deue  afroxar  da  besta, 
se  tal  cousa  faz  em  q  seia  necessário  E  os  pees  deuem 
seer  bem  firmes  nas  strebeiras,  segundo  meu  custume, 
como  tenho  scripto,  onde  falley  no  desuairado  caual- 
gar ,  q  as  sellas  queriom  ,  segíido  suas  feiçooês  Se  a- 
besta  corre  ou  faz  asperamête,  orrostro  deue  seer  que- 
<lo,  -e  seguro,  e  nom  bullyr  acabeça  sem  necessydade, 
e  esto  porê  em  tal  guysa  q  nom  pareça  q  anda  empa- 
chado E  quando  uyr  que  he  bem ,  ou  lhe  prouuer  ^© 


DE  BEM  CAUALGAR  TODA  SELA.  59 

oolhar  alguíí  cousa,  torne  orroslro  aueella  iam  sem 
epacho  como  faria  slando  depee  Edo  corpo  se  filha  a- 
jiertadosse  das  spadoas,  e  enlesandosse ,  andando  po- 
rem prestes  desse  endereitar,  ou  encostar  a  cadahuâ 
das  partes,  nom  por  abesta  aboUyr,  mas  ])or  el  seer 
tam  senhor  dessy,  que  possa  andar  com  ocorpo  por  se 
teer  mais  forte  na  besta,  e  mais  fremoso,  e  de  mais 
segura  e  melhor  coteneça  como  el  uyr  que  he  bè  E 
por  reger  alguà  laça,  ou  a  lançar,  ou  fazer  algua  ou- 
tra cousa,  el  seiíf  assy  firme  do  corpo,  q  sem  êbargo 
q  lhe  abesta  faça,  elle  possa  soltar  seus  pees  peraa  fe- 
rir, e  as  maàos  peraa  laça,  e  rédea,  pêra  toda  outra 
cousa,  andando  armado,  ou  nom  trazendo  armas  a  tàt 
sem  empacho  como  de  pee  ofaria.  ou  se  abesta  fosse 
passeiando.  Ho  assessegar  bem  os  pees  nas  strebeiras, 
assy  q  nõ  ande  bulyndo  em  ellas,  da  grande  ajuda  ao 
geeral  assessego  de  todo  ocorpo.  E  questo  se  faz  tra- 
zendoas  em  boa  jguallaça  da  lõgura.  Esse  custuma 
trazer  o  pee  todo  dètro ,  faça  chegar  a  correa  da  stre- 
beira  ao  logo  da  perna ,  e  trazendoas  porem  de  tal  lõ- 
gura q  possa  trazer  os  calcanhares  razoadamête  bai- 
xos,  e  nõ  faço  do  pee  perna  Se  custuma  opee  demeo 
deuesse  trazer  ocalcanhar  huíí  pouco  baixo  e  lançado 
pêra  fora  E  o  collo  do  pee  sêpre  bem  entesado,  por 
que  dally  se  filha  grande  parte  doboo  assessego  E  as 
sellas  e  as  strebeiras  bem  feitas,  e  razoadamête  corre- 
gidas  uallê  muyto  pêra  esto. 

Capitullo  terceiro 

da  moyor  declaraçom  de  como  se  deue  guardar  ohoo 

assessego  ,  e  do  proueito  que  faz. 

-L/o  apertar  das  spadoas ,  e  entesar  do  corpo,  faz  aos 
caualgadores  correr  as  carreiras  bê  quedas  e  mais  fre- 
moso E  deuê  seer  auysados  de  ferir  das  sporas ,  por 
que  dos  giolhos  afundo,  sollamête  abollê  as  pernas  por 
ferir  abesta  E  dos  braços  se  deuem  auysar,  q  os  nom 

8  * 


fiO  ENSSYNANÇA 

tragam  Stesados  com  ocorpo ,  assy  queo  mouer  delles 
faça  desassessegar ,  mes  no  trazer  da  rédea ,  e  em  ou- 
tra qual  quer  cousa  que  aia  defazer,  sêpre  ocorpo  seia 
quedo,  sobressy  e  dereito  E  das  maãos,  e  dos  braços, 
e  dos  pees ,  se  ajude  quanto  lhe  prouuer,  e  uyr  que 
he  bem  nõ  aballando  por  ello  mais  ocorpo  do  q  for  ne- 
cessário E  per  este  geito  se  da  grande  auantagem  asse 
fazerem  as  armas  }t  quedas  no  corpo,  que  se  nom  mo- 
uã  como  fazem  alguús,  que  por  se  nom  saberem  ente- 
sar, lhe  aballã  tanto,  q  recebem  delias  grande  torua, 
em  bem  parecer  e  soltura.  E  ajnda  nuca  tam  ryjos  se- 
rã  na  sella  seendo  nas  outras  cousas  de  jgual  desposi- 
çô,  como  aquelles  que  sy ,  e  suas  armas  bem  sabem 
assessegar.  Ca  do  boo  assessego  na  besta ,  se  da  gran- 
de ajuda,  asseer  em  ella,  ryjo ,  solto  e  fremoso  E  ao 
bem  trazer  da  maão,  e  a  moor  parte  das  outras  cousas 
queo  boo  caualgador  deue  auer  Eporem  aquelles  queo 
deseiom  desseer,  muyto  se  deuem  trabalhar  q  aia  boo 
assessego  do  corpo,  e  rostro,  e  contenêça  E  conheçS 
bem  qual  se  deue  dauer  em  cadahuâ  cousa,  filhando 
êxempro  por  aquelles  q  ueem  q  obem  sabem  ,  e  que 
sobre  os  outros  em  esta  manha  mais  cõ  razom  sõ  lou- 
uados. 

Acabasse  a  quarta  parte  de  seer  assessegado  E  come- 
çasse a  quinta  de  seer  solto. 

Capitullo  primeiro 
desseer  solto ,  e  da  soltura  da  uoontade. 

VJTuardandosse  a  orde  que  tenho  começada  da  soltura 
q  sobre  abesta  auer  se  deue,  me  côuê  trautar  da  qual 
seu  nome  nos  da  em  parte  alguu  conhecimento  Por 
que  seer  solto  bem  semostra  que  homem  nom  he  pre- 
so dos  embargos  que  e  tal  caso  muytos  prende  E  a- 
questes  som  empacho  e  fraqueza  dauõotade  deshorde*- 
iiada,  uergõça,  myngua  do  corpo,  pouco  saber  da  ma- 


DE   BEM   CAUALGAR    TODA   SELA.  61 

nha,  e  pequena  liusança  E  pareceme  necessário  de 
cada  huíi  destes,  trautar  pêra  mostrar  como  de  suas 
prisooês  poderemos  algua  cousa  seer  Jyures  e  gaííçar 
aquella  boa  soltura  q  na  questo  auersse  deue.  J\a  uoo- 
tade  algufis  lilliRm  tal  embargo  per  q  muyto  sô  torua- 
dos  no  q  liam  defazer  por  empacho,  fraqueza,  desor- 
denada ucrgonça.  Daquesto  ia  fallei  como  se  podia 
em  alguã  parte  remediar,  mes  pêra  mayor  declaraçom, 
eu  uy  alguus  liuros  em  que  se  screue  dhuã  uirtudeque 
chama  grandeza  do  coraçom,  e  diz  q  faz  ao  home  teers- 
se  ê  cota  pêra  obrar  toda  cousa  assy  como  huii  boo 
home  opode  e  deue  bem  comprir  E  tal  entençom  de- 
ue seer  uerdadeira,  ca  se  el  tem  sy  em  muyto,  e  uai 
pouco  tal  chamo  presuntuoso  Esse  el  uerdadeiramête 
he  pêra  mais  bem ,  ou  osseria  se  despoersse  quisesse 
do  q  pêssa  tal  se  diz  do  pequeno  ou  fraco  coraçora 
Requeresse  a  quem  ouuer  esta  uirtude  q  el  se  tenha  em 
boa  styma  pêra  fazer  grandes  e  boos  feitos  segundo  a- 
pessoa  for  E  que  assy  seia  que  el  obre  segundo  acõta 
em  que  se  tem  ,  por  q  he  duuydoso  estar  no  meo  uer- 
dadeiro  per  huíi  certo  conhecymento  que  dessy  tenha, 
determyna  oíillosofo  que  mais  próprio  he  ao  grande 
coraçom  algua  cousa  mais  de  seu  poder  presumyr,  que 
menos  de  sy  confiar  E  aquelles  que  esta  uirtude  hã, 
se  he  geeral  em  todos  seus  feitos,  toda  cousa  fazê  sol- 
tamête,  por  q  todollos  horaeês  em  sa  uoontade  som 
muyto  embargados,  se  pêssom  errar  no  q  fazem,  mes 
aquelles  que  todluya  spera  bê  no  fazer,  pequeno  em- 
bargo recebem  da  uoontade  e  ajnda  que  errem  logo 
entende  êmêdallo  Eporem  se  nom  toruam  nem  afas- 
tam decometer  ou  husar  oque  ueê  que  he  bem  ,  ou 
lhe  praz  defazer.  Digo  geeral  por  q  alguiís  ateê  em 
huâ  cousa,  e  nom  em  outra,  segildo  he  bem  uisto  que 
huiis  se  atreuerõ  acaualgar  e  nom  adançar.  e  alguiis 
apelleiar,  e  no  acantar  e  assy  em  todallas  outras  cou- 
sas, mas  aquelles  quea  teem  special,  acerca  daquella 
cousa  q  fazem,  sem  duuyda  lhes  da  grande  ajuda  peraa 


g2  EXSSYNANÇA 

fazerem  soltamente  Da  uergonça  cleshordcnada  som  aí- 
guus  muyto  embargados,  por  myngua  deboo  enten- 
der husança,  côuerssaçom  ,  consselho,  ou  auysamêto 
E  aquesto  se  faz  por  que  segundo  disse,  eu  faço  defe- 
rença  da  uergonça  ao  empacho ,  e  empacho  entendo  q 
uem  do  coraçom  Eporè  torua  era  toda  cousa,  ajnda 
que  seia  conhecido  q  he  boa  pêra  fazer  E  auergonça 
procede  da  parte  darrazom  Eporem  penssando  aJguus 
daJgua  manha  q  nom  he  razoada  pêra  elles  leixãna  de- 
prouar  ou  dhusar  E  com  esto  lhes  filhar  êpacho ,  nom 
podendo  em  ella  auer  aquella  boa  soltura  q  auer  se 
deue  E  tal  tençom  como  esta  se  he  errada ,  daparte 
darrazom  lhe  uem  tal  erro  e  auergonça  lhes  traz  ©em- 
pacho querendo  alguu  gaanhar  assoltura  dauõotade,  he 
necessário  tirar  oempacho  per  husãça  e  presuçom  des- 
sy  que  he  pêra  fazer  oque  os  outros  desseu  stado  fe- 
zerem  teendosse  naquella  conta  que  el  uerdadeiramê- 
te  he  ou  mais,  e  entendendo  q  he  abastante  pêra  ca- 
ualffar  bem  e  fazer  acauallo  qual  quer  cousa  como  ou- 
tro homem  semelhante  dei,  e  nom  se  entenda  que  por 
tal  presumyr  ^  deua  seer  desprezador,  e  oufano ,  por 
q  ajnda  que  tal  têeçom  tenha,  oque  boo  e  uirtuoso  for 
sempre  guardara  aos  outros  aquella  honrra  e  cortesia 
que  guardar  deue.  Da  parte  darrazom  côuem  auer  boo 
conhecimento  das  manhas  que  cadahuu  segundo  ayda- 
de  stado ,  e  têpo  cõuem  dehusar  e  aquellas  que  som 
pêra  fazer  ajnda  queo  coraçom  perssy  se  queira  empa- 
char deue  seer  forçado  e  perderlhe  oempacho,  uergon- 
ça, e  preguiça,  e  auer  delia  grande  e  boa  husança 
pqr  que  se  gaanha  grande  parte  da  soltura. 


DE  BÊM  CAUALGAR  TODA  SELA.  63 

Capitidlo   ser/wndo 

da  desposiçom  do  corpo  ^  do  saber,  da  manha  ^  e  da 

husan^a  delia. 

JLfa  desposiçoni  dos  corpos  ê  caualgar  e  assy  nas  ou- 
tras nianlias  teê  alguiis  sobre  os  outros  grande  auanta- 
gem  geeralniete  em  todoUas  cousas  ou  specialmête  em 
alguãs  E  aquesto  nõ  uê  da  feiçom  q  assynadamête  se 
possa  declarar  porq  alguíis  aauista  parece  empachados, 
e  todallas  cousas  fazem  soltamête,  e  outros  peIJo  con- 
trairo  E  tal  ordenança  q  nosso  senhor  deos  em  esto 
pos ,  me  parece  que  deue  dar  grande  atreuymêto  aos 
homeês  teerem  grande  têeçom  de  percalçar  qual  quer 
manha,  e  nom  desasperar  de  auer,  ajnda  que  sua  fei- 
çom pêra  ellas  lhe  nom  pareça  desposta ,  por  q  uerom 
os  outros  q  som  pêra  ello  tam  pouco  auista  perteecê* 
tes  como  elles  auerem  assaz  boa  soltura  na  quella  ma- 
nha em  q  adeseiom  auer,  e  bem  tenho  que  mais  alei» 
xam  de  percalçar  as  manhas  por  myngua  dauõotade, 
e  fraqueza  delia,  q  por  desposiçom  do  corpo,  ajnda 
que  sem  duuyda  alguus  naturalmête  som  tam  strema- 
dos  caualgadores  q  poucos  acharõ  seus  semelhãtes,  e 
outros  assy  empachados  q  agram  trabalho  lhe  faro  auer 
boa  soltura,  mais  leixando  estas  cousas  q  som  natu- 
raaes,  e  fallando  no  q  ao  êssyno  pertèece,  neestas  qua- 
tro partes  côuem  desse  auer  assoltura.  Aprimeira  do 
braço  dereito  pêra  reger,  lançar,  cortar,  e  fazer  qual 
quer  cousa  Assegunda  da  maão  e  do  braço  ezquerdo 
pêra  trazer  arredea,  e  assoltar  e  teer,  e  uoltar  acada- 
huã  das  partes  como  uyr  ^  compre  A  terceira  das  per- 
nas, do  giolho  afundo,  pêra  ferir  abesta  quâdo,  e  co- 
mo cõprir  A  quarta  he  da  cõtenèça  do  rostro  e  do  cor- 
po, segundo  ia  screuy,  onde  falley  da  segurança  E  es- 
ta soltura  dos  braços,  e  das  pernas  se  deue  auer  nora 
os  trazendo  com  ocorpo,  mais  cadahuu  perssy  fazendp 
seu  ofício ,  ajnda  que  ocorpo  seia  quedo  E  aqueste  he 


C4  ENSSYNANÇA 

huíi  dos  boos  geitos  queo  caiialgador  deue  auer,  e  os 
que  sabem  os  corpos  trazer  de  boo  assessego  apercaU 
çom  melhor  queos  outros  como  dito  he. 

CapiíuUo  III. 

dá  declaraçom  dalguâs  manhas  quesse  a  cauallo  cusiu- 

inam  fazer  de  quesse  adiante  da  ensynamento. 

X  era  auer  boa  soltura  se  requero  boo  saber  das  ma- 
nhas,  per  q  doutra  guisa  nom  se  pode  bê  percalçar, 
nem  mostrar  E  as  principaaes  som,  segundo  meu  juy- 
20,  ensayarsse  armado  de  guerra,  assy  corregido  como 
em  ella  deue  andar,  justar,  tornear,  auendo  boo  mees- 
tre,  ou  meestres,  queo  auisê  no  q  comprir  E  el  crea 
oque  lhe  disserê  e  lhe  obedeeça,  por  que  necessário 
he  ao  que  aprende  creer  e  obedeecer  aaquel  queo  en- 
Syna,  e  esso  medes  da  grande  ajuda  aassoltura  oãdar 
do  monte  ,  e  caça ,  e  reger  lanças  ,  remessallas  ,  e  ju- 
gallas  canas,  ferir  despada  E  todallas  estas  manhas  de- 
iiem  seer  husadas  por  aquelles  q  boa  soltura  acauallo 
deseiom  dauer,  por  q  boa  e  razoada  husãça ,  he  gran- 
de meestre,  e  sem  ella  nom  se  pode  nehuâ  bem  per- 
calçar e  ajnda  q  se  aia,  se  torna  bem  ligeiramente  em 
squeecimento  E  continuando  na  têeçom  q  primeiro 
screuy  em  mais  alguíis  querer  aproueitar  q  me  guar- 
dar em  esto  que  screuo  poder  seer  contra  dito  dalguãs 
q  acauallo  muyto  som  husadas  peraos  que  pouco  delias 
sabem ,  quero  dar  alguãs  ensynãças  e  som  estas  Do 
trazer  alança  somãao  ,  na  perna ,  ao  collo  ,  regella ,  e 
encôtrar  cô  ella,  feryr  sobre  mãao ,  remessalla  bem,  e 
terte,  e  despada  feryr  depõta,  e  de  talho,  por  que  em 
esto  se  mostra  grande  parte  da  soltura  Essobrello  scre- 
nerey  breuemête  segundo  per  mym  achey  certa  prati- 
ca, ajnda  que  nõ  derrazom  detodo  ca  se  outrem  pro- 
nar  oque  screuo ,  e  bem  acertar  amanha  aesperiencía 
lhe  mostrara  se  fallo  certo  Enora  deuem  estas  manhas 
seer  desprezadas  denehuil  caualleiro,  ou  scudeiro  pens- 


DE   Díai   CAUALGAR   TODA    SELA.  65- 

sando  qiie  noin  som  necessárias,  mes  ante  se  deuè  to- 
dos traballiar  por  sabeerem  delias  no  as  leixando  por 
jiequenas,  e  q  se  podem  scusar,  ou  que  som  pêra  al- 
guús  tam  grandes  que  se  nom  atreuem  deas  bem  auer 
por  que  certo  lie,  q  as  cousas  q  parece  pequenas  des- 
prezar ,  e  das  grandes  desas|^rar  Errequerer  razoni 
huse  nom  deue  buscar,  fazem  ao  homem  symprez  e 
mynguado  uyuer  e  acabar.  E  deuem  teer  lõeçom  q 
assy  como  nom  som  embargados  detrazere  contynuada- 
mête  suas  spadas,  cyntas,  e  muytos  hi  ha  q  muy  pou- 
co ou  nunca  delias  se  aproueitam,  mes  sollamente  por 
entenderem  q  em  alguu  lepo  de  mester  lhe  podem 
prestar  lhes  praz  deas  trazerem,  que  assy  do  saber  das 
boas  manhas  ocoraçom  daquel  que  as  bem  ha  ,  razoa- 
damête  recebe  praz.er ,  e  contêtamento ,  conhecendo  q 
se  lhe  cõprir  pode  delias  receber  boa  e  grande  auãta- 
gê  sobre  os  oulros  queas  bem  nom  sabem  E  que  muy- 
tos farom,  e  som  delias  em  grandes  necessydades  acor- 
ridos e  ajudados,  e  por  eílas  de  todoUos  boos  mais 
prezados,  e  pêra  boos  feitos  theiídos  ê  mylhor  cota. 

Capitullo  nu. 
ào  ensynamento  de  trazer  ahniça  dessomaão  nu  perna 

e  QO  collo, 

i  era  prosseguyr  aensynança  das  ditas  manhas,  he 
dessaber  que  alança  dessomaão  igualmente  se  traz  de 
quatro  guisas  huà  obraço  todo  teendido  jgual  dessy », 
e  oulra  huu  pouco  mais  alta  e  atreuessada  sobre  aco-- 
ma  do  cauallo,  outra  laçado  sobre  amãao  ou  braço  ez* 
querdo ,  e  aoutra  no  talhe  afundo,  ou  acima  dei  çar- 
rada  consygo  Pêra  todos  estes  geitos  he  necessário 
saber  bem  contrapezar  alança  como  ella  requere ,  e  do 
leuar  braço  tendido  he  solta  maneira  pêra  remessom  , 
ou  semelhante  lança  leue  Eaque  uay  sobre  acoma  do 
cauallo  he  perijgosa  por  topamento  daruores,  e  ramos, 
e  doutras  alguãs  cousas  E  leualla  sobre  amaão  ou  bra- 

9 


ee  ENSSYNANÇA 

ço  ezquordo ,  he  boo  pêra  lança  com  q  aiam  deferir 
dencõlro  aaquella  parte  ou  pêra  traz  ;  e  amais  alta  a- 
par  do  talhe  he  melhor  e  mais  segura  pêra  laça  mais 
pesada,  e  esto  digo  se  correrê ,  trotarem  ryjo,  ou  gfal- 
Joparem  por  que  se  uãao  passo,  cadahuu  apode  leuar 
como  mais  lhe  prouguer.  Deuesse  reguardar  se  for  pe- 
rante aruores  q  aponta  uaa  baixa ,  e  se  for  per  mato 
que  se  leue  pêra  cyma  dei,  por  que  he  mais  seguro  e 
mais  solto.  A  lança  que  se  traz  na  perna  em  armas  de 
justa,  em  bolssa  posta  nas  pratas,  ou  no  arçõ  da  sel- 
Ja ,  ou  sobre  aperna  como  cadahuu  mais  tem  geito,  e 
parecenje  boa  e  folgada  maneira  E  outros  sollamête 
na  perna,  e  antre  ella  e  oarçom  ,  e  os  q  abem  trazê 
sem  outra  uantagem  ,  mostram  mayor  força,  ou  soltu- 
ra, e  pêra  rada  huu  destes  geitos  he  muyto  necessário 
seer  ocõto  bem  assentado,  e  certo  ante  que  seu  caual* 
]o  aballe  ,  e  podem  errar  leuando  aponta  dalança  de- 
leita contra  cima,  ou  peraa  parte  ezquerda,  pendendo 
ocorpo  aaj)arté  dereita  ou  pêra  traz  E  por  se  dello 
guardarê  faço  seus  contrairos,  e  yrõ  como  deuê ,  jndo 
dereito  ,  e  alguíi  tàto  lacado  aaparte  ezquerda  do  ta- 
lhe pêra  cima,  e  pêra  diãte  chegado,  e  apõta  da  laça 
baixa  cm  razoada  maneira,  e  afastada  aaparte  dereita; 
dos  braços  nõ  faço  grande  deferença,  e  de  yr  çarrado 
ou  aberto ,  e  de  mayor  cõteneça ,  por  que  iaa  uy  deto- 
das  guisas  assaz  fremosamete  leuar  Eporem  naquesto 
cada  huu  guarde  seu  geito,  eo  daterra  q  uyr  mais  lou- 
uado  e  aquel  siga ,  mas  dos  erros  suso  scriptos ,  segun- 
do mynha  pratica,  cadahuíi  se  deue  guardar,  por  que 
nom  tenho  q  bem  possa  parecer  nem  seer  proueitoso 
leuarsse  alança  de  tal  maneira  No  trazer  laça  aocollo 
ha  estes  erros,  trazella  permeada  apõta  alta  amãao  che- 
gada ao  ombro  em  dereito  do  rostro ,  ocotouello  bai- 
xo E  quem  abem  quiser  trazer  faça  detodo  ocontrairo, 
tragaa  per  aquelle  lugar  per  que  aentende  reger,  ou 
dalgua  uantagê  segundo  requerer  opesume  da  laça ,  a- 
põta   razoadamête   baixa  ,   amaão   arredada   do   ombro 


DE   BEIvI    CAUALGaR   TODA   SELA.  (i  7 

desiiairada  pera  fora,  ocotouello  alto,  e  desta  guisa  he 
ii;ais  fremoso,  folgado,  e  proueitoso,  armado,  e  des- 
almado. 

Capiíullo  quinto, 
do  ensynamêto  do  reger* 

Ví/uando  alguu  ensynarê  arreger  de  pee ,  stando  que- 
do  lhe  deuè  mostrar  todollos  auisamêtos  que  sobreilo 
auera  deteer  cõ  alguã  leue  lança,   ou  paao  com  q  fol- 
gadamête   possa    Kssom   estes,   primeiro   do   filhar   da 
lança  quando  atem  na  perna  donde  todos  mais  custu- 
mamos   reger,   q    amaão   meta   desso  ella.  E  quandoa 
poser  no   peito   q   chegue   amáao  dessoo   braço  omais 
que  poder,  e  dobrea  detal  guisa  q  faça  delia  restre  ;  e 
assy   que  opeso   dalãça   lhe  uenha  todo  sobre  a  chaue 
damaao  ,   e   nom   sobre   os  dedos  Equandoa   ouuer  de 
jneter  dessoo  braço,   leuatea  que  oconto  uaa  bem  ar- 
redado desso  el ,   e   como  ally  for  çarreo ,   e  aperteo , 
quanto   mais   poder  fazendo   alguu  peito,  nom  por  se 
torcer,  nem  derrear,   mais   stando   dereito   por   filhar 
em  sy  ofollego ,   e  de  alguã  pequena  cõteneça  do  cor- 
po ossaibha  fazer.  E  aquesto  presta  muyto  ao  reger  s5 
restre,  por  q  alança  he  ajudada  de  ires  partes   .s.  huíi 
da  maão   que   asseste,   outra  do  apertar  do  braço  que 
assoporta,  e  a  terceira  do  peito  sobre  que  grande  par- 
te  he   encostada    Eo   leuantar  deue  seer  de  sollacada 
dandoa  do  corpo  e  do  broco ,  e  da  mãao ,  por  que  huíi 
grande  laça  se  leuãia  melhor  desta  guisa  q  doutra,   e 
lanto  q  lhe  der  assollacada  ao  cayr  do  collo ,   deue  ar- 
redar obraço  e  desuyallo  aaquella  maneira  que  ia  dis- 
se, q  alãça  ao  collo  se  deuya  trazer  Esse  trouuer  arou^ 
delia  guardesse  que  nõ  lhe  fique  trás  ocollo ,  por  quã- 
to   he   muyto   feo ,   e   se   pode  com  ella  ferir  se  andar 
desarmado    Edesque   alguú  de   pee   assy  for  êssynado 
com  leue  laça  deuesse  de  enssynar  cõ  outra  mayor,  e 
tanto  yr  crecendo  ataa  q  chegue  ao  mais  que  bem  po- 
der reger,  por  que  tal  cousa  com  q  bem  nõ  possa  nom 

9   * 


60  ENSSYNANÇA 

deue  custumar,  por  noin  qucíbrar,  e  doer  dos  lombos 
da  cabeça,  e  das  pernas,  e  da  maão  q  deIJo  sem  pro- 
ueito  recrece.  E  desqiie  de  pee  sentir  que  bem  sabe 
reger ,  deue  acauallo  passeiaudo  prouar  assy  como  de- 
pee  aprendeo,  e  tenha  quem  oauyse  do  q  uyr  que  mal 
fezer,  por  que  acontenença  que  leua  perssy  sem  gran- 
de saber  da  manha  e  husança  nom  pode  conhecer ,  se- 
per  outro  nom  for  anisado,  e  des  queo  bem  fezer  deue 
agallopar,  e  desy  correr  ^  e  sabendo  amanha  grande  a- 
uantage  achara  na  besía,  se  ryjo^  e  sem  deteêça  cor- 
rer, e  teuer  aboca  testa,  e  esso  medes  he  auàtagê  re- 
ger cõlra  ouèto  leixandoo  aaniãao  ezquerda,  e  alança 
jnom  descaya  mais  baixo  que  sua  cabeça,  mais  em  a- 
quella  medida  aleue  ataa  quea  leuãte  como  suso  he 
scripta,  e  aláça  nom  leixe  descayr  ryjo,  mais  huú  pou- 
co alta  aarrecade  no  peito  do  braço,  e  da  maao ,  e 
passo  aleixe  uijr  aaquella  altura  em  q  aetende  leuar. 
Se  alança  teuer  gozete  ou  rudagê  decoyro  amaão  che- 
gue aella  quanto  mais  poder  poendo  alguú  dos  dedos 
sobrei  e  aqueste  geito  regendo  com  restre  ou  sem  el- 
la.  Sabendo  bem  sem  restre ,  mais  ligeiramente  ofara 
eom  ella ,  e  regendo  tenha  tal  maneira  como  esta  su- 
so scripta  no  leuar  da  perna,  e  ameter  soobraço ,  e  a- 
Jeuãtalla ,  mais  deue  auer  huu  auisamêto  que  obraço 
leuante,  e  de  com  oconto  da  lança  em  el  contra  oeo- 
touello  por  nom  topar  dessoa  restre.  E  como  ally  che- 
gar çarrandoo  consygo  afaça  encasar  na  restre,  e  alan- 
ça soporte  alta  em  tal  guisa  q  anom  leixe  cayr  ryjo, 
mais  assesseguea  huu  pouco  mais  alta  ,  e  entom  aleue 
na  quella  altura  que  aquiser  leuar  E  quando  reger  a- 
cauallo  com  restre  ou  se  ella,  deue  teer  auysamêto  q 
se  ocauallo  corre  ryjo  era  l^uando  alííça  na  perna,  el 
se  deue  apertar  na  sella  e  assessegar  bê.  E  quandoa 
meter  dessoo  braço  deuea  perlar  na  maão ,  e  nom  lhe 
leixar  descayr  apõta  como  suso  dito  he,  nem  esso  me- 
des aponha  dessoobraço  com  apõta  muyalta,  se  for 
rostro  auento,  ou  ocauallo  correr  ryjo,  mas  assy  comoa 


DE  BEM  CAUALGAR  TODA  SELA.  6» 

entende  de  leuar,  e  ally  açarre  consygo ,  e  assesse^ue 
e  logo  aenderece  pêra  cncõtrar  Esse  for  agalope",  o- 
melhor  segundo  nosso  custume  ,  firmado  os  pees ,  e  a« 
perlando  as  pernas,  leuallo  corpo  ao  soo  do  tranco  do 
cauallo,  e  assy  tirar  alança  da  perna,  enrrestrar,  e  a- 
meter  soobraço  pella  guisa  suso  scripta  Equem  esto 
bem  souber  guardar,  achara  em  ello  grande  melhoria 
em  ofazer  mais  folgado,  e  mais  fremoso,  e  dobro  aquy 
alguãs  razooês  por  dar  aazo  desse  melhor  entenderem  , 
por  que  njais  reguardo  no  q  sobresto  screuo  de  seer 
claro  q  fremoso.  Se  <!o  pesco  reger  e  for  sem  reslre 
em  aderribando,  çarre  conssigo  obraço ,  e  todauya  se 
guarde  dea  leixar  descayr  como  suso  he  dito  Esse  le- 
uar restre  assy  de  com  ocõto  dalança  no  braço  contra 
ocotouello  e  dally  açarrando  aêcase  na  restre  Essem- 
pre  se  auyse  do  descayr  por  assoportar  na  maão,  e  lei- 
:xar  asseetar  folgadamente  Ha  hi  outra  maneira  de  ti- 
rar alãça,  e  alançar  no  braço  ezquerdo,  e  dalguns  he 
louuada  por  melhor  que  outra  pêra  pelleia,  porque 
dizem  que  dally  atornã  cadauez  que  lhe  praz  mais  li- 
geiramête,  e  esso  medes  que  podem  bem  feryr  aaquel- 
la  ylharga,  e  pêra  trás.  È  quando  se  leuãta  ao  obro, 
se  alàça  tal  he ,  algiiíís  aleixô  cayr  sobre  aquelle  bra- 
ço dereito,  pêra  defender  cõtra  trás,  e  outras  uezes 
leixõ  descayr  apõla  dalãça  ao  chaão ,  e  dally  atomã  ao 
obro ,  e  arregê  E  todas  estas  maneiras  derreger  som 
niuyto  boas  daprender,  e  husar,  por  quanto  podem 
prestar  em  têpo  demester  e  em  as  husando  os  homeès 
se  fazê  mais  soltos  caualgadores,  mes  derreger  duas 
ou  ires  laças ,  nem  dar  uoltas  com  ellas  per  cima  da 
cabeça,  nom  me  êbargo  descreuer  por  nom  seer  cousa 
deprestar  ajnda  que  os  homeês  em  bê  fazendo  mos- 
tram boa  soltura.  Desque  alaça  uay  de  soo  braço  se 
pode  fazer  stes  erros  .s.  derrearsse  cõ  ella,  êcostarsse 
aamaão  dereita,  ou  muyto  squynado ,  yr  mal  assesse- 
gado  na  sella  dos  pees ,  pernas,  e  cabeça,  corpo,  e 
uara^  e  leualla  mujto  atrauessada^  ou  aberta  pêra  fora^ 


70  liNSSYNANÇA 

OU  muvio  alta,  ou  baixa,  ou  derribada  a  cabeça,  e 
rostro  sobre  alãça,  ou  inuyto  alta  pêra  detrás,  e  quem 
abe  quiser  leuar  gfuardasse  detodos  estes  erros,  e  le- 
ualla  ha  como  amym  parece  que  he  melhor.  E  alguus 
em  justando  cõliuuauâ  sêpre  dar  cõ  as  sporas  ao  ca- 
uallo  abalando  as  perjias  atee  os  êcôtros,  e  aquesto  he 
feo ,  e  faz  mais  fraco  ojustador,  por  em  este  têpo  de- 
uesse  dedar  cõ  as  sporas  poucas  uezes ,  e  ryjo  ou  pas- 
so segundo  abesta  for,  e  os  têpos  em  q  lhe  deuê  de- 
dar som  estes;  huu  ao  aballar  pêra  afazer  entrar  na 
quelle  galope ,  ou  correr  como  lhe  mais  praz  que  le- 
ue ,  e  outra  uez  tãto  que  assessegar  auara  de  soo  bra- 
ço, e  dally  auãte  iiõ  bullyr  mais  cõ  os  pees ,  nê  per- 
nas alaa  q  passem  os  econtros ,  se  abesta  anda  como 
deue,  ca  se  ella  âtepara  ou  se  desuya,  cõuem  que  per 
necessidade  q  afaçom  sayr  aas  sporas  Em  justa  custu- 
mâ  em  esta  terra  laçar  auara  aamaão  ezquerda,  e  aa- 
niaâo  dereita,  e  se  for  aamaão  ezquerda  deuesse  dar 
ajuda,  e  balâço  do  bãzear  do  corpo  peraa  quella  parte 
Jeuãtando  bê  obraço  dereito,  e  leixalla  yr  cõtra  trás, 
se  aparte  dereita  aquiser  laçar  omelhor  e  mais  seguro 
peràssy,  e  os  q  estam  na  tea  he  comoa  leuantar  laçar 
apõta  pêra  iras  e  ocõto  pêra  diãte  E  desque  ãbos  es- 
tes geitos  se  trazem  ê  custume ,  amaâo ,  corpo ,  e  bra- 
ço filham  dello  tal  meestria  que  sem  trabalho  ofazê, 
como  hufi  boo  tãgedor  q  os  dedos  lhe  uaão  aas  cor- 
das ,  ou  ocaçador  q  com  amaão  ezquerda  sabe  guardar 
todo  geito  q  aaue  requero,  oque  adereita  nom  pode 
fazer  ajnda  q  por  entêder  assyo  sabe  pêra  huâ  maão 
como  peraa  outra  E  per  estes  êxempros  se  pode  co- 
nhecer, como  e  quanto  he  necessário  cadahuu  auer 
tãta  husança  da  manha  que  ocorpo ,  e  as  partes  de  q 
em  ello  se  deue  seruir  tenha  tal  habito  e  saber  como 
delia  requero.  Huu  auisamêto  per  mym  achei  quando 
desarmado  regia  alguã  grande ,  e  pesada  laça  ^  ao  le- 
uãtar  delia,  ante  q  sobre  ho  obro  me  caisse,  eu  alei- 
xaua  correr  per  amaão  huu  pedaço  E  aquesto  fazia  por 


DE  BEM  CAUALGAR  TODA  SELA.  71 

fycar  mais  quedo  na  sela  e  por  ogrande  sen  peso  me 
no  desassesseg^ar ,  e  pesso  q  se  per  alguCis  for  custu- 
mado  em  tal  caso  ,  q  acharô  grande  auãtagè  seo  bem 
souberê  fazer  E  podem  alguus  em  reger  seer  toruados 
ajnda  queo  bè  saibhii  por  seerem  mal  armados,  e  os 
toruar  arrestre,  braçal,  alguã  outra  armadura,  corre^ 
gimêto  seu  e  de  seu  caualío ,  ou  por  seerõ  atroxados 
aalem  do  q  folgadamete  sem  trabalho  podem  bem  an- 
dar Eporem  he  necessário  ate  queo  de,uerdade  aia  de- 
fazer,  que  primeiro  se  enssaae,  ou  que  sem  outro  cor- 
rer do  cauallo  ponham  sa  laça  na  restre  três  ou  quatro 
uezes  e  assy  saibhâ  todo  correger  q  nô  leuê  cousa  q 
os  torue.  E  posto  q  seiã  êssayados  alguus  dias  cõuem 
q  ante  prouera  três  ou  quatro  uezes  de  poer  alaça  na 
restre  assy  armado  detodo  como  elles  entenderem  de 
peileiar,  correr,  põtar,  ou  justar  aaquella  ora  queo 
defazer  ouuerem  por  q  he  necessário  perao  reger,  e 
saber  encomo  uêe  pêra  êcontrar,  segundo  adiãte  será 
dito.  Esse  alguu  quiser  reger  sobre  roupa,  deue  re- 
guardar  se  he  de  tal  guisa  q  toruar  opossa ,  e  aquesto 
se  for  de  seda ,  ou  chapada ,  por  q  nom  se  rege  bê  so- . 
brela ,  ou  se  amãga  do  gibom  for  apertada,  ou  curta, 
ou  amãga  do  balandraao  assy  feita  q  nom  leixe  bem 
meter  alâça  dessoobraço  e  quando  entender  quea  der« 
reger  em  lugar.  Auysesse  destas  cousas  q  lhe  êpeeci- 
mêto  pode  fazer  e  muyto  mais  q  detodo  dauer  boo  ca- 
uallo, sem  oqual  todo  saber  e  outro  corregymêto  pou- 
co presta. 

Capitullo   VI. 
da  essynança  de  bem  encontrar. 

Jl  or  dar  ensynãça  pêra  bê  encõtrar  em  justa  e  monte 
screuo  estes  auysamètos  q  me  boos  e  razoados  parece, 
e  delles  se  pode  filhar  enxempro  pêra  todo  tempo  que 
desta  manha  se  possa  prestar,  primeiro  na  justa  q  he 
mais  principal  os  homeês  leixam  de  bê  encõtrar  por 
myngua  dauista  de  gouernar  as  laças,  seus  cauallos  de 


i^  KNSSVNANÇA 

segurança  de  suas  uôotades  E  quanto  aauista  fallecem 
alguíjs  por  çarrarem  os  olhos  aaora  do  êcontrar,  e  nom 
se  conhecem  pollo  fazer  muyto  trigosamête,  e  outros 
ainda  queo  êtendã,  assy  som  forçados  de  sua  condiçõ 
õ  lhe  no  cõssentê  em  aquel  põto  queo  êcontro  topa 
deos  teerem  abertos,  outros  por  se  mal  saberem  armar 
do  elmo,  ou  do  scudo,  perdem  auista,  e  alguús  por 
TiOm  saberem  tornar  ocorpo  pêra  êcontrar  e  gaanhar 
auista  uoluem  os  olhos  soomente  no  elmo ,  ou  a  cabe- 
ça, e  por  leuarem  sua  contenença  dereita,  leixam  de 
ueer  ao  têpo  dos  êcontros  Epera  remédio  destes  qua- 
tro erros  he  grande  auãtagem  trazer  cõssigo  tal  pes- 
soa q  no  cabo  da  carreira  pregunte  ao  q  justa,  por 
hu  errou  ou  tocou ,  ca  se  rjjo  êcontrar  nõsse  pode 
certo  saber,  e  se  uyr  q  nom  concerta  todallas  uezes, 
logo  lhe  diga  q  nom  uee,  e  quanto  desuaira  da  uerda- 
de ,  e  q  se  auise  denom  çarrar  os  olhos ,  e  desta  ma- 
neira pode  scusar  ©primeiro  erro  suso  dito  E  quando 
a  condiçom  he  tal  q  contra  uõotade ,  forçadamête  çar- 
ra  os  olhos  he  mujto  maa  de  correger  Porem  seendo- 
Ihe  ryjamêle  desdicto  por  aquel  q  com  eJle  anda  lhe 
fará  dessy  auer  desprazer,  e  manêcoria,  e  com  ella 
roais  ligeiramête  se  pode  forçar,  e  esso  medes  he  bem 
delhe  dizer  por  onde  erra  ajnda  queo  el  nom  possa  co- 
nhecer E  tanto  q  errar  duas  ou  três  uezes,  por  buscar 
tarde,  digãlhe  q  se  auyse  de  buscar  cedo  por  tal  q 
nom  encôtrãdo  per  boa  uista,  encõtre  per  esmo,  e  se 
auentuira  ouuer  dauer  alguíl  boa  squêeça,  o  acrecêtíi- 
mêto  do  prazer,  e  da  uoontade  lhe  dará  esforço  de 
teer  os  olhos  abertos  aos  êcontros ,  Eo  maao  corregi» 
meto  no  ensayar ,  e  no  armar  se  pode  bem  correger, 
assy  quando  peraa  justa  de  todo  for  armado  stando  a- 
cauallo ,  el  meta  auara  de  soobraço ,  e  assy  tenha  seu 
elmo,  e  scudo  corregido,  que  ajnda  q  se  moua  dhuâ 
parte  peraa  outra,  e  teedo  auara  ê  aquella  altura  q 
deue  encôtrar,  sêpre  ueeia  ameetade  delia,  ou  ao  me- 
nos oterço ,  e  dally  auante  ataa  ocabo  da  carreira ,  e 


r>E   BEM   CAUALGAR   TODA    SELA.  73^ 

seno  poder  assy  fazer  logo  se  correga  ca  segundo  nos- 
so custume  no  entendo  que  possa  bem  econtrar  quem 
assy  nom  uyr.  Epera  bem  fiJIiar  auista  do  elmo ,  eu  a- 
chey  boa  maneira  atallo  detrás  primeiro  na  quella  gui- 
sa q  bem  poder  filhar  e  desy  apertallo  de  diãte ,  e  as- 
sy oelmo  fica  mais  firme,  e  certo  na  uista,  q  seo  pri- 
meiro diíite  liarem  que  detrás,  pêra  bem  ueer  ao  têpo 
do  encôtrar,  ha  mester  q  assy  como  ho  outro  uem  pel- 
la  lea  q  assy  uenha  todo  ocorpo  aderençado  elle,  e 
quando  ueher  ao  econtrar  orrostro  uolte  contra  el 
quanto  poder,  assy  queo  ueja  de  dereito  a  dereito,  e 
nom  pello  quanto  da  uista  do  elmo.  E  aqueste  geito 
presta  muyto  a  gaanhar  boa  uista,  e  econtrar  melhor, 
e  sofrer  melhor  os  êcontros  E  quanto  aassegunda  par- 
te principal  degouernar  alãça  tãbem  se  erra  por  outras 
quatro  partes.  A  primeira  por  seer  mai  armado ,  oa 
mal  corregido  do  braço,  da  restre,  do  scudo,  da  aran- 
della,  e  do  gozete.  Segunda  por  trazer  auara  mais  pe- 
sada do  que  seu  poder  abrange.  Terceira  por  nõ  andar 
assessegado  e  solto  ê  sua  sella  Quarta  por  trazer  ca- 
uallo  tam  desassossegado  queo  faça  desatêtar  Quâto 
ao  primeiro,  boo  remédio  he ,  êssayarsse  tãtas  uezes 
ataa  q  nom  seta  êpacho  nê  torua  de  cadahuâ  destas 
cousas  ao  tèpo  q  ouuer  dejustar,  ajnda  que  per  uezes 
seia  ensayado  como  ja  disse,  ate  que  uaa  aatea  meta 
auara  dessoobraço  duas  ou  três  uezes,  e  tenha  assy 
todo  corregido  q  se  seta  bem  senhor  delia.  Ao  segun- 
do se  auise  que  ia  mais  nom  traga  uara  com  que  nom 
J>ossa.  Ao  terceiro,  oassessego ,  e  assoltura  se  gaanha 
por  saber  da  manha,  e  husança  delia,  como  ia  tenho 
scripto,  e  ajnda  em  este  caso  eu  achei  segundo  nosso 
custume  de  adar  atroxados  huij  pouco  alto,  e  os  atro- 
xaraêtos  folgados,  e  assella  em  razoada  maneira,  nom 
muyto  larga,  nê  muyto  apertada,  e  q  seia  bem  caua- 
da  nas  pernas  e  corregida  de  boos  coxijs  e  chomaçoos 
e  que  nõ  derree  pêra  detrás,  nê  enbroque  pêra  dyãte, 
fazê  os  justadores  andar  quedos,  soltos,  e  bê  senhores 

10 


74  ENSSYNANÇA 

dessy  e  de  suas  uaras.  Ao  quarto,  os  cauallos  còuem 
auer  laaes  q  se  gouernê  per  os  freos  e  per  as  sporas 
que  nõ  reuelê ,  ãteparê,  prouê  outras  malliciaS;  nem 
sayâ  tam  desassessegados  que  íorue  ojustador  E  a- 
questo  recebe  alguã  emenda  por  lhe  poer  freo  mais 
forte,  e  nõ  tanto  que  aluore  nem  biqueie,  e  lhe  che- 
guem as  sporas  mais  passo  trazendoas  curtas  e  botas. 
Ca  segundo  meu  geyto  nõ  ey  por  justador,  ao  que  os 
homeês  de  pee  trazê  ocauallo  pella  rédea,  e  lho  ferem 
com  uara  ou  paao  mes  perssy  odeue  trazer,  gouernan- 
do  por  sua  rédea,  e  suas  sporas  atentando,  e  ferindo 
e  trazendoo  aatea ,  arredando  delia,  segfido  nyr  que 
cõpre,  ca  em  cauallo  q  se  doutra  guysa  aderece,  pou- 
cos podem  gouernar  sua  laça ,  e  andar  aguisa  de  boos 
justadores,  e  aída  q  os  cauallos  q  correm  r3Jos  e  tra- 
zem alguãs  êxacomas  fazem  leuar  as  uaras  mais  asses» 
segadas  despois  q  êrrestadas  sõ. 

Capitullo  VII. 
da  enssynâça  de  enderençar  bem  ocauallo  na  Justa. 


Q 


'uanto  aterceira  parte  principal,  quatro  maneiras  s5 
per  q  os  justadores  leixam  de  gouernar  bê  seus  caual- 
los ,  e  som  estes  Prymeiros  som  assy  mal  auisados  q 
noro  tragem  nehuu  tento  no  freo,  e  oleixã  andar  assy 
solto  q  por  elles  nom  os  gouernam,  nê  recebem  nehuâ 
ajuda  pêra  se  teer  aos  encõtros,  posto  que  tragam  freos 
taris,  ou  outras  boas  bridas,  mais  sollamête  se  leixam 
gouernar  aos  homeês  de  pee,  e  depois  que  por  elles 
som  leixados ,  abesta  uay  per  hu  lhe  praz.  Os  segun- 
dos trazem  brida  descacha,  ou  sem  barbella  de  tal  fei- 
çom  per  q  os  cauallos  se  nõ  gouernã  nada  Eos  tercei- 
ros por  se  teerem  forte  aos  encõtros  trazem  cordas  q 
saae  dos  rostros  dos  cauallos,  ou  das  cilhas  que  pas- 
sam per  antre  as  maãos  do  cauallo ,  e  ueensse  aamaão 
da  rédea ,  e  tanto  se  firmam  sobre  estas  cordas ,  queoB 


DE  BEM  CAUALGAR  TODA   SELA.  75 

cauallos  se   adercDçà   pouco  ou  nada  per  suas  rédeas 
E  os  quartos,  ajnda  q  tragam  seus  cauallos  atentados 
em  íeus  freos  e  se  gouernem  por  elles  desque  ocaual- 
lo  uay  ao  logo  da  carreira,  o  uaa  afastado  da  tea,  per 
myngua  de  saber,  ou  dauysamêto  nom  sabem  ao  tepo 
dos   êcontros   tornar  ocauallo  ,   e  fazelios  chegar  aella 
E  por  no  cayr  em  estes  erros ,  se  deue  teer  esta  ma- 
neira, primeiramCte  quando  se  aiguu  êssayar  tome  ar- 
redea   ante  q   se   arme,   e  alête  ocauallo  e  metao  na- 
queile  andar  queo  na  justa  entender  trazer,  e  como  a- 
certar  boo  logar,   façalhe  dar  huu  noo  e  daquella  gui- 
sa  torne   per  el  ensayar  ocauallo.    Esseo  bê  achar  ar- 
messe ,   e   por  aquelle  lugar  traga  sua  rédea    Esse  co- 
nhecer alguu  fallymêto  por  seer  curta,  ou  comprida, 
ou  mal  jguallada,  logoa  emende  ataa  que  acerte  tal  lu- 
gar de  que  se  contente  e  por  ally  atraga  depois  na  jus- 
ta,  e   podesse   bem    trazer  arredea   por  três  maneiras 
Huus  com   noo  symprezmente  dado.    Outros  com  tra- 
uynca  de   paao   posta   na  rédea,   nom  atrazendo  mais 
longa  do   quea  na  justa  entende  trazer  E  alguíÃs  lhe 
dam   huã  uolta   na  maão  que  he  de  boa  uantagem  ,   e 
podesse  logo  leixar,  e  fazer  por  ojustador  quando  lhe 
prouguer  sem  outra  ajuda  Eaquella  parte  da  rédea  que 
aamaão  deue  tornar  tenha  seu  noo  assy  acertado ,  que 
ajnda  q  ojustador  desfaça  auolta  q  sêpre  atorne  dar 
certa,   ficando   arredea  em  tal  lôgura  como  se  requere 
trazer,   e  se  alguii  nò  for  anisado  de  leuar  suas  rédeas 
assy  corregidas   ante  q  uaa  aatea,  quando  em  ella  for 
pella  maneira  suso  scripta  pode  correger  em  esta  gui- 
sa, mãdar  q  lhe  no  filhe  ocauallo  pella  rédea,  nem  lho 
feiram  ,  e  el  perssy  tome  arredea  por  aquel  lugar  que, 
segundo  seu  sentido ,   lhe  parecer  mais  razom  ,   e  che- 
guelhe  as  sporas  ao  aballando,  e  façao  parar,  e  proue 
deo  uoltar  ahuã  maão  e  aaoutra    Esse  home  for  q  dei- 
lo  aia  sentimêto ,   logo  conhecera  se  traz  suas  rédeas 
compridas  ou  curtas  ou  desyguaaes,  ajnda  q  traga  oel- 
mo  na  cabeça,  tirando  ogante,  ou  luua  da  maão  de- 

10  * 


7C  ENSSYNANÇA 

reita,   el   perssy   acorrega ,   ataa   que  acerte   lugar  de 
quesse  contente   e   ally   faça  dar  onoo ,   ou  poer  atra- 
uynca  pella  maneira  suso  scripta.  Efazêdo  esto  per  es- 
ta guvsa  seguardara   do   primeiro   erro  q  no  encamy- 
nhar  do  cauallo  eu  disse  que  se  poderia  fazer  por  tra- 
zer as  rédeas  froxas ,   e  desêparadas    E  quanto  ao  se- 
gundo  breuemête   fallando,   mynha   teêçom   he ,   queo 
justador  pêra  bem  andar  segundo  nosso  custume,  deue 
trazer  tal  freo  asseu  cauallo  que  se  aderece  por  elle ,  e 
]he  Seia  bem  aamaão ,  nom  porem  em  tal  guisa  q  abo- 
ca  seia   molle  ou  branda,   tartereie  com  orrostro,  ou 
biquege,   mais   trazella   tal   que  seia  guardado  destes 
quatro   erros,  e  se   tenha,  e   uolte  por  se  afastar,  e 
chegar  aatea ,   segundo  ojustador  quiser,  e  quem  otal 
acertar,   uera   q   tem  grande  auantagem  dos  q  trazem 
bridas   sem   barbellas,   ou   alguus  freos   por  q  se  bem 
nom  aderencê  Por  se  guardar  do  terceiro  erro  em  que 
disse  q  alguus  por  se  teerem  tanto  aas  cordas  q  ueem 
dos  rostros,    ou  das  cilhas  dos   cauallos ,   nom  tijnhã 
tal   teto   no  freo   por   q   os  gouernassê  como  deuyam. 
Quemas  na  justa  bem  quiser  trazer,  e  for  em  lugar  q 
lho  conssentã,  tenha  esta  maneira.  Desque  teuer  acer- 
tado olugar  darredea  per  q  lhe  parecer  q  andara  bem 
na  justa,   segundo  suso  he  scripto ,  quandosse  armar 
tome  as  cordas   e   ponhaas  na  maão  da  quella  guisa  q 
as  entende   trazer  por  noo ,  ou   per  uolta ,  e  faça  do 
corpo  huâ  pequena  contenêça  de  reues,  e  ally  as  firme 
em  tal  guisa  que  ao  têpo  da  necessidade  ally  lhe  pos- 
sam  prestar.    E  as  rédeas  fiquem  tanto  mais  curtas  ^ 
as  dietas  cordas  q  ocauallo  polias  trazer  nom  seia  nada 
toruado  desseu   aderenço  ,    e   trazendoas  per  aquesta 
guisa  se  lhas  quiserê  conssentir,  ojustador  pode  delias 
receber   grande  ajuda  sê  êpacho.    Ao  quarto  em  que 
disse  q  alguus  leixauam  dencontrar  por  nom  saber  che- 
gar ocauallo  aatea  ao  têpo  dos  encõtros,  eu  uy  naques- 
to  errar   por  duas  guisas ,  huiis  por  nom  auerê  ê  ello 
tefilo,  e  leixarem  yr  seus  cauallos  afastados  ao  logo  da 


DE    BEM    CAUALGAR    TODA    SELA.  77 

lea  como  ia  ilisse,  e  outros  por  quererem  econtrar  de 
grande  auantagem  ,   e   uljr  muylo   atrauessados  ,   neê 
tam  tarde  aos  encontros  q  os  outros  passam  primeiro, 
e   por  se   guardar  destes  erros  se  deue  teer  esta  ma- 
neira Quanto  ao  primeiro,   quando  o  justador  uay  ao 
logo  da  tea ,  ajnda  q  lhe  pareça  q  seu  cauaJlo  uay  as- 
saz  chegado,  sèpre   lhe  deue  fazer  tornar  orrostro  aos 
encontros,  e  chegar  aatea  quanto  bem  poder,  por  que 
desta  guisa  encontra  melhor,  e  os  sofrera  el  e  seu  ca- 
uallo  mais  dauantagê  como  ia  disse  Esse  fallecer  pêra 
outra  parte,  e  errar  pêra  trás  oelmo,   por  lhe  parecer 
q  busca  tarde,  entenda  q  este  erro  uem  de  assy  trazer 
ocauallo  tarde  aatea,  e  auisesse  de  uijr  mais  cedo  em 
tal   guisa  queo  enlre  ou  erre  per  diante  por  q  poucos 
som  os  justadores  que  assy  conheçam  todos  seus  fally- 
inêtos  ,  he  grande  auantagê  auer  tal  queo  na  justa  sir- 
ua   q  oolhe  por  todas  estas  cousas,   e  saibha  conhecer 
os   erros   cada  uez  que  os  fezer,  e  oauise  logo  delles 
Eper  aques(a  guisa  oque   tomar  esta  pratica  que  so- 
bresto  poderá   na  justa   bem    trazer   seu  cauallo  q  he 
bua  das  principaaes  cousas  q  oboo  justador  deue  auer. 

Capiíullo  VIIL 

per  que  se  demostram  quatro  uôotades  que  som  enos  j  e 

como  per  ellas  nos  deuemos  reger. 

JL  or  fallar  na  seguraça  da  uôotade  que  perteêce  pêra 
bê  encõtrar  a  roym  praz  fazer  alguvi  tressayamento  de 
preposito  por  dar,  alguâ  êssynança  aos  que  de  taaes 
feitos  nõ  teê  grande  conhecimento  Eporê  he  dessaber 
que  geeralmête  ênos  todos  ha  quatro  uoontades,  se- 
gundo desto  achei  em  huíi  liuro,  parte  de  grande  au- 
toridade :  primeira  chama  carnal,  segunda  spiritual, 
terceira  tiba  e  prazêteira,  a  quarta  obediente  ao  en- 
tender Epor  declaraçom  desto  auõotade  carnal  deseia 
uyço  ,  folgança  do  corpo  ,  e  cuidado  ,  arredandosse 
de  todo  perigoo,  despesa,  e  trabalho  A  espiritual  quer 


78  ENSSYNANÇA 

seguir  aquellas  parles  em  q  se  mais  êclynã  as  iiirtudes, 
que   se   despooe   auyda   derreligiom ,   requere   que  je- 
juúe,   uygijem ,   leam    e   rezem    quanto  mais  poderem 
sê  nehua  descliçom    Eos  q  anda  em  feitos  de  caualla- 
ria,  q  se  ponham  atodos  perigoos  e  trabalhos  q  se  lhe 
oferece,   nom   auendo   reguardo   aos   que  segundo  seu 
stado ,  e  poder   lhe   som    razoados.    E  esto  medes  faz 
nos  cuydados  dalguãs  obras  que  lhe  parecerem  boas  e 
«irtuosas  q  se  despooe  aelles  assy  destêperadamête  q 
nõ   teem   cuydado  de   comer,  dormyr,   nê  da  folgãça 
ordenada  queo  corpo  naturalmente  requere  E  as  des- 
pezas   onde   lhe   parece  q  he  bem  consselha  q  se  faça 
logo ,  sem   nehuíi  reguardo   do  q  sua  fazenda  pode  a- 
brãger  e  gouernar.  E  aquestas  duas  uõotades  côtynua- 
damête  se  côtrariara   dentro  ênos ,   segundo   cadahuíi 
perssy   achara  speriêcia   de  huã  uõotade  queo  consse- 
lha fazer  alguas   cousas   e   outras  encontrairo   Dantre 
estas  duas,   diz  no  dito  liuro  q  nace  aterceira  prazen- 
teira, e  tiba  aqual  por  querer  ambas  satisfazer  sem  ne- 
huú  agrauamêto  delias,  pooe  oque  assegue  em  tal  sta- 
do q   nuca  oleixa   uyuer  bem  nem  uirtuosamente  por 
que   ella  assy  cõsselha  jejiiar  q  nom  seta  nehuâ  fame 
nem  sede  E  assy  uygiar  q  nom  aia  pena  em  sofrer  os- 
sono,  e  queria  percalçar  hõrra  de  cauallaria  nem  se 
despoendo  aperigoos  nem  atrabalhos,  e  acabar  pesados 
feitos  sê  filhar  grande  cuydado  e  auer  nome  de  graa- 
do  sem  fazer  tal  despesa  que  algua  myngua,  ou  êpacho 
fezesse  E  finalmête  assy  queria  seguir  oque  huã  uoon- 
tade  requere   que  aoutra  nom   contrariasse  A  quarta 
uõotade  muyto  perfeita  e  uirtuosa  nõ  segue  sêpre,   o- 
que  estas  requerem  ,    e  obra  muytas  uezes  oque  nom 
lhes  praz ,   todo  per  determynaçom  e  mando  da  rezom 
e  do  entender  E  daquy  se  diz  seguymêto  da  uõotade, 
comprimêto  de  maldade  e  oquebramêto  delia  seer  muy- 
to grande  uirtude ,  e  aquesto  se  faz  per  esta  guisa  Se 
homem   uyue  segundo  cadahuã    das   três  uoontades  , 
nom  se  gouernando ,  nem  regendo  per  razõ ,  ou  enten- 


DE  BEM  CAUALGAR  TODA  SELA.  79 

der,  seno  sollamete  por  oque  ellas  desciam  ,  cõuem 
necessariamète  que  se  perca  daaJn)a  ou  do  corpo,  por 
que  aprimeira  demanda  cousas  tam  uijs  e  baixas  que 
logo  manvfestamete  demostram  derribarem  homem  a- 
todo  mal.  E  assegunda  tam  aJtas  per  q  lhe  côuem  uijr 
amorte,  sandice,  ou  enfermydade ,  perdimêto  detoda 
sua  fazenda ,  pois  no  guarda  descljçom  ao  que  ha  de- 
fazer  E  aterceira  por  querer  coplazer  a  estas  ambas, 
e  as  detodo  còcordar  oque  fazer  nom  pode  por  seer 
batalha  q  nosso  senhor  deos  nos  ordenou  por  nosso 
proueito  faz  seguyr  as  urrtudes  lã  friamêle  q  ia  mais 
uíjca  trazera  aquel  q  por  tal  uoontade  se  gouernar  a- 
nehuu  boo  estado  E  assy  ocomprimèto  destas  Ires  faz 
seguyr  e  cayr  em  grandes  erros,  e  maldades  E  aquar- 
ta  todo  pello  côtrairo,  por  que  todallas  cousas  q  se  a- 
presentara  ao  coraçom  de  cadahuã  destas  três  as  ofe- 
rece ao  entêder  e  razom  que  julguem  se  som  defazer, 
ou  leixar  Essegundo  elles  determyna,  mujtas  uezes  nõ 
seguem  oque  ellas  demanda,  e  faz  oque  ellas  nom  que- 
rem ,  e  as  quebra  detodo  E  assy  como  os  ouriuezes 
querendo  conhecer  alguíi  ouro  se  he  derreceber,  ou 
engeitar  ometem  no  cimêto,  e  aprata  na  cerrada,  e 
segundo  seus  ysames  aengeitã  ou  recebe  Assy  esta 
quarta  uõotade ,  todallas  cousas  faz  ou  leixa  defazer 
per  ysame  do  entender  e  razom  Quaiado  auôotade  car- 
nal se  quer  deitar  aaquellas  cousas  ia  dietas ,  e  esta 
nom  lho  cõssente  mais  fazlhe  sofrer  fame ,  sede,  sono, 
e  despoersse  agrandes  perigoos  e  trabalhos,  despesas 
e  cuidado  quando  arrazom  determyna  que  he  bem  des- 
se fazer.  Eesso  medes  faz  aoutra  spirilual  que  lho  nom 
conssente,  mais  seguyr  os  altos  e  grandes  deseios  do 
queo  entender  e  arrazõ  mandam,  conssijrando  adcspo- 
siçom  de  sua  pe?soa,  seu  stado,  e  fazenda.  E  na  ques- 
to  se  desuaira  esta  quarta  uõotade  muyto  da  terceira, 
por  que  aquella  aas  duas  primeiras  no  quer  em  tal  gui- 
sa contradizer  q  alguíi  agrauamêto  senlTi.  Eaquesta  de- 
todo lhe  côtradiz  quandot>  determyna  o^lendiíiieto,  e 


80  EXSSYNANÇA 

razõ  q  he  bê  de  fazer  assy,  e  contrariamêto  daquellas 
duas  uõotades  primeiras  faz  n>ujto  ao  entender,  e  ía- 
zom  conhecer  oque  he  melhor  q  se  faça  em  os  casos 
em  q  ellas  perssy  se  côtrariom  ,  per  esta  guisa,  quan- 
do auoontade  spiritual  requero  que  jejue  destêperada- 
mête,  e  acarnaí  deseiando  ouiço  e  proueito  do  corpo, 
relêbra  otrabalho  e  perigoo  que  deJlo  selhe  pode  se- 
guir, faz  ãtressy  huã  pelleia,  e  contenda  per  q  se  retê 
cada  huã  de  comprir  oque  deseia,  e  da  hagar  aaquarta 
uoontade,  q  aia  têpo  de  represêtar  esto  ante  ojuyzo  da 
razom  e  entender,  e  segundo  sua  determjnaçom  assy 
ofaz  executar,  oque  se  nõ  faria  se  esta  contenda  hy 
nom  ouuesse ,  nem  se  faz  naquelles  que  assy  bestial* 
mete  uyuê,  que  todallas  cousas  que  odeseio  carnal  re- 
quere  todas  seguem  asseu  poder,  nem  nos  que  uyuem 
presuntuosamête  e  se  gloria  em  esta  uoontade  carnal 
nom  nos  contrariar  nê  Jhe  nêbrar  alguâ  cousa  do  que 
deseia  ,  e  se  recrea  ,  mais  querendo  sem  descliçom 
comprir  quanto  esta  uootade  spiritual  demanda,  caãe 
grandes  queedas ,  das  quaaes  hi  ha  assaz  exêpros  E 
por  aquesto  q  screuy  ,  alguús  q  tãto  nõ  sabem  pode- 
rem conhecer  como  destas  uoontades  cõtynuadamête 
somos  tentados,  e  requeridos,  e  como  as  primeiras 
Ires  nom  deuemos  seguir,  mais  todos  nossos  feitos  e 
cuidados  gouernar  por  aquarta ,  fazendoos  e  conssen- 
tindo  em  elles  per  determynaçom  do  entender,  e  no 
donosso  sollamête,  mes  naquelles  feitos  que  orrequerê 
de  q  nom  auemos  grande,  e  certa  pratica,  e  speriêcia 
auendo  consselho  pêra  alma ,  corpo ,  stado ,  e  fazenda 
das  pessoas  q  razoado  for ,  nom  nos  tenhamos  perfio- 
samête  ena  teêçom  e  openyom  q  requerê  nossas  uõo- 
tades ,  mes  obedeçamos  asseus  boos  consselhos  E  a- 
queste  he  ocamynho  da  uerdadeira  descliçom  q  em 
nossa  lynguagê  chamamos  uerdadeiro  siso,  q  poros 
sabedores  he  muyto  louuada  ,  oqual  trage  aos  que  se 
por  el  regem  com  agraça  de  deos  atodo  bê ,  e  arreda 
detodo  mal  Essobresta  quarta  uoontade  faz  fundamêto 


DE  BEM  CAUALGAR  TODA  SELA.  81 

a  uenlad^ira  prudência  per  que  se  scolhe  obem  do  mal, 
e  dos  bees  omayor,  e  do  mal  omenos,  ê  todos  nossos 
próprios  feitos. 

CapituUo  IX. 
em  que  se  demostra  per  que  uirtudes  nos  aderençamos 
adeseparar  as  ires  uôoiades  suso  scriptas  ^   e  seguyr 
aquaría. 


Jl  or  screuer  segundo  perteece  otrautado  decaualgar 
Ires  freos  som  per  q  nos  reteemos  de  seguyr  as  três 
uõotades ,  e  nos  aderençamos  per  aquarta  O  primeiro 
temor  das  penas  do  jnferno ,  e  das  leix  presêtes  postas 
por  os  senhores ,  ou    per  aquelles  que  sobrenos  teem 
poder,  e  reg-imêto  Ossegundo  deseio  degalardom  q  se 
spera   decobrar  em  esta  uyda   e   depois   na  outra  por 
fazer  sêpre  bê,  e  se  arredar  detodo  mal  O  terceiro  por 
amor  denosso  senhor  deos  e  afeiçom  das  uirtudes   Eo 
primeiro   que   perteece   ao   <emor  no  liuro  q  faz  men- 
çom   ê  este   oulro  caj)ituilo  suso  scripto,   se  apropria 
aafe ,   creendo   q  se   mal  fezermos  sem  duuyda  auere- 
mos  per  eilo  scarniêto  e  pena.   E  ossegundo  aesperaça 
pella  qual  speramos  com  agraça  de  deos  grandes  beés 
e   gallardom   se  bê  e  uirtuosamê(e  uiuermos.    Eo  ter« 
ceiro   acaridade   pella   qual  se  ama  deos  sobretodallas 
cousas   e   uirtudes   por  prazer  ael   e  se  auorrece  toda 
cousa  aauirtude  contrairá  por  no  desprazer  aaquel  que 
sobre   todo   he  damar.    E  nom  êbargando  q  cada  hua 
destas   uirtudes   perssy   he  suficiête  pêra  encamynhar 
na   carreira  chaa  e   dereiía   q   per  poucos  he  seguida 
Porem   antre  ellas  ha   grande  deferença ,   por  que  as 
primeiras  duas  perteecem  aos  que  começa  e  prossiguS 
de  uijr  ao  mais   perfeito  stado.    E  a  terceira  dos  que 
leixâdo  de  seer  scrauos  que  seruê  com  medo  das  feri- 
das,  passa  acondiçõ  de  seruidores  q  ia  spera  por  seu 
boo  seruiço  gallardom ,  e  dally  uec  ao  stado  de  boo  e 

II 


^2  ENSSYNANÇA 

leal  filho,   que   todallas  cousas  de   seu   padre  ha  por 
suas.  Eporê  nom  tanto  por  temor  das  penas  ou  sperâ- 
ca  de  gallardõ  osserue,  horrã  e  receam  como  por  de- 
leito amor,  no  qual  ha  temor  mais  côtynuado  de  ano- 
jar quem  rnuyto   ama,   por  nom   lhe  fazer  desprazer, 
©u   mynguãdo  se   perder  oamor  que  pode  seer  otemor 
do  seruo  oqual  aooiho  soomête  seguarda.  Eaquesle  he 
sêpre  guardado  por  que  dentro  em  sy  tem  aquel  gran- 
de amor  que  per  myngua  de  presença  nô  fallece,  mes 
em   todo   logar  assête  dequem  perfeitamête  ama  pêra 
se  guardar  detoda  cousa  asseu  prazer  cõtraria    E  na 
sperãça  se  ha  mais  auondosamête,  por  que  mais  aman- 
do ,  ha  mayor  deseio ,   e   mais  deseiando ,   pois  oque 
deseia  spera  receber,  sa  sperãça  côuem  seer  de  mayor 
sentido.   E  quem  soomente  serue  por  temor,   ajuda  o- 
deseio,  e  oamor  ficam  liures  pêra  se  jutar  aoutra  cou- 
sa  e   crecendo   muyto   faro  passar  aforça  do  temor.  E 
quem  soomête  por  alguú  gallardõ  serue,  ajnda  o  amor 
lhe   fica  liure,   pêra  poder  auer  mayor  sentydo,   e  de- 
leitaçom  em  presêça  doutro  bem  que  mais  ame  do  que 
he   odeseio   do   que  spera,   mes  quem  detodo  coraçõ, 
toda  uootade,  e  detodas  forças  amar,  todo  em  sy  ha, 
e   tem    Eporem  nom  se  pode  desatar  nem  fazer  cousa 
Gõtraira  de   quem  assy  ama,   por  q  teme  como  disse, 
muyto,   e  côtynuado,   e  assy  spera,  e  se  alegra  e  de- 
leita em   amar,  e  seguyr  boa  uootade  sem  côtradiçõ 
da  quel  cò  q  per  tal  amor  he  atado.  E  aalera  desto  ol- 
legamêto  no  amor  das  uirtudes,   e  cõtynuada  husãça 
delias  faz  mujto  perfeitamête  refrear  detodo  mal,  e  pe- 
cados nos  quaaes  fallecem  os  seguidores  das  três  uoo- 
tades   ia  declaradas   e   regersse   per  aquarta  Aquesto 
screuy  ajnda  í]  muyto  leixe  meu  propósito,  por  alguiis 
prestar  como  ja  disse.   Eo  suso  scripto  requere  alguà 
declaraçõ  destes   ires  freos,  os  quaaes  cadahuu  deue 
ti-azer  e  seu  coraçom  por  sentir  e  conhecer  suas  uirtu- 
des njais  perfeitamête  do  q  per  mym  sõ  scriptas. 


DE  BEM  CAUALGAR  TODA  SELA.  Ô"* 

CapituUo  X. 

como  os  que  justam  ená  per  ãeshordcnâça  de  uôotade, 

apropriando  lodo  aas  quatro  uoontades  suso  scrijHas. 


X  ornando  a  meu  propósito,  per  myngua  de  segurSça 
os  que  justam  erro  por  quatro  guisas.  Primeira  por  to- 
do nõ  querer  econtrar.  Segunda  por  se  apartar  cõ  re- 
ceo,  assy  como  costrangido  ao  tepo  dos  econtros.  Ter- 
ceira por  botar  ocorpo  e  auara  desassessegadamêt© 
com  trigança.  Quarta  por  querer  econtrar  sêpre  tanto 
dauantagera  q  muytas  erra  Eper  esta  primeira  parte, 
huus  erro  per  uôotade  determynada,  conhecendo  que 
he  bem  denom  êcontrarê ,  por  yrè  contra  tal  pessoa  q 
queiram  guardar,  ou  trazerem  cauailo  ta  fraco,  uara 
tam  grossa,  e  yre  atai  justador  q  ara  por  sua  auâtagê 
leixar  de  dar  alguíi  êcotro  ,  polia  nõ  receber  com  sua 
perda,  pertal  guisa,  aaqnarta  uôotade  perteêce,  enom 
pode  fallecer,  saluo  se  oentender  lhe  da  juyzo  côtrairo 
do  q  he  bem  que  faca  E  outros  erro  per  aprimeira 
uôotade  a  qual  disse  q  deseiaua  toda  segurança,  e  ar- 
redarsse  deperigoo  e  trabalho,  e  fazsse  per  esta  guisa 
Quando  alguii  uem  justar,  leua  tençom  toda  uya  de 
êcoutrar,  e  aqnella  fem  quando  toma  auara,  e  quando 
se  uay  chegando  contra  ho  outro,  arroym  uôotade  co- 
meça côsselhar  q  boo  he  scusar  aquel  êcontro  e  auoon- 
tade  que  trazia  êcontrairo  lho  côtradiz,  e  em  esta  cõ- 
tenda  uaao  ataa  os  econtros,  onde  rauytas  uezes  anoo- 
tade  fraca  faz  como  por  força  apartar  ocorpo ,  e  arre- 
dar auara  por  nom  econtrar,  e  tàto  q  passa,  logo  ojus- 
tador  côtrassy  ha  desprazer,  e  prepôe  que  se  outra  uez 
torna  q  logo  se  emendara  Equando  uem  outras  carrei- 
ras,  muytas  uezes  lhe  acôtece  assy  como  aaprimeira, 
por  que  osseu  lyure  aluydro  ao  têpo  dos  econtros  sco- 
íhe  por  melhor  seguyr  ocôsselho  e  deseio  da  quella 
maa  e  fraca  uôotade,  q  se  acordar  com  a  forte  e  uir- 

U   * 


84  ENSSYNANÇA 

tuosa  E  assy  me  parece  que  todos  pecamos  as  mais 
das  uezes  quando  nom  fallecemos  per  negrigêria,  por 
que  ante  q  cheguemos  ao  têpo  depecar,  e  faJlecer  de 
alguu  bem  q  aiamos  fazer,  sempre  aboa  uôotade  esta 
mu)'to  forte ,  e  determyna  q  todauya  seguira  amylhor 
parte  E  quando  uem  aora  de  executar,  oirâco  e  lyure 
aiuydro,  q  primeiro  cõ  ella  se  acordaua,  torna  deter- 
niynar  fugir  ao  perigoo  presente,  ou  seguyr  alguã  de- 
leitaçom  q  se  lhe  oferece  per  deseio  da  queila  primei- 
ra maa  uoonlade  Epor  q  em  tal  scolhiuiêto  como  este 
onosso  lyure  aiuydro  se  acorda  por  êtender  q  he  me- 
lhor, e  mais  defazer  no  q  erra  manyfestamête,  ca  el 
medes  oconhece  tãto  que  aquella  ora  passa  Porem  se 
diz  q  todos  pecam  per  ignorância  do  entender  q  nom 
cosselha,  nem  determyna  bem  ãte  do  feito,  ou  deste 
lyure  aiuydro,  q  ao  têpo  da  obra  scoihe  apeor  parte, 
auendoa  por  melhor,  e  mais  de  se  seguyr  Per  asse- 
gunda  guisa  em  q  disse  como  algufis  se  apertauã  per 
receo  costrangidos ,  e  esto  se  faz  per  aquesta  medes 
carnal  uõotade ,  mes  têe  esta  deferêça ,  os  primeiros 
ao  têpo  dos  êcontros  determyna  no  quererê  encõtrar, 
e  acijnte  arreda  auara,  e  aquestes  temendo  os  êcontros 
chegando  aelles  se  aparta  por  seer  firme,  e  em  aper- 
tando ocorpo,  çarrom  os  olhos  como  ia  disse,  e  assy 
leixa  de  êcontrar,  ou  apertando  ocorpo,  apertS  esso 
medes  obraço  e  fazem  desuyar  auara  donde  ya  pêra 
êcontrar  bê  endereçado  Etodo  esto  da  fraqueza  da 
queila  primeira  uootade  procede.  E  dos  q  erra  per  tri- 
gãça,  botarem  ocorpo  e  auara  com  uoontade  de  êcon- 
trar, esto  aassegunda  uõotade  que  chamey  spiritual  se 
pode  apropriar ,  e  fazsse  daquella  guisa  q  alguiis  bees- 
teiros  com  trigãça  nõ  pode  sofrer  odesparar  da  beesta 
com  boo  assessego,  mes  desfecha  darreuato,  ou  tisoy- 
rada  Eaynda  q  conheçam  sua  mygfía  nõ  se  pode  emen- 
dar, por  que  auõotade  no  lhes  cõssente  Eaquesto  me- 
des faz  quando  justam  alguiis  boos  justadores  q  assy 
apertam  os  corpos,  e  os  mouê  aquelles  ^  os  uêe,  com 


DE   BEM  CAITALOAR   TOD\   SELA.  05 

deseio  desse  êcontrarè  como  alifuus  delles,  os  q  erra 
por  sêpre  quprerê  degrande  auãlagem  bê  encõtrar  A 
terceira  iiõolade  pode  seer  apropriada,  por  q  aqtiella 
carnal,  querendo  scusar  lodo  perigoo  e  trabalho  pra- 
zerluia  no  eocôtrar  K  aoutra  que  deseia  fazer  toda 
cousa  q  ptssa  que  he  bem  muy  atreuydainête  queren- 
do sem  nehuíj  rrguardo  encõtrar,  côtrariãsse  ãtressy, 
e  delia  uêe  algufis  aaterceira  que  chaniey  tiba  e  praze- 
tcira.  aqual  querendo  estas  ambas  suso  dietas  compra- 
zer, determyna  que  he  bem  encontrar  alodos  degrande 
auâtagê  na  uista,  ou  errar  E  aquesto  faze  sem  deferê- 
ça  de  conssijrar  aquém  uaâo ,  ou  q  cauallo,  ou  armas 
trazô  e  por  aqui  pêssam  satisfazer  e  concordar  as  pri- 
meiras duas  uootades.  £  por  se  guardar  de  todos  estes 
erros  q  procedem  destas  três,  tenham  teêçom  desse 
gouernar  per  aquarta,  obedeceêdo  aarrazom,  e  enten- 
der em  esta  guisa.  Côssijrê  oque  he  bem  defazer,  e 
forcem  assy  medes  per  esforço,  mostramêto  deboa  ra- 
2ô,  e  husãça  E  quanto  ao  primeiro  erro,  por  q  todo 
nace  da  uootada ,  aqual  determyna  nom  querer  encõ- 
trar com  receo  que  dello  toma,  reguardê  oque  screuy 
das  cousas  queo  fazem  perder,  e  ajudèsse  daquellas 
em  q  sentirê  pêra  esto  mais  proueyto.  E  pensso  que 
se  deseio  teuerem  de  justar,  e  êcõtrar,  hi  acharom 
êxêpros,  e  auysamentos  de  q  serom  pêra  esto  bem  a- 
judados,  se  os  quiserê  praticar.  E  ãlre  as  cousas  que 
declarey  fazerem  perder  orreceo ,  huã  he  per  êtender, 
e  boa  razom  ,  aqual  pode  muyto  prestar  neesto,  per 
esta  guisa.  Conssijrar  aquella  primeira  boa  têeçom  que 
têe  de  encõtrar  quando  uaaõ  aatea ,  e  delia  se  lõbrê, 
e  nom  cõssentã  quando  elles  poderê  que  dally  se  mu- 
de Outrossy  côssijrê  quam  poucos  perigoos  dos  encõ- 
tros  se  recrecê  e  como  em  jugar  canas,  e  monte,  e 
luyta,  muyto  mais  acontecem,  e  que  geeralmête  os 
homeês  mujto  se  despõoe  aello  sem  receo,  e  ^  assy 
«deuem  fazer  no  justar,  e  tenham  uoontade  de  querer 
ante  alguãs  uezes  fazer  reuezes,  ou  cayr^  que  detodo 


86  ENSSVNANÇA 

Jeixar  dêcontrar  E  cõ  tal  teençom,  como  esta,  sea  ryio 
teuerê,  e  quiserê  contynuar,  per  força  he  q  encõtrê 
Por  se  guardarê  do  segundo  erro  em  q  disse  que  al- 
guus  errauâí  por  se  apertara  ao  têpo  dos  encontros  se 
deue  teer  huã  de  três  maneiras,  ou  leuar  ojustador 
auara  e  ocorpo  todo  seguro ,  e  folgado ,  e  nom  cons- 
sentir  defazer  outra  nehuã  mudâça  ataa  ^  encõtre,  ou 
ate  dos  encontros  hum  pedaço  apertar  obraço,  e  todo 
ocorpo  tãto  q  ia  quando  el  chegar  nom  possa  mais  e 
assy  se  tenha  atee  q  encõtre  Eo  terceiro  geito  he 
quando  alguíjs  conhece  dessy  q  nom  pode  guaanhar 
cadahuú  destes  dous  q  som  os  melhores ,  Jeuêna  uara 
alguú  pouco  desuyada  do  justador.  E  quando  cheguarê 
aos  encõtros  em  apertando  ocorpo  tragam  auara  derre- 
uato  ao  encõtrar,  e  mais  uezes  acertarem  per  esta 
guisa  os  q  teê  geito  desse  nõ  poderem  teer  ao  têpo 
dos  encõtros  que  se  no  aperte,  que  deleuar  auara  de- 
reita  aly  onde  queria  encõtrar,  por  q  oapertar  do  cor- 
po e  do  braço  ao  têpo  dos  encõtros  lha  fará  desuyar 
Edo  q  disse  q  alguíis  errauâ,  por  querer  delodo  êron- 
trar  dauãtagê  ,  desto  segundo  mynha  têeçom  ,  qual 
quer  razoado  justador  se  deue  guardar,  mes  conssij- 
rando  sy ,  e  aquel  com  q  justa,  e  os  caualios  e  uaras 
q  trazê,  assy  encontre  Esse  conhecer  que  traz  auãtagê 
nom  recee  decer  ao  scudo,  nfica  entendo  que  pode 
seer  boo  justador,  oque  se  alguãs  uezes  nõ  quer  auê- 
turar  Eaalem  do  suso  scripto ,  som  derreguardar  estes 
dous  auysamentos  Primeiro,  que  quando  derribar  aua. 
ra  de  soobraço ,  se  ooutro  nõ  ueher  muyto  acerca,  q 
elle  alleue  huú  pouco  mais  bayxa  da  quelle  logar  onde 
tem  deseio  dencõtrar  E  esto  se  faz  por  duas  razooês, 
primeira  ,  por  ueer  mais  desêbargadamête  olugar  onde 
tem  entêçom  daderêçar  sua  uara,  segunda  por  nom 
descayr  mais  baixo,  quando  decima  buscar  pêra  fundo. 
Ossegundo  auysamêto  he  em  q  sta  a  principal  força 
do  bem  encontrar,  q  elle  tenha  os  olhos  firmes,  e  so- 
fra ocorpo  e  auõotade  quanto  mais  poder  ataa  que  lhe 


DE  BEM  CAUALGAR  TODA  SELA.  ÍT 

pareça  que  uee  assolar  os  ruqueles  uo  lugar  onde  elle 
quer  dar.  E  por  auer  tanto  scripto  em  aiiysamentos 
que  aajusta  perteecõ ,  amym  praz  screuer  cómodos 
homees  de  pee  se  deuê  seruyr,  ajnda  que  aassoltura 
nom  perteêça  por  q  uj  amuytos  mal  seruidos  delles , 
trazendoos  em  auondança  per  myngua  de  saber  E  po- 
re  se  liuCi  justador  traz  três  liomeês  de  pee,  pêra  seer 
delles  melhor  seruido ,  com  menos  trabalho,  dous  po- 
nha na  pôta  da  tea,  e  huu  na  meetade,  e  os  das  putas 
tenham  Ires  auysametos  Primeiro  que  quando  ojusta- 
dor  uyer  queo  ag^uarde  da  tea,  e  lhe  faça  uoUar  pêra 
lugar  seguro  por  que  muytos  uy  feridos  nos  pees  , 
quando  as  teas  nas  pontas  nõ  auyã  deuysas,  como  a- 
gora  custumâ,  querendo  uoltar  os  cauallos  ate  q  as  a» 
cabassem  de  passar,  e  topauam  nas  costas  Ossegudo 
he  q  tire  os  pees  fora  das  strebeiras,  segado  prouuer 
ao  justador  O  terceiro  que  lhe  tenha  ocauallo  quedo 
onde  lhe  praz  destar  Eo  da  meetade  aja  principalmête 
outros  três  auysametos  Primeiro  que  tenha  o  olho  no 
justador  se  ha  mester  sua  ajuda  aos  encontros,  e  pres- 
temête  lhe  acorra.  Segundo  que  lhe  arrecade  auara,  © 
ade  ao  seruidor  de  cauallo  Terceiro  q  reguarde  se  caãe 
algua  guarnyçõ  nos  encontros,  e  a  faça  entregar  aca- 
dahuu  dos  q  anda  com  ojustador  E  por  muytos  que 
traga,  sêpre  assy  seiâ  repartidos  em  três  partes  com 
estes  auysametos,  e  seruirõ  melhor  e  mais  sem  traba- 
lho que  trazellos  todos  cõsigo  jútamête. 

Capitullo  XI. 
per  q  se  da  essynâ^a  da  maneira  q  em  môte  auerã 

decôtrar. 

Jl  era  comprir  oque  screuy  q  no  môte  daria  êssynãça 
pêra  bem  encõtrar,  eu  acho  que  geeralmête  per  qua- 
tro maneiras  encôtramos  quaaes  quer  alymarias  Pry- 
nieiramente  êuyando  anos  Segunda  em  atrauessando 
de  cadahuâ  das  partes   Terceira,  em  fogyndo   Quarta 


ffS  ENSSYNANÇA 

eea  teê  ca3es,  ou  per  alguã  guysa  ella  iaz  ou  sla  E  de 
cadahiiã  screwerey   breucmete   amaneira  que  se  deue 
teer  pêra   êcontrar  bem,   e  dar  mayor  ferida,   e  ferir 
mais  aguçosamente  ,    e   se  guardar  dalguãs  mynguas 
dessaber    Dejusta  ueê  as  alymarias  anos  de  diante  de 
cadahuá  das  ilhargas  e  detrás,  e  se  per  diãte  uêe,  de- 
uesse   teer  sta   maneira,  desuyalla  cabeça  do  cauallo 
em  chegando  aella  assy  queo  faça  uijr  adereito  da  spa- 
da,  ou  costado  da  besta  em  q  andar  aaparte  dereita 
Ca  se  uyer  de  dereito  a  dereito  errasse  mais  asynha, 
e  abesta  entrepeça  per  cima  e  no  se  pode  delia  guar- 
dar, nê  leuar  alança  na  maão  sea  bê  fere  E  quando 
uyer  ao  encôtro  deue  teer  metes  deo  ferir  perãtre  as 
spadoas,  ca  este  he  olugar  onde  odo  cauallo  ha  dêcon- 
trar ,  husso ,   touro ,   ou  porco  se  em  besta  de  razoada 
grandeza  andar  queo  possa  fazer,  por  que  ally  he  omeo, 
e  esta  em  razõ  que  erre  mais  poucas  uezes  Eiise  allãça 
por  ally  uay  dentro  ao  uaào,  côuem  que  de  no  coraçc» 
ou   bofes   per  q  amais  asynha  matara    E  quando  assy 
aelas  uaão  de  justa,  se  deue  teer  esta  maneira  por  lhe 
darem   grande  ferida,  seno  forê  ryjo  e  leuarem  allãça 
depequena  diãteira   quando   topar  no  encõtro  apertar 
alãça  bem  na  maâo ,   e  em  ferindo  carregar  cõ  ocorpo 
sobrella,  e  quem  esto  bem  souber,  ajnda  que  seia  fra- 
co, dará  muyto  mayor  lança  que  outro  que  seia  mais 
ryjo  degrande  auãtagê.    E  pêra  se  bem  fazer  cõuem  q 
se  aiam   cijiquo  auysamêtos  jutamête    Primeiro  ,    em 
chegando ,  desuyalla  cabeça  do   cauallo  Segundo  em 
teer  olho   onde  ha  deferir,   e  ally  dcrençar  sua  laça 
Terceiro  em  carregar  com  ocorpo  Quarto  em  alleuar, 
ou  alleixar  segundo  deu  aferida   Quynto  em  se  nêbrar 
das  sporas  por  guardar  ocauallo  denô  seer  ferido  Esse 
ryjo  for,  ou   allâça  trouuer   muyto  deanteira  scusado 
lie  ocarregar  do  corpo ,  mais  sollamente  apertar  allãça 
como  assua  deãteira  costrange  q  se  faça  da  sua  yda  e 
uijnda  daallymaria  cõuem  que  receba  grande  golpe  Ede- 
uesse  lêbrar  dos  outros  quatro  auysamentos  suso  scrip- 


DE   BEM   CAUALCAR   TODA   SELA.  89 

tos,   e   esso  medes  leer  bem  firme  na  sella,   por  q  ai-. 
giius   se   squeecem    delia   ê  este  tèpo  ajnda  que  passo 
uaã   se   allaça  for  deãteira  scuse  omouer  do  corpo  por 
nõ  errar  pollo  uagueiar  delia,  e  por  que  osseu  pesume 
afaz  teer  tam  apertada  q  se  de  dereito  encõtra,  cõuem 
se  airiça  nom  quebrar  que  de  assaz  grande  golpe  Dou- 
tra  maneira  justam   alguus  cõ  hussos  e  porcos  que  he 
assaz  perijgosa,   e  cõpre  em  ella  auer  boo  auysamento 
E  aquesto  se  faz  quando  foge  per  lugar  onde  teè  crêe- 
ça  lôge,  e  sêtindosse  ecalçados  fazê  auolta  tam  arreua- 
tada   que    poucos  se  delle  podem  guardar,   por  q  uem 
todo  dereito  arrostro  do  cauallo  E  por  q  he  cousa  des- 
cuydada  errasse  delygeiro,  e  ocauallo  como  uem  desa- 
têtado  topa  per  cima  delles  e  degra  uentuira  scapã  de- 
cayr  Epera  scusar  tal  caio  quantosse  mais  fazer  pode, 
seiam  deste  auysados ,  q  cõssijrê  tal  aazo  per  q  se  du- 
uydè   de  tal  uolta,    atentem  ocauallo  na  maão,   e  des- 
uyesse   ao   traues   passandoa  pêra  correr,   e  leixandoa 
amaào  dalãça  E  como  forem  em  igual  delia  logo  justa- 
rom   sê   deteêça ,   se  tal  uootade  leuõ  E  quandosse  a- 
guardar,  tenhasse  amaneira  q  suso  he  declarada,  quan- 
do u\er  aespadoa  do  cauallo  Esse  uem  de  traues  aapar- 
te  dalaça  enderece  ocauallo  cõtra  ella,  assy  que  teêdo 
de   soobraço   apossa   bem   ferir    E  quando  de  cadahuâ 
destas  guysas  onom  poder  fazer,  mais  uai  passar  trigo- 
samête,   e  uoltar  sobrella  aderençandosse  como  deiie, 
que   aaguardar   mal   corregido    Esse   aaparte  ezquerda 
uem,  nom  se  deue  guardar  cõ  allaça  dessoobraço,  mais 
tomalla   em   amballas   maaos,   e  ocauallo   nõ   aderece 
contra    ella,   mes   teêdo   atraues   seia   aguardada  ê  ta^ 
guisa  que  quandoa  ferir  per  detrás  afaça  passar,   e  nõ 
per  diãte  E  esta  he  hua  maneira  per  q  os  que  som  as- 
sy custumados   em   ferir  ofazê  bê,   e   seguramête    E 
uijndo  per  detrás  omelhor  geito  he  se  aaguardar  quiser 
leixalla  aaparte  ezquerda,  e  uoltando  sobre  assclla,  fi- 
Ihalla  laça  com  âballas  maãos ,   e  assy  aferir,  por  q  se 
aaparte  dereita  uehesse,  nõ   poderia  teer  alãça  seno 

12 


90f  ENSSYNANÇA 

em  huAÍ,  e  teendosse  assy  no  estaria  em  razom  dar 
com  ella  tam  grande  ferida,  qnandosse  alãça  filha  com 
amballas  maãos,  arredea  alguãs  uezes  detodo  he  desê- 
parada,  e  outras  fica  na  maão  dereita  teêdoa  polia  po- 
ta  E  alguíís  ateê  na  ezquerda,  e  per  cima  delia  teê 
aliança,  e  aquesto  se  faz  segundo  cada  liuu  acha  me^ 
Ihor  geito  deo  poder  fazer.  £  quando  alguâ  ueaçom 
«em  da  parte  dereita  peraa  ezquerda,  nom  cõ  entêçom 
dejustar,  mais  de  passar,  o  melhor  geito  he  tentallo 
cauallo,  e  uoltalla  cabeça  contra  onde  ella  uay,  nom 
se  trigando  tanto  no  correr,  quesse  lhe  lance  per  trai- 
las  ancas,  mes  iguallarsse  com  ella,  fazendoa  correr 
de  lõgo  aferir  Esse  desta  guisa  uem  da  parte  ezquer- 
da, contra  adereita,  se  tem  geito  deferir  a  ãballas 
maaos,  tenha  esta  maneira  suso  scripta  Esse  nom  ha 
custumado  de  ferir  seno  aaparte  dereita,  e  lhe  quiser 
dar  dencõtro  como  ella  uem  de  trauessa,  trigue  seu 
cauallo  e  faça  passar  per  traias  ancas ,  e  uoltando  lhe 
íicara  asseu  geito  E  esta  uolta  se  deue  dar  delôge  ou 
de  preto  segundo  abesta  for  deligeira,  ou  aderençada. 
Ca  se  for  ligeira  e  bem  adereçada,  quanto  demais 
preto  afezer  uoltar,  tanto  mylhor  aferira  Esse  per  o- 
contrairo,  fazendoa  mais  delõge  he  moor  auãtagem  E 
quando  aueaçom  foge,  ella  se  pode  bem  encontrar  per 
huã  de  duas  guisas.  Primeira  leuando  alãça  de  soobra- 
ço  em  grande  deãteira,  e  encalçandoa  bem  da  yda  do 
cauallo  seia  toda  aforça  do  golpe,  adereçando  Sua  laça 
ao  logar  onde  quiser  encontrar,  mes  do  corpo  nem  do 
braço  nom  faça  nehuíi  mudança  Assegunda  he  leuan- 
do alança  depequena  dianteira  como  for  acerca,  bote 
ocorpo  5  e  stire  obraço  pêra  aferir  no  lugar  onde  teuer 
teêçom,  e  per  esta  guisa  se  ferem  mais  apressa  e  des- 
êpachado,  mes  nõsse  tiã  tam  grandes  feridas,  como  do 
êcalçar  dos  cauallos  E  detal  encontrar  se  recrece  muy- 
tas  uezes  este  caiom  que  em  se  aueaçom  sentindo  fe- 
jrida  se  alrauessa  ante  orrostro  do  cauallo ,  e  muytas 
uezes  caãe  per  cima  delia  E  por  se  guardar  delie,  po- 


DE   P.EM   CAUALGAR   TODA   SELA.  91 

desse  leer  l)u:i  (Je  três  maneiras  Primeira  ena  êcalçan- 
do ,  e  chegando  delongo  aella,  per  onde  uay  em  afe- 
rindo desuye  ocaijallo  afora,  assy  q  todo  faça  jutamête, 
leixandoa  aamàuo  da  lança  ocauallo  saya  aaoutra  parle. 
Assegunda  he ,  posto  quea  encalce ,  e  apossa  ferir 
ataa  meetade  do  corpo ,  sofrasse  dello  a  tee  aencalçar 
tanto  que  Jhe  possa  dar  iios  costados,  ou  dy  pêra  dyan- 
te  E  aquesto  se  faz  por  q  seendo  assy  aaparte  dyãtei- 
ra  ferida,  ajnda  q  uoUar  queira  alàça  nom  lho  cons- 
sente,  ante  afaz  desuyar  pêra  fora  Ca  seo  for  na  parte 
traseira,  ogolpe  da  lança  lhe  fará  dar  auolta  mais  tri- 
gosamête  ante  orrostro  do  cauallo 

A  terceira  maneira  tee  algufis  q  feryndo  alguã  de 
grande  ferida,  assy  como  ella  uolta  sobre  orrostro  do 
cauallo,  elles  leixâ  alàça  em  ella  passar  soo  collo  do 
cauallo,  uoltãdo  aamaão  dereita.  E  quando  tal  golpe 
bem  se  acerta,  por  grande  q  seia  aueaçom  he  per  for- 
ça que  logo  ca\a  se  alaça  for  ryia.  Huâ  quarta  manei- 
ra de  ferir,  husso,  touro,  porco,  grande  e  pesado,  a- 
qual  tenho  por  mais  segura  que  nehuií  das  outras  suso 
scriptas,  teendosse  logar  em  que  se  possa  be  fazer,  he 
per  esta  guisa,  tãto  que  ode  cauallo  bem  em  calçar 
cada  huâ  destas  alymarias,  eparelhandosse  com  ella 
leixea  aainaao  e2'querda ,  e  fazendo  uolta  uenha  detra- 
ues  aella,  e  passaido  per  detrás  afeira  na  quella  parte 
da  maão  dereita  E  quando  ella  quer  fazer  uolta  sobre 
aferida,  ia  ocauallo  passa,  e  pore  he  demenos  perigoo, 
ajnda  q  cada  huâ  destas  ueaçoôes  q  assy  ferir  seia  for- 
te e  braua.  E  por  se  ferire  mais  prestemete  EIrrey 
nieu  Senhor  põe  alguns  auisamètos  no  seu  liuro  da  mõ- 
taria  denom  leuar  alança  mu}  to  soobraço  por  a  põtaria 
nom  perder  Ede  leixar  aueaçô  êcarreirar,  ou  correr 
per  alguú  so  pee  por  no  fazer  uolta  Essobrello  por  o- 
que  elle  screueo ,  e  perteêcer  principalmête  mais  as* 
eaiaria  deboo  môoteiro  q  aassoltura  sobre  q  screuo,  no 
faço  dello  mais  meeçom,  por  acabar  as  três  partes  su- 
so scriptas  em  q  comecei  quando  alguâ  ueaçom  he  to- 

12  * 


92  líNSSYNANÇA 

rwada  dos  caães ,  ou  per  alguã  outra  guisa  jaz  ou  esta 
queda  Ajnda  q  em  tal  caso  mais  perteeça  ferir  de  so- 
bre mãao,  quem  dêcontro  quyser  yr,  omelhor  geito  he 
Jeualla  laça  depequena  diiiteira,  e  dallo  golpe  com  o- 
carregar  do  corpo,  por  q  ieuandosse  desta  guisa  fere 
mais  certo,  e  lhe  fica  major  soltura  pêra  bê  adereçar 
seu  cauallo,  casse  aleuasse  diãteira,  e  quisessea  ferir 
da  yda  do  cauallo,  el  nõ  hyria  tã  senhor  delia,  e  seria 
mais  perijgoso  pêra  os  caães. 

Capilullo  XIL 
do  ensynamento  deferyr  com  lança  de  sobremaâo. 


era  bem  ferir  com  lança  dessobre  maão  som  de  re- 
guardar  estes  três  auisamentos.  Prymeiro  he  de  cons- 
sijrar  se  forem  sobre  cousa  ryja  assy  como  armaduras, 
ou  porco  de  forte  scudo  ou  se  da  em  lugar  desarmado, 
e  detal  desposiçom  q  alâça  ligeiramêle  opasse.  Esse 
der  em  cousa  forte  aperte  bem  alãça  na  maão  e  solte 
obraço ,  e  juntamête  de  omayor  colpe  q  poder,  por  ^ 
dei  fará  toda  sua  ferida  e  nom  lhe  prestará  nada  carre- 
gar mais  cõ  ocorpo  Esse  for  sobre  cousa  desarmada  e 
q  alâça  bem  passe,  ndsse  ebargue  deleuãtar  muyto  o- 
braço ,  mais  apertando  alãça  na  maaõ  tenhao  êtesado 
com  ocorpo,  e  cõ  ocotouello  alto  Quando  ferir  carre- 
gue com  ocorpo,  e  bote  obraço  com  alãça  e  daquesta 
guisa  alguãs  uezes  se  da  ogolpe  com  quatro  forças 
Primeira  da  uijnda  do  cauallo.  Segunda  do  primeiro 
ferir  do  braço.  Terceira,  do  carregar  do  corpo,  Quar- 
ta do  botar  da  maão  com  alãça  quanto  mais  poder,  e 
os  q  esto  bem  sabem  fazer,  husso,  touro,  nê  porco  no 
se  lhe  terra  queo  nõ  passem  dhuâ  parte  aoutra  seo 
golpe  bê  acertarem  e  boa  laça  teuerem ,  e  nom  topa- 
rem em  taaes  ossos  queo  toruem.  Edeuem  deteer  en- 
têçom  quando  assy  ferirê  de  todauya  passarê  dhuã  par- 
te aoutra  por  q  se  ha  propósito  de  sollamête  ferirê, 


DE  BEM  CAUALGAR  TOT>A  SELA.  93 

tãto   q   alãça  igualmête  entra,   logo  se  contêtéi,   e  os 

que   teê  uõotade  íletodauya  passar,   e  oassy  ciisíuniã; 

ocorpo  e  obraço  noni  cessa  de  carregar  sobre  alaça  a- 

taa   q   nom    passe  E  os  q  som  boos  caualgadores  bein 

soltos   e  certos  ofazem  tã  despachadamête  q  os  outros 

q  o  uêe,  se  dello  nom  há  boo  conhecimento  nom  opo- 

dem  julgar  senom    por   huu   soo   golpe  E  aqueste  he 

geeral  auysamêto  pêra  ferir  de  sobreniaão  Epor  mayor 

declaraçom    os   q    anda   amôte    podem    assy   fazer  ires 

maneiras  Vijndo  alguà  ueaçom  aelles  fogindolhe  e  teen- 

doa  ja   alguíis  caães  E  quando  dejusta  ueher  omelhor 

geito   he   teer  a  maaò  queda  apar  do  rostro  com  oco- 

touello  alto  e  aguardalia  q  uenha  topar  na  lança  como 

sea  soobraço  teuesse,  e  entráte  aapõta  delia,  dar  onde 

quer  ferir   carregando   com  ocorpo    E  aqueste  he  huii 

geito   per   q   se   acerla  m}lhor,   e  se  da  muyto  mayor 

laçada  se  he  tal  cousa  em  q  alâça  possa  bê  cortar,   ca 

os  q  leuãtam  obraço  erram  muytas  uezes  por  aueaçom 

passar  ate  q  possa  ferir. 

Se  foge  em  chegando  peraa  ferir,  mais  prestes  nom 
se   deue  atender  quea  encalce  detodo ,    mas  ante  que 
chegue   botar   ocorpo   e   obraço  pêra  diâte.  E  muytas 
uezes  se  acõtece  que  ena  assy  ferindo,  abesta  chega  e 
torna   carregar  sobre   alança   e   se  dam  per  esta  guisa- 
grandes  feridas  E  desta  maneira  deferir  se  recrece  huu 
caiom  por  q  em  se  botando  assy  aueaçom  sentindo  que 
aferem  ,  torna  ãtre  as  maãos  do  cauallo ,  e  por  ocorpo 
yr  diãteiro  podeo  mal  reteer  q  no  caya,  cao  côtrapeso 
pêra  diãte  sem  ajuda  das  rédeas  oderryba  E  porem  pê- 
ra dar  mayor  golpe,   e  mais  seguro  e  raylhor  he  nom 
trigar   ataa  q  bem  êcalce ,   e  ferir  carregando  sobre  a- 
lãça  pêra  fundo   nom    botando  ocorpo  adiáte   Esse  os 
caães  teê  aueaçom ,   ogolpe  deue  dar  com  obraço  car- 
iado e  nom  oleuãtando  muyto,   e  leixar  yr  ocauallo  a- 
tentado  no  freo,  percebendosse  de  longe,  nom  oparan- 
do  ao  ferir.  Mes  logo  da  uijnda  oaderêce  todo  dereito 
e  ê  chegando  odesuij  e  logo  fira  hu  íeuer  têçom  sem 


94  ENSSYNANÇA 

empacho  dauoontade,  por  que  se  parar,  e  dequedo 
quiser  ferir,  sêpre  dará  menos  golpe,  e  mais'  tarde,  e 
os  q  obem  sabem  fazer  logo  perãte  dous  ou  Ires  caães 
ferem  sem  deteer  muy  seguramète,  e  mostram  em  el- 
lo  pêra  tal  mester  grande  soltura,  posto  q  abesta  pas- 
se ,  se  uay  atentada  no  freo ,  podem  carregar  do  corpo 
e  braço  pêra  dar  grande  lançada. 

Pêra  derribar  qual  quer  alyniaria,  achei  certa  spe- 
riêcia  se  alãça  trazia  deforte  aste,  e  bem  asteada,  em 
ferindo  se  bem  êtraua  tiraua  dessolacada  per  ella  ao 
traues  carregando  cõtra  ochaão  por  q  íicaua  em  ma- 
neira  dalçaprema,  poucas  se  tijnha  q  nom  caysse  stre- 
madamête  seo  fazia  dauijnda  do  cauallo,  mes  desta 
guisa  se  quebra  muytas  laças  E  quando  ocâ  filha  opor- 
co  se  deue  teer  este  auysamêto,  ueer  se  el  uay  yndo 
cõ  ocâ,  ou  se  uolteia,  ca  se  el  uay  adereito  he  bem 
de  correr,  omais  trigoso  q  poder,  e  ferillo,  esse  andar 
em  uolta  melhor  he  yr  mais  atêtado  em  seu  correr,  e 
dequal  quer  destas  guisas ,  pêra  se  fazer  boa  roôtaria , 
e  mostrar  boa  soltura,  melhor  he  em  passando  ferir  q 
nom  despois  q  parar  E  per  estes  auisamêtos  de  saber 
ferir  ê  ueaçooês  se  pode  filhar  êsynàça  como  ê  pelleiar 
se  podem  dar  mayores ,  mais  certo  e  prestes  laçadas 
E  pareceme  q  he  muy  boo  custume  no  mote  trazer 
lâças  grandes  e  pesadas  por  que  se  com  tal  esta  ma- 
Xiha  bem  se  percalça,  cora  as  leues  se  achara  muyto 
mais  soltos  e  desto  achei  per  mym  certa  speriêcia, 
por  q  decauallo  em  mynha  casa  outrem  as  nõ  traz 
mayores  e  mais  pesadas ,  e  por  custume  delias  aos  q 
as  leues  trazem ,  deferir  em  monte  be  e  prestes  nora 
dou  uãtagem,  e  desto  me  gabo  por  dar  certo  êxempro, 
e  seer  è  feito  demôtaria  de  q  se  afirma  q  com  razõ,  e 
uerdade  nos  podemos  sem  prasmo  gabar. 


DE  BEM  CAUALGAU  TODA  SELA.  95 


Q. 


Capituílo  XIII. 
do  tssynamêto  do  remessar. 


uatro  cousas  sõ  necessárias  aquém  be  ouuer  derre- 
messar.  Pimeira  que  lãce  Jõ^e.  Segunda,  certo,  tercei- 
ra seguro,  guardando  sy  e  seu  cauallo  de  caioin.  quar- 
ta fremoso  E  quanto  aaprimeira  quem  deseiar  deobê 
fazer,  cõuem  que  liuse  primeiraniete  de  pee ,  e  laçar 
]âças  razoadas  porá  de  cauallo,  por  tal  que  acerte  des- 
sy  naturalniêle  abraçaria,  q  nõ  spere  alcançar  bem  do 
cauallo  ocj  de  pee  primeiramente  nõ  filhar  ogeito  E09 
q  assy  Ifítam  de  pee,  aJguus  trazem  alãça  baixa  ao 
correr,  e  ouiros  alta,  e  dally  alançã.  E  aqueste  me 
parece  melhor  geito  pêra  remessar  de  cauallo  Porê  eu 
nõ  opude  tal  filhar,  mais  trago  alto  e  em  querendo 
remessar  abaixo  obraço  e  corpo,  e  surdo  com  ella  sem 
detêeça  E  cada  huCi  destes  dous  me  parece  assaz  de- 
boo  Mas  logo  no  começo  da  curruda  leuar  obraço  ten- 
dido ,  ou  depois  que  abaixa  tardar  assy  com  elJe  nç^ 
ine  parece  bê. 

Pêra  fazer  grande  laça  de  cauallo,  deue  primeira-' 
mete  começar  asse  êssynar  com  aste  alguã  de  laça  ^ 
geia  rõba  damballas  partes  por  sua  segurãça  Eleuando 
ocauallo  agalope,  trabalhesse  de  soltar  obraço,  como 
se  de  pee  lançasse,  e  façaa  sayr  alta  e  feita,  e  aper- 
tada da  roaão  bè  auyada  pêra  lõge,  por  q  ayda  do  ca- 
uallo, quando  alãça  desta  guisa  saae  afaz  chegar  muy- 
to  mais  do  q  home  penssa,  e  deuesse  husar  assy  de- 
galope  por  huu  têpo ,  por  tal  q  estes  auysamêtos  to- 
dos se  possam  mylhor  filhar,  specialmête  ossacudír  do 
braço ,  por  q  poucos  ofazem  assy  bem  E  ãtre  todallas 
cousas  saibha  conhecer  ocõtrapeso  da  laça  deâteira 
que  lhe  deue  dar  peraa  fazer  hyr  feita  E  êcorrêdo  ale- 
ue  assy  apertada ,  q  quando  alãçar  a  ponta  uaa  toda 
dereita  aly  hu  teuer  teençom  E  des  que  esto  per  ai» 
guús  dias  agalope,  e  com  tal  aste  souber  fazer ;  custu» 


96'  ENSSYNANÇA 

messe  aqual  quer  outra  braçaria  de  cauallo,  teendo 
toda  iiya  mais  custume  delançar  laça  q  neliuã  outra 
cousa  Eguardesse  de  pee  husar  barra,  ou  alg-ua  cousa 
pesada,  nem  muy  leue,  per  q  possa  seu  braço  derrea- 
car,  por  q  laçando  lâça  acauallo  seo  braço  nõ  he  doê- 
te ,  nuca  por  ello  dooe.  Eo  proueito  destas  duas  bra- 
çarias  pêra  nehuu  que  acauallo  he  boo  laçador  he  muy- 
to  pequeno ,  eo  desprazer  que  sente  no  perdymêto  dei 
he  assaz  grande,  segundo  per  mym  senty  aesperiêcia. 
Esse  aiguê  grande  laço  quiser  fazer,  aia  cauallo  de 
sella  gineta  com  strebeiras  curtas  segundo  seu  custu- 
me; q  corra  bem,  e  tenha  aboca  huu  pouco  testa  le» 
liando  alança  razoada  segundo  seu  geito  ,  e  obraço 
bem  solto,  e  despelado,  e  corra  per  carreira  châa  e 
costas  auento ,  chegando  ê  alguú  começo  de  cidade, 
sacuda  alãça  do  braço  nom  atentando  nada  no  freo  se- 
no depois  q  laçar,  guardando  os  outros  auysamêtos  q 
no  começo  disse.  E  desta  guisa  deue  lançar  mais  q 
de  pee  acerca  do  terço  E  assy  oprouey  que  ia  fiz  lan- 
ço q  passaua  de  xvi.  lanças,  q  decendome,  e  corria 
de  pee,  e  daquelle  lugar  desuestido  em  giba  com  a- 
quella  medes  liíça  pouco  mais  pude  chegar  q  a  onze 
Ê  aqueste  exêpro  ponho  aquy  por  cada  huii  conhecer 
se  acerta  bem  esta  manha,  ueendo  aauãtagem  q  faz 
sobre  seu  lanço  de  cauallo ,  quando  alança  de  pee  E 
esso  nieesmo  tomarê  auysamento  quando  quiserê  lan- 
çar desseguardarem  quanto  bem  poderem  de  todollos 
contrairos  das  auãtageês  suso  scriptas  q  se  deuê  filhar 
pêra  se  fazer  grandes  laços  E  por  que  o  anteparar  do 
cauallo  ao  têpo  do  lançar  faz  grande  estorua  pêra  o- 
desto  muy  to  guardar,  quando  sayr  per  acarreira,  ãte 
q  lance  nom  lhe  de  muyto  das  sporas,  mes  leixeo  cor- 
rer oque  el  de  seu  quiser,  e  huu  pouco  ante  q  lace 
de  nouo  lhe  de  ryjo  cõ  as  sporas,  e  como  no  yr  se  a- 
uyuar,  logo  lãce  ornais  sem  deteêça  q  poder.  E  pêra 
remessa  certo  deuesse  conssijrar  seo  lanço  he  de  preto 
ou  de  lõge,  se  de  lõge  ajudarsse  dessua  braçaria  e  ti- 


DE   BEM   CAUALGAR   TODA    SELA.  97 

rarlhe  adiãte  quanto  por  osmo  entender  q  oueado  po- 
derá  andar  ante  q  alaça  chegue,   e  aqueste  Janço  tal 
acertasse  deuentuira  Esse  de  preto  for  nô  se  deue  re- 
messar  de  dereito  por  que  he  perijgoso,  e  nõ  tani  cer- 
to,  mas  leixalla  acada  hnã  das  maãos  como  teuer  gei- 
to  e  aazo  se  der.  Eafemêçalla  uista  aa  espadoa  do  uea- 
do ,  e  aliy  lhe  tirar  remessãdo  de  cima  e  folgado  como 
se  jugasse   o   dardo ,  nõ  fazendo  tãto  conta  de  querer 
dar  grande  lançada  como  do  acertar,   por  q  se  alança 
uay  feita  damaão ,  ajda  do  cauallo  lhe  faz  as  mais  das 
uezes  dar  assaz  grande  feryda.  Esse  de  quedo  arremes- 
sar como   muytas   uezes  acontece  aos   mõteiros  e  for 
razoadamête   chegado   aaquella   maneira   deue  teer  de 
arremessar  de  cima  e  folgado  comesse  jugasse  dardo, 
o  qual  jogo  achey  muyto  boo  pêra  se  home  auezar  ar- 
remessar  certo  de   pee   e  de   cauallo  Epera  remessar 
seguro  duas  cousas  sollamête  se  híl  deguardar  Prymei- 
ramête   que  nuca  lace  adereito  dessy.    Segunda  q  cus- 
tume  tíTto  q  alãça  sayr  damaão  uoltar  ocauallo  aaparte 
contrairá   donde  alàçar    Eperao    fazer  fremoso  se  hani 
de    regiiardar   três   cousas    Primeira  que   aia   cauallo  , 
sella ,   lio,   e   lança   perteecente  Segunda  que  elle  dos 
ppes   e   das  pernas ,   e  do  corpo  todo  uaa  bê  quedo  a- 
guysa  de  caualgador  Edo  braço  principalmête  faça  sua 
braçaria   e   se  nom  desassessegue  da  sella  quando  lan- 
çar Terceira  q  guardando  os  auysamêtos  suso  scriptos, 
delãça  bê  feita  faça  grande  laço  As  laças  pesadas  que- 
rem  soltar  aespadoa  e  obraço  todo ,   e  as  leues  canas 
obraço  por  omeo  principalmête   Eposto  q  arremessan- 
do  muytos   hussos  ,    porcos,   ceruos   de   cauallo  feri  e 
outros   por  uezes  erraua  por  desuairo  dabesta ,   sella, 
uêto,   terra  por  q  corria,   secura,  ou  frihura  damaão, 
epacho  do   braço,   pesume   e  máo  geito  da  laça,   tri- 
gança  da  uoontade,  porê  nom  aiam  por  estranho  quan- 
do errarê  pois  pode  por  tàtas  partes ,  e  outros  acõteci- 
mentos  seer  estornados.  E  desta  manha  posto  que  pou- 
co se  aproueitê  os  q  trazem  os  braços  armados  nõ  em- 

13 


95  ENSSYNANÇA 

peece  de  se  husar  e  saber  por  f;,iie  algiiã  ora  pode  a- 
proueitar,  e  ia  muylas  uezes  prestou,  e  faz  boa  soltu- 
ra em  niõte  e  jogo  das  canas,  e  outras  cousas  q  aca- 
«alio  e  apee  custuinam  de  fazer  os  boos  homeens. 

Capitullo  XIIII. 
da  maneira  do  ferir  despada. 

J^obre  os  auysamêtos  pêra  bem  ferir  despada  amym 
parece  q  razoadamête  acauallo  se  pode  ferir  por  qua- 
tro maneiras  Primeira  de  talho  trauesso  Segunda  de 
reues  Terceira  fendente  decima  pêra  fundo  Quarta  de 
pòta  E  aprimeira  e  assegunda  me  parecem  melhores 
pêra  feryr  qual  quer  home  acauallo  q  ande  debesta  E 
pêra  dar  grande  golpe  de  talho  deue  ferir  da  uijnda  do 
cauallo  e  do  corpo,  e  da  soltura  do  braço  todo  junta- 
mête  Equesto  achei  ê  torneo  muyto  aprouado ,  ca  se 
eu  feria  stando  do  braço  sollamête  daua  assaz  peque- 
no golpe  Esse  em  uijndo  ocauallo  da  soltura  do  corpo 
do  braço  juntamête  ogolpe  era  mayor  em  grande  a- 
"uãtagem  Eaqueste  he  huii  auysamêto  pêra  quem  em 
torneo  quiser  fazer  fremosos  golpes  q  poucas  uezes  fei- 
ra seno  da  uijnda  íirmandosse  sobre  as  pernas,  solte 
bê  ocorpo  eobraço  com  aespada  bê  apertada  na  maão 
faça  seu  golpe  nõ  todo  trauesso  nê  de  cima  pêra  bai- 
xo,  mes  êuyees  pêra  fundo.  Epera  esto  cõpre  no  fazer 
uoltas  curtas  em  grande  torneo,  nê  teer  teêçom  em 
huíi  saluo  seo  filhar  detal  auãtagem  detrás  ou  dilharga 
por  q  lhe  praza  mostrar  agrando  melhoria  q  na  quelle 
tê  Mas  se  andar  sobre  ualête  cauallo,  e  q  seia  prestes 
aas  sporas ,  e  de  rostro  seguro  e  bem  aderençado  ,  ao 
primeiro  topo  filhe  cada  huã  das  põtas  ,  e  uaa  bê  atê- 
tado  por  se  guardar  de  cayr  sem  proueito  como  amuy** 
tos  em  tal  têpo  acontece  E  passando  aprimeira  uijnda 
feira  sêpre  em  lugar  assijnado,  e  como  der  ahufi ,  logo 
uaa  aoutro,  sem  curar  de  fazer  uolta  ataa  q  nom  pas- 
se todo  ocSpo ,  requerindo  os  lugares  das  princypaaes 


DE  BEM  CAUALCAR  TODA  SELA.  99 

iaslas  ,   e   onde   uyr  q    alg^uus   dos  seus  s(a  em  pressa 
ceTcados  doutros,  ferindo  ryjo  antrelles  spalhandoos  da 
iiijncia   do    cauallo    logo   passe  e  uaa  ferir  em  outro    E 
de  lai  maneira  se  requerem  estas  ananlagêes.  Primeira 
q  he  mais  uisto  por  q  el  acada  parte  requere.  Segun- 
da q  da  seus  golpes  njayores,  por  q  fere  em  quem  lhe 
praz    muytos   achara   bõ  despostos   peraos   ferir  aassa 
uoontade   sê  alguíi  èbargo    Terceira  q  ande  elie  e  seu 
cauallo    folgailamèle   por  q   onõ   deue   aficar   ê   correr 
nem    uoltar ,   mas   agaloj)e   trazer    geeralmête   quando 
quiser  fazer  alguà  certa  chegada  E  por  q  os  golpes  da 
despaço  obraço  nom  cauça,  e  desto  passara  oconlrairo 
o   q    com    alguu  soo  tornea  por  q  se  das  ydas  e  uoltas 
do   cauallo  se   fere,   cõuem  q  por  cada  huu  gãaçar  ho 
outro   de   sua    melhoria   q   em    todo  sy  e  seus  cauallos 
trabalhe    muyto,   e   starido    quedos   se    fere   os   braços 
cans.^   logo,    eapequeno   spaço   os  gol|>es  parecem  aos 
que  os  ueê  assaz  bem  fracos  Eporê  segundo  achey  per 
speriêcia  amaneira  suso  scripta  deue  trazer  qnem  qui- 
ser em  torneo  auer  as  auãtagêes  suso  deuÍ!?a(las  Epera 
ferir   de   reues   dassollura    do  braço  sollamête  se  deue 
fazer,  e  em  pelleia  quando  cõprir.   Decima  pêra  baixo 
aoiifro    de    cauallo,    poucas   uezes  se  pode  dar  grande 
golpe,  mes  ahomeês  de  pee  ou  alymarias  quem  as  as- 
sy  ferir  nom  deue  nada  tirar  pella  spada  por  q  cortara 
menos,   e   li^eiramète   ferira   em  seu  pee,   ou  seu  ca- 
nallo,    IDOS   com  ocorpo  carregue  todo  seu  golpe  pêra 
fundo,   apertado   bem   a  espada  na  mãao ,   e  assy  dará 
muyto    ma\or   ferida   achando  igual  desposiçõ  despada 
e   cousa   sobre   q    feira.    Epor  q  segundo  disse  husãça 
e  principal  fundamêto  de  aprêder  todallas  manhas  des- 
que   sõ    aprendidas    nõ  uijrê  em  squeecimêto,   porê  os 
q   desejarò  auer  esta,   huse  todauya  cortar  despada  de 
cauallo  ,  e  de  pee  trazendoa  boa  ,  por  q  recebera  delia 
tal    auâlagê   q   lhe  acrecêtara  desejo  deo  fazerem  mais 
uezes  o  custume  lhe  clara  uaíage  na  manha    Ecôsselho 
aquém   pêra  esto  quiser  teer  boo  braço,  e  pêra  laçar 

13  * 


100  ENSSYNANÇA 

jãça   q   nom  huse  jogo  de  peella  ê  logar  largo,   nê  la- 
çar  cousa   imiyto   leue   ou    pesada,   ca  ligeirarcête  se 
perde   cõ   estas   manhas  de  pouco  proueilo.  Oferjr  de 
põta   quer  amaneira  suso   scripta  ,    da   laça   de   sobro 
maão   feryndo   do  braço,   carregar  cõ  ocorpo ,   e  pode 
ferir  alguá  ueaçom  de  logo  adereito  de  sy ,   e  pêra  fo- 
ra por  nom  fazer  auoUa  ãtre  orrostro  do  cauallo  quan- 
do se  sètir  ferido  E  o  mais  seguro  he  ferilla  cõ  aponta 
pêra  fora  ê  traues.  Essobre  estas  manhas  eu  screuy  as- 
sy  côpridainête  polias  razoões  suso  scriptas  do  prouei- 
lo q  a  alguíís  dello  se  pode  seguyr,   e  parecendome  q 
som   grande  fundamêto  pêra  q   os  boos   caualgadores 
mostrem  sua  soltura.  E  por  q  ahusãça  das  terras  e  dos 
têpos   muda  as  manhas  e  os  custumes ,   poderá  seer  q 
a  alguií  parecera  o  contrairo  desto  q  screuo,  porê  sai- 
bhã   queo  screuy  segundo  mynha  speriêcia,   aqual  cõ- 
corda   cõ  amais  geeral  boa  pratica  que  ao  presente  se 
husâ   em   estes    Reynos   delrrey   meu   penhor  e   padre 
cuia  alma  deos  aia    E  aquesto  nõ  digo  por  meu  gabo, 
ajnda  q  destas  pequenas  manhas  home  possa  dizer  sem 
êpacho   oque  cõ  uerdade  sêtir,   mes  eu  ofaço  por  dar 
autoridade  de  mynha  leitura,  conhecendo  os  que  esto 
leerê   que   nõ  screuo   do   q    ouuy  mes  da  quello  q  per 
grande  custume  tenho  aprendido  Econsselho  mais  huii 
auysamêto   aos  senhores  pêra  mostramêto  desta  soltu- 
ra  e   proueito   que  se  lhe  dello  pode  seguyr  q  se  ue- 
zem   alguãs   uezes  a  caualgar  do  chãao  sê  nê  huã  auã- 
tagê  sobre  suas  sellas,  nõ  lhe  têedo  outrê  ocauallo  por 
as  rédeas,   ne  por  cada  huã  das  strebeiras,  em  aques- 
to se   custume  assy  de  maão  dereita  como  da  ezquer- 
da,   e   alguãs  uezes  trazendo  alãça  na  maão,   e  outras 
aues   pêra  caçar  sobre  opee  dereito  E  ajnda  armados 
assy  odeuyâ  defazer,  e  pareceme  boo  custume  de  ca- 
ualgar de  huã  besta  em  outra  acadahuã  das  maãos,  e 
fazsse  mylhor  da  pequena  peraa  mayor,   ou  se  forem 
iguaaes  poorê  da   parte  decima  aquella  q  ouuerê  de 
caualgar,  ou  se  apegar  sobre  alguíi  de  pee  q  esteuer 


DE  BEM   CAUALGAR   TODA    SELA.  101 

ê  meyo  delias  Ca  srriplo  l»e  no  Jiiiro  do  regymeto  dos 
principrs  q  os  caualleiros  romaàos  quai.do  cessaua  de 
suas   guerras    tijulia  caiiallos  de  madeira  postos  è  suas 
casas  os  quaaes  sellauíi,  e  se  uezaua  armados  a  caual- 
gar  de   liuá  parte  e  daoutra  ,   conhecendo  quanto  esta 
manha   he   proueitosa    E  tam  bem   se  deuem  de  uezar 
saltar  sobre  assella  assy  uestidos  como  andarê,  se  muy- 
to   peiados  nom  foro  ajnda  q  ocauallo  seia  grande ,   ca 
seo  ouuereni  por  custume.  se  de  naçõ  nom  Ibrem  pe- 
sados  ofarâ   razoadamõte    E  desto  per  myni  acho  spe- 
riecia  q  hufi  iõpo  em  queo  assy  husaua,  no  achaua  ca- 
«allo   lâ   alto  q  bê  despachadamête  no  saltasse  ê  cima 
ajnda  q  urstido  fosse  E  despois  queo  no  quys  acustu- 
mar  achey  dello  grande  fallicimêto   Eporê  os  senhores 
nõ  filhe  êbargo  por  seus  stados  de  auerê  este  custume 
por  q  ajnda  q  nas  praças  leixê  teer  as  rédeas,  e  estre- 
beiras  e  faldrarsse,  ê  motes  e  caças,  e  per  camynhos, 
tornêsse  a   esta  husaça ,  e   sõ  certo  q  acharõ  em  ello 
muy  grande  auãtagê  E  uy  desto  boo  enxêpro  per  elr- 
rey  meu  senhor  a  que  deos  outorgue  gloria  ,   q  por  a- 
auer  em   tèpo   de  sua  mancebia  custumado  seêdo  sua 
ydade  q  passaua  de  lxx  anos  do  chaão  sê  outra  auãta- 
gem  caualgaua  ê  besta  de  razoada  altura  assy  desêbar- 
gadamête   q   poucos  homeês  de  grande  stado  ê  ydade 
de  cíquoêta  opoderia  assy  fazer  E  por  oque  dei  e  dou- 
tros  uy  em   bê  e  de  contrairo  e  per  mym  sêto  aespe- 
riêcia  detal   custume,  segudo  screuy  no  q  aassultura 
perteece  este  consselho,  o  qual  entendo  q  acharõ  pêra 
esto  proueitoso  aquelles  queo  assy  quiserê  custumar. 

Capitullo  Xr. 
do  louuor  das  manhas. 

JL^estas  manhas  suso  scriptas  que  acauallo  se  custu- 
mã  fazer,  screuy  assy  largamête  por  algufí  custume  e 
grande  afeiçõ  que  delias  ouue.  Eesso  medes  das  ma- 
nhas outras  de  força,  Jigeirice,  e  braçaria  que  os  ca- 


]02  ENSSYNANÇA 

ualleiros   e   sendeiros   ein  esta  terra  muylo  aúãteiada- 
luete  sabiam  ,  e  htisauâ  tlefazer ,  de  que  agora  os  ueio 
jnynguadcis  q  miiyto  me  despraz,   nô  prestando  diclos 
nê   cõssellios   cõ  algua  parte  densvriãca,   e  auisametos 
q  lhe  sobrello  por  mym  som  mostrados  E  outras  uezes 
Gostrangidos   per   mandado   q   as  prouè ,   fazênas  detal 
maneira   q  am}m  he  pouca  folgança,   arrespeito  das  q 
ia  e  mYnha  casa  uy  fazer,  todo  esto  etendo  q  lhes  uê 
per  myngua  de  uõotade  q  delias  ha,  por  q  lato  custu- 
iiiarõ  afalla  das  moiheres ,  e  poserô  todas  suas  têçoões 
cõ  gram  deseio  ê  se   trabalharem  debê  trazer,   cal(^ar, 
jugar   apeella ,   cã  tare,    e   dãçarê    por   lhes   seguirê  as 
uootades   q  mostram  principalmête  destas  manhas  que 
de  todas  outras  leixarõ  amayor  parte  E  por  q  seu  prin- 
cipal fundamêto  he  afeiçõ  da  uoontade,   fallecendo  el- 
la ,    nõ   as  sabe,   nõ  qiierê  aprêder.    Eás  sabidas  torna 
cedo   ê   esqueci  meto    Ebe    pêsso   q    esto    sõ   uollas  do 
mundo   q   anda   dando   estatí   manhas    em  cada  trrra  e 
Reynos   per   têpos   desuairados   aquém    lhe   praz  cujos 
fundamêtos   no   sõ    ligeiros  de  saber,    mais  em  mynha 
casa  uy.    Em  quanto  per  mym  erõ  husadas  todallas  a- 
gora  estes  segue ,  e  ta  bê  as  q  desêparõ  os  q  de  gran- 
de  stado   erõ,   e   amym   chegados  semelhãle  faziõ ,   e 
delles  era  pellos  outros  filhado  exõj)ro.   E  coino  eu  fuy 
cessando    por   grandes  ocupaçooês  deas  cuslumar  assy 
fezerõ   os   mayores    E   esso   medes   os  mais  somenos  q 
aos  principaaes  da  casa  sêpre  segue.  Coi  ssijrando  yda- 
tles,  ofícios,  e  amaneira  de  uyuer  por  q  os  caualieiros 
e   sendeiros   mãcebos   alguíís  tee  em  ca^a  dos  graisdes 
senhores  por  principaaes  ê  se  trazerê  e  fazellas  outras 
manhas    Eas   q  som  per  estes  louuadas  ,   e  praticadas, 
os  mais  de  todos  as  segue    Esse  estes  nõ  as  começa  e 
delias  nom  querem  husar,    nõ  spere  q  gete  meuda  am 
delias  tal   pratica   q  muyto  ualha.    Mas  do  exepro  dos 
feenhores  e   dos  principaaes  como  dicto  he ,   toda  casa 
t3U  reyno  filha  grande  exepro  ê  semelhate  Eesso  metles 
êiM)  seguymêlo  das  uirludee  de  q  ueio  ao  presêíemer- 


DE   EKM   CAUALGAR  TODA   SKLA.  103 

cePS  adeos  boa  speriecia,  q  por  aniujta  bondade  e  uir- 
tude  q  seiDpre  u}  rò  êno  muy  uiturioso  g  de  grandes 
uirtiid('S  elrrey  meu  senhor  e  padre,  e  na  ninvlo  uir- 
tuosa  Kaynlia  mynlia  senliora,  e  madre,  os  principaaes 
de  sua  casa,  e  todollos  outros  do  reyno  per  graça  que- 
Ihe  foy  outorgada  fo/erõ  gram  n;eihoramèto  ein  leixa- 
rem  maaos  cubtunies,  e  acrecètarem  em  uirtudes.  E~ 
assy  como  do  mjnguamêto  das  boas  manhas  do  corpo 
os  côtradigo,  assy  da  hiisaça  das  uirtudes  e  leixamen- 
to  de  malles  e  royndades  èteiido  adeos  graças  que  ao 
presète  aõ  dignos  de  seerem  louuados,  mais  apratica 
das  uirtudes  nam  deue  tolher  ahusãça  das  boas  ma- 
nhas do  corpo  q  sepre  por  os  senhores  e  grandes  foro 
prezadas  e  louuadas ,  segúdo  se  bê  pode  ueer  per  oli- 
uro  de  uegecio  remilitari ,  e  per  alguús  outros  liuros 
destorias  e  èssynaças  defeito  de  guerra  por  q  ajuda 
que  serã  boas  aquellas  de  q  ao  presête  querem  husar, 
pois  nosso  stado  he  dos  defensores,  as  que  per  tal  mes- 
ter depelleia  mais  cõuê,  som  as  principaaes  q  deuemos 
aaprender  e  auer.  Eporê  dou  consselho  aos  senhores  e 
aoutra  gête  mãceba  aq  estas  manhas  côuenhà  q  côssij- 
rê  q  seus  corpos  sõ  assy  como  suas  herdades  as  quaaes 
seno  forem  bê  aproueitadas,  e  lauradas  darom  de  sua 
natureza  spinhos,  e  cardos,  e  outras  eruas  de  pouco 
iiallor  E  cô  trabalho,  e  rõpimêto  e  aproueitamêto  dei- 
las  da  taaes  fruitos  de  q  principajmête  ê  esta  uyda  a- 
uemos  nossa  gouernàça  E  nossos  corpos  se  ê  têpo  de 
mocidade  mãcebia  sô  leixados  ê  ouciosidade,  nõ  se 
despoendo  aboas  sciêcias ,  ou  boas  manhas  corporaaes 
ou  mesteres,  segundo  acadahuíis  pertêece ,  sô  torna- 
dos assy  sem  proueito  q  merecia  de  seer  dados  de  ses- 
maria aoutros,  q  como  seruos  os  fezessem  seruvr  e  fa- 
zer alguã  cousa  proueitosa,  segundo  seus  stados,  e 
desposiçô,  por  no  comerem  os  màtijmêtos  debalde  q 
por  boos  trabalhadores  sô  auydos  aproueitados  e  go- 
uernados.  E  pêra  tirar  tal  erro,  os  moços  de  boa  ly- 
nhagem  e  criados  ê  tal  casa  q  se  possa  fazer,   deuê 


J04  EiVSSYXANÇA 

sper  êssynados  logo  decomeço  a  leer,  e  aescreuer  e 
fallar  latyni.  Côtjnuãdo  boos  Jiuros  peia  lat}in  e  Jí- 
guagê  de  boo  êcamynhameto  per  uyda  uirluosa  Ca 
posto  c|  diga  semelhãte  leitura  nõ  muyto  cõuijr  aho- 
n)eês  delal  stado ,  mynha  têeçom  he  q  pois  todas  al- 
mas uerdadeiramête  somos  obrigados  creer  q  auemos 
muyto  principalmête  nos  cõuê  trabalhar  cõ  amercee 
do  senhor  por  saluaçõ  delias  oque  mu}to  se  faz  cô  sa 
graça  por  oestudo  de  boos  liuros  e  boa  cõuerssacõ 
Esso  medes  os  liuros  da  moral  fillosaíia  q  sô  de  muytas 
maneiras  pêra  darê  enssynâça  de  boos  costumes,  e  se- 
guymêto  das  uirtudes,  deuê  seer  uistos  e  êssynados,  e 
bem  praticadas  todallas  cousas  a  ella  perteecêtes  Eos 
da  êssynãça  da  guerra  com  as  cronycas  aprouadas  he 
muyto  perteecente  leitura  pêra  os  senhores,  e  caual- 
leiros,  e  seus  filhos  de  q  se  tira  grandes  e  boos  exê- 
prós,  e  sabedorias  q  muyto  presta  cõ  agraça  do  se- 
nhor aos  têpos  da  necessydade  Todas  boas  manhas  do 
corpo  q  perteecem  a  cadahuú  segundo  aquel  stado  que 
teuer,  niica  deuê  seer  leixadas  specialmête  caualgar  e 
luytar  q  sô  fundamêto  de  q  se  percalço  as  mays  das 
outras,  ca  do  bê  caualgar  uê  grande  ajuda  pêra  todal- 
las  q  decauallo  se  fazê  E  o  lujtar  faz.  perder  orreceo 
aas  q  depee  se  custumã.  E  muyto  se  percalça  per  ella 
força  de  todo  corpo  em  geeral  e  boa  leua  q  peraos 
feitos  da  guerra  todas  boas  manhas  da  grande  ajuda. 
Esse  da  mocidade  nô  forê  bê  husadas  e  êssynadas  de- 
uentura  na  mayor  ydade  se  poderõ  razoadamête  percal- 
çar  Eos  fidalgos  q  bem  sabe  e  husâ  estas  manhas  ê 
casa  dos  senhores  fazê  agête  delia  mais  leda  fora  dê- 
fadamêto,  demayor  fama,  e  mais  temyda  auendo  as 
outras  uirtudes  e  bondades  ê  aquella  razoada  maneira 
q  couê  E  por  os  senhores  deuê  por  ellas  seer  mais 
prezados,  e  recebere  delles  mercee  mais  queos  outros 
seus  yguaaes  q  cousa  special  nõ  fazê  de  seu  seruyço, 
nê  manha  prouã  por  q  delles  se  tenha  boa  presunçom  , 
ou  façom  hõrra  aa  casa  de  seu  senhor  oque  folgãça  a 


DE    BEM    CAUALGAR    TODA    SELA.  105 

boo  passameto  de  lepo  de  seus  seru} dores,   e  doutros 
q  aella  uehere ,  como  fazê  os  que  as  bê  hu«ã. 

CapiluUo  XFL 
dos  erros  da  luyta  breuemete  scriptos, 

Jl  ollas  razooês  adiíite  declaradas,  mandey  screuer  so- 
marianiête  estes  erros  da  luita,  os  quaaes  se  alguu  be 
os  quiser  saber,   pregunte  aalguu   boo  meestre  desta 
manha  que  lhos  êssyne.  Ca  mais  sõ  scriptos  por  renê- 
brãça  q  per  tal  scripto  os  poderê  aprender  Estes  som 
os  que  geeralmête  husey  e  uy  praticar  aos  boos  luyta- 
dores   no    todos   ahuu.   mas  como  ê  special  auyã  mais 
custume   e   melhor  geito.    Atrauessa  encãbada  se  laça 
por  dous  lugares,  huã  pello  braço,  e  outra  por  trás  o- 
pescoço   metendo   acabeça   per  soobraço  A  outra  tra- 
uessa  se  laça  p  r  cinquo  guisas,   huã  pello  braço,   ou- 
tra desêparada,   euyaiidosse  de  sospeita,  e  logo  alãçar 
pello  pescoço,   outra  laçando  pello  pescoço  aalça  per- 
na ,   ou  acãbadeila  ,  e  tornar  dcssospei(a  aatrauessa   E 
outra  trauessa  auessa  filhando  per  huii  braço,  e  tornar 
alãçar  sobre  oc)utro  per  («utra  maneira  quandolhe  laço 
obraço   no    pescoço,   filhallo    braço   assy  dessospeita  e 
lãçalla.  liem  aak;a  perna  se  laça  dessoobraço,   e  pello 
pescoço  e  pello  braço  Item  a  cãbadella  se  laça  per  es- 
tes  lugares   todos   três   e   teê   deferêça   ^   aalça  perna 
derriba    pêra  diãte  e  acãbadeila  pêra  trás.    E  tã  bê  se 
laça  acãbadeila  pêra  trallo  pescoço  como  atrauessa  en- 
cãbada. Item  assacallynha  se  laça  per  três  guisas,   de 
calcanhar,   de    bico,   e   auessa  Item  o  desuyo  dereito 
de  seis  maneiras,   huã  dos  braços  no  acollando,  outra 
acoUãdo,   e   leuãfar   por   alto,   e   entõ  laçar  odesuyo, 
putra  tam  bê  acollando,  e  desuyallo  ahuã  parte,  e  tor- 
narlho  alãçar  aoutra,   e  desuyo  docorpo  e  outro  pello 
pescoço  Desuyo  auesso  de  três  maneiras,  huã  arca  por 
arca,  a  collando  e  assy  olãçar,  outra  dos  braços  e  dos 
pees  sollamête  sê  acollar  e  outro  do  pescoço.  Item  ol- 

14 


]06  ENSSYNANÇA 

lobo  q  alguiis  láçoni  ê  pco  ,  e  outros  com  ogyollío  no 
cliaão,  e  sêpre  se  lança  ))cllo  braço-  item  oquadril  se 
laça  polia  arca,  e  aas  uezes  pello  braço,  e  outras  ue- 
zes  auesso  aamaneira  detrauessa  auessa.  Item  aperssay- 
da  se  laça  filhando  cada  huíí  dos  braços  por  de  fora,  e 
assy  laçar  aaquella  parte  na  quella  perna  ensseafastan- 
do  pêra  atras.  Item  omamyllo  oqual  se  laça  filhando 
pello  pescoço  dhiiíi  cabo,  e  laçarsse  cô  opee  da  outra 
parte  aamaneira  de  desuyo  mais  derriba  cõlra  trás  I- 
tem  oerro  q  chama  do  cã,  se  filha  arca  por  arca,  e 
lança  o  pee  aalê  decadahuã  das  pernas,  e  derriba  pê- 
ra trás,  fazêdo  força  do  apertar  dos  braços,  e  carre- 
gar do  corpo  Item  otanascõ  se  laça  dado  cõ  obraço  ao 
traues  no  pescoço,  e  laçando  opee  contra  aoutra  par- 
te Item  obico  poõe  opee  no  artelho  em  cada  huã  das 
pernas,  e  bota  com  ocorpo  e  assy  uay  andando  ê  huíi 
pee  atee  q  oderriba  Item  ofilhar  das  arcas  se  faz  per 
duas  guysas  ,  huã  mostrando  dessospeita  q  oquer  filhar 
pello  pescoço  e  quando  leuãta  os  braços ,  filhallo  per 
elles,  outra  entrar  arca  por  arca  e  bãzeallo ,  e  meter 
ho  outro  braço  na  outra  arca,  no  leixando  a  q  ia  tê. 
Item  as  traseyras  se  filha  per  três  maneiras,  huã  filhan- 
do amaão ,  e  banzealo  e  saltar  atras,  outra  acollar  a- 
cadahuu  dos  braços,  e  baixando  desuyallo  cõ  ocorpo  e 
saltar  atras,  nõ  desuparando  aquelle  braço,  e  aoutra  e 
queredo  alguu  filhar  pel/o  pescoço  ,  scorregando  as 
traseiras  As  maneiras  de  derribar  pêra  de  trás  geeral- 
mente  sã  per  três  guysas.  Primeira  aleuãtar  nos  bra- 
ços,  e  derribar  a  cadahuã  das  parles.  Segunda  andar 
aorredor  atee  queo  desatête,  e  do  soltar  dos  braços 
ou  desuyo  dos  pees  oderribar.  Terceira  laçar  opee  aalê 
da  perna  do  outro  aamaneira  do  erro  do  cã,  e  derribar 
pêra  diãte.  Item  pêra  derribar  pellas  arcas,  aleuãtar, 
e  derribar  a  cadahuã  das  partes  ou  laçar  o  erro  do  c3 
dhuu  pee,  e  se  da  quelle  nõ  poder,  leuar  logo  do  ou- 
tro. Item  o  pescoço  quandosse  filha  se  faz  leixar  per 
banzear  dos  òbros,  e  atrauessar  amaão  ou  braço  nar 


DI-:   RF.M   CAUALGAU   TODA   SELA.  107 

c;argríla   tio   outro,   e   lãc^arlhe  atrauessa  dessospeita  e 
tilbandolhe   àbollos   braços.    ílcm    he   boo   erro   pouco 
custuniado ,   quando  filham   algufi   cõ  liuu  braço  pello 
pescoço  aperlandoo  se  el  se  baixar,  como  custumíi  os 
de   mais,   ffizer  saltar   pêra   fora,   e   teêdoo  ryjo  pello 
pescoço  carregar  ocorpo  sobrelle,  e  fazelloa  uijr  aterra 
degiolhos     I(em  ,    por    quanto    muytos  fora   da   terra 
quando    luiiam   uislidos   teê   maneira   de   trauar  pella 
roupa   apar  dos   Obros ,   e   epachar  ãbollos  braços,  he 
mu3^to  boo  geito  pêra  esto  dar  noita  coo  braço  per  ci- 
nja do  seu,  desuyaiido  ocorpo  dilharga,  e  carregando 
subreile ,   tornando   afilhar  per  aarca ,   de   soo  aquelle 
braço,   ou   se  lhe  quiser  fazer  alguu  iogo  perijgoso  de 
grande   auâtagê ,    uolte   obraço  como  dito  he  do  coto- 
iiello   cõtra  amaão  do  outro  ,  e  filhe  per  de  fundo  cõ 
aoutra  niaao  assua  medes,  ou  obraço,  e  desuyando  o- 
corpo  carregue  cõ  ocotouello ,   e  todo  osseu  braço  so- 
bre  amaão  do   outro,   e  per  força  lhe  fará  receber  tal 
door,    e   padecin5êto   que   poucos  se  poderá  teer  q  no 
uenhã  degiolhos   ao   chaào ,  njas   cô  tal  erro  lhe  pode 
quebrar  obraço,   ou  lançar  amaào  fora  de  seu  logar  se 
muyto  ryjo   no   for  ou    bê  aiiysado  Eporê  antre  luyta 
damygos  nõ  se  deue  custumar  Nem  tenha  alguns  q  nõ 
he   manha   pêra  husar  grandes  senhores,   por  que  bem 
meu  senhor  elrrey  cuja  alma  deos  aia  husou  delia  muj- 
to    bê,   e  os  príncipes,   capitaaês  e  boos  homeês  dar- 
mas  q  eram  foram  neella  tam  auãíejados,   que  poucos 
seus  iguaaes   se   poderiam    achar  de   qual  quer  stado. 
Eos   de   mjnha  corte  quando  eu  delia  me  prezaua  e  a- 
husaua  .   eram  ta  boos  luytadores  q  nõ  pensaua  q  seus 
jguaaes  em  casa  dalguú  príncipe  se  achassem.  Eposto 
que   agora   assy  nõ  se  huse  eu  tenho  por  grande  fally- 
iriêto   q   bem  me  prazeria  ueer  tornado  aquel  boo  sta- 
do,   mas   pareceme   ao  que  sente  por  certos  embargos 
conhecidos   e  outras  nom  boas  despoíiiçooês  q  nom  se 
pode   assy   fazer,    mas   praza   anosso  senhor,   porque 
cousa  noua  nom  he  so  ho  ceeo,  e  torqã  asseer  aquellas 

14  * 


los  ENSSYNANÇA 

fí   ia  forii,   que  ajnda  em  meu  lêpo  fara  esto  correger 
como  ia  foe   quaudo   em   estes  reynos  se  bem  husaua 
Aalem   destes  som   outros  speciaaes  erros  que  alguíís 
filha   per  que  muyto  custumam  de  derribar,   cada  huii 
tem  seus  atalhos ,   êpachamêto ,  sobre  saltar,   e  desfa- 
zer  Eperaos   atalhos   alguâ  maneira  da  terceira,  oque 
todo  per  uõotade  dauer  bem  esta  manha  e  grande  cus- 
tume  se  deprende,  mas  esto  screuy  por  auerê  aazo  de 
pregutar  por  cadahuú  delles,  e  poderê  alguíís  aprender 
mais  cedo  e  mylhor  que  seos  no  uissem  assy  postos  em 
scripto.    E   mandeyos   poer  cm  scripto  capitullo  deste 
]iuro   de   caualgar ,  q   falia  dêssynameto  destas  outras 
manhas   q   se  fazê  acauallo ,   posto  que  muyto  no  con- 
corde  pêra  seer  scripto  em  tal  liuro,    mas  eu  ofiz  por 
grande  afeiçom  e  boa  husã<^a  q  desta  manha  ouue    A- 
qual  ueio  tam  esqueecida  antre  agente  destado ,  e  de- 
boa  linhagem   que   muyto   duuydo   uijr  em  grande  es- 
queecimêto    Eporê  ueendo  esto  que  aquy  screuo  lem- 
brêsse   que  esta  manha  he  huã  das   principaaes  q  os 
boos  homees  ham  dauer.  Eq  os  caualleiros  e  toda  ou- 
tra  gête   geeral   em   estes   reynos  mais  auãtejadamête 
ouuerõ.    Ca   ella  lhes  faz  estas  auatageês  q  pêra  feito 
de  guerra  mujto  uallem.  Primeira  grande  acrecetamê- 
to   em  boa  leua  q  pêra  todo  trabalho  faz  grande  auan- 
tagem   Segunda  grande  melhoria  de  força  em  maãos, 
braços,  pernas,  e  todo  outro  corpo.  Terceira,  soltura, 
seguraça,   e   atreuymêto  pêra    uijr  abraços  com  qual 
quer  home,  ajnda  que  mais  ryjo  que  elle  seia  Quarta 
grande  meestria  ,  de  saber  filhar  das  maãos  e  êparar  e 
soportar  segundo  for  aquel  com  q  abraços  ueher.  Quyn- 
ta,   sabedoria   delaçar   erros  dos  pees  e  do  corpo  e  os 
atalhar,  empachar,  desfazer,  e  sobre  saltar,  segunda 
cadahuu  erro  quer.  seendo  muy  prestes  de  sospeita  ao 
têpo  que  comprir,  ca  boo  saber  e  grande  custume  to- 
do ocorpo  sabe   oque  ha  defazer  em  cada  têpo  de  tal 
mester.    Sexta,  do   boo  saber,  e  husííça  desta  manha 
se  perde  muyto  apreguyça,   êpacho  pêra  prouar  e  sa- 


DE   DEM   CAUALGAR   TODA    SELA.  109 

ber  muytas  outras  pello  corpo  q  se  faz  pêra  ello  mais 
desposto ,   e   as   outras   seerem   de  menos  trabalho,  e 
mays   se    perigoo   do  q  esta  he.  Seitema ,   seerem  por 
ello  mais  preçados  de  seus  senhores  e  amygos ,  e  mais 
conhecidos  dos  stranhos,  e  de  seus  contrairos  mais  re- 
ceados, segurido  que  naturalmête  das  outras  boas  des- 
posiçoões  e  auâtagèes  cadahuil  teuer.  E  por  todo  esto 
q   alguu   em  sy  conhece  lhe  faz  boa  melhoria  em  seus 
coracoôes  sobre  aquello  q  naturalmête  ha.  Eteêsse  por 
ello  em   melhor  conta  com  boo  contêtamêto,   quando 
em   esta  manha  syntê   que   som  auãtejados,   segundo 
aquel  saber  stado,  e  desposiçõ  que  cadahuíi  he,  porem 
dou  em  cõsselho  a  quaaes  quer  q  tem  stado  de  caual- 
Jaria  fore    E  aoutros  aque  cõueher  esto,  q  se  trabalhe 
dessaberem  esta  manha  bê,   e  ajam  delia  boa  husança 
segundo   acadahuú   perteecer,   ca   poito   que   de  todo 
nuca   aos   q  abem  sabem  e  ryjas  uõotades  teuerê ,  em 
quanto   aforça   muyto   nom   desfallece  amyngua  do  ra- 
zoado custume  trazem  ella  e  todas  outras  grande  falli- 
cimêto. 

Acabasse  a  qiiynta  parte  E  começasse  assexta  da  ens- 
synãça  do  bem  feryr  das  sporas  e  queiandas  deuem 
seer.  E  como  cO  paao  ou  uara  alguas  uezes  as  bes- 
tas se  deuê  gouernar. 

Por  que  arrazom  e  uõotade  requere  cadahuil  trazer 
aperfeiçom  oque  bê  começa  se  per  contrairos  razoados 
nõ  he  toruado  Porê  deos  querendo  continuarey  esta 
leytura  em  q  passa  de  quatro  anos  pouco  screuy  com 
oproposito  e  têeçom  no  começo  scripta ,  spedyndome 
delia  mais  breuemête,  ca  por  os  grandes  cuydados  que 
se  me  recrecerõ,  depois  que  pella  graça  de  deos  fuy 
feito  rey,  poucos  têpos  me  ficam  pêra  poder  sobrello 
cuydar,  nê  screuer,  ca  outros  no  filho  seno  aquelles  q 
sem  toruamêto  dos  outros  grandes  feitos  de  q  som  en- 
carregado posso  bem  auer,  segundo  no  começo  ia  screuy 


f/o  ENSSYNANÇA 

E  g-uardando  aordem  começada  damaneira  deferyr  das 
sporas,   da   feiçom  delias,   e  como  as  bestas  com  uara 
ou  paao  se  deuem  alguâs  uezes  goucrnar  Em  este  bre- 
ue  capitullo  direy  alguãs  ensynãças,   e  declarando  os 
failicimêtos ,  mostrarei  aboa  maneira  q  em  ello  se  de- 
lie  teer  com  outros  auisametos  speciaaes  q  peraalguús 
lêpos   sõ    proueitosos    No  feryr  das  sporas  fallecê  per 
sobegidoôe,  e   mynguamêto   no  guardando  tèpos ,   ou 
maneira  razoada.  Essobeiando  fallecê  se  abesta  uay  de 
passo,    per   pouco   saber,    e  maao  custume,  q  alguíis 
teê  sêpre   as   uaão   feryndo  fazendo  peteiras   Esse  per 
sua  condyçom  sõ  dormentes  e  preguiçosas  per  tal  gei- 
to   se   acrecêta   mais,    por  q  as  cousas  rouyto  husadas 
nõ  fazem  tanto  sêtimêto    Em  correr  esso  medes  êpee- 
ce ,  se  ocauallo  he  custumado  danteparar  per  ogrande 
aficamento   delias   muyto  se   acrecentara   ê  tal  manha 
Esse  he  folloa ,  per  tal  custume  mais  o  será    Efazendo 
grande  curruda,  nom  ha  cousa  que  moor  empeecimêto 
traga,   q   ossobeio  feryr  das  sporas,   ca  huíl  cauallo  a- 
bastante   pêra   correr   huã  legoa  em  razoada  maneira, 
seêdo  têperadamete  ferydo,  per  ossobeio  aficauíêto  em 
huíi  tiro  debeesta  afaram  stancar.  E  per  mujto  e  maao 
feryr  das  sporas  perdem  ho  adereço ,   e  se  fazem  mal 
enfreadas   e  dam  aasseda   Etodos  estes  malles  uêe  aa- 
besta  do  sobeio  ferir  delias,  e  ao  q  uay  ê  ella  despra- 
zer, perigoo ,  empacho,  cassaco  e  mal  parecer,  cada- 
huã  das  principaaes  cousas  por  q  os  boos  caualgadores 
som  conhecidos,  assy  he  obem  feryr  das  sporas  segun- 
do ê   cada   têpo  se  requere ,   porê  quando  se  faz  mais 
do  q  deue ,   os  q   boos  caualgadores  som  julgãno  por 
myngua  e  faz  nõ  parecer  bem  por  q  oassessego  he  huâ 
das  cousas   q   na   besta  bem  parece,   como  ia  screuy. 
E  o  sobeio  feryr  das  sporas  faz  desassessegar  o  caual- 
gador,  e  assi  lhe  tira  huâ  grande  parte  do  bê  parecer. 
Por  mynguamêto  fallecê  alguns  cõ  receo  da  besta  se- 
gundo bem  se  demostra,  por  os  q  cõ  as  sporas  lhe  na 
Ousam  dar  talo  e  assy  como  deuem.  Outros  per  sobe- 


DE    nEM   CAUALGAR    TODA    SELA.  IH 

gldoõe  cia  uoontade  por  quererè  fenr  alg^uii  cousa  Jhe 
squeece  E  assy  cò  medo  por  Ibgirê  abaliõ  trigosaniete 
as  pernas  e  das  sporas  no  fero.    E  per  aqiiestes  exem- 
prós   se    pode   conhecer   como   per  mynguameto  falle- 
cem  em  esles  casos  e  outros  semelhãtes   E  quanto  ao 
têpo   por   q   se   nõ   pode   declarar  todo  em  q  fallecera 
por  obè  nõ  guardar,  declaro  estes,  nas  manhas  seguyn- 
tes   por  tal   q   do   conhecimêto   delles   pêra  outros  se 
possa  filhar  exèpro  Primeyro  quando  alguíis  justa,   lo- 
go quando  aballam  fere  ocauallo  das  sporas  e  assy  lhe 
&ã   por   toda  carreira  se  geito  tem  dandar  ryjo  ,   ou  el 
bem  nõ  anda,  e  quando  chegam  ate  dos  fícontros  per 
liuu  spaço   cessom   deo   feryr   E  por  el  setir  receo  da 
iiijnda   do  outro,    quando  he  acerca  e  das  sporas  o  nõ 
ferirê   ante   para   ou   se  desuya  E  desto  se  fará  o  con- 
trairo ,   se   como   êtrar   em   seu  hyr  nõ  lhe  derem  com 
ellas ,  e  ate  q  aos  encontros  chegue ,  ryio  em  maneira 
razoada  segundo  abesta  demandar  os  feryrê,  e  per  esta 
guisa   se  dessua  uõotade  ia  nõ  recear  dereitamète  fará 
sua  carreira  Segundo  he  do  jugar  das  canas,  e  remes» 
sar   qual   quer  cousa ,  por  q  na  maneira  semelhâte  al- 
guíis  aaprimeira  ferem  sobeio  suas  bestas,   e  ao  lacar 
fazê  tal  mostrança  desse  correger  cessando  de  as  feryr 
5   logo   as  fazem   ante   parar.  E  aquestes  assy   cõuem 
pouco  no  começo  ferillas,   e  âte  quedo  lace,   ryio  lhe 
dar  cõ  ellas,  e  laçar  logo  dessospeita  sem  deteer.  Ter- 
ceiro dos  que  amonte  andam  ,   q  custumam  feryr  com 
laça  so  braço    E  quando  som  acerca  teedo  teêçom  de 
chegar ,  as  sporas  lhes  nõ  lêbram  ,  se  de  tal  manha  têe 
pouca  husãça.  Eporê  he  necessário  seerê  lêbrados  de- 
lhas  chegar  mais  ryiamête  q  ante,  por  tal  que  sem  re- 
ceo faça   chegar  seu  cauallo  Quarto  he  em  saltar  sal- 
tos feitos   q   tal   maneira  quer   quando  ueher  ao  salto 
leixallo  uijr  asseu  prazer,  e  huil  pouco  ante  q  chegue, 
darlhe   cõ  ellas  ryiamête,   e  teersse  na  sella,   se  nouo 
apertameto  por  tal  q  nom  recee,  ou  antepare.  Quynto 
he  pêra  passar  per  âtre  gète  quando  ueher,  por  q  aa 


112  ENSSYNANÇA 

bestas  ofazê  deboa  uoonlacle,  JeíxalJas  uijr  sem  as  fe- 
ryr  cõ  eilas ,  e  ate  q  chegue  denouo  lyio  lhe  dar,  e 
assy  passara  m3lhor  q  per  outra  guisa  Tam  bem  he 
fallymêto  as  bestas  mu}to  aujuadas  cusíumar  aferyr 
ryio  e  aas  dormêtes,  ou  quando  cõprir  nõ  lhe  saber 
dar  com  ellas  Epera  mais  r^iamête  feryrê  he  grande 
auãtagem  trazer  os  pees  bem  firmes  nas  strebeiras , 
por  q  nom  teê  geeralmête  geito  nê  poder  de  lhe  dar 
com  ellas,  tam  bê  os  q  os  pees  nas  strebeiras  mal  tra- 
zem Eporê  aalê  das  outras  auãtagêes  pêra  esto  uai 
muyto  bê  firme  os  trazer  Per  aquestes  auysamentos  q 
screuo,  se  pode  ueer  como  cõuem  guardar  têpo  ao  fe- 
ryr  das  sporas,  e  q  cadahuu  perssy  cõssijre  oque  deue 
fazer,  e  pregunte  aos  que  uyr  queo  bem  sabe,  como 
he  bê  deferyr  seu  cauailo,  ca  sê  duuyda  esta  he  huâ 
das  partes  muy  necessária  ao  boo  caualgador,  saber 
guardar  tempos,  e  maneira  razoada  ao  feryr  delias, 
como  bem  se  demostra  nos  cauallos  cezilliaãos  q  com 
sua  ajuda  se  cõtornam  ,  porem  os  q  boos  caualgadores 
deseiõ  seer  deuem  saber  em  que  têpos  delias  se  aue- 
ram  dajudar.  Na  maneira  do  feryr  ha  erros,  no  aballar 
do  corpo,  das  pernas,  abr}  r  delias,  atrauessar  dos 
pees,  ferir  preto  das  cilhas ,  \õ^e  descoucertado ,  tar- 
dar, e  carregar  sobre  a  ferjda,  sobeio  an)eudar,  ou 
de  largo  spaço  Porê  guardandosse  destes  fallicimêtos, 
terrõ  boa  maneira  desta  guysa,  o  corpo  no  se  aballe, 
nê  as  pernas  seno  dos  giolhos  abaixo,  nõ  as  abrindo 
mais  do  q  se  trazem  E  dally  feiro  com  os  pees  derei- 
tos  ao  logo  da  besta,  no  muyto  preto,  nê  lõge  das  ci- 
lhas, sêpre  acerca  dhuu  logar,  atanto  que  der,  logo 
ligeiramête  leuãte  os  pees  asseu  logar,  ca  do  tardar 
faz  bullyr  ocabo ,  e  ante  parar  ocauallo ,  nê  ameude 
mujto  mas  per  razoado  spaço  feira  delias  como  ueera 
fazer  aos  boos  caualgadores,  ca  outro  côpasso  nõ  se 
pode  bê  dar  Esto  screuo  segundo  meu  custume  gee- 
ralmête fallando,  por  q  sey  q  alguus  mouros,  por  muy 
curto  caualgarê  trazem  ocalcanhar  alto  e  ferem  do  pee 


DE   BEM   CAUALGAR   TODA   SELA.  113 

atrauessado ,  e  ameude.  mais  que  nos,  e  os  jrlandeses 
por  nom  trazerê  strebeiras  nõ  guardam  nosso  custume 
no  feryr  das  sporas.  Eassy  cada  naçom  tem  seu  geito 
do  qual  nom  me  êbargo  por  q  eu  screuo  principaJmê- 
te  pêra  êssynar  meus  subdictos  antre  os  quaaes  esta 
^  declaro  me  parece  mais  aprouada  maneira. 

CapituUo  dafeiçô  das  sporas  e  como  com  iiara,  ou 
paao  as  bestas  alguâs  uezes  se  gouernam. 

lAI  a  feiçom  das  sporas  ha  muytas  deferenças,  ja  uy 
custumar  trazellas  dereitas  de  razoado  cõpasso,  e  cur- 
tas ,   tortas  pêra  ffido ,  depois  compridas  e  alguas  tor- 
tas pêra   riba    E  delias  derroda,   e  outras  de  cano   E 
todo   esto   me  pareceo  q  era  trazido  per  têeçoões  des- 
uayradas,   por  q   as   dereitas  de  razoada  jongura  pêra 
sellas  que  chamam  franceses  som  geeralmente  boas  pê- 
ra todas  bestas  e  têpo  decano  proueitosas,  e  as  de  ro- 
da segundo   nosso   custume   auydas  por  mais  fremosas 
e  seguras  peraas  bestas,  por  as  tãto  nom  ferirê,  ajnda 
q  com  ellas  se  teè  as  puas  lõgas  mais  se  aqueixem  ,  as 
uoltas  pêra  fundo  sõ  boas  pêra  cauallos  fazedores ,  por 
q  se   pode  as  pernas  mylhor  çarrar  e  ocauallo  nom  se 
fere  tanto,  as  lõgas  trazem  peraos  arneses  de  pernas, 
alguiis  q  com   outras   bê  nom  podem  ou  sabem  feryr, 
as  tortas   pêra  riba  pêra  dar  mais   sem    trabalho   aas 
bestas   pequenas  q   as  muyto  demande.  Per  pouco  sa- 
ber, e  conhecimêto,  alguus  as  trazem  sê  tempo,  e  sê 
razõ,  trazendo  sobre  boos  cauallos,  e  fazedores  as  com- 
pridas e  tortas  pêra  riba  que  he  todo  contrairo.  Eporê 
quem  poder  guarde  têpo  e  sua  feiçom  das  pernas  e  a- 
besta  queianda  he  Esse  mays  nõ  teuer  q  huãs  tragaas 
dereitas,  e  de  razoada  longura,  mais  de  curtas  e  puas 
pequenas   por  q  som   geeralmête  melhores   pêra  todo 
têpo,   e  qual  quer  besta.    As  gynetas  som  boas  curtas 
e  de  pua  pequena  e  grossa    E  todas  de  qual  quer  fei- 
çom deuem  seer  fortes ,  deferro  ,  gõços  ,  correas ,  q  no 

15 


]I4  ENSSYNANÇA 

pee  se   ponliâ  bem  justo,  e  q  afyuella  uenha  em  seu 
Jogar  pêra  bem  parecer  e  proueito,  por  q  no  tepo  que 
se  nom  pêssa  cõuem  ajudar  delias,  e  se  fracas  sõ  falle- 
eem ,  e  por  sa  rayngua  ueherõ  ia  grandes  falliciaiêtoSí 
porem  se  deuem  trazer  boas,  bê  feitas,  e  fortes,  e  de 
tal  feiçom ,   segundo  uir  cadahuíi  q  lhe  cõuem  pêra  as 
bestas   e   q   andar,   feiçõ  dessas  pernas,   e  oque  ouuer 
de   fazer    Énoni   cure   muyto  da  raudãça  dos  cuslumes 
por  q   nas   cousas   q  ai  nom  tee  por  fym,  senom  bem 
parecer  louuo  guardar  aopenyom   geeral  segundo  sua 
ydade ,  e  stado  decadahuij ,  mas  onde  se  deue  côssjjrar 
arredamêto  de   mal   e   boo  saber  da  proueitosa  manha 
assy  guardem  ocustume  que  nõ  façom  cousa  êpeeciuel 
e  perijgosa  como  agora  ueio,  por  husarem  sporas  lõgas 
mais  de  razom  ,   cauallos  boos  cõ  ellas  nõ  podem  bem 
caualgar,   e   acaça   quando  se  decem  trigosamête  por 
correr  de  pee  romperensse,   e  cayrem  detal  guisa  que 
he  grande  scarnho  deueer  aquém  desto  tê  boo  conhe- 
cymento,  porem  tal  custume  he  dengeitar,  e  trazellas, 
de  feiçom  razoadas,  como  dicto  he.  Com  paao  e  uara, 
êssynâ ,  ajuda ,  e  correm  as  bestas  em  têpos  desuayra- 
dos  dos  quaaes  poerey  alguns  exêpros ,   por  os  quaae^ 
nos  semelhantes  se   pode   filhar  cõsselho  e  auysamêto 
pêra  dello  se   aproueitar    Primeiro   he  do  êssynar  das 
bestas  nouamente  que  cõ  tallas  custumã  dar  seus  êssy- 
nos,  esto  se  faz  por  das  sporas  nõ  filhare  geyto  dante- 
parar  dar  ao  cabo  chuparsse  ou  nõ  correr  dereito,  por 
q  as  bestas  nouas  por  fcryr  delias  muytas  uezes  prouS 
alguâ  destas   mallicias.    E   trazê   as  tallas  ate  q  outro 
paao,  por  tal  q  do  sõo  delias  fdlie  temor  aallô  do  sen- 
tido   E  tá   bem   se   faz  por  nõ  filhare  desassessego  no 
rostro  cõ  temor  do  freo  por  q  cõ  ellas  mais  naturalmê- 
te  se  custumà  uoltar,   e  desuyar,   q  com  os  freos.   Se- 
gundo  depois   q   feitas  sõ  pêra  correr  as  parelhas  aalê 
das  sporas ,   com  uara  j)or  mais  correrê  as  fere  acrecê- 
tando  otemor  das   uarcãcadas  sobre  oferir  das  sporas^ 
eu  porem  nõ  muyto  louuarya  tal  custume  se  tã  husado 


E>E  CEM  CAUALGAR  TODA  SELA.  Í15 

no  fosse,  por  que  amyin  parece  razõ  se  huu  nauyo  se 
lorua  de  seu  andar  por  se  mouerc  em  el .  e  pêra  mais 
synglar  todos  assessegã,  q  pêra  mylhor  correr  abesta^ 
oassessego  fará  grande  uãtagê  das  sporas  sollamête, 
bem  oferyndo ,  mais  pois  tãto  se  custuma  tenhamos  q 
pêra  mais  correr  do  ferjr  danara  recebe  algua  ajuda, 
se  do  corpo  pouco  se  aballarè.  Terceiro  quando  prouâ 
per  mallicia  demorder  tirar  ao  seestro,  reuelar,  cõ 
paao  ê  parte  se  correge,  como  adiáte,  deos  querendo, 
se  dirá,  quando  fallar  das  mallicias  das  bestas  Quarto 
ao  têpo  da  necessidade  por  quebrar  do  freo,  barbelia, 
ou  se  desbocar  mujtas  uezes  cõ  paao  se  liurã  de  gran- 
des perigoos  dandoJhe  no  rostro ,  e  fazello  uoltar  con- 
tra alguã  parede,  ou  tal  Jogar  em  q  per  força  se  te- 
nha. Esseo  no  acharê  contra  outeiro  per  q  se  casse 
por  aficamêto  das  sporas,  ou  se  desuij  dalguns  perij» 
gosos  logares  E  còssijrados  estes  proueitos  que  se  re- 
cebem em  taaes  tèpos  boo  he  quem  andar  a  cauallo 
custumar  detrazer  paao ,  ou  uara  na  niaâo  por  tal  que 
quando  comprir  se  possa  delles  aproueitar  E  assy  faço 
breuemête  fym  desta  sexta  parte  do  ferir  das  sporas, 
paao ,  ou  uara. 

Acabasse  assexta  parte,  e  começasse  asseitema  dalguâ 
êssynãça  pêra  dos  perigoos ,  e  cajoões  q  acauallo 
acontece,  nos  podermos  com  agraça  de  deos  guar- 
dar. 

Em  aquesta  seitema  parte  damaneira  como  dos 
perigoos  e  cajooès  q  por  myngua  de  bê  saber  caual- 
gar ,  e  auisarsse  dos  q  de  cauallo  muytos  cajoã  Entê- 
do  screuer  aquelles  auisamentos  q  me  bos  parece  pêra 
de  gram  parte  delles  seerê  guardados  Essaibhã  primei- 
ro que  todo  auysamêto  dos  homeês  nô  uai  cousa  q 
preste  se  per  graça  special  do  senhor  deos  nõ  for  aju- 
dado, Ca  scripto  he  nõ  aquel  q  pranta,  nê  que  rega, 
mas  ossenhor  deos  da  todo  boo  cõprimêto   Porê  nom 

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3]6  llNSsYNANÇA 

pêsso   nê  outrê  queira  êtender  q  presumo  meus  auisa- 
mêtos  seerê  ahastates  pêra  guardar  seguramente  deto- 
do   mal  e  cajom  ,    mas  segundo  aquel  dicto   Seguarda- 
res  em  teus  feitos  razô  e  mesura  nuca,   ou  tarde  acu- 
saras  uêtura,   pareceme  bê   dar   estes   côsselhos  pêra 
cadahuú  delles  proueitosamête  se  poder  ajudar  E  nos 
ê   esto  e  todas  outras  cousas  ueemos  per  ordenãça  de- 
nosso  senhor,  menos  padecer  os  q  se  dos  perijgoos  sa- 
be como  deuê  guardar    Porê  entendo  q  pêra  esto  será 
proueitoso  saberem   meus  auysamêtos  por  oque  tenho 
desta  sciêcia  bê  praticado,  e  per  razõ  conheci  desque 
pêssey  delia  screuer.    He   dessaber  q  per  estas  ciquo 
geeraaes   partes  faliecemos  em   myngua   denos  saber- 
mos dos  cajooês  auisar.  Primeira  por  na  besta  mal  nos 
sabermos  teer,  e  cayndo  delia,  nos  cajoarmos   Segun- 
da por  nõ  seermos  auisados ,  ou  auermos  lêbrãça  pêra 
fazer  correger  todos  guarnymêtos  do  cauallo,  e  nossos 
seguramête.  Terceira  por  manqueira,   doêça,   fraque- 
za, cassaco,  maao  geito,  ou  mal  trazer  da  besta  Quar- 
ta ,   por  nos  dos  perigoos  nõ  sabermos  guardar  ante  q 
aelles   uenhamos    Quita   por  nõ  sabermos  remediar  al- 
guns  des   q  somos  ia  ê  seu  começo ,   dos  quaaes  os  q 
obê  sabem  fazer,    per  graça  do  senhor,   cõ  boo  auisa- 
mêto  se  saluam  Edeclarando  todo  esto,   pêsso  q  pêra 
alguus  darey  boos  auisamêtos.    E  aos  q  muyto  sabe 
lêbrarei  oq  ia  teê  praticado  E  quanto  ao  primeiro  pê- 
ra  saber   como  se  deuê  guardar  de  cayr  da  besta,   re- 
corrâsse  aaprimeira  parte  deste  liuro,  onde  se  mostram 
niuytas   êssynãças,    pêra  fortemête  saberem  cauaígar, 
por   q  ally  acharom  oque  me  pareceo  mais  proueitoso 
pêra  em  ella  fortemête  se  teer.  Do  segundo  q  perteê- 
ce   ao   corregimêto  nosso  e  da  besta    Em  adicta  parte 
tã  bem  he  dello  scripto,   mas  conhecendo  q  pêra  esto 
muyto   pode  alguãs  cousas  delias  aproueitar  mais  de- 
claradamête  outra  uez  aquy  me  praz  deas  screuer,   as 
quaaes  sõ  estas   Do  freo  seiã  auisados  q  as  correas  das 
cabeçadas,  e  rédeas  seiã  bê  fortes,  e  assy  os  gõçoSp,e 


DE   BEM   CAUALGAR   TODA  SELA.  117 

pregamêto ,  detal  guysa  q  per  seu  fall}'nielo  cajom  nô 
possa  receber,  nè  seia  posto  alto,  ou  baixo,  e  abar- 
bella  ãde  como  cõpre  desse  trazer ,  por  cuja  m}  ngna , 
luuytos  cauallos  se  desefreã  e  seus  donos  recebem 
grandes  cajooes.  Assella  seia  deboa  feiçom  segundo 
oquesse  e  ella  deue  fazer,  por  q  alguas  uezes  custuma 
receber  cajõ  por  seer  mal  feita  dos  arçoòes  ou  aperta- 
da dosseio  As  cilhas  deuê  seer  prouistas,  forles  e  bem 
corregidas  As  strebeiras  no  tâto  apertadas  que  opee 
delias  nõ  possa  sayr,  nê  assy  largas  q  per  ellas  passe, 
ou  faça  fraco  caualgar,  e  nô  se  tragam  compridas  fora 
derrazoni  por  muytos  perigoos  q  delias  se  recrecem 
como  aesperiècia  be  enssyna,  ajnda  q  per  fantesia,  e 
Jiõ  boo  custume  muytos  assy  as  traga.  As  sporas  seio 
derrazoada  lôgura,  guardando  que  se  no  prenda  em 
látego,  ou  funda  por  sua  cõpridõoe ,  e  grandeza  das 
rodas  Dos  trajos  em  tèpo  que  cõprir,  no  se  peie,  por 
que  ia  delles  alguíis  acaioarõ  E  assy  per  aquestes  aui- 
samêtos  q  screuo  cadahuíi  em  semelhates  se  pode  ani- 
sar, no  q  ael ,  e  assua  besta  pertêecer  Da  terceira 
parte,  como  nos  deuemos  auisar,  damanqueira,  doê- 
^a,  fraqueza,  cassaco,  maao  geito,  ou  mallicias  da- 
besta,  daquesto  filhe  desuairados  auisarnêtos  geeraaes, 
mas  os  senhores  e  outros  queo  bem  podem  fazer,  scu- 
sem  as  semelhates  E  os  que  outras  no  têe  corram  ,  e 
ande  em  ellas  cõ  grande  reguardo ,  segundo  sentirê 
seus  faJieimêtos  Conssijrando  per  onde  uãao  e  oque 
sobre  taaes  bestas  lhes  côuem ,  ou  querem  fazer,  aui- 
sandosse  damaão  das  rédeas,  e  das  sporas,  por  cuja 
declaraçom  ponho  estes  exêpros,  por  os  quaaes  outros 
auisamentos  se  pode  consijrar.  Nas  bestas  macas  dos 
peitos,  braços,  mãaos ,  e  das  q  per  cassaco  carregam 
sobre  os  freos  ,  q  se  encalçam  nos  neruos  ,  ou  nas 
maãos  se  roçam  dessobpees,  terras  ryjas ,  e  depedras 
posto  que  dellama  seiom  ,  mais  spicialmente  se  deuem 
guardar.  Das  que  som  carregadas  diâte ,  andam  baixo 
das  maaos  e  os  braços  per  manqueiras,  ou  maao  ge^to. 


1  18         liNSSYNANÇA  DK  BKM  CAUALGAR  TODA  SELA. 

mal  deseuoluem,  decorrerem  per  mato  espesso  e  peia* 
do,  per  lama,  augua,  ou  eruaçal,  muylo  deuem  seer 
auysados  Nas  mancas  das  pernas,  defraco  lombo,  que 
assella  filhem  e  que  seiam  doêtes  de  polmeira,  fracas, 
ou  cansadas,  ou  que  as  cilhas  corram,  as  hereitas  se 
guardem ,  ca  per  sua  fraqueza  pode  asseu  dono  mais 
empeecer,  ou  fazer  empacho  Nas  que  se  roçam  nas 
pernas,  foi  loas ,  spantadyças,  e  sobeio  aguçosas  per 
ladeiras,  camynhos  streitos,  e  de  apertados  passos, 
mais  se  auysem.  E  dos  q  as  maâos  cruzom  desatenta- 
do,  e  sandyamête  correm,  ou  muyto  sam  mancas,  em 
todo  logar  se  auisem  delias,  ca  todos  lhes  som  perij- 
gosos  Das  mallicias  das  bestas  em  todo  lugar  e  tem- 
po côuem  guardar  como  adiante  deos  querendo  dyrey, 
quando  seu  têpo  uyer,  spicialmête  nos  mais  perijgosos, 
ou  de  uergonha  Nas  mullas  per  lama,  augua,  ryia,  ou 
alta,  mais  se  auysem.  De  bestas  ciosas  muyto  se  per- 
cebam por  que  nilca  lhe  fallece  contra  quem  ,  e  por  q 
prouem  suas  mallicias.  Nas  q  bem  nom  uêe,  mal  en- 
freadas ,  e  muyto  auyuadas  nos  lugares  spessos  daruo- 
res,  desteiros ,  de  barrocas,  algares,  morouços  depe- 
dras,  e  detrouooês  se  deuem  mais  guardar,  por  q  nas 
semelhantes  detaaes  perigoos  senom  podem  bera  arre- 
dar Nas  que  correm  homato  saltando  sobre  as  maâos 
carregadas  diante,  e  que  carreguem  sobre  os  freos,  e 
das  fracas  dos  braços,  de  legares  de  couas  de  coelhos, 
e  muyto  molhadas,  charnecas  mais  seguardem. 

Deo  gracias 


Acabado  de  copiar  hoje  3  de  Junho  1830 
Paris.  Bibliotheca  do  Rei. 


LEAL 

CONSELHEIRO, 

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ENSYNANÇA 

DE  BEM 
CA VALO AR. 


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